sexta-feira, 9 de setembro de 2016

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PADRE PINTO, ENTRE O PÚLPITO E O PALANQUE

Por Etevaldo Amorim
Padre José Soares Pinto
Sempre que posso, recorro aos arquivos da Paróquia de Pão de Açúcar, repositório de valiosos documentos da história daquela cidade sertaneja do São Francisco. Numa dessas visitas, entre uma pilha de livros de assento de nascimentos, casamentos e óbitos, lanço mão do Livro nº 05, que contém uma nota de significativa importância. Ali, o vigário de Belo Monte, que substituía o titular da paróquia, anotou o fato contristador:
“Aos dois de fevereiro de mil, novecentos e trinta e nove, no Rio de Janeiro, em Madureira, Freguesia de São Luiz de Gonzaga, na residência do Monsenhor Achilles Mello, vigário da Paróquia, faleceu piedosamente, confortado com todos os sacramentos que a Santa Igreja concede in articulo mortis, o Revmº Vigário desta Paróquia de Pão de Açúcar, o sempre saudoso Pe. José Soares Pinto, que, aos seus últimos momentos, ainda pronunciou palavras de saudades para sua cara Paróquia. Ao seu funeral compareceram muitas pessoas, inclusive alguns Sacerdotes que o acompanharam até o Cemitério de Jacarepaguá, onde está sepultado em túmulo, e mais uma vez foi encomendada a sua alma. E para constar mandei fazer este assento que assino. O vigário encarregado, Pe. Jasson Souto”
Falecia, longe de seus conterrâneos, o Padre José Soares Pinto. O Monsenhor Achilles Mello, vigário de Madureira, seu primo, que o acolheu no Rio de Janeiro para onde fora em busca de tratamento, faz publicar no jornal A Noite, edição daquele mesmo dia 2 de fevereiro, uma nota de falecimento, convidando os amigos para o seu sepultamento, às 16:00 horas, no cemitério de Jacarepaguá, saindo o cortejo da sua residência, à rua Cândido Benício, 698.
A morte o levou aos 55 anos, interrompendo uma trajetória de intensa atividade, tanto na prática religiosa como na atividade política. Difícil dizer em qual delas foi mais efetivo. Fiquemos, então, com esses breves traços sobre a vida dessa destacada personalidade pão-de-açucarense, que foi um dos mais destacados clérigos de Alagoas, estando à frente da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus durante 29 anos.
Em artigo de publicado na Gazeta de Alagoas, edição de 21 de novembro de 1954, Adherbal de Arecippo o descreve como possuidor de boa dicção e voz potente, a qual, ajudada pela acústica do templo, dispensaria alto-falantes. Destaca ainda uma de suas grandes qualidades: a elevada atenção e piedade com que ele atendia aos moribundos que necessitavam e pediam a sua assistência espiritual nos últimos instantes da existência humana.
Era filho do Capitão José Soares Pinto e de Rosa Maria Dória; esta, filha de Bernardo Machado da Costa Dória e de Maria das Dores da Costa Dória.
Sendo sua mãe natural do povoado Mocambo, município de Porto da Folha, Estado de Sergipe, situado na margem oposta do rio São Francisco, e sendo comum naquele tempo as primíparas terem seus filhos sob os cuidados da mãe, nasceu a 8 de fevereiro de 1884 naquele pequeno lugarejo fronteiriço ao morro do Farias, acidente geográfico de Pão de Açúcar e referência natural dos que por ali navegavam.
Em 1902, ainda aos 18 anos, iniciou seus estudos no recém-criado Seminário de Alagoas, fundado pelo bispo D. Antônio Brandão, instalado a 15 de fevereiro daquele mesmo ano, funcionando provisoriamente na cidade de Alagoas (hoje Marechal Deodoro). O jornal penedense A Fé Cristã, em sua edição de 22 de novembro, noticia a presença, naquela cidade sanfranciscana, dos seminaristas daquela cidade que, oriundos do Seminário de Maceió, que para ali retornavam para passar férias, entre eles José Soares Pinto.[i]
No dia 10 de novembro de 1907, então com 23 anos, em Ato do bispo D. Antônio Brandão, o então Diácono recebeu o grau de Presbítero, juntamente com Júlio Albuquerque e Affonso Tojal.[ii]
Já ordenado, achava-se em Pão de Açúcar quando foi chamado para ocupar a Freguesia em Maceió, durante a ausência do Cônego Machado e de seu coadjutor[iii] e já em 20 de maio de 1909 tomou posse como vigário da Freguesia de Nossa Senhora Mãe do Povo, em Jaraguá.[iv] Foi nomeado vigário de Pão de Açúcar e 13 de outubro de 1910.
O Padre Soares Pinto com um grupo de teatro amador de Pão de Açúcar, em 1916. Fonte: Pão de Açúcar, história e efemérides, Aldemar de Mendonça.
Não tardaria, entretanto, que lhe aflorasse a vocação política. Tanto que, em 1917, adere à campanha do General Gabino Besouro, participando como sócio de um Centro Cívico em prol daquela candidatura. Com efeito, em excursão do candidato ao interior do Estado, este visitou Pão de Açúcar. Na ocasião, hospedou-se na casa do Cel. Perdiliano de Carvalho Mello, mas visitou o Padre Pinto, que lhe ofereceu um brinde de champanhe.[v] O Coronel Perdiliano, aliás, já presidia um Centro Cívico Pró-Gabino Besouro, que se compunha com os seguintes membros efetivos: Pedro Souto, Olegário Simas, e Theodoro Barbosa, além do Dr. Manoel Lyra como orador e Euclydes Souza como tesoureiro.
O Padre Pinto acompanha distribuição de víveres para os flagelados da enchente de 1919, em Pão de Açúcar.
Eleito Deputado, em 2 de abril de 1923, assiste à abertura dos trabalhos da Assembleia Estadual.[vi] No ano seguinte, juntamente com Euclides Malta, Eusébio de Andrade, Araújo Gois, Natalício Camboim, Alipio Minervino da Silva, os Coronéis João Lessa e José Malta de Sá, Antônio Florentino e Manoel Francelino dos Santos, assina manifesto de apoio às candidaturas do Dep. Federal Costa Rego e do Dr. Luiz Torres para Governador e Vice-Governador, respectivamente.[vii]
Em 1927, lança-se candidato ao Prefeito. A imprensa pernambucana repercute o fato com destaque:
 “Em Pão de Açúcar, o candidato apresentado por uma das correntes em que se bifurcou ali o Partido Democrata, encontrará o antagonismo de outra corrente, que lançará a candidatura do respectivo vigário da Freguesia, Padre José Soares Pinto, ex-Deputado Estadual.
Este último candidato é amparado pelos mais valiosos elementos daquela Unidade do Estado, e reúne todos os requisitos indispensáveis para merecer espontâneos e entusiásticos sufrágios populares.
Espírito moderado, cheio de abnegação e tolerância, o Padre José Soares Pinto granjeou a estima de todos os seus paroquianos, dispondo de ótimos recursos que lhe assegurarão completa vitória sobre o seu competidor.
Num pleito livre, como vai ser o de 7 de novembro, os pao-de-açucarenses absolutamente não abandonarão o seu respeitável cura, que até hoje nunca visou o seu proveito pessoal, tendo-se consagrado, com o maior fervor, ao bem da sociedade em cujo regaço nasceu e tem vivido.[viii]
Naquele Pleito, o Padre sagrou-se vencedor contra o Cel. Perdiliano por 189 a 136 votos.[ix]
Ainda hoje é lembrada essa campanha. Havia até uma musiquinha cantarolada pelos seus adversários. Algo assim:
            “Linda morena, eu quero ver,
Nessa eleição, Padre Pinto vai perder.
O Padre Pinto já mandou tocar o sino
No salão da Prefeitura, onde está seu Agripino...
Linda morena eu quero ver...”
Mas, Perdiliano não era o único adversário do Padre Pinto. O colunista João Domingos, do Jornal Pequeno, do Recife, falando acerca do ódio dos inimigos políticos ao político pernambucano Etelvino Lins, lembra o ódio de um político de Penedo, em relação ao Padre. Dizia esse adversário:
- Aquele sujeito é tão desgraçado que nem ao menos tem uma amante, como vários dos seus colegas, para a gente falar dele.
Da esquerda para a direita: Juca Feitosa, Manoel Rego, Vieira Damasceno, Luiz Menezes da Silva Tavares, o homenageado Dr. Paes Barreto, Padre Pinto, João Domingos, Álvaro Machado, Ermínio Veríssimo e Manoel Santana. Na sacada do sobrado está D. Maria Cândida, neta do Major João Machado, barão de Piaçabuçu.
O fato é que, como Prefeito, Soares Pinto foi bastante efetivo. Em 1929, contribui consideravelmente com o Governo Estadual, tendo à frende o Dr. Álvaro Corrêa Paes, na ampliação da malha viária, abrindo novas estradas, continuando os esforços iniciais dos governadores Fernandes Lima e Costa Rego. O primeiro, diz o Diário de Pernambuco em sua edição de 13 de outubro de 1929, “pôs em comunicação franca a metrópole do Estado com o extremo Norte, abrindo uma rodovia, que é geralmente louvada pelos serviços que presta a uma região de difícil acesso”.
A Costa Rego coube ligar Maceió ao Pilar e à Zona Sul de Alagoas. Por fim, veio o Dr. Álvaro Paes, que visou a região sertaneja. Mandou abrir a estrade de Atalaia a Palmeira dos Índios e conseguiu com que as prefeituras dos municípios adjacentes se comprometessem em fazer outras estradas de interesse local, propiciando, mediante autorização legislativa, a concessão de pequenos empréstimos. E prossegue o mesmo jornal: “Dessas estradas de interesse local se salientam pela perfeição de seu acabamento a que se dirige de Pão de Açúcar para Santana do Ipanema e a que vai desta para Palmeira dos Índios.”,  para depois concluir: “Os gabos que se fazem a essas rodovias são unânimes e recaem sobre os prefeitos que as fizeram: o Padre Soares Pinto, de Pão de Açúcar; e Graciliano Ramos, de Palmeira dos Indios.”
Cabe destacar, conforme Mensagem do Governador Álvaro Paes ao Congresso Legislativo, em 19 de novembro de 1929, que coube ao Prefeito de Santana do Ipanema, Sr. Ormindo Barros, a construção das referidas estradas nos trechos incluídos em seu território, isto é, da cidade até Olho D’Água das Flores e, por outro lado, da Sede até o limite com Palmeira dos Indios, totalizando aqui 14 km.
Em 1930, o Padre Pinto recebe o Governador Álvaro Paes, que em viagem de oito dias pelo interior do Estado inspecionando obras de estradas, participa de reunião para a criação do Banco Agrícola de Pão de Açúcar, com capital inicial de Cinquenta Cotos de Réis.[x]
O jornalista Garcia de Rezende, colunista do jornal carioca Diário de Notícias, que esteve em Alagoas com o fim de observar os resultados da Revolução de 30, relata uma viagem que fez em companhia do Padre Soares Pinto, de Penedo a Maceió. Em oito horas de viagem, num “fordinho” sujo e desengonçado, o padre, que segundo o jornalista, envergava uma batina enlameada e rota, trazia na face visíveis sinais de abatimento. Inquirido sobre as razões do seu desalento, esboçou um sorriso amargo e desabafou:
Acabo de viver dez dias no mato, acossado de perto pelo bando de Lampião. O facínora entrou com os seus cabras em Pão de Açúcar, levando os seus habitantes a viver horas amargas de provação. O senhor não pode imaginar o que significa, como espetáculo de degradação humana, a passagem do bando de Lampião por um povoado. É uma tragédia imensa. O país possui exército, polícia, aviões, metralhadoras, mas Lampião continua a infelicitar o Nordeste com o seu bando sinistro. Quanto mais o perseguem mais sanguinário e forte ele se torna, elevando-se à condição de Rei da horda do cangaço. Amanhã ou depois essa horda sinistra virá fazer o saque e a matança no litoral”.
Por Ato de 6 de setembro de 1934, o Interventor Federal, Sr. Osman Loureiro, exonera, a pedido, o Sr. Augusto de Freitas Machado e nomeia o Padre Pinto para o cargo de Prefeito.[xi]
Prefeito pela segunda vez, assim que toma posse, encaminha telegrama ao Interventor comunicando a composição do Partido Republicano Conservador em Pão de Açúcar: Presidente: Padre José Soares Pinto; Secretário: farmacêutico Antônio de Freitas Machado; membros: Manoel Pastor da Veiga, João Freias, Mário Soares Vieira, Manoel Rego, José Gonçalves Filho e Antônio Silva Pereira. (Diário de Pernambuco de 21 de setembro de 1934).
Em 8 de janeiro de 1935, conforme noticia o Jornal do Brasil, em edição do dia 16 daquele mês e ano, o mesmo Interventor o exonera para nomear Seraphim Soares Pinto.




[i] A Fé Crhistã, 11 de janeiro de 1902, p. 3.
[ii] GUTENBERG, 10 de novembro de 1907, p. 2.
[iii] GUTENBERG, 24 de janeiro de 1908.
[iv] GUTENBERG, 20 de maio de 1909.
[v] CORREIO DO POVO, 18 de novembro de 1917, p. 2.
[vi] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 17 de abril de 1923, p. 4.
[vii] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 9 de março de 1924, P. 5.
[viii] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 29 de setembro de 1927, p. 4.
[ix] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 17 de novembro de 1927, p. 5.
[x] O MUNICÍPIO, Seabra, BA, 2 de fevereiro de 1930, p. 2.
[xi] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 18 de setembro de 1934, p. 4.

domingo, 4 de setembro de 2016

HISTÓRIAS DO CANGAÇO EM PÃO DE AÇÚCAR (I)

Postado por Etevaldo Amorim

LAMPIÃO CONTINUA A ATEMORIZAR OS SERTÕES[i]

“Da última vez que Lampião esteve no município de Pão de Açúcar abandonou a estrada real, em seu regresso, e seguiu por uma vereda.
Caminhando, encontrou uma camponesa de nome Maria Gato e dois irmãos desta – Luiz e Francisco – os quais por ali se meteram para evitar um encontro com o grupo do bandoleiro.
Logo que Lampião avistou a senhorita Maria Gato, fez-lhe propostas julgadas menos honestas, que foram repelidas. Francisco aconselhou a irmã a se deixar matar com eles, antes de ceder o que o bando queria. Nesse comeno, Lampião ameaçou-a de disparar-lhe um tiro, dizendo a moça que podia fazê-lo, porquanto ela não tinha medo da morte.
Recuando de seus propósitos, Virgulino prometeu-lhe avultada quantia para que a moça aquiescesse aos seus desejos. Mas a sertaneja não quis.
O chefe dos bandoleiros declarou que desistia absolutamente do propósito de conquista Maria Gato, ou mesmo de subtrair-lhe a existência. Ouvindo isso, um do bando estranhou que aquela moça ficasse viva, quando Lampião já havia morto tantas moças brancas e bonitas, ao passo que aquela era mulata e feia.
Ao seu interlocutor respondeu Virgulino Ferreira, com um tom de absoluta firmeza, que aquela moça não morreria.
A conversa mudou de rumo e o facínora procurou sindicar dos rapazes quais eram as pessoas abastadas daqueles arredores.
Os dois camponeses, na melhor intenção e certos de que Virgulino não ousaria penetrar no perímetro urbano de Pão de Açúcar, informaram-no de que na rua (na cidade propriamente dita) havia muita gente rica.
Virgulino disse, então, que queria saber quais eram os ricos do interior. Responderam Luiz e Francisco que por ali reinava absoluta miséria, não havendo quem dispusesse de recursos. Mas o facínora perguntou se um tal de Janjão Maia não era rico, obtendo resposta negativa. Não convencido, Lampião forçou Luiz Gato a servir-lhe de guia até a propriedade do fazendeiro, sem conhecer que estava tratando com um campônio extremamente ladino e astuto.
Marchando, Luiz falou tanto que os cangaceiros lhe puseram a alcunha de “Canário”.
Este Canário, porém, conseguiu demonstrar que Janjão Maia não passava de um reles tirador de toneladas (lenha para o cotonifício de Penedo, vendida às toneladas) e que era apenas rico de filhos.
Preservando o fazendeiro da espoliação ou da desgraça iminente, Luiz Gato ainda atirou Lampião e o seu bando, que então se compunha de sete pessoas, ao risco de ser pegado, pois dizendo não conhecer veredas escuras por onde os levasse, intencionalmente os guiou pela estrada real, pelos lugares povoados.
Em um desses, denominado Quixaba, três léguas a montante de Pão de Açúcar, dormiram eles sossegadamente, sem serem incomodados pela numerosa tropa que ficava perto.
São assim os sertanejos, tão mal julgados por quem não lhes conhece a alma pura e bondosa.




[i] Extraído de A Nação, Fortaleza (CE), 16 de fevereiro de 1932, p. 8, dirigido por Júlio de Matos Ibiapina.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

SUPOSTA CARTA DE JESUS CRISTO

Por Etevaldo Amorim

Pão de Açúcar em 1869. Foto: Abílio Coutinho.
A Semana Ilustrada, que se publicava no Rio de Janeiro, em sua edição do dia 21 de março de 1869, exibe uma nota assinada por alguém que se assinava como Dr. Semana. Sob o título PONTOS E VÍRGULAS, a notícia trata de uma carta, supostamente escrita por Jesus Cristo, numa certa cidade ribeirinha do São Francisco, no sertão alagoano. Diz a revista:
“Preparem os ouvidos; limpem os óculos; disponham-se todos para ouvir e ler a coisa mais espantosa, mais inesperada, mais singular de todo este século.
Ninguém espera pelo acontecimento que vou relatar. Aposto a província do Piauí contra cinco mil réis em como o leitor está tão longe do que lhe vou dizer como Frei Brandão está longe do Monte Hymetto, e o Banco do Brasil longe da conversão em ouro.
Aproveito o domingo de Palmas para referir o acontecimento; é bom que a santidade do cia me ponha a coberto das injúrias que porventura se lembrariam de tapar-me a boca.
Aqui vai o acontecimento:
Esteve no Brasil, no mês de dezembro do ano passado... quem? Dou um doce a quem adivinhar qual foi o hóspede ilustre que pisou terra brasileira no ano de 1868.
- Foi Garibaldi? Diz um leitor.
Qual!
- Foi Victor Hugo? Acode outro.
Não, senhor.
- Napoleão III? Interroga um terceiro.
Não foi esse.
Cada leitor coça a cabeça, arregala os olhos, põe a fronte entre as mãos, na posição em que os pintores representam os homens meditativos, e depois de um longo investigar, a ver se obtém das minhas mãos o doce prometido, confessam todos os leitores que não sabem quem seja.
Compadecido da ansiedade pública e particular, ansioso por comunicar a todo o Império um acontecimento que só a província das Alagoas teve a glória de ver, declaro que a pessoa que visitou terra brasileira no mês de dezembro d e1869, foi:
JESÚS CRISTO.
- Impossível! Gritam os leitores; isto é caçoada do Dr. Semana. Não estamos no primeiro Abril; além disso, a semana santa merece algum respeito...
Perdão, leitores; eu não vi o divino hóspede do Brasil, pois que ele apenas esteve nas Alagoas, mas tenho a prova de que lá esteve, e prova irrefutável. A prova é uma carta escrita por ele mesmo e datada da Vila do Pão de Assúcar, daquela província, em 2 de dezembro d e1868, carta que o Diário das Alagoas publicou e que tem sido copiada pela população do Pão d’Assúcar e posta em bentinhos ao pescoço.
Isto é, Jesus Cristo fez nem mais nem menos o que faria Victor Hugo ou Garibaldi se viessem agora às nossas plagas. Não é crível que esses dois políticos imensos deixassem de escrever duas epístolas lardeadas com toucinho republicano, prometendo ao país a fraternidade e a liberdade dos povos.
A diferença é que, não tendo Jesus Cristo aspirações políticas, a carta limitou-se a advogar os interesses espirituais, não sem tocar algumas vezes em coisas terrenas, como os leitores verá adiante.
Os Evangelhos são omissos neste ponto. Não consta, por eles, que o fundador da Igreja fosse dado ao gênero epistolar. Descobriu-se isto no Século XIX, na Província das Alagoas, na Vila do Pão d’Assúcar. É uma lacuna que deve ser preenchida pelos sabedores da história sagrada.
Mas o prazer que nos causa a existência de uma carta escrita por Jesus Cristo fica um pouco aguado com a descoberta de que Jesus Cristo não sabia ortografia nem sintaxe.
A ortografia da carta é digna de uma lavadeira; a sintaxe está pedindo um ofício do sub-delegado da roça.
Verdade é que a carta é escrita em Português, e não existindo ainda a língua de Camões no tempo de Pôncio Pilatos, não é estranho que os contemporâneos do pro cônsul ignorassem os rudimentos de uma língua que só depois veio ao mundo.
O caso é que, se a carta aparece alguns meses antes, Jesus Cristo não escapava da eleição de Deputados. A independência gramatical é uma virtude política muito de apreciar nestas terras. ”
            E transcreve a carta, ipsis verbis et virgulis, a exemplo do que fez o Jornal do Recife, de 28 de dezembro de 1868, reproduzindo notícia dada pelo Diário das Alagoas, com o seguinte comentário:
“Ao Diário das Alagoas, escreveram o seguinte do Pão de Assucar:
“Apareceu aqui nesta Vila uma carta que dizem ter sido feita por Jesus Cristo ao povo; e tem isto de tal sorte entrado na cachola de uma meia dúzia de devotos e devotas – verdadeiras hipócritas – deste lugar, que já têm extraído diversas cópias para trazerem penduradas no pescoço como relíquia ou bentinho. Ei-la:[i]
 ‘Filhos meus rimidos com o meu precioso sangue derramado na Cruz criados com o meu precioso sangue e Santo do meo reino principalmente minha mãi Maria Santíssima Nossa advogada e protetora por tanto se vós não emendardes vosso mao costume heide castigar. Guardai nos Domingos e dias santos em que a Igreja vos manda ouvir missa inteira com vossa família e si assim não obdecer  hei de castigar com fome e sede  e não gozarão de fructos gerais na terra, vos andarei a peste e tu não sabereis curar no primeiro dia que tiver este avezo  fazei penitencia dai esmolas aos pobres pelo meu amor e pelas almas do Porgatório não jurareis falço e os que procurar esta carta por ahi elles gozarão da minha bênção enviarei para o ceo celestial se não fosse o rougo do meu Pai Francisco e Santa Thereza vos tinha castigado com as penas do inferno que vos tem merecido. Quem duvidar desta minha carta e jugar feita por mão pecadora eu disterrarei como foi Salomão e toda sua geração quem tiver conseguido esta minha carta e espalhar por todas criaturas cristandades e lhe perdoarei todos os seus pecados. Quem não souber escrever dará um vintém a quem lhe cupiar esta minha carta e lhe porei a minha mão benigna e lhe discubrirei o meu rosto. Os que tiver esta minha carta ficarão livre do trabalho e moléstia. Por signal, no primeiro de agosto do vindouro anno o sol ficará de tal maneira que ninguém conhecerá uns aos outros – o pai não conhecerá o filho, nem ao filho ao pai, por tanto aviso-vos e mostrarei a minha bondade e graça de minha mãi Maria Santíssima Nossa Senhora e o Anjo da Guarda por estar de contínuo a rogar por vos.
Pão d’Assucar, 2 de dezembro de 1868.




[i] Jornal do Recife, 28 de dezembro de 1869, capa.
Semana Illustrada, 21 de março de 1869, p. 2.

sábado, 30 de julho de 2016

PAIXÃO FURIOSA

Hormino Lyra[i]

Fazenda de Lagoa das Pedras, Sul de Alagoas, Município de Pão de Açúcar.
Manoel Lisboa, seu proprietário, tinha confiança ilimitada no vaqueiro.
João Lino, homem de trinta e quatro anos de idade, em verdade, era tipo sério; não mentia, nem contra si. Ganhou a confiança do fazendeiro e resolvia qualquer negócio em sua ausência.
Não se casou. Havia muito, acompanhava os passos da filha unigênita de Lisboa, e tinha a cisma de se casar com ela. Conhecia os negócios da fazenda de gado, e melhor partido não encontraria a moça.
Rosa, que inveja causaria a todas as rosas dos jardins, muito jovem, muito linda, de singeleza impressionante, não era namoradeira. Sisuda, gênio reconcentrado, vivia sempre ao lado da boa mãe, sem ter preocupação ainda com o problema social do casamento. Achava-se muito criança para resolver tão complicado caso.
Do mesmo modo não pensava Lino, tanto que uma vez, quando teve oportunidade, lhe falou jeitosamente acerca de seus desejos.
Assustou-se a moça com a conversa do vaqueiro, e não lhe deu resposta. Nunca tinha idealizado o homem que a devia possuir, mas, com certeza, não era aquele.
Molestou-se Lino com a falta de consideração da moça. O pai o considerava tanto, porque não haveria ela de imitar o bom exemplo do velho?! Não se conformou, e insistiu muitas vezes, até que lhe disse Rosa seria melhor mudar ele de assunto, e procurar outra. Ela, com certeza, não tinha pensado em casamento; mas, ainda quando pensasse, não entraria o vaqueiro em suas cogitações. Não perdesse tempo, porquanto era inabalável a sua resolução.
Voltou Lino, pouco tempo depois, a revolver o passado e, agora, mais impetuoso, tinha também sua resolução inabalável: casar-se com Rosa ou morrer. Ela, porém, sucumbiria com o vaqueiro, consoante lhe declarou formalmente.
Sorriu a moça e deu de ombros.
Nem os próprios pais sabiam do que se passava entre João Lino e a filha deles.
Uma tarde, estava ela à beira do “açude grande”, perto de casa, na hora em que costumava o vaqueiro estar na roça. Grande foi seu espanto quando o viu a dois metros de distância. Quis correr, mas ele lhe tolheu os passos. A moça jogou-se n’água irrefletidamente, e nadou. O mesmo fez o apaixonado, e abraçou-a. Submergidos, rodaram no leito viscoso do açude; e, quando da vida se lembrou o vaqueiro, a morte estava mais perto!
... ... ...
Durante a noite, passaram pensamentos fantásticos no cérebro dos infelizes pais da vítima: quem sabe se alguma onça tivera apanhado Rosa; e Limo fora em seu socorro, e sucumbira também nas garras da fera...Quem sabe algum marruá...Quem sabe? — Imaginara a pobre mãe...
Que plano conceberia o maldito vaqueiro para lhe raptar a filha idolatrada, sem que ninguém o percebesse, nem até desconfiasse... — conjecturara o cérebro vulcânico de Manoel Lisboa, a estalar de dor.
E algumas vezes cavalgaria ele o fogoso alazão, e andara à toa; e, no meio da estrada, bradara: — “Rosa!”. E o eco respondera: — “Rosa!”. E mais uma vez ressoara: — “Rosa!”. E mais longe e mais fraco: — “Osa!”. E ainda mais longe e quase imperceptível: — “Osa!”.
Noite de verão, noite sem luar, céu sem nuvens, e as boas estrelas, no firmamento, como se fossem amigas de novidades, pareciam querer descobrir o que de estranho aconteceu naquele triste recanto torrão alagoano.
Noite de aflições: lágrimas, gemidos, suspiros cá, dentro do santo lar; orquestras infernais de batráquios, assobios agudos das serpentes, mugidos rechinantes das vacas, berros plangentes dos bezerros, lá fora; e a “rasga mortalha”, com seus piares sinistros, a voar, sempre a voar, de espaço a espaço, cruzando a cumeeira da casa, a modo gargalhava escandalosamente para aumentar a aflição dos aflitos!
No dia seguinte, tranquilos, boiavam dois cadáveres no “açude grande”. Mistério!
*** *** ***
Dizem que o “açude grande” ficou mal-assombrado.
Quando a gente passa perto, dele, ouve, às vezes, suspiros prolongados e gemidos lastimosos, gemidos de dor que comovem o cristão.
É a cauta serpente com aspecto sorridente, boca semiaberta, olhos pregados na rã inerme, inabalável no propósito de a comer, e botar de vez em vez a língua fora, como que prelibando delicioso manjar; enquanto esta, apavorada com a presença e aproximação daquela, a pular de um lado para outro, a gemer, a contorcer-se, ali permanece carecida de ação, sem ânimo para se livrar do perigo, até que por fim a cobra a devora, com serôdio deleitamento. Espetáculo assombroso e repugnante; mas alguns supersticiosos moradores daquelas redondezas pensam que ali anda coisa; a alma penada da pobre Rosa perseguida pelo mau espírito do rude vaqueiro ainda atormentado pela paixão furiosa.
______________
Transcrito do Jornal Pequeno, Recife, 30 de novembro de 1931.



[i]
Poeta, romancista e ensaísta, HORMINO ALVES LYRA nasceu em Pão de Açúcar, Alagoas, em 3 de agosto de 1877. Fez seus estudos secundários no Ginásio São João em Penedo, onde exerceu as funções de censor e lecionou com substituto de várias cadeiras.
Em princípio, pensou dedicar-se à vida eclesiástica. Entretanto, não obstante a sua crença religiosa, percebeu que não tinha vocação para o sacerdócio. Prestou, então, concurso para a Fazenda e para os Correios e Telégrafos. Aprovado em ambos, preferiu o segundo, sendo admitido como Telegrafista.
Escreveu para vários jornais e revista como O Malho e Revista da Semana.
Suas principais obras são: Dona Ede (romance), em 1913; O 14 (contos), também em 1913; O Barão do Triunfo, 1941, separada da Imprensa Nacional (memória); Crisol (poesia), 1960. Troveiro, 1960 (poesia).
Foi casado com Marieta de Mello Carvalho (filha do Coronel Augusto Álvaro de Carvalho e de D. Maria Luiza de Mello Carvalho), falecida em 5 de janeiro de 1961.
Hormino Lyra faleceu no rio de janeiro em 13 de setembro de 1970.

CENTENÁRIO DE MEU PAI

Por Etevaldo Amorim

Agnelo Tavares Amorim. Foto Ideal. Santos-SP
Nascido a 31 de julho de 1916, na Vila Limoeiro, município de Pão de Açúcar, filho de João Tavares Amorim e Izabel da Rocha Amorim.
Criou-se ali, na pequenina Vila localizada à margem esquerda do rio São Francisco. Desde cedo, ajudava seu pai no trato da lavoura, especialmente o arroz, nas terras de vazante, nas lagoas e nas ilhas, onde também situaram frutíferas, como mangueiras, goiabeiras e coqueiros.
No início da década de 1940, foi para São Paulo em busca de oportunidades, retornando quatro anos depois para, em 1947, casar-se com d. Cecília e, de novo, partir para o Sul.
Morou em Santos e em Campinas, trabalhando na agricultura e também na indústria. Finalmente, retornou a Limoeiro em 1964. Faleceu em Pão de Açúcar, onde residia, em 20 de julho de 2002.
Homem simples, de pouca cultura e recursos, mas honesto e trabalhador. Amigo sincero, bom esposo e bom pai.
Eu que tenho falado, neste Blog, de tantas personalidades, não poderia deixar de tratar deste homem, que deu tanto de si em meu benefício. Por isso deixo aqui registrada a minha saudade e o meu orgulho de ser seu filho.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

EMBAIXADOR ARAÚJO JORGE



Por Etevaldo Amorim
Arthur G. de Araújo Jorge. Fon-Fon, 22/06/1912.
Membro de tradicional família alagoana, Arthur Guimarães de Araújo Jorge nasceu em Mata Grande (então chamada Paulo Afonso) a 9 de setembro de 1884 (relatório do M. Re. Exteriores diz ser 29/09/1884). Assim se deu porque seu pai, o Dr. Rodrigo Adolpho de Araújo Jorge, exercia, desde 15 de novembro de 1882, o cargo de Promotor de Justiça daquela Comarca. Laços com família matagrandense talvez tenha por conta da mãe, Emília Guimarães de Araújo Jorge. Foram seus avós paternos: o Desembargador Silvério Jorge (Silvério Fernandes de Araújo Jorge) e Maria Victória Nascimento Pontes.
Em que pese esse nascimento circunstancial, é legítimo que o coloquemos entre as muitas e destacadas personalidades dessa cidade alagoana, tais como Dom Antônio Brandão (o primeiro bispo de Alagoas) e Augusto Malta (o famoso fotógrafo que revelou as mais belas e históricas imagens da cidade do Rio de Janeiro), entre tantas outras das famílias Malta, Brandão, Vieira, Damasceno, Ribeiro, Mendonça, Alencar, Barbosa, Gaia, Vilar...
Em 1896, já com a família em Maceió, prestou Exames de Preparatórios, seguindo depois para o Recife, onde ingressou na Faculdade de Direito. Na capital pernambucana, revelando desde cedo seus dotes literários, passa a colaborar com a Revista Jurídica, do Centro Acadêmico Teixeira de Freitas, da Faculdade de Direito. Aos dezenove anos, e sendo já um dos redatores d’A Cultura Acadêmica, obteve desta a edição, entre 1904 e 1905, de uma coletânea destes primeiros ensaios, sob o título de Problemas de Filosofia Biológica, trabalho com quatro títulos: A Biologia e a Físico-química, A Hereditariedade de Influência, Ensaio sobre a Biogênese, e O Gênio[i].
Formou-se em 1904 pela Faculdade de Direito do Recife e já no ano seguinte vai para o Rio de Janeiro. Por influência do Senador Bernardo de Mendonça[ii], que o indicou ao seu amigo Barão do Rio Branco (José Maria da Silva Paranhos Junior), ingressou na carreira diplomática, a 21 de junho de 1905, inicialmente como Secretário Auxiliar do Tribunal Arbitral Brasileiro-Boliviano, cujo árbitro brasileiro era o Dr. Carlos Augusto de Carvalho. No ano seguinte, era nomeado auxiliar do árbitro brasileiro no Tribunal Arbitral Brasileiro-Peruano. Deixou ambas as funções em agosto de 1907 para se tornar Auxiliar de Gabinete do Barão do Rio Branco, de quem seria um dos mais próximos e eficientes colaboradores. Inicialmente como Amanuense[iii], tornou-se Diretor na Seção de Negócios Políticos e Diplomáticos da Europa e, depois, cargo equivalente na Seção da América.
De pé, da esquerda para a direita: Euclides da Cunha, Arthur G. de Araújo Jorge, Graça Aranha, Eduardo Lorena, César Vergueiro,, Pecegueiro do Amaral, Gaspar Líbero, Paulo Quartin e César Tapajós. Sentados: Afonso Arinos, Barão Homem de Mello, Barão do Rio Branco e Gastão da Cunha. Fonte: O Malho, 26 de outubro de 1907.
Na foto acima, por ocasião de uma visita do Barão do Rio Branco a São Paulo, e sendo recepcionado por um grupo de estudantes paulistas (Eduardo Lorena, César Vergueiro, Garpar Líbero, Paulo Quartin e César Tapajós), nota-se Araújo Jorge ao lado de Euclides da Cunha, autor da esplêndida obra Os Sertões. É que, Euclides fora auxiliar do Barão do Rio Branco entre 1906 a 1909, quando chefiou expedições do Ministério das Relações Exteriores em questões de demarcação de fronteiras, razão da sua presença na foto. Mas há um fato curioso. Como se sabe, o famoso escritor e engenheiro foi assassinado pelo amante de sua esposa (Dilermando Cândido de Assis), a 15 de agosto de 1909. Inocentado, sob o argumento de que agiu em legítima defesa, Dilermando casou-se com a viúva Ana Emília Solon Ribeiro, com quem teve alguns filhos. Alguns anos depois, separaram-se, vindo Dilermando a se casar com Maria Antonieta de Araújo Jorge (conhecida por Marieta), precisamente uma irmã do nosso Araújo Jorge.

Em 1909, "por sugestão e patrocínio do Barão do Rio Branco", funda a Revista Americana, concebida como uma publicação internacional voltada ao intercâmbio de ideias e à aproximação entre os países americanos. Era uma publicação quinzenal de ciência e de arte. Os redatores eram Araújo Jorge, Joaquim Viana e Delgado de Carvalho. A partir de 1916, passou a ser dirigida também por Silvio Romero Filho.


Araújo Jorge (de branco) ao lado do colega Muniz de
Aragão. Fonte: Revista Fon-Fon, 10 de dezembro de 1910.

Com a morte do Barão, em 10 de fevereiro de 1912, continuou no Ministério das Relações Exteriores, passando a servir sob o comando do Dr. Lauro Muller, primeiro como 2º Oficial e, a partir de 1914, como 1º Oficial.
Naquele mesmo ano, jornais cariocas noticiam seu noivado com a Srtª Devanaguy Lakmy Silva, filha do médico do Exército Cincinato Henriques da Silva e de Ethelvina Baptista da Silva, ocorrido no dia 6 de maio de 1912, na Rua General Severiano, 164, em Botafogo, Rio de Janeiro, residência dos pais da noiva[iv]. Não se nota, entretanto, registro do casamento com essa jovem que se tornaria bailarina na Escola de Bailados do Teatro Municipal.[v] Casa-se, efetivamente, com a Srtª Helena dos Santos Caneco, filha do construtor naval Vicente dos Santos Caneco e de D. Catharina Teixeira dos Santos Caneco. A cerimônia se deu a 27 de outubro de 1917, às 10:00 h, na matriz de São Francisco Xavier, no Engenho Venho, Rio de Janeiro.
Araújo Jorge (ao centro) com colegas da Seção de Negócios do Ministério do Exterior. 
Fonte:  Fon-Fon 1919.
Sua carreira segue promissora. Em 1918, passa para a Seção de Negócios Econômicos e Comerciais, como Diretor, exatamente no período que se seguiu à Primeira Grande Guerra. Em 1925, passa a dirigir a Seção dos Limites e Atos Internacionais. Nesse ano, é designado “enviado extraordinário e Ministro Plenipotenciário em Missão Especial” para representar o Brasil nos festejos do 1º Centenário da Independência da Bolívia, comemorada no dia 6 de agosto.[vi]
E em 1927, foi designado Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário para Cuba e América Central, servindo de 9 de junho até 3 de setembro daquele ano. Em 19 de março de 1929, foi removido para a Legação Brasileira em Assunção, Paraguai, servindo de 30 de junho de 1929 a 22 de novembro de 1930.
Enquanto era Ministro Plenipotenciário do Brasil em Montevidéu, assistiu à vitória da Seleção Brasileira de Futebol na Copa Rio Branco, no Estádio do Centenário, diante de 50 mil pessoas. Esse era um confronto entre o nosso selecionado e o time uruguaio, a exemplo do que ocorria com a Copa Rocca, entre o Brasil e a Argentina. O Brasil venceu por 2 x 1 com dois gols de Leônidas da Silva. Ao final do jogo, Araújo Jorge foi ao Hotel Flórida, onde os brasileiros estavam hospedados, para cumprimenta-los[vii]


O Ministro Araújo Jorge (assinalado com X) oferece almoço ao Selecionado Brasileiro de Futebol, que venceu o Uruguai na disputa da Coma Rio Branco (dois anos após a realização da 1ª Copa do Mundo). Vê-se à esquerda o jogador Leônidas da Silva. O terceiro à direita é Domingos da Guia. Revista da Semana: 31 de dezembro de 1932.
A partir de 1933 foi Ministro em Berlim, chegando a 7 de outubro daquele ano. Assim que chegou à Alemanha, já na era Hitler, mas anterior à Guerra, instalou a Legação Brasileira e a própria residência num mesmo prédio, na Tiergartenstrasse, nº 25, inaugurando-a a 7 de setembro de 1933, próxima do antigo endereço, no número 4.

Nesse curto período, e a julgar pelas informações e comentários constantes de Cartas ao Ministro das Relações Exteriores (vide Cadernos do CHDD - Centro de História e Documentação Diplomática), da Fundação Alexandre de Gusmão, Ano 11, Número 21, segundo semestre de 2012), nota-se uma certa simpatia do nosso Ministro pelas restrições impostas pelo Governo Alemão à presença e atuação dos povos de origem judia naquele país, especialmente no aspecto econômico. O Brasil, àquela época, praticava o que se convencionou chamar de “diplomacia pendular”, definindo-se finalmente pelo apoio aos países liderados pelos Estados Unidos.
Araújo Jorge no momento em que deixava o Palácio Presidencial em Berlim,

após apresentar credenciais ao Presidente Hindemburg, a 18 de outubro de 

1911, REVISTA DA SEMANA_25/11/1933.

Deixando Berlim, em agosto de 1935, foi para o Chile promovido a Embaixador. Naquele mesmo ano, foi transferido para Portugal, cuja atuação se constituiu o ápice da sua carreira.

Antes de ir para Portugal, por Decreto de 29 de abril de 1935, foi nomeado Secretário da Presidência da República na vaga deixada pelo Ministro Ronald de Carvalho, período em que acompanhou o presidente Getúlio Vargas em sua viagem aos países do Prata.[viii]


Em 7 de dezembro de 1937, com seu apoio, a Sala do Brasil na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi reinaugurada, sendo esta uma das muitas ações de intercâmbio entre os dois países. Em 1941, recebeu, na Academia de Ciências de Lisboa, a Palma de Ouro de Primeira Classe. Em 1938, foi condecorado com a Grande Cruz da Ordem Militar de Cristo.

Muitos foram os Atos praticados pelo nosso embaixador no sentido da aproximação entre o Brasil e Portugal, entre eles, em Setembro de 1942, assinatura do Acordo Postal. A Revista A ORDEM, que tinha como Diretor Responsável Alceu Amoroso Lima (o Tristão de Ataíde), em artigo publicado em sua edição de junho de 1938, intitulado Um Embaixador do Brasil, assim se manifestou:


A uma sólida formação de inteligência aquele embaixador junta, como ninguém, o senso de oportunidades, o atrativo das maneiras, uma afabilidade sem artifícios que elimina as distâncias entre ele e os que buscam a sua convivência e acentua a graça e suaviza a malícia do seu caráter jovial.

Atuou como representante do Brasil em diversos Congressos Internacionais, tais como: 2º Congresso Científico Panamericano, realizado em Washington em 1915, onde apresentou duas importantes monografias: História Diplomática do Brasil Francês e História Diplomática do Brasil Holandês.

Segundo o Embaixador Lafaiete de Carvalho e Silva, Araújo Jorge “aliava as qualidades do espírito às do profissional sério e metódico”.
Em 1935, quando chega a Santiago, um jornalista chileno, Abel Valdés, o descreve como "um homem jovem de palavra fácil, semblante um pouco moreno, que expressa suas opiniões e pensamentos com a máxima claridade e com uma franqueza considerada, até agora, como pouco diplomática".

Profundamente interessado em nossa história diplomática, publicou numerosos trabalhos, notadamente os Ensaios de História Diplomática do Brasil no Regimen Republicano, concluídos em 1908 e editados em 1912, Ensaios de História e Crítica (1916), que englobam estudos sobre a História diplomática do Brasil francês no século XVI, a História diplomática do Brasil holandês (1640-1661), ou ainda sobre temas tão variados como Alexandre de Gusmão, as ilhas Malvinas e o direito da Argentina, Euclides da Cunha ou Guglielmo Ferrero. Quando o Itamarati decide publicar, na década de 1940, a íntegra da obra do barão, o nome de Araújo Jorge pareceu a escolha natural para preparar a Introdução, que o Senado Federal ora reedita, tornando acessível aos estudiosos de nossa história uma das melhores sínteses sobre a atividade diplomática de Rio Branco.[ix]


Em 20 de abril de 1963, no Itamarati, em solenidade presidida Presidente João Goulart, Grão Mestre da Ordem, ocorreu a cerimônia de entrega das primeiras condecorações da Ordem de Rio Branco, entre elas o Embaixador Arthur G. de Araújo Jorge, junto aos que serviram na Gestão do Barão do Rio Branco. (Diário Carioca, 14 de abril de 1963.)


O Diplomata Arthur Guimarães Araújo Jorge faleceu a 27 de fevereiro de 1977, com 92 anos, deixando a viúva, Embaixatriz Helena Caneco de Araújo Jorge, que faleceu no rio de janeiro a 21 de dezembro de 1982 aos 85 anos, e o único filho Raul Caneco de Araújo Jorge, Promotor Público atuante no Rio de Janeiro.



Cerimônia de Troca de Ratificações do Tratado de Condomínio da Lagoa Mirim e do Rio Jaguarão, no Ministério das Relações Exteriores, vendo-se sentados, a partir da direita: O Barão do Rio Branco; Gal. Rufino Domingues, Ministro do Uruguai e Frederico de Carvalho, diretor-geral da Secretaria do Exterior.  De pé, a partir da esquerda: Muniz de Aragão, Elmano Vieira, Amaral França, Cruz Gomes, Nin Frias e Araújo Jorge. Fon-Fon, 14/05/1910.


Dr. Araújo Jorge e Devanaguy Lakmy Silva. Fon-Fon, 22 de junho de 1012.

Devanaguy, bailarina do Municipal. Foto: Diário Carioca, 25 de outubro de 1933.

Casamento de Arthur Guimarães de Araújo Jorge e Helena dos Santos Caneco. O casal ao centro, tendo a sua esquerda (direita de quem olha): D. Emília Guimarães Araújo Jorge e o Dr. Rodrigo Adolpho de Araújo Jorge; e, à direita os pais da noiva: D. Catharina Teixeira dos Santos Caneco e Vicente dos Santos Caneco. Fonte: Revista Careta, 3 de novembro de 1917.

Lauro Muller Filho, Araújo Jorge, 1º Tenente Gensérico de Valconcellos,
Antônio de S. Clemente em viagem aos países do Prata com o Ministro Lauro
Miller. O Pirralho_01.05.1915









[i] Jornal do Recife, 16 de outubro de 1904, p. 2
[ii] Gutenberg, 29 de junho de 1905, p. 2.
[iii] Almanak Larmmert, 1927.
[iv] O Puritano, RJ, 20 de junho de 1912, p. 7
[v] Dário Carioca, 25 de outubro de 1933.
[vi] Diário de Pernambuco, 6 de agosto de 1925.
[vii] Brasil venceu o Uruguai por 2 x 1 na Copa Rio Branco de 1932, no Estádio do Centenário diante de 50 mil pessoas. A Seleção Brasileira jogou com: Victor, Domingos da Guia, Itália (cujo nome verdadeiro era Luis Gervazoni), Agrícola (Canalli), Martim Silveira e Ivan Mariz; Walter, Paulinho, Gradim, Leônidas da Silva (Benedito) e Jarbas.
[viii] Correio de São Paulo, 23 de abril de 1935.
[ix] Rio Branco e as Fronteiras do Brasil, A. G. de Araújo Jorge.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia