segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O CÔNEGO DE DONA MAROCA

Monteiro Lobato


O Dr. J. C. Alves de Lima[i] vem de publicar um precioso livro de recordações de homens e coisas do seu tempo.
O seu tempo consta de 74 anos que já viveu neste mundo sublunar na mor parte transcorridos em viagens pelo estrangeiro e estadias na América do Norte, onde foi cônsul do Brasil por mais de três décadas. Está claro que tem muito o que recordar.
Encontros com homens célebres ou que vieram a sê-lo, incidentes de viagem, ideias que ocorrem pelo caminho, anedotas, sugestões aos nossos governantes, mil coisas.
Gaveta de sapateiro, chama o povo às miscelâneas —  porque há de tudo numa gaveta de sapateiro, menos sapatos. Qualquer memória de homem é gaveta de sapateiro — é riquíssima em casos como os do Dr. Alves de Lima, homem andejo, metade por natureza, metade por dever de ofício.
Não se trata de um escritor. O Dr. Alves de Lima não “liga” muito à língua, nem ao estilo, nem sequer à gramática. Não tem tempo. E como passou a maior parte do tempo no estrangeiro, onde a língua portuguesa é tão morta quanto a hebraica, escreve melhor em inglês ou francês do que na língua própria.
Mas justamente o despretensioso alinhavado da sua prosa, menos escrita do que conversada, dá grande sabor às suas confidências — e por ela nos vamos embora, mais agradavelmente do através de pomposos estilos catedralescos, onde tudo são lambrequins logotécnicos de difícil ingestão e pior digestão. Gênero conversa ao pé do fogo – conversa amiga e bonacheirona de quem, por muito vivido, se convenceu de que a vida não passa de uma... conversa.
O caso de Dona Maroca[ii], por exemplo. Não tem, na aparência, a mínima importância, simples caso de “passagem” que é. Mas não deixa de provocar reflexões, tanto mostra como as Marocas dirigem o mundo, dirigindo os homens — e que homens! Tribunos como Silveira Martins, imperadores como D. Pedro II.
— Eu sou o jequitibá da floresta. O machado que há de derrubar-me não se forjou ainda, tonitruava ao parlamento, batendo no peito largo o Mirabeau rio-grandense.
De fato, só depois de forjado o machado da República, é que o jequitibá aluiu. No entanto, uma Dona Maroca o fazia dúctil como uma vara de matambú.
Não era Dona Maroca nenhuma mulher de truz, das que atravancam a história com os seus espaventos, ao tipo das Dubarry, das Hamilton, das Domitillas, das Lianch. Boa dona de casa, doceira insigne talvez, experiente em chás e semicúpios com que curava as macacoas do seu marido, Soares Brandão[iii], bela figura de Senador do Império.
Soares Brandão era Presidente da Província das Alagoas, isto nos últimos anos da Monarquia. Numa viagem que com sua esposa fez ao Rio São Francisco, parou na pequena cidade de Penedo, onde recebeu a visita do humílimo vigário local. Conversa vai, conversa vem, dona Maroca pergunta ao padre qual a coisa que mais desejava no mundo.
— Ser cônego, dona Maroca. Se me pilho cônego, acabo o homem mais feliz da terra.
— Pois será cônego, respondeu dona Maroca e, voltando-se para o marido, intimou-o a operar o milagre.
Soares Brandão relutou. Fez ver como era D. Pedro II pontilhoso nesse pormenor, exigindo condições e desatendendo a pedidos.
— Com jeito tudo se arranja, retrucou dona Maroca, que já previa o advento da nossa república do arranjo. Na Corte, tecerei os pauzinhos.
E teceu — que paus! Meteu na dança, logo de cara, o jequitibá da floresta, nesse ano ministro do Império.
— Preciso de um cônego, senhor Ministro. Tenho em Penedo uma boa massa de cônego e preciso que Sua Majestade me faça presente de um.
Silveira Martins coçou a barba. Tantos problemas sobre a mesa e ainda por cima aquele cônego de encomenda! Mas não podia recusar-se a um pedido de dona Maroca – tão boa criatura, tão amável! — e levou ao imperial despacho a proposta conegadora do humilíssimo vigário do Penedo.
O Imperador, que tudo via e cheirava, impugnou a proposta, que não vinha com os requisitos legais. Não era caso e o papel foi posto de parte.
Silveira Martins insistiu e, no próximo despacho a proposta, sem alteração nenhuma, reaparecia. Reapareceria para sofrer nova preterição imperial. E foi um jogo. Dona Maroca a não desistir, o jequitibá a insistir e o imperador a resistir.
Na terceira ou quarta tentativa, D. Pedro cochilou e, apôs o seu ambicionado “P” grande sobre o renitente decreto.
Estava elaborado o cônego de dona Maroca, uff! Silveira Martins se apressou em passar pela rua Marquês de Olinda, onde a boa dama residia, e já do portão lhe foi gritando:
— A sua receita está aviada! Custou, mas saiu uma beleza de cônego.
A excelente senhora não ocultou uma infantil alegria, e sem tardança telegrafou ao padre de Penedo.
Foi uma bomba, como diria o Paulo Setúbal. O excelente padre duvidou dos seus olhos, como diria um romancista old style, e depois saiu, agitadíssimo, a pernejar pelas ribanceiras do rio, delirando de contentamento.
— Estou cônego! Estou o Senhor Cônego!, exclamara às pedras, às águas, às árvores, às gentes atônitas. Cônego, e dos bons, ouviram?
Os penedenses reuniram-se em grupos ressabiados, cheios de dó e vaticínios.
— Enlouqueceu, o pobre? Eu bem andava notando qualquer coisa...
Mas o padre exibiu o telegrama de dona Maroca e a alegria foi geral. Penedo, enfim, dava um cônego! Viva Penedo! E tudo acabou em generalizada alegria de coração, exceto para o pedreiro livre local, que amuou.
Não é, como se vê, um transcendente episódio histórico, nem as demais anedotas que recheiam o livro do Sr. Alves de Lima se medem por padrão mais alto. Mas é humaníssimo e mostra com as donas Marocas dirigem a sociedade. Se fosse possível uma investigação a fundo sobre todos os Atos governamentais, talvez assombrasse ao sociólogo o número dos que embricam, na origem, em caprichos de mulher. Capricho, desejo ou ódio. É estudo que merecia ser feito, a determinação do quantum de parte feminina nos negócios públicos.
Psicólogos há que o avaliam em 70 %. Outros, em mais. Se as paredes, que têm ouvidos, também tivessem bocas, se falassem as paredes das alcovas...
Os governos se agitam. As saias os conduzem.

______________
Extraído do jornal carioca A MANHÃ, 19 de dezembro de 1926.




[i] José Custódio Alves de Lima nasceu em Tietê, Estado de São Paulo a 7 de setembro de 1852. Filho do comendador Antônio Manuel Alves de Almeida Lima e de Maria Leopoldina de Almeida Lima. Estudou em São Paulo e no Rio de Janeiro e, em 1873, foi para os Estados Unidos, onde fez o curso de Engenharia nas Universidades de Cornell e Syracuse. Terminado o curso, casou-se com Ella Barber Alves de Lima nasceram os filhos: Frederico; Gay; Antônio; Paulo e Maria. Foi cônsul do Brasil em Havana e, após a Grande Guerra (1ª Guerra Mundial), foi cônsul geral do Brasil nos Estados Unidos. Faleceu no dia 2 de fevereiro de 1938. Fonte: Correio Paulistano, 3 de fevereiro de 1938, p. 4.

[ii] Maria Anna Paes Barreto. Nascida em 21 de julho de 1847. Era sobrinha-neta do do Marquês do Recife, o famoso Morgado do Cabo. Faleceu no Rio de Janeiro no dia 24 de julho de 1917. Fonte: O Paiz, RJ, 25 de julho de 1917. Foi sepultada no Cemitério São João Batista no dia 25 de julho de 1917. Saíu o féretro da Travessa Marquês de Paraná, nº 23. Tinha 70 anos. Fonte: Gazeta de Notícias, RJ, 26 de julho de 1917.

[iii] Filho de Francisco Pedro Soares Brandão e Maria Rita Gonçalves da Rocha, nasceu em Jaboatão, Pernambuco, a 31 de outubro de 1839. Formou-se pela Faculdade de Direito do Recife em 1861, após o que abriu escritório de advocacia. Em fins de 1866, foi nomeado ao cargo de juiz de órfãos de Recife, que se manteve até 1872. Na vida pública, foi deputado provincial (1864 e 1869), deputado geral (1878-1881), presidente de província (de Alagoas, Rio Grande do Sul e São Paulo), ministro dos Negócios Estrangeiros e Senador do Império do Brasil, do qual foi escolhido, na vaga do senador Barão de Pirapama, em 29 de outubro de 1882. Foi empossado em 22 de maio de 1883 até o ano 1889. Quando do advento da República, foi morar no Rio de Janeiro, abrindo escritório de advocacia, onde veio a falecer no dia 1º de setembro de 1899. No curto período em que foi Presidente da Província de Alagoas (de 11 de março a novembro de 1878), visitou Pão de Açúcar, em viagem que demandava a Cachoeira de Paulo Afonso.





Maria Anna Paes Barreto - Dona Maroca. Acerco Fundação Joaquim Nabuco.

Dona Maroca. Acervo Fundação Joaquim Nabuco.

Francisco de Carvalho Soares Brandão. Acervo Fundação Joaquim Nabuco.

Soares Brandão e D. Maroca. Jornal do Brasil, 30/10/1040.

Gaspar da Silveira Martins. 

José Custódio Alves de Lima. Foto: O Malho, RJ.






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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia