domingo, 27 de novembro de 2016

ADALBERTO MARROQUIM, PERNAMBUCANO DA TERRA DAS ALAGOAS

Por Etevaldo Amorim

Adalberto Marroquim_foto_DIÁRIO DA NOITE-RJ, 01.05.1930.
Procedente da região de Palmares, com raízes familiares nos Engenhos de Açúcar de Campos Frios, povoado de Água Preta, esse pernambucano, por sua atuação no campo das letras e da política, vincularia definitivamente a sua vida ao vizinho Estado do Sul.

ADALBERTO AFFONSO MARROQUIM, era filho de Francisco Affonso Marroquim e de Sebastiana Maria da Conceição Areda. Nasceu no dia 12 de setembro de 1888. Seu pai, cujo nome de batismo era Francisco Correa de Almeida, era sócio de Cândido gonçalves Ferreira Cascão na propriedade da Usina Pirangy Assu, no Município de Palmares, Pernambuco, e do Engenho Pirajá, distrito de Campos Frios, Água Preta. Seus avós paternos era Herculano Antônio José Marroquim e Francisca Correa de Almeida, falecida a 14 de setembro de 1900, em Água Preta, aos 90 anos de idade.[ii].

Depois de prestar os exames preparatórios no Ginásio Pernambucano, ele ingressou na Faculdade de Direito do Recife em 1908, para se formar em 1911, juntamente com Bráulio Cavalcante e Pontes de Miranda. Talvez por ser colega desses dois alagoanos ilustres, já visitava Alagoas ainda nos tempos da academia. Há um registro de sua visita à redação do jornal Gutenberg, em 2 de julho de 1909.

Casou-se com Olívia La Greca, natural de Pernambuco, mas filha do casal italiano Vicenzo La Greca e Teresa Carlomagno, que veio para o Brasil no final do Século XIX, quando a Itália atravessava sérias crises. Era irmã do banqueiro José La Greca e do pintor Murillo La Greca, cujo nome de batismo era Vicente. Com ela teve os filhos: Francisco La Greca Marroquim, que se tornaria médico conceituado em Pernambuco; Nicaula La Greca Marroquim e Maria Helena La Greca Marroquim.
Em 17 de setembro de 1910, e, portanto, antes de se formar, assumiu interinamente o cargo de Promotor Público da Comarca de Palmares, Pernambuco.[iii]

Em 1915, já exercia a advocacia em Maceió, onde também ocupou o cargo de Fiscal Municipal junto à Companhia de Bondes Elétricos. Ficou famosa a sua atuação no caso de Cândida Mendonça Malheiros, de 22 anos, acusada de autoria intelectual do assassinato de Marietta Cunha, de apenas dezesseis anos, suposta amante de seu marido, o comerciante Manoel Malheiros. Marroquim conseguiu a absolvição de sua cliente, não obstante a grande repercussão do crime, ocorrido entre Bebedouro e Fernão Velho. Segundo o jornal O Pharol, de Juiz de Fora-MG (9 de novembro de 1915), os executores do crime aplicaram à vítima mais de vinte punhaladas, tendo ainda cortado suas orelhas, os cabelos e a língua, levando como prova para a mandante.

Adalberto Marroquim ao lago de Fernandes Lima e a filha deste_A Notícia_Bahia_23.04.1915.

Em 1919, Marroquim participou do Congresso Brasileiro de Geografia, realizado em Belo Horizonte, em companhia de Moreira e Silve e Diegues Júnior. Chegaram a Maceió a 22 de outubro de 1919. Coincidentemente, neste mesmo navio viajava a urna mortuária do escritor maranhense Aluísio de Azevedo, que falecera seis anos antes em Buenos Aires, para ser sepultado em sua terra natal, por sugestão de Coelho Neto. O governador de Alagoas o visitou no cais de Jaraguá.[iv]
O livro Terra das Alagoas, organizado por Ad. Marroquim.

A 19 de fevereiro de 1922, embarca no vapor Itaúba com destino ao Rio de Janeiro para, de lá, embarcar para a Itália,[v] com a missão de mandar imprimir o livro Terra das Alagoas.[vi] Tal publicação fazia parte das comemorações, em Alagoas, do Centenário da Independência do Brasil. Em setembro, ainda permanecia na Itália, o que provocou críticas no jornal Gazeta de Alagoas. Tanto que, em carta publicada no mesmo jornal, no dia 10 daquele mês, carta essa replicada no Jornal do Recife, de 16 de setembro de 1922, pelo poeta Jayme d’ Altavilla procura justificar a demora na confecção do precioso livro. Esclareceu que o organizador da obra, ao chegar a Roma, “Marroquim teve de enfrentar não poucas dificuldades, oriundas da exorbitância dos preços das casas editoriais, tendo somente em maio deste ano, conseguido firmar contrato com a grande empresa Maglione & Cia.” Ademais, tratando-se de uma obra com mais de 300 páginas, 470 clichés esparsos, outros 30 em fototipia, capa em percalina com tricromia e ouro, não poderia ficar pronta em menos de quatro meses.
Afinal, demorou-se em Roma até o ano de 1923, (jornal do Recife, 17 de fevereiro de 1923), desembarcando do vapor inglês Almanzora, no dia 16 de fevereiro de 1923, vindo de Lisboa. No dia 20, chegou a Maceió e, de imediato, foi a Riacho Doce, oferecer um exemplar ao Governador Fernandes Lima.
Adalberto Marroquim_foto_Jornal do Recife
_18.02.1923_recém-chegado da Itália.

No Governo de Costa Rego (1924-1928), ocupou os cargos de Administrador da Recebedoria Central e Diretor da Instrução Pública, nomeado no dia 23 de junho de 1924.

A 29 de agosto de 1926, foi nomeado para a Serventia Vitalícia Privativa de Registro de Imóveis e Hipotecas de Maceió, após pedir dispensa da Recebedoria da Capital.[vii]

Foi indicado e eleito para o cargo de vice-governador, tendo como cabeça de chapa o Dr. Álvaro Paes, para o período de 12 de junho de 1928 a 12 de junho de 1932. Em eleição realizada o dia 12 de março de 1928, foi eleito Vice-governador. Ele já tinha sido eleito Deputado Estadual nas legislaturas 1917-18 (eleito com 7.915 votos); 19-20 (com 6.386 votos); 21-22 e 23-24.[viii]

A 2 de agosto de 1929, participa de reunião da Comissão Executiva do Partido Democrata em Alagoas, presidida pelo Gov. Álvaro Paes, aprovam Moção de apoio às candidaturas de Júlio Prestes e Vital Soares para Presidente e Vice-Presidente da República. Nesse mesmo ano, torna-se presidente da Sociedade Alagoana de Educação.

Nesse mesmo ano, segundo notícia do jornal Diário Carioca (4 de abril de 1929, p. 3), o Vice-Governador depôs o Prefeito de Leopoldina (Colônia Leopoldina), Sr. Aristeu Ramos. Este, na imprensa pernambucana, vocifera contra o ato considerado por ele arbitrário. Outro episódio em que também se achou envolvido foi o empastelamento da revista penedense A Semana.

Em 11 de abril de 1930, deixa o cargo de Secretário do Interior no governo Álvaro Paes. Na verdade, o Congresso Estadual decretou a perda do seu mandato. Os jornais da época comentavam que tal se deu a pedido do Governador Álvaro Paes e pelo fato de Marroquim se ter negado a dar assinatura a uma nomeação de um seu desafeto para professor do Liceu Alagoano.

Com o advento da Revolução de 1930, o Interventor Federal em Alagoas, Hermilo de Freitas Melro, determinou a sua prisão. Em inquérito instaurado pela autoridade revolucionária, depuseram contra ele os tenentes Panaleão Netto e o chouffer Hegecipo Caldas. Inicialmente levado para o Quartel da Polícia Militar, foi depois transferido para a sua residência. Libertado, retorna a Pernambuco e, em 1938, no Governo de Carlos de Lima Cavalcanti, exerceu o cargo de Diretor do Tesouro. Logo depois foi nomeado Consultor Jurídico da Caixa Econômica Federal.

Faleceu às 10:00 horas do dia 10 de novembro de 1940, em sua residência, à Rua dos Caldeireiros, 1916, no bairro Casa Forte, no Recife, com 52 anos de idade, quando era Diretor-Secretário da Junta Comercial. Foi sepultado no dia seguinte às 15:00 horas no Cemitério de Santo Amaro, na capital pernambucana.

Para homenageá-lo, logradouros das duas capitais nordestinas aonde ele viveu receberam o nome do Dr. Adalberto Marroquim. No Recife, no bairro da Imbiribeira e, em Maceió, no bairro do Farol. Há também uma Escola Estadual em Batalha com o nome do Dr. Adalberto Marroquim.

Ad. Marroquim foi autor de peças de teatro, como é o caso de “Madrasta”, apresentada no Teatro Deodoro em 11 de outubro de 1916 pela Cia. Maria de Castro, e da comédia “Passado que volta”, apresentada pela Troupe Zorda e São Luiz do Maranhão (Pacotilha, 25 de janeiro de 1919, p. 4).

Em 1919, a 16 de novembro, em reunião na casa do pintor Correia Dias[ix], reúne-se com diversas personalidades do mundo das letras e das artes para ler a sua peça sertaneja “Maria Rosa”. São dele essas obras: “Maceió Civiliza-se”; “À Espera da Missa”; (Repositório de Informações sobre o Estado) e a opereta “A Mais Bela”.

Em 16 de novembro de 1919, na casa do pintor Correia Dias, onde leu a sua peça sertaneja “Maria Rosa”, Adalberto Marroquim, sentado ao centro, entre os Srs. Alberto Deodato e Correia Dias. De pé, da esquerda para a direita: Oliveira e Silva, Vieira da Cunha, Bráulio Vieira, Gustavo Barroso (João do Norte). O Malho, RJ, Ano XIX, nº 898, 29 de novembro de 1919, p. 31.


SONETO

AD. MARROQUIM

Embaraçado nos meus vinte e um anos,
Nos vinte e um dias dessa indefinida
Teia de dores transcendente – a vida,
Tecendo enganos, destecendo enganos!

Alma tateante, incerta, confundida
No turbilhão de humanos – desumanos,
Tantalizada pelos desenganos,
De agonias mortíferas transida.

Como que ao longe uns vultos solitários,
Negrejando na sobra extraordinários
Através do meu censo descortino

Vejo-os, vem vindo, nítidos, perfeitos,
Figurar espectrais, sonhos desfeitos
Todos velando sobre o meu destino.

Publicado no Gutenberg, Maceió, 14 de agosto de 1909, p.2.


M. LaGreca e sua aquarela representando uma canoa de tolda no rio S. Francisco. 



[i] Falecido a 30 de setembro de 1908, com 52 anos de idade e filho de Antônio José Marroquim - falecido a 12 de março de 1881 - e de Anna Correa de Almeida, proprietários do Engenho Baité ou Bathé.
ii] Francisca Correia de Almeida, prima em segundo grau de seu marido, era filha de Manoel de Barros Lindoso e Costódia Correia de Almeida - donos do Engenho Baeté, em Barreiros, Pernambuco, pelo menos até a segunda metade do século XIX
[iii] Diário de Pernambuco, 7 de outubro de 1910.
[iv] Correio da Manhã, 22 de outubro de 1919, p. 3.
[v] O Paíz, 20 de fevereiro de 1922, p. 2.
[vi] Jornal do Recife, 15 de janeiro de 1922, p. 4.
[vii] Correio da Manhã, RJ, 31 de agosto de 1926, p. 7.
[viii] Barros, José Reynaldo Amorim de. ABC DAS ALAGOAS.
[ix] Fernando Correia Dias, artista plástico luso-brasileiro que se casaria, em 1922, com a poetisa Cecília Meireles, com que teve as filhas Maria Elvira, Maria Matilde e a atriz Maria Fernanda.

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia