quinta-feira, janeiro 18

O BARÃO DE PIAÇABUÇU

Por Etevaldo Amorim


João Machado de Novaes Mello
O Major João Machado de Novaes Mello
"Barão de Piaçabuçu"



João Machado de Novaes Mello, eis o nome de um dos mais respeitados líderes políticos da região do Baixo São Francisco, nos tempos do Império. Era tenente-coronel da Guarda Nacional, destacado líder do Partido Liberal e chefe político da sua região.

Nasceu entre 1818 e 1820, em Vila Nova, atual Neópolis, Estado de Sergipe. Era filho do sargento-mor Antônio Francisco de Novaes e Maria Magdalena Leite Sampaio.

Casou-se com Maria José de Novaes Mello, com quem teve os filhos: Manoel Leite de Novaes Mello (1849-1898), Josefina de Novaes Mello (1847-1893), Miguel de Novaes Mello (1851-1901), João Marinho de Novaes Mello (-1883), Antônio Ferreira de Novaes Mello (1856-1880) e José Matheus de Novaes Mello.


Era seu filho o primeiro prefeito (Intendente) do município de Pão de Açúcar, Alagoas – o juiz de direito Dr. Miguel de Novaes Mello. Ele também foi Deputado Provincial em Alagoas. (vide http://blogdoetevaldo.blogspot.com/2015/07/miguel-de-novaes-mello.html)


Outro filho, nascido em Pão de Açúcar, foi o advogado Antônio Ferreira de Novaes Mello, formado na Faculdade de Direito de São Paulo em 1879 e Deputado Provincial em Alagoas. Faleceu em acidente ferroviário durante a construção da Estrada de Ferro Paulo Afonso, ocorrido no dia 17 de julho de 1880. Foi durante alguns anos o jornalista responsável pelo jornal Liberal em Maceió. (Vide http://blogdoetevaldo.blogspot.com/2012/04/desastre-em-piranhas-e-morte-de.html )


João Marinho de Novaes Mello, major da Guarda Nacional, também seu filho, comerciante em Pão de Açúcar, membro do Conselho Municipal, faleceu em 1º de maio de 1883. Três anos antes, em 17 de julho de 1880, ele havia sobrevivido, com graves ferimentos, ao terrível acidente de que foi vítima fatal seu irmão Ferreira de Novaes.


Ainda outro filho do Barão teria enorme projeção: o médico Manoel Leite de Novaes Mello. Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, radicou-se no Espírito Santo. Sua carreira política contempla os cargos eletivos de vereador na Câmara Municipal de Cachoeiro do Itapemirim - ES, da qual foi presidente, em 1890; Deputado Provincial para a Legislatura 1876-1877 e Deputado Federal.


***   ***   ***

A primeira atividade pública do Major João Machado, de que se tem notícia, foi durante a presidência de José Francisco de Menezes Sobral, em 1847, como coletor de rendas em Capela, Província de Sergipe[i];


Em janeiro de 1859 foi nomeado major ajudante de ordens do comando superior da Guarda Nacional dos municípios de Porto da Folha (hoje Traipu) e Mata Grande, ambos em Alagoas.[ii] Quatro anos depois, em julho, foi nomeado Capitão Cirurgião-mor do Comando Superior da Guarda Nacional para os municípios de Porto da Folha (atual Traipu), Pão de Açúcar e Mata Grande.[iii]


Em 1877 já era Major e em julho de 1879, Comandante Superior em Pão de Açúcar, como Tenente-Coronel. Era também o Delegado de Polícia daquele município até 1880 e Suplente de Juiz Municipal em 1891.

Era também comerciante, estabelecido em Pão de Açúcar com lojas de tecidos.


Esteve presente à visita do Imperador D. Pedro II à cachoeira de Paulo Afonso, no dia 20 de outubro de 1859.[iv] Aliás, quando da passagem do Imperador D. Pedro II, demandando a Cachoeira de Paulo Afonso, foi no sobrado de sua propriedade (já transformado em Casa da Câmara) que ele pernoitou em Pão de Açúcar nos dias 17 para 18 e 22 para 23 de outubro de 1859.


No dia 22 de outubro de 1878, recepcionou o Presidente da Província, Dr. Francisco Carvalho Soares Brandão, quando de sua passagem por Pão de Açúcar com destino a Piranhas, onde assistiria à inauguração dos trabalhos da Estrada de Ferro, que aconteceria no dia 23. Vide http://blogdoetevaldo.blogspot.com/2020/05/soares-brandao-em-pao-de-acucar.html.


Assim também o fizera em 1869, por ocasião da visita do então presidente da Província, Dr. José Bento da Cunha Figueiredo Junior. Naquela oportunidade, posou para as lentes do fotógrafo Abílio Coutinho, na famosa fotografia da numerosa comitiva. De fraque e cartola branca, que mandou vir de Londres para aquela ocasião[v], lá estava ele no alto de seus cinquenta anos, já conceituado líder político da região. Essa fotografia, emoldurada por iniciativa do nosso historiador Aldemar de Mendonça, sempre esteve exposta no Prédio-sede da Prefeitura Municipal, sendo a única imagem conhecida do grande líder político.



O Major João Machado (2) junto à comitiva do Presidente da Província de
Alagoas - Dr. José Bento da Cunha Figueiredo Junior (1). Pão de Açúcar, 8
de janeiro de 1869. Foto: Abílio Coutinho.

Recentemente, explorando um álbum que pertenceu ao venerável pão-de-açucarense Monsenhor Freitas, que me fora gentilmente cedido pelo Dr. Álvaro Otávio Vieira Machado (e que pertencera ao seu pai Sr. Armando Machado), eis que encontro a foto que encima estas notas, feita na Bahia pelo renomado fotógrafo Guilherme Gaensly, com estúdio no Largo do Teatro, 92[vi], cuja dedicatória se fez nos seguintes termos:


“Offerece o abaixo assignado em signal de amizade, Bahia, de 13 de maio de 1881. Pe. Freitas. (a) João Machado de Novaes Mello.”


Recebeu o título nobiliárquico de barão em 5 de outubro de 1889, um mês e cinco dias antes da queda da monarquia. O jornal O CONSTITUCIONAL, órgão do Partido Conservador, que circulava em Vitória-ES, veiculou a seguinte notícia, em sua edição de 24 de outubro de 1889:



BARÃO DE PIAÇABUÇU.


Foi agraciado com esse título o Coronel Novaes, pai do ilustrado clínico e hoje fazendeiro, o Dr. Manoel Leite de Novaes Mello.

Demos-lhe sinceros parabéns pela merecida distinção com que foi agraciado o seu ilustre progenitor, cidadão dos mais qualificados e beneméritos na província de Alagoas, onde reside.”


Por fim, já tendo cumprido seus 72 anos de existência, faleceu em Pão de Açúcar, a 3 de agosto de 1892.


Eis a íntegra do seu registro de óbito no Livro 3-C –fls. 78v, do Cartório do 1º Ofício do Registro Civil de Pão de Açúcar, Estado de Alagoas, sob o Nº 97:


Aos três dias do mês de agosto do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil Oitocentos e Noventa e Dois, Quarto da República, neste primeiro distrito de Paz da Paroquia do Município de Pão de Açúcar do Estado de Alagoas, compareceram no meu cartório o Doutor Juiz de Direito Miguel de Novaes Mello e em presença das testemunhas abaixo nominadas e assignadas declarou: Que hoje, por cinco horas e meia, nesta cidade, em casa de sua residência faleceu um homem de nome João Machado de Novaes Mello, de setenta e quatro anos de idade, natural de Villa Nova[vii], Estado de Sergipe, residente nesta cidade, viúvo por falecimento de Maria José de Novaes Mello, filho legítimo de Antônio Ferreira de Novaes e Maria Magdalena Leite Sampaio, falecidos; faleceu sem tratamento, deixou dois filhos de nomes Doutor Manoel Leite de Novaes Mello, de quarenta e três anos e ele, declarante, de quarenta e um anos, a morte é natural e a causa conhecida congestão cerebral e no cemitério público desta cidade vai mandar sepultar. E para constar lavrei este termo em que comigo assinam o declarante e as testemunhas Manoel Rego, e Antônio Moreira de Souza Sobrinho, que atestam, de conhecimento próprio que o falecido de nome João Machado de Novaes Mello era o mesmo mencionado neste assento. Eu Theotônio Rodrigues de Souza Christo[viii], Escrivão de Paz escrevi.

 

(a)   Theotônio Rodrigues de Souza Christo

Bacharel Miguel de Novaes Mello

Manoel Rego

Antônio Moreira de Souza Sobrinho                                           

 

Em tempo: Declaro que o falecimento foi às cinco horas e meia da tarde. Eu, Theotônio Rodrigues de Souza Christo escrivão de Paz escrevi.”


Ao noticiar o seu falecimento, o Jornal de Notícias, publicação bi-semanal que circulava em Maceió, a ele assim se referiu, em sua edição de 14 de julho de 1892:



Muito estimado por suas belas qualidades individuais, o Coronel João Machado era chefe de uma das mais distintas e ilustres famílias do Baixo São Francisco. Homem probo e sincero foi, no tempo da Monarquia, uma das mais extensas influências políticas do Partido Liberal. Agraciado com o título de “Barão”, deu provas de seus sentimentos democráticos não aceitando a distinção com que o honrou o governo do Imperador.”.


Com o mesmo destaque, o jornal A Pátria, de Maceió, na sua edição de 16 de julho de 1892:


Com o maior pesar, registramos a infausta notícia do sentido passamento do venerando ancião Coronel João Machado de Novaes Mello, abastado proprietário no município de Pão de Açúcar.

Ocupou diversos cargos de nomeação do governo e eleição popular, procedendo sempre com a maior inteireza e probidade.

Nos últimos tempos da monarquia, foi agraciado com o título de Barão de Piaçabuçu, que não aceitou.

Nossos pêsames à sua família e especialmente a seu prezado filho, Dr. Miguel de Novaes Mello, distinto e honrado juiz de direito de Pão de Açúcar, Santana e Piranhas.”


***   ***   ***


Nota-se que, em que pese o registro de óbito dizer que o falecimento se deu no dia 3 de agosto de 1892, as notícias dos jornais de Alagoas, aqui reproduzidas, são do mês de julho. (!)


Entretanto, as notícias dos veículos de outros Estados são do mês de agosto, inclusive os Anais da Câmara dos Deputados, onde seu filho, o Dr. Manoel Leite de Novaes Mello, justifica a ausência à sessão 5 de agosto de 1892 - 63ª Sessão, em virtude do falecimento de seu pai.


Fiquemos, então, com a data do registro oficial: 3 de agosto de 1892.

 

Foto Abílio Coutinho
Pão de Açúcar, 1869, vendo-se o sobrado que pertenceu ao
Barão de Piaçabuçu. Foto: Abílio Coutinho.

Foto Adolpho Lindemann
Pão de Açúcar 1888, vendo-se ao fundo o dito sobrado.
Foto: Adolpho Lindemann.

Pão de Açúcar, 1919, vendo-se o sobrado que hospedou
Dom Pedro II em 1859. 



***   ***   ***

NOTA:

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso algumas delas seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1847.

[ii] Correio da Tarde, Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 1859.

[iii] A Atualidade, Rio de Janeiro, 7 de julho de 1863.

[iv] Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1859.

[v] Novaes Filho (Senador Antônio de Novaes Filho), em OS NOVAES NO BRASIL, Diário de Pernambuco, Recife, 19 de julho de 1969.

[vi] Wilhelm Gänsli nasceu a 1º de setembro de 1843, em Wohlhausen - Cantão de Thurgau, Suíça, filho de Jacob Heinrich e de Anna Barbara Kyn, veio para o Brasil ainda menino, acompanhando o pai comerciante que se radica em Salvador. Ali inicia sua carreira em meados da década de 1870, associando-se a Rodolpho Lindemann em 1882 e fotografando diversas localidades da província da Bahia antes de se transferir para a cidade de São Paulo em 1890 e deixar seu sócio à frente do estúdio baiano. É na capital paulista, colaborando durante mais de 25 anos para a São Paulo Tramway Light and Power Company e organismos oficiais como a Secretaria de Agricultura, que se firma como o mais importante paisagista do Estado de São Paulo na primeira metade do século XX. Consagrado ainda em vida, é agraciado com as medalhas de prata das exposições de Paris (França), em 1889, e Saint Louis (Estados Unidos), em 1904. Faleceu em São Paulo a 20 de junho de 1928.

[vii] Atual Neópolis, Estado de Sergipe.

[viii] Theotônio Rodrigues de Souza Christo. Natural de Alagoas e falecido em Sergipe em 26 de outubro de 1907. Casado com Maria Luiza de Souza Christo, nascida em Alagoas, a 29/11/1864 e falecida no Rio de Janeiro.

sexta-feira, dezembro 1

PLANO DIRETOR EM MARTELO AGALOPADO

Autor: Etevaldo Amorim

Uma Lei Federal muito bem feita,
Que se chama Estatuto da Cidade,
Apresenta uma grande novidade:
Uma norma legal bela e perfeita.
Não distingue "esquerda" nem "direita",
Deserdado, juiz ou promotor.
Trata todos igual, com destemor,
Como um todo capaz de ser ouvido.
Município pra ser desenvolvido
Tem que ter o seu PLANO DIRETOR.

Município sem ter planejamento
É um barco sem rumo e sem destino,
Como alguém que comete o desatino
De agir e falar sem argumento.
É preciso fazer um juramento:
Não agir como reles desertor.
Governar sem ter ódio ou desamor;
Ser sereno, audaz e destemido.
Município pra ser desenvolvido
Tem que ter o seu PLANO DIRETOR.

Planejar é traçar linhas bem retas,
Desenhadas com régua e compasso,
Projetadas no tempo e no espaço,
Calculadas nas contas mais corretas.
Definir tantos mais planos e metas
Quantos possam fazer o seu labor.
É voar bem mais alto que o condor,
Ter o "como" e o "quando" definidos,
Município pra ser desenvolvido
Tem que ter o seu PLANO DIRETOR.

Sem ter Plano não pode haver certeza
De pensar e falar com consciência;
Descobrir que agir com competência
É seguir preservando a natureza.
Ocupar bem o solo - que beleza!
É assunto do Plano sim, senhor...
Garantir pra quem é trabalhador
Seu espaço no solo consentido.
Município pra ser desenvolvido
Tem que ter o seu PLANO DIRETOR.

Esse Plano vai ser elaborado
Consultando e ouvindo todo mundo,
Atacando os problemas bem a fundo,
Sem temer quem ficar contrariado.
Quem ficar, deve ser estimulado...
Discutir sua idéia com fervor.
Sem paixão, mas com censo de humor,
De maneira a ser compreendido.
Município pra ser desenvolvido
Tem que ter o seu PLANO DIRETOR.
__________________
Por Etevaldo Amorim - Engenheiro Agrônomo
Especializado em Gestão Pública.
(Pão de Açúcar - AL, 3 de dezembro de 2005.)
____________________
Estes versos foram feitos durante a discussão
do Plano Diretor Participativo do Município de
Pão de Açúcar, Estado de Alagoas. Chegou a ser
publicado na Rede Plano Diretor, do Ministério
das Cidades e em outros veículos de imprensa.
Publico como forma de incentivar os Municípios
a discutir e implantar o seu Plano Diretor.

quinta-feira, novembro 2

SONETO

 

Massilon Silva[i]

 

Almas de vagabundos, desordeiros,

De santos, de profetas, benfeitores,

Poetas, seresteiros, trovadores,

Pacifistas, ferozes pistoleiros...

 

Em cumprimento ao eternal degredo,

Todas foram um dia em andar trêmulo,

Recebidas  no mundo do além-túmulo

Pelos braços de Cérbero ou de Pedro.

 

E num mundo tão perto e tão distante,

Parentes, aderentes, pais e filhos,

Há pouco ou há muito já chegados

 

Num barco dirigido  por  Caronte,

Lá no Hades com Dante ou com Virgílio

Reúnem-se no Dia de Finados.



[i] Advogado, nascido em Pão de Açúcar, a 6 de março de 1954. Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Maceió - FADIMA, estudou também Observação Meteorológica de Superfície - SUDENE/OMM, Curso Básico de Jornalismo - Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Alagoas e Teologia (não concluído) - Faculdade ALFA, Aracaju. Atuou como corresponde do Jornal de Alagoas, Jornal de Hoje e Desafio, todos de Maceió/AL. Participou das antologias Tempo Definido e outras, da Editora Scortecci, São Paulo e da coletânea Aperitivo Poético, Aracaju/SE. É membro da Academia de Letras de Pão de Açúcar/AL e da Academia Alagoana de Literatura de Cordel e da Academia Sergipana de Cordel.

quinta-feira, outubro 26

O TREM DE XANDU

Mauro Mota[i]

Entre as pessoas referidas por Félix Pires de Carvalho, pessoas das relações pessoais e de trabalho de Delmiro Gouveia, uma delas compensaria a aridez às vezes não só da paisagem, também do homem do sertão nordestino.

Este, sim, podia dizer: minha vida é um romance. Em cima do seu trenzinho, podia oferecer argumento e elenco para um filme, com intérpretes de carne e de ferro. Era o compadre Xandu, mais conhecido por Xanduzinho das Rosas, por ser muito prazenteiro e cantador de toadas, não obstante já estar bastante velho.

Foto_Luiz Ruben F. de A. Bonfim


Era tão interessante, conta o memorialista sertanejo, o modo como agia Xanduzinho como chefe do trem, que até hoje trafega das Piranhas (Marechal Floriano) a Jatobá (Petrolândia), que acho mesmo de bom alvitre deixar um pouco a vida de Seu Delmiro para intercalar neste modesto trabalho algumas das suas que eu testemunhei e gostava mesmo de testemunhar por achar engraçadas.

Ele fazia tudo na estrada, mas nunca achou quem fizesse representação contra ele, porque a coerência que ele tinha com uns era suportada pelos outros, que imaginavam amanhã também precisarem das mesmas coerências. E assim Xanduzinho ia cantando a sua filosofia sem ser incomodado.

Xanduzinho das Rosas era inimigo de horários e sinetas. Não abandonava passageiros nem os pertences. Chapéu, embrulho e até jornal que eles deixassem cair pelos engates ou pelas janelinhas dos vagões, parava a locomotiva para recolhê-los, fosse em que altura fosse do ramal.

Seu Félix mesmo, de viagem marcada a Piranhas, chegou uma vez esquipando em Jatobá, tão cedo que “ainda estava sendo abraçado por Morfeu”. Perto do cemitério, ao ouvir o apito do trem anunciando a partida dentro de alguns minutos, teve que “impelir a burra a maior velocidade das carreiras”.

Já na rua de Jatobá, o compadre Lero (coronel Aureliano Menezes), que estava fazendo a barba com o cabo do espelho enfiado do buraco da janela, interpelou-o:

- Que pressa danada é essa? Quer matar essa bicha baixeira?

Explicando que estava prestes a perder o trem para Piranhas, o “coronel” o tranquilizou:

- Deixa de ser bobo. Eu também vou.

Pediu à mulher para fazer café e cuscuz e chamou o moleque da casa:

- Corra meu filho, vá à Estação e diga a Xanduzinho que aguente a mão que eu e compadre Félix vamos viajar e chegamos daqui a pouco.

O “daqui a pouco” foi mais de uma hora. Lero se vestindo, procurando o parapó. Mas Xanduzinho aguentou a mão, somente apitando, apitando, chamando.

No trem tinha uma moça falando contra a demora, achando aquilo uma vergonha, dizendo que aquela estrada de ferro era a pior do mundo.

Xanduzinho perguntou a ela para onde se botava. Ela respondeu que morava no Rio de Janeiro. Ia a Paulo Afonso ver a mãe que não via há muitos anos, e ainda mais aquele atraso.

- Estrada pior do mundo!

Xanduzinho ainda perguntou se ela gostaria se alguém maltratasse a mãe dela. Ela respondeu mais zangada ainda:

- Não admitiria o atrevimento.

- Nem eu! – disse ele. A senhora está falando mal da minha, chamando ela de “pior do mundo”. Essa estrada é minha mãe, fique sabendo.

Disse isso e começou a cantar uma toada: “É amando, e chorando e querendo bem”...

***   ***   ***

Em outra ocasião, o trem ia viajando, vimos debaixo de um imbuzeiro muito imbu maduro. Então eu lhe disse: olha, Xanduzinho, que beleza!

Ele mandou parar o trem para chuparmos imbu até quando todos ficamos satisfeitos com o suco da saborosa fruta.

Outro dia, não sei se por falta de passageiros, foi atrelada à máquina apenas a primeira classe e nela embarcaram os passageiros de primeira e de segunda classe, indo até o Coronel José Rodrigues, Chefe Político de Piranhas, com três soldados da polícia alagoana e dois dos seus cangaceiros.  Eu então lhe perguntei:

- Que diferença há dos passageiros de segunda classe para os de segunda? Ele respondeu:

- Adiante você verá.

Quando chegamos a um lugar em que havia muitas árvores secas, ele mandou parar o trem e disse:

- Os passageiros de segunda classe vão quebrar lenha para a máquina do trem; e, virando-se para mim, disse? – Eis aí, Félix, a diferença que você me perguntou.

***   ***   ***

Seu Félix não tivera sorte no negócio tentado em Esplanada, na Bahia. Veio com toda a bagagem. Numerosos volumes sobrados da liquidação, via Propriá, onde os colocou em canoas para atingir Piranhas pelo São Francisco. Aí, para atender ao pagamento dos fretes do trem, pediu que fizessem a pesagem dos sacos e caixões.

Xanduzinho olhou tudo e disse:

- Pesar o quê? Aí deve ter 50 quilos.

Seu Gaudêncio, o empregado encarregado e que deveria substituí-lo depois da aposentadoria, reclamou:

- Isso assim já é demais, seu Xanduzinho! Dê ao menos 200 quilos...

Ele deu. E continuou: “É amando, chorando e querendo bem...”

 

 ***   ***   ***

Combinações de uma transcrição do Diário de Pernambuco, 13 de março de 1966; 31 de dezembro de 1967; 30 de janeiro de 1974.



[i]


Mauro Mota (Mauro Ramos da Mota e Albuquerque), jornalista, professor, poeta, cronista, ensaísta e memorialista, nasceu no Recife-PE, em 16 de agosto de 1911, e faleceu na mesma cidade em 22 de novembro de 1984. Filho de José Feliciano da Mota e Albuquerque e de Aline Ramos da Mota e Albuquerque, estudou na Escola Dom Vieira, em Nazaré da Mata, no Colégio Salesiano e no Ginásio do Recife. Diplomou-se na Faculdade de Direito do Recife em 1937. Sexto ocupante da Cadeira 26, eleito em 8 de janeiro de 1970, na sucessão de Gilberto Amado e recebido pelo Acadêmico Adonias Filho em 27 de agosto de 1970. 

sexta-feira, agosto 11

A MARQUESINHA DO RIACHO DOCE (Um episódio da campanha do petróleo no Brasil)

 Monteiro Lobato[i]

 

Em Alagoas. A catorze quilômetros de Maceió a estrada real em certo ponto margeia-se duns casebres humílimos - o bairro do Riacho Doce. A capela, uma ou duas vendas onde pouco há de vender, a agenciazinha do correio onde a chegada duma carta constitui acontecimento. Moram ali pescadores e gente que lida com cocos. Peixes do mar e frutos do coqueiro – a vida do Riacho Doce se condiciona a isso.

Há beleza natural. Lindo, o oceano, dividido em três faixas; primeiro, uma de pálido verde veronês; depois, uma de translúcido verde vivo das ondas da Copacabana; por último, a faixa azul que se limita com a linha do horizonte. Beirando o mar de três cores, a praia branca, que vira coqueiral a partir do ponto máximo alcançado pelas marés.

Coqueiros e mais coqueiros. Só coqueiros, nessa praia do riozinho já de nome internacional, citado nas revistas de petróleo e em tratados. Um riacho de águas mansas, pouco profundas, claras, que os pescadores e banhistas atravessam, no ponto em que a água lhes suba acima dos tornozelos.

Banhistas, sim. Riacho Doce é também praia de banhos. Na estação própria, algumas famílias vêm de Maceió passar ali uma semana ou duas.

A estrada real corre areienta por entre os coqueiros, acompanhando a praia. Por ela transitam criaturas a cavalo. Não usam selas. Montam em pelo, na anca, para maior comodidade, apesar do grotesco que é. Gente paupérrima, com todos os vincos dessa terrível “miséria brasileira”, só comparável à miséria chinesa. Os cavalos são cavalicoques, tão degenerados do normal sadio como as criaturas humanas. A subalimentação mostra seus estragos em todos os viventes porque o rendimento do solo é magérrimo. Mas ressurgirão esplêndidos no dia em que o subsolo for mobilizado.

Dois “palácios” se destacam, um contíguo ao outro, entre as choupanas do Riacho Doce. São duas vivendas de campo que já tiveram seu tempo. A primeira constituiu o “palácio de verão” do governador Fernandes Lima, que para lá refugia aos calores da capital. Essas estações governamentais em Riacho Doce quebravam o marasmo do lugarejo com a nota festiva das reuniões políticas, dos bailes, das retretas pela banda de Maceió, num coreto de que só existem hoje os alicerces de cimento. O “palácio” pertence agora à Cia. Petróleo Nacional, que o adquiriu, com um grande terreno anexo, por 25 contos. Nele estão hospedados os engenheiros geofísicos da Elbof.

Na vivenda seguinte mora Edson de Carvalho[ii], o rijo pioneiro do petróleo nordestino. Varanda ladrilhada de tijolo comum, com cadeiras de balanço e uma rede. No quintal, mangueiras e cajueiros velhíssimos. Que cajus dão aquelas árvores! Uma cerca de paus a pique separa o quintal da estrada. A um canto da cerca, um pé de embauva[iii]. Debaixo dele, um túmulo em miniatura, sempre com flores em cima. É onde dorme a Marquesinha do Riacho Doce.

Quem foi essa criatura à qual, positivamente, o Brasil deve uma grande coisa?

Uma preguicinha criada por Edson de Carvalho, falecida antes de completar um ano de idade. Recebeu-a de presente, filhotinha ainda e transformou-a em “pet”. Nas casas sem crianças há sempre um animal, cão ou gato, que se beneficia dos carinhos maternais e paternais privados do alvo normal dos filhos. Na vivenda de Edson não havia cão nem gato. A preguicinha tornou-se o “pet” querido.

A embauva do quintal fornecia-lhe os brotos com que se alimentava. Preguiça não vivem sem embauva perto. Foi logo elevada ao marquesado. Virou a Marquesinha do Riacho Doce – e mereceu-o pela sua inteligência, sua dignidade, seus olhos ultra-negros, profundos de expressão. Integrou-se na família. Entendia tudo. Acompanhava o evolver do sonho de Edson. Sempre no colo de um ou de outro, pagava os mimos com abraços e olhares. Há infinitos de mistério no olhar duma preguicinha.

A luta de Edson e seus companheiros no Sul ia tremenda. Estavam exaustos e no fim. Sentiam-se completamente vencidos e, no íntimo, até se envergonhavam de ainda persistirem quixotescamente na liça, fingindo uma convicção de vitória que era pura mentira. As deserções e traições dos companheiros; o silêncio e a má vontade dos jornais; a indiferença do público já degenerada em hostilidade cruel; cada subscritor a suspirar o suspiro das vítimas: “Fui na onda, meu caro; caí na asneira de comprar tantas ações” – e a resposta inevitável do “esperto”: “Ah, eu sabia disso. Petróleo? Não há petróleo no Brasil – e essas tais companhias o que merecem é cadeia, nada mais”.

O Departamento Mineral nadava num mar de delícias. Conseguira matar uma por uma todas as iniciativas, como quem mata piolhos – estalando-as entre as unhas. As companhias de São Paulo já estavam por terra. O perigoso poço do Araquá tivera a audácia de chegar a 1.076 metros, mas aos golpes do Departamento já lá estava, felizmente, detido no seu avanço – e com o audacioso sujeitinho que o levara até essa profundidade posto fora da companhia. No Riacho Doce as manobras secretas tinham conseguido inutilizar os três poços tentados por Edson. O sabotador do último deles foi recebido no Rio entre palmas – e colocado como chefe supremo do petróleo oficial, no famigerado Departamento. Merecia aquela recompensa quem tão maquiavelicamente soubera agir contra a teimosa empresa alagoana. Pode ele, então, partejar a célebre monografia sobre as rochas gond-wanicas, onde provava, por a mais b, que não havia petróleo em todo hemisfério meridional, e, portanto, também não havia no Sul do Brasil – trabalho que mereceu do ministro da Agricultura palmas especiais, tornando-se a bíblia daquela gente.

A guerra contra a companhia do Edson foi de uma ferocidade inaudita. Momento houve em que empregaram a força. Um interventor[iv] de Alagoas, por sugestões do Departamento Mineral, mandou ocupar militarmente a sonda, expulsando de lá o pessoal da companhia. Edson, o incorporador, o responsável por tudo perante milhares de acionistas, viu-se durante catorze meses impedido de penetrar nas propriedades da empresa. Teve de fugir para o Rio, onde pacientemente ficou à espera de que o interventor caísse...

Um dia o interventor caiu e Edson pode voltar para sua casinha do Riacho Doce. Mas em que situação econômica, santo Deus! Em que situação moral! Dinheiro já não havia nenhum. Dias houve de faltar cinco mil réis para a comida – mas a sua convicção quanto à existência de petróleo no Riacho Doce era tamanha que nada lhe quebrava o ardor. Não tinha dinheiro? Muito bem. Trabalharia sem dinheiro.

Loucura pura! Perfurar sem dinheiro! Realizar esse trabalho dispendiosíssimo, que é uma perfuração, sem dinheiro! Já era o delírio do homem tomado de ideia fixa. Já era transtorno mental. Ninguém se apiedou dele, ninguém se riu, como no palácio do duque todos riam do cavaleiro de la Mancha, porque, abandonado de todos, ninguém mais acompanhava a ação de Edson.

O pioneiro louro despiu o paletó e, impossibilitado de contratar um sondador, fez-se ele mesmo o sondador na Nacional. Auxiliado por dois homens dali, ex-pescadores, que não precisavam de dinheiro para viver, pois tinham o mar e os cocos, meteu mãos ao trabalho.

Um grande sonho o animava. Edson sabia, tinha provas de que o último poço lá aberto pelo antigo Serviço Geológico, em 1922, tocara em petróleo livre aos 300 metros. Ora, se ele conseguisse chegar a essa profundidade, fatalmente também tocaria em petróleo – e tudo estaria salvo. O segredo da sua resistência verdadeiramente absurda deve ter sido esse. Deliberou, jurou consigo levar o poço São João até os 300 metros. Se nada encontrasse, então sim – abandonaria tudo, confessando a derrota.

Mas não se perfura sem dinheiro. Há sempre necessidade de algum para a compra deste ou daquele material na cidade – e a cidade não vende fiado aos loucos.

Problema insolúvel. Onde levantar dinheiro? Em Maceió, impossível. Nem a chegar até lá o pioneiro se atrevia. Oito meses passou sem pôr o pé em Maceió. Os numerosos pequenos acionistas por ele “logrados” eram capazes de linchá-lo, se o vissem na rua. A campanha de difamação promovida pelo oficialismo a serviço dos “trusts” fora perfeita.

Último recurso: o sertão. Talvez no sertão, por aquelas bibocas não chegam jornais e nenhum eco do que se passa na parte “civilizada” do Brasil, pudesse levantar algum dinheirinho. Ideia de louco – mas que é um pioneiro do petróleo no Brasil senão um louco varrido?

Edson despediu-se da esposa, afagou a Marquesinha e, montado numa perfeita réplica de Rocinante, lá partiu. Ia fazer essa loucura quixotesca de penetrar no sertão em busca do que menos há lá: dinheiro.

Foi o pondo máximo da sua carreira. O delírio do heroísmo. Léguas e léguas, dias e dias, semanas e semanas sob aquela soalheira criminosa do sertão, com paradas aqui e ali para catequizar este ou aquele matuto, ensinar-lhe o que era petróleo e, ao cabo duma luta tremenda, vender-lhe uma ação. Cada ação vendida era  um milagre. No primeiro mês desse martírio conseguiu vender cinco. Quinhentos mil réis! Uma fortuna – e Edson, com as esperanças renascidas, voltou radiante para casa, para a sonda, para o serviço.

E pode perfurar mais uns metros.

Mas o dinheiro acabou. Nova entrada pelos sertões. Nova catequese. Novas semanas de soalheira terrível. Novo dinheirinho em notas ressecas, de tanto tempo guardadas no lenço vermelho, lá no fundo das arcas. E Edson voltou e m ais uma vez retomou o serviço, perfurando mais uns metros.

Terceira entrada no sertão, dessa vez lá pelas zonas onde corria o bando sinistro de Virgulino. Chegou a cruzar-se com a gente de Lampião. E o penoso da catequese?

Sua garganta secava de tanto falar, de tanto explicar o grande negócio que seria para o matuto adquirir uma ação de petróleo. “Mas que história de petróleo é essa?” “Petróleo é querosene”, tinha Edson de ensinar. O matuto sabe o que é querosene, pois o compra na venda para a sua lamparina, e acha caro. Admitia, portanto, que se aquele moço tirasse querosene de dentro da terra seria u m bom negócio – poderia fornecer querosene para todas as lamparinas do sertão – e largava as sebentas notas do lenço vermelho.

Mas tudo cansa. Um dia Edson fraqueou. Um acidente qualquer na sondagem o fez despertar de tudo. “É loucura insistir”, pensou consigo. “Chega. Já lutei demais. Estou no fim”. Deu ordem para suspender-se o serviço. “Vocês tratem da vida”, disse aos dois auxiliares. Vou parar com isto. Não aguento mais”. Os dois auxiliares nada responderam. Ficaram com os olhos no moço vencido que, a passos lentos e cabeça baixa, seguia de rumo à sua casa, a trezentos metros dali.

Era o fim da campanha do petróleo no Brasil. Tudo falhara em São Paulo e tudo ia falhar no Norte. Edson, o último combatente, depois de queimados os últimos cartuchos, tomara resolução de largar o poço e sumir. Era engenheiro. Em qualquer parte, bem longe de Alagoas, ocultar-se-ia no anonimato dum trabalho qualquer. O petróleo do Riacho Doce estava definitivamente derrotado. José Bach, Pinto Martins, ele...

Quando pisou na varanda da sua modesta vivenda, o plano da nova vida já estava definitivamente assente em sua cabeça: fugir para o Sul no dia seguinte. Chamou a esposa para comunicar-lhe a resolução. Dona Elisa não estava. Só estava em casa a Marquesinha, que, ao vê-lo, lhe abriu os braços. Edson tomou-a e sentou-se na rede, a olhar para aqueles olhos negríssimos. Notou que no abraço da preguicinha havia qualquer coisa de novo, de mais forte, de mais significativo. Também notou que seu olhar era de censura e queixa. Aquilo o impressionou. Edson enterneceu-se.

Sim. Como abandonar a Marquesinha? Levá-la para o Sul, impossível. Teria também de levar o pé de embauva. Deixá-la com aqueles pescadores equivalia a condená-la à morte. Quem, naquela rudeza, teria coração bastante para compreender e amar a Marquesinha?

E Edson, o homem forte, vacilou. “Ela não quer que eu vá. Quem sabe se não é o destino que a faz abraçar-me assim?” Olhou-a bem fundo nos olhos negríssimos. Aqueles olhos ultra-humanos falavam, imploravam que não fosse – que a não abandonasse entre estranhos desalmados. E Edson, invadido de subitânea ternura, mudou de ideia. Deliberou ficar. E ficou.

No dia seguinte pela manhã torna ao serviço. Os dois auxiliares sorriram.

- “Continua, então, patrão”?

- Que remédio?! A Marquesinha não quer...”

Metem mãos à obra. Vão emendando uma haste na outra e descendo a coroa rotativa. O ferro alcança o fundo do poço, então na cota dos 250 metros. A máquina é posta em movimento. O sistema começa a regirar. Lá no seio da terra a broca vai progredindo com a sua lentidão desesperadora. Súbito, a água da boca do poço referve em borbulhas.

- “Será gás?” murmura o pioneiro, com o coração aos pinotes.

Chega um fósforo. Sim! Gás inflamável – gás de petróleo, o sinaleiro, o anunciador da grande coisa procurada” ...

Tomado de profunda emoção, Edson corre ao paletó pendurado dum cajueiro e manda um bilhetinho histórico a dona Elisa, em inglês: (Sua esposa é americana).

“Wify: it looks we are getting there – the well is boiling – just come over – say nothing. Hubby. (Wify: parece que vencemos – o poço está a ferver – venha já – não fale nada. Hubby).

Mais uns metros perfurados nos dias que se seguiram e o gás irrompe tremendo. A folhinha marcava o mês de junho de 1935.

...   ...   ...

Era a vitória do Brasil contra a força tremenda do oficialismo a serviço das forças externas escravizadoras. Era o triunfo da Nacional, de Edson, dos seus companheiros do Sul. Era o começo do Brasil de amanhã. Era o bruxulear do Quarto Poder Mundial do Petróleo. E se essa coisa tremenda veio, foi apenas porque o abraço da Marquesinha do Riacho Doce impediu em certo momento que o último soldado desertasse.

Logo depois a preguicinha fechava os olhos para sempre, sem causa visível. Instrumento do destino que foi, desapareceu logo que teve sua missão cumprida. Dela só resta hoje aquele túmulo em miniatura embaixo da embauva. Nele há sempre uma flor do dia. Como há uma lágrima de infinita ternura nos olhos de Edson sempre que conta do abraço e do olhar de censura com que, impedindo-lhe a fuga, a Marquesinha salvou a campanha do petróleo no Brasil.

O Engenheiro Edson de Carvalho


Desembocadura do Riacho Doce






***   ***

Transcrito do jornal Correio Paulistano, São Paulo, 24 de setembro de 1936.

Para saber mais acesse https://www.historiadealagoas.com.br/a-saga-do-petroleo-alagoano-iii-edson-de-carvalho.html    



[i] José Bento Renato Monteiro Lobato (Taubaté, 18 de abril de 1882 – São Paulo, 4 de julho de 1948).

[ii] Edson Feitosa de Carvalho nasceu em Vitória, atual Quebrangulo, no dia 23 de julho de 1897. Era filho de João Honório de Carvalho e Carolina Feitosa. No dia 29 de setembro de 1917, em Bronx, New York, casou-se com Liesel Ott, uma alemã criada nos Estados Unidos. Quando se naturalizou brasileira passou a se chamar Elise. Em segundas núpcias, casou-se com Vicentina Soares de Oliveira.

[iii] O mesmo que Imbaúba. Designação comum, extensiva às árvores do gênero Cecropia, nativas das regiões tropicais americanas, de folhas grandes, flores em espiga e pequenos frutos nuciformes, também conhecidas por árvore-da-preguiça, imbaíba, umbaúba, etc.

[iv] Afonso de Carvalho – Interventor Federal de 10 de janeiro de 1933 a 2 de março de 1934.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia