quarta-feira, 30 de novembro de 2016

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ASSASSÍNIO DE UM BANDIDO

Por Hormino Lyra[i]
Havia ao norte de Pão de Açúcar, pitoresca cidadezinha alagoana à margem do São Francisco, e distante doze quilômetros da mesma cidade, lugarejo aprazível denominado Meirús, com as suas palhoças, tijupás, choupanas, casas de barro, pau-a-pique; umas cobertas com telhado de colmo, outras, com telhado de telha vã.
Nesse lugarejo aparecera velho religioso, Frei José de São Jerônymo, que ali se sentira bem, muito feliz, pois gozavam os olhos em rever todo o dia aquele delicioso pedaço de terra brasileira, recanto abençoado das Alagoas, que lhe lembrava um painel antigo, presépio encantador.
Com o auxílio dos habitantes dali, dos das suas cercanias, revolveu erigir lá uma capela, onde dizia as missas, e pregava ao modesto e meigo rebanho, cujas almas cândidas, como brancas pombas, feitas de piedade e de fé, criam piamente na lealdade, no saber do bom velhinho, criam ardorosamente nas verdades da religião.
Morou frei José ainda muitos anos no referido lugarejo, ao qual batizara de Campo Alegre, que hoje é povoação, tendo já, como base de progresso industrial, grande máquina de extrair a semente da penugem algodoeira, ou, como se diz vulgarmente, de descaroçar algodão.
Um dia, nos Meirús, entrara Zé Cururu, inesperadamente, na venda de Manoel Pedro Paulo, mais conhecido por seu Chico da venda, quando estava o sol quase no ocaso.
Palestravam ali alguns desocupados; a presença do bandido cortou o fio da palestra. Seguiu-se, em longo intervalo, profundo silêncio.
Ele que, apesar de sexagenário, tinha a cabeleira apenas grisalha, era o mesmo homem de sempre: vigoroso, forte, com a severidade no olhar e o hábito antigo de pouco encarar as pessoas com quem falava.
Ao entrar na casa do seu Chico da venda, havia saudado laconicamente os circunstantes com um “ora, vivam, meus senhores!” e a que lhes corresponderam todos com “Deus lhe dê boas tardes!”.
Para romper o silêncio, sem ter assunto, dirigiu-se Manoel Pedro Paulo ao recém-chegado:
- Não sei por que, tive pressentimento de que o senhor estava no povoado.
- Como?
- Ah! É esse meu dedo que adivinha!
Em seguida, fechou a mão, e, esticando os dedos, um por um, disse, por fazer espírito:
- Dedo mindinho, o seu vizinho, o pai de todos, fura bolo, mata piolho. Adivinham todos eles até quando vai chover.
- Porém, foi o mindinho que adivinhou a minha vinda! Está bem...
- Então, como lhe trata essa gente por aí afora, ou por outra, como trata o senhor os filhos da Candinha?! Anda tudo debaixo do cutelo, não?!
Zé Cururu era indivíduo de poucas palavras; porém, quando lhe falava alguém das suas façanhas, ficava facilmente comunicativo. O vendeiro assaz conhecia o fraco dele.
- Ora, seu Chico! Já não sou quem dantes era!
- Noto que o senhor é a mesmíssima pessoa de todos os tempos: está bem disposto, não envelhece... E, lá isto é verdade, sempre foi muito valente!
Envaidecido, o facínora, que nunca sorria, o lábio superior encrespara-se a tremer, quando ensaiara sorriso, tal como o cão que rosna.
Velho criminalista, num só gesto, no próprio sorriso de um Zé Cururu, descobriria a tara do indivíduo propenso ao mal... do criminoso nato!
- Não me considero valente, sim doido; porque quem faz o que ainda faço, não tem juízo perfeito. Para verem vocês se sou doido ou não, basta contar-lhes o caso seguinte:
Tinha eu bela rapariga em casa de uma tia velha perto de Santana. Estávamos combinado, já com tudo pronto, a fim de seguirmos para a minha casa, no Sertão de Pernambuco. Conversava com a rapariga, quanto certa vez entrou apressadamente a tia, e avisou-me: “Fuja, seu Zé, que vi um horror de soldados ali, na ribanceira; Prá mim, andam a vê se descobrem aqui a casa, prá darem o cerco!”
Os homens estavam acampados a meia légua. Nunca tinha tido eu soldados tão perto de casa!
Como nada faltasse para empreendermos a viagem, ajudei a aparelhar os cavalos; e, em vez de ir-me embora sossegado, mandei a rapariga com a tia velha – “vão indo, que me vou encontrar já com vocês”;
Que fiz?... Uma taioca foi mexer com um enxú!
Conduzi, de mansinho, o cavalo pelo cabresto, deixei-o amarrado no tronco da aroeira, no mato fechado; saí, pé ante pé, e grande foi o meu espanto, quando me encontrei cara a cara com o alferes comandante da força! Vinha este, também, pé ante pé, a ver se bispava alguma coisa, e quase desmaiou quando deu comigo!
Fiquei na frente do homem por espaço de vinte segundos, olhando firme para ele. Como nada me dissesse, puxei da faca e degolei-o com menos dificuldade do que o faria a um porco; porque este ao menos arrelia, grunhe, faz barulhos dos seiscentos mil diabos. Oh! Nunca vi bicho tão de ânimo tão fraco do que esse tal alferes!
Mal acabava de fazer esse serviço, eis que surgem dois soldados que mais atrás vinham acompanhando o Alferes. Ai fui mais ligeiro: com disparo de bacamarte fim um deles aninhar ali mesmo. Quis o outro dar volta, enleou os pés nos cipós, caiu de borco – dei-lhe com a coronha na cabeça, e enviei-lhe a faca no cachaço, que foi sair no gogó!
Logo percebi que o resto da tropa havia de se assuntar, ouvindo o ronco da boca do sino. Dei imediatamente volta para a aroeira, onde o rosilho estava amarrado. Suspendi com o a pistola de dois canos que trazia o alferes e a respectiva munição, que tinha o oficial na bolsa de couro, presa no cinturão. Segurei a carabina que trazia um dos soldados e todas as balas que vinham nas cartucheiras.
A tropa ficou assustada, porque conheceu, pelo estrondo, que o disparo não era de carabina, nem de pistola. Achei era a ocasião de confundir o pessoal que, porventura, tivesse internado no mato; e carreguei o bacamarte que, pela segunda vez, trovejou muito mais forte, muito mais pavoroso que o bramido de velha onça faminta!
Montei no rosilho, que estava fogoso como nunca, dei grande volta pela lomba e fui, depois de algum trabalho, descobrir a Força numa baixada, já com o corpo do alferes e dos dois soldados!
Pareciam estar indecisos sobre o que haviam de fazer. Com a própria carabina, derrubei um inferior. O pessoal perdeu o tino, e disparou por toda a parte. Fui matando soldados, enquanto não os perdia de vista”.
- Pelo que vejo o Senhor não erra pontaria! – admirou-se Manoel Pedro Paulo.
- Pois então! Na minha vida, desde que fiz de mim celerado, consagro todo o tempo que posso em assestar a espingarda na direção de qualquer alvo, porque entendo assim: uma vez que o indivíduo escolhe certa profissão, seja boa ou má, deve aperfeiçoar-se na especialidade! A minha especialidade era assassinar; logo, tinha eu estrita obrigação de saber manejar a faca com perícia, e de não errar o alvo! Este era sempre qualquer homem que passava na estrada, quando calculava ser indivíduo desclassificado.
Entendo tanto ter direito de viver o beija-flor inofensivo, como o indivíduo desclassificado, ou ainda outro qualquer; pois desde que Deus castigou o gênero humano com o mau sentimento da inveja, o homem ficou sendo o pior animal do mundo!
- O senhor há de ter muitas mortes nas costas! – disse o vendeiro.
- Penso que nenhum bandido do Brasil terá maior número de mortes do que eu.
- Não exagero, não! Estou com mais de sessenta anos nos costados e, desde a idade de dezesseis anos, a minha vida tem sido de exercícios, a fazer pontaria... não lhes digo nada: nunca alvejei passarinhos...
Chegara, então, um rapazola analfabeto, de dezoito anos, quase banguela, cor de ocra, o tipo perfeito da indolência, com o abdome muito volumoso, maltrapilho, pés descalços, e o qual, há muito tempo, conhecia de nome o célebre Zé Cururu, grande bandido, de cujas façanhas falavam todos. O recém-chegado, que descascava um pedaço de aipim cru, com ordinária faquinha de ponta, do qual arrancava lascas com os caninos esverdeados para as engolir – dirigiu-se ao vendeiro sem ter saudado os presentes.
- Seu Chico, quero dez réis de vinagre e dez réis de azeite doce nesta garrafa; quero dois vintém de gás neste fuxiqueiro.
Interrompeu o Zé Cururu:
- Antes de atender a esse amarelo, dê-me cachaça.
O vendeiro encheu o copo de aguardente de cana, entregou ao bandido, e este dirigiu-se ao rapaz:
- Como se chama você?
- E eu sei?!
- Então você não sabe como se chama?!
- A canaia é que me chama de Veado, mais poréns o meu nome mesmo é Dorvalino.
- Que povo burro é esse, que alcunha de veado a quem só tem gestos de preguiça?!
Do ditério não gostou Dorvalino, mas nem olhou para quem estava a falar-lhe.
- É... Estou aqui quéto, e não sei que tem você de mexê com quem tá quéto...
Aflitos, procuraram todos, por meio de sinais, avisar a Dorvalino que se calasse, pois logo compreenderam o rapaz não sabia com quem tratava. O facínora, porém, fora indulgente.
- Está bem, disse; para sermos amigos, você, seu amarelo, vai chamar ao peito um trago dessa água que passarinho não bebe! Não lhe apaixona um trago de canguara?
- Eu não bebo, não!
- Não gosta de esquentar o peito!?
- Lá que uma vez ou outra, mais poréns não estou disposto...
- Então é por desaforo... é por ter eu gracejado com você, seu amarelo malcriado?
- Ora, pur amô de Deus! Seja lá pru qui você quizé! – respondeu muito agastado.
Era quase noite.
- Deixe de pabulagem, seu papamacaxêra, vociferou Zé Cururu que, ao mesmo tempo, ergueu o braço e deu um empuxão em Dorvalino.
Este, na mesma ocasião em que Cururu o arrastara para si, enterrou instintivamente toda a lâmina da faquinha na mama esquerda do facínora, que caiu fulminado. E retorquiu com cólera:
- Pabo é você, seu fio d’ua égua!
Morto o bandido, os circunstantes dispersaram-se horrorizados. Ficou apenas Dorvalino com Manoel Pedro Paulo.
- Inháfute! E, sentenciosamente, muito nervoso, disse o vendeiro: esse e o fim de todo valentão!
- O sinhô viu, seu Chico, o que este peste fez comigo?! .. Nunca pensei, na minha vida, de matá um home, mais poréns, nestas condição, não me arrependo! Entrego ao sinhô a faca e não fujo. Estou preso.
- Sabes a quem mataste, Veado?
- Nem quero sabê, seu Chico, quem é esse desgraçado. Sei que me azucrinou a paciência, me xingou, quis me , e eu não podia fazê outra coisa... O sinhô é testemunha...
- Não sabes de que livraste o mundo!? ...
- Como, seu Chico?!
- Pois mataste Zé Cururu, homem de Deus!
- Não diga, seu Chico! ... Murmurou, acentuando demoradamente a tônica do verbo.
E o rapaz começou a tremer, como vara verde, e caiu-lhe a caxerenga da mão.
____________
Extraído da revista Fon-Fon, Ano XVII. Nº 9, Rio de Janeiro, 3 de março de 1923, p. 3.




[i]
Poeta, romancista e ensaísta, HORMINO ALVES LYRA nasceu em Pão de Açúcar, Alagoas, em 3 de agosto de 1877. Era irmão do ex-Prefeito Manoel Alves Lyra. Fez seus estudos secundários no Ginásio São João em Penedo, onde exerceu as funções de censor e lecionou como substituto de várias cadeiras.
Em princípio, pensou dedicar-se à vida eclesiástica. Entretanto, não obstante a sua crença religiosa, percebeu que não tinha vocação para o sacerdócio. Prestou, então, concurso para a Fazenda e para os Correios e Telégrafos. Aprovado em ambos, preferiu o segundo, sendo admitido como Telegrafista.
Escreveu para vários jornais e revista como O Malho e Revista da Semana.
Suas principais obras são: Dona Ede(romance), em 1913; O 14 (contos), também em 1913; O Barão do Triunfo, 1941, separada da Imprensa Nacional (memória); Crisol (poesia), 1960. Troveiro, 1960 (poesia).
Foi casado, em primeiras núpcias, com Alayde Vaz Ribeiro (filha de João Vaz Ribeiro e Ana Braga Ribeiro) e, em segundas núpcias, com Marieta de Mello Carvalho (filha do Coronel Augusto Álvaro de Carvalho e de D. Maria Luiza de Mello Carvalho), falecida em 5 de janeiro de 1961. Hormino Lyra faleceu no rio de Janeiro em 13 de setembro de 1970.

domingo, 27 de novembro de 2016

ADALBERTO MARROQUIM, PERNAMBUCANO DA TERRA DAS ALAGOAS

Por Etevaldo Amorim

Adalberto Marroquim_foto_DIÁRIO DA NOITE-RJ, 01.05.1930.
Procedente da região de Palmares, com raízes familiares nos Engenhos de Açúcar de Campos Frios, povoado de Água Preta, esse pernambucano, por sua atuação no campo das letras e da política, vincularia definitivamente a sua vida ao vizinho Estado do Sul.

ADALBERTO AFFONSO MARROQUIM, era filho de Francisco Affonso Marroquim e de Sebastiana Maria da Conceição Areda. Nasceu no dia 12 de setembro de 1888. Seu pai, cujo nome de batismo era Francisco Correa de Almeida, era sócio de Cândido gonçalves Ferreira Cascão na propriedade da Usina Pirangy Assu, no Município de Palmares, Pernambuco, e do Engenho Pirajá, distrito de Campos Frios, Água Preta. Seus avós paternos era Herculano Antônio José Marroquim e Francisca Correa de Almeida, falecida a 14 de setembro de 1900, em Água Preta, aos 90 anos de idade.[ii].

Depois de prestar os exames preparatórios no Ginásio Pernambucano, ele ingressou na Faculdade de Direito do Recife em 1908, para se formar em 1911, juntamente com Bráulio Cavalcante e Pontes de Miranda. Talvez por ser colega desses dois alagoanos ilustres, já visitava Alagoas ainda nos tempos da academia. Há um registro de sua visita à redação do jornal Gutenberg, em 2 de julho de 1909.

Casou-se com Olívia La Greca, natural de Pernambuco, mas filha do casal italiano Vicenzo La Greca e Teresa Carlomagno, que veio para o Brasil no final do Século XIX, quando a Itália atravessava sérias crises. Era irmã do banqueiro José La Greca e do pintor Murillo La Greca, cujo nome de batismo era Vicente. Com ela teve os filhos: Francisco La Greca Marroquim, que se tornaria médico conceituado em Pernambuco; Nicaula La Greca Marroquim e Maria Helena La Greca Marroquim.
Em 17 de setembro de 1910, e, portanto, antes de se formar, assumiu interinamente o cargo de Promotor Público da Comarca de Palmares, Pernambuco.[iii]

Em 1915, já exercia a advocacia em Maceió, onde também ocupou o cargo de Fiscal Municipal junto à Companhia de Bondes Elétricos. Ficou famosa a sua atuação no caso de Cândida Mendonça Malheiros, de 22 anos, acusada de autoria intelectual do assassinato de Marietta Cunha, de apenas dezesseis anos, suposta amante de seu marido, o comerciante Manoel Malheiros. Marroquim conseguiu a absolvição de sua cliente, não obstante a grande repercussão do crime, ocorrido entre Bebedouro e Fernão Velho. Segundo o jornal O Pharol, de Juiz de Fora-MG (9 de novembro de 1915), os executores do crime aplicaram à vítima mais de vinte punhaladas, tendo ainda cortado suas orelhas, os cabelos e a língua, levando como prova para a mandante.

Adalberto Marroquim ao lago de Fernandes Lima e a filha deste_A Notícia_Bahia_23.04.1915.

Em 1919, Marroquim participou do Congresso Brasileiro de Geografia, realizado em Belo Horizonte, em companhia de Moreira e Silve e Diegues Júnior. Chegaram a Maceió a 22 de outubro de 1919. Coincidentemente, neste mesmo navio viajava a urna mortuária do escritor maranhense Aluísio de Azevedo, que falecera seis anos antes em Buenos Aires, para ser sepultado em sua terra natal, por sugestão de Coelho Neto. O governador de Alagoas o visitou no cais de Jaraguá.[iv]
O livro Terra das Alagoas, organizado por Ad. Marroquim.

A 19 de fevereiro de 1922, embarca no vapor Itaúba com destino ao Rio de Janeiro para, de lá, embarcar para a Itália,[v] com a missão de mandar imprimir o livro Terra das Alagoas.[vi] Tal publicação fazia parte das comemorações, em Alagoas, do Centenário da Independência do Brasil. Em setembro, ainda permanecia na Itália, o que provocou críticas no jornal Gazeta de Alagoas. Tanto que, em carta publicada no mesmo jornal, no dia 10 daquele mês, carta essa replicada no Jornal do Recife, de 16 de setembro de 1922, pelo poeta Jayme d’ Altavilla procura justificar a demora na confecção do precioso livro. Esclareceu que o organizador da obra, ao chegar a Roma, “Marroquim teve de enfrentar não poucas dificuldades, oriundas da exorbitância dos preços das casas editoriais, tendo somente em maio deste ano, conseguido firmar contrato com a grande empresa Maglione & Cia.” Ademais, tratando-se de uma obra com mais de 300 páginas, 470 clichés esparsos, outros 30 em fototipia, capa em percalina com tricromia e ouro, não poderia ficar pronta em menos de quatro meses.
Afinal, demorou-se em Roma até o ano de 1923, (jornal do Recife, 17 de fevereiro de 1923), desembarcando do vapor inglês Almanzora, no dia 16 de fevereiro de 1923, vindo de Lisboa. No dia 20, chegou a Maceió e, de imediato, foi a Riacho Doce, oferecer um exemplar ao Governador Fernandes Lima.
Adalberto Marroquim_foto_Jornal do Recife
_18.02.1923_recém-chegado da Itália.

No Governo de Costa Rego (1924-1928), ocupou os cargos de Administrador da Recebedoria Central e Diretor da Instrução Pública, nomeado no dia 23 de junho de 1924.

A 29 de agosto de 1926, foi nomeado para a Serventia Vitalícia Privativa de Registro de Imóveis e Hipotecas de Maceió, após pedir dispensa da Recebedoria da Capital.[vii]

Foi indicado e eleito para o cargo de vice-governador, tendo como cabeça de chapa o Dr. Álvaro Paes, para o período de 12 de junho de 1928 a 12 de junho de 1932. Em eleição realizada o dia 12 de março de 1928, foi eleito Vice-governador. Ele já tinha sido eleito Deputado Estadual nas legislaturas 1917-18 (eleito com 7.915 votos); 19-20 (com 6.386 votos); 21-22 e 23-24.[viii]

A 2 de agosto de 1929, participa de reunião da Comissão Executiva do Partido Democrata em Alagoas, presidida pelo Gov. Álvaro Paes, aprovam Moção de apoio às candidaturas de Júlio Prestes e Vital Soares para Presidente e Vice-Presidente da República. Nesse mesmo ano, torna-se presidente da Sociedade Alagoana de Educação.

Nesse mesmo ano, segundo notícia do jornal Diário Carioca (4 de abril de 1929, p. 3), o Vice-Governador depôs o Prefeito de Leopoldina (Colônia Leopoldina), Sr. Aristeu Ramos. Este, na imprensa pernambucana, vocifera contra o ato considerado por ele arbitrário. Outro episódio em que também se achou envolvido foi o empastelamento da revista penedense A Semana.

Em 11 de abril de 1930, deixa o cargo de Secretário do Interior no governo Álvaro Paes. Na verdade, o Congresso Estadual decretou a perda do seu mandato. Os jornais da época comentavam que tal se deu a pedido do Governador Álvaro Paes e pelo fato de Marroquim se ter negado a dar assinatura a uma nomeação de um seu desafeto para professor do Liceu Alagoano.

Com o advento da Revolução de 1930, o Interventor Federal em Alagoas, Hermilo de Freitas Melro, determinou a sua prisão. Em inquérito instaurado pela autoridade revolucionária, depuseram contra ele os tenentes Panaleão Netto e o chouffer Hegecipo Caldas. Inicialmente levado para o Quartel da Polícia Militar, foi depois transferido para a sua residência. Libertado, retorna a Pernambuco e, em 1938, no Governo de Carlos de Lima Cavalcanti, exerceu o cargo de Diretor do Tesouro. Logo depois foi nomeado Consultor Jurídico da Caixa Econômica Federal.

Faleceu às 10:00 horas do dia 10 de novembro de 1940, em sua residência, à Rua dos Caldeireiros, 1916, no bairro Casa Forte, no Recife, com 52 anos de idade, quando era Diretor-Secretário da Junta Comercial. Foi sepultado no dia seguinte às 15:00 horas no Cemitério de Santo Amaro, na capital pernambucana.

Para homenageá-lo, logradouros das duas capitais nordestinas aonde ele viveu receberam o nome do Dr. Adalberto Marroquim. No Recife, no bairro da Imbiribeira e, em Maceió, no bairro do Farol. Há também uma Escola Estadual em Batalha com o nome do Dr. Adalberto Marroquim.

Ad. Marroquim foi autor de peças de teatro, como é o caso de “Madrasta”, apresentada no Teatro Deodoro em 11 de outubro de 1916 pela Cia. Maria de Castro, e da comédia “Passado que volta”, apresentada pela Troupe Zorda e São Luiz do Maranhão (Pacotilha, 25 de janeiro de 1919, p. 4).

Em 1919, a 16 de novembro, em reunião na casa do pintor Correia Dias[ix], reúne-se com diversas personalidades do mundo das letras e das artes para ler a sua peça sertaneja “Maria Rosa”. São dele essas obras: “Maceió Civiliza-se”; “À Espera da Missa”; (Repositório de Informações sobre o Estado) e a opereta “A Mais Bela”.

Em 16 de novembro de 1919, na casa do pintor Correia Dias, onde leu a sua peça sertaneja “Maria Rosa”, Adalberto Marroquim, sentado ao centro, entre os Srs. Alberto Deodato e Correia Dias. De pé, da esquerda para a direita: Oliveira e Silva, Vieira da Cunha, Bráulio Vieira, Gustavo Barroso (João do Norte). O Malho, RJ, Ano XIX, nº 898, 29 de novembro de 1919, p. 31.


SONETO

AD. MARROQUIM

Embaraçado nos meus vinte e um anos,
Nos vinte e um dias dessa indefinida
Teia de dores transcendente – a vida,
Tecendo enganos, destecendo enganos!

Alma tateante, incerta, confundida
No turbilhão de humanos – desumanos,
Tantalizada pelos desenganos,
De agonias mortíferas transida.

Como que ao longe uns vultos solitários,
Negrejando na sobra extraordinários
Através do meu censo descortino

Vejo-os, vem vindo, nítidos, perfeitos,
Figurar espectrais, sonhos desfeitos
Todos velando sobre o meu destino.

Publicado no Gutenberg, Maceió, 14 de agosto de 1909, p.2.


M. LaGreca e sua aquarela representando uma canoa de tolda no rio S. Francisco. 



[i] Falecido a 30 de setembro de 1908, com 52 anos de idade e filho de Antônio José Marroquim - falecido a 12 de março de 1881 - e de Anna Correa de Almeida, proprietários do Engenho Baité ou Bathé.
ii] Francisca Correia de Almeida, prima em segundo grau de seu marido, era filha de Manoel de Barros Lindoso e Costódia Correia de Almeida - donos do Engenho Baeté, em Barreiros, Pernambuco, pelo menos até a segunda metade do século XIX
[iii] Diário de Pernambuco, 7 de outubro de 1910.
[iv] Correio da Manhã, 22 de outubro de 1919, p. 3.
[v] O Paíz, 20 de fevereiro de 1922, p. 2.
[vi] Jornal do Recife, 15 de janeiro de 1922, p. 4.
[vii] Correio da Manhã, RJ, 31 de agosto de 1926, p. 7.
[viii] Barros, José Reynaldo Amorim de. ABC DAS ALAGOAS.
[ix] Fernando Correia Dias, artista plástico luso-brasileiro que se casaria, em 1922, com a poetisa Cecília Meireles, com que teve as filhas Maria Elvira, Maria Matilde e a atriz Maria Fernanda.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

SERENATA PARA LAMPIÃO

Por Álvaro Antônio Machado[i]
Pão de Açúcar sempre teve, até meados da década de sessenta, as famosas festas de “Micareme”, eventos tradicionais que sempre ocorriam após a semana sanda e se constituíam no segundo carnaval da cidade, com três dias de muito frevo e alegria que, quase sempre, superavam o êxito do carnaval propriamente dito.
Hoje em dia a população senta a falta da “Micareme” principalmente pelo que ela representava para a cidade, pois sempre atraía centenas de pessoas vindas dos mais diversos lugares, para participar da festa que, no gênero, era a melhor do Estado. Dir-se-ia que, do início do século até cerca de quinze anos atrás, somente uma vez, no ano de 1937, não houve “Micareme” nesta cidade.
E não houve por um motivo muito especial. Naquele ano, o clube Social Beija-flor, único existente na comuna, havia convidado a “Orquestra do mestre Walter”, de Propriá-SE, que na época era a mais famosa da região, para tocas os quatro dias de frevo.
Tudo acertado, a orquestra sergipana, composta por dezenas de músicos, partiu de Propriá dois dias antes do sábado de aleluia de 1937, rumo a Pão de Açúcar pelas águas do rio São Francisco, já que as rodovias da época só eram utilizadas por carros-de-boi.
O maestro Walter e seus colegas viajavam tranquilamente na canoa “Rio Branco”, de propriedade do barqueiro Luiz Martins, quando, nas imediações do “Morro da Abelha”, município de Gararu-SE, os acordes ritmados e harmoniosos da orquestra atraíram um grupo de homens que acampava junto ao dito morro.
O grupo era composto por homens fortemente armados e o seu líder logo deu ordem para que o bando invadisse a canoa dos músicos. Tomados de surpresa, o maestro Walter e seus companheiros não tiveram tempo de reagir, e nem isso adiantaria muito, porque o líder do bando não era outro senão o famoso bandido Lampião, acompanhado por dezenas de cangaceiros.
Diriam mais tarde os músicos sergipanos que pensavam que Lampião fosse mata-los ou jogá-los nas águas do rio São Francisco. Mas aconteceu algo inesperado: Lampião deu ordens para que nenhum músico fosse maltratado e em seguida fez um improvisado discurso revelando seu gosto pela música e “convidando” a orquestra para acompanhar o bando até a localidade de Jacobina-SE (abaixo de Propriá), uma vez que a viagem seria mais agradável se fosse “musicada”.
E os pobres e nervosos músicos tiveram que voltar atrás na sua viagem, tocando continuamente para os cangaceiros de Lampião e contando com um problema a mais: a orquestra havia sido afinada para frevos, sambas e marchas carnavalescas, mas Lampião preferia as valsas e as serestas... Fazendo das tripas, coração, os músicos sergipanos atenderam o desejo de Lampião que, ao chegar a seu destino, “agradeceu sensibilizado” a boa-vontade de todos.
Somente na terça-feira de Micareme é que o maestro Walter e seus companheiros chegaram a Pão de Açúcar. Recebidos com muita bronca pelos foliões pão-de-açucarenses, só depois de muita explicação é que foram perdoados pelo atraso. E após uma “vaquinha” feita pelos diretores do Clube Beija-Flor, eles empreenderam viagem de volta a Propriá, não mais pelo rio São Francisco, pois temiam a repetição do célebre episódio, mas montados em carros-de-bois, enfrentando sol, chuva, poeira e algumas semanas de viagem pelo árido sertão sergipano.
_______________
Publicado na Seção Notas da Redação, do jornal Gazeta de Alagoas, do qual Álvaro Antônio Melo Machado era correspondente em Pão de Açúcar, na edição do dia 13 de abril de 1980.



[i] 
Médico pão-de-açucarense formado pela Universidade Federal de Alagoas, com Especialização em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz.

sábado, 19 de novembro de 2016

MIGUEL OMENA – UMA PEQUENA BIOGRAFIA

Por Etevaldo Amorim
Dr. Miguel Omena em 1911.
MIGUEL WENCESLAU DE OMENA FILHO, nasceu no dia 25 de junho de 1870[i], na cidade de Alagoas (hoje Marechal Deodoro). Era filho do professor Miguel Wenceslau de Omena e da professora Eugênia Maria de Omena. Ambos lecionaram nas cadeiras da Vila da Imperatriz (hoje União dos Palmares) até 1861, quando foram removidos para o povoado Taperaguá, em Alagoas (hoje Marechal Deodoro). Ela faleceu a 19 de agosto de 1916, na Rua de Santa Maria (atual Guedes Gondim), em Maceió.
Integrante de numerosa prole, tinha como irmãos: o padre João Edmundo de Omena, que faleceu em 1891 quando era vigário de São Lourenço da Mata, em Pernambuco; o também padre José Castilho de Omena, que foi o segundo vigário da Paróquia de Pão de Açúcar; Olympia, que faleceu em 1913; Pedro Venceslau de Omena, major-médico do Exército, falecido em 11 de fevereiro de 1920; Ana Amélia, casada com o Major Benigno Mello, que foi Administrador do Mercado Público de Maceió; Maria Pastora; Maria Emília, casada com o comerciante português Manuel da Silva Nogueira; Eugênia de Omena Filha; e Antônio Venceslau de Omena, advogado formado pela Faculdade do Recife, também morreu assassinado em Jaraguá, na noite de 13 de março de 1888, por Alfredo Torres, filho de Justino da Silva Torres, por motivos de ciúme.
Miguel Omena estudou no Colégio São Domingos, dirigido pelo Professor Domingos Moeda e ingressou na Faculdade de Direito do Recife em 1890, onde se formou em Ciências Jurídicas e Sociais. Voltando a Maceió, estabeleceu-se com escritório num sobrado sitiado na Rua do Comércio.
Foi diretor-redator da revista Jurisprudência, que se publicava semanalmente em Maceió, fundada em 5 de agosto de 1894, cujo editor era Luiz Griziano da Rocha Algarrão (tipógrafo falecido em 25 de novembro de1897).[ii] Foi Presidente, por duas vezes consecutivas, da Sociedade Dramática Cavalheiros da Época[iii] e Orador da Sociedade Philarmônica Minerva.[iv] Participou também de uma organização chamada Apostolado Republicano.
Revista Jurisprudência, dirigida por Miquel Omena.

Em 1905, candidatou-se a Deputado Federal por Alagoas, sem se filiar a nenhum Partido existente.
Conta o Diário da Tarde, de Curitiba, na edição de 1º de junho de 1906, que, na noite do dia 1º de maio daquele 1906, o Dr. Miguel Omena e mais dez companheiros passavam pela Rua do Comércio, em Maceió, na esquina dos quatro cantos, quando encontraram o Tenente coronel Salustiano Sarmento, Comandante do Batalhão de Política, acompanhado do 1º Comissário José Pedro de Farias Neto e outros Praças. O Comandante deu ordens para desarmar o grupo. Houve tiros, ao final atribuídos a Miguel Omena, sendo ferido na boca o Cel. Sarmento. Entretanto, segundo o jornal Correio de Alagoas, não foi o Dr. Omena o autor dos disparos. Afirma ainda que o próprio Sarmento teria dito ao Sr. Joaquim Alvin, pessoa conceituada na Capital alagoana, que não tinha sito o advogado o autor dos disparos.
Depois desse episódio, e segundo notícia do Gutenberg, em edição de 3 de junho de 1906, teria saído de Maceió escondendo-se no Engenho Peixe, em São Luiz do Quitunde. Por fim, sem condições de continuar em Alagoas, fugiu, disfarçado de soldado, de barba e costeleta, embarcando em Jaraguá num dos navios do Lloyd Brasileiro. Nessa viagem, fazia-se acompanhar de dois indivíduos que estiveram com ele no sinistro de 1º de maio. Outra versão apontada pelo mesmo jornal especula que ele teria ido ao porto de Jaraguá, às sete e meia da noite, cercado de amigos, e embarcado num vapor da companhia Freitas.
De uma forma ou de outra, chegaram ao Rio de Janeiro e, de lá, tomaram o vapor Guasca com destino ao porto de Paranaguá. Omena usava os falsos nome de Dr. Saldanha da Rocha e Manoel Olympio. No porto de Paranaguá, foi preso.
Telegrama divulgado pelo jornal A Notícia, de Curitiba, em 31 de maio de 1906, diz:
“O Guarda-Mor Pittaluga, com remeiros da alfândega, armados, foi a bordo do vapor Guasca prender o Dr. Omena por fatos políticos ocorridos em Alagoas. Não havendo contra o Dr. Omena ordem alguma de prisão, dizem ser este fato violento uma vingança pessoal, por ter sido Omena advogado contra Pittaluga em questão de família. ”
O mesmo jornal menciona o fato de não ter os Guardas-Mores funções policiais. A menos, diz ele, que o Dr. Omena portasse contrabando. O Sr. Pedro Francisconi Pittaluga não tinha, portanto, poderes para prender Omena.
O Dr. Minguel Omena, representado por seu advogado, Dr. Vieira de Alencar[v] (também alagoano e seu contemporâneo na Faculdade do Recife) impetrou habeas corpus para si e para seus dois acompanhantes, sendo concedida pelo Tribunal de Justiça em decisão unânime.[vi]
Em 14 de março de 1908, casa-se com a Srª Judith Vilella Bittencourt, filha do Coronel Vilella Bittencourt, com quem teve um filho, José Mário, falecido ainda criança, em 9 de junho de 1913; e uma filha, Dercilla, nascida em 20 de janeiro de 1909. Ela (Dercilla) se casou, no Rio de Janeiro, no dia 27 de setembro de 1933, com o advogado Alceu Coelho Vasconcelos[vii]. Tendo enviuvado, casa-se com Adelino Gonçalves, naturalizado, passando a chamar-se Dercilla Omena Gonçalves. Ficou viúva novamente em 1984.
Em Ponta Grossa, manteve um Colégio, o Colégio Central do Paraná, até 1910.
O Colégio Central do Paraná, dirigido por Miguel Omena.
Faleceu no dia 21 de agosto de 1911, em Ponta Grossa, Paraná. Foi assassinato em seu Escritório enquanto escrevia um novo artigo para o jornal O Progresso, de que era Redator-Chefe. A notícia foi passada pelo seu irmão, Dr. Pedro W. Omena que, como ele, residia no Paraná. Informações sobre o assassinato chegaram aos seus familiares através de telegrama enviado pelo sogro de Miguel Omena, Cel. Bittencourt, ao Cel. Pedro Vianna. Informa o dito telegrama que o assassino se chamava Augusto Muller, um alemão de 58 anos de idade. Empunhando uma garrucha, Augusto Muller adentrou o Escritório, e, “a menos de um metro, detonou o primeiro tiro em sua testa, derrubando-o, com a cadeira, no assoalho”, conta o Dr. Josué Corrêa Fernandes, em excelente artigo na revista Advogatus, da OAB/PR. “Enfu­recido, - continua o articulista, “o agressor ainda despejou o conteúdo do outro cano da rústica arma, acertando, de ras­pão, no ombro de Miguel, que jazia numa poça de sangue e de pedaços de miolos. Tristemente, o homem que vivia da pena tombara com ela nas mãos. E a matéria jornalística, que fazia o elogio da humildade e da concórdia, quebrou-se ao meio, interrompida pelas reticências de sangue que a ira e a ignorância gravaram. ”
O jornal A República, de Curitiba, em edição de 24 de agosto de 1911, noticiando que O Progresso saíra com tarja preta no dia seguinte ao seu assassinato, transcreve o artigo interrompido por Miguel Omena no momento em que é atingido pelas balas de seu agressor. O artigo tinha por título A VIRTUDE DA DIPLOMACIA e tratava do incidente entre o Barão do Rio Branco e o Dr. Gabriel Piza[viii]:
“Parece-nos de registramento histórico-filosófico o que se acaba de passar no alto cenário da diplomacia brasileira, entre os Srs. Gabriel Piza e Rio Branco, contempladas as duas fases que se sucederam na composição de um incidente que começou tão mal e impensadamente, por ofensas censuráveis, da parte daquele ex-Ministro plenipotenciário em Paris, e terminou, tão admiravelmente, pela bela resistência do seu caráter arrependido do erro, e pelo denodo de franca retratação, que mereceu de outra parte, o solene perdão do grande ofendido, o Sr. Rio Branco.
Foi uma nuvem enegrecida que desapareceu logo, deixando no mesmo brilho o valor de homens tais. Um pode errar, podendo arrepender-se; o outro pode ressentir-se sabendo perdoar.
É uma rigorosa lição esta, de amor social....”
Viúva, a Srª Judith casou-se, no Rio de Janeiro, com Horácio Francisco Coelho.[ix]
No dia 26 de agosto de 1911, num prédio da rua da Aurora, nº 81, no Recife, aconteceu uma Reunião de acadêmicos alagoanos, presidida por Luiz Figueiredo e secretariada por Bráulio Cavalcante, a fim de fazerem manifestações de pesar à imprensa e ao Estado de Alagoas pelo falecimento de Miguel Omena. Não imaginava, Bráulio, que ele próprio seria vítima de assassinato sete meses depois.
___________
REFERÊNCIAS:
ATHAIDES, Rafael. AS PAIXÕES PELO SIGMA: AFETIVIDADES POLÍTICAS E FASCISMOS. Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2012
FERNANDES, Josué Corrêa. AMORTE DO DR. OMENA. Revista ADVOGATUS, Ano V, nº 55, maio/junho de 2014.



[i] FOLHA DO ACRE, Cidade da Empresa-AC, 22 de novembro de 1911, p. 2.
[ii] REPÚBLICA, Florianópolis-SC, 30 de dezembro de 1894, p. 2.
[iii] MACEIÓ, Maceió-AL, 6 de dezembro de 1897, p. 2.
[iv] GUTENBERG, Maceió, 19 de dezembro de 1896, p. 2
[v] MANOEL VIEIRA BARRETO DE ALENCAR nasceu no dia 20 de fevereiro de 1873, em Mata Grande, estado de Alagoas. Seu pai, João Vieira Damasceno, era Coronel da Guarda Nacional na comarca de Paulo Affonso (Mata Grande). Sua mãe era Maria Francisca Agra de Alencar, conhecida por Cota Agra de Alencar, era tia de Euclydes Malta. Formou-se, em 1892, pela Faculdade de Direito do Recife. Faleceu em 2 de abril de 1909, em Paulo Affonso (Mata Grande). De longa carreira jurídica e política no Paraná, Vieira de Alencar ocupou cargos como os de Juiz, Deputado Estadual (na Primeira República) e Professor Catedrático da Universidade do Paraná. Seu perfil, no que tange ao quesito geracional, difere em relação aos demais líderes integralistas do estado e do país, que em geral nasceram na primeira década do século XX. Faleceu em 20 de janeiro de 1960.
[vi] A NOTÍCIA, Curitiba, 1º de junho de 1906, p. 2.
[vii] O DIA, Curitiba, 20 de setembro de 1933, p. 2.
[viii] Gabriel de Toledo Piza de Almeida (Porto Feliz: 1851-São Paulo: 1925).
[ix] O BRASIL, Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1925, p. 5.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

SAMPAIO DÓRIA, UM ILUSTRE ALAGOANO DE BELO MONTE

Por Etevaldo Amorim

Dr. Sampaio Dória.
Com a deposição de Getúlio Vargas, na noite de 29 de outubro de 1945, pondo fim ao Estado Novo e a quinze anos de ditadura, assumiu o Governo o Dr. José Linhares, então Presidente do Supremo Tribunal Federal. Ele estava numa festa em família quando foi chamado ao Ministério da Guerra para uma conversa com o Ministro da Guerra, Gal. Pedro Aurélio de Gois Monteiro. Pela madrugada, já no dia 30, ficou sabendo que deveria assumir, interinamente, a Presidência da República, dado que a não havia um Vice-Presidente.
Na montagem do ministério, foi escolhido para a Pasta da Justiça e dos Negócios Interiores o renomado professor da Faculdade de Direito de São Paulo, o Dr. Antônio de Sampaio Dória. Coube-lhe desempenhar a brilhante tarefa de preparar a Nação para o pleito de que resultou a formação da Assembleia Nacional Constituinte e, ao mesmo tempo, a eleição, pelo voto popular, do Presidente da República. Ele foi o primeiro a ser empossado. Em seu discurso, procurando definir a conjuntura política, assim se expressou[i]:

Mas, em verdade, estou deslumbrado com os sucessos políticos desses últimos dias. Assistimos a um fenômeno singular na história das instituições políticas: deporem as forças armadas a um ditador, e não instituírem, em substituição, outra ditadura. No interregno entre a queda do poder ilegítimo e eleição popular, apelam as forças vitoriosas para a imparcialidade do Poder Judiciário. Não foi a cobiça do poder que as impulsionou; mas o sentimento de suas responsabilidades para com a Nação em cujo seio se formaram. Acima de tudo, colocaram o ideal da Pátria com instituições liberais, justiça efetiva e opinião pública organizada. Nessa atitude que acabam de ter, há um exemplo digno de memória: o desprendimento, a energia e o patriotismo, como nunca houve em revolução nenhuma do mundo, em lugar dos institutos de caudilhismo, que desgraçam os povos sem cultura política. A Nação, que nestes últimos meses as vem acompanhando, vibrante e apreensiva, tem motivos do mais justificado orgulho pela nobreza de que acabam de dar lição. Nelas repousam a segurança da ordem e da justiça, até a volta do país à legítimo”.

Ao final, em declaração aos jornalistas presentes, afirmou que não haveria delito de opinião e que o pensamento e a doutrina eram livres, acrescentando: “Ninguém será preso por ser comunista, ou ateu, ou adotar a corrente política que entender”

Especificamente quanto aos comunistas, fora o próprio Sampaio Dória que, pouco tempo antes, enquanto Ministro do Tribunal Superior Eleitoral, e em que pese algumas diligências, subscreveu Parecer favorável ao Registro Provisório do Partido Comunista do Brasil – PCB. Assim os comunistas puderam participar das eleições, elegendo um Senador, Luiz Carlos Prestes, e uma aguerrida bancada de Deputados Federais constituintes[ii], até terem seus mandados cassados, em 1948, como consequência da cassação do registro do Partido.

Palácio do Catete, 31 de outubro de 1945. Sampaio Dória discursa em sua posse no Ministério da Justiça e dos Negócios Interiores, perante o Presidente José Linhares e outras autoridades. Foto: Arquivo Nacional. 
O Ministro da Justiça comandou o processo eleitoral. Em 20 de novembro de 1945, expediu telegrama aos Governadores e Interventores Federais nos Estados instruindo-os para a obediência ao Decreto-Lei nº 8.188, de 20 de novembro de 1945. Segundo ele, os Prefeitos que até o mês anterior tivessem sido membro de diretórios partidários, deveriam ser afastados e, assumindo o expediente das Prefeituras o Juiz de Direito da Comarca. Foi assim que, em Pão de Açúcar, por exemplo, foi afastado o Prefeito Augusto Machado, em 22 de novembro de 1945, assumindo o comando do município o Dr. Olavo Acioli de Moraes Cahet Filho, Juiz de Direito da Comarca, até o dia 4 de dezembro do mesmo ano, quando retornou o titular.

26 de novembro de 1945. Sampaio Dória participa de reunião ministerial. Da esquerda para a direita: Antônio de Sampaio Dória (3º, de óculos); José Pires do Rio, Ministro da Fazenda (4º); Jorge Dodsworth Martins, Ministro da Marinha (5º); José Linhares, Presidente (6º); Conrobert Pereira da Costa, Ministro da Guerra (8º); Pedro Leão Veloso Neto, Ministro das Relações Exteriores (9º); e Armando Figueira Trompowski de almeida, Ministro da Aeronáutica (10º). Fonte: Arquivo Nacional.
Na véspera das eleições, Sampaio Dória recebe jornalistas para uma entrevista, entre estes Assis Chateaubriand, de terno branco, de perfil, à sua direita. Foto: Arquivo Nacional.
Dia 2 de dezembro de 1945. Dr.Sampaio Dória exercendo o direito do voto após quinze anos de ditadura. Foto: Arquivo Nacional.
22 de dezembro de 1945. O Dr. Sampaio Dória embarcando para São Paulo com membros de sua família. Foto: Arquivo Nacional.
Por problemas de saúde, deixou o cargo a 8 de janeiro de 1946, antes mesmo de chegar ao fim o governo interino do Presidente José Linhares. Ficou respondendo pelo expediente o Dr. Teodoro Camargo, titular da Agricultura.

Vale a pena conhecer um pouco da história desse ilustre alagoano.

O jovem Sampaio Dória. Fonte: O Imparcial.
ANTÔNIO DE SAMPAIO DÓRIA[iii] nasceu a 25 de março de 1883, em Belo Monte, Estado de Alagoas. Filho de Cândido Soares de Mello Dória, de origem sergipana, e de Cristina Leite Sampaio. No livro n. 1 de Batizados dessa Paróquia, a fls. 39-verso, consta o assento de seu batismo, feito pelo padre Antônio Soares de Mello, a 5 de agosto de 1888, sendo seus padrinhos Fortunato Francisco de Oliveira e d. Josefina Leite Sampaio. Em sua terra iniciou apenas os estudos, tendo como professor seu irmão mais velho, Pedro Soares de Sampaio Dória.

Em 1877, seu pai transferiu a residência de Lagoa Funda (atual Belo Monte) para Pão de Açúcar[iv], e em 1889, decidiu transferir-se com a família (mulher e onze filhos) para São Paulo. Lá continuou como vendedor ambulante, vendendo móveis e utensílios para casa, de cidade em cidade, até estabelecer-se em Santa Cruz do Rio Pardo, no Oeste do Estado. Dalí atingiu Jacarezinho, no Norte do Paraná, onde adquiriu fazenda de café.[v] Aliás, ainda em Alagoas, e por volta de 1875, atuava como Caixeiro Despachante, representando a empresa do italiano José Jacome Tasso.[vi] Aliás, a origem dos Dória é italiana, tendo constituído no Brasil ramos em São Vicente e na Bahia (que abrangia o território de Sergipe), mais precisamente na região de Propriá (daí os Costa Dória, Rodrigues Dória, Seixas Dória).

O jovem Antônio pode, então, completar o curso primário e prosseguir nos estudos secundários no Colégio Silvio de Almeida, prestando exames de preparatórios.

Em 1904, matriculou-se na Faculdade de Direito, diplomando-se Bacharel em Ciências Jurídicas e sociais, colando Grau em 10 de dezembro de 1908. Aliás, seu irmão Pedro, que fora seu primeiro professor, o precedera no curso de Direito, tendo sido fundador e primeiro Presidente do famoso Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade do Largo de São Francisco.

O Professor Antônio de Sampaio Dória
Foi professor, durante alguns anos, do Ginásio Macedo Soares, exercendo ainda o cargo de vice-diretor do Externato. Em 1914, após brilhante concurso, em que se classificou e m 1.° lugar, foi nomeado professor catedrático de Psicologia, Pedagogia e Educação Cívica, da Escola Normal Secundária da Capital.

Inscreveu-se, em 1919, no concurso para professor substituto da 2.a Secção, (Direito Público e Constitucional, Direito Internacional Público e Privado), desta Faculdade. Reuniu suas dissertações de concurso no volume Problemas de Direito Público. Aberto concurso para provimento do cargo de professor substituto da 5.a Secção.

Durante o curso jurídico, dedicou-se ao ensino no antigo Ginásio Macedo Soares, onde regeu a cadeira de Psicologia e Lógica e, na Escola de Comércio Álvares Penteado. Uma vez diplomado, por pouco tempo exerceu a advocacia, para dedicar-se ao jornalismo, ocupando o lugar de Redator-chefe de O Imparcial, do Rio de Janeiro. Voltando a São Paulo, concorre, em 1914, à cadeira de pedagogia da Escola Normal da Praça da República, que obteve após brilhantes provas.

Em 1920, sendo ainda professor da Escola Normal, por convide do Presidente do Estado de São Paulo, Washington Luiz, foi chamado à direção geral da Instrução Pública do Estado, tendo tido a oportunidade de realizar uma profunda reforma no aparelhamento escolar paulista. Sua administração foi assinalada com medidas de grande alcance prático, como o recenseamento escolar, pela primeira vez realizado no Brasil, a criação das delegacias regionais de ensino, a escola alfabetizante, a unificação das escolas normais, a sistematização da prática pedagógica, a organização da assistência escolar, além de outras.

Deixando o cargo na Instrução Pública, a 2 de maio de 1921, foi algum tempo depois convidado para superintender o Banco de São Paulo. Vagando-se, em 1925, a cadeira de Direito Constitucional da Faculdade de Direito de São Paulo, o Dr. Sampaio Dória a ela concorre, obtendo o primeiro lugar e sendo nomeado catedrático.
Homenagem de seus amigos ao Dr. Sampaio Dória por ocasião da sua nomeação para a Faculdade de Direito de São Paulo. Foto: Fon-Fon, 5 de fevereiro de 1927.
Sempre ligado aos ideais de ensino e à sua propagação, fez parte do primeiro Conselho Diretor do Liceu Franco-Brasileiro e presidiu o Liceu Nacional Rio Branco, de que é um dos fundadores. Dentre suas obras, vale destacar: Princípios da Pedagogia (1914); Ensaios (1915); O que o Cidadão deve Saber (1917); Problemas de Direito Público (1919); A Questão Social (1920); Questões do Ensino (1923); Como se Aprende a Língua (1922); Como se Ensina (1922); Psicologia – 2ª edição (1928, 1930); Princípios constitucionais (1926); O espírito das democracias (1925); e “Sobre a formação da linguagem”.

Aos 81 anos de idade, vítima de infarto, faleceu em São Paulo, a 26 de dezembro de 1964, sendo sepultado no mesmo dia, às 16;30 h, no cemitério de São Paulo. Compareceram diversas personalidades, entre elas o reitor da USP Prof. Luiz Antônio da Gama e Silva e o advogado João de Oliveira Filho.[vii]

Era casado com Estefan Carvalho de Sampaio Dória (conhecida por Fanny), com que teve os filhos Luiz Antônio de Sampaio Dória (casado com Jandira de Sampaio Dória), Maria Helena Dória Leme da Fonseca, casada com Antônio Leme da Fonseca; Maria Regina Dória Ribeiro, casada com Pedro Surreaux Ribeiro; e Omar de Sampaio Dória, casado com Lúcia Goulart.

Em 1968, atendendo o seu desejo, a família doou o acervo de sua biblioteca particular à Faculdade de Direito de Alagoas. Em sua terra natal, e em São Paulo, há escolas com o seu nome e, em Maceió, uma rua em Ponta Grossa.

Belo Monte - 1869. Foto: Abílio Coutinho (disponível IMS).

Belo Monte, década de 1960. Fonte: IBGE.
Belo Monte, foto recente. Fonte: http://www.alagoasnumclick.com.br/municipios/belo-monte.



[i] Diário Carioca, 1º de novembro de 1945.
[ii] Carlos Marighela, Gregório Bezerra, Jorge Amado, João Amazonas, José Maria Crispim, Maurício Grabois, Joaquim Batista Neto, Milton Cayres de Brito, Agostinho Dias de Oliveira, Alcedo Coutinho, Claudino José da Silva, Alcides Sabença, Osvaldo Pacheco e Abílio Fernandes.
[iii] Antônio de Sampaio Dória, por Ernesto Leme.
[iv] Jornal do Penedo, 22 de junho de 1877.
[v] Museu da Pessoa, relato de Fábio Dória do Amaral, disponível em http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/historia-de-vida-45489.
[vi] Jornal do Recife, 12 de maio de 1875.
[vii] Correio da Manhã, RJ, 29 de dezembro de 1964, p. 3.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia