domingo, janeiro 13

ARAÚJO BIVAR


Por Etevaldo Amorim

MANOEL ALVES D’ARAÚJO BIVAR era filho de Américo Alves d’Araújo Bivar e Ritta Martins (Rita Leopoldina de Bivar). Nasceu no dia 15 de novembro de 1885 e foi batizado em 11 de julho de 1886, na Catedral de Maceió.[i]
O poeta Araújo Bivar
Não foi fácil identificar os seus dados biográficos, em virtude do aparecimento de mais de um “Manoel Bivar”. Mas, ele próprio o distingue dos outros quando, em protesto publicado no jornal Evolucionista, contra O Malho, pelo fato de aquela revista ter ridicularizado um poema supostamente de sua autoria, esclarece que havia em Maceió mais duas pessoas com nome semelhante: Manoel Souto Bivar (telegrafista), Manoel Costa Bivar (jornalista e deputado), e ele, Manoel d’Araújo Bivar.
Fez seus cursos de Preparatórios em Maceió, onde ainda residia em 1907, compondo a Diretoria da Sociedade Caritativa Mortuária Auxiliadora dos Cristãos. Participou ainda da Sociedade Literária Dias Cabral e da Escola Literária Cyridião Durval, do Lyceu Alagoano, bem como da Sociedade Literária Aristeu de Andrade.
Com vinte e seis anos, já residindo no Rio de Janeiro, casou-se, a 20 de julho de 1912, com a Srtª Maria Jacome de Araújo Maia (filha de Antônio Jácome de Araújo e Joanna Jácome de Araújo), viúva de Álvaro Maia e irmã do poeta Gonçalo Jacome (este funcionário dos Correios).
Em 1913, participava do Club Waldemar, atuando em saraus e recitando Remembrança, conto romano em verso[ii] e, por volta de 1920, participava dos eventos do programa “Brasil Falado”, promovido pelo Club Endiabrados de Ramos.[iii] Em 1921, publica o livro de poemas Exomologese. Foi Secretário da Revista A Crítica e colaborou para o hebdomadário Ilustração Moderna.
Em 1922, ele, que era praticante de condutor de trem, foi efetivado na Estrada de Ferro Central do Brasil.[iv]
Em 1923, compôs, com Jayme de Vasconcellos, a valsa Retraída, interpretada pelo seu colega de Central do Brasil, Noé Abalo.[v] Nesse mesmo ano, em 28 de novembro, proferiu Conferência na Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, discorrendo sobre o tema “A música, a dança e a poesia”.[vi]
A 4 de outubro de 1924, profere Conferência, na Associação Cristã Feminina, sob o tema “Música, Dança e Poesia”.
Araújo Bivar, em Conferência na Associação Cristã Feminina.
A mesma revista, na edição de 6 de dezembro daquele ano, publica uma caricatura sua, feita por um dos mais reconhecidos  desenhistas da imprensa brasileira: o seu amigo ÁLVARUS, como o próprio Álvaro Cotrin (Rio de Janeiro: 1904-1985) o define em sua dedicatória.
Araújo Bivar em caricatura de "ÀLVARUS". Ilustração Moderna.
Acometido por doença cardíaca, Araújo Bivar faleceu a 5 de julho de 1925, às 20:35 h, na residência do seu médico e amigo Dr. Emygdio de Barros, na Rua Dias da Cruz, nº 229, no Rio de Janeiro. Foi sepultado às 17:00 h, no Cemitério de Inhaúma.[vii]

Noticiando a sua morte, a revista Ilustração Moderna assim o definiu: "Poeta dos mais vibrantes, sentia-se nos seus versos as várias metamorfoses épicas e liricas, vibrava-se; havia um induzível arrebatamento ao lê-lo. Morreu como morrem os artistas: heroicamente humilde."
Em justa homenagem, foi dado o seu nome a uma importante via pública do bairro da Pajuçara, ligando as ruas Dr. Zeferino Rodrigues à Almirante Mascarenhas.


POEMAS

ÚLTIMO SOPRO
(A Olavo Bilac)

Quando a morte quebrou serena o tênue fio
Que te sustinha preso a dúbia luz da vida
Correu por todo o espaço um ríspido arrepio
Como um seco estalar de lira bipartida.

Vibrou na Natureza um surdo murmúrio
De espanto, que se avulta em fúria mal contida
O vento soluçou nostálgico, sombrio,
E a chuva foi do céu a lágrima sentida.

Agora que ascendeste à vida do mistério,
Vae as estrelas ver de perto os claros sóis,
As transfigurações do páramo sidério

Que foram do teu verso os mágicos faróis
No dia em que desceste ao pó de um cemitério
Subiste como um Deus à luz dos arrebóis.

________
28/12/1918. Fon-Fon, Ano XIII, Nº 2. 11/01/1919.


A IMORTALIDADE DA ARTE

Ao culto espírito de “ALVARUS”

A fornalha trepida, o caldeirão fumega
cheio me metal rubro, ardente, derretido,
a oficina faz crer vulcânico brasido
onde o vapor sufoca e desnorteia e cega.

Um operário vem, vermelho da refrega,
solta da cremalheira o grande tacho erguido
e empurra-o na carreta e o bronze refundido
nos tacelos de gesso aos poucos descarrega.

Alguns minutos mais e a forma despedaça
E a figura aparece em plena majestade,
Semideusa da forma, da beleza e graça.

Morre o Artista, mas toda a sua humanidade
fica naquela estátua erguida numa praça,
onde vai ver passar o tempo, a eternidade.
____________
Extraído da revista Ilustração Moderna, RJ, 12 de agosto de 1924.

MALDADE DIVINA

Dentro da seda fina e leve de  um vestido,
de vidrilhos, e gases e rendas enfeitado,
adivinho o mais branco e o mais aprimorado
corpo grego de deusa em mármore esculpido.

Por um poder oculto eu me sinto impelido
a cair aos seus pés de ninfa, ajoelhado,
Prometheu da volúpia eu fico acorrentado
ao meu próprio desejo, atônito, adormecido.

Deus me fez um grande mal: abriu as portas do ouro
da morada divina, as célicas alturas
e espalhou pelo mundo o mágico tesouro.

De mulheres da moda, as deusas, das loucuras,
que em vez de estarem lá, no céu, no excelso coro,
andam soltas aqui, tentando as criaturas.

­______________
Transcrito da revista Ilustração Brasileira, 30/09/1924.
________

Sugestão para o registro de referência:
AMORIM, Etevaldo Alves. ARAÚJO BIVAR. Maceió, janeiro de 2010. Disponível em: http://www.blogdoetevaldo.blogspot.com.br/. Acesso em: dia, mês e ano.



[ii] O Paiz, 4 de janeiro de 1913.
[iii] A Ração, 23 de março de 1920.
[iv] A Noite, RJ, 31 de outubro de 1922.
[v] O Jornal, 13 de fevereiro de 1923.
[vi] O Jornal, 27 de novembro de 1923.
[vii] A Noite, RJ, 6 de julho de 1925.

sábado, janeiro 12

A CADEIA PÚBLICA DE PÃO DE AÇÚCAR



Por Etevaldo Amorim

A Cadeia, tendo ao lado casebres sendo invadidos pelas
 águas do rio São Francisco, na Grande Cheia de 1919.
Na extremidade Oeste da Av. Bráulio Cavalcante, ocupando quase toda a largura do mais importante logradouro da histórica cidade, ainda se conserva, firme e inabalável, um dos seus mais antigos prédios: a Cadeia Pública de Pão de Açúcar.
A sua história tem início durante a Seca de 1877. A população de Pão de Açúcar padecia sob esse terrível flagelo, a que as populações nordestinas ainda hoje são submetidas.
Para mitigar os efeitos dessa catástrofe, e para socorrer também os imigrantes de vários pontos do sertão dos Estados limítrofes, o Juiz de Direito Dr. Alfredo Montezuma de Oliveira[i] conseguiu, junto ao Governo, recursos para abrir frentes de trabalho, ocorrendo-lhe empregá-los na construção desse prédio público. Ele era Presidente da Comissão de Socorros Públicos em favor das vítimas da Sêca.
Pão de Açúcar, 1875. Local onde seria construída a cadeia,
dois anos depois. Foto: Marc Ferrez. Disponível em: Fundação
Jean Paul Getty.

