domingo, 16 de novembro de 2014

SONETO

(Composto por D. Pedro II na noite de 15 para 16 de novembro de 1889.)


Não maldigo o rigor na iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arraneando-me o trono e a majestade,
Quando a dois passos estou da morte.

Dos jogos das paixões, minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua felicidade
E amanhã nenhum bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia, a que maltrata,
A dor cruel, que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto o mata;

É ver na mão cuspir, à extrema hora,
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs outrora.

______________
Extraído do jornal O ÍNDIO, Palmeira dos Indios, 20/11/1921.
Disponível em:

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

SONETO

Massilon Ferreira da Silva¹

Ao morrer que me deixem ser levado
Em pomposo cortejo que evolui
Em cantos solenes entoados,
Qual soberano egípcio (que não fui)

Depositem meu corpo inanimado
Num sarcófago envolto em ouro e prata,
E por companheiros, bem ao lado,
O wisk e o cigarro de Sinatra.

Sob a luz de uma estrela radiosa
E ao som de melodias eloquentes,
Habitarei entre jardins em Nínive.

Adornado com pétalas de rosas,
Embriagar -me - ei eternamente
De amor das mulheres que não tive.
____________


sábado, 25 de outubro de 2014

NOITE DE INSÔNIA

Arthur Azevedo

Se há marido e mulher perfeitamente felizes, são os Guedes. Não se casaram por paixão, mas o amor nunca lhes desertou da casa. Há muito tempo que isto dura, como no primeiro dia.
            D. Hortência não tem ciúme do Guedes, nem este lhe dá motivos para isso. É verdade que, com três ou quatro meses de casado, começou a esgueirar-se depois do jantar, voltando à meia-noite. Mas, ainda hoje, nenhuma só vez capaz de sair sem perguntar a D. Hortência:
            — Queres ir?
Ela prefere ficar em casa. Ainda está por haver outra senhora mais amiga dos seus cômodos.
            Uma noite, por acaso, Guedes entrou em casa fora da hora habitual, e D. Hortência no dia seguinte pediu-lhe, com muito bons modos, que nunca mais ficasse além da meia-noite.
            — Bravo! – exclamou o marido. Aí estão eles!
            — Eles quem?
            — Os ciúmes!
            — Ora, que tolice! Ciúmes de que? De quem? Não, senhor. Não são ciúmes. Apenas acho muito feio que um homem casado fique na rua depois de meia-noite, sem sua mulher.
            — Desculpa, o meu relógio estava atrasado.
            — Olha, se repetes esta gracinha, ciúmes não tenho, mas zango-me deveras. Vê que é a primeira coisa que te peço.
            — E espero que não seja a última.
            Daí por diante o relógio do Guedes nunca mais se atrasou. Era dar meia-noite e ele a entrar em casa. D. Hortência adormecia invariavelmente uma hora antes. Os dois esposos só se falavam pela manhã.
II
            Entretanto, o Guedes era um modelo de fidelidade conjugal; resistia a todas as tentações, livrando-se vitorioso dos mais arriscados encontros. Ia todas as noites aos teatros, mas só dava atenção às peças que se representavam e aos amigos com quem se aborrecia nos entreatos.
            Uma noite — noite fatal, um amigo: o Remígio, o encontrou no Recreio e o convidou para uma ligeira patuscada, perto dali, na rua do Núncio. Batizava seu filho. Tratava de dar cabo a um magnífico peru, que em vida se mostrara digno de um jardim zoológico e, depois de morto, faria as delícias do mais impertinente luculo.
            O Guedes era o que se chama um bom garfo. E em se tratando de peru assado, o pobre rapaz estava perdido. Por isto aceitou o convite depois de perguntar:
            — À meia-noite eu posso estar em casa?
            — Ora! Ora! Ora!

III
            À meia-noite ainda o peru estava intacto, e os convidados do Remígio fariam cruzes na boca. O Guedes, esquentado por alguns cálices de conhaque e interessado por uma partida de gamão, deixava-se estar muito tranquilo, à espera que dessem o sinal de ataque.
            Para encurtar razões, quando deu por si, passava de três horas.
            — Que diabos!
            Saiu inquieto e meio lá meio cá porque o peru tinha sido abundantemente regado a um delicioso Collares.
            Quando chegou ao Largo da Carioca, os operários passavam para o trabalho, os vendedores ambulantes de peixe, fruta e verdura atravessavam as ruas com os samburás vazios, na direção do Mercado.
            A cidade despertava.
            — Ora esta! Ora esta! Com que cara vou aparecer a Hortência? Ora esta!
            E quando entrou nos penates, era dia claro!
IV
            Penetrou no quarto de toucar que ficava contíguo à alcova conjugal, sem que a porta rangesse nos gonzos, como de costume, e começou a despir-se.
            Mas, era preciso luz: não havia meio de encontrar as chinelas. O Guedes riscou um fósforo e acendeu o bico de gás. Nisto, ouviu D Hortência remexer-se no leito e suspirar largamente. Ficou frio como um ladrão.
            O pobre marido estava pronto para ir deitar-se e cobrava ânimo para entrar na alcova, quando a voz de D. Hortência quebrou aquele silêncio profundo:
            — Guedes?
            Mas esse “Guedes” era dito num tom sereno, tranquilo, afetuoso.
            O delinquente não respondeu; ela repetiu:
            — Guedes?
            — Heim?
            — Aonde vai você tão cedo?
            — Como?
            — Você não se está vestindo para sair?
            O Guedes compreendeu tudo. Estava salvo! E respondeu imperturbavelmente:
            — Passei uma noite de insônia. Desde a meia-noite que me viro e reviro em nossa cama. Vou respirar um pouco do ar da manhã, e ver se me faz bem...
            E o mísero rapaz, cansado, aborrecido, morto de sono — e meio cá meio lá — teve que vestir-se de novo e dar um passeio matinal... forçado.

            Estava punido, e D. Hortência vingada... sem o saber.
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Extraído do jornal pão-de-açucarense A IDÉIA, 1910. 

Arthur Azevedo. Nasceu em São Luiz (MA), a 07/07/1855 e faleceu no Rio de Janeiro, a 22/10/1908.
Filho de David Gonçalves de Azevedo (Vice-Cônsul de Portugal em São Luiz) e Emília Amália Pinto de Magalhães. Era irmão mais velho de Aluísio Azevedo, autor de O Cortiço.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

SANTA CRUZ DO DESERTO

Por Etevaldo Amorim

Durante o curto período em que exerci a função de Extensionista, na antiga EMATER, tive oportunidade de ministrar um curso de formação num pequeno vilarejo do município de Mata Grande: Santa Cruz do Deserto. Ali, na pequena capela, diante de um grupo de agricultores prejudicados pela seca, tentava incutir em suas mentes algo de técnico, como era do meu ofício. Lembro-me de, ao final, uma mocinha vir me entregar um papel, uma folha de caderno. Ali ela escrevera, em nome de seu pai, pobre agricultor, um relato dramático da sua situação, que era, na verdade, comum a todos.
Nas reuniões, no Escritório Regional em Santana do Ipanema, os colegas faziam chacota, achando engraçado aquele nome. Santa Cruz do Deserto... Pleno sertão, no caminho entre Mata Grande e Água Branca, antes de subir a serra. Muitas vezes passei por lá a caminho de Delmiro Gouveia, onde respondi, por menos tempo ainda, pelo Escritório Local.
Hoje, vendo um exemplar do Jornal do Penedo, edição de 25 de janeiro de 1879, encontro uma nota de alguém que se assina com o pseudônimo de “S.”, revelando como se fundou a capela daquele lugar. Como sei que muitos, talvez, não terão a oportunidade de ler, transcrevo a seguir:

