sábado, junho 20

NOS TEMPOS DO CINEMA MUDO

 

Por Etevaldo Amorim


 

Cartaz do filme MEIAS DE SEDA

No início do século XX, as cidades do Baixo São Francisco eram frequentemente visitadas por exibidores itinerantes — em sua maioria fotógrafos e empresários — que, munidos de projetores conhecidos como “cinematógrafos”, traziam rolos de filmes mudos para exibir em praças públicas ou salas improvisadas, como galpões e teatros.


Pão de Açúcar recebeu um desses cinemas volantes em 1911. Uma nota publicada no jornal A IDEIA, de 9 de abril daquele ano, anuncia a chegada do Sr. Max Philipsen[i], um fotógrafo alemão estabelecido em Maceió, que trazia alguns filmes para serem exibidos no Politeama Goulart de Andrade, um teatro recém-construído no local onde funcionaria, muitos anos depois, o nosso conhecido Cine Palace. Era o “Cinematógrafo Brasileiro” que estava na cidade!


Com a manchete “HOJE! CINEMA! HOJE!”, o jornal informa que haveria duas sessões:


Na primeira parte, seriam exibidos os filmes O Compositor Nervoso (Le Compositeur Toqué, 1905); Educação dos Pássaros (Éducation d'un Oiseau, 1911); A Luta pela Vida (Le Combat de la Vie, 1909); João Faz Tratamento pela Água (Hydrothérapie Fantastique, 1910) e A Vingança do Chefe do Trem (La Vengeance du Chef de Train, 1910).


Na segunda parte: Nascimento de Jesus Cristo (Le Christ Marchant sur les Eaux / La Naissance du Christ, 1899); João come alho (Le Terrible Hálito de Jean / L'Homme à l'Ail, 1907); O desaparecimento da noiva no castelo maravilhoso (Le Palais des Mille et Une Nuits / Le Château Merveilleux, 1905); e O noivo ciclista (Le Mariage de Victorine / Le Fiancé en Cycliste, 1907).


Todos esses curtas metragens eram de autoria Georges Méliès, com sua produtora Star Film. Georges Méliès (1861–1938) foi um ilusionista, ator e cineasta francês, reconhecido mundialmente como o pai dos efeitos especiais e um dos maiores pioneiros da história do cinema primitivo.


No dia 31 de agosto de 1911, também esteve em Pão de Açúcar o CINEMA SERGIPE, um desses itinerantes que passavam pela região ribeirinha.[ii] E assim deve ter acontecido com frequência até chegarmos ao CINE SÃO JOSÉ.


Prédio onde funcionou o CINE SÃO JOSÉ


De propriedade de João Damasceno Lisboa e Antônio da Silva Pereira (Toinho de seu Aprígio), foi inaugurado em 1933, segundo Aldemar de Mendonça em seu “Pão de Açúcar: história e efemérides. Entretanto, o nome de João Lisboa já aparece no Almanak Laemmert de 1927 como fotógrafo, mas também como proprietário de um cinema, nas edições de 1929 e de 1930.


Localizava-se na esquina das ruas Aurora (atual Antônio de Freitas Machado) e Silva Maia (atual Cel. Manoel Antônio Machado), local onde funcionou por muitos anos a agência da Caixa Econômica Federal.


Segundo Gervásio Francisco dos Santos, em seu livro Um Lugar no Passado, diferentemente do Cine-Politeama — que utilizava um sistema arcaico de projeção com regulagem manual dos carvões —, o projetor do Cine São José era mais moderno.


Esse equipamento seria, provavelmente, composto por lanternas de arco com avanço automático dos bastões de carbono e espelhos refletores — padrão que se consolidaria na década de 1930 para garantir a projeção contínua e a estabilidade luminosa. No sistema antigo, utilizado no Cine-Politeama, a luz vinha da queima de dois bastões de carbono (carvão) eletrificados dentro do projetor. À medida que o carvão queimava, ele encolhia, exigindo que o operador girasse manivelas constantemente para manter a distância certa e a luz acesa. Além disso, a queima trazia o incômodo de gerar fumaça e fuligem dentro da cabine.


Com a expansão das redes elétricas comerciais – Pão de Açúcar já tinha uma empresa geradora de energia por motor-gerador – é possível que o Cine São José já adotasse potentes lâmpadas elétricas incandescentes (similares às lâmpadas comuns, mas gigantescas) ou caixas de arco com avanço automático do carvão via motor. Isso eliminou a oscilação da luz na tela, reduziu os riscos de superaquecimento nas películas de nitrato e permitiu projeções mais longas e nítidas.


E foi exatamente o ano de 1927 que marcou a chegada dos sistemas de som sincronizado (como o Vitaphone), fazendo com que os projetores dessa nova safra fossem equipados não apenas com luz melhor, mas também com motores preparados para reproduzir áudio. Não era o caso deste do Cine São José, cujas exibições eram sonorizadas pela Orquestra de Mestre Nozinho, que escolheu a música “Os calças largas”, composta por Lamartine Babo e Francisco Gonçalves de Oliveira, grande sucesso da época[iii].


A letra zomba dos "almofadinhas" da época (rapazes da elite que imitavam a moda europeia) que começaram a usar calças amplas, num estilo precursor das bocas-de-sino.


Ouça OS CALÇAS LARGAS, de Lamartine Babo e Gonçalves de Oliveira, na interpretação do barítono Frederico Rocha. Disponível em "Som em Bom Tom - Youtube".  


A INAUGURAÇÃO


O primeiro filme exibido foi MEIAS DE SEDA, cujo título original é Silk Stockings, lançado oficialmente nos Estados Unidos, em 2 de outubro de 1927 pela Universal Pictures.


É uma comédia romântica baseada em uma peça de teatro da Broadway de 1914 (A Pair of Silk Stockings). A história gira em torno de um casal muito apaixonado, mas que vive brigando. Na véspera do aniversário de casamento, o marido esquece um par de meias de seda que uma mulher colocou em seu bolso, gerando uma grande e divertida confusão.


A “fita” foi estrelada por Laura La Plante (uma das maiores e mais bem pagas estrelas da Universal na era muda), no papel de Sally Thornhill,  e John Harron, interpretando Sam Thornhill.


Tinha também: Willian Agustin, no papel de Jorge Bagnal; Otis Harlan, como Juiz Foster; Burr Mc Intosh, como Juiz Harlan; e Heinie Conklin, como o vigia noturno. A direção foi de Wesley Ruggles.


Eis a sinopse do filme, que encontramos na revista CINEARTE, que se publicava no Rio de Janeiro, edição de 4 de janeiro de 1928:


Desde que descobriram o divórcio, o matrimônio como que passou a ser um vasto campo de batalha!


A encantadora Sally amara loucamente o marido, que, por sua vez, a queria acima de tudo neste mundo. Os dois, no entanto, não se entendiam e viviam em constantes rixas e disputas tremendas, que lhes tornavam a vida conjugal verdadeiro inferno.


Certo dia, os dois se deixaram arrastar para o escritório de um advogado especialista em separação de corpos: o Juiz Foster. Expõem as coisas, calorosamente, cada qual afirmando mais fortes as suas razões.


E por que todo esse barulho? Simplesmente por isto: Sam queria ir gozar as suas férias nas montanhas, ao que Sally se opunha, preferindo uma praia de banhos.


Foster não tinha interesse em separar duas criaturas que sofriam de... excesso de amor e, usando de um ‘truc’, com auxílio de um ratinho de brinquedo (Sally tinha pavor de ratos), consegue que ela, medrosa com a aproximação do ‘bicho’, se atire aos braços do marido.  Fazem as pazes e saem do escritório do advogado.


Metem-se no automóvel, onde disputam de novo, a propósito da manobra do carro que parte em grande velocidade. Sam é abordado por um inspetor de veículos e Sally protesta, procurando defender o marido.


O inspetor manda que ela alegue razões ao Juiz e mantém a multa, que Sally resolve pagar com o dinheiro que tinha guardado para comprar um novo chapéu.  Era a data do casamento dos dois.


Jorge Bagnal, amigo da família, fora à casa de Sam e Sally. Comentava a recente sentença de um Juiz, achando que era motivo pra divórcio o fato de uma esposa ter encontrado nos bolsos do marido um par de meias que não lhe pertenciam. E Sally achava ser tolice uma mulher requerer o divórcio por coisa tão fútil.


Mal sabia ela que seu Sam, tendo ido com fregueses a certo restaurante elegante, trazia para casa, numa das algibeiras, um par de meias que certa frequentadora do estabelecimento lá colocara, depois de um incidente interessante.


Sam é recebido aos beijos por Sally e o caso do divórcio provocado pelas meias indiscretas volta à baila. Sally continua na sua. Era um disparate alegar motivo tão frívolo para caso tão sério. O diabo, porém, as arma[iv] e, súbito, Sally descobre as meias que Sam tinha no bolso! E desabou a tempestade, terrível, tremenda. A lógica modificara-se e, na opinião da linda revoltada, já agora não havia homem que pudesse justificar uma ignomínia dessas!


Um par de meias de mulher usadas, no bolso do seu marido! Era o cúmulo da traição conjugal! Resultado: um novo processo de divórcio, um novo julgamento escandaloso, a justiça metida no lavar da roupa suja de mais um bêbado, um jogador! Sam era um bandido! Pobre Sam, que se torcia na sua cadeira de réu, sem poder contestar aquela série de coisas fantasticamente mentirosas.


O divórcio é decretado. E o Juiz Foster, grande analista do coração humano, compreendendo a verdade, dizia com seus botões que assim procedera para se ver se conseguia que aquelas duas ‘crianças’ tomassem juízo.


Sally fingia-se alegre com a liberdade, mas a verdade é que sofria, que se lembrava continuamente de Sam, que estava disposta a se lhe atirar nos braços de novo e a beijá-lo loucamente, se o encontrasse.


Estavam longe um do outro? Não. Enquanto Sally era hóspede do Juiz Foster, naquela elegante praia de banhos, Sam passava também ali as férias, na residência de uma família amiga.


E foi pelo próprio Foster, que lhe recomendava juízo, que evitasse se aproximar de Sam para não prejudicar a sentença definitiva do divórcio, que Sally veio a saber do paradeiro do marido.


Logo a sua ideia foi justamente fazer o contrário do que lhe recomendara Foster e nessa mesma noite penetrava na casa dos amigos do marido, disposta a reconquistar o bem perdido.


E ali se dão cenas deliciosas e imprevistas, complicações tremendas, até que a encantadora Sally cai de novo nos braços do marido, mandando às urtigas a Lei e todos os juízes que cortam a felicidade de duas criaturas que se amam.”


Na tela, o THE END. A orquestra executa os acordes finais. E bem podemos imaginar a seleta plateia da pequenina cidade do interior, reunida no aconchegante Cine São José, a gargalhar com as passagens engraçadas e, ao final, explodir em aplausos ante o desfecho apoteótico da cena comovente.


Cena do filme Meias de Seda. John Harron e Laura La Plante.


Cena do filme Meias de Seda. Willian Agustin e Laura La Plante. Revista Cinearte, RJ, 1928.


Cena do filme Meias de Seda. Otis Harlan. Revista Cinearte, RJ, 1928.


Cena do filme Meias de Seda. John Harron e Laura La Plante. Revista Cinearte, 1928.


Agradecimentos a Suely Lisboa pelas informações prestadas.

____

 

NOTA


Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Max Philipsen. Fotógrafo de origem alemã. Em 1906, residia em Maceió na Rua do Cravo, nº 42, atual Rua Dr. Pedro de Mendonça, na Pajuçara. Em 1904, recém-chegado de Paris, ele trabalhava para a Fotografia Piereck, rua Dr. Rosa e Silva, 54, no Recife, como “retocador de retratos”, segundo notícias do Jornal do Recife e do Diário de Pernambuco, de 30 de agosto daquele ano.

[ii] A Ideia, 3 de setembro de 1911.

[iii] SANTOS, Gervásio F. dos. UM LUGAR NO PASSADO.

[iv] A expressão "as arma" (ou "o diabo as arma") é uma variação do ditado popular clássico "o diabo as arma e o tempo as desmancha". No contexto do texto, ela significa que as circunstâncias se alinham perfeitamente para criar uma cilada, uma confusão ou uma armadilha, fazendo com que um segredo seja descoberto. O significado da expressão funciona como sinônimo de "as coisas acontecem de forma a criar uma armadilha". Passa a ideia de que o destino (ou o "azar") conspirou para que o plano ou o segredo de Sam falhasse no pior momento possível.

2 comentários:

  1. Excelente matéria, gostei da narrativa, do diálogo e mesmo do enredo do filme ,muito romântico e comovente!

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  2. Excelente! Os filmes nesse formato vão além do imaginário. Uma verdadeira obra de arte, fonte de subjetividade, de sonhos...

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia