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sábado, abril 11

O CRISTO REDENTOR DO MORRO DO CAVALETE

 

Por Etevaldo Amorim


O Cristo Redentor em 1995 após a reforma. Foto: Cícero Tomatão.


O Cristo Redentor erigido no alto do Morro do Cavalete é, sem dúvida, o mais importante monumento da cidade de Pão de Açúcar. Antes dele, sobre o mais destacado acidente geográfico da “Terra de Jaciobá”, que inspirou o novo nome da localidade, “foi fincada uma cruz em comemoração à passagem do século”, em 1º de janeiro de 1900, segundo relato de Aldemar de Mendonça, em seu livro PÃO DE AÇÚCAR, HISTÓRIA E EFEMÉRIDES.


Ocorrido dessa maneira, o fato teria sido antecipado em um ano, posto que a passagem do Século XIX para o século XX só ocorreria na virada do dia 31 de dezembro de 1900 para o 1º de janeiro de 1901.


A referida cruz foi destruída por forte tempestade e, somente em 1919, foi recolocada outra, que perdurou até o erguimento do Cristo Redentor.


O historiador patrício cita reportagem do jornal “O Independente” que, em número especial de 29 de janeiro de 1950, faz referência ao nosso Cristo, desde a concepção da ideia até a sua inauguração:


“Numa dessas tardes quentes, tão habituais em Pão de Açúcar, numerosas pessoas acompanhavam um cortejo fúnebre que se destinava à Necrópole que fica bem próxima ao Morro do Cavalete.


Entre essas pessoas, vinha Ernesto da Silva Pereira ‘seu Galego’, que foi surpreendido por uma luminosa ideia. Olhando um enorme cruzeiro naquele morro, marco implantado pela fé dos antigos habitantes, lembrou-se do Cristo Redentor do Corcovado, no Rio de Janeiro.


Procurou o escultor João Lisboa, narrando-lhe o que estava maquinando o seu cérebro.  João Lisboa acolheu amavelmente o amigo e empolgou-se com a ideia.”


A ideia foi tomando vulto e as iniciativas foram sendo tomadas. Tanto que, na noite de 21 de outubro de 1948 – ainda segundo Aldemar de Mendonça - no Grupo Escolar Bráulio Cavalcante, realizou-se uma movimentada reunião a fim de ser feita a primeira coleta de donativos. Todo o comércio foi avisado e o povo católico de Pão de Açúcar tomou conhecimento daquela saudável iniciativa.


Destacavam-se à frente do movimento os senhores: Carlos dos Anjos, Prefeito do Município; José Teófilo Filho, do alto comércio; Aldemar de Mendonça, Agente de Estatística; Antônio Machado Guimarães, Presidente da Câmara de Vereadores; e muitas outras figuras de expressão na sociedade local: José Mendes Guimarães, produtor rural e poeta; Antônio de Freitas Machado, professor e tabelião; Antônio da Silva Pereira, Antônio Alves da Silva, João Damasceno Lisboa, Elísio da Silva Maia, Racine Bezerra Lima, Luiz Aquino da Rocha, Cícero José da Silva, Manoel Vitorino Filho, Virgílio Campos, D. Clélia Mendonça Lima, Diretora do Grupo Escolar onde se realizava a reunião; Anísio Ramos de Aquino e Paulo Pires Guimarães.


Representante de Pão de Açúcar na Assembleia Legislativa, o deputado Augusto Machado, muito trabalhou, na Capital do Estado, para a construção da obra, além de um grande número de pessoas que contribuíram para a concretização desse sonho. 


No dia 1º de janeiro de 1949, foi assentada a primeira pedra para a construção do monumento do cristo redentor, no morro do Cavalete, a Oeste da cidade. Ao som da banda de música e sob salvas de foguetes, seguiram-se as bênçãos do Padre Jasson Souto e o discurso do Promotor de Justiça da Comarca:


“É com a mais intensa emoção que me encontro diante de vós para experimentar a sensação de vos dizer da importância desta solenidade que, estou certo, não será o complemento desta homenagem, mas terá no seu atômico sentido, um sentido amplo, porque expressa o pensar deste grupo que sempre tem sabido elevar o nome desta terra que, vigiada silenciosamente pelo São Francisco, irá vibrar às comoções centrais do organismo de nossa Pátria, este monstro sagrado nascido para os afagos da luz.”


“Meus senhores, para muitos de vós a ideia, e o curioso e sugestivo lançamento da pedra base do monumento do Cristo Redentor, hoje gloriosamente sagrada pelas mãos do nosso dirigente espiritual, eram no seu começo uma “aglomeração de horrores”. Em nossa mente desfilava um número sem fim de paisagens duvidosas; aqui a política da destruição; ali a questão pecuniária, semelhante ao “gênio supliciado, aquele ser alucinante, aquela paisagem invertida, se não são jogos de fantasias de artistas zombeteiros.  E não está findo o nosso espanto, outros “horrores” vos aguardam.”


“Daqui a pouco, juntando-se a esta fileira de disparates, vossos olhos focalizarão em suas retinas a sublime estátua do Cristo, miniatura do mestre erguido no ápice do Corcovado, na capital do país; e tudo isso irá revoltar àqueles que reagem movidos pela força do passado, mas para estes retardatários a “arte continua a ser o belo”.


“A emoção geradora da arte é tão funda, tão universal, que forjou no cérebro desta plêiade a ideia de criar, de interpretar e de assistir como expectador de sua própria arte, a beleza do monumento ao divino Mestre, que, da curva deste morro, ficará de braços abertos a abençoar os seus filhos, irmanando-os ao princípio da igualdade; como sinaleiro, ficará a guiar os heróis das águas revoltas do São Francisco, cujas convulsões representam a nota pitoresca e real de sua existência.”


“O que hoje fixamos é o renascimento de uma arte que sempre existiu na nossa imaginação. É o próprio e comovente nascimento da arte no coração do povo de Pão de Açúcar.”


“Eis que tomo a liberdade de dizer-vos, como porta-voz desta assistência esteta, que hoje se inicia a fase gloriosa de nossa terra, na pujança de sua vida na arte; e, na pessoa de João Lisboa, entregamos o destino desta obra, para que finda a sua tarefa, faça vibrar o seu martelo, cujo erro repetirá, estou certo, o ‘PARLA’ de Michelângelo, quando esculpiu o seu Moisés, embriagado pela perfeição da arte.”


“Meus senhores, pudera ter conhecimento de vos dizer como se consegue realizar o impossível, mas o Sábio Tomás de Aquino vos dirá, quando em uma de suas aulas, cansados os alunos, um ergueu a voz e disse: “Mestre, olhe um boi voando!”. E o Mestre levantou-se a ver o fenômeno, enquanto os demais alunos ficaram a sorrir; e, interpelado porque acreditara no impossível, respondeu-lhe que mais impossível era um religioso mentir.”


“Mas, meus amigos, vamos, em uníssona voz, dizer: foi erguido o Monumento ao Cristo Redentor, e realizou-se o impossível; porque o sacerdote que abençoa esta pedra não é o aluno do Sábio Santo, e veio convosco, representando a comissão idealizadora, mostrar como o nosso espírito se libertou da “aglomeração de horrores” saindo para arte real e vitoriosa.”


“Estamos, pois, com a construção deste monumento, talhados a dizer:

É como um girassol de pétalas rendadas

Ao sol acompanhando a marcha vencedora

O símbolo d’amos da Pátria nas jornadas

Dos povos lhe assiste glória redentora.

 

Imagem desta cruz que o Cristo nos legara

Por meio de Cabral surgindo em nossos mares

Mais alto nos afirma a história viva e calma

Dos nossos ancestrais e feitos singulares.”

 

“Olhemos, pois, para o alto e, em se avistar um arco-íris, lembremo-nos que na sua curva existe uma montanha de ouro e no seu ápice coloquemos, com um pouco de esforço, estes sentimentais do belo, para que fiquem mais aproximados de Deus.”

 

As obras começaram, efetivamente, no dia 2 de janeiro de 1949 e terminaram em 30 de dezembro do mesmo ano. Coadjuvado por Pedro Pereira, “seu” Joãozinho se dedicou de corpo e alma na materialização desse sonho pão-de-açucarense. “Fomos os únicos que, de cima dos andaimes, enfrentamos a dureza dos tempos de inverno, que muitas vezes nos obrigava a descer, completamente roxos de frio. Ainda tinha o vento, que era fortíssimo, e qualquer descuido, um pé em falso, a queda seria desastrada e fatal.”


Pela Lei nº 153, de 30 de novembro daquele ano, foi o Prefeito autorizado a conceder o auxílio de Cr$ 10.000,00 (Dez Mil Cruzeiros). O Governador do Estado, Silvestre Péricles de Góis Monteiro, autorizou o Tesouro Estadual a dispender uma verba de 30 mil cruzeiros em favor da obra.


No dia 29 de janeiro de 1950, foi o monumento solenemente inaugurado. Ainda segundo Aldemar de Mendonça, compareceram à cerimônia de inauguração cerca de 3.000 pessoas. A solenidade contou com a presença do Bispo Diocesano de Penedo, Dom Felício de Vasconcelos, que realizava a sua primeira visita pastoral, e foi recebido no porto pelo jovem Dr. Carlos dos Anjos Filho (Dr. Carlinhos), filho do então prefeito.

No alto dos seus 84 metros, o morro do Cavalete encimava agora um monumento de 12,80 m de altura (10 de figura). O cimento, vergalhões de aço e pedras britadas utilizadas na obra, conferem ao monumento um peso de 287 toneladas.


Em 1ª de janeiro de 1950, o jornal Gazeta de Alagoas publicou a seguinte reportagem:

 

“Nas margens do São Francisco, no sertão de Alagoas, um simples comerciante, verificando que Deus pusera em suas mãos a graça de modelar imagens de pedra, cismou um dia de levantar em um morro de sua cidade, a cidade de Pão de Açúcar, uma imagem do Cristo Redentor.


Era uma ideia temerária, mas o fotógrafo amador João Lisboa, também pintor e escultor, não mediu as dificuldades. Fez um projeto da imagem, não tão grande como a do Corcovado, porém bem majestosa, e apresentou ao prefeito Carlos dos Anjos, Chefe do Executivo Municipal de Pão de Açúcar.


 O prefeito deixou-se contagiar pelo entusiasmo daquele artista espontâneo e conseguiu, não só auxílio da sua Prefeitura como do Governador do Estado. E o artista, com os meios necessários, levou para a colina o material e começou a esculpir a magnífica imagem do Cristo Redentor.


O mais impressionante, no entanto, é o fato de as linhas dominantes dessa obra ligarem-se às mais modernas correntes da escultura. O seu traço é firme e definitivo e qualquer crítico, à primeira vista, afirmaria, sem medo, encontrar-se diante de uma obra saída do atelier de um Ceschiatti[i] ou Bruno Giorgi[ii].

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REFORMAS.

O monumento é também um importante atrativo turístico. Esta condição se consolidou com a construção de um restaurante próximo ao cume, com vista para o oeste, na Administração do prefeito Elísio Sávio dos Anjos Maia (1989-1992), com adequação e pavimentação do acesso, permitindo alcançá-lo em veículo motorizado.


Em 1995, durante a primeira gestão do prefeito Antônio Carlos Lima Rezende - “Cacalo” – achando-se a estátua em péssimo estado de conservação, realizou-se uma grande reforma e um minucioso restauro, com implantação de guarda-corpos, melhoria no acesso e na iluminação.


Durante a gestão do prefeito Jasson Silva Gonçalves (2009-2012), o monumento passou por uma nova restauração. Além do reparo de grandes rachaduras nos braços e das ferragens desgastadas, a obra incluiu uma base de granito, nova pintura, iluminação revitalizada e melhorias no acesso.


O morro do Cavalete em 1939, vendo-se no alto o cruzeiro erguido em 1919. Foto: Edgard de Cerqueira  Falcão.


O escultor João Lisboa trabalhando. Foto: 1949, acervo de Suely Lisboa.


A imagem do Cristo em construção. Foto: 1949, acervo Suely Lisboa.


A estátua já em fase final de construção. Foto: Suely Lisboa.


O escultor João Damasceno Lisboa, o grande artífice da magnífica obra.


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Agradecimentos a Suely Lisboa e Massilon Ferreira da Silva.

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Alfredo Ceschiatti (1918–1989) foi um dos mais influentes escultores modernistas do Brasil, conhecido principalmente por sua colaboração com Oscar Niemeyer em Brasília. Suas obras são ícones da integração entre arte e arquitetura na capital federal. A Justiça (1958): Talvez sua obra mais famosa, é a escultura em granito de uma mulher sentada e com olhos vendados que fica em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) na Praça dos Três Poderes; Os Anjos e Os Evangelistas (1970); As Banhistas (1958; As Gêmeas (1970); O Anjo (1970); Contemplação: Localizada nos jardins do Palácio do Jaburu, residência oficial do Vice-Presidente.

 

[ii] Bruno Giorgi (1905–1993) foi um renomado escultor brasileiro, expoente do modernismo, conhecido por integrar arte à arquitetura moderna, especialmente em Brasília. Utilizando bronze e mármore, suas obras se destacam pela fluidez, formas orgânicas e uso de espaços vazios, com obras icônicas como Os Candangos (1960) e Meteoro (1967).

 

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