“Lá, em um sítio solitário, quatro léguas acima da Mata Grande, Santa Cruz do Deserto é a primeira terra que se oferece aos olhos do que sobe de Terra Nova.
Quem sobe deste lugarejo, virando as costas para o sol, no fim de três léguas, a Norte de Pariconha, as eminências abaixando-se, retraindo-se, avista uma fita de terreno fértil e vicejante, assombrado de frescos arvoredos, qual é a planície abençoada da Santa Cruz do Deserto.
Em meio duma catinga esfarelada e rasa, entre serras que se arredondam, cingindo-a, o viajante pasma diante do espetáculo daquele sítio aonde se comove e exalta a cada passo.
É justamente o ponto mais vistoso deste sítio ameno e risonho que a piedade dos fiéis, muitos anos há, venerou, construindo uma capela, ou santuário, ornada de um só altar dedicado à Santa Cruz.
É célebre a história deste santuário, tão visitado pela devoção dos peregrinos, tão falado pelos seus grandes milagres.
Uma pia e velha tradição sustenta que, durante o ano de 1793, o famigerado Frei Vidal¹, que percorria a Província pregando e fazendo boas obras, descansou naquele ermo, então viçoso de ricos cedros e vistosos pereiros, cuja flor balsâmica recendia com fragrância a largo espaço.
Antes de prosseguir sua marcha, em memória da sua passagem por ali, mandou juntar duas achas de tosco e tortuoso cedro em forma de CRUZ e, benzendo-a, fincou-a no chão, ao lado esquerdo do atalho que dá para a Mata Grande.
Não muito depois do ano indicado, enfermo e desconfiado dos remédios da medicina, um rústico lembrou-se de invocar e abraçar-se com a valiosa proteção da SANTA CRUZ DO DESERTO. Sucedeu como a esperança lho prometia; porque, no mesmo instante, desapareceu o mal e voltou-lhe a saúde. Para logo o camponês fez cobrir a Santa Cruz, até então posta ao desabrigo, com uma pequena casa de oração.
Mais tarde, a primeira Família da Mata Grande, no seu tributo religioso, mandou construir ali uma Capela, que é a que ainda hoje existe.
Tal é o resumo da história do santuário, em que a reverência dos peregrinos, no ardor do seu entranhado reconhecimento, sagrou a sua memória dos grandes prodígios da SANTA CRUZ DO DESERTO, estampados nas paredes laterais e atulhados à direita e à esquerda da porta principal.
Contemplar aqueles testemunhos, tão eloquentes na sua mudez, é decerto exultar de alegria e ao mesmo tempo bendizer o símbolo sagrado da Redenção.
Ainda hoje, que tantas ruínas atestam a assolação carregada das iras celestes, que passou por cima das povoações vizinhas, ainda hoje SANTA CRUZ DO DESERTO como que só existe para nos apontar o que era e o que é: um padrão de glória.
Ontem, como hoje, no século que já lá foi, como no em que estamos, a Santa-Cruz do Deserto não foi invocada inutilmente. Esta é a razão por que, a cada passo, está sendo visitada por todas as classes e estados.
Ali o Cristo sincero exclama comovido:
— Senhor, Rei da Cruz, tenho fé; ajudai a minha fraqueza!
Ali os crentes simples de coração se consolam na doce esperança de que a suma retidão pagará as tristezas e trabalhos da vida presente com as venturas perenes, afiançadas  aos justos e fiéis.
Ali os corações devotos se abrasam no incêndio do amor para com AQUELE que se sacrificou por nós nos braços dolorosos da CRUZ.
— SALVE, ó CRUZ, esperança única!
— SALVE, verdadeira árvore da liberdade!
— SALVE, manancial de salvação e de GRAÇA!

Baixa do Meio, 10 de dezembro de 1878.

S.”

¹ O nome desse frade é Vitale de Frescarolo. Andou pelos sertões do Ceará, Pernambuco e outros Estados entre 1781 e 1820, onde ficou conhecido pelo nome de Frei Vidal da Penha (alusão ao convento da Penha, no Recife).

Igreja de Santa Cruz do Deserto. Fonte: Google Maps.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

16 DE SETEMBRO

Por Etevaldo Amorim 

Quem não se lembra, com saudade, dos desfiles de 16 de setembro em Pão de Açúcar?

Não sei por que razão, mas Pão de Açúcar sempre preferiu comemorar com mais ênfase a Emancipação Política de Alagoas. No 7 de setembro, apenas uma representação das escolas, um hastear de bandeiras, e só.

Depois de longos dias de ensaios, lá íamos nós, formados em pelotões, a desfilar, sob um sol escaldante, pelas ruas e avenidas de uma das cidades mais quentes do Brasil.

Os ensaios no Ginásio D. Antônio Brandão eram longos e carregados de tensão. Afinal, tudo tinha que estar perfeito no dia do desfile. O maestro da banda marcial – Zé Braz, ensinava os toques de comando para os movimentos da “tropa”. Dois toques: girar para a direita; três toques: girar para a esquerda. Vez por outra, alguém errava. E o diretor, Dr. Átila, corrigindo o deslize, bradava:

— DOIS É DIREITA MOÇA!!!!!

