quinta-feira, abril 2
CALMARIA E TEMPESTADE
Por Etevaldo Amorim
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| Porto de Limoeiro, 1988. Foto: Paulo Alves. |
Sob o sol de meio de tarde, no sinuoso canal da ilha do
Limoeiro, um menino e seu pai conduzem uma canoa demandando o porto de
Jacarezinho. Vento algum se podia sentir. Apenas um mormaço sufocante e a pele
a arder ante o calor escaldante. Não se via uma ruga sequer sobre a superfície.
O pano da canoa, erguido sobre o banco dianteiro, revelava-se inútil. Direcionando
a canoa bem próximo à margem, reduzindo assim o efeito da correnteza, os dois
tripulantes seguiam remando, derretendo-se em suor.
Deslizando morosamente junto à margem povoada de caniços e
calumbis, encontram, aqui e acolá, algumas groseiras armadas pelos pescadores
das redondezas, e capivaras que, assustadas, se atiram na água. À esquerda, a
grande ilha, repleta de mangueiras e coqueiros, cujas folhas se quedavam
imóveis, revelando a calmaria reinante.
Adiante, divisam uma clareira onde meninos e meninas tomavam
banho: era o porto da fazenda Santa Maria, que medeia o pequeno trecho. Uma
parada para descanso; uns punhados de água jogados sobre o rosto; alguns goles
da moringa guardada sob o carro de popa. Um alívio. Seguem viagem.
O calor continua e nenhuma brisa sequer. O menino suplica a
São Lourenço, o Senhor dos ventos. Em vão. O remo parece agora pesar uma
tonelada, os braços em molambo... fadiga...cansaço.
Algumas remadas a mais, chegam enfim ao porto. Depois de
tratativas comerciais com Seu Asdrúbal, pai e filho se preparam para o retorno
a Limoeiro. Eis, porém, que, chegando ao porto, encontram o senhor Caboquinho,
que embarcava alguns cavalos na canoa de Zé Pretinho, pretendendo levá-los à
fazenda Belém, situada na margem sergipana.
A essa altura, o vento já chegara. Zé Pretinho, temendo
alguma dificuldade na travessia, procura o homem e pede que junte as duas
canoas, visando conseguir maior estabilidade. Solícito, o homem concorda.
Juntadas as canoas, atadas por dois mastros dispostos
transversalmente, largaram do Jacarezinho.
A travessia principiara tranquila. Mas, do meio para o fim, refregas
mais fortes faziam as canoas balançarem como a dançar sobre as águas.
Chegam a Belém. A grande fazenda, pertencente à família
Brito, pouco abaixo da Ilha de São Pedro - cenário de páginas memoráveis da
História do antigo Morgado de Porto da Folha – ainda se mostrava operosa e
produtiva.
Desembarcados os animais, seguem-se os agradecimentos, posto
que nenhum pagamento foi aceito; apenas a solidariedade movida por sentimentos
de amizade e consideração.
O retorno para a costa alagoana se revelaria difícil e
arriscado. O vento agora já soprava forte, assumindo ares de tempestade. Nuvens
de poeira se podiam ver nos combros de ambas as margens, elevando-se até os
céus. A superfície do rio se encrespara sobremaneira, formando ondas
gigantescas, sobre as quais a canoa mais parecia um simples brinquedo. O
piloto, atônito, apavorado com tamanha tormenta, a muito custo conseguia aprumá-la
no rumo certo.
O menino, impotente, sentado sobre o estrado do fundo da
embarcação, sentiu o vento arrancar-lhe, de súbito, o belo chapéu de palhinha
que seu pai comprara na feira de Pão de Açúcar.
Por fim chegam à costa Sul da ilha, justamente na parte que
pertencia ao dito homem. Ali tiveram outra dificuldade: a cada marulhada, a
canoa pinoteava, o que exigia que a segurassem a uma certa distância para
que não se espatifasse na costa. Tiveram que ficar ali por, pelo menos, uma
hora, até que a tempestade amainasse.
Nesse ínterim, em meio às ondas que quebravam sobre a
ribanceira, o menino avista o chapéu de palhinha que a ventania lhe arrancara
da cabeça. Exultante, recoloca-o no seu devido lugar.
Passado o temporal e sentindo-se seguros, deitam o pano e
principiam a volta para casa. Novamente remando, molhados dos pés à cabeça,
chegam ao porto de origem. Já é fim de tarde. Logo vem uma noite fresca, de temperatura
amena e uma leve brisa que lhes oferece um repouso tranquilo e reparador.
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NOTA
Caro
leitor,
Deste
Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de
informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita
pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência
bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse
para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior
proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a
citação das referências. Isso é correto e justo.
sábado, março 28
ESCOLAS E SEUS PATRONOS – U.M.E. MONSENHOR LYRA
Por Etevaldo Amorim
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| A Unidade Municipal de Ensino Mons. Lyra, em Lagoa de Pedra. |
A Unidade Municipal de Ensino do
povoado Lagoa de Pedra foi fundada em 28 de fevereiro de 1968, na gestão do prefeito Augusto Machado, segundo informações do seu diretor Prof.
Gildácio Silva Pinto, complementada pelo escritor Marcelo Maciel. Desde então, tem formado inúmeras gerações de meninos e
meninas, muitos dos quais alcançaram destacadas posições na sociedade.
Em julho de 2023, sob a gestão do
prefeito Jorge Dantas, a escola passou por uma grande reforma, e agora conta
com seis salas de aula, uma secretaria, sala de recursos, almoxarifado,
cozinha, lavanderia, quatro banheiros, pátio aberto e pátio coberto.
Atualmente tem 190 alunos
matriculados, oriundos do próprio povoado de Lagoa de Pedra e de outras
localidades circunvizinhas: Entroncamento, Tupã, Quibanzê, Serrinha, Serraria e
Assentamento Marí.
O Corpo Funcional é composto ainda por Vivianne de Oliveira
Pinto (Coordenação); Silvaneide da Cruz Feitosa (Articulação) e as Assistentes
Administrativas Izadora Lisboa da Rocha e Izabela de Campos Alcântara.
Na Creche, a professora Gislane Silva
Pinto; no Pré-Escolar I, Zilvaneide Vieira da Silva; no Pré-Escolar II, Jéssica
Ferreira Lisboa.
No 1º Ano, Eliane Oliveira Pinto; 2º
Ano, Mayara de Alcântara; 3º Ano, Barbara Mariana de Alcântara; 4º Ano, Raquel
da Silva Sampaio; 5º Ano, Cléssia Souza da Cruz Rodrigues.
No EJA (Educação de Jovens e
Adultos), Solange Alves da Silva e Zilvaneide Vieira da Silva.
Completam
o Quadro os professores: Silvestre da Rocha Lyra e Wemerson Gouveia Oliveira; os
Cuidadores: André Rocha Sampaio, Gleize Cristina Souza Nunes, Hemylle Isabele
Alcântara, Joseilma de Oliveira, Renan Farias dos Santos; os agentes do PMAC[i]:
Delane Farias Santos Silva, Jaqueline Souza da Silva, Rejane Alcântara Lira
Santos e Willian Lisboa da Silva; as Auxiliares de Sala: Hannely Oliveira do
Nascimento, Ingrid Lisboa da Rocha e Samara Ferreira da Silva; os Vigias Lídio
Simões de Oliveira Filho, Renan Santos Oliveira e Gabriel da Rocha Amaral; as
Cozinheiras Rafaela Farias Santos e Lívia da Silva Oliveira; e os Auxiliares de
Serviços Gerais: Jandeccly Antônio Bezerra, Victor Manoel Costa Farias.
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| A Escola antes da reforma de 2023. Foto: arquivo da U. M. E. |
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| Placa alusiva à reforma empreendida em 2023. |
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O PATRONO
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| O Cônego Fernando Lyra. |
Fernando Alves da Rocha Lyra. Segundo Aldemar de Mendonça, nasceu
no povoado Lagoa de Pedra, município de Pão de Açúcar, onde ainda residem
muitos dos membros da família Lira.
Segundo muitas fontes, nasceu no dia
29 de maio de 1886[ii].
Segundo outras, teria nascido em 30 de maio.
Filho do casal Higino da Rocha Lyra e
Francisca Cavalcanti Alves, tinha como avós paternos: José da Rocha Lyra e Francisca
das Chagas de Jesus; e, maternos: Antônio Luiz Vieira Rego Alves e Genoveva
Cavalcanti.
Seu pai era “Solicitador” - profissional
do Direito que atuava como intermediário entre a parte (o cliente) e o tribunal
ou o advogado- atuando em Penedo, onde residia[iii],
e em outras comarcas do baixo São Francisco. Por vezes, atuava também como
advogado, embora não tivesse formação jurídica.
CARREIRA ECLESIÁSTICA
Em 1903, aos 17 anos, ele ingressou
no Seminário Diocesano de Maceió,[iv]
cumprindo plenamente os requisitos para o início da sua carreira. No dia 20 de novembro
de 1905, em solenidade realizada na Catedral Metropolitana de Maceió, recebeu a
prima tonsura[v],
executada pelo Bispo Diocesano Dom Antônio Brandão, tendo como diáconos
assistentes o Cônego Octávio Costa (pão-de-açucarense) e o presbítero Mons.
Silva Lessa. Foram diáconos da missa os presbíteros José Omena e José Pimentel,
que viriam a ser vigário e coadjutor da Paróquia de Pão de Açúcar,
respectivamente. O subdiácono recém-ordenado Achilles Mello (também pão-de-açucarense)
cantou a Epístola da missa.
No dia 8 de dezembro de 1909, em
missa celebrada às 9 horas da manhã, na Catedral Metropolitana, o Bispo Dom
Antônio Brandão conferiu a ordem de presbítero aos diáconos Antônio Tobias da
Costa e Fernando da Rocha Lyra[vi].[vii]
Assim, devidamente ordenado, o jovem
clérigo celebrou a primeira missa na igreja de Nossa Senhora do Livramento no
dia 10 daquele mês e ano.[viii]
Em junho de 1911, o bispo Dom Manoel Antônio de Oliveira
Lopes - que houvera tomado posse em 13 de março de 1911, sucedendo Dom Antônio
Brandão – o nomeou para dirigir a paróquia de Nossa Senhora Mãe do Povo, em Jaraguá.
Sucedia, assim, o seu conterrâneo Pe. José Soares Pinto, que ali pontificara
entre 1909 e 1910.[ix] Permaneceu
no cargo até 1935, quando foi sucedido pelo Pe. Antônio Monteiro.
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| O bispo Dom Manoel Lopes, que nomeou o Pe. Fernando Lyra para a paróquia de Jaraguá. |
Foi durante a sua passagem pela paróquia de Nossa Senhora Mãe
do Povo, que foi construída a nova matriz de Jaraguá, cujas obras atravessaram
anos e contou com a colaboração de diversos setores da sociedade. Registre-se
que, em maio de 1917, a pedido do Cônego, o governador Baptista Accioly mandou
pagar 4 contos de réis dos 8.500 que a matriz de Jaraguá tinha depositado no
Tesouro Estadual, prometendo pagar o resto em duas prestações nos meses de
junho e julho próximos.[x]
Mais tarde, em 1921, o Intendente de Maceió, Firmino de Vasconcellos, foi
autorizado por Lei a entregar 1 conto de réis ao Padre Fernando Lyra para
auxiliar nas obras da igreja de Jaraguá.[xi]
A nova Matriz se fez sobre a primeira capela, cuja construção
se iniciou no ano de 1820, em homenagem a Nossa Senhora Mãe do Povo e concluída
em 1º de agosto de 1827.[xii]
Por fim, no dia 29 de abril de 1923, foi solenemente
inaugurada a nova matriz de Jaraguá. O ponto culminante foi a missa solene,
iniciada às 9:30 h, celebrada pelo Cônego Antônio Tobias, com a participação do
Padre José Soares Pinto, ex-vigário daquela paróquia.
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| A velha Matriz de Jaraguá ao tempo do Côneto Lyra. Foto O Malho, 27.03.1915. |
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| A Matriz de N. S. Mãe do Povo nos dias atuais. |
____
Em agosto de 1918, foi ao Recife para receber o hábito da
Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo.[xiii]
No dia 24 de agosto de 1922, abençoou a jangada
Independência, pouco antes da partida para a épica jornada até o Rio de
Janeiro, como parte das solenidades de comemoração do centenário da
independência do Brasil.[xiv]
Em 1931, chefiou uma delegação de peregrinos alagoanos que, a
exemplo de tantas outra de todas as partes do país, foram ao Rio de Janeiro
para a inauguração do monumento ao Cristo Redentor, sendo recebidos, no dia 9
de outubro, pelo Sr. Getúlio Vargas, Presidente da República.[xv]
Em 1933, enquanto secretário do Arcebispado, era diretor do
jornal católico O SEMEADOR,[xvi]
que tinha como Redator-Chefe Emilio de Maya, e como Diretor-Gerente o Cônego
João Lessa.
Aliás, “O Semeador era um jornal de caráter católico e um
dos canais de propagação dos pensamentos da Liga Eleitoral Católica – LEC”[xvii],
uma organização de caráter conservador e que mantinha ligações com o
integralismo. O Cônego Lyra era, portanto, “lecista”: denominação dos adeptos
da referida Liga.
Em 1937, era Presidente de Honra do Grêmio Ronald de Carvalho, fundado em 1936 pelos alunos do Colégio Diocesano.[xviii]. Em 1938, foi nomeado Inspetor do Ensino Secundário no Estado de Alagoas.[xix]
Em 1945 o Cônego Lyra era capelão do colégio Arquidiocesano,[xx]
e, em 1947, por Ato de 21 de maio, o governador Silvestre Péricles o nomeou Capitão-Capelão
dos serviços religiosos da Polícia Militar do Estado de Alagoas.[xxi]
Cônego Fernando Alves da Rocha Lyra faleceu no dia 25 de
abril de 1961, depois de mais de 50 anos dedicados ao sacerdócio, sendo a maior
parte desse tempo à frente da Paróquia de Nossa Senhora Mãe do Povo, em
Jaraguá, onde se tornou uma das figuras mais influentes da sociedade alagoana
de sua época.
___
Além de dar nome à escola do povoado Lagoa de Pedra, ele
recebeu outra homenagem. No bairro do Trapiche da Barra, em Maceió, há uma rua
que leva o seu nome, por força da Lei Municipal nº 1.825, de 30 de junho de
1971, assinada pelo Prefeito João Sampaio. Essa rua é paralela à Avenida
Siqueira Campos, onde está localizado o Hospital Escola Hélvio Auto.
Com a designação de "Monsenhor Lyra", encontramos apenas uma menção, no jornal Gazeta de Alagoas, edição de 22 de setembro de 1950. Aliás, o termo monsenhor (do francês monseigneur, "meu senhor") é um título honorífico concedido pelo Papa a sacerdotes da Igreja Católica que se destacaram por serviços relevantes ou por sua dedicação à comunidade.
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NOTA
Caro
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Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de
informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita
pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência
bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse
para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior
proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a
citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
PMAC – Programa Municipal de Agentes da Cidadania. O programa tem o objetivo de
incentivar a participação social e o protagonismo juvenil ou comunitário. O
programa recruta moradores para atuar como agentes de transformação em suas
comunidades, recebendo em troca uma bolsa-auxílio.
[ii]
Gazeta de Alagoas, Maceió-AL, 29 de maio de 1934.
[iii]
Sua residência em Penedo foi onde nasceu o General Gabino Besouro. Fonte:
Diário do Povo, Maceió-AL, reproduzindo matéria de A Semana, jornal penedense,
de propriedade de Joaquim Mazoni.
[iv]
A Fé Cristã, Penedo-AL, 28 de novembro de 1903.
[v]
A “prima tonsura” era o rito litúrgico e a cerimônia inicial na
Igreja Católica que marcava o ingresso no estado clerical, onde o bispo cortava
simbolicamente uma parte do cabelo do ordinando, criando uma coroa.
Representava a renúncia às vaidades do mundo e a conformidade com Cristo. Em 15
de agosto de 1972, o Papa Paulo VI, através do documento Motu proprio
Ministeria quaedam, suprimiu a prima tonsura na Igreja de rito romano.
[vi]
Evolucionista, Maceió-AL, 20 de novembro de 1905.
[vii]
Jornal Gutenberg, Maceió-AL, 8 de dezembro de 1909.
[viii]
Jornal Gutenberg, Maceió-AL, 10 de dezembro de 1909.
[ix] Jornal
Gutenbert, Maceió-al, 7 de junho de 1911.
[x]
Jornal do Comércio, RJ, 24 de maio de 1917.
[xi]
Jornal do Recife, 9 de junho de 1921.
[xii]
A Paróquia de Jaraguá e suas matrizes culturais. Disponível em: PARÓQUIA MÃE DO
POVO.
[xiii]
DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 16 de agosto de 1918. A Ordem Terceira do Carmo
(OTC), formalmente conhecida como Ordem Secular Carmelitana da
Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, é uma associação de fiéis
leigos da Igreja Católica que buscam viver o carisma carmelita no cotidiano de
suas vidas seculares.
[xiv]
Jornal do Recife, 7 de setembro de 1922.
[xv]
A CRUZ, RJ, 18 de outubro de 1931.
[xvi]
Gazeta de Alagoas, Maceió-AL, 2 de março de 1935.
[xvii]
NERI, Gustavo Nunes Costa. A AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA EM TERRAS ALAGOANAS –
1930 1937, UFAL, 2014.
[xviii]
Gazeta de Alagoas, Maceió-AL, 9 de abril de 1937.
[xix] Diário
da Manhã, Recife-PE, 26 de fevereiro de 1938.
[xx]
A CRUZ, RJ, 18 de fevereiro de 1945.
[xxi]
Gazeta de Alagoas, Maceió-AL, 23 de maio de 1947.
sábado, março 21
CANGACEIROS EM LIMOEIRO
Por
Etevaldo Amorim
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| A Vila Limoeiro, em 1981. Foto: Érico Abreu. |
Não
consta que Lampião e seu bando tenham estado em Limoeiro. Nem mesmo Pão de
Açúcar, a sede do município, teve o desprazer de receber a visita do famigerado
bandoleiro.
Entretanto,
a pequena Vila não ficaria imune à presença de alguns dos seus asseclas, ainda
que não se tenha registro de atos de maior gravidade, como agressões e
atentados contra a vida de qualquer morador.
Há
relatos de que, em data imprecisa, alguns cangaceiros chegaram a Limoeiro. Um
deles teria se postado no final da Rua de Baixo, próximo à cancela da lagoa da
igreja. Em meio à tensão provocada pela indesejável presença, uma pessoa gritou:
-
Maria do Ouro!!!
O
nome do precioso metal chamou a atenção do bandido, que comentou com o
comparsa:
-
Essa mulher deve ser muito rica!! ...
Não
era. Dona Maria do Ouro possuía poucos bens, a exemplo da maioria dos que ali
viviam. “Maria do Ouro” era apenas um apelido dado, pelos motivos que ignoro, a
Maria Umbiliana Rocha Lisboa[i].
Essa
ocorrência seria, talvez, aquela a que se refere uma reportagem do jornal
Gazeta de Alagoas, de 26 de novembro de 1935. No dia 15 de novembro daquele ano,
uma sexta-feira, um grupo chefiado por Mariano visitou a Vila Limoeiro.
O
jornal dá essa notícia e publica uma carta recebida de uma moradora do local, datada
de 19, em que relata detalhes da abordagem de que foram vítimas alguns
habitantes da famosa Vila. Diz a missivista:
“Às 7
½ horas fui atacada por um grupo de bandidos composto de seis bandoleiros,
chefiados por Mariano.
Estando
eu na porta com mamãe, os vi entrarem no povoado já trazendo à frente
Inocêncio, e como este é Comissário, julguei que fossem soldados. Três apearam
e entraram em sua residência enquanto os outros vieram para nossa casa.
Felizmente, tive presença de espírito e, com toda calma, disse-lhes que não morava aqui. Estava apenas passando uma temporada e que não tinha dinheiro. Como eles insistissem, convidei-os a ir à minha mala e entreguei-lhes a minha bolsa e a de mamãe.
Em virtude de só encontrarem moedas de 1$000, 2$000 e níqueis, disseram que não servia. Queriam era dinheiro de papel. Felizmente se conformaram, levando apenas o que encontraram e mais um relógio que me tinha custado 70$000.
Achei-os sem tática e compreendi que estavam com medo porque pediam-me para falar baixo. Passaram seguramente, no povoado, umas duas horas.
Prenderam um homem aqui em casa para dar um conto de réis ou a vida. Felizmente, a pedido de Inocêncio, soltaram-no. Inocêncio ainda mandou buscar em Belo Monte 650$000, obrigado por eles. Só descansamos depois que tomaram uma canoa e seguiram para o Araticu (Sergipe) [ii].
Dentro
de duas horas chegou o Juca (é
irmão da missivista) com uma Força de Pão de Açúcar, que já não os
encontrou.
São
uns tipos feios, cabelos caídos nos ombros, imundos, cheios de enfeites e
ignorantes ao extremo. Parece que nunca tiveram convivência com gente nem mesmo
antes de entrarem no grupo.”
*** ***
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| Limoeiro, em 1981. Casa de Seu Juca. Foto: Érico Abreu. |
COMENTÁRIOS.
Infelizmente, não há indicação da autoria da
carta. Entretanto, como está dito que era irmã de “Juca”, pode-se depreender ao
menos de que família se trata.
Àquela época, só havia um "Juca" em Limoeiro. Embora não se saiba o seu nome verdadeiro, sendo Juca, era filho de Manoel Rodrigues Lima e Maria Vitória de Jesus (esta irmã da minha avó paterna Isabel da Rocha Amorim, a quem meu pai chamava “tia Doninha”).
Entre os filhos do casal Manoel e Maria Vitória, três mulheres: Alexandrina (Zinzinha), Noêmia e Maria José (Sinhá) - uma delas seria a autora da carta; e os homens Manoel, Jugurta, João, José e Eloy Rodrigues lima ("Juca" seria Manoel ou Jugurta).
Juca
foi casado com dona Conceição, distinta senhora, que eu ainda conheci
ministrando o catecismo para as crianças, na simpática igrejinha da Vila. Moravam
na casa de esquina da “rua do Meio”[iii]
com a descida para o porto de cima. Sou levado a crer que a autora da carta se
referia justamente a esta casa, de onde se avista a casa de “seu Inocêncio”, a
quinta a partir da esquina oposta.
Quanto
a Inocêncio, o “Comissário”, trata-se de do Sr. Inocêncio Soares Vieira[iv],
casado com Maria Otília dos Anjos (irmã de seu Ronalço dos Anjos), pais de
Maria dos Anjos e do Dr. Pedro Soares Vieira, competente advogado estabelecido
em Brasília e falecido em 2017.
___
O cangaceiro Mariano, cujo nome completo era Mariano Laurindo Granja, nasceu em Afogados da Ingazeira, Estado de Pernambuco no ano de 1898.
Antes
de completar um ano da sua passagem por Limoeiro, segundo Aldemar de Mendonça,
Mariano, juntamente com os comparsas “Pai Véio” e “Pavão”, foram mortos pela
volante chefiada pelo Tenente José Rufino, no lugar Cangaleixo, município de
Gararu, Estado de Sergipe, tendo os corpos sido sepultados no cemitério de Pão
de Açúcar, no dia 27 de outubro de 1936.
A
Gazeta de Alagoas diz que foram mortos Mariano, Pai Véio e Zeppelin. E que, por
ordem do Tenente Zé Rufino, as cabeças foram decepadas. Presume-se, portanto,
que só as cabeças teriam sido sepultadas no cemitério de Pão de Açúcar.
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NOTA
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informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita
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bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse
para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior
proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a
citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
Maria Umbiliana Rocha Lisboa (1895-1980), filha de João Manoel da Rocha e Ana
Rosa Rocha. Foi a segunda esposa do Sr. Felinto Aragão Lisboa, com quem teve os
filhos: Lauro, Lienarde e Leonor. Do primeiro casamento, com Leopoldina
Fernandes de Melo, seu Felinto teve os filhos Danúbio e Lindolfo Lisboa (padre,
natural de Limoeiro, falecido em 15 de setembro de 2024). Veja: https://blogdoetevaldo.blogspot.com/2024/11/personalidades-pao-de-acucarenses_30.html
[ii]
Araticu. Trata-se da Fazenda Araticum, de propriedade de membros da Família
Tavares, atualmente de herdeiros do Sr. Elpídio Emídio dos Santos.
[iii]
Rua do Meio, pois denominada Jayme Silva, por Decreto Legislativo de iniciativa
do vereador Cliuton Santos.
[iv]
Inocêncio Soares Vieira, filho de Pedro Soares Vieira e Maria Custódia Bezerra
Vieira.
A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR
PÃO DE AÇÚCAR
Marcus Vinícius*
Meu mundo bom
De mandacarus
E Xique-xiques;
Minha distante carícia
Onde o São Francisco
Provoca sempre
Uma mensagem de saudade.
Jaciobá,
De Manoel Rego, a exponência;
De Bráulio Cavalcante, o mártir;
De Nezinho (o Cego), a música.
Jaciobá,
Da poesia romântica
De Vinícius Ligianus;
Da parnasiana de Bem Gum.
Jaciobá,
Das regências dos maestros
Abílio e Nozinho.
Pão de Açúcar,
Vejo o exagero do violão
De Adail Simas;
Vejo acordes tão belos
De Paulo Alves e Zequinha.
O cavaquinho harmonioso
De João de Santa,
Que beleza!
O pandeiro inquieto
De Zé Negão
Naquele rítmo de extasiar;
Saudade infinita
De Agobar Feitosa
(não é bom lembrar...)
Pão de Açúcar
Dos emigrantes
Roberto Alvim,
Eraldo Lacet,
Zé Amaral...
Verdadeiros jaciobenses.
E mais:
As peixadas de Evenus Luz,
Aquele que tem a “estrela”
Sem conhecê-la.
Pão de Açúcar
Dos que saíram:
Zaluar Santana,
Américo Castro,
Darras Nóia,
Manoel Passinha.
Pão de Açúcar
Dos que ficaram:
Luizinho Machado
(a educação personificada)
E João Lisboa
(do Cristo Redentor)
A grandiosa jóia.
Pão de Açúcar,
Meu mundo distante
De Cáctus
E águas santas.
______________
Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)
(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937
(+) Maceió (AL), 07.05.1976
Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.
*****
PÃO DE AÇÚCAR
Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.
Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.
Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,
O pó que o vendaval deixou no chão cair.
Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste
O teu profundo sono num divino sorrir.
Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,
Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.
Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.
Teus jardins se parecem com vastos cemitérios
Por onde as brisas passam em brando sussurrar.
Aqui e ali tu tens um alto campanário,
Que dá maior relevo ao pálido cenário
Do teu calmo dormir em noite de luar.
____
Ben Gum, pseudônimo de José Mendes
Guimarães - Zequinha Guimarães.
PUBLICAÇÕES
Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia
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