sábado, junho 25

LIMOEIRO DE OUTRORA

A edição de 11 de junho de 1972 do jornal Gazeta de Alagoas trazia em sua capa a manchete: “Alecrim: um povoado do sertão alagoano parado no tempo e no espaço”. Era a chamada para a reportagem de Carlos Cavalcante, com fotos de Arlindo Tavares, cujo título já prenunciava a triste situação por que passava o nosso Limoeiro.
“FOME E MISÉRIA: RETRATO DE UM POVOADO ALAGOANO”.
Os repórteres da Gazeta, levados pelo conterrâneo Epitácio Mendes, retrataram com fidelidade a grave situação por que passava a população limoeirense, aliás, comum a todas as comunidades interioranas. Era uma tentativa de chamar a atenção das autoridades para as necessidades básicas do nosso povo. Iniciava ressaltando os seguintes aspectos: “não tem luz, cinema, loja, padaria, feira, não passa ônibus no local, a missa é celebrada de dois em dois meses e só tem uma venda, que não possui qualquer tipo de medicamento”.
A matéria traz depoimentos de personagens históricos da nossa Vila. Dona Miúda – Maria Rosa Andrade, então com 78 anos de idade, prevenida, teria já adquirido “caixão, mortalha e uma garrafa de Pitú para dar ao coveiro no dia de sua morte”. Disse ela: “Morando aqui há mais de 65 anos, sei muito bem que quem adoecer gravemente nunca conseguirá se salvar porque, além de não termos farmácia, a nossa única venda não possui nenhuma espécie de medicamento”.
Ela se referia à bodega do meu compadre Abinha (Djalma Castro). Não muito tempo antes, até 1967 mais ou menos, havia cinco bodegas: a de seu “João Gringo”, na Rua Mário Vieira; as de seu Lindauro e seu Maximino, vizinhas na Rua do Meio; a da própria Doma Miúda, na esquina da Rua do Meio com a Rua de Cima e, nesta, a do pai de Erasmo Barbosa bem defronte ao Grupo.
Lindauro Costa, liderança política do lugar, declara: “Vivemos na maior desgraça. Duas crianças morrem por mês, por absoluta falta de assistência. Das muitas campanhas realizadas para erradicar doenças, nenhuma delas ainda passou por aqui. Ninguém se lembra da gente. Só mesmo em época de eleição, pois mesmo sendo pequeno, o povoado tem 120 eleitores, afora outros em idade de tirar o título, mas sem poder se deslocar para a cidade”.
Os 50 alunos do MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização, assistiam às aulas à luz de candeeiros e placas, dada a ausência de energia elétrica, que só chegaria em 1976.
Por fim, a reportagem traz o depoimento de Seu Chico Mendes: “esperamos que, com o trabalho da Gazeta de Alagoas, as autoridades procurem tomar conhecimento de nossa existência e que algumas medidas sejam colocadas em prática, porque, se as coisas continuarem como vão, ninguém poderá precisar o nosso futuro. Queira Deus que as autoridades ouçam nosso apelo”.
A História de Limoeiro está baseada nesta igreja, cuja construção foi iniciada em 1782 e concluída em 1787, por João Carlos de Melo.Foto: Arlindo Tavares

Alunos do MOBRAL literalmente "queimando as pestanas".Foto: Arlindo Tavares

Rua do Meio (atual Jaime Silva), à direita a casa de D. Miúda. Foto: Neide Alves Melo - 1968.

Porto do Limoeiro em 1968.Foto: Neide Alves Melo.

sábado, janeiro 29

PÃO-DE-AÇUCARENSE TERÁ BIOGRAFIA



Foi lançado no último dia 27, quinta-feira, no Memorial da República, o Edital Público que institui o Concurso Nacional para publicação de um livro sobre a vida de José de Freitas Machado, o alagoano (de Pão de Açúcar) precursor do ensino da Química no Brasil.
O Concurso é fruto de uma parceria entre a BRASKEM, Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação – SECTI e a FAPEAL – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas. A homenagem acontece no ANO INTERNACIONAL DA QUÍMICA, validado pela ONU.
Serão premiados os três primeiros colocados no Concurso. O 1º receberá a quantia de R$ 10.000,00 + a publicação de um livro sobre a Vida e a Obra do Professora Freitas Machado, cujo lançamento se dará durante a V Bienal Internacional do Livro de Alagoas, a se realizar e 21 a 30 de outubro de 2011 (A Bienal é uma realização da Universidade Federal de Alagoas, através da EDUFAL). O segundo receberá R$ 5.000,00 e o terceiro, R$ 2.500,00.
O Edital pode ser obtido no site da FAPEAL: www.fapeal.br.

quarta-feira, janeiro 26

A GRANDE MESTRA

Por mais de quarenta anos ela estimulou o raciocínio de muitas gerações de crianças de Pão de Açúcar. Como Professora do Ensino Primário, ensinou-as a ler e contar, libertando-as da escuridão da ignorância.

Pouco se sabe a respeito de Rosália Sampaio Bezerra. Seu nome, entretanto, está imortalizado porquanto dá nome a uma de nossas ruas e a uma Escola Estadual. Falecida já há mais de 53 anos (30 de dezembro de 1957), não sendo de Pão de Açúcar e não tendo deixado descendência, resta-nos apenas informações vagas colhidas de familiares de alguns de seus alunos.

Recentemente, encontrei no perfil de uma pessoa amiga numa rede social da internet, uma foto identificada como sendo da “Professora Rosália e seus alunos”. Surpresa!!! Temos, enfim, uma imagem da famosa Mestra.

Essa amiga, a também professora Maria Rocha, conseguiu da sua avó octogenária algumas informações: Não era casada. Veio para Pão de Açúcar com mais dois irmãos, que também moravam com ela: Rodolfo e Osvalda. Disse também que ela criou uma pessoa chamada Ivone e que o irmão dela ensinava, às escondidas, as tarefas aos alunos, através do corredor da sala.

Foi tão longa a atividade da Professora Rosália, que ela chegou a ensinar a sucessivas gerações da família de Maria Rocha: primeiro a avó Georgina, na década de 1920; depois a mãe Norma, na década de 1930 e a tia Solange, na década de 1940.

Desde antes da construção do Grupo Escolar Bráulio Cavalcante, cujas aulas iniciaram em 2 de julho de 1935 e do qual foi sua primeira Diretora, D. Rosália lecionava na sala de sua própria residência.

É muito pouco o que temos, considerando a sua importância para a Educação em nossa terra. Rogo, então, aos que mais souberem para que deixem aqui o seu recado e, assim, contribuam para a constituição de uma biografia digna da Grande Mestra.
Pão de Açúcar-AL. Década de 1920. A Professora Rosália e seus alunos. Georgina de Carvalho Melo, filha de Alípio Gomes de Carvalho Mello e Maria Regina de Carvalho Mello, avó de Maria Rocha, é a terceira da direita para a esquerda, da segunda fila de cima para baixo.

terça-feira, janeiro 4

BOM JESUS DOS NAVEGANTES

Muitas são as localidades ribeirinhas do Baixo São Francisco que festejam Bom Jesus dos Navegantes. Durante o mês de janeiro, essas comunidades se movimentam para reverenciar o padroeiro daqueles que vivem e trabalham sobre as águas do Velho Chico, seja em canoas ou em lanchas dos mais diversos tipos e tamanhos.
Três cidades se destacam nessas comemorações: Penedo e Pão de Açúcar – em Alagoas, no segundo domingo e Propriá - em Sergipe, no último. É possível que essa prática, no início de cunho eminentemente religioso, remonte ao Século XIX.
Nas fotos 1 e 2 – em meados do Século XX – provavelmente década de 1940, o porto de Penedo repleto de embarcações em preparativos para a grande Procissão Fluvial. Um grande número de canoas, além do Navio Comendador Peixoto, formavam o cortejo por determinado trecho do rio, conduzindo a imagem do Padroeiro.
As fotos 3 e 4 – por essa mesma época, mostram os festejos em Propriá, a bela cidade sergipana, com muita gente lotando a balsa que ostentava a imagem de Bom Jesus e a enorme quantidade de canoas seguindo o Navio. Na foto 5 – Década de 1960, canoas e lanchas competem em graciosidade, compondo um cenário deveras majestoso.
A foto 6 – início do Século XX, década de 1920, canoas navegam ao vento forte da tarde pão-de-açucarense, sob os olhares contemplativos de dezenas de pessoas que se apinham na margem do rio cheio, exibindo trajes típicos da época.
Finalmente, a Foto 7 – ano de 1966, fiéis conduzem a imagem sob o comando do Padre Heliomar Queiróz Mafra, um dos mais dinâmicos párocos que Pão de Açúcar já teve.

FOTO 1

FOTO 2


FOTO 3

FOTO 4

FOTO 5

FOTO 6

FOTO 7

segunda-feira, dezembro 6

6 DE DEZEMBRO – DIA DO EXTENSIONISTA RURAL

Por Etevaldo Amorim

No dia 23 de fevereiro de 1976, recém saído do antigo e famoso Colégio Agrícola de Satuba, eu ingressava numa das mais importantes instituições do Estado de Alagoas – a ANCAR-AL.

A Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural, integrante de um Sistema que prestava assistência ao agricultor em todo o País, se revelava um modelo de organização e era depositária das esperanças de desenvolvimento do meio rural brasileiro.

Vivíamos, naquele ano, o processo de transição para o Sistema EMBRATER. A ANCAR, então, seria sucedida pela EMATER-AL (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural).
 
Integrante de uma turma de vinte novos extensionistas, sendo seis Agrônomos, quatro Médicos Veterinários e dez Técnicos Agrícolas, lá estava eu, com meus 18 anos, iniciando minha vida profissional.

Depois de um Curso de Pré-Serviço, realizado no Centro Social Rural Dom Adelmo Machado, pertencente à Arquidiocese de Maceió, a turma foi distribuída pelas diversas regiões do Estado. Fui designado para o Escritório de Mata Grande, que atendia também os municípios de Canapí e Inhapí.

Substituindo o Agrônomo Joaci Augusto Barbalho – um potiguar natural de Caicó, que assumira um cargo de coordenação na nossa Gerência em Santana do Ipanema, iniciei as atividades do Escritório, improvisado numa garagem situada na Rua Ubaldo Malta. Fazia-me companhia o colega Antônio Soares Mota, conhecido desde os tempos de Colégio por Lambreta.
 
Lá encontramos a Secretária Maria de Fátima Sandes Xavier. Natural de Mata Grande, tinha a experiência necessária para auxiliar dois novatos, depois de ter trabalhado com o próprio Joaci e com Abel Cândido, hoje prestigiado advogado, associado a outro ex-extensionista, o meu dileto amigo Lindalvo Silva Costa.

O Jeep verde, ano 1973, de Placa AB-1523, era o nosso principal instrumento de trabalho. Para percorrer a grande extensão territorial que nos competia, o veículo rústico, com tração nas quatro rodas era indispensável. Afinal, a nossa área era enorme: além da Sede, Mata Grande com área de 919,6 km², contava também com Canapi (571,94 km²) e Inhapi (374,2 km²). Num dado momento, em que o colega de Delmiro Gouveia teve de seu ausentar, assumi aquele Escritório por cerca de três meses (mais 606,79 km²), além de Água Branca, que ainda contava com o atual município de Pariconha (716,38). Total: 3.188,91 km².

Os pouco mais de dois anos em que fui Extensionista não foram suficientes para fazer muita coisa. Entretanto, consegui deixar no Escritório de Mata Grande um grande número de projetos de investimento, no âmbito do antigo PROTERRA – Programa de Redistribuição de Terras e Estímulo à Agroindústria do Norte e Nordeste, tendo o crédito rural como ferramenta importante. Aliás, o Banco do Brasil – no nosso caso, a Agência de Santana do Ipanema, era parceiro nesse trabalho. Por conta disso, tínhamos constantes reuniões na Sede do nosso Regional, o que suscitava comentários jocosos dos colegas do BB.
 
Quando éramos ANCAR, os bancários diziam que, na verdade, a sigla significava: “Agrônomos Nordestinos Continuam Ainda Reunidos”. Quando veio a EMATER, nós os provocamos para uma nova interpretação. Eles, então, vieram com esta: A sigla seria: “Embora Mudados Ainda Temos Eternas Reuniões”. Era uma prova da agradável convivência entre os agentes de extensão e as instituições parceiras.

Em Delmiro Gouveia, o curto período em que lá estive foi marcado pela mudança do Escritório, de um velho casarão para o recém inaugurado Centro Administrativo, a nova Sede do Poder Executivo Municipal.

São muitas as lembranças que tenho daqueles tempos e, a propósito deste DIA DO EXTENSIONISTA RURAL, parabenizo esses profissionais na pessoa da minha amiga Rita de Cássia Ferreira Lima, Superintendente de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural, da Secretaria de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário.



Escritório da EMATER em Mata Grande - 1976.


Eu (à direita) e meu colega Antônio Soares Mota - Mata Grande - 1976.


Antiga Sede da EMATER em Delmiro Gouveia - 1976.
(Obtida no blog: www.amigosdedelmirogouveia.blogspot.com)


Centro Administrativo de Delmiro Gouveia. Nova sede do Escritório da EMATER a partir de 1976.
(Obtida no blog: www.amigosdedelmirogouveia.blogspot.com)


Técnicos Agrícolas, quase todos da antiga EMATER, reunidos em Pão de Açúcar para reorganizar a sua Associação, precursora do Sindicato da categoria. 1977.

sexta-feira, outubro 15

SALVE 15 DE OUTUBRO - DIA DO PROFESSOR

O VELHO MESTRE

Renê Barreto¹

Andava muito doente o velho professor...
Por isso ele não tinha agora o mesmo ardor
Que outrora o possuía e o animava dantes.
Às vezes, quando em aula, havia mesmo instantes
Em que inclinava a fronte - aquela fronte austera
Onde já desbotara a flor da primavera
E cochilava um pouco, involuntariamente.

O velho professor andava muito doente....

Era, porém, tamanho o bem que nos queria,
Que jamais quis pedir aposentadoria
E manter-se do Estado a custa dessa esmola...
Era sempre o primeiro a aparecer na escola
Com as suas joviais maneiras tão simpáticas
Não obstantes sentir umas dores reumáticas,
Que o faziam sofrer muito ultimamente...

O velho professor andava muito doente....

Um dia ele chegou mais tarde alguns momentos.
Trazia nas feições sinais de sofrimento...
A palidez do rosto, os olhos encovados,
Denunciavam seus pesares ignorados;
E, como pra tornar a dor mais manifesta,
Cavara-se-lhe fundo uma ruga na testa
Franzia-se-lhe o rosto numa expressão de horror...

Andava muito doente o velho professor...

A aula começou. Mas pouco depois das onze,
O velho mestre, o bom batalhador de bronze,
Que já perto de trinta anos, ou mais, havia
Que gigantesco herói, lutava dia a dia
Para a glória da Pátria e para o bem da infância,
Dando batalha ao vício e combate à ignorância,
Sentindo de uma dor agudos abrolhos,
Curvou as nobres cãs, cerrou de leve os olhos.

Fora fulgia o sol. A manhã era calma.
Risonha, a naturêza abria a sua alma,
Repleta de alegria e cheia de esplendores.
Pela janela entrava o hálito das flores.
E em toda a atmosfera, azul, lavada, fina,
Ressoava, baixinho, assim como em surdina,
O canto celestial, harmonioso e suave:
Anjos tocando em harpa alguma canção de ave.

Nisto ergueu-se um aluno, um pândego, um peralta,
Fabricou de um jornal um chapéu de copa alta
E bem devagarinho (oh! Que idéia travessa)
Chegou-se ao mestre...záz! enfiou-lhe na cabeça,
E rápido, se foi de novo ao seu lugar...
O mestre nem abriu o sonolento olhar.

E, aquele aspecto vil de truão, de improviso,
Rebentou pela aula estardalhante riso.
De súbito surgiu o diretor na sala...
Demudou-se-lhe o gesto, estremeceu a fala,
Quando ele, transformando a mansidão de boi
Em fúria de leão, nos perguntou: Quem foi?
Quem foi esse vilão que fez tal brejeirice,
Sem respeito nenhum às cãs desta velhice?!
Vamos lá! Sedes leais, verdadeiros e francos!
Dizei: Quem ofendeu estes cabelos brancos?

Mas ninguém denunciou da brincadeira o autor,
E como um clown, dormia o velho professor.
O diretor, então chegou-se junto à mesa...
Via-se-lhe no rosto incômodo, a surpresa
De que o sono do Mestre assim se prolongasse,
Curvou-se meigamente e levantou-lhe a face...
Mas recuou tremendo, aterrorado, absorto,
Aniquilado e mudo...

O Mestre estava Morto...
___________
¹ Educador_1872-1916.
_______________________
Extraído do livro de leitura de minha mãe: Corações de Crianças-Terceiro Livro, de Rita de Macedo Barreto.

terça-feira, setembro 14

A POESIA DE MÁRIO BENEDETTI



GENTE QUE EU GOSTO

Em primeiro lugar,
Gosto de gente que vibra, que não tem que ser empurrada,
Que não precisa que lhe diga que faça as coisas
Porque sabe o que tem de fazer
E que o faz em menos tempo do que o esperado.
Gosto de gente capaz de medir as conseqüências de seus atos,
Gente que não deixa as soluções ao acaso.
Gosto de gente rigorosa com seu povo e consigo mesma,
Mas que não perca de vista que somos humanos e que podemos errar.
Gosto de gente que pensa que o trabalho em equipe, entre amigos,
Produz mais que os caóticos esforços individuais.
Gosto de gente que sabe a importância da alegria.
Gosto de gente sincera e franca, capaz de se opor com argumentos serenos e razoáveis.
Gosto de gente criteriosa, que não se envergonha de reconhecer que não sabe algo e que se equivocou.
Gosto de gente que, ao reconhecer seus erros, se esforça verdadeiramente em não voltar a cometê-los.
Gosto de gente capaz de me criticar construtivamente e de frente; a estes eu chamo de amigos.
Gosto de gente fiel e persistente, que não sucumbe quando se trata de alcançar objetivos e idéias.
Gosto de gente que trabalha por resultados.
Com pessoas assim, me comprometo a qualquer coisa, já que tê-las ao meu lado é por demais gratificante.

Mario Benedetti (Tradução: Etevaldo Amorim)

********* *************

PASSATEMPO

Quando éramos crianças,
os adultos andavam pelos trinta;
uma poça era um oceano -
a morte não existia.

quando rapazes,
os velhos eram gente de quarenta;
um charco era um oceano -
a morte somente uma palavra.

já quando nos casamos,
os anciãos estavam nos cinqüenta;
um lago era um oceano - a morte era a morte
dos outros.

agora veteranos,
já alcançamos a verdade;
o oceano é por fim o oceano -
mas a morte começa a ser
a nossa.
________
Mario Benedetti (Paso de los Toros, 14 de setembro de 1920 — Montevidéu, 17 de maio de 2009) foi um poeta, escritor e ensaísta uruguaio. Integrante da Geração de 45, à qual pertencem também Idea Vilariño e Juan Carlos Onetti, entre outros. Considerado um dos principais autores uruguaios, ele iniciou a carreira literária em 1949 e ficou famoso em 1956, ao publicar "Poemas de Oficina", uma de suas obras mais conhecidas. Benedetti escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema.
Fonte: Wikipedia (Tradução de Sidney Wanderley)
Obtido no Blog do Majella (http://majellablog.blogspot.com/)

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia