Por
Etevaldo Amorim
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| A Vila Limoeiro, em 1981. Foto: Érico Abreu. |
Não
consta que Lampião e seu bando tenham estado em Limoeiro. Nem mesmo Pão de
Açúcar, a sede do município, teve o desprazer de receber a visita do famigerado
bandoleiro.
Entretanto,
a pequena Vila não ficaria imune à presença de alguns dos seus asseclas, ainda
que não se tenha registro de atos de maior gravidade, como agressões e
atentados contra a vida de qualquer morador.
Há
relatos de que, em data imprecisa, alguns cangaceiros chegaram a Limoeiro. Um
deles teria se postado no final da Rua de Baixo, próximo à cancela da lagoa da
igreja. Em meio à tensão provocada pela indesejável presença, uma pessoa gritou:
-
Maria do Ouro!!!
O
nome do precioso metal chamou a atenção do bandido, que comentou com o
comparsa:
-
Essa mulher deve ser muito rica!! ...
Não
era. Dona Maria do Ouro possuía poucos bens, a exemplo da maioria dos que ali
viviam. “Maria do Ouro” era apenas um apelido dado, pelos motivos que ignoro, a
Maria Umbiliana Rocha Lisboa[i].
Essa
ocorrência seria, talvez, aquela a que se refere uma reportagem do jornal
Gazeta de Alagoas, de 26 de novembro de 1935. No dia 15 de novembro daquele ano,
uma sexta-feira, um grupo chefiado por Mariano visitou a Vila Limoeiro.
O
jornal dá essa notícia e publica uma carta recebida de uma moradora do local, datada
de 19, em que relata detalhes da abordagem de que foram vítimas alguns
habitantes da famosa Vila. Diz a missivista:
“Às 7
½ horas fui atacada por um grupo de bandidos composto de seis bandoleiros,
chefiados por Mariano.
Estando
eu na porta com mamãe, os vi entrarem no povoado já trazendo à frente
Inocêncio, e como este é Comissário, julguei que fossem soldados. Três apearam
e entraram em sua residência enquanto os outros vieram para nossa casa.
Felizmente, tive presença de espírito e, com toda calma, disse-lhes que não morava aqui. Estava apenas passando uma temporada e que não tinha dinheiro. Como eles insistissem, convidei-os a ir à minha mala e entreguei-lhes a minha bolsa e a de mamãe.
Em virtude de só encontrarem moedas de 1$000, 2$000 e níqueis, disseram que não servia. Queriam era dinheiro de papel. Felizmente se conformaram, levando apenas o que encontraram e mais um relógio que me tinha custado 70$000.
Achei-os sem tática e compreendi que estavam com medo porque pediam-me para falar baixo. Passaram seguramente, no povoado, umas duas horas.
Prenderam um homem aqui em casa para dar um conto de réis ou a vida. Felizmente, a pedido de Inocêncio, soltaram-no. Inocêncio ainda mandou buscar em Belo Monte 650$000, obrigado por eles. Só descansamos depois que tomaram uma canoa e seguiram para o Araticu (Sergipe) [ii].
Dentro
de duas horas chegou o Juca (é
irmão da missivista) com uma Força de Pão de Açúcar, que já não os
encontrou.
São
uns tipos feios, cabelos caídos nos ombros, imundos, cheios de enfeites e
ignorantes ao extremo. Parece que nunca tiveram convivência com gente nem mesmo
antes de entrarem no grupo.”
*** ***
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| Limoeiro, em 1981. Casa de Seu Juca. Foto: Érico Abreu. |
COMENTÁRIOS.
Infelizmente, não há indicação da autoria da
carta. Entretanto, como está dito que era irmã de “Juca”, pode-se depreender ao
menos de que família se trata.
Àquela época, só havia um "Juca" em Limoeiro. Embora não se saiba o seu nome verdadeiro, sendo Juca, era filho de Manoel Rodrigues Lima e Maria Vitória de Jesus (esta irmã da minha avó paterna Isabel da Rocha Amorim, a quem meu pai chamava “tia Doninha”).
Entre os filhos do casal Manoel e Maria Vitória, três mulheres: Alexandrina (Zinzinha), Noêmia e Maria José (Sinhá) - uma delas seria a autora da carta; e os homens Manoel, Jugurta, João, José e Eloy Rodrigues lima ("Juca" seria Manoel ou Jugurta).
Juca
foi casado com dona Conceição, distinta senhora, que eu ainda conheci
ministrando o catecismo para as crianças, na simpática igrejinha da Vila. Moravam
na casa de esquina da “rua do Meio”[iii]
com a descida para o porto de cima. Sou levado a crer que a autora da carta se
referia justamente a esta casa, de onde se avista a casa de “seu Inocêncio”, a
quinta a partir da esquina oposta.
Quanto
a Inocêncio, o “Comissário”, trata-se de do Sr. Inocêncio Soares Vieira[iv],
casado com Maria Otília dos Anjos (irmã de seu Ronalço dos Anjos), pais de
Maria dos Anjos e do Dr. Pedro Soares Vieira, competente advogado estabelecido
em Brasília e falecido em 2017.
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O cangaceiro Mariano, cujo nome completo era Mariano Laurindo Granja, nasceu em Afogados da Ingazeira, Estado de Pernambuco no ano de 1898.
Antes
de completar um ano da sua passagem por Limoeiro, segundo Aldemar de Mendonça,
Mariano, juntamente com os comparsas “Pai Véio” e “Pavão”, foram mortos pela
volante chefiada pelo Tenente José Rufino, no lugar Cangaleixo, município de
Gararu, Estado de Sergipe, tendo os corpos sido sepultados no cemitério de Pão
de Açúcar, no dia 27 de outubro de 1936.
A
Gazeta de Alagoas diz que foram mortos Mariano, Pai Véio e Zeppelin. E que, por
ordem do Tenente Zé Rufino, as cabeças foram decepadas. Presume-se, portanto,
que só as cabeças teriam sido sepultadas no cemitério de Pão de Açúcar.
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NOTA
Caro
leitor,
Deste
Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de
informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita
pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência
bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse
para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior
proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a
citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
Maria Umbiliana Rocha Lisboa (1895-1980), filha de João Manoel da Rocha e Ana
Rosa Rocha. Foi a segunda esposa do Sr. Felinto Aragão Lisboa, com quem teve os
filhos: Lauro, Lienarde e Leonor. Do primeiro casamento, com Leopoldina
Fernandes de Melo, seu Felinto teve os filhos Danúbio e Lindolfo Lisboa (padre,
natural de Limoeiro, falecido em 15 de setembro de 2024). Veja: https://blogdoetevaldo.blogspot.com/2024/11/personalidades-pao-de-acucarenses_30.html
[ii]
Araticu. Trata-se da Fazenda Araticum, de propriedade de membros da Família
Tavares, atualmente de herdeiros do Sr. Elpídio Emídio dos Santos.
[iii]
Rua do Meio, pois denominada Jayme Silva, por Decreto Legislativo de iniciativa
do vereador Cliuton Santos.
[iv]
Inocêncio Soares Vieira, filho de Pedro Soares Vieira e Maria Custódia Bezerra
Vieira.



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