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segunda-feira, abril 20

UMA VALSA CHAMADA “GUIOMAR”

 

Por Etevaldo Amorim


Partitura da valsa "Guiomar", de Agérico Lins, 1915. Acervo de Tonho do Mestre, via Billy Magno.


Música com nome de mulher. Essa conjunção de melodia, harmonia e ritmo com amor e devoção pode ter sido a motivação de tantos compositores que, pelas mais diversas razões, as distinguiram para denominar suas composições, eternizando seus nomes em famosas canções, muitas delas obras-primas da música popular brasileira. 


Em diferentes épocas e nos mais variados estilos, são fartos os exemplos: Carolina e Bárbara (Chico Buarque e Ruy Guerra, parceiro nesta última); Luiza e Lígia (Tom Jobim); Madalena (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza); Ai que saudades da Amélia (Mário Lago e Ataulfo Alves); Anna Júlia (Los Hermanos); Chica da Silva (Jorge Ben); Camila (Nenhum de Nós); Daniela (Biquini Cavadão).


Em nosso caso, a merecedora do título de uma linda valsa é uma mocinha de nome Guiomar, natural de Coruripe e filha do capitão José Pinheiro da Silva e da dona Luzia Lessa Pinheiro, e que, por volta de 1906, morava na Rua Barão de Anadia, nº 6, em Maceió.[i] Ela não traz uma letra que lhe enalteça as virtudes, ou um poema que lhe evoque. Mas emite uma melodia suave e dolente, que toca fundo na sensibilidade de quem a ouve.

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Logo adianto que as informações que aqui reproduzo vêm do artigo Guiomar Uma linda valsa para banda, do prezado amigo e conterrâneo Billy Magno, no seu precioso blog Filarmônica Mestre Elísio.


Williams Magno Barbosa Fialho[ii], esse multi-instrumentista, arranjador e maestro, que muito nos orgulha, fez um trabalho magnífico sobre essa valsa de autoria do renomado músico alagoano Agérico Lins[iii].


Diz ele:


“Conheci esta valsa quando estive na casa de Tonho pela primeira vez em maio de 1995 pesquisando outras obras, mas, somente em abril de 1997, quando lá estive novamente, ela chegaria em minhas mãos.”


“Escrita em 1915, esta obra demonstra a maturidade artística do compositor numa simples e dolente melodia bem ao gosto da época, mas em tonalidade tecnicamente difícil (mi bemol menor) e não muito usual para instrumentos de sopro.”


“Em 1944, ela passaria por uma primeira revisão feita por Mestre Nozinho, que em 30 de junho refez a parte de pistom e acrescentou, em 7 de julho, a parte de sax alto, enquanto seu aluno Racine Bezerra Lima[iv] copiou a parte de baixo em dó. A segunda revisão foi feita por mim em setembro de 1997 quando acrescentei partes de 3º clarinete e 3º pistom, ampliando a orquestração.”


“Na revisão feita para esta edição, foram eliminados os costumeiros erros ou enganos dos copistas da época e acrescentadas as partes de flauta, sax tenor e sax barítono, mantidas as de sax alto e baixo em dó da revisão de 1944, assim como as de 3º pistom e 3º clarinete da revisão de 1997, nenhuma delas constante da orquestração original de 1915.”


“Hoje, 103 anos depois de ter sido escrita, temos finalmente a 1ª edição da bela valsa Guiomar, para que enfim se faça justiça à memória do pioneiro maestro alagoano Agérico de Azevedo Pontes Lins.”

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Utilizando-se do software Sibelius,[v] Billy conseguiu a reprodução da valsa “Guiomar” com base na partitura do acervo do Mestre Nozinho, preservada pelo seu filho Antônio Melo Barbosa (Tonho do Mestre).


E ficou de tal modo perfeita, que, ao ouvi-la, é como se nos transportássemos no tempo, adentrando os elegantes salões daqueles tempos, ou mesmo a imponente Catedral de Maceió, onde provavelmente foi executada, no ato de casamento de Augusto com a mocinha da “Barão de Anadia”.


O nome da valsa foi um presente de Agérico Lins por ocasião do casamento de Augusto de Freitas Machado com a jovem Guiomar Lessa Pinheiro[vi], celebrado no dia 17 de junho de 1915, pelo Monsenhor Freitas (tio do noivo), na catedral de Nossa Senhora dos Prazeres, em Maceió, por licença do Cônego João Machado de Mello.


Em seu artigo, Billy especula sobre as razões de o autor ter atribuído esse nome a sua valsa. É que, sendo também militar, Agérico naturalmente tinha ligações com o pai da moça. Provavelmente muito mais do que com o jovem Augusto, de apenas 20 anos de idade e que trabalhava como Auxiliar do Comércio em Maceió. Entretanto, a dedicatória contida na partitura original deixa claro que se tratava de uma distinção ao noivo: “Composta e dedicada no auge de consideração ao sympáthico moço Augusto de F. Machado D.D. auxiliar do comércio, 1915”


E vai ainda mais além o nosso Billy:


“Não seria demais arriscar que esta valsa poderia ter sido composta para ser executada pela banda de música da Polícia Militar sob regência do próprio compositor no enlace de Augusto e Guiomar ocorrido em 15/07/1915, talvez na própria igreja, fato esse que, por falta de fontes, permanece como mera especulação”.


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Dona Guiomar Pinheiro Machado, 1935.


Augusto de Freitas Machado, 1935.



Dentre o rol das primeiras-damas de Pão de Açúcar — de Dona Rosa de Albuquerque Novaes à atual, a Sra. Soraya Omena Dantas — Dona Guiomar foi a que ocupou o posto por mais tempo. Ao longo de três mandatos de seu esposo, o prefeito Augusto de Freitas Machado, ocorridos entre 1932 e 1970, ela ostentou o título por 4.326 dias.


Dona Guiomar Lessa Pinheiro (Pinheiro Machado após o casamento) faleceu em 6 de março de 1972. Era, como já dissemos, filha do Cap. José Pinheiro da Silva e de dona Luzia Lessa. Tinha como avós paternos: José Pinheiro da Silva e   Rosalina Francisca de Lima; e, maternos:  Antônio Pedro de Araújo Lessa e Umbelina de Lima Lessa.

 


A valsa "Guiomar". Clique aqui e ouça.


O autor da valsa Agérico Lins, 1924.


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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Gutenberg, 16 de janeiro de 1906.

[ii] Filho de Yvan Silva Fialho e Núbia Barbosa, nasceu em Pão de Açúcar em 5 de julho de 1978.

[iii] Agérico de Azevedo Pontes Lins. Filho do Major Genuíno dos Prazeres Pontes Lins e Idalina Pontes de Azevedo, nascidos em Portugal. Ao chegarem ao Brasil, já casados, se fixaram em Passo de Camaragibe-AL, na época uma pequena vila e lá tiveram seus filhos sendo o primogênito, Agérico de Azevedo Pontes Lins, nascido em 1862.  Único músico profissional da família, Agérico foi trompetista, trombonista, flautista, Maestro Agérico Lins (1924). Compositor, maestro e segundo o escritor Raul Lima (1911-1985), primeiro regente da banda de música União Camaragibana, fundada em 30/10/1890.Casou-se com Anysia Accioly Lins (nascida cerca de 1864 e falecida por volta de 1955) e tiveram 18 filhos, mas criaram-se apenas Odolino (1894-1973), Regina (1897-1937), José Maria (nascido cerca de 1900 e falecido por volta de 1959) e Idalina (1907-1936). Por decreto do Ministério da Justiça de 30/09/1895, é nomeado 2º tenente da 3ª bateria do 7º batalhão de artilharia de posição, na comarca de Camaragibe, conforme publicação do Diário Oficial da União (DOU) em 05/10/1895.  Pouco depois, se muda com a família para o bairro da Levada em Maceió-AL. Conforme o escritor Félix Lima Júnior (1901-1986)8 foi maestro da banda de música da Polícia Militar do Estado de Alagoas, embora seu prontuário não tenha sido encontrado, por ser anterior a 1919, data da organização do fichário geral.  (Dados biográficos coligidos por Billy Magno.)

[iv] Racine Bezerra Lima, militar e músico, nasceu em Pão de Açúcar em 19 de março de 1926 e faleceu em Salvador em 5 de agosto de 2018. Filho de João Bezerra Lima e Laura Gonzaga da Silva Lima.

[v] Sibelius: programa de notação musical que permite criar, editar e imprimir partituras complexas, além de reproduzir a música usando bibliotecas de sons de alta qualidade,

[vi] Guiomar Pinheiro Lessa, filha do Cap. José Pinheiro da Silva e de dona Luzia Lessa. Eram seus avós paternos: José Pinheiro da Silva e   Rosalina Francisca de lima; e, maternos:  Antônio Pedro de Araújo Lessa e Umbelina de Lima Lessa.





 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um comentário:

  1. Parabéns. Realmente é um privilégio poder recuperar a bela valsa, bem no estilo do início do século XX.

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