Com a fachada voltada para a extensa avenida, dando fundos para os lados da Lagoa da Porta (e, mais além, o Cavalete), foi assentada em local estratégico, como a indicar o exato ponto até onde a prudência recomendaria construir, ante o perigo das enchentes.
Sua construção foi iniciada no dia 27 de novembro de 1877, conforme notícia do jornal O Pão D’ Assucar, edição de 2 de dezembro daquele ano:
“Cadeia. No dia 28 do passado, principiou-se a abrir os alicerces do edifício que há de servir de cadeia e Casa de Câmara desta Cidade.
A Comissão de Socorros Públicos empreendeu esta obra, e vai executa-la, para ter em que se ocuparem os emigrantes, a fim de incutir-lhes amor ao trabalho e livrá-los da ociosidade que sempre traz vícios.
Já tivemos ocasião de ver a planta levantada pelo Sr. Dr. Juiz de Direito Alfredo Montezuma de d’Oliveira; é uma obra magnífica. Oxalá que a concluam”.
O jornal O Monitor, BA, de 19 de fevereiro de 1878, reproduzindo notícia d’ O Pão de Assúcar
“Continua em serviço a obra da cadeia, que já vai bem adiantada, trabalhando diariamente 100 operários, entre pedreiros e serventes.”
“Mesmo assim, impossível é satisfazer a todos os reclamos dos que querem e precisam trabalhar para ganhar o pão cotidiano, pelo que a Comissão vem fornecendo aos que não trabalham gêneros alimentícios”.
As notícias dão conta de que o projeto contemplava a construção de um prédio que servisse de Cadeia e Casa da Câmara. A Câmara, que tinha também funções executivas, funcionava no sobrado da Rua da Praia (hoje Av. Ferreira de Novaes), cedido pelo Major João Machado de Novaes Mello, o “Barão de Piaçabuçu”.
A obra, entretanto, não passou dos alicerces. Já em 1881, em documento encaminhado à Biblioteca Nacional, a Câmara Municipal dava conta de que a mesma se achava em construção, lamentando que “tão útil ideia não tenha sido, até hoje, louvavelmente aproveitada pelos poderes públicos, levando a cabo tão instante melhoramento”.[ii]
Em Relatório apresentado à Assembleia Provincial, em 16 de abril de 1882, o Presidente Dr. José Barbosa Torres, registra que, para a cadeia de Pão de Açúcar, “há um projeto que peca por exagerado; seria conveniente que se fizesse um plano mais modesto”.
Talvez por ser o projeto “exagerado”, os recursos não foram suficientes senão para a construção dos alicerces. Sobrevindo nova estiagem, quando o Regime já era República e sob o Governo do Coronel Pedro Paulino da Fonseca, em 1891, novos recursos foram alocados:
“Paralisadas por muito tempo, as obras dessa cadeia, quando na vigência da República, sobreveio nova seca, tiveram elas, no governo do Cel. Pedro Paulino da Fonseca, o pequeno impulso que lhes poderia provir da insignificante verba de Rs 2.000$000 destina por aquele governador a atenuar o tremendo infortúnio coletivo.” (MORENO BRANDÃO – In Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano – Vol. IX, Ano 52 – 1924).
Passados 34 anos do seu início, a obra precisava ser concluída. E, para levar a cabo esse empreendimento, concorram decisivamente os esforços do então Senador Estadual Cel. Luiz José da Silva Mello[iii], político de grande influência àquela época.
O Cel. Luiz José da Silva Mello.
O jornal A Ideia, em edição de 2 de julho de 1911, em crônica de Hypólito de Souza, noticia a recepção feita ao Cel. Luiz José, no dia 24 de junho, quando de sua chegada de Maceió, ocasião em que foi dada a feliz notícia de que seria retomada a construção da cadeia, pois já se achava empreitada por 7:000$000 (7 contos de réis). Achava-se à frente do Governo do Estado o Cel. Macário das Chagas Rocha Lessa (12/06/1909-12/06/1912).
 O mesmo e importante semanário pão-de-açucarense, dirigido por Álvaro Machado, em sua edição do dia 23 de julho daquele ano, publicou outra crônica sob o título ESCOLAS! AÇUCDES! ESTRADAS”. Em tom satírico, expressa a opinião que se tinha a respeito da necessidade da Cadeia, sobretudo ao considerar outras carências, mais urgentes sob todos os aspectos:



“Do fenômeno das secas, nós, vitimas constantes, neste estiolante,

Nós, que morremos à mingua de instrução e também de água,

No centro sempre adverso (repare, o leitor, que é verso)

Pedido temos, e estamos clamando e pedindo sempre,

Sempre escolas e açudes, estradas que, menos rudes,

Se prestem melhor ao trânsito.

Pois o povo é paciente e, por índole, pacato.

A parte que habita no mato sofre mais do que parece.

Se dá-se, acaso, um delito que entre nós é muito raro,

Vai passando sem reparo!

Se capanga, o delinquente, enquanto o Júri trabalha,

Castiga-se o tal canalha, não se o levando à cadeia!

Se, porém, por um capricho da desdita, o criminoso for do grupo dinheiroso... Caluda! Não Mia prossigo” Exceção “tem na lei”.

Criminosos desta ordem!... “Cães amigos não se mordem, sim juntos mordem os outros”.

Eis porque nós, os malvistos dos presumidos grandolas,

pedindo água, estrada, escolas, teremos talvez cadeia”

Bem dispensável agora, pois nosso povo pacato,

bem ajeitado é um pato ou mosca em açucareiro.

O criador é sedento, de sede seu gado morre, e clama! Quem o socorre? ...

Console-se, na cadeia haverá muito serviço.

Entre na turma e se esqueça dessas dores de cabeça. Ganhe o seu pão na cadeia.

Na viveza de seus olhos, empoeirado almocreve, com dor que não se descreve,

lamentando um saco roto nos entulhos duma estrada,

se há que haver-se sozinho nos barrancos do caminho,

quase noite, na cadeia, haverá seu prejuízo.

Trabalhe, compre remédio e vá seu saco cosendo,

enquanto a triste orfãnzinha, a Instrução deserdada,
dormindo, acorda assustada do bulício, da zoada do serviço da cadeia.

Certo mais necessitando de socorros, a lavoura,

duma mão mais protetora que faça Leis Florestais

em garantia às caatingas contra a “onda” que as devasta,

não respeitando a “dinasta”, quanto mais os pobres donos...

Mas, a cadeia embeleza a mais a nossa “avenida”.

Se a virmos soerguida, teremos que lamentar não ser o grande edifício em escolas transformado, onde fosse divulgado o ensino à mocidade.”.

A desativação Cadeia Pública de Pão de Açúcar ocorreu em princípios de 2018, quando suas atividades passaram a ser desenvolvidas no Centro Integrado de Segurança Pública – CISP.

 
A Cadeia em foto recente.
NOTA:
Caro leitor,
Este Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, contém postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso alguma seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo. Segue abaixo, como exemplo, a forma correta de referência:

AMORIM, Etevaldo Alves. A CADEIA PÚBLICA DE PÃO DE AÇÚCAR. Maceió, Janeiro de 2019. Disponível em: http://www.blogdoetevaldo.blogspot.com.br/. Acesso em: dia, mês e ano.


[i] Natural do Pará. Faleceu em Pão de Açúcar, Alagoas, a 20 de junho de 1881. Formou-se pela Faculdade de Direito do Recife em 1863.
[ii] Documento manuscrito remetido à Biblioteca Nacional, datado de 26 de abril de 1881, firmado por João Marinho de Novaes Mello (filho do Major João Machado de Novaes Mello – Barão de Piaçabuçu, Tertuliano José Eliseu Canuto, Justino Pereira da Luz (pai de Jovino da Luz), João Hipólito de Souza, Joaquim Antônio Martins Sobrinho, Joaquim Serafim da Silva Graça e José Venustiniano Cavalcante (pai de Bráulio Cavalcante).
[iii] Nasceu em Belo Monte, Comarca de Traipu, Alagoas. Filho de José Pedro de Mello e Francisca Maria da Silva. Casou-se com Anna Josepha de Campos Mello, filha de Manoel Gonçalves de Campos e Thomázia Cardozo de Campos. na Matriz de Porto da Folha, Sergipe, a 23 de fevereiro de 1884, sendo celebrante o vigário de Porto da Folha, Pe. Francisco José dos Santos. Viúvo em 03/09/1893, casou-se com Clara Maria de  Souza Mello. Faleceu o Cel. Luiz José em Pão de Açúcar, a 08/08/1919, em Pão de Açúcar, aos 65 anos.
FONTE: AMORIM, Etevaldo A. TERRA DO SOL, ESPELHO DA LUA. Maceió, 2004.

terça-feira, janeiro 8

A POESIA DE MURILO GAMA


A POESIA DE MURILO GAMA[i]
SONETO[ii]

Faz tanto tempo que estou deitado
E não consegui ainda adormecer...
Pensando no presente e no passado,
Tenho u’a vontade louca de morrer.

No futuro, também tenho pensado,
Mas não suponho o que virá a ser:
Se o retrato fiel do meu passado
Ou do presente que me faz sofrer.

O meu passado: a gloriosa infância,
Que já passou e que se vai perdida...
No turbilhão dos anos, na distância.

Meu presente: a tétrica mocidade,
Esta quadra infeliz da minha vida
Que não há de ser nunca uma saudade.

***   ***   ***
INCERTEZA

Eu quisera saber porque a saudade,
Irmanada à tristeza, ao sofrimento,
É mais profundo no morrer da tarde
Quando se busca a paz do esquecimento.

Eu quisera saber se o meu tormento
Não findará, jamais, na mocidade...
E se triste terei, no pensamento,
Uma eterna lembrança, uma saudade.

Eu quisera saber e, no entanto,
Vejo somente muda, em cada canto,
A INCERTEZA – que aumenta o meu sofrer.

Eu serei apenas, nesta vida
O fantasma da dor – sombra perdida-
Entre as sombras sem fim deste querer.

NA SOLIDÃO

Esses versos que faço a sós co’a lua,
Na triste solidão do meu destino;
É refletindo na imagem tua
Botão de rosa, belo e purpurino.

A noite é bela. Na deserta rua
Vagueio triste a procurar, sem tino,
Alguém que fale da beleza tua.
Do rosto teu, angelical, divino.

É só a lua em seu fulgor radiante,
Vem falar ao triste namorado errante
Que tem por sina vaguear sozinho.

E a noite inteira prá cantar num verso:
A saudade, a tristeza, o amor diverso
Dos que vivem na terra sem carinho.
(Cajueiro-AL, 1954)





O poeta Murilo Gama

[i] Murilo Gama Costa nasceu em Cajueiro, então pertencente ao município de Capela, Estado de Alagoas, a 12 de junho de 1933. Filho de José Vieira Costa e Edelvita Gama Costa, tinha como avós paternos Antônio Vieira Costa e Januária Guilhermina da Costa e, maternos, Antônio Rolemberg Gama e Luzia de Ataíde Lessa.
Fez o Curso Primário em sua terra natal. Em Maceió, concluiu o 2º Grau no colégio Guido de Fontgalland.
Foi jornalista policial, Fiscal de Rendas Estadual, professor de história em Cajueiro, Contabilista, Secretário Municipal de Cajueiro na Administração do então prefeito Antônio Palmery Soriano, e Assessor Jurídico da Câmara Municipal de Vereadores de Cajueiro.
Formou-se em Direito e História pelo CESMAC. Atuou na área de advocacia criminal na Região da Zona da Mata de Alagoas, sobretudo na comarca de Capela. Foi ainda Suplente de Vereador no Município de Cajueiro, na Legislatura 1983/1988).
Casado com Iracema Cassiano Gama, com quem teve os filhos: José Sebastião Cassiano Gama, Lúcia Verônica Cassiano Gama, Lívia Maria Cassiano Gama (falecida), Lícia de Guadalupe Cassiano Gama, Múcio Murilo Cassiano Gama, José Claudio Cassiano Gama, José Clódio Cassiano Gama, Sâmia Galgani Cassiano Gama, Saadia Sofia Cassiano Gama e Fúlvia Soraya Cassiano Gama (falecida).
Faleceu a 1º de março de 2007 em sua terra natal.
Pela Lei Municipal nº 700, de 25 de abril de 2014, a Prefeitura Municipal de Cajueiro denominou a Rua “B” do Conjunto Residencial Presidente Fernando Collor de “RUA MURILO GAMA COSTA”.

(Colaboração de Múcio Murilo Cassiano Gama)

[ii] Publicado na Revista Mocidade, Ano X, nº 31, Abril de 1956, p. 47.

domingo, dezembro 16

MATHEUS DE ALBUQUERQUE


Por Etevaldo Amorim
Matheus de Albuquerque, 1917.
Foto: revista Literatura Hispano Brasileira.
Matheus Rodrigues de Albuquerque nasceu em Porto Calvo, Estado de Alagoas, a 21 de setembro de 1880. Era filho de Cassiano Carlos de Albuquerque e de dona Gertrudes Rodrigues de Albuquerque. Eram seus irmãos os também poetas Cassiano de Albuquerque e Theóphilo de Albuquerque, além de Maria de Albuquerque (que se casou com Antenor dos Santos Lima). Seu pai era próspero comerciante na histórica cidade alagoana, estabelecido com padaria e loja de fazenda de miudezas, além de ter sido Sub-Delegado de Polícia;
Iniciando seus estudos em Maceió, já aos 17 anos passou a colaborar na imprensa local, publicando crônicas e poemas. Um desses, o Orbe de 7 de abril de 1900, noticia a sua mudança para o Recife. Dia seguinte, ele efetivamente viaja para a Capital pernambucana, onde começou a trabalhar como Auxiliar do Comércio, no ofício de Guarda-Livros (Contador, na terminologia da época), inicialmente numa loja de louças, na Rua do Crespo.[i] Naquele centro mais adiantado, passou a escrever no A Província, onde se tornou editor literário, e na Gazeta do Norte. Por essa época, foi também Secretário da Sociedade Protetora dos Alagoanos, uma entidade criada em 1901 para dar apoio aos que procuravam, na Capital pernambucana, melhoria na sua condição de vida.
A 19 de setembro de 1907, Matheus, então com 26 anos, casa-se com Joanna de Luna Freire (22 anos), filha de Manoel de Araújo Luna Freire e de Idalina Hosana de Luna Freire, natural de Olinda, onde passa a residir, na Rua dos Milagres, nº 7. A essa altura, seu pai já era falecido. Sua mãe faleceria no ano seguinte, a 12 de agosto, em Maceió, aos 58 anos.
No ano seguinte, contrata com a Livraria Econômica, de Manuel Nogueira de Souza, a publicação do seu livro de versos intitulado Visionário.
Do seu casamento com Joanna, nasceu no Recife, a 22 de março de 1910, Hyrcania de Albuquerque, que foi batizada na matriz da Boa Vista, a 8 de dezembro do mesmo ano. Ela se casaria, em Marseille, França, a 30 de abril de 1929, com o Industrial francês Gèrard de Croze-Magnan.
Em 1910, Matheus foi aceito como Sócio Correspondente da Associação dos Críticos Literários Franceses, com sede em Paris.[ii]
A 10 de abril de 1911, muda-se para o Rio de Janeiro, com sua mulher e uma filha.[iii] No dia 16, a bordo do paquete Rio de Janeiro, desembarca na Capital Federal para experimentar novos desafios.[iv] A princípio, passa a colaborar no jornal O Paíz, para depois escrever em O Imparcial e no El Paiz. Neste mesmo ano, tendo esgotada a primeira edição do Visionário, contrata uma segunda com a livraria Chardron, do Porto.
Foi justamente em O Paiz, edição de 18 de maio de 1912, em artigo intitulado EÇA DE QUEIRÓZ, lança a ideia de a cidade do Rio de Janeiro erguer uma estátua em homenagem ao famoso escritor português. A ideia foi encampada por um grupo de intelectuais, que constituíram uma Comissão para arrecadar fundos, tendo à frente o poeta Coelho Neto. A homenagem só foi concretizada em 1923.
Inauguração do monumento a Eça de Queiróz. Fon-Fon, 3 de março de 1923.
1. Prefeito Alaôr Prata. 2. Escultor Pinto do Couto; 3. Embaixador de Portugal
Duarte Leite; 4. Coelho Neto; 5. Júlia Lopes de Almeida. Foto Fon-Fon.  

Em 1913, lança o livro Crônicas Contemporâneas, tendo a oportunidade de, em 6 de junho de 1913, em visita ao Presidente da República, Hermes da Fonseca, o presenteia com um exemplar.
Em 1915, funda, no Rio de Janeiro, o semanário Era Nova, sob sua direção, ao lado de Evaristo Marques Costa, José Raul de Moraes, Mário de Vasconcelos. O Secretário era o irmão de Matheus, Theóphilo de Albuqerque e a Direção artística de Julião Machado, segundo O Paíz de 5 de julho de 1915. Em 1916, lança “Sensações e Reflexões”.
Foi então que, sob os auspícios do notável estadista Barão do Rio Branco, iniciou a carreira diplomática, tornando-se Diretor da Seção de Negócios Políticos e Diplomatas na América.
Em fevereiro de 1916, foi designado Cônsul do Brasil em Cádiz, Espanha, tomando posse em julho daquele mesmo ano.
Em 1919, lança o livro Da Arte e do Patriotismo. 
Estando em férias no Rio de Janeiro, seus amigos e admiradores lhe ofereceram, no dia 15 de abril de 1923, um almoço no Palace Hotel.
Almoço no Palace Hotel. Sentados, da esquerda para a direita: Graça Aranha e 
J. M. Goulart de Andrade. A partir do 5º: o Vice-Presidente Estácio Coimbra; 
Matheus de Albuquerque; Ronald de Carvalho; Frederico Castello Branco Clarck;

Elysio de Carvalho. O Malho_21.04.1923.
Em 1925, como Cônsul do Brasil em Bordeaux recepcionou, no dia 1º de abril, véspera do jogo contra o Bastidienne, os atletas do Club Athético Paulistano, com Friedenreich, não só recebendo a delegação na estação, como proporcionando aos estudantes que compunham a delegação, uma visita à universidade. Em 1928, era Cônsul Geral do Brasil em Lisboa.
Em 24 de janeiro de 1935, foi recebido pelo presidente da Espanha, Alcalá Zamora, como Adito Comercial à Embaixada Brasileira. A 24 de junho de 1937, foi removido desse cargo e recebeu o título honorífico de Conselheiro Comercial do Consulado Geral em Lisboa, onde chegou em 21 de agosto daquele ano. Em 1939, assume o consulado Geral em Barcelona.
Em 1946, foi nomeado pelo Ministro das Relações Exteriores para uma missão Cultural, ligada à Divisão de Cooperação Intelectual na Itália, França, Espanha, Portugal e Suíça.
Faleceu em Petrópolis-RJ, no dia 26 de setembro de 1967. Na imprensa carioca, em que tanto atuou com extraordinário brilhantismo, nota-se uma escassez injustificada de notícias. Apenas O Jornal, em edições de 4 e 14 de janeiro do ano seguinte, fez referencia ao fato:
“Os tempos, o temperamento e a doença muito o distanciaram do quadro literário contemporâneo. Os tempos, porque os de hoje não haveriam de bem avaliar o mérito de sua poesia de corte parnasiano e de sua prosa “vieux style”, os seus ensaios e romances ricos de pátina; o temperamento, porque era de natural esquivo, querendo ficar quieto no seu canto, exilado em Petrópolis para fugir do bulício da cidade das letras; e a doença porque, surdo e quase cego no fim da vida".
Nesses últimos anos de sua vida, diz ainda a matéria de O Jornal, teve a companhia do escritor Povina Cavalcanti e do poeta Oliveira e Silva.




[i] A partir de 1870, com o fim da Guerra do Paraguai, muitas ruas do Recife receberam nomes alusivos àquele conflito. A Rua do Crespo, homenagem a Manoel de Souza Crespo, marinheiro português que se estabeleceu na região como comerciante. Passou a se chamar 1º de Março, data do final do conflito. GASPAR, Lúcia. RUAS DO RECIFE.
Disponível em:
[ii] O Alto Purus, Sena Madueira, 12 de junho de 1910, p. 2.
[iii] Diário de Pernambuco, 12 de abril de 1911, p. 2.
[iv] O Paiz, 17 de abril de 1911, p. 3.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

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Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia