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DELMIRO, ESSE DESPREZADO – CRÔNICA DE UM PÃO-DE-AÇUCARENSE

 

Por Etevaldo Amorim


Delmiro Gouveia. Foto: Fundação Joaquim Nabuco.


Transcrita da revista Mocidade[i], edição Nº 19 - Julho - Dezembro de 1949, publicamos hoje uma crônica do Dr. Pedro Soares Vieira, esse nosso conterrâneo de quem falamos recentemente. (https://blogdoetevaldo.blogspot.com/2026/07/personalidades-pao-de-acucarenses-dr.html


Ainda como estudante, o jovem Pedro emitia suas impressões sobre esse grande empreendedor e propulsor do desenvolvimento do sertão alagoano. Boa leitura.

 

“Pedra. Sim, de fato o seu aspecto é verdadeiramente lindo, ao longe, casas alvas, alinhadas e que se tornam risonhas ao contato da luz do sol e, à noite, o esplendor das lâmpadas elétricas bem definem o esforço de um ente predestinado a tirar de um nada a caatinga e fazer a estupenda metamorfose que se observa.


A natureza é pródiga, oferecendo ao ser humano o que possui. O esforço profícuo do homem de ação, amante da grandeza e da prosperidade, deixando o seu benefício para a posteridade julgar, acertadamente.


Nem sempre a ambição é prejudicial. Delmiro, homem pobre (não se espírito), fecunda imaginação, tirocínio inigualável, esforço dominador de sua vontade sequiosa de atos de levantamento moral e cultural, energia ferrenha, a mão da Divina Providência e protegia e recheava o seu cérebro da magna perfeição do progresso industrial.


O tabaréu do Ceará, não se sentindo satisfeito à sua condição de vida como o pobre Jeca Tatu de Lobato, que vive ao bel prazer da exploração desenfreada.


Suportava com amargura as injustiças do empregador para com o empregado.


Depois de ter construído o Cassino Derby, na cidade do Recife, abandona o convívio com pessoas educadas, para se transformar o ídolo, o bandeirante afoito, o intrépido desbravador e desencantador de nossa maravilhosa riqueza que a mãe natura nos ofereceu com toda a sua pujança.


Grandes dificuldades, porém, o espírito forte vence todos os atropelos.


O seu esforço foi para o Brasil uma fonte de engrandecimento de uma zona onde nada existia, a não ser a macambira.


Delmiro se deslumbrou com as quedas de Paulo Afonso, não como muitos visitantes, mas para tirar dali daquele paraíso de fadas, o enriquecimento que assuas lindas quedas iriam produzir.


Castro Alves decantou-se e Delmiro, lutando com homens rudes e a inclemência da “luz crua dos dias sertanejos”, que é para desanimar os fracos, mas, sentia “estonteadoramente” – ofuscante, num irradiar ardentíssimo” o que bem e bom a posteridade iria aproveitar.


O que a natureza faltou fazer, Delmiro o fez – aproveitamento de sua seiva – a energia hidráulica.


Buckle, em suas geniais extravagâncias, “faz deste país região privilegiada onde a natureza arrumou a sua mais portentosa oficina...”[ii]


Só faltava u’a mão enérgica, hábil e resoluta para o magno empreendimento, cabendo a escolha ao sertanejo Gouveia.


As grandezas do seu esforço estão como marco imperecível de sua vitória para com a natureza, domada por mão de um homem rude, mas inteligente.


E ele, sentindo a frase: “Deus nunca falou tão alto como em Paulo Afonso”, prosseguiu, mas a mão negra pôs termo a um ser vivente que não poderia desaparecer, sem que a justiça o defendesse – honrado pelo menos o aureolado nome desse indomável desbravador dos sertões.


A ambição de Gouveia serviu de melhoramento, não para ele que não pode usufruir dos seus direitos, mas para a grandeza do povo que continua a sua obra empreendedora.


Não sei se o seu mausoléu é alvo. O genial poeta criador da realidade apreciava as vestes brancas e deveria ser um túmulo branco a sua última morada.


E entre verdes matinhos e maltratados, ergue-se a sua última morada, não pomposa como era merecedor, muito simples, recompensa dos seus esforços.


Não é tratado com o desvelo merecedor.


Delmiro é um ídolo do povo, desejava fazer de Pedra uma outra cidade, talvez o coração do Brasil, mas a inveja que campeia empessoas medíocres fizera com que a filha de Delmiro (Pedra) ficasse sempre engatinhando, com o seu desaparecimento.


Sempre cuidadoso e o seu mausoléu tão desprezado.


Delmiro merecia uma pirâmide, como marco de sua imortalidade e não um simples túmulo.


Os verdadeiros ídolos dos povos não morrem, vivem a guiar os passos sadios que devem ser dados.


Delmiro merece ser melhor cultuado, pois a sua obra é imperecível na história do bem da humanidade.


O desprezo que lhe dão é tão imenso que não cabe no coração do mundo.


E... assim é a humanidade.”


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NOTA


Caro leitor,


Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Revista Mocidade, redigida e publicada pelos próprios alunos. A ideia partiu de três estudantes: José de Souza Alencar — que ficou mais conhecido como Alex, jornalista do Jornal do Commercio em Recife, faleceu em janeiro de 2015 —; Heitor Palmeira Florêncio e João Palmeira Florêncio, que apresentaram o projeto ao Padre Teófanes. A revista foi lançada em ato realizado no auditório do Instituto de Educação no dia 30 de maio de 1946. Fonte: Site História de Alagoas

https://www.historiadealagoas.com.br/historia-do-colegio-guido-de-fontgalland.

 [ii] Henry Thomas Buckle foi um historiador britânico, autor da História da Civilização na Inglaterra. Autodidata, Buckle está associado ao positivismo historiográfico, tendo exercido grande influência entre intelectuais brasileiros do final do século XIX. A frase é uma citação direta de um dos maiores clássicos da literatura brasileira: o livro Os Sertões (publicado em 1902 por Euclides da Cunha).