segunda-feira, 12 de março de 2018

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O COMENDADOR CALAÇA E A IGREJA DO BONFIM

Por Etevaldo Amorim

O Comendador Calaça. Acervo de Mada-
lena Haber Calaça Pontes.
Nascido em Penedo-Alagoas, em novembro de 1811, “filho de pais honrados e dignos”[i], ficou órfão ainda muito jovem. Tendo que se dedicar ao trabalho para prover sua própria subsistência, recebeu apenas a instrução primária, com noções de gramática e aritmética, em sua terra natal. Dedicou-se ao comércio e à criação de gado, escolhendo para tanto mudar-se para os sertões de Água Branca, então pertencente ao município de Mata Grande.

Foi lá que o Imperador Pedro II o encontrou, em 1859, quando da sua viagem à Cachoeira de Paulo Afonso. Profundo conhecedor de toda aquela região, o Major Calaça lhe serviu de guia e o abrigou na Fazenda do Talhado, no percurso mais difícil da excursão. Desde Piranhas, último ponto navegável do Baixo São Francisco, onde deixara o vapor Pirajá, o Imperador e sua numerosa comitiva seguiram a cavalo e estiveram sob sua orientação segura e confiável.

O nome, na verdade um apelido, lhe teria sido dado ainda menino, por se parecer, no gênio trêfego, com um homem “Fulano de Tal Calaça”. Calaça significa “posta de carne”.

As informações acerca da flora e da fauna da região, fornecidas pelo Major, muito impressionaram Dom Pedro. E mais ainda o agradou a maneira simpática com que tratou a todos, a sua abnegação na tarefa de preparar tudo de modo a oferecer o máximo conforto possível naquelas circunstâncias. Sobre isso ele registraria em seu diário:

...o sr. Calaça apanha a água da chuva, e é bem boa a que nos dá para beber assim como tem uma casinha bem arranjada e limpinha para estas alturas, cujas paredes ele mesmo pintou, não tendo posto vidraças nas janelas por conselho econômico da mulher. Antes de vir há 3 anos habitar aqui, tinha casa de negócio na Água Branca. Mas tanta gente o procurava para arranchar-se em sua casa que, por bem entendida economia, não sei se houve conselho da Penelope, fugiu para aqui onde cuida do seu milho, arroz, feijão etc., da sua vaquinha e cabrinha, e enfim vive mais sossegado da bolsa, esperando eu poder agradecer-lhe o bom agasalho, d’um modo que há de ser grato a seu coração de bom pai de família; em todo caso, lembrar-se-á de que não lhe fui pesado somente.[ii]

Como parte da recompensa, Calaça seria agraciado, em 14 de março de 1860 (data de aniversário da Imperatriz Tereza Cristina), com o título honorífico de Oficial da Ordem da Rosa.[iii]
O Imperador D. Pedro II .


Àquela época, enquanto já tinha o seu filho mais velho, Manoel José Gomes Calaça Junior, nomeado Professor Público em Água Branca, sentia a dor cruciante pela perda de sua querida filha, fruto do seu primeiro casamento de que ficara viúvo muito cedo. A respeito dela, o jornal maceioense Orbe, na edição de 9 de fevereiro de 1898, revela um fato deveras triste e que muito fez sofrer aquele dedicado pai. Diz o jornal:

“...sendo casada durante anos, morreu donzela, assassinada vilãmente e traiçoeiramente pelo próprio marido, depois de haver-lhe devorado a fortuna que levara pela herança materna, não pequena para aqueles tempos”.

Ante a fraqueza das autoridades, o assassino conseguiu fugir e, assim, ficar impune a tamanha brutalidade.

Do seu segundo casamento, com a Srª Izabel Gomes de Sá, teve sete filhos, sendo quatro homens e três mulheres, tendo conseguido dar a todos esmerada educação. São eles: Manoel José Gomes Calaça Junior, professor público; Francisco José Gomes Calaça e Aristóteles Ambrosino Gomes Calaça, ambos Engenheiros; e Populo Gomes Calaça, padre. Uma das filhas era Delfina Senhorinha Gomes Calaça, que se casou com Valério Gomes da Silveira Novaes.

Desse encontro resultou grande amizade entre o Imperador e aquele prestimoso sertanejo, que perdurou por toda a vida. Tanto que, de regresso à Bahia, onde deixara a Imperatriz Tereza Cristina, e em visita ao famoso Ginásio Baiano, sob a direção do renomado professor Abílio César Borges (Barão de Macaúbas), ali encontrou o jovem Francisco Calaça, de cuja educação se encarregaria. Determinou, então, que o diretor do colégio o mandasse a Água Branca despedir-se da família antes de seguir para a Europa a fim de ingressar no curso de Engenharia Civil na tão celebrada Escola de Pontes e Calçadas, em Paris. Formado Engenheiro, em 1868 aos 25 anos de idade, logrando classificar-se em segundo lugar na sua Turma, o Dr. Francisco José Gomes Calaça retornou ao Brasil, onde ocupou importantes cargos nas obras do Governo Imperial.
Campus do IFAL, em Maceió, construído no local onde existia
a casa do Comendador Manoel José Gomes Calaça.


Logo que o filho fixou residência em Maceió, em 1877[iv], para ocupar o cargo de Fiscal da Alagoas Railway, o Major Calaça, entendendo já ter cumprido a sua missão, e também cansado da lida, vendeu tudo o que tinha em Água Branca, mesmo que por preço menor do que de fato custava, e se foi para a Capital, investindo os recursos auferidos em prédios para alugar. Instalou-se no arrabalde do Poço, numa chácara que, segundo Félix Lima Júnior em seu livro Maceió de outrora, tinha um casarão colonial com um belo renque de palmeiras imperiais, que ia do portão até a entrada da casa. Isso tudo foi demolido para a construção da Escola Industrial, depois Escola Técnica Federal, depois CEFET e atualmente denominado IFAL – Instituto Federal de Educação de Alagoas.

Para atender a uma antiga necessidade de sua nova comunidade, Calaça resolveu arcar com a construção da capela do Senhor do Bonfim, da qual havia apenas um projeto.

Com efeito, a construção foi iniciada a 31 de julho de 1882 (segundo o Orbe, de 6 de agosto de 1882, p.2), e, a 26 de janeiro de 1884, recebeu a bênção (Orbe, 20 de janeiro de 1884), passando a integrar a Paróquia de Nossa Senhora Mãe do Povo, de Jaraguá.
A capelinha do Senhor do Bonfim, construída pelo Comendador
Calaça.

Muito tempo depois, com o crescimento do bairro do Poço, a capelinha tornou-se pequena demais. Assim foi que o Rev.Pe. Hélio Lessa, que prestava assistência à comunidade, Bteve a ideia de ampliá‐la. Foi escolhido, então, o projeto do engenheiro‐arquiteto Joffre Saint’Yves Simon[v], com contrato firmado no ano de 1949 no valor de Cr$ 500.000,00 (Quinhentos Mil Cruzeiros). O novo templo[vi] era constituído por uma nave circular com 20 metros e 70 centímetros de diâmetro e uma parede concêntrica composta por 15 arcos, uma cúpula de 16 metros de diâmetro coroada por outra, toda envidraçada, com 4 metros de diâmetro, ostentando no topo o emblema da fé.

A altura total da cúpula, incluída a cruz era de 17 metros. Na fachada principal havia um amplo frontão, estilo grego, encobrindo o batistério, o pórtico e uma sala. Externamente, uma parede com arcos simulados, circundando a nave circular. O altar‐mor ficava em área situada por trás de um arco de grandes proporções e era iluminado por luz indireta (LIVRO DE TOMBO, s/d). Para ver a Igreja do Senhor do Bonfim atualmente, (clique aqui).


Tendo a sua mulher, Dona Izabel, falecido a 28 de abril de 1887, o velho Comendador, em que pese insistentes pedidos de seu filho para que fosse morar com ele, jamais quis deixar a sua antiga residência, apegado às boas lembranças de outros tempos, tendo apenas a companhia de uma velha criada. Entretanto, os temores do Dr. Calaça se justificaram quando, na noite de 27 de abril de 1897, o Sítio do Comendador foi invadido por um indivíduo, provavelmente com o intuito de roubá-lo. Alertados por seus gritos, os vizinhos acorreram para lá e o encontraram caído à porta do quarto, para onde se recolhera poucos minutos atrás. O criminoso tentou asfixiá-lo, não tendo conseguido. Estranhando que a empregada não o tenha alertado, foram à sua procura e deram com ela morta junto à porta do quintal, ao pé da escada.

Diz ainda o jornal Orbe, de 30 de abril de 1897, “Pessoas que vinham do Norte, perto de 9 horas, encontraram na altura de Cruz das Almas, um indivíduo a cavalo, correndo desesperadamente.” Seria o criminoso que fugia?!

Depois desse fato, o Comendador mudou-se para a casa do filho Engº Francisco Calaça, onde veio a falecer no dia 8 de fevereiro de 1898. Seu corpo foi sepultado na mesma capelinha de que foi construtor e benfeitor.

“Bom e expansivo, prestimoso e dedicado, a memória do honrado velho perdurará durante muito tempo no seio da sociedade alagoana, onde deixa gravado sobre o mármore o seu nome honrado e digno”.



[i] ORBE, Maceió, Al, 9 de fevereiro de 1898.
[ii] Anuário do Museu Imperial, Petrópolis, 194, p. 129/130. Ao citar Penpelope, o Imperador certamente se referia à rainha mulher de Ulisses, na mitologia grega.
[iii] Correio Mercantil, RJ, 14 de março de 1860.
[iv] Diário de Pernambuco, 17 de julho de 1920, p. 2.
[v] Natural do Acre, filho de Carlos Alberto Simon e de Rosalie Lanneretone Simon.
[vi] IX Congresso Norte-Nordeste de Pesquisa e Inovação. Instituto Federal de Educação do Maranhão. São Luis, 2014.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

OS CARNAVAIS DE PÃO DE AÇÚCAR


       Álvaro Antônio Machado*
Adolescente, eu fazia, no final da década de 1960, a descoberta das belezas das festas da minha Pão de Açúcar e me encantava, particularmente, com os “carnavais” da minha terra. Isso mesmo, “carnavais”, porque no mesmo ano eram duas festas carnavalescas: uma denominada como tal, que acontecia no mesmo momento em todo o País; e outra chamada “micareme”, esta sim, uma entusiasmada festa carnavalesca que, pela animação e pela participação, parecia acontecer só em Pão de Açúcar ou, no mínimo, fazia da “terra de Jaciobá” a capital dessa folia fora de época.
O que me intrigava na micareme era sua proximidade com o carnaval propriamente dito. Quarenta dias depois das brincadeiras, dos batuques e da bebedeira da primeira festa, e a cidade já caía de novo na folia. Sim, porque a micareme começava logo após “romper a aleluia”, às vésperas do Domingo da Ressurreição, e se estendia até a madrugada da quarta-feira seguinte. Com uma agitação, um contentamento, uma presença popular que parecia fazer do carnaval uma mera preparação para a micareme.
É fato, também, que no carnaval havia algo que me indispunha e era motivo de mil recomendações de cuidados pelos meus pais: o entrudo, a brincadeira que dominava a manhã do domingo. Ela se caracterizava por grupos que circulavam pela cidade em busca de jovens ou adultos desavisados ou desprevenidos, para arrastá-los, sobre os ombros e em meio a enorme algazarra, para um banho forçado nas águas do “velho Chico”, jogados n’água da forma como estavam vestidos. 
Afora o entrudo, o carnaval era singelo enquanto a micareme se sobressaía como o grande festejo carnavalesco. Somente muito tempo depois encontrei uma explicação lógica para o estrondoso sucesso da micareme em Pão de Açúcar, que atraía visitantes e foliões de toda a redondeza. É que Pão de Açúcar, tal quais as cidades ribeirinhas do São Francisco, sempre manteve uma tradição de parir músicos de qualidade que, também no carnaval, faziam sucesso dentro e fora do município com suas bandas. Assim, elas eram muito disputadas no período do carnaval para abrilhantar a festança em outras cidades. Dessa forma, a rapaziada de “Seu” Nozinho, Brandão, Bubu, Irmãos Ramos e vários outros, cada qual no seu tempo, geralmente saía de Pão de Açúcar para tocar em outros lugares no carnaval e durante a micareme tocava em casa, abrilhantando a grande folia da terrinha.

Aos poucos, porém, essa tradição perdeu-se no tempo e restou apenas o carnaval propriamente dito, comemorado em Pão de Açúcar com bem menos destaque que antes da importação das bandas de axé e da substituição do frevo e das marchinhas por ritmos modernos descaracterizados.
Outrora era encantador chegar a época carnavalesca e naquela cidade interiorana tão longínqua, como num passe de mágica, surgirem os blocos que me embeveceram a infância e marcaram minha adolescência: Los Panchos, Bola Preta – precursor do Bola Branca e do Bola Vermelha, Os Cangaceiros, Boi Fubá, Os Bárbaros, A Boneca, As Lavandeiras, O Barracão, Dois Unidos, a Chaleirinha de Meirus; e as “escolas de samba” Sambistas de Urumarys e CIT (“Companhia Inimiga do Trabalho”). A ‘Sambistas de Urumarys’, em que eu figurava, literalmente, balançando o ganzá, trazia no nome uma homenagem aos primeiros habitantes da terra, os índios urumarys, de afinada sensibilidade poética e que deram o primeiro nome ao lugar: Jaciobá, que em tupi-guarani significa ‘espelho da lua’.
Grupo de foliões, tendo a frente Zé Negão (pandeiro) e João de
Santa (banjo)

As brincadeiras de rua, com direito a desfile na principal avenida da cidade, a Bráulio Cavalcante, onde o Rei Momo a tudo observava do seu palanque imperial, começavam ao cair da tarde e se estendiam até perto das onze horas da noite. Nesse período, enquanto uma banda tocava no centro da avenida fazendo a grande festa popular, uma tradição era mantida: a ‘visita’ dos blocos a residências previamente avisadas, onde os proprietários recebiam os foliões com bebidas e tira-gostos, uma forma divertida e inteligente de beber e comer sem pagar, melhor que isso, retribuindo a gentileza com a animação carregada pelas marchinhas e frevos cantados pelos blocos.
O Sr. Roberto Alvim no carnaval de 1968.

A cada ano os blocos exibiam fantasias distintas, mas sem perder a originalidade que caracterizava cada um deles, como os chapéus mexicanos de “Los Panchos”. Dentre todos os blocos e dentre todos os foliões, um indivíduo sempre se destacava: Roberto Alvim. De longe, para mim, o mais fidedigno folião da minha terra e da minha época. Ele parecia viver ‘esperando o carnaval chegar’. E quando chegava, carnaval ou micareme, “seu” Roberto encarnava o autêntico folião: galhofeiro, dançarino, divertido, detentor de contagiante alegria e exibindo-se sempre fantasiado com seu martelinho de plástico brandindo nas mãos e nas cabeças dos amigos.   
Grupo de foliões, tendo a frente Zé Negão (pandeiro) e João de
Santa (banjo)

Terminada a maratona de visitas, e já com os integrantes devidamente ‘calibrados’ pelas distintas bebidas ofertadas, era o momento de grande parte dos foliões (ou, pelo menos, os que ainda se punham de pé) brincar o carnaval no Iate Clube Pão de Açúcar, onde uma banda animava as quatro noites de folia.
E os dias de folia voavam, como sói acontecer nos momentos felizes de nossas vidas. O alvorecer da “quarta-feira ingrata” levava a banda que animava o carnaval do Iate Clube a sair tocando além dos muros da agremiação, puxando o último cordão de foliões pela “Rua da Frente”, como se tentassem evitar o acorde final de ‘Vassourinhas’. A despedida era coroada com os foliões menos alquebrados mergulhando nas águas do ‘velho Chico’, como se procurassem uma purificação para voltar à lida do cotidiano e esperar, ansiosos, o futuro carnaval ou a próxima micareme...

Bloco Los Panchos
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Álvaro Antônio Melo Machado, médico formado pela Universidade Federal de Alagoas; Sócio-efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas; membro da Academia Alagoana de Medicina e da Academia de Letras de Pão de Açúcar.

domingo, 21 de janeiro de 2018

ESCOLA DO PROFESSOR HAROLDO SALATIEL CANUTO

DO ALTO PARA BAIXO:
Primeira fila: 1. José Marques de Albuquerque; 2. Hélio Pastor Cruz (padre); 3. Erichson Ávila Almeida (Lito); 4. José Ramos de Souza (músico); 5. Luiz Machado Tavares (Eng. Civil); 6. Otávio Tavares Vieira (Eng. Agrônomo); 7. Virgílio Fonseca Filho (ex-combatente-1945); 8. Érico de Freitas Machado (Eng. Agrônomo); 9. Heitor Ávila Almeida; 10. Dermeval de Campos Lisboa; 11. Não identificado.
Segunda fila: 12. Danúbio Ferreira (barbeiro); 13. José Barbosa de Medeiros; 14. José de Freitas Lima (Oficial aviador reformado); 15. Antônio Maia Lima; 16. Antônio da Silva Maia Filho; 17. Ariston Rego Pinto; 18. Humberto Melo Barbosa; 19. José de Góis Cavalcante; 20. Salvador Mendes Guimarães (herói da 2ª Guerra Mundial).
Terceira fila: 21. Francisco Pastor Cruz; 22. Olavo de Freitas Machado (Eng. Agrônomo); 23. Francisco (filho de Pedro Merêncio); 24. Maria Vieira dos Anjos (filha de Inocêncio Vieira e d Otília dos Anjos); 25. Maria (sobrinha do Prof. Haroldo S. Canuto); 26. Evalda Vieira de Carvalho; 27. Angelita Oliveira; 28. Ivete Gonzaga; 29. Arício Rego Pinto; 30. Gessé de Góis Cavalcante.
Quarta fila: 31. Pedro Soares Vieira (filho de Inocêncio Vieira e d. Otília dos Anjos); 32. Heráclito Ávila Almeida; 33. Jugurta Gonçalves Lima; 34. Gervásio Francisco dos Santos (autor do livro Um Lugar no Passado); 35. Prof. Haroldo Salatiel Canuto (tabelião em Traipu); 36. José Pastor Cruz; 37. Massilon Gonçalves de Andrade; 38. Abel Machado Tavares (Eng. Civil); 39. Petronilo Nery da Fonseca.
A foto acima mostra uma geração de pão-de-açucarenses, na década de 1930, alunos da Escola do Professor Haroldo Salatiel Canuto, que se tornaria depois Tabelião em Traipu.

domingo, 3 de dezembro de 2017

MADRIGALENTE

Franco Jatubá[i]
Que não diriam todas as maldosas
flores, a rir, nas ramas viridentes,
se eu te beijasse a boca? Maldizentes,
talvez dissessem proibidas cousas...

Muito daria que dizer às rosas
e aos lírios, faladores, insolentes...
De nossas duas almas inocentes
fariam duas almas criminosas!

Deixa primeiro que o Sol morra. Apenas
a noite chegue, tatalando as penas
cheias d’orvalho e de melancolia,

nos beijaremos tanto, que dos ninhos
irão fugindo os doidos passarinhos,
cuidando ouvir a música do dia!

Alagoas, 1899.










[i] Pseudônimo de Francisco Remígio de Araujo Jatobá. Algumas referências o tratam como Francisco Remígio de Albuquerque Jatobá, adotando o sobrenome da mãe.
Nasceu em Murici – AL, a 20/01/1872, segundo o ABC DAS ALAGOAS. Entretanto, o jornal Gutenberg, de 2 de abril de 1907, noticiando a sua morte, diz que ele nasceu em Maceió.
Faleceu em Maceió - AL a 31/03/1907.
Poeta, jornalista, funcionário público.  Era filho de José Inácio de Araújo Jatobá (que foi administrador da Cadeia de Maceió) e da “modista” Bárbara Cordeiro de Albuquerque Jatobá. Era tio do também poeta Cypriano Jucá (filho da sua irmã Maria Grabriela e de Romualdo da Silva Jucá).
Iniciou seus estudos em Maceió, mas não chegou a completar os preparatórios. Funcionário da Alfândega de Maceió (1890), escriturário do Tesouro Federal, no Rio de Janeiro, nomeado em 1895 e demitido em 1903. Seus artigos foram reunidos em um volume, após sua morte.
Patrono da cadeira 28 da Academia Alagoana de Letras. No jornalismo, combateu a denominada Oligarquia Maltina.
Obra: O Brasil e o Insulto Argentino, Maceió, Imprensa Oficial/ Liv. Fonseca, 1907, sob o pseudônimo de Sargento Albuquerque (edição confiscada por ordem do Ministro das Relações Exteriores). Segundo Romeu de Avelar, que o incluiu na sua Coletânea de Poetas Alagoanos, o Barão do Rio Branco teria interferido junto ao editor para sustar a publicação.  É ainda de Romeu de Avelar a informação de que teria deixado inúmeros poemas inéditos e uma coletânea de contos orientais. Fundador e redator, em 1892, de O Labor (hebdomadário literário, instrutivo e recreativo dedicado à mocidade alagoana.) e do Correio de Maceió, e colaborador de O Gutenberge do Correio de Alagoas. Jucá Santos afirma que deixou inédito o livro de poesia Vale de Lagrimas, o poemeto O Sapo, o livro Beduínos (contos orientais), Judéia (contos bíblicos) e o drama Ódio de Família, de um prólogo e quatro atos, todos na guarda de sua irmã, os quais foram destruídos após a morte desta.

Fonte principal: ABC DAS ALAGOAS. BARROS, Francisco Reinaldo Amorim de.

domingo, 19 de novembro de 2017

POSSIDÔNIO CALAÇA, POETA AGUABRANQUENSE

Possidônio Calaça_foto_O Operário_Montes
Claros 31.01.1933.

Por Etevaldo Amorim


POSSIDÔNIO JOSÉ CALAÇA DO ESPÍRITO SANTO nasceu em Água Branca, Estado de Alagoas, a 17 de maio de 1877. Era filho do Capitão Januário Gomes do Espírito Santo e de D. Antônia Gomes Calaça[i]. Seus avós paternos eram Manoel José Gomes do Espírito Santo e Josepha Gomes de Sá; e, maternos, o Professor Manoel José Gomes Calaça Junior e Maria Alves Calaça.

Tinha como irmãos: Viridiana Calaça do Espírito Santo; Maria Calaça de Figueiredo, esposa do Cel. José Amâncio de Figueiredo; Antônio Calaça e José Calaça do Espírito Santo, este último cirurgião-dentista radicado em Januária.
Bacharelou-se em Ciências e Letras no Ginásio de Maceió.  Já em 1894, prestava os Exames de Preparatórios no Ginásio Nacional e na Escola Politécnica, no Rio de Janeiro, chegando a cursar o primeiro Ano da Faculdade de Medicina e, concomitantemente, o primeiro ano da Escola Politécnica.
Em 1897, passou a residir em Januária, Minas Gerais com a família, onde seu pai foi Coletor de Rendas. Ali, foi professor na Escola Normal Livre e exerceu também o jornalismo, tendo sido Gerente do Jornal A LUZ, que circulou naquela cidade mineira por volta de 1903; e foi Presidente do Diretório do Grêmio Literário Januarense.
Passou um tempo em Belo Horizonte como funcionário dos Correios e professor particular, como também o foi em Pirapora, por volta de 1916.
Como tantos outros poetas e boêmios daquele tempo, Possidônio morreu cedo, aos 55 anos, em Januária, Minas Gerais, a 20 de janeiro de 1932.
O Dr. Edmar Magalhães[ii], Promotor Público januarense que, quando criança, conheceu o poeta no ocaso da vida, o descreve como “todo curvo, resguardado com panos ao pescoço, colete, paletó de pachá preto, calças listradas e estreitas caindo sobre pés grossos, inchados, calçados com mais de uma meia, e de chinelo de trança de calcanhar alto.” E prossegue, reproduzindo a visão que tivera na venda do Sr. Alfredo Carneiro, “Trazia um chapéu largo à cabeça, e os seus bolsos eram volumosos, deixando aparecer a ponta de um lenço grande, cheio de quadrados vermelhos...
Já Antônio Vieira Barbosa, na Gazeta de Paraopebas (25/02/1940) reflete sobre suas lembranças de Possidônio, num encontro, em 1921, em casa comercia do professor Benedito Casqueiro. “Boêmio inveterado, desperdiçou em libações e noitadas com perda de sono os melhores anos da vida, quando, em plena madureza intelectual, pudera produzir com regularidade, dando-nos, ainda, as mais estremes cintilações do seu estro magnífico.”
                Possidônio, desprendido e desregrado, sem qualquer compromisso com o equilíbrio financeiro de sua vida, morreu pobre. Tanto que, tendo recebido, por herança, a vultosa quantia de Dez Contos de Réis, sem qualquer plano de investimento,  abandonou o quarto de solteirão que ocupava em casa de um parente e mudou-se para o melhor hotel da cidade. Quando o dinheiro acabou, e com a maior naturalidade, retornou à antiga moradia.

Eis alguns dos seus poemas:

SE EU AMO!! ..

Perguntaram-me um dia se eu amava,
Esperando a resposta com ardor...
E neste mesmo tempo eu meditava:
-Há quem possa existir sem ter amor?

Não amar, nesta vida, é impossível;
Impossível os passos dirigir...
Não pode homem nenhum, mesmo insensível,
Nem há de a natureza permitir.

Viver sem amor?! Ah! Nem sonhando;
Motivo para o amor não vai faltar


A SUBLIME EPOPÉIA

Em êxtase, desfolho o livro do infinito,
Em face ao mundo, ao tempo... e a tudo que extasia.
Reina em tudo o que vejo esplêndida magia
E imerso no cismar, atônito, me agito!

Contemplo a natureza, e a contemplar medito,
Por ver na criação mirífica harmonia!
Parece-me que Deus em tudo se anuncia,
Que tudo em Deus aclama altíssimo e bendito1

Do meu compreender, estreito ou limitado,
Eu busco perscrutar na atônita estreiteza,
Este grande universo, imenso, mal sondado....

Então, do peito meu, por ver tanta grandeza,
Parte, de íntima voz, do fundo d’alma o brado
Que diz: - Poeta é Deus – poema a natureza”

Mariana, 1906.

Publicado em O Malho, Ano V, nº 210,  Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1906, p. 28.
_______________

MEU BERÇO

Sou filho de Alagoas. Água Branca
é meu berço natal, a vilazinha,
                a terra em que nasci.
O horizonte, a meus olhos tira, arranca
o céu do berço meu, da pátria minha,
                Onde infante vivi.
Daqui não vejo o céu de minha terra,
essas matas virentes, o meu vale,
                O meu nativo lar.
O belo céu azul que a Pátria encerra,
Mas, que em mim a saudade sempre fale,
                Fazendo-me lembrar.
Sou filho de Alagoas, bela plaga,
Que São Francisco beija quanto passa
                No leito colossal,
O mesmo S. Francisco que hoje alaga
As terras que em limites ultrapassa
                No solo marginal.
É tão belo o torrão alagoano!
Que formosas manhãs! Um céu sorrindo
                Nos róseos arrebóis!
Inda mais... Deodoro e Floriano
Dizem, na voz da história ressurgindo:
                “És um berço de heróis!”

Publicada em Antologia Remissiva, de Prof. Napoleão Mendes de Almeida. Editora Annablume, São Paulo, 2003.





[i] Em registro de nascimento de uma filha natimorta Erotides Calaça do Espírito Santo, em 3 de maio de 1889 diz que o pai é o Capitão Januário Gomes do Espírito Santo (natural de Tacaratú-PE) e a mãe era Edeltrudes Calaça do Espírito Santo.
[ii] Vida Doméstica, RJ, novembro de 1944, p. 125.

sábado, 30 de setembro de 2017

JOÃO LISBOA

Por Etevaldo Amorim
O fotógrafo, escultor e artista plástico
João Damasceno Lisboa


João Damasceno Lisboa, também conhecido por “Joãozinho de siá Marica” e “Joãozinho Retratista”, nasceu em Pão de Açúcar, Estado de Alagoas, no dia 6 de maio de 1900. Era filho de José Martins Lisboa e Antônia Alves, conforme consta do seu Registro de Casamento feito no Cartório de Pão de Açúcar. Já na Certidão de nascimento do seu filho Heraldo, consta ser a avó paterna Antônia Edina Lisboa. Seu pai, tendo ficado viúvo, casa-se, a 25 de junho de 1904, com Cândida da Conceição Simas, filha de Firmino Pereira Simas e Idalina da Conceição Simas.  Eram seus avós paternos: Aristides Martins Lisboa e Maria da Conceição Santos Silva. Órfão de mãe em tenra idade, foi criado por Maria Eunice da Conceição, conhecida por “siá” Marica.
A 25 de março de 1919, então com 19 anos, casa-se com Nominanda de Campos, filha de Luiz Paulo e Francelina Augusta de Campos, à época com 25 anos. O ato foi realizado na presença do Juiz do Segundo Distrito do Limoeiro, Manoel Vieira Dantas, que substituia o Juiz do Primeiro Distrito, Sr. Guilhermino Pastor da Veiga, tendo por testemunhas os Srs. Álvaro Machado e Octávio Brandão de Oliveira. O casal teve os filhos Heraldo Campos e Evandro.
Siá Marica, mãe adotiva de João Lisboa
Recebeu do artista pão-de-açucarense Segismundo Maciel as primeiras lições da arte de tirar retratos. Desde os tempos em que a fotografia era feita por processos rudimentares, João Lisboa tornou-se o melhor fotógrafo da região..
A pintura também despertou o seu interesse. Na igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, pintou toda a marquise, por ocasião dos festejos comemorativos do Centenário da Paróquia, em 1953.
“Seu Joãozinho” partiu então para voos mais altos. Em Pão de Açúcar, esculpiu os bustos de Bráulio Cavalcante, do Professor Antônio de Freitas Machado e do Presidente Médici, além das miniaturas dos Guerreiros de Bruno Giorgi e da Praça dos Três Poderes, além da estátua do Cristo Redentor do Morro do Cavalete, a sua obra mais relevante. Sua inauguração, que contou com cerca de 6.000 pessoas, se deu no dia 29 de janeiro de 1950. O monumento mede 12,80 m de altura, sendo que a figura tem 10 metros.
Pão de Açúcar em 1946. Foto: João Lisboa.
O Cristo Redentor do Morro do Cavalete, em Pão de Açúcar-AL
Foto: Duan Cícero,
Em Palmeira dos Indios, na Igreja Matriz, outra obra de João Lisboa: as imagens dos 12 Apóstolos. Em Santana do Ipanema, o busto de Adeildo Nepomuceno e o Jumento carregando água em ancoretas, como nos tempos em que a cidade não ara dotada de sistema de abastecimento de água.
João Lisboa esculpindo o busto de
Bráulio Cavalcante, em 1947.




Esculpiu ainda muitas estátuas do Padre Cícero Romão Batista, espalhadas por diversas cidades de Alagoas, bem como a do povoado Meirús, erigida em frente à igreja de Nossa Senhora da Luz, em 2 de outubro de 1971.
            Em 1933, segundo Aldemar de Mendonça em seu “Pão de Açúcar: história e efemérides”, João Lisboa inaugura o Cinema São José, em sociedade com Antônio da Silva Pereira. Entretanto, seu nome aparece como proprietário de um cinema no Almanak Laemmert de 1929.
          Faleceu em Pão de Açúcar a 1:30 h do dia 8 de dezembro de 1990.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia