Por Etevaldo Amorim
Outrora rota de tropeiros, nos tempos em que as mercadorias
eram transportadas em lombos de burros, esse era o caminho de Pão de Açúcar
para o interior. Tendo o rio São Francisco como via principal do intercâmbio de
comércio de toda a região sertaneja, os produtos que desembarcavam no porto
eram carreados para o centro por meio de animais e carros-de-boi, em processo
lento, penoso e desgastante.
E assim se deu por muitos e muitos anos. Até que, em 1929, sobre
esse caminho foi aberta uma "estrada real", durante a gestão do
Prefeito Padre José Soares Pinto. O seu período administrativo contribuiu
consideravelmente com o governo estadual — então liderado pelo Dr. Álvaro
Corrêa Paes — na ampliação da malha viária do Estado.
O jornal Diário de Pernambuco, em sua edição de 13 de outubro
de 1929, destaca que o Governo de Álvaro Paes “pôs em comunicação franca a
metrópole do Estado com o extremo Norte, abrindo uma rodovia, que é geralmente
louvada pelos serviços que presta a uma região de difícil acesso”.
E prossegue: “Dessas estradas de interesse local se
salientam pela perfeição de seu acabamento a que se dirige de Pão de Açúcar
para Santana do Ipanema e a que vai desta para Palmeira dos Índios.” Para
depois concluir: “Os gabos que se fazem a essas rodovias são unânimes e
recaem sobre os prefeitos que as fizeram: o Padre Soares Pinto, de Pão de
Açúcar; e Graciliano Ramos, de Palmeira dos Índios.”
Cabe salientar, conforme Mensagem do Governador Álvaro Paes
ao Congresso Legislativo, em 19 de novembro de 1929, que coube ao Prefeito de
Santana do Ipanema, Sr. Ormindo Barros, a construção das referidas estradas nos
trechos incluídos em seu território, isto é, da cidade até Olho D’Água das
Flores e, por outro lado, da Sede até o limite com Palmeira dos Índios,
totalizando aqui 14 km.
Não temos notícia de como se deu a construção do trecho Pão
de Açúcar – Olho d’Água. Mas, sobre a parte que coube à prefeitura de Palmeira
dos Índios (na futura BR-316), o prefeito Graciliano Ramos destaca em um de seus
famosos relatórios:
"O serviço de estradas exigiu cuidado e despesa.
Uma via de comunicação que se abre é, incontestavelmente,
fator de progresso; mas as estradas que encontrei, construídas a eito, sem
plano, estragavam os veículos e consumiam tempo. [...]
Na estrada de Palmeira a Sant’Ana, numa extensão de 25
quilômetros, trabalha-se desde maio. Já ali se eliminaram ladeiras quase
impraticáveis, romperam-se piçarras, aterraram-se pântanos e construíram-se
bueiros. Está quase pronta. Falta apenas um quilômetro de aterro, no lugar
denominado Lagoa do Canto. [...]
Não há aqui engenheiros: a locação é feita a olho, por mim ou
pelos fiscais, o que não impede que as estradas saiam retas e com declives
suaves. Os operários trabalham por tarefa, o que é mais econômico e evita a
moleza das diárias.
Gastei na estrada de Sant’Ana a quantia de 17:152$500, o que
dá uma média de 686$100 por quilômetro[i].
Quem conhecer o terreno, que é acidentado e duro, concordará em que o dinheiro
foi bem empregado."
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Os mais velhos se lembram como era penoso viajar para Maceió naqueles
tempos. Ainda em meados da década de 1970, gastava-se, no mínimo, oito horas
nos velhos ônibus da Viação Progresso, passando por Santana do Ipanema (AL-130),
para depois pegar a BR-316 e passar por Dois Riachos e Cacimbinhas, até chegar
em Palmeira dos índios, onde começava o asfalto, que existia desde 1950,
construído pelo governador Arnon de Mello.
Finalmente, durante o primeiro governo de Divaldo Suruagy, tivemos
a pavimentação.
O financiamento da obra só foi possível devido a uma complexa
operação de crédito internacional aprovada em 20 de maio de 1976 pelo Senado
Federal.
Autorizado pela Resolução nº 25, o Governo de Alagoas
realizou operação de crédito externo no valor de US 10.000.000,00 (DEZ MILHÕES
DE DOLARES), para financiar projetos rodoviários.
Eis o teor da Resolução:
“Faço saber que o SENADO FEDERAL aprovou, nos termos do
artigo 42, inciso IV, da Constituição, e eu, JOSÉ MAGALHÃES PINTO, PRESIDENTE,
promulgo a seguinte:
RESOLUÇÃO Nº 25, DE 1976
Autoriza o Governo do Estado de Alagoas a realizar operação
de empréstimo externo no valor de US$ 10.000,000,00 (dez milhões de dólares),
para financiar projetos rodoviários naquele estado.
Art. 1º. É o Governo do Estado de
Alagoas autorizado a realizar uma operação de empréstimo externo no valor de
US$10.000.000,00 (dez milhões de dólares), ou o equivalente em outras moedas,
de principal, com grupo financiador a ser indicado, sob a orientação do
Ministério da Fazenda e do Banco Central do Brasil, mediante outorga de
garantia do Tesouro Nacional, se necessário, destinado a auxiliar o
financiamento dos investimentos previstos na construção das Rodovias AL-220;
AL-130; AL-120; e AL-225, naquele Estado.
Art. 2º. A operação de empréstimo
realizar-se-á nos termos aprovados pelo Poder Executivo Federal, à taxa de
juros, despesas operacionais, acréscimos, prazos e demais condições admitidas
pelo Banco Central do Brasil para registro de empréstimos da espécie obtidos no
exterior, obedecidas as demais exigências dos órgãos encarregados da execução
da política econômico-financeira do Governo Federal, e, ainda, as disposições
da Lei nº 3.479, de 25 de novembro de 1975, da Assembleia Legislativa do Estado
de Alagoas, publicada no Diário Oficial do Estado no dia subsequente.
Art. 3º. Esta Resolução entra em vigor
na data de sua publicação.
SENADO FEDERAL, 20 de maio de 1976.
JOSÉ DE MAGALHÃES PINTO - PRESIDENTE.
(Texto publicado no Diário Oficial da União - Seção 1 - 21/05/1976,
Página 7231 (Publicação Original) e Diário Oficial da União - Seção 1 - 15/06/1976,
Página 8399 (Retificação)”
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A AL-220 inicia no município de Barra de São Miguel (no
entroncamento com a AL-101 Sul – atualmente BR-349), passando por São Miguel
dos Campos e por diversos municípios, tais como Campo Alegre, Limoeiro de
Anadia, Arapiraca, Craíbas, Girau do Ponciano, Jaramataia, Batalha, Jacaré dos
Homens, Monteirópolis, Olho d'Água das Flores, São José da Tapera, até Delmiro
Gouveia.
A AL-120 inicia no entroncamento com a AL-220, passa por
Major Isidoro e vai até Cacimbinhas (BR 316).
A AL-130 liba Pão de Açúcar a Santana do Ipanema, passando
por Olho d’Água das Flores, quando cruza a AL-220.
A AL-225 liga o centro histórico de Piranhas a Olho d'Água do Casado.
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Entrementes, ainda em um dia do mês de março ou abril de 1976,
a bordo do avião modelo CESSNA AIRCRAFT 182P, de prefixo PT-KIS, o governador
Divaldo Suruagy e sua comitiva chegaram a Pão de Açúcar para o ato de
assinatura do contrato com a empreiteira que implantaria a pavimentação da
estrada.
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| O avião em que chegou o governador Divaldo Suruagy e sua comitiva. |
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| O governador Divaldo Suruagy ao desembarcar. |
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| O governador Divaldo Suruagy assinando o contrato, vendo-se à direita o Sr. Elísio Maia. |
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| Desconhecido (possivelmente o empreiteiro) assinando o contrato, vendo-se à mesa: Divaldo Suruagy, o prefeito Augusto Machado e o Deputado Estadual Humberto Melo Souza (natural de Pão de Açúcar). |
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| O Dr. Carlos Fortes Melro, do DER, assinando o contrato, vendo-se Pedro Ferreira e Divaldo Suruagy. |
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| O deputado Pedro Ferreira assinando o contrato, tendo a seu lado Divaldo Suruagy e Humberto Souza. |
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| O prefeito Augusto Machado lendo seu discurso, tendo à sua direita o governador Divaldo Suruagy e à esquerda o Dep. Humberto Souza e Elísio Maia. |
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| O governador Divaldo Suruagy. |
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Como registro desse fato, há um discurso do Deputado Federal
Antônio Ferreira, publicado no Diário da Câmara dos Deputados (Seção I), 24 de abril
de 1976)
“O SR. ANTÔNIO FERREIRA (ARENA - AL. Pronuncia o seguinte
discurso.)
- Sr. Presidente, Srs. Deputados, o Estado de Alagoas vive
instantes de grande euforia pelas obras que realiza o Governo Divaldo Suruagy,
sempre procurando solucionar antigos problemas e vencer todas as dificuldades.
Assisti, com satisfação, à solenidade de assinatura dos
contratos para início das obras de asfaltamento da ligação rodoviária. entre
Pão de Açúcar e Olho d'Água das Flores. Igualmente, foi assinado contrato que
manda construir a ligação Olho d'água das Flores a Santana do Ipanema, por via
asfáltica. Estas obras, que já foram iniciadas, refletem o interesse do
Governador em proporcionar ao Estado de Alagoas perfeitas condições de
comunicação entre as suas regiões, facilitando o trânsito da produção agrícola,
melhorando o intercâmbio entre as comunidades alagoanas.
O asfalto que vai ligar Pão de Açúcar a Santana do Ipanema
vem no momento em que o Estado estava carecendo desta estrada em perfeitas
condições de uso, ao longo do rio São Francisco, outra importante ligação que
integra Alagoas e faz o seu território um todo.
Secretaria de Viação e Obras Públicas do Estado de Alagoas
tem servido como fator preponderante para incrementar o progresso e levar o
desenvolvimento a todo o Estado, dentro das metas aprovadas pelo Governador
Divaldo Suruagy, apresentadas pelo Secretário Vinicius Maia Nobre. Não nos
cansamos de apontar o acerto do Governador na escolha deste ilustre Secretário,
Vinicius Maia Nobre, que realmente tem sabido se conduzir à frente de sua
Secretaria, trabalhando incansavelmente, mudando o Estado e dando-lhe nova
feição, desde as regiões sertanejas ao litoral progressista. Igualmente não
podemos desconhecer o muito que vem fazendo o Diretor do Departamento de
Estradas de Rodagem, Dr. Carlos Fortes, que completa esta extraordinária equipe
de Governo que, em pouco tempo, fez Alagoas acompanhar as maiores Unidades da
Federação em índice de desenvolvimento.
Vale ainda ressaltar, Sr. Presidente, que nas obras de
ligação asfáltica entre Pão de Açúcar e Santana do Ipanema, o Governador de
Alagoas vem prestigiando os políticos locais, pois, a Aliança Renovadora
Nacional tem representantes das cidades mencionadas nos legislativos estadual e
federal, nas pessoas cios ilustres companheiros Pedro Ferreira, Humberto Mello,
Geraldo Bulhões e este que agora lhes fala. Portanto, desta tribuna, quero
agradecer ao Governador Divaldo Suruagy pelo seu esforço em dar à região que
represento e ao Estado que nos mandou a esta Casa o melhor em estradas e
rodovias, fator de integração e desenvolvimento, principalmente em Alagoas.
Era o que tinha a dizer.”
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Nota-se aqui um aparente descompasso cronológico entre a
autorização legislativa e o início dos trabalhos. A explicação pode ser obtida,
entre outras, pelo fluxo administrativo da época.
Em que pese a Resolução nº 25 do Senado Federal ter sido
promulgada apenas em 20 de maio de 1976, os bastidores políticos e operacionais
da obra já caminhavam em ritmo acelerado. Prova disso é o discurso do deputado
Antônio Ferreira, publicado no Diário do Congresso quase um mês antes, em 24 de
abril de 1976, no qual o parlamentar celebrava a assinatura dos contratos com
as empreiteiras e o início imediato dos primeiros serviços.
Longe de ser uma contradição cronológica, essa defasagem de
datas reflete a dinâmica administrativa da época: com o aval técnico do
Ministério da Fazenda e do Banco Central praticamente assegurado, devido ao
alinhamento político entre o governador Divaldo Suruagy e o regime federal, o Estado
antecipou a assinatura dos contratos e os trabalhos preliminares de campo.
A subsequente aprovação pelo Senado funcionou, portanto, como
a chancela jurídica e o aval financeiro definitivo do Tesouro Nacional,
garantindo o fluxo subsequente dos dez milhões de dólares que sustentariam as
medições de grande porte das rodovias nos meses seguintes.
No dia 11 de novembro de 1976, o governador Divaldo Suruagy
recebeu no Palácio Floriano Peixoto o Ministro da Fazenda Mário Henrique
Simonsen e o Monsieur Pierre Mendras, Diretor de Negócios Internacionais do Banco
Nacional de Paris, para a assinatura do contrato-empréstimo no valor 10 milhões
de dólares para o "Programa de estradas alimentadoras da Produção do
Estado de Alagoas, recursos estes que seriam aplicados na pavimentação de 150
km de estradas, nas áreas produtoras de leite, arroz, feijão, milho, mandioca e
algodão.
Segundo a Secretaria de Planejamento do Estado, o objetivo do
Programa de Estradas Alimentadoras da Produção era "propiciar o
atendimento das necessidades de transporte em vários segmentos da malha
rodoviária do Estado, gerando benefícios diretos de 45 milhões de dólares".
A Secretaria de Planejamento da Presidência da República
considerou o Programa prioritário, tendo o ministério da Fazenda, a Comissão de
Empréstimo Externo do Banco central autorizado a operação com o banco francês,
enquanto o Senado Federal também aprovou por unanimidade. O empréstimo seria
pago em cinco anos, com três de carência, com o aval do Tesouro Nacional. (Diário
de Pernambuco, 26 de novembro de 1976.)
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Em 7 de novembro de 1976, com a inauguração da pavimentação
asfáltica da rodovia AL-130 — cujas obras haviam sido concluídas quatro dias
antes —, consolidou-se a integração da bacia leiteira e do comércio ribeirinho
do Rio São Francisco em Pão de Açúcar.
Hoje, passados 50 anos, podemos comemorar e afirmar que a
ligação asfáltica reduziu drasticamente o tempo de viagem entre as cidades
beneficiadas e a capital, Maceió, superando os antigos obstáculos logísticos da
região.
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| Descerramento da placa de inauguração. Foto: acervo da Prefeitura Municipal de Pão de Açúcar. |
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Fotos do acervo da Prefeitura Municipal de Pão de Açúcar. Evento realizado no auditório do Colégio São Vicente. Nelas aparecem diversas outras pessoas da cidade, algumas das quais conseguimos reconhecer. Deixamos aos leitores a tarefa de identificá-las e postar aqui nos comentários. Grato.
NOTA:
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”,
constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens
são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da
competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso
sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso
tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de
autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
Essas quantias equivalem a Dezessete Contos, Cento e Cinquenta e Dois Mil e Quinhentos
Réis (17:152$500), e Seiscentos e Oitenta e Seis Mil e Cem Réis (686$100),
respectivamente.











Tempo que não lembro muito por conta de ser muito jovem,não tinha conhecimento em políticas. Minha mãe amava seu Eraldo ,Antônio,seu Augusto Machado. Lembro bem do governador Suruagi, esse homem vi muitas vezes seu Elísio Maia comentar sobre ele. A vc Everaldo minha eterna gratidão por nos fazer lembrar e voltar ao tempo.
ResponderExcluirVc Etevaldo faz lembrar meu neto, D. Dadinha, Historiador, pesquisador, o mesmo mora em Buenos Aires, na Argentina. Ele é filho da minha filha primogênita,do filho de Dadinha ,Adilson ex - jogador de Pão de Açúcar.
ResponderExcluirExcelente e minucioso resgate histórico dessa tão importante obra para nosso Município e toda a região. Lembro-me bem do dia da inauguração, pois foi no meu aniversário e acompanhei meu avô José Monte naquela caminhada
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