domingo, 21 de fevereiro de 2016

ZADIR ÍNDIO

Por Etevaldo Amorim

Zadir Índio. Foto: Revista da Semana,
Ano XIX_Nº 39, 02.11.1918, p.22.
ZADIR INDIO DE SANTA CRUZ, poeta, cronista, romancista e jornalista, nasceu na cidade do Pilar, Estado de Alagoas, em 2 de novembro de 1882, (algumas fontes dizem ter sido em 1880). Era filho de Antônio S. de Santa Cruz e de Adelaide de Santa Cruz. Outras fontes, no entanto, indicam ser ele filho de Antônio Viveiros Sabugo e Adelaide de Viveiros e outras, como José Reynaldo Amorim de Barros em ABC das Alagoas, que anota o nome de seu pai como Antônio Floriano Viveiros. 
Iniciou seus estudos no Pilar, continuando em Maceió, no antigo Liceu Alagoano, por volta de 1895. Chegou a estudar na Faculdade de Medicina da Bahia até o terceiro ano, mas não continuou por falta de recursos. 
Escrevia para diversos jornais do Pilar, publicando contos e artigos, e onde foi Redator-Chefe de O Trocista, de Maceió, onde publicou "Ajuste de Contas". Colaborou com O Vigilante, onde publicou o conto "O Órfão"; no semanário O Matuto, publicando o conto O Presente. Publicou também, n'A Brecha, em 1902, a polêmica literária com Arnaldo Pedrozo (pseudônimo de Taurino Baptista). Foi ainda colaborador no Correio de Maceió e no Jornal de Alagoas. 
Em novembro de 1898, foi eleito Presidente do Grêmio Literário Dias Cabral, agremiação criada para registrar o falecimento do grande alagoano. 
Em 1902, seguiu para o Rio de Janeiro e, com poucos recursos, aceitou o lugar de Revisor na Gazeta de Notícias, por indicação do jornalista Oliveira e Silva[i]
Sócios do Centro dos Revisores. O Malho, Ano IX, nº 433, p. 47.
Humberto Correia-Pres, Themistocles de Almeida, Albuquerque Gondim, Alfredo Villarinho.
Pelo menos até 1909, estava nessa função, oportunidade em que, por sugestão de Humberto Correia, do Gazeta de Notícias, foi criado o Centro dos Revisores, uma Sociedade de Auxílio Mútuo, à qual ele logo se associou. 
Paulo Barreto_JOÃO DO RIO.
Foto: Vida Doméstica_junho_1921
Alguns anos depois, em 1911, quando Paulo Barreto[ii] assumiu a direção daquela folha, descobriu no simples revisor o potencial de um verdadeiro jornalista e o promoveu ao corpo redatorial. Ali publicou as mais brilhantes crônicas literárias, destacando-se o artigo que escreveu sobre o incidente do Sr. Paulo de Frontin com o Sr. Theodomiro Santiago, por ocasião da visita que fizeram ao gabinete eletro-técnico de Itajubá.[iii] 

Mais tarde, em meados de 1916, já um nome respeitado no círculo jornalístico, transferiu-se para A Época, tornando-se Secretário. Dirigiu ainda a Revista das Revistas, a qual dirigiu juntamente com Horácio de Carvalho, Júlio de Suckow.[iv] Era possuidor de uma cultura sólida, que abrangia a a história geral, a filosofia e as ciências sociais Falava corretamente o inglês, o francês, o alemão, o italiano e o espanhol, bem como o latim e o grego, tendo iniciado o estudo da língua russa. No dia 17 de outubro de 1918, às 11:00 horas, no hospital da Cruz Vermelha Brasileira, faleceu aos 36 anos, vítima da Insluenza (Gripe Espanhola), epidemia que ceifou a vida de centenas de pessoas no Rio de Janeiro. O sepultamento foi no mesmo dia no Cemitério São João Batista. Nessa época, já trabalhava no Rio-Jornal, em que foi fundador e escreveu artigos sobre economia, finanças, história, crítica literária, crônica mundana e, principalmente, estudos filosóficos, seu assunto preferido. No dia 30 de outubro, na igreja de São Francisco de Paula, os seus colegas d'A Época mandaram celebrar uma missa em sufrágio de sua alma e, após a cerimônia, seguiram em romaria para o Cemitério de São João Batista espargir flores sobre a sua campa. No dia 12 de março de 1920 (segundo o JORNAL DO RECIFE, 29 de março de 1920), a Academia Alagoana de Letras se reunião para definir os nomes de seus Patronos e, entre eles, estava Zadir Índio, cabendo-lhe a Cadeira de Nº 40. Era tímido, mas expressava-se e escrevia muito bem. Deixou publicado sonetos e romances, alguns ainda incompletos e inúmeras poesias, como esta:

 RETRATO
Loira de um loiro que seduz e encanta,
Como o ideal dos sonhos dos poetas...
Loira de um loiro angelical de santa,
Daquelas santas mártires, ascetas.

Loira de um loiro oriental que a gente,
Uma vez vendo, nunca mais esquece,
Loire e formosa, de um olhar ardente
- “Visão etérea” que em meus sonhos desce.

Eis o retrato dessa virgem loira,
Da loira virgem que adoro e amo:
- Gentil retrato que os meus sonhos doira
- Poema virgem que eu, a sós, declamo.
(Zadir Indio)
(Transcrito de O Madrigal, Maceió, 5 de novembro de 1899, p. 3).

Publicou, em 1902, o romance Naturalista O VENCIDO, pela tipografia Fonseca.

Sobre ele falou Ribeiro Couto, em crônica denominada A morte de um pensador obscuro:
“Zadir Índio era ‘uma água profunda’, como disse uma vez Nilo Bruzzi. Morre obscuro porque ele bem sabia da inutilidade de escrever no Brasil. Só os seus companheiros de trabalho e alguns raros amigos, ficarão para sempre com o seu nome nos lábios, na angústia horrível de uma saudade imortal”. (Tribuna, Santos, 28 de outubro de 1918)
O jornalista Theo-Filho, numa crônica publicada no jornal Beira-Mar, em 15 de julho de 1939 dá seu depoimento e conta um episódio ocorrido na época em que com ele conviveu:
“Zadir Indio morreu de maneira lastimável, entre as quatro paredes de um cômodo da rua Evaristo da Veiga, durante a epidemia da Gripe de 1918...
Ele poderia ter morrido tragicamente na tarde em que eu e o Paulo de Gardênia tivemos a insopitável extravagância de experimentar, nos fundos da redação deserta, as molas emperradas de um revólver. Dirigíamos a pontaria para o recôndito assinalado pelas letras WC, onde, aparentemente, julgávamos, ninguém poderia estar. Aos primeiros tiros, todavia, abriu-se violentamente a porta, e dela surgiu lívido, em mangas de camisa, berrando como um possesso, Zadir Indio...
- Assassinos! – bradava descontrolado. E, tomando-me à parte:
- Você pensa que está no front, espece de malotru?... Quer fazer graças à minha custa?
- Mas, Zadir, - obtemperava eu, - o atirador foi o Paulo de Gardênia... ou antes, poderia ter sido eu... pois nós ambos atiramos...na ignorância da sua presença invisível. .. O Fato evidente, contudo, é que nenhuma das balas atingiu o alvo...
- O alvo era eu...
- Não. Era o alto da porta.
- Bandidos!
E saiu resmungando, zangadíssimo, a ponto de levar duas longas semanas sem nos dirigir a palavra. ”
Há uma rua no Centro de Maceió com o seu nome, cuja denominação consta de antes de 1943, na Administração Abdon Arroxelas. Essa artéria liga a Rua Pedro Monteiro à rua Barão de Penedo, passando pela frende do Edifício Luz, onde outrora funcionou a concessionária Flávio Luz S/A, depois o Setor de Perícias Médicas do antigo INPS e, atualmente, a Secretaria de Defesa Social do Estado de Alagoas.
_________
Fontes:
- ABC DAS ALAGOAS: José Reynaldo Amorim de Barros
- Hemeroteca Digital Brasileira: memoria.bn.br




[i] Antônio José de Oliveira e Silva (Pilar-AL, 1864 – Rio de Janeiro, 1911). Era tio de Zadir Indio, segundo a Revista da Semana, Ano XIX, nº 39, 02.11.1911; e, segundo o Correio da Manhã de 21 de janeiro de 1911, seu primo, conforme nota de falecimento assinada, entre outros parentes, por Costa Rego, este sim, seu sobrinho.
[ii] João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (Rio de Janeiro, 5 de agosto de 1881 - 23 de junho de 1921), foi um jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo, que utilizava o pseudônimo de JOÃO DO RIO.
[iii] Diário de Pernambuco, 29 de outubro de 1918.
[iv] LANTERNA, RJ, 13 de outubro de 1917, p. 3.
[v] JORNAL DO RECIFE, 29 de março de 1920.

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia