domingo, 17 de janeiro de 2010

CEM ANOS DO FUTEBOL EM PÃO DE AÇÚCAR

No Brasil e em muitos outros países o Futebol é o esporte mais praticado, mais popular e, cada vez mais, um interessante negócio que movimenta milhões de dólares.
A sua chegada em solo brasileiro se deu através de estudantes brasileiros na Europa. No caso de São Paulo, por Charles Miller; no Rio de Janeiro, por Oscar Cox; na Bahia, por José Ferreira Filho e, em Pernambuco, em fins do ano de 1903, pelas mãos de Guilherme de Aquino Fonseca, pernambucano que estudava na Inglaterra.
Segundo o cronista esportivo Givanildo Alves (um alagoano de Rio Largo radicado em Recife), coube ainda a Guilherme de Aquino Fonseca fundar o Sport Club do Recife, em 13 de maio de 1905, que abraçou o novo esporte, diferentemente do seu rival Clube Náutico Capibaribe, que recusara os seus apelos alegando que o Náutico “era destinado exclusivamente à prática de esportes aquáticos e que, além disso, o futebol não era esporte e sim troca de pontapés”.
Alguns anos depois, em 1909, o novo Presidente Ernesto Pereira Carneiro, “para não ver mais os rapazes do Náutico misturados aos do Sport, treinando futebol na Campina do Derby, como os jornais vinham noticiando quase todos os dias, resolveu introduzir o futebol no Náutico.” – Givanildo Alves, em História do futebol em Pernambuco.
Ainda naquele mesmo ano, no dia 24 de julho, aconteceu o primeiro jogo entre Náutico e Sport, no British Club, em que este perdeu por 3 x 1, segundo relata Givanildo Alves, enquanto transcreve a notícia do Jornal Pequeno:

“Os forwards do Sport Club ontem estavam infelizes nos seus passes, dando isso motivo a que a bola sempre caísse em poder dos half-backers do Náutico”, acrescentando ainda: “há muito aqui no Recife não tínhamos o prazer de assistir a uma festa tão concorrida e que pela sua própria natureza entusiasmasse tanto os espectadores. Decididamente, o futebol é um grande diplomata!”

Em Alagoas, segundo Lauteney Perdigão - conhecido pesquisador e profundo conhecedor das coisas do esporte, o futebol teria chegado “no ano de 1908, trazido pelos filhos de famílias poderosas que estudavam o curso superior na capital pernambucana; entre eles estavam o próprio varão do quase vitalício governador Euclides Malta.” – (Douglas Apratto Tenório – A Metamorfose das Oligarquias).
Em Pão de Açúcar tudo indica que aconteceu da mesmíssima forma. A capital pernambucana experimentava o futebol, recém apresentado pelo estudante Guilherme. Além disso, muitos ingleses ali residiam e estimulavam a sua prática. Filhos das famílias mais abastadas de Pão de Açúcar estudavam em Recife.
Esta notinha social, inserta na página 3 da edição de 19 de dezembro de 1909 do jornal A IDÉIA, nos leva a crer que a introdução do futebol em Pão de Açúcar tenha se dado através desses estudantes. Senão vejamos:

“Viajantes
Do Recife chegou no dia 14 o Dr. Luiz Machado, trazendo em sua companhia os esperançosos estudantes:
Augusto de F. Machado, Luiz de F. Machado, Júlio Evangelista, Antônio Alves Feitosa, Antônio de F. Machado, José Alves Feitosa e Júlio de Freitas Machado.”

Provavelmente em gozo de férias, é de se supor que esses jovens – entre catorze e dezesseis anos, logo iniciaram ou incentivaram a prática futebolística nas nossas várzeas ou nas nossas coroas, ou mesmo no meio da rua (quem sabe na nossa hoje conhecida Avenida Bráulio Cavalcante, na época desprovida de qualquer urbanização), já que, na edição de 23 de janeiro de 1910, o mesmo semanário noticia:

“FOOT BALL
Louvamos a idéia de alguns moços pão-de-açucarenses terem organizado um “Sport Club”, pois é mais um passo que damos para o progresso material de nossa terra.
Entretanto, lamentamos a falta de união que existe entre estes jovens, pois já consta que, levados pelo orgulho, cada um quer ser o primeiro.
Desejamos que olvidem-se essas diminutas discrepâncias e o “Sport Club” tenha uma vida duradoura.”

Note-se que o nome da nova agremiação era exatamente igual à do Recife: “SPORT CLUB”, numa clara reprodução da idéia concebida na capital de Pernambuco.
Tal era o entusiasmo que, no Carnaval daquele ano, a novidade foi a presença dos rapazes do Futebol. Aproveitando a popularidade da festa, os adeptos do novo esporte fizeram uma boa divulgação, desfilando pelas ruas da cidade, conforme noticiou a imprensa local:

“O foot-ball club merece especial atenção pela originalidade que patenteou. De frack e cartola, marchava a dois de fundo, músicos a retaguarda e, num recolhimento profundo, cantava de vez em quando e litanias plangentes de sabor rigorosamente fúnebre.”
Ao aparecerem na rua, muitas pessoas se levantaram de chapéu na mão, aguardando, respeitosas, a passagem dos restos de algum infeliz patrício. Alguns oficiosos, então, encarregavam-se de avisar que aquilo era o foot-ball club.
Deram a nota os rapazes do foot-ball.”
(A IDÉIA, 13 de fevereiro de 1910)

Apenas para reforçar a nossa premissa, lembramos que, em 1930, ocorreu a fundação de outro famoso clube de futebol em Pão de Açúcar: o Ypiranga Esporte Clube, cuja Diretoria assim se compunha: Júlio de Freitas Machado (Presidente), Antônio de Freitas Machado (Vice-Presidente), José Mendes Guimarães-“Zequinha Guimarães” (Diretor Esportivo), Odilon Pires de Carvalho (Tesoureiro), Antônio Tavares (Secretário), Lauro Marques de Albuquerque (Orador Oficial) e Odilon Rodrigues (encarregado do material esportivo e do campo) – Gervásio Francisco dos Santos, UM LUGAR NO PASSADO.
Lá estavam os outrora estudantes (Júlio e Antônio), ainda empenhados na consolidação do futebol em sua terra natal.
Nesses cem anos, muito progrediu esse esporte, principalmente após o surgimento, na década de 1960, dos dois maiores Clubes: Jaciobá Atlético Clube e Centro Sportivo Internacional, revelando craques e dividindo a cidade em disputas ferrenhas e apaixonadas
Na edição de 4 de abril de 1972, o jornal O CLARIM, pelo seu colunista esportivo José Alves da Silva (Zé Papaió), num trabalho de pesquisa entre os torcedores, escalou duas seleções pão-de-açucarenses de todos os tempos: a primeira, de 1950 a 1960, tinha a seguinte formação: Roque, Zé Baixo, Chico Preto, Luiz de Vitória, Albertino, Elísio Tri, Geremias, Zé de Ercília, Vavá, Manoel Gustavo e Germínio. A segunda, situada entre 1961 e 1971, formava assim: João Jorge, Deustete, Irineu, Tempero, Murilo, Guri, Carlos, Romeu, Jair, Bobito e Edilson.
Desde então, muitos outros bons jogadores surgiram, atuando pelos dois principais clubes da cidade e, também, em agremiações de outras cidades alagoanas e de outros Estados, como o CRB, CSE de Palmeira dos Indios, Capelense, Ipanema e outros. Foi o caso de Irineu, Berêu, Fernandinho, Cananô, Nei Braga e tantos outros.
Saudemos, então, os pioneiros do “esporte bretão” nas terras de Pão de Açúcar, augurando que a sua prática seja promotora da paz, da união e da fraternidade entre os seus praticantes e torcedores.

CENTRO SPORTIVO INTERNACIONAL
JACIOBÁ ATLÉTICO CLUBE

2 comentários:

  1. Belíssima contribuição à construção da história de Pão de Açúcar. Parabéns!

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  2. Que belo resgate da história do futebol em nossa querida Pão de Açúcar, interessante ver que belos moços de famílias abastadas o trouxeram.Ainda lembro de belos clássicos, eu que meu pai Esmerino era um eterno apaixonado pelo Jaciobá, quero enaltecer também os Srs.Luiz Elias, Braga, e Luiz venceslau. Porém,é triste ver em nossos dias que os nossos Clubes que já fizeram parte da nata do futebol Alagoano hoje se reduziu a nada,pois não escutamos falar. Parabéns pelo texto.

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia