quinta-feira, abril 2
CALMARIA E TEMPESTADE
Por Etevaldo Amorim
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| Porto de Limoeiro, 1988. Foto: Paulo Alves. |
Sob o sol de meio de tarde, no sinuoso canal da ilha do
Limoeiro, um menino e seu pai conduzem uma canoa demandando o porto de
Jacarezinho. Vento algum se podia sentir. Apenas um mormaço sufocante e a pele
a arder ante o calor escaldante. Não se via uma ruga sequer sobre a superfície.
O pano da canoa, erguido sobre o banco dianteiro, revelava-se inútil. Direcionando
a canoa bem próximo à margem, reduzindo assim o efeito da correnteza, os dois
tripulantes seguiam remando, derretendo-se em suor.
Deslizando morosamente junto à margem povoada de caniços e
calumbis, encontram, aqui e acolá, algumas grosseiras armadas pelos pescadores
das redondezas e capivaras que, assustadas, se atiram na água. À esquerda, a
grande ilha, repleta de mangueiras e coqueiros, cujas folhas se quedavam
imóveis, revelando a calmaria reinante.
Adiante, divisam uma clareira onde meninos e meninas tomavam
banho: era o porto da fazenda Santa Maria, que medeia o pequeno trecho. Uma
parada para descanso; uns punhados de água jogados sobre o rosto; alguns goles
da moringa guardada sob o carro de popa. Um alívio. Seguem viagem.
O calor continua e nenhuma brisa sequer. O menino suplica a
São Lourenço, o Senhor dos ventos. Em vão. O remo parece agora pesar uma
tonelada, os braços em molambo... fadiga...cansaço.
Algumas remadas a mais, chegam enfim ao porto. Depois de
tratativas comerciais com Seu Asdrúbal, pai e filho se preparam para o retorno
a Limoeiro. Eis, porém, que, chegando ao porto, encontram o senhor Caboquinho,
que embarcava alguns cavalos na canoa de Zé Pretinho, pretendendo levá-los à
fazenda Belém, situada na margem sergipana.
A essa altura, o vento já chegara. Zé Pretinho, temendo
alguma dificuldade na travessia, procura o homem e pede que junte as duas
canoas, visando conseguir maior estabilidade. Solícito, o homem concorda.
Juntadas as canoas, atadas por dois mastros dispostos
transversalmente, largaram do Jacarezinho.
A travessia principiara tranquila. Mas, do meio para o fim, refregas
mais fortes faziam as canoas balançarem como a dançar sobre as águas.
Chegam a Belém. A grande fazenda, pertencente à família
Brito, pouco abaixo da Ilha de São Pedro - cenário de páginas memoráveis da
História do antigo Morgado de Porto da Folha – ainda se mostrava operosa e
produtiva.
Desembarcados os animais, seguem-se os agradecimentos, posto
que nenhum pagamento foi aceito; apenas a solidariedade movida por sentimentos
de amizade e consideração.
O retorno para a costa alagoana se revelaria difícil e
arriscado. O vento agora já soprava forte, assumindo ares de tempestade. Nuvens
de poeira se podiam ver nos combros de ambas as margens, elevando-se até os
céus. A superfície do rio se encrespara sobremaneira, formando ondas
gigantescas, sobre as quais a canoa mais parecia um simples brinquedo. O
piloto, atônito, apavorado com tamanha tormenta, a muito custo conseguia aprumá-la
no rumo certo.
O menino, impotente, sentado sobre o estrado do fundo da
embarcação, sentiu o vento arrancar-lhe, de súbito, o belo chapéu de palhinha
que seu pai comprara na feira de Pão de Açúcar.
Por fim chegam à costa Sul da ilha, justamente na parte que
pertencia ao dito homem. Ali tiveram outra dificuldade: a cada marulhada, a
canoa pinoteava, o que exigia que a segurassem a uma certa distância para
que não se espatifasse na costa. Tiveram que ficar ali por, pelo menos, uma
hora, até que a tempestade amainasse.
Nesse ínterim, em meio às ondas que quebravam sobre a
ribanceira, o menino avista o chapéu de palhinha que a ventania lhe arrancara
da cabeça. Exultante, recoloca-o no seu devido lugar.
Passado o temporal e sentindo-se seguros, deitam o pano e
principiam a volta para casa. Novamente remando, molhados dos pés à cabeça,
chegam ao porto de origem. Já é fim de tarde. Logo vem uma noite fresca, de temperatura
amena e uma leve brisa que lhes oferece um repouso tranquilo e reparador.
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NOTA
Caro
leitor,
Deste
Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de
informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita
pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência
bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse
para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior
proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a
citação das referências. Isso é correto e justo.
A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR
PÃO DE AÇÚCAR
Marcus Vinícius*
Meu mundo bom
De mandacarus
E Xique-xiques;
Minha distante carícia
Onde o São Francisco
Provoca sempre
Uma mensagem de saudade.
Jaciobá,
De Manoel Rego, a exponência;
De Bráulio Cavalcante, o mártir;
De Nezinho (o Cego), a música.
Jaciobá,
Da poesia romântica
De Vinícius Ligianus;
Da parnasiana de Bem Gum.
Jaciobá,
Das regências dos maestros
Abílio e Nozinho.
Pão de Açúcar,
Vejo o exagero do violão
De Adail Simas;
Vejo acordes tão belos
De Paulo Alves e Zequinha.
O cavaquinho harmonioso
De João de Santa,
Que beleza!
O pandeiro inquieto
De Zé Negão
Naquele rítmo de extasiar;
Saudade infinita
De Agobar Feitosa
(não é bom lembrar...)
Pão de Açúcar
Dos emigrantes
Roberto Alvim,
Eraldo Lacet,
Zé Amaral...
Verdadeiros jaciobenses.
E mais:
As peixadas de Evenus Luz,
Aquele que tem a “estrela”
Sem conhecê-la.
Pão de Açúcar
Dos que saíram:
Zaluar Santana,
Américo Castro,
Darras Nóia,
Manoel Passinha.
Pão de Açúcar
Dos que ficaram:
Luizinho Machado
(a educação personificada)
E João Lisboa
(do Cristo Redentor)
A grandiosa jóia.
Pão de Açúcar,
Meu mundo distante
De Cáctus
E águas santas.
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Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)
(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937
(+) Maceió (AL), 07.05.1976
Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.
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PÃO DE AÇÚCAR
Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.
Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.
Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,
O pó que o vendaval deixou no chão cair.
Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste
O teu profundo sono num divino sorrir.
Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,
Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.
Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.
Teus jardins se parecem com vastos cemitérios
Por onde as brisas passam em brando sussurrar.
Aqui e ali tu tens um alto campanário,
Que dá maior relevo ao pálido cenário
Do teu calmo dormir em noite de luar.
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Ben Gum, pseudônimo de José Mendes
Guimarães - Zequinha Guimarães.
PUBLICAÇÕES
Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia
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