Por Etevaldo Amorim
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| Porto de Limoeiro, 1988. Foto: Paulo Alves. |
Sob o sol de meio de tarde, no sinuoso canal da ilha do
Limoeiro, um menino e seu pai conduzem uma canoa demandando o porto de
Jacarezinho. Vento algum se podia sentir. Apenas um mormaço sufocante e a pele
a arder ante o calor escaldante. Não se via uma ruga sequer sobre a superfície.
O pano da canoa, erguido sobre o banco dianteiro, revelava-se inútil. Direcionando
a canoa bem próximo à margem, reduzindo assim o efeito da correnteza, os dois
tripulantes seguiam remando, derretendo-se em suor.
Deslizando morosamente junto à margem povoada de caniços e
calumbis, encontram, aqui e acolá, algumas groseiras armadas pelos pescadores
das redondezas, e capivaras que, assustadas, se atiram na água. À esquerda, a
grande ilha, repleta de mangueiras e coqueiros, cujas folhas se quedavam
imóveis, revelando a calmaria reinante.
Adiante, divisam uma clareira onde meninos e meninas tomavam
banho: era o porto da fazenda Santa Maria, que medeia o pequeno trecho. Uma
parada para descanso; uns punhados de água jogados sobre o rosto; alguns goles
da moringa guardada sob o carro de popa. Um alívio. Seguem viagem.
O calor continua e nenhuma brisa sequer. O menino suplica a
São Lourenço, o Senhor dos ventos. Em vão. O remo parece agora pesar uma
tonelada, os braços em molambo... fadiga...cansaço.
Algumas remadas a mais, chegam enfim ao porto. Depois de
tratativas comerciais com Seu Asdrúbal, pai e filho se preparam para o retorno
a Limoeiro. Eis, porém, que, chegando ao porto, encontram o senhor Caboquinho,
que embarcava alguns cavalos na canoa de Zé Pretinho, pretendendo levá-los à
fazenda Belém, situada na margem sergipana.
A essa altura, o vento já chegara. Zé Pretinho, temendo
alguma dificuldade na travessia, procura o homem e pede que junte as duas
canoas, visando conseguir maior estabilidade. Solícito, o homem concorda.
Juntadas as canoas, atadas por dois mastros dispostos
transversalmente, largaram do Jacarezinho.
A travessia principiara tranquila. Mas, do meio para o fim, refregas
mais fortes faziam as canoas balançarem como a dançar sobre as águas.
Chegam a Belém. A grande fazenda, pertencente à família
Brito, pouco abaixo da Ilha de São Pedro - cenário de páginas memoráveis da
História do antigo Morgado de Porto da Folha – ainda se mostrava operosa e
produtiva.
Desembarcados os animais, seguem-se os agradecimentos, posto
que nenhum pagamento foi aceito; apenas a solidariedade movida por sentimentos
de amizade e consideração.
O retorno para a costa alagoana se revelaria difícil e
arriscado. O vento agora já soprava forte, assumindo ares de tempestade. Nuvens
de poeira se podiam ver nos combros de ambas as margens, elevando-se até os
céus. A superfície do rio se encrespara sobremaneira, formando ondas
gigantescas, sobre as quais a canoa mais parecia um simples brinquedo. O
piloto, atônito, apavorado com tamanha tormenta, a muito custo conseguia aprumá-la
no rumo certo.
O menino, impotente, sentado sobre o estrado do fundo da
embarcação, sentiu o vento arrancar-lhe, de súbito, o belo chapéu de palhinha
que seu pai comprara na feira de Pão de Açúcar.
Por fim chegam à costa Sul da ilha, justamente na parte que
pertencia ao dito homem. Ali tiveram outra dificuldade: a cada marulhada, a
canoa pinoteava, o que exigia que a segurassem a uma certa distância para
que não se espatifasse na costa. Tiveram que ficar ali por, pelo menos, uma
hora, até que a tempestade amainasse.
Nesse ínterim, em meio às ondas que quebravam sobre a
ribanceira, o menino avista o chapéu de palhinha que a ventania lhe arrancara
da cabeça. Exultante, recoloca-o no seu devido lugar.
Passado o temporal e sentindo-se seguros, deitam o pano e
principiam a volta para casa. Novamente remando, molhados dos pés à cabeça,
chegam ao porto de origem. Já é fim de tarde. Logo vem uma noite fresca, de temperatura
amena e uma leve brisa que lhes oferece um repouso tranquilo e reparador.
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NOTA
Caro
leitor,
Deste
Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de
informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita
pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência
bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse
para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior
proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a
citação das referências. Isso é correto e justo.

Etevaldo, parabéns pelo texto maravilhoso e minucioso em detalhes desta pequena aventura de barco. Abraços.
ResponderExcluirExcelente. Eu que já desci de Entremontes para Pão de Açúcar, percebi a beleza e fidelidade da narrativa. Parabéns. R.M.Moraes
ResponderExcluirMeu confrade é amigo Etevaldo, esse seu artigo parece ter saído de um conto de aventuras. Como também senti na pele, por diversas ocasiões, as aventuras que eram (e ainda o são) as longas travessias em canoas no Velho Chico, esses fatos refletem um pouco a coragem e destreza de nossos ribeirinhos para sobreviverem em nossa região.
ResponderExcluirHistórias que nos transportam no tempo, às quais repito para meu pai, PAULO PIRES GUIMARÃES que, do alto dos seus 96 anos, vibra com elas.
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