Todas as escolas se empenhavam ao máximo para fazer melhor. Além da formação clássica, com pelotões de alunos vestindo uniforme de gala, havia também os chamados “esportes”, pelotões temáticos, alusivos ou não à data cívica, mas que davam um tom de beleza e graciosidade. Em 1969, ficou particularmente famosa a alegoria à conquista da lua, com a nave Apolo 11. Famosos também ficaram os “Cavalos do Rosália”, pela entusiástica narração do vereador Pedro Lúcio que, do alto do Coreto, anunciava a aproximação dos grupos escolares, do ginásio e do colégio das freiras.

Ao escurecer, depois de voltas e mais voltas pela extensa Avenida Bráulio Cavalcante, todos se reuniam em torno do Coreto em frente à Matriz. Após o hasteamento das bandeiras, já de noite, as autoridades se esmeravam em discursos intermináveis, de improviso ou não, neste caso correndo o risco de iniciá-los com uma referência descabida a um “sol causticante”, que de há muito já desaparecera por detrás do Cavalete.

Ficaram, no entanto, as citações famosas, como aquela de Castro Alves, que nos ensinava que “a praça é do povo como o céu é do condor”.


domingo, 17 de agosto de 2014

SATUBA — 40 ANOS

A foto acima faz, hoje, quarenta anos. Ela mostra parte da Turma 1973/1975 do Colégio Agrícola Floriano Peixoto. Era 17 de agosto de 1974. Para comemorar a Emancipação Política de Satuba, uma representação do Colégio participava do desfile pelas ruas da cidade, sob a orientação do professor de Educação Física, José Carlos Lyra de Andrade. A indumentária já demonstra isso, pois diferia do tradicional uniforme de caqui com que frequentávamos as aulas todos os dias. Com esta publicação, homenageio os catorze colegas que aparecem na foto, e também os demais, que compunham as três turmas que acabariam por se tornar Técnicos Agrícolas no ano seguinte. A homenagem, infelizmente póstuma, ao colega Antônio Bezerra Brandão, falecido em desastre de avião agrícola, em 2010. Seus nomes aparecem no rodapé, acompanhados da cidade de origem.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

MAIS UM LIVRO SOBRE DELMIRO GOUVEIA

O livro "Delmiro Gouveia entre o mito e a realidade: seus empreendimentos e sua contextualidade no tempo e no espaço" reúne textos dos pesquisadores Sérgio Alves (UFPE), Eliseu Diógenes (UFAL) e Davi Bandeira (Abras/UFF), com prefácio de Jacques Marcovitch (USP), que além de abordar a trajetória do empreendedor Delmiro Gouveia, desvenda o sentido e a presença do mito traçando um paralelo com a singular capacidade realizadora desse emblemático industrial, compreendendo os aspectos gerenciais, organizacionais e a incipiente industrialização no Nordeste. Na obra, o leitor encontra múltiplos enfoques da antropologia, sociologia, administração, história e economia que propiciam uma melhor compreensão do “mito empreendedor”. A partir de JUNHO disponível na: Edufal – www.edufal.com.br Livraria Cultura – www.livrariacultura.com.br

sábado, 8 de fevereiro de 2014

PAIZINHO

Um conto de Hormino Lyra

Em uma tarde umbrosa e triste, dezenas de indivíduos que vinham acompanhar o féretro do desventurado esposo de Dona Emília, deixavam refletir nos olhos profunda mágoa. Fora homem tão digno...
As amigas da viúva escutavam-na com atenção, cercavam-na de cuidados e ora, como esta, também carpiam, ora proferiam palavras consoladoras.
Sentadas a um canto, meio assustadas, achavam-se duas inocentes crianças. Eram Carlos e Lili.
Quando em casa tudo serenou, iniciaram as duas crianças este diálogo:
— Aonde foi paizinho? Perguntou a menina ao menino.
— Morreu.
— Vovó disse que ele estava dormindo.
— Disse para enganar.
— Como?
— Ouvi mamãe dizer de noite, chorando tanto... tanto: “O meu filho tão pequeno , e já sem pai!”
— Não diga, Carlinho! Se eu soubesse, fazia barulho de choro quando os homens iam levando paizinho.
— Ele não ficava, Lili! Você não viu tanta gente grande chorando? Não levaram o paizinho assim mesmo?
— Ele não volta?
— Você não se lembra do papai da Nicota? Pois é: disseram que ele voltava, e...  até hoje!
Lili desatou em pranto.
Enquanto o irmão, também choroso, com delicadeza consolava a boa amiga, e uma senhora a conduzia ao colo, acautelando-a com bastante carinho, a criança, meio fatigada, deitava molemente a cabeça e acomodava um antebraço sobre os ombros de quem a acalentava e adormecia a soluçar de vez em vez.
Andavam sempre juntos aqueles inocentes, e comovia o mais empedernido coração quando falavam acerca do pai querido com saudade infinita. E tinham razão, pois o major reformado Josino Duarte, noutros tempos soldado destemido, era no conchego do lar manso cordeiro. Transformava-se a tal ponto que alguém, ao vê-lo humildo ao pé da esposa idolatrada e dos bem queridos filhos, lhe estranharia até a voz.
Duarte já era reformado, portanto maduro, quando resolveu casar.
No primeiro domingo, após aquele dia fatal, Dona Emília estava só em casa.
As amigas de sempre, passadas as primeiras horas da desventura, desapareceram quando mais precisava de que a viessem cercar de carinho e de cuidados, porquanto aquelas horas não ambicionava senão estar só, resistindo à dor imensa, sem uma voz a perturbar-lhe os intentos de vaga conciliação com a vontade divina.
Lili aproximou-se dela:
— Mamãe, ele nunca mais vem?
Fixou a filha com ternura e, a suspirar, beijou-a docemente na testa sem proferir palavra.
— Aonde está paizinho?
Volveu a triste mãe os olhos lacrimosos para cima.
— Não pergunto pelo papai do Céu...
— Deixe a pobre da mamãe sossegada.
E Carlos conduziu a irmã até a porta da rua.
— Lili — disse ele indicando o Cavalete — aquele morro fica bem pertinho do céu; e com certeza foi por ali que levaram daqui o paizinho querido.
— Se a gente pudesse ir lá...
— Bem que se pode, mas tenho medo.
— Pois eu não tenho, afirmou com singular convicção — A vovó diz sempre que São Pedro é o porteiro do Céu. E ele parece ser um velho muito bom. E, com certeza, lá em cima, a gente toca com a mão na porta...
— Porém, o Céu é grande... Se a porta não é ali por perto...
— Sim, mas a vovó diz também que Deus está em toda parte. Deus é amigo de tudo que é menino; e ele vai chamar São Pedro para abrir a porta.
Ficaram quietos, olhando um para o outro, como que a meditar. Súbito, Carlos pegou na mão da irmã e, em passos vacilantes, saíram de casa os dois pequerruchos.
O criado, antigo ordenança, que nunca deixou de acompanhar o Major Duarte, meia hora depois percorria a modesta cidade a indagar se sabia alguém o paradeiro das crianças. Disseram-lhe algumas pessoas ter visto os dois meninos caminharem em direção ao Morro do Cavalete.
Ao pé deste chegou o homem a procurar os pequerruchos. Conjecturara ser impossível andarem por ali. Que iriam fazer? Contudo, por descarrego de consciência, ia além. E lá se foi montanha acima.
Havia caminhado muito. Fá-lo-ia mais um pouco e tornaria à cidade, pois perdera toda a esperança.
Enquanto descoroçoava o criado, caminhando nas quebradas, em casa estava Dona Emília aflita com a ausência dos filhos; mas, e sem saber por que, tinha firme esperança em não lhe acontecer agora algum outro dissabor.
Caminhando à toa pelo morro andava o servo, já desanimado e triste por não conseguir encontrar os pequenos. Com bastante agrado, porém, ouviu inesperadamente voz débil, como de quem queria chorar:
“Venha por aqui, que ai tem muito espinho”.
Oh! Carlos e Lili...
Procuravam a porá do Céu!
Em seguida, vieram acompanhados do serviçal. E Dona Emília recebeu os filhos com alegria. E contaram eles a estranha aventura. E beijava-os docemente a pobre mãe e abraçava-os ao mesmo tempo a aconchegava as duas cabecinhas ao colo seu, embora lhes prometendo uns bolinhos quentes ou umas palmadas, se saíssem outra vez de casa como aves fugidas.
Ia caindo a tarde. O copado tamarindo, ao fundo do quintal, parecia atendo à empolgante serenidade que vinha deixando os espíritos abstraídos em  profunda meditação.
Tristeza indefinida. O sino da Matriz anunciava a hora da Ave Maria. Fazendo o sinal da cruz, Dona Emília dizia mentalmente a saudação angélica, com os lábios a tremer.  E ela a rezar, e as duas crianças olhando a mamãe com doçura, e o servo parado ali perto, todos guardavam silêncio.
Súbito, com meiguice encantadora, rompera-o a mimosa Lili:
— Um caro custo para a gente ver paizinho!

Publicado na Revista da Semana, RJ, 1º de agosto de 1942.
___________
Poeta, romancista e ensaísta, HORMINO ALVES LYRA nasceu em Pão de Açúcar, Alagoas, em 3 de agosto de 1877. Fez seus estudos secundários no Ginásio São João em Penedo, onde exerceu as funções de censor e lecionou com substituto de várias cadeiras.
Em princípio, pensou dedicar-se à vida eclesiástica. Entretanto, não obstante a sua crença religiosa, percebeu que não tinha vocação para o sacerdócio. Prestou, então, concurso para a Fazenda e para os Correios e Telégrafos. Aprovado em ambos, preferiu o segundo, sendo admitido como Telegrafista.
Escreveu para vários jornais e revista como O Malho e Revista da Semana.
Suas principais obras são: Dona Ede(romance), em 1913; O 14 (contos), também em 1913; O Barão do Triunfo, 1941, separada da Imprensa Nacional (memória); Crisol (poesia), 1960. Troveiro, 1960 (poesia).
Foi casado com Marieta de Mello Carvalho (filha do Coronel Augusto Álvaro de Carvalho e de D. Maria Luiza de Mello Carvalho), falecida em 5 de janeiro de 1961.
Hormino Lyra era irmão de Manoel Alves Lira (que foi prefeito de Pão de Açúcar no período de 08/06/1947 a 22/01/1947) e do Monsenhor Lyra (Fernando Alves Lyra), que dá nome a uma escola no povoado Lagoa de Pedra, onde nasceu (segundo Aldemar de Mendonça).

Hormino Lyra faleceu no rio de Janeiro em 13 de setembro de 1970.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

TRIBUTO A O. D. S

Caro Etevaldo:


Hoje ao acordar recebi a triste notícia da morte de Olavo de Zé Dias. 
Olavo Dias Santos ou O.D.S, este, poucos sabem era seu nome artístico, foi um dos pioneiros nas transmissões de rádio em Pão de Açúcar e isso também poucos sabem. Foi também, e é esse o ponto, um ilustre desconhecido e por isso mesmo mais um dos ilustres injustiçados pela cena cultural (se é que ainda existe) de nossa terra. Imaginem (e agora falo para os que dominam a cena midiática local), nos anos 1970, quando tivemos pelo menos três empresas ou pequenas e incipientes emissoras de rádio e em todas elas O.D.S. esteve presente, com sua habilidade incomum de operador de som, que à época se conhecia como "controlista". 
Olavo, com sua capacidade ímpar de dominar um picape (não era a camionete), conseguia a um só tempo dominar no prato dois ou mais discos, com isso tocando a característica musical do programa, a música pedida e, quando estava falando o locutor, também o fundo musical. Isso, tenho certeza, era e ainda é para poucos, respeitadas as qualidades técnicas de cada um. Era aquele monstro do rádio, o que hoje se chama de DJ, seja lá o que isso for. Acompanhei o renascimento do rádio em Pão de Açúcar e nos anos 1990 e nunca se falou nada sobre Olavo, assim como não se falou de Giseldo Belarmino e Adilson Menezes, estes, cada um com seu gênero próprio, que foram sem sombra de dúvida as duas maiores vozes de toda a região, numa época em que para se estar no rádio era preciso saber falar e, muito mais que isso, ter voz. Aquele que não tem voz pode ser radialista mas locutor mesmo que é o que conta, jamais o será. Conto essa pequena história porque dela participei ativamente. 
Poderia falar sobre o assunto durante horas ou em várias páginas, mas esse não é o momento. O momento, penso eu na minha insignificância, é de prestar uma homenagem ao maior de todos os DJs de nossa terra, uma pequena colaboração para que mais um dos nossos não passe em branco e não seja engolido pela cultura de massa, esquecido pelo que realmente importa. Fica aqui a sugestão para que aqueles que se interessam pela cultura em Pão de Açúcar procurem saber quem foi O.D.S., Giseldo Belarmino, Adilson Menezes, Rosevaldo Moura, Augusto César, Danúbio Lira, Murilo Amaral e tantos outros que fizeram o verdadeiro rádio. Sem qualquer recurso técnico, sem edição, pois, com diz o Faustão "quem sabe faz ao vivo". Quando digo quem foi é porque me refiro aos anos 1970, pois muitos deles ainda vivem. Olavo, meu amigo Olavo, o estúdio é seu, faça o que você sabe pois o show deve continuar. Olavo Dias foi juntar-se às também falecidas Organizações Globo de Publicidade, Antena de Publicidade de Pão de Açúcar e Serviço de Divulgação Avenida que, ao contrário do que se pensa, não descansarão em paz. A partir de hoje as transmissões de rádio no céu tocarão as melhores músicas, sem parar, agora sim, por toda eternidade.



Massilon

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Transcrevo, com muito prazer, comentário do meu amigo Massilon Ferreira da Silva, neste Blog, falando de Olavo Dias dos Santos, um dos pioneiros do rádio em Pão de Açúcar. Ele, Massilon, também um dos personagens dessa época de ouro da nossa terra. A todos os citados a nossa homenagem e o nosso reconhecimento, acrescentando ainda o nome de Ely Emir Silva Fialho.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

NOTÍCIAS CURIOSAS III

Deu no jornal paraense Diário de Belém — edição de 6 de março de 1888, uma curiosa notícia sobre uma figura cujos feitos são verdadeiramente extraordinários. Eis o texto:

“GASTRÔMOMO E ANDARILHO

Encontramos no Trabalho, folha que se publica em Pão de Açúcar, na província das Alagoas, a seguinte interessante notícia, da Vila de Traipu:

‘Há poucos dias faleceu neste município Ludovico de Souza Bispo, residente há muitos anos no Sítio Lagoa Grande.
Cidadão de têmpera antiga, trabalhador, com alguns bens da fortuna, Ludovico Bispo era considerado como homem de bem e um dos mais abastados fazendeiros destas regiões.
Além de tudo isto, o Sr. Ludovico tinha um estômago que era um colosso; era ainda conhecido como um andarilho de extraordinária nomeada e de uma força muscular de verdadeiro gigante.
Em resumo, damos aqui a notícia de alguns fatos extraordinários da vida do Sr. Ludovico, fatos estes verdadeiros e que estão no domínio da maior parte dos habitantes da Vila de Traipu.

— Ludovico Bispo, quando moço, por mais de uma ocasião, comeu de uma vez um quarto de boi criado, de tamanho regular, depois do que ainda servia-se de uma sobremesa relativa.
— Por brincadeira, comia oito litros de melaço com farinha.

Cinquenta e cem espigas de milho assava em uma caieira e deixava o sabugo limpo.
Em uma pescaria na Várzea Grande, do Traipu, quis fazer uma aposta para comer de uma vez um surubim muito gordo, da altura de uma vara, não realizando a aposta por terem certeza de que Ludovico ganharia.
Este que escreve estas linhas, em 1865, presenciou Ludovico querer fazer uma aposta para comer de uma vez um quarto de boi. Achavam-se presentes nesta ocasião diversas pessoas idôneas, que ainda hoje existem em Traipu.
O sítio de Ludovico dista da Vila de Traipu algumas poucas léguas; pois o herói muitas vezes mandava um dos seus vizinhos em um cavalo correndo a toda brida e Ludovico quando não chegava a Lagoa Grande juntos, era porque chegava primeiro. Fez isto por muitas vezes.
Nunca levou em conta cavalo algum para pegar gado: a rês mais brava e corredeira que houvesse, ele a pé, em poucos minutos, escorava-a.
— Ouvimos ele dizer uma ocasião, e deu testemunho, que correndo já havia pegado dois veados, isto quando tinha 18 até 22 anos.
Um novilho correndo, quando Ludovico segurava na cauda o detinha no momento!
Muitos outros fatos verídicos sabemos de Ludovico, porém agora deixamos de os relatar para não nos tornar mais prolixo.
O grande gastrônomo, o portentoso andarilho, o gigante, faleceu há pouco, sem nada poder suportar no estômago; neste estado já estava há meses; fraco, sem forças, não comia mais nem quarto de boi e nem mesmo a mais simples canja de arroz.’


Ora, ai está em que deu tanta guloseima.”

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

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Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia