sábado, março 21

CANGACEIROS EM LIMOEIRO

 

Por Etevaldo Amorim


A Vila Limoeiro, em 1981. Foto: Érico Abreu.


Não consta que Lampião e seu bando tenham estado em Limoeiro. Nem mesmo Pão de Açúcar, a sede do município, teve o desprazer de receber a visita do famigerado bandoleiro.


Entretanto, a pequena Vila não ficaria imune à presença de alguns dos seus asseclas, ainda que não se tenha registro de atos de maior gravidade, como agressões e atentados contra a vida de qualquer morador.


Há relatos de que, em data imprecisa, alguns cangaceiros chegaram a Limoeiro. Um deles teria se postado no final da Rua de Baixo, próximo à cancela da lagoa da igreja. Em meio à tensão provocada pela indesejável presença, uma pessoa gritou:


- Maria do Ouro!!!  


O nome do precioso metal chamou a atenção do bandido, que comentou com o comparsa:


- Essa mulher deve ser muito rica!! ...


Não era. Dona Maria do Ouro possuía poucos bens, a exemplo da maioria dos que ali viviam. “Maria do Ouro” era apenas um apelido dado, pelos motivos que ignoro, a Maria Umbiliana Rocha Lisboa[i].


Essa ocorrência seria, talvez, aquela a que se refere uma reportagem do jornal Gazeta de Alagoas, de 26 de novembro de 1935. No dia 15 de novembro daquele ano, uma sexta-feira, um grupo chefiado por Mariano visitou a Vila Limoeiro.


O jornal dá essa notícia e publica uma carta recebida de uma moradora do local, datada de 19, em que relata detalhes da abordagem de que foram vítimas alguns habitantes da famosa Vila. Diz a missivista:

 

“Às 7 ½ horas fui atacada por um grupo de bandidos composto de seis bandoleiros, chefiados por Mariano.


Estando eu na porta com mamãe, os vi entrarem no povoado já trazendo à frente Inocêncio, e como este é Comissário, julguei que fossem soldados. Três apearam e entraram em sua residência enquanto os outros vieram para nossa casa.


Felizmente, tive presença de espírito e, com toda calma, disse-lhes que não morava aqui. Estava apenas passando uma temporada e que não tinha dinheiro. Como eles insistissem, convidei-os a ir à minha mala e entreguei-lhes a minha bolsa e a de mamãe.


Em virtude de só encontrarem moedas de 1$000, 2$000 e níqueis, disseram que não servia. Queriam era dinheiro de papel. Felizmente se conformaram, levando apenas o que encontraram e mais um relógio que me tinha custado 70$000.


Achei-os sem tática e compreendi que estavam com medo porque pediam-me para falar baixo. Passaram seguramente, no povoado, umas duas horas.


Prenderam um homem aqui em casa para dar um conto de réis ou a vida. Felizmente, a pedido de Inocêncio, soltaram-no. Inocêncio ainda mandou buscar em Belo Monte 650$000, obrigado por eles. Só descansamos depois que tomaram uma canoa e seguiram para o Araticu (Sergipe) [ii].


Dentro de duas horas chegou o Juca (é irmão da missivista) com uma Força de Pão de Açúcar, que já não os encontrou.


São uns tipos feios, cabelos caídos nos ombros, imundos, cheios de enfeites e ignorantes ao extremo. Parece que nunca tiveram convivência com gente nem mesmo antes de entrarem no grupo.”


***   ***


Limoeiro, em 1981. Casa de Seu Juca. Foto: Érico Abreu.


COMENTÁRIOS.


Infelizmente, não há indicação da autoria da carta. Entretanto, como está dito que era irmã de “Juca”, pode-se depreender ao menos de que família se trata.


Àquela época, só havia um "Juca" em Limoeiro. Embora não se saiba o seu nome verdadeiro, sendo Juca, era filho de Manoel Rodrigues Lima e Maria Vitória de Jesus (esta irmã da minha avó paterna Isabel da Rocha Amorim, a quem meu pai chamava “tia Doninha”).


Entre os filhos do casal Manoel e Maria Vitória, três mulheres: Alexandrina (Zinzinha), Noêmia e Maria José (Sinhá) - uma delas seria a autora da carta; e os homens Manoel, Jugurta, João, José e Eloy Rodrigues lima ("Juca" seria Manoel ou Jugurta).


Juca foi casado com dona Conceição, distinta senhora, que eu ainda conheci ministrando o catecismo para as crianças, na simpática igrejinha da Vila. Moravam na casa de esquina da “rua do Meio”[iii] com a descida para o porto de cima. Sou levado a crer que a autora da carta se referia justamente a esta casa, de onde se avista a casa de “seu Inocêncio”, a quinta a partir da esquina oposta.


Quanto a Inocêncio, o “Comissário”, trata-se de do Sr. Inocêncio Soares Vieira[iv], casado com Maria Otília dos Anjos (irmã de seu Ronalço dos Anjos), pais de Maria dos Anjos e do Dr. Pedro Soares Vieira, competente advogado estabelecido em Brasília e falecido em 2017.

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O cangaceiro Mariano, cujo nome completo era Mariano Laurindo Granja, nasceu em Afogados da Ingazeira, Estado de Pernambuco no ano de 1898.


Antes de completar um ano da sua passagem por Limoeiro, segundo Aldemar de Mendonça, Mariano, juntamente com os comparsas “Pai Véio” e “Pavão”, foram mortos pela volante chefiada pelo Tenente José Rufino, no lugar Cangaleixo, município de Gararu, Estado de Sergipe, tendo os corpos sido sepultados no cemitério de Pão de Açúcar, no dia 27 de outubro de 1936.


A Gazeta de Alagoas diz que foram mortos Mariano, Pai Véio e Zeppelin. E que, por ordem do Tenente Zé Rufino, as cabeças foram decepadas. Presume-se, portanto, que só as cabeças teriam sido sepultadas no cemitério de Pão de Açúcar.

 

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Legenda da foto: Lampião e seu bando na Fazenda Jaramataia, Canhoba-SE. Da esquerda pra a direita: De pé: Mariano; Ezequiel, vulgo“Ponto Fino”; Calais; Fortaleza; Mourão;  e Volta Seca. Sentados: Lampião; Virgínio, vulgo “Moderno”; Zé Baiano; e Arvoredo. 27/11/1929. Foto: Eronides de Carvalho. Fonte: Cangaço Eterno. Youtube.


 

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Maria Umbiliana Rocha Lisboa (1895-1980), filha de João Manoel da Rocha e Ana Rosa Rocha. Foi a segunda esposa do Sr. Felinto Aragão Lisboa, com quem teve os filhos: Lauro, Lienarde e Leonor. Do primeiro casamento, com Leopoldina Fernandes de Melo, seu Felinto teve os filhos Danúbio e Lindolfo Lisboa (padre, natural de Limoeiro, falecido em 15 de setembro de 2024). Veja: https://blogdoetevaldo.blogspot.com/2024/11/personalidades-pao-de-acucarenses_30.html

 

[ii] Araticu. Trata-se da Fazenda Araticum, de propriedade de membros da Família Tavares, atualmente de herdeiros do Sr. Elpídio Emídio dos Santos.

[iii] Rua do Meio, pois denominada Jayme Silva, por Decreto Legislativo de iniciativa do vereador Cliuton Santos.

[iv] Inocêncio Soares Vieira, filho de Pedro Soares Vieira e Maria Custódia Bezerra Vieira.

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia