sábado, 30 de setembro de 2017

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JOÃO LISBOA

Por Etevaldo Amorim
O fotógrafo, escultor e artista plástico
João Damasceno Lisboa


João Damasceno Lisboa, também conhecido por “Joãozinho de siá Marica” e “Joãozinho Retratista”, nasceu em Pão de Açúcar, Estado de Alagoas, no dia 6 de maio de 1900. Era filho de José Martins Lisboa e Antônia Alves, conforme consta do seu Registro de Casamento feito no Cartório de Pão de Açúcar. Já na Certidão de nascimento do seu filho Heraldo, consta ser a avó paterna Antônia Edina Lisboa. Seu pai, tendo ficado viúvo, casa-se, a 25 de junho de 1904, com Cândida da Conceição Simas, filha de Firmino Pereira Simas e Idalina da Conceição Simas.  Eram seus avós paternos: Aristides Martins Lisboa e Maria da Conceição Santos Silva. Órfão de mãe em tenra idade, foi criado por Maria Eunice da Conceição, conhecida por “siá” Marica.
A 25 de março de 1919, então com 19 anos, casa-se com Nominanda de Campos, filha de Luiz Paulo e Francelina Augusta de Campos, à época com 25 anos. O ato foi realizado na presença do Juiz do Segundo Distrito do Limoeiro, Manoel Vieira Dantas, que substituia o Juiz do Primeiro Distrito, Sr. Guilhermino Pastor da Veiga, tendo por testemunhas os Srs. Álvaro Machado e Octávio Brandão de Oliveira. O casal teve os filhos Heraldo Campos e Evandro.
Siá Marica, mãe adotiva de João Lisboa
Recebeu do artista pão-de-açucarense Segismundo Maciel as primeiras lições da arte de tirar retratos. Desde os tempos em que a fotografia era feita por processos rudimentares, João Lisboa tornou-se o melhor fotógrafo da região..
A pintura também despertou o seu interesse. Na igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, pintou toda a marquise, por ocasião dos festejos comemorativos do Centenário da Paróquia, em 1953.
“Seu Joãozinho” partiu então para voos mais altos. Em Pão de Açúcar, esculpiu os bustos de Bráulio Cavalcante, do Professor Antônio de Freitas Machado e do Presidente Médici, além das miniaturas dos Guerreiros de Bruno Giorgi e da Praça dos Três Poderes, além da estátua do Cristo Redentor do Morro do Cavalete, a sua obra mais relevante. Sua inauguração, que contou com cerca de 6.000 pessoas, se deu no dia 29 de janeiro de 1950. O monumento mede 12,80 m de altura, sendo que a figura tem 10 metros.
Pão de Açúcar em 1946. Foto: João Lisboa.
O Cristo Redentor do Morro do Cavalete, em Pão de Açúcar-AL
Foto: Duan Cícero,
Em Palmeira dos Indios, na Igreja Matriz, outra obra de João Lisboa: as imagens dos 12 Apóstolos. Em Santana do Ipanema, o busto de Adeildo Nepomuceno e o Jumento carregando água em ancoretas, como nos tempos em que a cidade não ara dotada de sistema de abastecimento de água.
João Lisboa esculpindo o busto de
Bráulio Cavalcante, em 1947.




Esculpiu ainda muitas estátuas do Padre Cícero Romão Batista, espalhadas por diversas cidades de Alagoas, bem como a do povoado Meirús, erigida em frente à igreja de Nossa Senhora da Luz, em 2 de outubro de 1971.
            Em 1933, segundo Aldemar de Mendonça em seu “Pão de Açúcar: história e efemérides”, João Lisboa inaugura o Cinema São José, em sociedade com Antônio da Silva Pereira. Entretanto, seu nome aparece como proprietário de um cinema no Almanak Laemmert de 1929.
          Faleceu em Pão de Açúcar a 1:30 h do dia 8 de dezembro de 1990.

sábado, 23 de setembro de 2017

RIO SÃO FRANCISCO: CAMINHOS DE PÃO DE AÇÚCAR

Por Etevaldo Amorim
1. CAMINHO DE PENEDO
O dia mal tinha amanhecido e já era intenso o movimento no porto. As mercadorias estocadas ao longo do cais eram, pouco a pouco, transportadas por vigorosos estivadores para o interior das canoas. De diversos tipos e tamanhos, essas embarcações eram capazes de levar aos confins do Sertão os produtos vindos de longínquas paragens.
Penedo é um entreposto comercial importante, de onde saem as mercadorias vindas do Sertão, em geral matérias primas; e entram os gêneros procedentes de outras partes do Brasil e até do exterior. Vapores como Alexandria, Rio Pardo, Javary; Almirante Jaceguay, Satélite e Iris (do Lloyd Brasileiro), Aracaty (da Companhia Comércio e Navegação), Philadelphia, Jequitinhonha, Marahu, e tantos outros, tocam o porto de Penedo enquanto fazem a navegação de cabotagem.
Navio atracado no porto de Penedo. Década de 1920.
Desde que se regularizou a navegação a vapor no São Francisco, no breve governo do Dr. Thomaz Espíndola, em 1867, o comércio tomara impulso. As feiras-livres de muitas localidades de ambas as margens eram abastecidas com uma grande variedade de produtos: a cerâmica do Carrapicho com suas moringas, quartinhas, alguidares, jarros; juntava-se às esteiras de piripiri, candeeiros de flandres, placas e lampiões, além de gêneros alimentícios típicos da Região, como malcasado, bolo e pé-de-moleque. 
Aproximei-me de alguns passageiros que, como eu, pretendiam embarcar rio acima. Este é o caminho natural para os que demandam a região sertaneja, tendo como extremo o porto de Piranhas, último ponto navegável do São Francisco em seu curso inferior. Daí em diante toma-se o trem da Estrada de Ferro Paulo Afonso até alcançar Jatobá, em Pernambuco.
Enquanto aguardava a colocação da prancha para o embarque, fiquei a observar o rio, divisando Vila Nova na margem oposta. Era uma imensa e impressionante massa de água, separando os Estados de Alagoas e Sergipe. Vendo-o assim pujante e majestoso, achei justificado o entusiasmo contido no depoimento de Maurício de Nassau[i]. Extasiado pela visão do São Francisco, registrou suas impressões com vivo entusiasmo. Segundo ele, o estuário tinha “largura igual à do Mosa antes do porto de Delft e tal correnteza que se não pode dizer”, para depois acrescentar:
“Em outra parte não se encontra um rio tão célebre e tão vantajoso, pois em certos trechos é tal a sua largura que não o atravessa uma bala de canhão de seis libras; é tal a sua velocidade e ímpeto, que as suas águas, impelidas longe da foz até o alto-mar, se conservam doces”.
Começam os preparativos. Movimentadas por potentes moitões, as velas iam sendo içadas até o topo do mastro, balançadas por leve brisa que soprava do mar.
Canoa de tolda com “pano de asa”, que precedeu o traquete, 
introduzido entre o final da década de 1920 e o início da década
 de 1930. Foto: livro Brazilian Cotton, entre março e setembro 
de 1921.
Comparando com a minha primeira estada em Penedo, notei diferença na panaria das canoas de tolda. Em lugar dos rudimentares “panos de asa”, que não eram mais que duas velas latinas juntas num mesmo mastro e postadas diante da tolda, tinham agora dois belos traquetes equipados com sistemas de roldana, que tornavam menos penoso o trabalho dos tripulantes. Com esse novo conjunto de velas seria agora possível aproveitar a força do vento mesmo rio abaixo. Regrando os panos (velas) em ângulo de menor grau possível em relação ao sentido longitudinal da embarcação, o piloto manobrava a canoa em movimento de zig-zag, chegando-se a quase tocar, ora numa margem, ora noutra. E ainda para obter maior vantagem, utilizavam a chamada tábua de bolina, peça triangular cujo vértice era preso à borda superior da canoa e que era submersa até abaixo do fundo da canoa.
Chega a hora de embarcar. Diante de nós estava o Comendador Peixoto, um belo e imponente navio gaiola, que ali chegara em 1920.
A firma penedense Peixoto & Cia (proprietária da Companhia de Navegação Fluvial do Baixo São Francisco) o comprara de uma empresa armadora com sede em Belém (PA), a Mello & Cia. Esta, por sua vez, o recebera, em 1909[ii], de um armador escocês. Construído naquele mesmo ano por Murdoch & Murray, sediada em Port Glasgow, Escócia, foi lançado ao mar a 8 de julho. Próprio para transporte de passageiros e de carga, o navio, de casco de ferro, tinha tonelagem bruta de 192 e, líquida, 144.
Nos rios da Amazônia, ele tinha o nome de Jaminauá. Na sua vinda para cá, partiu de Belém no dia 24 de janeiro de 1920, rebocado pelo vapor Oiapock com destino a Penedo.[iii] Logo recebeu nova denominação, em homenagem ao fundador da Firma, e logo se tornaria o navio mais popular de todo o baixo São Francisco.
Estamos a bordo. Os 32 metros de comprimento por 7,30 m de largura e 1,86 m de profundidade proporcionam boa acomodação e conforto para os passageiros de primeira classe, distribuídos nos seus oito camarotes. Os dois porões tinham capacidade de 170.300 m³.
A Companhia de Navegação possuía outro vapor, o Penedo, popularmente conhecido por “Penedinho”, adquirido em 1925 e que cumpria o contrato em épocas de vazante do rio[iv]. Com regalias de paquete, concedida pelo Aviso Nº 18, de 12 de março de 1926, expedido pelo Ministro da Viação Francisco Sá[v], o pequeno vapor de constituição metálica, foi construído nos estaleiros da firma T. H. Dreeme Holanda, com tonelagem líquida de 110 toneladas, máquina a vapor com propulsão a hélice, e caldeira com pressão de regime de 180 libras.
O vapor Penedo no porto de Pão de Açúcar.

Ainda a propósito da minha última passagem por Penedo, lembro que tive a agradável companhia do Professor Moreno Brandão. O prestigiado historiador e lente do Liceu de Penedo, considerado uma das grandes culturas de Alagoas, era membro de proeminente família do Sertão do Estado. Seu avô, Anacleto de Jesus Maria Brandão, hospedara o Imperador D. Pedro II quando de sua viagem à Cachoeira de Paulo Afonso, em 1859. Seu pai, o Dr. Félix Moreno Brandão, foi um dos médicos mais atuantes no combate ao Cólera, nas devastadoras epidemias que vitimaram fatalmente milhares de sertanejos.
O vapor Sinimbu no porto de Gararu (antiga Curral de Pedras). 
Fonte: site Gararu Fragmentos da História, Pedro Souza.
Naquela ocasião, não estava ali o vapor Sinimbu, invariavelmente escalado para as viagens mediante contrato com o Governo. À nossa disposição estava a lancha Moxotó, a que popularmente chamavam de “Chata”, utilizada normalmente em quadras de vazante do rio. Pelo seu menor calado, navegava mais facilmente no trecho entre Pão de Açúcar e Piranhas, desviando-se das pedras que saltam à superfície do rio, constituindo-se em perigo iminente para pilotos menos experientes.
Segundo Moreno Brandão, em História de Alagoas: a Moxotó era “uma chata, cuja peregrinação através das águas tão fortes e caudalosas é um verdadeiro milagre, tal é a fragilidade da referida embarcação”.
De fato, era mesmo um meio de transporte precário. Movida a vapor, tinha a chaminé à proa e rodas traseiras. Um pavimento superior, tido como primeira classe, era um vão completamente aberto, ocupando dois terços do comprimento total, ao final do qual se instalava o compartimento do comandante.
A Companhia Pernambucana de Navegação tivera recentemente prorrogada a autorização do Governo Federal para o transporte de passageiros e de carga entre Penedo e Piranhas. Pelo Decreto nº 12.218, de 27 de setembro de 1916, assinado pelo Presidente Wenceslau Brás e pelo Ministro de Viação e Obras Públicas, Augusto Tavares de Lyra, a Companhia faria uma viagem redonda por semana, com escalas, tanto na ida como na volta, nas localidades de Propriá (SE), Porto Real do Colégio (AL), São Brás (AL), Porto da Folha (SE, sendo o porto na povoação de ilha do Ouro), Belo Monte (AL), Traipu (AL), Curral de Pedras (SE) e vila de Pão de Açúcar (AL).
Os contratos previam a substituição da Moxotó por outro vapor que melhor se prestasse ao nosso tipo de navegação. Nada foi feito e o resultado foi o terrível acidente de 10 de janeiro de 1917, que vitimou treze pessoas, entre passageiros e tripulantes, constituindo-se no mais trágico acontecimento da história da navegação no curso baixo do São Francisco. Tendo a crer que, mesmo que se passem cem anos, tal fato será lembrado e lamentado pelos ribeirinhos de Alagoas e Sergipe.
 
A chata Moxotó rumo ao Sertão. Foto: Abílio Coutinho.
2.      CAMINHO DE PROPRIÁ
Impulsionado por possantes motores construídos por J. G. Kincaid & Co. Ltd., Greenock, Escócia, de propulsão a hélice, com caldeira cilíndrica alimentada a lenha, gerando um regime de pressão de 130 libras, o navio logo alcança Propriá. A bela cidade sergipana se mostra de longe pelas torres pontiagudas da matriz de Santo Antônio. É que, ao caminho principal para a minha Pão de Açúcar se ligam outros, portas de saída e de chegada em demanda a outros pontos do País. Com máquina a vapor de duplo “compound” de 45/145 HP, caldeira cilíndrica, o navio possuía também um gerador Castle Dínamo nº 7753 – Haddow & Company, Glasgow, Escócia.
Propriá é beneficiada pela Estrada de Ferro Leste Brasileiro. O último trecho, desde Timbó[vi] (Estado da Bahia), foi inaugurado em 1913, tendo a viagem inaugural do trecho Timbó-Propriá ocorrida a 5 de agosto de 1915 (ramal Murta a Capela, no governo de Oliveira Valadão (General Valadão), governador sergipano, natural de Vila Nova, 11.450 m). A inauguração do trecho final – Rosário-Propriá (73.119 metros) aconteceu a 7 de agosto de 1915[vii], com a presença do Secretário de Governo do Estado de Sergipe, Dr. Monteiro de Almeida, representando o Governador. A essa época, o deputado alagoano (de Quebrangulo) Natalício Camboim de Vasconcelos, já apresentava na Câmara Federal um Projeto que defendia a ligação da malha ferroviária de Alagoas a um ponto marginal do rio São Francisco (Porto Real do Colégio), fronteiro a Propriá.[viii]
Defronte a Propriá o vapor baixa âncoras. Algumas canoas, quase todas chatas com suas velas latinas enfunadas pelo vento que já soprava forte, partiram do porto em direção ao navio, que ficara ao largo. Por elas, passageiros e cargas seriam transportadas para a costa e, dali, para outras canoas que as distribuiriam para as localidades mais próximas: Colégio, Telha, Cedro de São João...
Porto de Propriá-SE, 1939. Canoas partem em direção ao 
vapor Comendador Peixoto. Foto: Edgard de Cerqueira Falcão
Entre os passageiros, desembarcaram o Sr. Agostinho Gonçalves, industrial, proprietário da bela canoa Marialva, uma das maiores do desse nosso rio. Entre os tantos que seguiam para o embarque, uma caravana do Touring Club da Bahia, composta de sete senhoras e treze homens, tendo à frente o Dr. Edgard de Cerqueira Falcão[ix].
Passageiros no interior do Comendador Peixoto, vendo-se em primeiro plano a caravana do Touring Club, liderada por Edgard de Cerqueira Falcão. Foto: Edgard de Cerqueira Falcão.
Cumprido esse primeiro porto, e tendo à direita Porto Real do Colégio, segue o Comendador rompendo a correnteza. Adiante São Brás, logo Traipu.
Um dos mais antigos municípios de Alagoas, Traipu é berço de notáveis personalidades: Manoel Gomes Ribeiro, o Barão de Traipu; o jornalista Achilles Balbino de Lelis Mello e, entre tantos outros, o Coronel Serapião Rodrigues de Albuquerque, pai de D. Rosa de Albuquerque, a primeira “Primeira-Dama” de Pão de Açúcar, esposa do Dr. Miguel de Novaes Mello, o primeiro prefeito. À esquerda, a exuberante Serra da Tabanga, temida pelos canoeiros pela ocorrência de ventos fortes e perigosos.
O sol principia a esconder-se no horizonte. Tendo-se à margem sergipana a pequenina povoação de Ilha do Ouro, a prudência manda interromper a viagem e pernoitarmos ali.
Ao amanhecer, um belo cenário se nos apresenta: o Morro dos Prazeres com sua capelinha construída em 1624. Defronte, a Barra do Ipanema. Logo a seguir, Belo Monte, a antiga Lagoa Funda. Ali nasceu o Dr. Miguel Alves Feitosa, que durante a viagem de D. Pedro II, em 1859, hospedou parte da sua comitiva, inclusive o Chefe de Divisão Barroso. Também ele, formado no Rio de Janeiro, foi um dos intrépidos combatentes nos tempos do Cólera.
Canoa de tolda navegando rio abaixo 
utilizando velas do tipo traquete,  equipada
 com “tábua de bolina”.
Foto: Edgard de Cerqueira Falcão.
Cruzamos com uma bela canoa de tolda a bordejar pela margem sergipana, carregada de lenha, a chamada “tonelada”, por certo destinada a alimentar as caldeiras das fábricas de tecido de Propriá, Passagem (Vila Nova, de Peixoto Gonçalves & Cia), Marituba (Piaçabuçu, de Joaquim Gonçalves) e Penedo. Essas indústrias representavam o desenvolvimento do Baixo São Francisco, absorvendo toda a produção de algodão. Por essa época, Pão de Açúcar, que havia perdido o território de Piranhas, emancipado em 1887, tinha uma área de 1.387 km² e população de 25.054 habitantes.[x] A produção anual de algodão em pluma foi de 352 toneladas (1941).
Transpondo o Morro do Morim, encimado pela centenária capelinha de Nossa Senhora do Rosário, eis que surge o Limoeiro, uma Vila pertencente ao município de Pão de Açúcar, cuja origem pode estar associada a sua igreja, marca da formação católica dos seus fundadores, no último quartel do Século XVIII. Feita sob invocação de Jesus, Maria e José, seus festejados padroeiros, a casa de orações teve iniciada a sua construção em 1782, vindo a ser concluída em 1787, cinco anos antes do enforcamento (no Rio de Janeiro) de Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, o “Mártir da Independência”. Conforme Vieira de Carvalho, teria sido construída por João Carlos de Mello, que lhe constituiu um patrimônio de seis vacas e uma légua de terras.
Do Limoeiro podemos vislumbrar a Fazenda Araticum, dos Tavares, com o Sítio São José; mais adiante a Fazenda Belém, da família Brito. Logo a seguir, a Ilha de São Pedro, sede do aldeamento dos índios Xocó, onde tantos missionários franceses e italianos se dedicaram á catequese, destacando-se entre eles Frei Doroteu de Loreto, que, nascido na Suíça e ordenado na Itália, ali chegou muito jovem, em 1849, e permaneceu até sua morte em 1878, em Piaçabuçu.
Prosseguindo pela margem alagoana, passamos a Santa Maria, o Jacarezinho, Santiago, Espinhos, até chegar ao Morro do Farias. Para evitar a forte correnteza e também os bancos de areia fronteiros ao Abaiti, aprazível morada do Dr. Luiz Machado, o vapor procura a costa de Sergipe, deixando para trás o Mocambo, conhecido reduto de população negra, o Jaciobá (propriedade do Dr. Seixas Dória) e, por fim, a Fazenda Niterói, antiga Tapera, do falecido Dr. Constantino Tavares.
Chegamos, enfim, a Pão de Açúcar. Porto raso, composto por longa praia, o navio ficou ao largo. A exemplo do que ocorrera em Propriá, logo vieram as canoas para o embarque e desembarque de passageiros e cargas.
Morro do Cavalete, Pão de Açúcar, 1939. Foto: Edgard de 
Cerqueira Falcão.
Desembarco para ver a cidade. A Oeste o Morro do Cavalete, em cujo cume ergueram um cruzeiro por ocasião da passagem para o Século XX. Mais acima, o Sítio Pau Ferro, antiga propriedade do poeta João Vieira Damasceno Ribeiro. Dali por diante, para além do cemitério, uma estrada para a Ilha do Ferro e sítios da Região de Cima. Atravesso o extenso areal e alcanço a Rua Ferreira de Novaes, cuja denominação reverencia a memória do jovem advogado e deputado provincial falecido no primeiro desastre da Estrada de Ferro Paulo Afonso, em 17 de julho de 1880. Vejo logo ali o sobrado que fora de seu pai, o Major João Machado de Novaes Mello, e que serviu de Casa da Câmara a partir da Emancipação em 3 de março de 1854. Na mesma Rua da Frente, como também a chamam, há o sobrado do Dr. Jovino da Luz, proeminente homem de letras.  Prossigo até chegar diante da Matriz do Sagrado Coração de Jesus, já na Avenida Bráulio Cavalcante, nome dado à antiga Rua do Meio em homenagem ao jovem jurista, trágica e prematuramente falecido em frente ao Palácio do Governo, em Maceió, durante manifestação política em prol das candidaturas do Cel. Clodoaldo da Fonseca e de Fernandes Lima ao Governo do Estado, a 10 de março de 1912.
O Comendador Peixoto no porto de Pão de Açúcar. Acervo: Tonho do Mestre, Pão de Açúcar.

 
3. CAMINHO DO CENTRO.

Além da rota natural, feita pelo rio, outros caminhos se ligam a ela. O Limoeiro, por exemplo, embora não passasse de pequenina povoação, servia de porto para localidades mais afastadas, a que os nativos denominavam “Centro”, em contraposição  àquelas situadas à beira do rio. Era o caso de Jacaré, Guaribas e Retiro. Mercadorias eram transportadas em carros-de-boi. Por ali saiam algodão em rama e também lã, produzida pela fábrica de seu Mário Vieira.
Pão de Açúcar também é, como sempre foi, entreposto comercial para as cidades e povoações do Centro. Tapera, em seu território, Olho D’Água das Flores, Santana do Ipanema, além de outras de menor importância, serviam-se do seu porto.
Valho-me do relato de Dantas Barreto, em viagem iniciada no Recife em 16 de dezembro de 1890.
“Pão de Açúcar, se não conserva a mesma serenidade com que outrora se mostrava entre as suas irmãs do S. Francisco, ainda lhe resta, contudo, alguma vida, que se manifesta pelo seu comércio com o interior de Alagoas e mesmo de Pernambuco.”
Em muito contribuiu para isso a construção da estrada Pão de Açúcar – Santana do Ipanema, passando por Olho D’água das Flores. Em 1929, portanto há dez anos, o então Prefeito Padre José Soares Pinto contribui consideravelmente com o Governo Estadual, tendo à frende o Dr. Álvaro Corrêa Paes, na ampliação da malha viária, abrindo novas estradas, continuando os esforços iniciais dos governadores Fernandes Lima e Costa Rego.
A propósito desse fato, o Diário de Pernambuco, em sua edição de 13 de outubro de 1929, registra:
Dessas estradas de interesse local se salientam pela perfeição de seu acabamento a que se dirige de Pão de Açúcar para Santana do Ipanema e a que vai desta para Palmeira dos Índios.”, para depois concluir: “Os gabos que se fazem a essas rodovias são unânimes e recaem sobre os prefeitos que as fizeram: o Padre Soares Pinto, de Pão de Açúcar; e Graciliano Ramos, de Palmeira dos Índios.”

4.      CAMINHO DE PIRANHAS.

Tem-se, por fim, o último caminho. De Penedo até Piranhas percorre-se 238 km. Daí em diante tem-se o obstáculo das cachoeiras, com 128 km até Jatobá, em Pernambuco, trecho entre as cachoeiras de Paulo Afonso e Itaparica. Contrapondo-se à proposta de Halfeld, que contemplava a construção de um desvio do rio, foi aprovada a ideia do Engenheiro Krauss, que encontrou a solução do contorno por uma linha férrea. Assim foi concebida a Estrada de Ferro Paulo Afonso, por decisão do Ministro Cansanção de Sinimbu.
Desembarco em Piranhas e tomo o trem para a Pedra. De lá me transportarei para o futuro, de onde contemplarei os avanços e retrocessos a tudo quanto foi aqui descrito.
Por hora, despeço-me dos meus companheiros de viagem. Viagem imaginária, de ficção, porém, calcada na mais pura realidade, cujo engenho só nos é permitido pelos caminhos da História.
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Publicado originalmente no jornal Campus/O Dia, edição de 16/09/2017 e no Blog do Sávio Almeida: http://luizsaviodealmeida.blogspot.com.br/2017/09/rio-sao-francisco-caminhos-de-pao-de.html.

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NOTA:
Caro leitor,
Este Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, contém postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso algumas delas seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também a necessária citação de autoria e as referências citadas. Isso é correto e justo.
Segue abaixo, como exemplo, a forma correta de referência:
AMORIM, Etevaldo Alves. RIO SÃO FRANCISCO: CAMINHOS DE PÃO DE AÇÚCAR. Maceió, Setembro de 2017. Disponível em: http://www.blogdoetevaldo.blogspot.com.br/. Acesso em: dia, mês e ano.


[i] MELLO, Evaldo Cabral de. NASSAU GOVERNADOR DO BRASIL HOLANDÊS. São Paulo. Companhia das Letras, 2006.
[ii] LOUREIRO, Antônio. As Empresas Armadoras da Amazônia. Blog do Francisco Bomes. Disponível em<http://www.franciscogomesdasilva.com.br/as-empresas-armadoras-da-amazonia/>. Acesso em 22 jul 2017.
[iii] O Estado do Pará, edição de 25 de julho de 1920, p. 7
[iv] Diário de Pernambuco, 14 de novembro de 1925, p. 2.
[v] Gazeta de Notícias (RJ), 13 de março de 1926; Diário Oficial da União, 13/03/1926.
[vi] Atualmente chamada Esplanada.
[vii] O Paíz, RJ, 8 de agosto de 1915. P. 2.
[viii] Jornal do Penedo, 22 de novembro de 1922, p. 3.
[ix] Médico, autor do livro Roteiro de Paulo Afonso. FALCÃO, Edgard de Cerqueira. ROTEIRO DE PAULO AFONSO. São Paulo. Livraria Martins, 1942.
[x] O Observador Econômico e Financeiro, RJ, Ano V, nº 60, janeiro de 1941, p. 66.

sábado, 24 de junho de 2017

BREVES TRAÇOS BIOGRÁFICOS DO DR. THOMAZ ESPÍNDOLA

Dr. Thomaz do Bomfim Espíndola
Por Etevaldo Amorim

Thomaz do Bomfim Espíndola nasceu em Maceió no dia 18 de setembro de 1832. Seu pai, Florêncio do Bomfim Espíndola, foi membro da Câmara Municipal de Maceió nos idos de 1844, quando do governo de Bernardo de Souza Franco.[i] Sua mãe, Luzia Roza do Bomfim Espíndola, falecida em Maceió a 21 de outubro de 1895. Tinha como irmãos Januário Domingos Espíndola e André de Carvalho Espíndola.
Formou-se pela Faculdade de medicina da Bahia em 17 de dezembro de 1853, contando 21 anos de idade, tendo defendido a tese Dissertação “Acerca da Influência Progressiva da Civilização Sobre o Homem”. Aliás, no seu último ano na Faculdade, juntamente com os colegas do 6º Ano[ii], colaborou na redação d’ O Acadêmico, periódico científico e literário sob a direção de Joaquim Esteves da Silveira, impresso na tipografia de Epiphanio Pedroza, na Rua dos Capitães, nº 49-A. Nele escreveu o artigo “Algumas considerações sobre o tratamento médico dos aneurismas”, em 24 de abril de 1853”
Voltando à Província, estabeleceu-se nesta capital adquirindo pelo trabalho de sua profissão médica e grande clínica a bem merecida fama de médico exímio.
No exercício de sua nobre profissão, prestou os mais relevantes serviços, já no desempeno de diversas e importantíssimas comissões médicas, algumas gratuitamente, nas críticas épocas das epidemias de Cólera Morbus, Febre Amarela e outras, desde 1853 e 1871, já na sua clínica particular. Nunca recusou nem a um enfermo sua assistência a qualquer hora do dia ou da noite, dentro ou fora desta cidade. Para ele não havia cômodos nem mau tempo, desde que seus serviços eram reclamados a cabeceira de qualquer enfermo pobre ou rico, desvalido ou poderoso.
Ocupando o encargo de presidir, na ausência do Conselheiro - Visconde de Sinimbu, o diretório do Partido Liberal em Alagoas, fez por muitos anos parte ativa da imprensa como um dos mais ilustrados redatores  do órgão do partido – O Liberal.
Após ser nomeado Lente de Geografia, Cronologia e História do Lyceu de Maceió, no dia 5 de fevereiro de 1855, Thomaz Espíndola recebeu do presidente da Província, Sá e Albuquerque, a incumbência de fazer o levantamento estatístico e geográfico de Alagoas, trabalho que só foi concluído em 1860.
Eleito para a Assembleia Provincial pelo Partido Liberal, na legislatura 1860-61, pelo 1º círculo; reelege-se em 64-65, já agora pelo 1º distrito, e volta a se reeleger em 1866-67, ainda pelo mesmo distrito. Autor, entre outros, do projeto que criou a Biblioteca Pública Estadual. Foi Deputado Geral nas legislaturas 1878-81 e 81-84, pelo Partido Liberal.
Quando se lançou candidato a essa última Legislatura, dirigiu aos eleitores do 1º Distrito a seguinte mensagem:
“Quando, em 1860, as minhas convicções políticas unidas aos desejos de ser útil ao meu pais, máxime à minha província, à qual consagro meus constantes labores  pelo seu bem estar e grandioso futuro, levaram-me, mui espontaneamente, a partilhas das fadigas e sacrifícios dos lidadores da liberdade, amigos do progresso da Nação Brasileira, tive sempre como dever de honra respeitas as opiniões dos meus adversários, defender quanto em mim coubesse os direitos dos meus correligionários e amigos; sem comprometer a lealdade do político sincero e honesto, que só vence quando persuade, que só quer a conquista do direito, da justiça e do merecimento.
Desvaneço-me, sem o menor vislumbre de vaidade, em asseverar que os atos de minha vida, nos combates das urnas, da imprensa e da tribuna, são testemunhos eloquentes e irrefragáveis de minha dedicação e amor às instituições do meu partido. Firme nas minhas convicções, certo da lealdade e patriotismo dos meus correligionários, convicto da sinceridade e esforços de meus amigos, venho apresentar-me candidato à Representação Nacional nas próximas eleições, sem receio de que as contrariedades d’ocasião me façam sucumbir!
Senhores eleitores, a Lei nº 3029, de 9 de janeiro de 1881, acurado estudo dos políticos sinceros e amigos dos brasileiros, vos elevou a uma identidade moral e independente e vos deu uma existência própria  - livrando-vos de serdes feitura  de quem vos constrangesse e violentasse no exercício de vossos direitos políticos; assim no gozo de tão ampla liberdade não encontrareis embaraço, nem tropeços em vossa escolha, que será expressão genuína de vossa vontade.
Honrado em todos os tempos com o consenso e apoio de muitos de meus comprovincianos, que, como vós, exerciam o direito do voto, declaro-me candidato pelo 1º Distrito desta Província, assegurando-vos desde já minha perdurável gratidão pela distinta honra que me fizerdes.
Maceió, 25 de maio de 1881 – Dr. Thomaz do Bomfim Espíndola”
Como presidente da Câmara Municipal, tomou posse no governo de Alagoas a 30/07/1867, permanecendo até 6 de agosto. Nesse curto espaço de tempo, apenas sete dias, um acontecimento importante aconteceu: foi inaugurada a navegação do Rio São Francisco, unindo Penedo a Piranhas.
Nomeado, em 30/01/1878, 1º Vice-presidente, assume a administração em 8 de fevereiro, permanecendo até 11 de março do mesmo ano. Ocupou, ainda, os cargos de inspetor-geral da Instrução; inspetor de Higiene; professor de Geografia, Cronologia e História do Liceu Alagoano. Patrono da cadeira 11 da AAL. Sócio efetivo do IHGAL - empossado em 18/02/1870. Patrono da cadeira 38 do IHGAL.
Obras[iii]: Geografia Física, Política, Histórica e Administrativa da Província de Alagoas, Maceió: Tip. do Jornal de Maceió: 1860. Dessa obra foi tirada uma segunda edição, corrigida e aumentada, sob o titulo Geografia Alagoana ou Descrição Física, Política e Histórica da Província das Alagoas, O Liberal, Maceió: 1871; Profilaxia do Cólera Morbus Epidêmico, Sintomas, Tratamento Curativo Desta Moléstia, Dieta, Convalescença, Considerações Gerais e Clinicas, Ceará: 1862; Relatório com que o Dr. Thomaz Bomfim Espíndola, Presidente da Câmara Municipal de Maceió: Entregou a Administração da Província de Alagoas ao 1º Vice-Presidente Dr. Francisco Duarte, em 06/08/1867. Descrição das Viagens do Dr. José Bento Cunha Figueiredo Júnior ao Interior da Província de A1agoas, Maceió: 1870; Viagem do Presidente da Província Francisco de Carvalho Soares Brandão a Povoação de Piranhas e Paulo Afonso, Maceió: 1878; Relatório da Instrução Pública e Particular da Província das Alagoas, Maceió: Tip. do Bacharel Felix da Costa Moraes, 1866; Elementos de Geografia e Cosmografia Oferecidas à Mocidade Alagoana pelo Dr. T. do Bonfim Espíndola, Maceió: Tip. da Gazeta de Notícias, 1874.
Era sócio efetivo, e foi por diversas vezes eleito Vice-Presidente do Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano, e de muitas outras associações científicas, bilaterais e beneficentes desta, de outras províncias, e estrangeiras, como, por exemplo: do Instituto Médico Pernambucano.
Pelos seus serviços à causa da humanidade e da instrução popular, mereceu  do governo imperial ser agraciado com o hábito de Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa e depois com o oficialato da mesma Ordem.”
Casou-se em primeiras núpcias com a Srª Maria Idalina Coutinho, com quem teve os filhos: Octaviano e Maria Idalina. Octaviano Coutinho Espíndola, médico formado pela Faculdade do Rio de Janeiro em 1883, que se casou com a Srª Eugênia Bicudo[iv], filha do Barão de Itapeva (Inácio Bicudo de Siqueira Salgado), de abastada família de Pindamonhangaba, Estado de São Paulo, onde faleceu em 12 de junho de 1895. Já a sua filha, Maria Idalina Coutinho Espíndola, casou-se com José de Amorim Salgado (o Barão de Santo André, em 1883, proprietário do Engenho Santo André, Barreiros, Pernambuco).
Maria Idalina Espíndola Salgado,Baronesa de 
Santo André. Fonte: Fundação Joaquim Nabuco.

Viúvo de Maria Idalina, o Dr. Espíndola contraiu segundas núpcias, em 26 de janeiro de 1884, com Emília de Andrade, filha única do Comendador Eugênio José das Neves Andrade (natural de Coimbra, Portugal e naturalizado brasileiro, falecido a 27 de julho de 1896) e de Henriqueta Pinto de Andrade (casados a 14 de fevereiro de 1844, ela filha de Antônio Luiz Pinto e Maria Rosa do Rego).
Nascida a 2 de dezembro de 1844, Emília também era viúva, já que houvera se casado, em 6 de agosto de 1870, com o comerciante José Joaquim de Oliveira, que faleceu em Paris, a 10 de abril de 1882, onde foram buscar alívio para a moléstia que o acometia. Com o falecimento do Dr. Espíndola, voltou a se casar, desta feita com o negociante Joventino da Silva Cravo, em 25 de abril de 1896, de quem se divorciou, depois de rumoroso processo judicial em que o esposo era acusado de mal administrar a sua fortuna. Ela era co-proprietária dos Trapiches: Segundo e Faustino, em Jaraguá.
Do consórcio com D. Emília, o Dr. Espíndola teve três filhas: Alice, que veio a se casar com o negociante Simeão de Oliveira e Silva; Elisa, que se casou com Eugênio Teles da Silveira Fontes; e Eponina, que faleceu a 3 de maio de 1889, com apenas dois anos e meio de idade, pouco antes de se completar dois meses do falecimento do pai.
Faleceu às 10 horas da noite do dia 6 de março de 1889, no palacete nº 1 da rua 1º de Março, em Maceió, vitima de “congestão do bulbo medular”, segundo atestou o Dr. Manoel José Duarte. Há, entretanto, um dado contraditório: segundo consta no registro de óbito emitido pelo tabelião Agnello Castilho de Aguiar, teria ele falecido aos  64 anos de idade. Para ser isso verdadeiro, ele teria que ter nascido em 1825 e não em 1832, como informam diversas fontes.
Após o falecimento do pai, Elisa se tornara noiva de Francisco José de Oliveira e Silva, tendo sido já anunciados os proclamas. Porém, esta desistiu do casamento. O noivo então, profundamente contrariado e possesso, adentrou a sua residência e a feriu com 12 punhaladas, tendo ela, felizmente, ficado com vida.[v] Isso aconteceu no dia 28 de janeiro de 1901.
A mesma Elisa viria a ser, anos depois, a 25 de outubro de 1919, vítima de outro membro da família. Um seu sobrinho, estudante de engenharia Aguinaldo de Oliveira e Silva, que lhe desfechou vários tiros de revólver, vindo ela a ficar em estado grave.[vi] Dias depois, por conta dessa notícia veiculada no Correio da Tarde, de Maceió, o mesmo jovem agrediu o seu diretor, o jornalista Costa Bivar.[vii]
Thomaz Espíndola empresta seu nome a uma das principais avenidas da Capital alagoana, no bairro do Farol, importante ponto de intersecção da parte baixa com as regiões altas da cidade.
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Caro leitor,
Este Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, contém postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso algumas delas seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também a necessária citação de autoria e as referências citadas. Isso é correto e justo.
Segue abaixo, como exemplo, a forma correta de referência:

AMORIM, Etevaldo Alves. Maceió – Praças e monumentos (Floriano Peixoto). Maceió, Abril de 2015. Disponível em: http://www.blogdoetevaldo.blogspot.com.br/. Acesso em: dia, mês e ano.



[i] Diário Novo, 22 de outubro de 1844.
[ii] Com a colaboração dos acadêmicos Américo Marques Santa Rosa, Benjamim Constâncio Franco de Sá, César Augusto Marques, Hermógenes de Miranda Souto, José Augusto de Souza Pitanga, Pedro Autran da Matta e A. Junior, Sinfrônio César Coitinho, Thomaz do Bomfim Espíndola; e dos Srs. Dr. Antônio Gonçalves Dias, Dr. Ascânio Ferraz da Motta, Dr. Demétrio Cyriaco Tourinho, Dr. Domingos Rodrigues Seixas, Eng.º Firmo José de Mello, Dr. Joaquim Alves de Araújo Amazonas e Dr Sallustiano José Pedroza.
[iii] BARROS, Francisco Reynaldo Amorim de. ABC DAS ALAGOAS.
[iv] Correio Paulistano, 12 de setembro de 1890, p. 2.
[v] O Lynce, Rio de Janeiro, 8 de fevereiro de 1901.
[vi] Diário de Pernambuco, 1º de novembro de 1919.
[vii] A Províndia, Recife-PE, 20 de janeiro de 1920.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O NAUFRÁGIO DA MOXOTÓ - FAZ CEM ANOS HOJE

Faz cem anos hoje do naufrágio da lancha Moxotó, no Morro do Belmonte, entre os povoados Bonsucesso (município de Poço Redondo, SE) e Ilha do Ferro (município de Pão de Açúcar, AL).
Segundo Everaldo Fernandes, a comunidade do povoado Bonsucesso, a ONG Carranca e a Paróquia de Poço Redondo estarão celebrando uma missa no local para lembrar o fato centenário.

Acesse o link abaixo e conheça um pouco mais dessa tragédia:

http://blogdoetevaldo.blogspot.com.br/2009/05/o-destino-da-moxoto-etevaldo-amorim.html

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

ASSASSÍNIO DE UM BANDIDO

Por Hormino Lyra[i]
Havia ao norte de Pão de Açúcar, pitoresca cidadezinha alagoana à margem do São Francisco, e distante doze quilômetros da mesma cidade, lugarejo aprazível denominado Meirús, com as suas palhoças, tijupás, choupanas, casas de barro, pau-a-pique; umas cobertas com telhado de colmo, outras, com telhado de telha vã.
Nesse lugarejo aparecera velho religioso, Frei José de São Jerônymo, que ali se sentira bem, muito feliz, pois gozavam os olhos em rever todo o dia aquele delicioso pedaço de terra brasileira, recanto abençoado das Alagoas, que lhe lembrava um painel antigo, presépio encantador.
Com o auxílio dos habitantes dali, dos das suas cercanias, revolveu erigir lá uma capela, onde dizia as missas, e pregava ao modesto e meigo rebanho, cujas almas cândidas, como brancas pombas, feitas de piedade e de fé, criam piamente na lealdade, no saber do bom velhinho, criam ardorosamente nas verdades da religião.
Morou frei José ainda muitos anos no referido lugarejo, ao qual batizara de Campo Alegre, que hoje é povoação, tendo já, como base de progresso industrial, grande máquina de extrair a semente da penugem algodoeira, ou, como se diz vulgarmente, de descaroçar algodão.
Um dia, nos Meirús, entrara Zé Cururu, inesperadamente, na venda de Manoel Pedro Paulo, mais conhecido por seu Chico da venda, quando estava o sol quase no ocaso.
Palestravam ali alguns desocupados; a presença do bandido cortou o fio da palestra. Seguiu-se, em longo intervalo, profundo silêncio.
Ele que, apesar de sexagenário, tinha a cabeleira apenas grisalha, era o mesmo homem de sempre: vigoroso, forte, com a severidade no olhar e o hábito antigo de pouco encarar as pessoas com quem falava.
Ao entrar na casa do seu Chico da venda, havia saudado laconicamente os circunstantes com um “ora, vivam, meus senhores!” e a que lhes corresponderam todos com “Deus lhe dê boas tardes!”.
Para romper o silêncio, sem ter assunto, dirigiu-se Manoel Pedro Paulo ao recém-chegado:
- Não sei por que, tive pressentimento de que o senhor estava no povoado.
- Como?
- Ah! É esse meu dedo que adivinha!
Em seguida, fechou a mão, e, esticando os dedos, um por um, disse, por fazer espírito:
- Dedo mindinho, o seu vizinho, o pai de todos, fura bolo, mata piolho. Adivinham todos eles até quando vai chover.
- Porém, foi o mindinho que adivinhou a minha vinda! Está bem...
- Então, como lhe trata essa gente por aí afora, ou por outra, como trata o senhor os filhos da Candinha?! Anda tudo debaixo do cutelo, não?!
Zé Cururu era indivíduo de poucas palavras; porém, quando lhe falava alguém das suas façanhas, ficava facilmente comunicativo. O vendeiro assaz conhecia o fraco dele.
- Ora, seu Chico! Já não sou quem dantes era!
- Noto que o senhor é a mesmíssima pessoa de todos os tempos: está bem disposto, não envelhece... E, lá isto é verdade, sempre foi muito valente!
Envaidecido, o facínora, que nunca sorria, o lábio superior encrespara-se a tremer, quando ensaiara sorriso, tal como o cão que rosna.
Velho criminalista, num só gesto, no próprio sorriso de um Zé Cururu, descobriria a tara do indivíduo propenso ao mal... do criminoso nato!
- Não me considero valente, sim doido; porque quem faz o que ainda faço, não tem juízo perfeito. Para verem vocês se sou doido ou não, basta contar-lhes o caso seguinte:
Tinha eu bela rapariga em casa de uma tia velha perto de Santana. Estávamos combinado, já com tudo pronto, a fim de seguirmos para a minha casa, no Sertão de Pernambuco. Conversava com a rapariga, quanto certa vez entrou apressadamente a tia, e avisou-me: “Fuja, seu Zé, que vi um horror de soldados ali, na ribanceira; Prá mim, andam a vê se descobrem aqui a casa, prá darem o cerco!”
Os homens estavam acampados a meia légua. Nunca tinha tido eu soldados tão perto de casa!
Como nada faltasse para empreendermos a viagem, ajudei a aparelhar os cavalos; e, em vez de ir-me embora sossegado, mandei a rapariga com a tia velha – “vão indo, que me vou encontrar já com vocês”;
Que fiz?... Uma taioca foi mexer com um enxú!
Conduzi, de mansinho, o cavalo pelo cabresto, deixei-o amarrado no tronco da aroeira, no mato fechado; saí, pé ante pé, e grande foi o meu espanto, quando me encontrei cara a cara com o alferes comandante da força! Vinha este, também, pé ante pé, a ver se bispava alguma coisa, e quase desmaiou quando deu comigo!
Fiquei na frente do homem por espaço de vinte segundos, olhando firme para ele. Como nada me dissesse, puxei da faca e degolei-o com menos dificuldade do que o faria a um porco; porque este ao menos arrelia, grunhe, faz barulhos dos seiscentos mil diabos. Oh! Nunca vi bicho tão de ânimo tão fraco do que esse tal alferes!
Mal acabava de fazer esse serviço, eis que surgem dois soldados que mais atrás vinham acompanhando o Alferes. Ai fui mais ligeiro: com disparo de bacamarte fim um deles aninhar ali mesmo. Quis o outro dar volta, enleou os pés nos cipós, caiu de borco – dei-lhe com a coronha na cabeça, e enviei-lhe a faca no cachaço, que foi sair no gogó!
Logo percebi que o resto da tropa havia de se assuntar, ouvindo o ronco da boca do sino. Dei imediatamente volta para a aroeira, onde o rosilho estava amarrado. Suspendi com o a pistola de dois canos que trazia o alferes e a respectiva munição, que tinha o oficial na bolsa de couro, presa no cinturão. Segurei a carabina que trazia um dos soldados e todas as balas que vinham nas cartucheiras.
A tropa ficou assustada, porque conheceu, pelo estrondo, que o disparo não era de carabina, nem de pistola. Achei era a ocasião de confundir o pessoal que, porventura, tivesse internado no mato; e carreguei o bacamarte que, pela segunda vez, trovejou muito mais forte, muito mais pavoroso que o bramido de velha onça faminta!
Montei no rosilho, que estava fogoso como nunca, dei grande volta pela lomba e fui, depois de algum trabalho, descobrir a Força numa baixada, já com o corpo do alferes e dos dois soldados!
Pareciam estar indecisos sobre o que haviam de fazer. Com a própria carabina, derrubei um inferior. O pessoal perdeu o tino, e disparou por toda a parte. Fui matando soldados, enquanto não os perdia de vista”.
- Pelo que vejo o Senhor não erra pontaria! – admirou-se Manoel Pedro Paulo.
- Pois então! Na minha vida, desde que fiz de mim celerado, consagro todo o tempo que posso em assestar a espingarda na direção de qualquer alvo, porque entendo assim: uma vez que o indivíduo escolhe certa profissão, seja boa ou má, deve aperfeiçoar-se na especialidade! A minha especialidade era assassinar; logo, tinha eu estrita obrigação de saber manejar a faca com perícia, e de não errar o alvo! Este era sempre qualquer homem que passava na estrada, quando calculava ser indivíduo desclassificado.
Entendo tanto ter direito de viver o beija-flor inofensivo, como o indivíduo desclassificado, ou ainda outro qualquer; pois desde que Deus castigou o gênero humano com o mau sentimento da inveja, o homem ficou sendo o pior animal do mundo!
- O senhor há de ter muitas mortes nas costas! – disse o vendeiro.
- Penso que nenhum bandido do Brasil terá maior número de mortes do que eu.
- Não exagero, não! Estou com mais de sessenta anos nos costados e, desde a idade de dezesseis anos, a minha vida tem sido de exercícios, a fazer pontaria... não lhes digo nada: nunca alvejei passarinhos...
Chegara, então, um rapazola analfabeto, de dezoito anos, quase banguela, cor de ocra, o tipo perfeito da indolência, com o abdome muito volumoso, maltrapilho, pés descalços, e o qual, há muito tempo, conhecia de nome o célebre Zé Cururu, grande bandido, de cujas façanhas falavam todos. O recém-chegado, que descascava um pedaço de aipim cru, com ordinária faquinha de ponta, do qual arrancava lascas com os caninos esverdeados para as engolir – dirigiu-se ao vendeiro sem ter saudado os presentes.
- Seu Chico, quero dez réis de vinagre e dez réis de azeite doce nesta garrafa; quero dois vintém de gás neste fuxiqueiro.
Interrompeu o Zé Cururu:
- Antes de atender a esse amarelo, dê-me cachaça.
O vendeiro encheu o copo de aguardente de cana, entregou ao bandido, e este dirigiu-se ao rapaz:
- Como se chama você?
- E eu sei?!
- Então você não sabe como se chama?!
- A canaia é que me chama de Veado, mais poréns o meu nome mesmo é Dorvalino.
- Que povo burro é esse, que alcunha de veado a quem só tem gestos de preguiça?!
Do ditério não gostou Dorvalino, mas nem olhou para quem estava a falar-lhe.
- É... Estou aqui quéto, e não sei que tem você de mexê com quem tá quéto...
Aflitos, procuraram todos, por meio de sinais, avisar a Dorvalino que se calasse, pois logo compreenderam o rapaz não sabia com quem tratava. O facínora, porém, fora indulgente.
- Está bem, disse; para sermos amigos, você, seu amarelo, vai chamar ao peito um trago dessa água que passarinho não bebe! Não lhe apaixona um trago de canguara?
- Eu não bebo, não!
- Não gosta de esquentar o peito!?
- Lá que uma vez ou outra, mais poréns não estou disposto...
- Então é por desaforo... é por ter eu gracejado com você, seu amarelo malcriado?
- Ora, pur amô de Deus! Seja lá pru qui você quizé! – respondeu muito agastado.
Era quase noite.
- Deixe de pabulagem, seu papamacaxêra, vociferou Zé Cururu que, ao mesmo tempo, ergueu o braço e deu um empuxão em Dorvalino.
Este, na mesma ocasião em que Cururu o arrastara para si, enterrou instintivamente toda a lâmina da faquinha na mama esquerda do facínora, que caiu fulminado. E retorquiu com cólera:
- Pabo é você, seu fio d’ua égua!
Morto o bandido, os circunstantes dispersaram-se horrorizados. Ficou apenas Dorvalino com Manoel Pedro Paulo.
- Inháfute! E, sentenciosamente, muito nervoso, disse o vendeiro: esse e o fim de todo valentão!
- O sinhô viu, seu Chico, o que este peste fez comigo?! .. Nunca pensei, na minha vida, de matá um home, mais poréns, nestas condição, não me arrependo! Entrego ao sinhô a faca e não fujo. Estou preso.
- Sabes a quem mataste, Veado?
- Nem quero sabê, seu Chico, quem é esse desgraçado. Sei que me azucrinou a paciência, me xingou, quis me , e eu não podia fazê outra coisa... O sinhô é testemunha...
- Não sabes de que livraste o mundo!? ...
- Como, seu Chico?!
- Pois mataste Zé Cururu, homem de Deus!
- Não diga, seu Chico! ... Murmurou, acentuando demoradamente a tônica do verbo.
E o rapaz começou a tremer, como vara verde, e caiu-lhe a caxerenga da mão.
____________
Extraído da revista Fon-Fon, Ano XVII. Nº 9, Rio de Janeiro, 3 de março de 1923, p. 3.




[i]
Poeta, romancista e ensaísta, HORMINO ALVES LYRA nasceu em Pão de Açúcar, Alagoas, em 3 de agosto de 1877. Era irmão do ex-Prefeito Manoel Alves Lyra. Fez seus estudos secundários no Ginásio São João em Penedo, onde exerceu as funções de censor e lecionou como substituto de várias cadeiras.
Em princípio, pensou dedicar-se à vida eclesiástica. Entretanto, não obstante a sua crença religiosa, percebeu que não tinha vocação para o sacerdócio. Prestou, então, concurso para a Fazenda e para os Correios e Telégrafos. Aprovado em ambos, preferiu o segundo, sendo admitido como Telegrafista.
Escreveu para vários jornais e revista como O Malho e Revista da Semana.
Suas principais obras são: Dona Ede(romance), em 1913; O 14 (contos), também em 1913; O Barão do Triunfo, 1941, separada da Imprensa Nacional (memória); Crisol (poesia), 1960. Troveiro, 1960 (poesia).
Foi casado, em primeiras núpcias, com Alayde Vaz Ribeiro (filha de João Vaz Ribeiro e Ana Braga Ribeiro) e, em segundas núpcias, com Marieta de Mello Carvalho (filha do Coronel Augusto Álvaro de Carvalho e de D. Maria Luiza de Mello Carvalho), falecida em 5 de janeiro de 1961. Hormino Lyra faleceu no rio de Janeiro em 13 de setembro de 1970.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia