PÁGINAS

sábado, março 28

ESCOLAS E SEUS PATRONOS – U.M.E. MONSENHOR LYRA

 

Por Etevaldo Amorim


A Unidade Municipal de Ensino Mons. Lyra, em Lagoa de Pedra.


A Unidade Municipal de Ensino do povoado Lagoa de Pedra foi fundada em 28 de fevereiro de 1968, na gestão do prefeito Augusto Machado, segundo informações do seu diretor Prof. Gildácio Silva Pinto, complementada pelo escritor Marcelo Maciel. Desde então, tem formado inúmeras gerações de meninos e meninas, muitos dos quais alcançaram destacadas posições na sociedade.


Em julho de 2023, sob a gestão do prefeito Jorge Dantas, a escola passou por uma grande reforma, e agora conta com seis salas de aula, uma secretaria, sala de recursos, almoxarifado, cozinha, lavanderia, quatro banheiros, pátio aberto e pátio coberto.


Atualmente tem 190 alunos matriculados, oriundos do próprio povoado de Lagoa de Pedra e de outras localidades circunvizinhas: Entroncamento, Tupã, Quibanzê, Serrinha, Serraria e Assentamento Marí.


O Corpo Funcional é composto ainda por Vivianne de Oliveira Pinto (Coordenação); Silvaneide da Cruz Feitosa (Articulação) e as Assistentes Administrativas Izadora Lisboa da Rocha e Izabela de Campos Alcântara.


Na Creche, a professora Gislane Silva Pinto; no Pré-Escolar I, Zilvaneide Vieira da Silva; no Pré-Escolar II, Jéssica Ferreira Lisboa.


No 1º Ano, Eliane Oliveira Pinto; 2º Ano, Mayara de Alcântara; 3º Ano, Barbara Mariana de Alcântara; 4º Ano, Raquel da Silva Sampaio; 5º Ano, Cléssia Souza da Cruz Rodrigues.


No EJA (Educação de Jovens e Adultos), Solange Alves da Silva e Zilvaneide Vieira da Silva.


Completam o Quadro os professores: Silvestre da Rocha Lyra e Wemerson Gouveia Oliveira; os Cuidadores: André Rocha Sampaio, Gleize Cristina Souza Nunes, Hemylle Isabele Alcântara, Joseilma de Oliveira, Renan Farias dos Santos; os agentes do PMAC[i]: Delane Farias Santos Silva, Jaqueline Souza da Silva, Rejane Alcântara Lira Santos e Willian Lisboa da Silva; as Auxiliares de Sala: Hannely Oliveira do Nascimento, Ingrid Lisboa da Rocha e Samara Ferreira da Silva; os Vigias Lídio Simões de Oliveira Filho, Renan Santos Oliveira e Gabriel da Rocha Amaral; as Cozinheiras Rafaela Farias Santos e Lívia da Silva Oliveira; e os Auxiliares de Serviços Gerais: Jandeccly Antônio Bezerra, Victor Manoel Costa Farias.


A Escola antes da reforma de 2023. Foto: arquivo da U. M. E.



Placa alusiva à reforma empreendida em 2023.

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O PATRONO


O Cônego Fernando Lyra.

Fernando Alves da Rocha Lyra. Segundo Aldemar de Mendonça, nasceu no povoado Lagoa de Pedra, município de Pão de Açúcar, onde ainda residem muitos dos membros da família Lira.


Segundo muitas fontes, nasceu no dia 29 de maio de 1886[ii]. Segundo outras, teria nascido em 30 de maio.


Filho do casal Higino da Rocha Lyra e Francisca Cavalcanti Alves, tinha como avós paternos: José da Rocha Lyra e Francisca das Chagas de Jesus; e, maternos: Antônio Luiz Vieira Rego Alves e Genoveva Cavalcanti.


Seu pai era “Solicitador” - profissional do Direito que atuava como intermediário entre a parte (o cliente) e o tribunal ou o advogado- atuando em Penedo, onde residia[iii], e em outras comarcas do baixo São Francisco. Por vezes, atuava também como advogado, embora não tivesse formação jurídica.


CARREIRA ECLESIÁSTICA


Em 1903, aos 17 anos, ele ingressou no Seminário Diocesano de Maceió,[iv] cumprindo plenamente os requisitos para o início da sua carreira. No dia 20 de novembro de 1905, em solenidade realizada na Catedral Metropolitana de Maceió, recebeu a prima tonsura[v], executada pelo Bispo Diocesano Dom Antônio Brandão, tendo como diáconos assistentes o Cônego Octávio Costa (pão-de-açucarense) e o presbítero Mons. Silva Lessa. Foram diáconos da missa os presbíteros José Omena e José Pimentel, que viriam a ser vigário e coadjutor da Paróquia de Pão de Açúcar, respectivamente. O subdiácono recém-ordenado Achilles Mello (também pão-de-açucarense) cantou a Epístola da missa.


No dia 8 de dezembro de 1909, em missa celebrada às 9 horas da manhã, na Catedral Metropolitana, o Bispo Dom Antônio Brandão conferiu a ordem de presbítero aos diáconos Antônio Tobias da Costa e Fernando da Rocha Lyra[vi].[vii]


Assim, devidamente ordenado, o jovem clérigo celebrou a primeira missa na igreja de Nossa Senhora do Livramento no dia 10 daquele mês e ano.[viii]


Em junho de 1911, o bispo Dom Manoel Antônio de Oliveira Lopes - que houvera tomado posse em 13 de março de 1911, sucedendo Dom Antônio Brandão – o nomeou para dirigir a paróquia de Nossa Senhora Mãe do Povo, em Jaraguá. Sucedia, assim, o seu conterrâneo Pe. José Soares Pinto, que ali pontificara entre 1909 e 1910.[ix] Permaneceu no cargo até 1935, quando foi sucedido pelo Pe. Antônio Monteiro.


O bispo Dom Manoel Lopes, que nomeou  o Pe. Fernando Lyra para a paróquia de Jaraguá.


Foi durante a sua passagem pela paróquia de Nossa Senhora Mãe do Povo, que foi construída a nova matriz de Jaraguá, cujas obras atravessaram anos e contou com a colaboração de diversos setores da sociedade. Registre-se que, em maio de 1917, a pedido do Cônego, o governador Baptista Accioly mandou pagar 4 contos de réis dos 8.500 que a matriz de Jaraguá tinha depositado no Tesouro Estadual, prometendo pagar o resto em duas prestações nos meses de junho e julho próximos.[x] Mais tarde, em 1921, o Intendente de Maceió, Firmino de Vasconcellos, foi autorizado por Lei a entregar 1 conto de réis ao Padre Fernando Lyra para auxiliar nas obras da igreja de Jaraguá.[xi]


A nova Matriz se fez sobre a primeira capela, cuja construção se iniciou no ano de 1820, em homenagem a Nossa Senhora Mãe do Povo e concluída em 1º de agosto de 1827.[xii]


Por fim, no dia 29 de abril de 1923, foi solenemente inaugurada a nova matriz de Jaraguá. O ponto culminante foi a missa solene, iniciada às 9:30 h, celebrada pelo Cônego Antônio Tobias, com a participação do Padre José Soares Pinto, ex-vigário daquela paróquia.


A velha Matriz de Jaraguá ao tempo do Côneto Lyra. Foto O Malho, 27.03.1915.


A Matriz de N. S. Mãe do Povo nos dias atuais.


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Em agosto de 1918, foi ao Recife para receber o hábito da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo.[xiii]


No dia 24 de agosto de 1922, abençoou a jangada Independência, pouco antes da partida para a épica jornada até o Rio de Janeiro, como parte das solenidades de comemoração do centenário da independência do Brasil.[xiv]


Em 1931, chefiou uma delegação de peregrinos alagoanos que, a exemplo de tantas outra de todas as partes do país, foram ao Rio de Janeiro para a inauguração do monumento ao Cristo Redentor, sendo recebidos, no dia 9 de outubro, pelo Sr. Getúlio Vargas, Presidente da República.[xv]


Em 1933, enquanto secretário do Arcebispado, era diretor do jornal católico O SEMEADOR,[xvi] que tinha como Redator-Chefe Emilio de Maya, e como Diretor-Gerente o Cônego João Lessa.


Aliás, “O Semeador era um jornal de caráter católico e um dos canais de propagação dos pensamentos da Liga Eleitoral Católica – LEC[xvii], uma organização de caráter conservador e que mantinha ligações com o integralismo. O Cônego Lyra era, portanto, “lecista”: denominação dos adeptos da referida Liga.


Em 1937, era Presidente de Honra do Grêmio Ronald de Carvalho, fundado em 1936 pelos alunos do Colégio Diocesano.[xviii]Em 1938, foi nomeado Inspetor do Ensino Secundário no Estado de Alagoas.[xix]


Em 1945 o Cônego Lyra era capelão do colégio Arquidiocesano,[xx] e, em 1947, por Ato de 21 de maio, o governador Silvestre Péricles o nomeou Capitão-Capelão dos serviços religiosos da Polícia Militar do Estado de Alagoas.[xxi]


Cônego Fernando Alves da Rocha Lyra faleceu no dia 25 de abril de 1961, depois de mais de 50 anos dedicados ao sacerdócio, sendo a maior parte desse tempo à frente da Paróquia de Nossa Senhora Mãe do Povo, em Jaraguá, onde se tornou uma das figuras mais influentes da sociedade alagoana de sua época.

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Além de dar nome à escola do povoado Lagoa de Pedra, ele recebeu outra homenagem. No bairro do Trapiche da Barra, em Maceió, há uma rua que leva o seu nome, por força da Lei Municipal nº 1.825, de 30 de junho de 1971, assinada pelo Prefeito João Sampaio. Essa rua é paralela à Avenida Siqueira Campos, onde está localizado o Hospital Escola Hélvio Auto.

Com a designação de "Monsenhor Lyra", encontramos apenas uma menção, no jornal Gazeta de Alagoas, edição de 22 de setembro de 1950. Aliás, o termo monsenhor (do francês monseigneur, "meu senhor") é um título honorífico concedido pelo Papa a sacerdotes da Igreja Católica que se destacaram por serviços relevantes ou por sua dedicação à comunidade.


Mesa Diretora do Primeiro Congresso Médico de Alagoas. Ao centro, o Interventor Federal Cap. Affonso de Carvalho; à sua esquerda, o Dr. Orlando Araújo (prefeito de Maceió); o Cônego Fernando Lyra, Secretário do Arcebispado; Dr. Ezequias da Rocha, Diretor de Saúde Pública do Estado; e o Dr. José Maria Correia das Neves, Titular Interino da Secretaria Geral do Estado. À direita do Interventor, os médicos José Carneiro, Sebastião da Hora e Abelardo Duarte. Foto: Revista da Semana, RJ, 22 de julho de 1933, capturada do site História de Alagoas.


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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] PMAC – Programa Municipal de Agentes da Cidadania. O programa tem o objetivo de incentivar a participação social e o protagonismo juvenil ou comunitário. O programa recruta moradores para atuar como agentes de transformação em suas comunidades, recebendo em troca uma bolsa-auxílio.

[ii] Gazeta de Alagoas, Maceió-AL, 29 de maio de 1934.

[iii] Sua residência em Penedo foi onde nasceu o General Gabino Besouro. Fonte: Diário do Povo, Maceió-AL, reproduzindo matéria de A Semana, jornal penedense, de propriedade de Joaquim Mazoni.

[iv] A Fé Cristã, Penedo-AL, 28 de novembro de 1903.

[v] A “prima tonsura” era o rito litúrgico e a cerimônia inicial na Igreja Católica que marcava o ingresso no estado clerical, onde o bispo cortava simbolicamente uma parte do cabelo do ordinando, criando uma coroa. Representava a renúncia às vaidades do mundo e a conformidade com Cristo. Em 15 de agosto de 1972, o Papa Paulo VI, através do documento Motu proprio Ministeria quaedam, suprimiu a prima tonsura na Igreja de rito romano.

[vi] Evolucionista, Maceió-AL, 20 de novembro de 1905.

[vii] Jornal Gutenberg, Maceió-AL, 8 de dezembro de 1909.

[viii] Jornal Gutenberg, Maceió-AL, 10 de dezembro de 1909.

[ix] Jornal Gutenbert, Maceió-al, 7 de junho de 1911.

[x] Jornal do Comércio, RJ, 24 de maio de 1917.

[xi] Jornal do Recife, 9 de junho de 1921.

[xii] A Paróquia de Jaraguá e suas matrizes culturais. Disponível em: PARÓQUIA MÃE DO POVO.

https://paroquiamaedopovo.wixsite.com/website/contact.

[xiii] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 16 de agosto de 1918. A Ordem Terceira do Carmo (OTC), formalmente conhecida como Ordem Secular Carmelitana da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, é uma associação de fiéis leigos da Igreja Católica que buscam viver o carisma carmelita no cotidiano de suas vidas seculares.

[xiv] Jornal do Recife, 7 de setembro de 1922.

[xv] A CRUZ, RJ, 18 de outubro de 1931.

[xvi] Gazeta de Alagoas, Maceió-AL, 2 de março de 1935.

[xvii] NERI, Gustavo Nunes Costa. A AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA EM TERRAS ALAGOANAS – 1930  1937,  UFAL, 2014.

[xviii] Gazeta de Alagoas, Maceió-AL, 9 de abril de 1937.

[xix] Diário da Manhã, Recife-PE, 26 de fevereiro de 1938.

[xx] A CRUZ, RJ, 18 de fevereiro de 1945.

[xxi] Gazeta de Alagoas, Maceió-AL, 23 de maio de 1947.

sábado, março 21

CANGACEIROS EM LIMOEIRO

 

Por Etevaldo Amorim


A Vila Limoeiro, em 1981. Foto: Érico Abreu.


Não consta que Lampião e seu bando tenham estado em Limoeiro. Nem mesmo Pão de Açúcar, a sede do município, teve o desprazer de receber a visita do famigerado bandoleiro.


Entretanto, a pequena Vila não ficaria imune à presença de alguns dos seus asseclas, ainda que não se tenha registro de atos de maior gravidade, como agressões e atentados contra a vida de qualquer morador.


Há relatos de que, em data imprecisa, alguns cangaceiros chegaram a Limoeiro. Um deles teria se postado no final da Rua de Baixo, próximo à cancela da lagoa da igreja. Em meio à tensão provocada pela indesejável presença, uma pessoa gritou:


- Maria do Ouro!!!  


O nome do precioso metal chamou a atenção do bandido, que comentou com o comparsa:


- Essa mulher deve ser muito rica!! ...


Não era. Dona Maria do Ouro possuía poucos bens, a exemplo da maioria dos que ali viviam. “Maria do Ouro” era apenas um apelido dado, pelos motivos que ignoro, a Maria Umbiliana Rocha Lisboa[i].


Essa ocorrência seria, talvez, aquela a que se refere uma reportagem do jornal Gazeta de Alagoas, de 26 de novembro de 1935. No dia 15 de novembro daquele ano, uma sexta-feira, um grupo chefiado por Mariano visitou a Vila Limoeiro.


O jornal dá essa notícia e publica uma carta recebida de uma moradora do local, datada de 19, em que relata detalhes da abordagem de que foram vítimas alguns habitantes da famosa Vila. Diz a missivista:

 

“Às 7 ½ horas fui atacada por um grupo de bandidos composto de seis bandoleiros, chefiados por Mariano.


Estando eu na porta com mamãe, os vi entrarem no povoado já trazendo à frente Inocêncio, e como este é Comissário, julguei que fossem soldados. Três apearam e entraram em sua residência enquanto os outros vieram para nossa casa.


Felizmente, tive presença de espírito e, com toda calma, disse-lhes que não morava aqui. Estava apenas passando uma temporada e que não tinha dinheiro. Como eles insistissem, convidei-os a ir à minha mala e entreguei-lhes a minha bolsa e a de mamãe.


Em virtude de só encontrarem moedas de 1$000, 2$000 e níqueis, disseram que não servia. Queriam era dinheiro de papel. Felizmente se conformaram, levando apenas o que encontraram e mais um relógio que me tinha custado 70$000.


Achei-os sem tática e compreendi que estavam com medo porque pediam-me para falar baixo. Passaram seguramente, no povoado, umas duas horas.


Prenderam um homem aqui em casa para dar um conto de réis ou a vida. Felizmente, a pedido de Inocêncio, soltaram-no. Inocêncio ainda mandou buscar em Belo Monte 650$000, obrigado por eles. Só descansamos depois que tomaram uma canoa e seguiram para o Araticu (Sergipe) [ii].


Dentro de duas horas chegou o Juca (é irmão da missivista) com uma Força de Pão de Açúcar, que já não os encontrou.


São uns tipos feios, cabelos caídos nos ombros, imundos, cheios de enfeites e ignorantes ao extremo. Parece que nunca tiveram convivência com gente nem mesmo antes de entrarem no grupo.”


***   ***


Limoeiro, em 1981. Casa de Seu Juca. Foto: Érico Abreu.


COMENTÁRIOS.


Infelizmente, não há indicação da autoria da carta. Entretanto, como está dito que era irmã de “Juca”, pode-se depreender ao menos de que família se trata.


Àquela época, só havia um "Juca" em Limoeiro. Embora não se saiba o seu nome verdadeiro, sendo Juca, era filho de Manoel Rodrigues Lima e Maria Vitória de Jesus (esta irmã da minha avó paterna Isabel da Rocha Amorim, a quem meu pai chamava “tia Doninha”).


Entre os filhos do casal Manoel e Maria Vitória, três mulheres: Alexandrina (Zinzinha), Noêmia e Maria José (Sinhá) - uma delas seria a autora da carta; e os homens Manoel, Jugurta, João, José e Eloy Rodrigues lima ("Juca" seria Manoel ou Jugurta).


Juca foi casado com dona Conceição, distinta senhora, que eu ainda conheci ministrando o catecismo para as crianças, na simpática igrejinha da Vila. Moravam na casa de esquina da “rua do Meio”[iii] com a descida para o porto de cima. Sou levado a crer que a autora da carta se referia justamente a esta casa, de onde se avista a casa de “seu Inocêncio”, a quinta a partir da esquina oposta.


Quanto a Inocêncio, o “Comissário”, trata-se de do Sr. Inocêncio Soares Vieira[iv], casado com Maria Otília dos Anjos (irmã de seu Ronalço dos Anjos), pais de Maria dos Anjos e do Dr. Pedro Soares Vieira, competente advogado estabelecido em Brasília e falecido em 2017.

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O cangaceiro Mariano, cujo nome completo era Mariano Laurindo Granja, nasceu em Afogados da Ingazeira, Estado de Pernambuco no ano de 1898.


Antes de completar um ano da sua passagem por Limoeiro, segundo Aldemar de Mendonça, Mariano, juntamente com os comparsas “Pai Véio” e “Pavão”, foram mortos pela volante chefiada pelo Tenente José Rufino, no lugar Cangaleixo, município de Gararu, Estado de Sergipe, tendo os corpos sido sepultados no cemitério de Pão de Açúcar, no dia 27 de outubro de 1936.


A Gazeta de Alagoas diz que foram mortos Mariano, Pai Véio e Zeppelin. E que, por ordem do Tenente Zé Rufino, as cabeças foram decepadas. Presume-se, portanto, que só as cabeças teriam sido sepultadas no cemitério de Pão de Açúcar.

 

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Legenda da foto: Lampião e seu bando na Fazenda Jaramataia, Canhoba-SE. Da esquerda pra a direita: De pé: Mariano; Ezequiel, vulgo“Ponto Fino”; Calais; Fortaleza; Mourão;  e Volta Seca. Sentados: Lampião; Virgínio, vulgo “Moderno”; Zé Baiano; e Arvoredo. 27/11/1929. Foto: Eronides de Carvalho. Fonte: Cangaço Eterno. Youtube.


 

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Maria Umbiliana Rocha Lisboa (1895-1980), filha de João Manoel da Rocha e Ana Rosa Rocha. Foi a segunda esposa do Sr. Felinto Aragão Lisboa, com quem teve os filhos: Lauro, Lienarde e Leonor. Do primeiro casamento, com Leopoldina Fernandes de Melo, seu Felinto teve os filhos Danúbio e Lindolfo Lisboa (padre, natural de Limoeiro, falecido em 15 de setembro de 2024). Veja: https://blogdoetevaldo.blogspot.com/2024/11/personalidades-pao-de-acucarenses_30.html

 

[ii] Araticu. Trata-se da Fazenda Araticum, de propriedade de membros da Família Tavares, atualmente de herdeiros do Sr. Elpídio Emídio dos Santos.

[iii] Rua do Meio, pois denominada Jayme Silva, por Decreto Legislativo de iniciativa do vereador Cliuton Santos.

[iv] Inocêncio Soares Vieira, filho de Pedro Soares Vieira e Maria Custódia Bezerra Vieira.

sábado, março 14

TRAGÉDIA EM LIMOEIRO – 90 ANOS

 

Por Etevaldo Amorim


Mário Soares Vieira

Era sábado, 25 de janeiro de 1936; véspera da festa de Jesus, Maria e José, padroeiros da Vila Limoeiro. Tradicionalmente celebrada na última semana do primeiro mês do ano, era e continua sendo ensejadora de grandes alegrias, particularmente pelo encontro com os limoeirenses que vivem fora. 


As ruas cheias de gente, crianças brincando no “cúrri” ou na “onda[i]; as bancas de jogos, os leilões na calçada da igreja; a banda de pífanos e as orquestras vindas de Pão de Açúcar ou de Traipu; o pastoril, com seus cordões “azul” e “encarnado”, e a “Diana” neutra, imparcial, como ela própria se declara: “Sou a Diana, não tenho partido / O meu partido são os dois cordões."


Era esse o ambiente naquele dia. Mas, eis que se dirige a Limoeiro o cabo Vicente Honório, da Força Policial do Estado, comandante do destacamento de Belo Monte. Ao chegar, entrega suas armas e as dos soldados que o acompanhavam a um outro cabo, que já se encontrava ali, mobilizado no combate ao banditismo.


Verificando que havia uma dança familiar, o cabo Honório para lá se dirige com o firme propósito de dançar, mas não consegue um convite. Era uma casa na chamada “Rua de Baixo”, onde seria, muitos anos depois, a residência de seu Agnelo e dona Cecília.


A casa onde se realizava a "dança familiar". Foto: Érico Abreu, 1981.


Contrariado em suas pretensões, vai até a casa do Sr. Inocêncio Soares Vieira, que exercia o cargo de subdelegado, em cuja calçada se encontravam - além do próprio Sr. Inocêncio - o cabo comandante da força em combate ao cangaceirismo e o Sr. Mário Soares Vieira, que há poucos minutos havia chegado de uma viagem ao povoado São José da Tapera.

Mostrando-se extremamente irritado e já meio embriagado, o cabo Honório começou a proferir palavras injuriosas contra as famílias e a sociedade de Limoeiro. Seu Inocêncio tentou aconselhá-lo, pedindo-lhe que esquecesse o ocorrido. Mas, ainda assim, a despeito das repetidas solicitações, o cabo Honório não se conformou. O Sr. Mário também o adverte, lembrando-o que “sendo ele um militar, devia respeitar a população.”

Foi então que, dizendo que ia regressar para Belo Monte, pede as armas ao seu colega, comandante da Volante. Achando-se armado, e sem levar em conta a aglomeração, o cabo Honório saca o fuzil e desfecha vários tiros. Uma bala atinge o braço esquerdo do Sr. Mário Vieira e o crânio de um menino de 13 anos, Jonas, filho do Sr. João Amorim, que morreu instantaneamente. Em seguida, ouvem-se outras detonações, sendo que uma delas atingiu o nariz do Sr. Mário Vieira.

Segundo a reportagem da Gazeta de Alagoas, de 31 de janeiro de 1936, duas outras pessoas foram atingidas pelos disparos, com alguma gravidade. Uma delas, um rapaz, levado também para Penedo, teve parte do braço amputado, passando a ser conhecido, em razão disso, pelo apelido de “Zé Bracinho”.

Quanto ao Sr. Mário, segundo Aldemar de Mendonça, foi levado inicialmente para Pão de Açúcar. Faltando ali os recursos médicos necessários, o prefeito José Alves Feitosa[ii], seu cunhado, o levou para Penedo, onde chegaram no dia 27, segunda-feira.

Na Santa Casa de Misericórdia, naquele mesmo dia, à tarde, procederam à amputação do seu braço esquerdo, que se achava gangrenado. Entretanto, às 21 horas, veio a falecer, não obstante os esforços empregados pelos doutores Amphrisio Ribeiro[iii], Oceano Carleial[iv] e o farmacêutico João Ramalho[v].

O sepultamento do Sr. Mário Soares Vieira realizou-se no dia 28, às 8 horas, em Penedo, “com grande acompanhamento de pessoas de sua amizade, porque ele era bastante relacionado”, conclui a reportagem.


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Mário Soares Vieira contava 33 anos de idade. De família grandemente conceituada, era filho do Capitão Pedro Soares Vieira e de dona Maria Custódia Bezerra Vieira. Tinha os irmãos: o padre Fernando Vieira (então vigário de Piaçacuçu e depois de Delmiro Gouveia); Inocêncio, Afonso, Alberto, Virgílio (pai de “seu Pedrito”) e Otávio (primeiro esposo de “dona Sinharinha Tavares”.

Era casado com Maria Feitosa Vieira, irmã do Sr. José Alves Feitosa. Desse consócio, deixou uma filhinha de 9 anos[vi].

Após a Revolução de 30, de 13 de abril de 1931 a 9 de junho de 1932, ocupou o cargo de Prefeito de Pão de Açúcar, onde era comerciante. Em 1935, chegou a ser nomeado Adjunto de Promotor Público na Comarca de Pão de Açúcar. Entretanto, em Ato seguinte, o governador Osman Loureiro tornou sem efeito a nomeação e o substituiu pelo Sr. Domingos Soares Pinto.[vii]

Fazia parte do Diretório do Partido Progressista de Alagoas[viii] e, em 1935, foi candidato à Câmara Municipal, não logrando ser eleito[ix].

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Quanto a Jonas, permita-me dar um tom pessoal a esta narrativa. O menino de 13 anos, ferido mortalmente, era filho de meu avô paterno, João Tavares Amorim.

Meu saudoso pai evitava falar desse episódio, porque se emocionava. Contou-me ele que seu pai, mesmo abatido pela perda do filho naquelas circunstâncias, foi, dois dias depois para a ilha, cuidar do sítio e lá encontrou pegadas do menino, com quem estivera no dia anterior ao triste acontecimento. Apanhou, então, alguns cacos de telha que havia perto, e com eles cobriu as marcas dos pés de Jonas, em tentativa desesperada de manter viva aquela lembrança dele. E, sempre que lá voltava, levantava os pedaços de telha para contemplar, chorando, os moldes de areia.

Com o tempo, aquelas marcas desapareceram. Ficaram, entretanto, as lembranças daquele episódio triste e revoltante. Enlutadas se acham, ainda hoje, as famílias de Mário e de Jonas.

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Voltemos ao Cabo.

Após o ato tresloucado e assassino, o cabo Honório saiu correndo em direção a Belo Monte, mas perseguido pelo comandante da Volante.  Ali chegando, foi detido, não se sabendo ao certo se pelo seu colega que o perseguia, ou pelo subdelegado dali, e levado imediatamente para a cadeia de Pão de Açúcar.

No dia 16 de fevereiro de 1936, domingo, um grupo de seis homens armados invade a cadeia pública de Pão de Açúcar, onde se achava preso o Cabo Vicente Honório, aguardando julgamento. O único soldado que a guarnecia, José Manoel da Costa, vulgo “Baraúna”, ainda ofereceu resistência, mas os invasores estavam em maior número e determinados a dar cabo da vida do criminoso.

Sobre esse episódio, Aldemar de Mendonça diz, em seu Pão de Açúcar, História e Efemérides: “A parte cômica, em toda a tragédia, é que, no momento em que a população se alarmava, supondo tratar-se de um ataque feito pelo grupo de Lampião, o subdelegado de Polícia, João Bahia, procura tranquilizar o povo dizendo: ‘Não é nada, minha gente, é que estão matando o Cabo na cadeia.’”

Coube ao suplente de delegado, em exercício, Sr. Severiano Almeida Fontes, enviar telegrama ao Governador do Estado, relatando todo o ocorrido. Osman Loureiro e Ernani Basto, Chefe de Polícia[x], encaminharam uma tropa, sob o comando do Aspirante Antônio Ferreira de Oliveira - nomeado delegado de Pão de Açúcar - com ordens especiais e reservadas para agir em torno da grave ocorrência.[xi]

Episódios como este mostram o quanto havia de semelhança entre as atitudes dos cangaceiros e as forças volantes; enquanto as populações assistiam, impotentes, àquele estado de coisas.

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Nota 1

 

Em que pese a reportagem indicar a calçada da casa de seu Inocêncio como sendo o local do assassinato de Mário e Jonas, lembro-me de ter ouvido de pessoas mais velhas o seguinte: quanto ao Jonas, ele estava na calçada de uma casa próxima, daquele mesmo lado. Já seu Mário, estaria defronte a uma casa no lado oposto da rua, junto à igreja. Nesse local, lá pelos finais da década de 1970, ainda se podia ver marcas das balas no portal da casa. (veja foto da Rua Mário Vieira)

Casa de Seu Inocêncio e dona Otília. Foto: Érico Abreu, 1981.

Casa onde teria sido atingido o Sr. Mário Vieira. Foto: Érico Abreu, 1981.

As imagens de Limoeiro são fotogramas do filme ALECRIM, POVO MARGINALIZADO, de Érico Melo Abreu, 1981.


Nota 2

 

O Sr. Mário Vieira[xii] deixou ainda outro filho (de relacionamento), Juarez Feitosa Vieira, que por muitos anos residiu em Delmiro Gouveia, junto ao seu tio padre.

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NOTA 3

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 

 



[i] Cúrri. Era um carrossel rústico, muitas vezes movido manualmente ou por tração animal. O nome deriva da velocidade (do verbo "correr"), pois as crianças se sentavam em assentos simples que giravam em torno de um eixo central.

Onda. Era um tipo de carrossel que, além de girar, possuía um movimento oscilatório (subindo e descendo), simulando o movimento de uma onda no mar.

[ii] Exerceu o cargo de prefeito de 6 de janeiro de 1936 a 27/12/1937.

[iii] Dr. Amprhisio Freire Ribeiro. Filho de Manoel Pereira Ribeiro e de Maria Esmeraldina da Glória Fereire, nasceu em Penedo-AL, em 19 de junho de 1894. Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1915. Casou-se no Rio de Janeiro em 1922 com Noélia Tavares Lessa (filha de João Ferreira Tavares Lessa e Maria Eleutéria Tavares Lessa. Faleceu em Salvador – Ba em 11 de julho de 1957.

[iv] Dr. Oceano Carleial. Nasceu em Barbalha-CE em 7 de março de 1906. Filho de José Bernardino Carvalho Leite e Antônia Alves de Carvalho Leite. Deputado Federal, jornalista e médico, formado pela Faculdade de Medicina da Bahia. Faleceu em sua terra natal em 2 de novembro de 1990. Foi Deputado Federal por Alagoas, pela UDN, nas legislaturas 1955-59, 59-63, 63-67, 67-71 e 71-75.

[v] Farmacêutico João Ramalho. Filho do Dr. Frederico Ramalho de Oliveira e Joana Maria de Menezes. Era casado com Lídia Besouchet Braga, filha Manoel Marques Braga e Lídia Besouchet. Nasceu em Brejo Grande-SE, em 28 de abril de 1891. Faleceu em Penedo-AL, em 24 de outubro de 1962.

[vi] Trata-se de Maria Feitosa Vieira, formada em Farmácia pela Faculdade de Medicina da Bahia, que se casaria com o médico e deputado José Marques da Silva, assassinado em Arapiraca, em 7 de fevereiro de 1957.

[vii] Gazeta de Alagoas, 9 e 30 de agosto de 1935.

[viii] Compunham com ele o Diretório: Pe. José Soares Pinto, Antônio de Freitas Machado, Manoel Pastor da Veiga, Manoel Rego, Durval Nery de Araújo, Francisco Soares Pinto, Inocêncio Soares Vieira e João José de Freitas.

[ix] Pelo seu partido, o PPA, foram eleitos: Pe. José Soares Pinto, Álvaro Pereira Simas (pai de Adail Simas), Manoel Rego e Durval Nery de Araújo. O Sr. José Alves Feitosa, seu cunhado, foi eleito prefeito pela União Reivindicadora de Pão de Açúcar, partido local, dirigido pelo Sr. Augusto de Freitas Machado, que foi eleito presidente da Câmara.

[x] Ernani Teixeira Basto. Chefe de Polícia. Filho de Francisco Teixeira Basto e Ida Edelvina Campos Velloso. Casado em 8 de dezembro de 1923, com Moema Gonçalves Cavalcante.

[xi] Fonte: Gazeta de Alagoas, 19 de fevereiro de 1936.

[xii] Filho de Jorcelina Feitosa. Casado com Maria Rosália Vilar de Carvalho. Faleceu em 2008.