sábado, fevereiro 14

A COOPERATIVA DE JACARÉ DOS HOMENS

 

Por Etevaldo Amorim


O antigo prédio da fábrica de Jacaré dos Homens.


Na década de 1940, especialmente durante o período do interventor federal Ismar de Goes Monteiro (19/02/1941 a 10/11/1945), o cooperativismo experimentou considerável avanço no Estado de Alagoas, sobretudo após a criação do Departamento de Assistência ao Cooperativismo[i].


Em 31 de dezembro de 1942, Alagoas possuía 21 cooperativas agrícolas. Até abril de 1943, o Departamento já havia posto em funcionamento 23 unidades.[ii] A de Jacaré dos Homens, progressista povoado de Pão de Açúcar, era uma dessas.


A Cooperativa de Laticínios de Jacaré dos Homens, fundada em 10 de fevereiro de 1942, contava com 39 sócios, ao passo que a da Sede (Cooperativa Agrícola de Pão de Açúcar), criada em 27 de agosto daquele ano, que começara com 71 sócios, alcançaria 102 em maio do ano seguinte.[iii] Isso mesmo! O povoado Jacaré saiu na frente da Sede do município na organização dos seus produtores.


Em maio daquele mesmo ano, os cooperados já estavam empenhados em montar uma fábrica de manteiga e queijos, tendo para tanto adquirido os equipamentos necessários. O custo da instalação foi estimado em 100:000$000, incluindo o prédio.[iv]


O motor-gerador, por exemplo, foi adquirido junto à empresa COBRAMA - Companhia Brasileira de Maquinaria, situada na Rua da Moeda, 129, no Recife. Outros itens, como a desnatadeira, foram adquiridos (incluindo a montagem) à empresa Fábio Bastos & Cia, dos irmãos Fábio e Francisco Garcia Bastos, com sede no Rio de Janeiro.[v]  (vide ANDRADE, José Clovis de. AS PALMAS FORRAGEIRAS EM ALAGOAS. Maceió, Grupo Tércio Wanderley, 1990).


No entanto, conforme Nadson Alexandre Vasconcelos Junior, em seu trabalho ORGANIZAÇÃO ESPACIAL DA BACIA LEITEIRA NO SEMIÁRIDO ALAGOANO, “a cooperativa inaugurou a sua fábrica no dia 15 de agosto de 1946, passando a produzir requeijão e manteiga, que já eram fabricados nas antigas instalações temporárias”.


Informa, ainda, esse estudo que o laticínio levou dois anos e meio para ser construído. Com a intermediação de alguns políticos da época, o empreendimento recebeu financiamento da Caixa de Crédito Agrícola de Alagoas[vi]. As instalações da fábrica de laticínio possuíam um prédio de ótimo acabamento, dispondo de amplas salas de recebimento de leite, de laboratório, de desnate e pasteurização, de fabricação de manteiga e de fabricação de requeijões; câmara frigorífica, etc... Só não havia sala de lavagem de vasilhame, nem embalagens de produtos. Como dependências secundárias, havia duas salas de máquinas – uma para a máquina frigorifica e outra para o motor a gás pobre”.  (ANDRADE, 1990, p. 120, 121).


O objetivo era “fornecer queijos dos tipos prato e reino e manteiga de superior qualidade para abastecimento de todo o Estado”, como afirmou o Diretor do Departamento de Assistência ao Cooperativismo, informando que a fábrica seria dotada de uma desnatadeira com capacidade para mil quilos horários, sendo que o fornecimento, pelos cooperados, estava em quatro mil litros de leite diários.[vii] Para a construção da barragem, do prédio, instalação elétrica e do maquinário, foram investidos mais de 300 mil cruzeiros[viii].


Segundo o médico jacareense Dr. José Ary Souto, a Cooperativa de Laticínios de Jacaré dos Homens “originou-se da coragem, da iniciativa e da grande visão de ilustres jacarezeiros” ... “homens inteligentes que, com firmeza e com influência política, naquela época, conseguiram verbas e os maquinários necessários para instalação da fábrica coletiva de laticínios”. 


Resgatando de sua própria memória, e com a ajuda dos conterrâneos Marluce Barbosa e Djaci, ele cita nomes de alguns desses homens audaciosos e corajosos: Antônio Vieira Filho, José Teófilo Silva, José Teófilo Filho, José Oscar Silva, José Rodrigues Souto, Antônio Rodrigues Souto, Fernando Rodrigues Souto, Ernesto Silva, Antônio Figueiredo, Antônio Vieira, José Vieira Dantas (José Barata), Manuel Vieira (Seu Maneco), Manuel Moreira (Lô Maria) Hostílio Cajé, José Alves de Freitas (Nô Freitas), Durval Neri Araújo, Luiz Neri Araújo (Lulu Neri), Antônio Bezerra Rosa (Seu Totonho), Pedro Abilio Madeiro (Paizinho Madeiro), Jeremias Barros, Elpídio Emídio dos Santos, Pedro Rosa Bezerra, Pedro Medeiros, Antônio Domingo de Melo (Mota), José Silva (pai), Manuel Ferreira Barbosa (Sinhozinho), Gervasio Barbosa, Antônio Bento de Melo (Cheiroso), Paizinho Severino, Pedro Menezes Lima (Pedrito)...


Segundo ele, alguns fatores contribuíram para concretizar este enorme feito: a melhoria do rebanho bovino pelo cruzamento com a raça holandesa; o plantio da palma forrageira (originária do México); e o complemento alimentar com farelo do caroço do algodão.


A propósito, o engenheiro agrônomo e geneticista Octávio Domingues, em artigo publicado no jornal pernambucano Diário da Manhã, edição de 16 de agosto de 1963, já prestava importante esclarecimento acerca da origem dessa cactácea tão conhecida de todos nós, e que serve como fonte vital de água e nutrientes para o gado em épocas de seca.


Referia-se, especificamente, à participação de Delmiro Gouveia na disseminação da palma forrageira e, principalmente, sobre a confusão que comumente se fazia, acreditando tratar-se da Opuntia ficus-indica (palma grande ou palma graúda).


Ele afirma que foi o Coronel Ulisses Luna quem informou a Delmiro sobre a existência, em sua propriedade (Fazenda Caiçara, município de Mata Grande), de uma certa planta: “uma cactácea, ainda sem utilização ali, à época”. Delmiro, por sua vez, já lera ou ouvira falar do Cacto Burbank (desenvolvido pelo horticultor Luther Burbank no final do século XIX), que acabou sendo importado pelo industrial pernambucano Arthur Lundgren[ix] e pela IFOCS - Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas.


Ele afirma, categoricamente, que “a palma forrageira largamente cultivada em Alagoas, é a Nopalea cochenillifera, trazida para o Brasil em tempos remotos para a criação de Cochonilha, fonte naquela época de certa substância corante”. Estava ali na fazenda do Cel. Ulisses como planta ornamental.


Foi nesse contexto de potencialidades internas e estímulos externos que floresceu a ideia da cooperativa, que viria a se tornar um marco no cooperativismo em Pão de Açúcar, assim como no Estado de Alagoas.


O jornal Gazeta de Alagoas, de 13 de fevereiro de 1942, traz uma excelente reportagem sobre a fundação da Cooperativa, a qual preferimos reproduzir na íntegra, até por considera-la um documento histórico:

 

Realizou-se, terça-feira última[x], no povoado Jacaré dos Homens, do município de Pão de Açúcar, a fundação da Cooperativa de Laticínios de Jacaré, com sede no povoado que lhe dá o nome e área de ação compreendendo os territórios do município acima mencionado e mais dos de Traipu e Santana do Ipanema.


A nova instituição cooperativista destina-se a promover a organização e o amparo da produção de leite e derivados de uma das zonas mais ricas e prósperas do sertão alagoano, servindo, ao mesmo tempo, aos produtores domiciliados em Batalha e noutros distritos pertencentes aos três municípios limítrofes, maiores produtores de leite.


O ato da inauguração da Cooperativa, que teve o comparecimento de altas autoridades estaduais e do representante da Agência do Serviço de Economia Rural, do Ministério da Agricultura, decorreu num ambiente de grande entusiasmo, constituindo, mesmo, um acontecimento da maior importância e grande repercussão para o futuro econômico da região a que a nova cooperativa irá servir.


A COMITIVA


O Dr. Barreto Falcão, Diretor do Departamento das Municipalidades


Convidado para presidir a Assembleia de instalação da Cooperativa, o Dr. Esperidião de Farias Junior[xi], Secretário da Fazenda e da Produção, dirigiu-se ao referido povoado, acompanhado de uma comitiva composta dos Drs. Barreto Falcão[xii], Diretor do Departamento das Municipalidades; Paulo Travassos Sarinho, Inspetor de Cooperativismo do Serviço de Economia Rural; Lauro Montenegro[xiii], Chefe da Seção do Fomento Agrícola Federal, e outros.


O Dr. Lauro Montenegro, Chefe da Seção do Fomento Agrícola


A CHEGADA EM BATALHA


Saindo desta Capital às 5 horas da manhã de anteontem, o Sr. Secretário da Fazenda e comitiva chegaram às 11 horas no povoado de Batalha, do município de Traipu, onde os aguardavam numerosos produtores de leite daquela região.


Nesse povoado, as referidas autoridades visitaram as fábricas locais de queijo e manteiga que abastecem a nossa Capital por intermédio de seus depósitos aqui instalados, tendo, ainda, oportunidade de observar as possibilidades econômicas do povoado e outros aspectos gerais dessa parte do município de Traipu.


Após receberem obséquio da família do Sr. José Arthur Souto[xiv], o Sr. Secretário e sua comitiva rumaram a Jacaré dos Homens, onde chegaram precisamente às 12:30h.


EM JACARÉ


Festivamente recebidos às portas do povoado Jacaré dos Homens, o Sr. Secretário hospedou-se na residência do Sr. Antônio Vieira Filho onde, momentos depois, foi servido um lauto almoço regional.


Ao fim do almoço, uma salva de foguetes anunciava a chegada do prefeito Augusto Machado, prefeito de Pão de Açúcar, acompanhado do juiz de direito do município, Dr. Dermeval Menezes; do professor Antônio Machado, tabelião público e outras pessoas.


Com a chegada do prefeito, foram realizadas as visitas da comitiva aos campos de criação e de pastagem, sendo admirados os belos tipos de vacas holandesas e mestiças, pelo cruzamento dessa raça com a zebu. Todos se mostraram bem impressionados com a seleção dos tipos de gado leiteiro, ali existentes.


Em seguida, os visitantes se dirigiram às pocilgas existentes no povoado, onde apreciaram os tipos de suínos, que se alimentam quase exclusivamente de soro de leite, no momento em número superior a duzentos. Dali seguiram aos campos de cultura da palma, que abrangem uma área de cerca de 3.000 tarefas. A palma e o caroço de algodão constituem a alimentação exclusiva do gado na zona sertaneja.


A FUNDAÇÃO DA COOPERATIVA


Após essas visitas, teve lugar a reunião de fundação da Cooperativa de Laticínios de Jacaré, sob a presidência do Sr. Secretário da Fazenda e da Produção, tomando parte da mesa os senhores Lauro Montenegro, Barreto Falcão, Paulo Travassos Sarinho[xv] e Messias de Gusmão, além do Sr. Augusto Machado, prefeito de Pão de Açúcar.


Iniciados os trabalhos, o Sr. Travassos Sarinho procedeu à leitura dos estatutos da nova Cooperativa, sendo os mesmos, depois de discutidos, aprovados por unanimidade.


Foi estabelecido o valor de 50$000 para as quotas-partes de capital, tendo sido apurada uma subscrição inicial, entre os fundadores, no total de 40:000$000, o que demonstra o entusiasmo dos sertanejos alagoanos pelos seus interesses econômicos e a compreensão do sistema cooperativista em função da organização da vida rural.


Feita a eleição dos primeiros conselhos de Administração e Fiscal da Cooperativa, ficaram assim constituídos:


O Sr. Antônio Vieira Filho, primeiro Presidente da Cooperativa


O Sr. José Oscar Silva, primeiro Diretor-Comercial da Cooperativa


Antônio Vieira Filho, Presidente; José Oscar Silva[xvi], Diretor-Comercial; Durval Nery de Araújo, Ernesto Silva[xvii], Pedro Abílio Madeiro[xviii], Antônio Rodrigues Souto e Manoel Moreira, Conselheiros. Para o Conselho Fiscal, foram eleitos, Membros Efetivos: Elpídio Emídio dos Santos, Jaime Silva[xix] e Antônio de Araújo Souto; e para Suplentes os Srs: Pedro Bezerra Rosa, Frutuoso Barbosa[xx] e Francisco Pádua Monteiro.


FALA O SECRETÁRIO DA FAZENDA


O Secretário da Fazenda Esperidião Lopes de Farias Junior, ao microfone, em evento de inauguração da 1ª Exposição Agropecuária de Alagoas, em 1944. Ao centro, Dom Ranulpho Farias, tendo a seu lado os interventores de Pernambuco (Agamenon Magalhães) e de Alagoas (Ismar de Goes Monteiro). Foto: portal História de Alagoas.


Terminados os trabalhos de constituição da Cooperativa, usou da palavra o Dr. Esperidião de Farias Junior, Secretário da Fazenda e da Produção, o qual, num feliz e oportuno improviso, transmitiu aos produtores do sertão a palavra de ordem e o pensamento do major Ismael de Goes Monteiro relativamente ao programa de recuperação econômica em que estão empenhados o governo e o povo alagoano.


O Secretário da Fazenda finalizou a sua oração salientando o clima de ordem, autoridade e respeito em que se processa o reajustamento econômico-social do Estado e felicitando os sertanejos daquela região pela ideia que tiveram, de constituírem a sua cooperativa para a defesa da produção local.


Franqueada a palavra aos presentes, falaram: o Sr. Antônio Machado em agradecimento ao Sr. Secretário da Fazenda e o Sr. José Arthur Souto, que focalizou a atuação benéfica e segura da Cooperativa dos Banguezeiros e Fornecedores de Cana de Alagoas a prol do movimento cooperativista que ela iniciou, felicitando, ainda, essa instituição nas pessoas dos Srs. Dr. Rui Palmeira, Pedro Rocha[xxi] e Messias de Gusmão[xxii], este último presente ao ato, sendo todos os oradores demoradamente aplaudidos.


O REGRESSO DA COMITIVA


Encerrados os trabalhos de fundação da Cooperativa de Laticínios de Jacaré, os visitantes regressaram a esta Capital.”

____ 


O Sr. Durval Nery de Araújo, membro da primeira Diretoria da Cooperativa


Sobre o evento, falou também o correspondente da Gazeta no município, o tabelião Antônio de Freitas Machado.


Em nota publicada no dia 21 de fevereiro de 1942, ele registrou que, durante o ato inaugural, também usou da palavra um jovem “jacarezeiro”, concitando seus conterrâneos ao trabalho cooperativista. Era o Sr. José Arthur Souto que, “embora vivendo em outro município, é um grande animador das coisas de Jacaré.”


Sobre a eleição do Sr. Antônio Vieira Filho, disse tratar-se de um “jacarezeiro de grande projeção no município, o maior criador de Jacaré, cujo gado é todo selecionado e tratado pelos métodos mais modernos”.


E concluiu: “O digno presidente da cooperativa de Jacaré é uma figura simpática de homem prático, em matéria de laticínios. E, por tudo isso, a escolha do seu honrado nome para a presidência cada vez mais estimula a confiança dos criadores para se inscreverem como sócios da novel cooperativa.”

 

O Sr. Elpídio Emídio dos Santos, membro da primeira Diretoria da Cooperativa.

................


A mesma GAZETA DE ALAGOAS, 15 de fevereiro de 1942, publicou uma matéria bastante elogiosa acerca da fundação da mais nova cooperativa do Estado de Alagoas, detalhando o contexto daquele acontecimento e ressaltando pontos apontados pelo Dr. José Ary.


Há, nesse pequeno lugarejo pertencente ao município de Pão de Açúcar, um grupo de homens trabalhadores e honestos que se dedicaram à criação de gado leiteiro. Mas o fizerem com a melhor das orientações, tendo-se em vista a escassez de elementos instrutivos, o isolamento do meio em que tiveram de agir e a sua carência de conhecimentos zootécnicos.


Achando-se numa região seca, procederam ao um vasto plantio de palma, e a palma com uma ração de 2 e meio quilos diários de caroço de algodão fazem o milagre de nos oferecer aos olhos umas reses nutridas e sadias, com uma produção abundante de leite.


Esses sertanejos atilados verificaram ainda que o cruzamento do holandês com o zebu originava um tipo de gado leiteiro perfeitamente apropriado à zona em que desenvolviam as suas atividades. A prática demonstrou o acerto dessa diretriz.


Observaram, igualmente, esses corajosos patrícios que as dificuldades de transporte para os principais centros comerciais do Estado estabeleciam, para o seu produto, uma situação de precariedade irremediável.


Pensaram, então, em instalar uma fábrica de manteiga e queijo no próprio local, para o aproveitamento racional e econômico do leite. Mas esse pensamento não veio contaminado de egoísmo. Não foram os dois ou três mais poderosos que quiseram explorar esse meio industrial. Resolveram todos, desde o mais humilde até o mais importante criador, se reunir numa cooperativa para esse fim.


E insistiram, daí por diante, junto às autoridades competentes pela concretização de seu ideal. Foram tenazes nesses apelos, porque aquelas autoridades, por motivos superiores, não puderam, a princípio, atender os seus desejos.


Os criadores de Jacaré dos Homens, porém, nessa expectativa, não conheceram o desânimo.


E foi por isso que, na última terça-feira, entraram por essa localidade o Secretário da Fazenda, Sr. Esperidião Farias; o Diretor do Departamento das Municipalidades, Sr. Barreto Falcão; e os Drs. Paulo Sarinho, do Ministério da Agricultura e Messias de Gusmão, para instalar a cooperativa em apreço.


Era preciso que se fosse testemunha do entusiasmo e da emoção dessa gente forte e ativa de Jacaré dos Homens, que subscreveu, em cinco minutos, ... 40:000$000 de capital destinado à sua cooperativa de laticínios, para se poder formar uma ideia verdadeira do êxito dessa patriótica iniciativa.


A Cooperativa foi registrada em 13 de julho de 1942, no Serviço de Economia Rural, órgão vinculado ao Ministério da Agricultura, em obediência ao Decreto-Lei nº 581, de 1º de agosto de 1938, que organizou o cooperativismo no país e estabeleceu a obrigatoriedade do registro para a validade dos estatutos e funcionamento das sociedades cooperativas naquela época. Posteriormente, em assembleia realizada em agosto de 1945, adaptou os seus estatutos ao Decreto- 5.893 de 19/10/1943, que “Dispõe sobre a organização, funcionamento e fiscalização das cooperativas.” (fonte: DOU, 14 de outubro de 1944.)

___


NOVA DIRETORIA


Na primeira semana de março de 1952, realizou-se uma Assembleia Geral Ordinária da Cooperativa, que contou com a presença do Dr. Roberto Bezerra de Menezes[xxiii], Diretor do Departamento de Assistência ao Cooperativismo e do Deputado Segismundo Andrade. Na pauta, a prestação de contas do exercício social e financeiro de 1951, bem como a eleição dos novos componentes dos Conselhos de Administração e Fiscal.


Com a presença de cerca de 50 associados, foi eleita a nova Direção: Presidente: Antônio Rodrigues Souto; Diretor Comercial: Pedro Menezes Lima[xxiv]; Diretor-Secretário: Pedro Madeiro; Diretores: Ernesto Silva, José Oscar Silva, Hostílio França Cajé e Antônio Bezerra Rosa. CONSELHO FISCAL: Titulares: Manoel Ferreira Barbosa, Pedro Medeiros e Antônio Figueiredo. Suplentes: Francisco Alves Neto, Francisco Nery de Araújo e Fernando Souto.


Antes de encerrar a Sessão, usou da palavra o Deputado Segismundo Andrade, o qual proferiu belíssima oração, conclamando a todos os sócios da Cooperativa de Laticínios de Jacaré dos Homens a trabalhares com entusiasmo pelo maior desenvolvimento daquela entidade. (GAZETA DE ALAGOAS, 13 de março de 1952)


____ 


Em maio daquele mesmo ano, iniciou-se um plano de reorganização das instalações da Cooperativa de Jacaré dos Homens, particularmente pelo encontro do Govenador Arnon de Mello com o Dr. José de Assis Ribeiro, veterinário do Departamento Nacional de Produção Animal e professor da Universidade de São Paulo, especialista em laticínios. (Diário de Pernambuco, 11 de maio de 1952)


Após a viagem empreendida à região da Bacia Leiteira de Alagoas, o professor Assis Ribeiro identificou a existência de ótimo plantel de mestiço holandês, contando mais de 2 mil vacas, distribuídas em 90 propriedades agrícolas, aproximadamente. Exploradas em regime extensivo, alimentadas à base de palma e ordenhadas duas vezes ao dia, elas apresentavam uma média de produção diária ia de 7 a 10 litros, na maioria das fazendas.


Notou também um baixo índice de mortalidade de bezerros (menos de 2%), diminuta existência de carrapatos e bernes e, principalmente, higiene no trato na manutenção do gado. Para tanto, contavam a maioria dos fazendeiros de estábulo rústico bem construído.


Considerando ser aquela a maior fábrica de laticínios do Nordeste, o professor registrou que, tendo a produção de leite triplicado desde a inauguração da usina em 1946, tornava-se necessária a ampliação.

___


Em 1953, iniciou-se um processo de ampliação da fábrica. Em agosto daquele ano, o Ministro da Agricultura, João Cleofas, autorizou a abertura de Concorrência para aquisição de 2 tanques de aço inoxidável com capacidade de 1.000 litros; 2 esterilizadores duplos para limpeza de vasilhame com jato de água e vapor; instalação frigorífica; materiais para exame de leite, manteiga e queijo; desnatadeira elétrica para 2.000 litros/hora; além de outros aparelhos, incluindo maquinária para a fabricação de queimo parmesão. Tudo estimado em 500 mil cruzeiros. (Diário de Pernambuco, 25 de agosto de 1953)


Em dezembro, face a ausência de concorrentes habilitados nos termos do Edital, o presidente da República, Getúlio Vargas, autorizou o Ministério da Agricultura a executar a compra direta dos equipamentos. (A Noite, RJ, 8 de dezembro de 1953).

____ 


Em 1966, novamente se estabelecem estudos para a recuperação da fábrica da Cooperativa, visando acelerar o processo de industrialização do leite, desta feita por meio do Engenheiro Marcos Pontes, um alagoano formado em Belo Horizonte. (Diário de Pernambuco, 7 de agosto de 1966)

___

 

O DECLÍNIO


Outros podem ter sido os motivos que levaram à cooperativa a encerrar suas atividades. Um deles, porém, pode ter sido o principal.


No ano de 1951, a Cooperativa, que possuía 81 cooperados responsáveis por uma produção diária que ultrapassava 12 mil litros de leite. A fábrica, porém, apresentava uma capacidade de processamento de apenas 4 mil litros da matéria-prima, tornando os membros associados dependentes de outras empresas e fabriquetas no escoamento da produção.


Problemas associados à infraestrutura e às instalações são apontados por Andrade (1990) como entraves que levaram, posteriormente, à desativação da fábrica.[xxv]

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Lá pelos anos finais da década de 1960, a Cooperativa operava oferecendo crédito a agricultores da região, mediante a autorização nº 1.208/1966, do Ministério da Agricultura. Mas, no início de 1970, a mesma foi cancelada. (Fonte: Diário Oficial da União, de 05/02/1970.

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Cooperativa de Laticínios de Jacaré dos Homens foi um marco no setor leiteiro e no movimento cooperativista em Alagoas, cumprindo papel fundamental e de incontestável valor histórico.


Atualmente, a organização dos produtores no município ocorre principalmente por meio de associações e parcerias com cooperativas maiores, como a CPLA (Cooperativa de Produção Leiteira de Alagoas).

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NOTA:


Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Criado pelo Decreto nº 2.417/1939, à época do interventor Osman Loureiro.

[ii] Gazeta de Alagoas, 7 de abril de 1943.

[iii] Gazeta de Alagoas, 12 de maio de 1943.

[iv] Diário de Pernambuco, 1º de maio de 1942.

[v] A Fábio Bastos & Cia foi importante empresa brasileira fundada originalmente no Rio de Janeiro em 1929. Em 1943, passou a se denominar Cia Fábio Bastos, Comércio e Indústria. Fábio Garcia Bastos e Francisco Garcia Bastos, filhos do Cel. Nicolau Bastos Filho e Belarmina Henriques Garcia.

[vi] Criada pelo Decreto-Lei Estadual nº 2.772, de 14 de agosto de 1942, na interventoria de Ismar de Goes Monteiro.

[vii] Diário de Notícias, RJ. 19 de fevereiro de 1942.

[viii] Ilustração Brasileira, Ano XXII, Número 113, setembro de 1944. A moeda brasileira deixou de ser o mil-réis para se denominar Cruzeiro.  A mudança foi instituída pelo presidente Getúlio Vargas através do Decreto-Lei nº 4.791, de 5 de outubro de 1942, entrando em vigor oficialmente em 1º de novembro de 1942.

[ix] Arthur Herman Lundgren, do Grupo ALTESA – Arthur Lundgren Tecidos S/A, fundador das Casas Pernambucanas.

[x] 10 de fevereiro de 1942.

[xi] Esperidião Lopes de Farias Junior. Engenheiro Agrônomo e agropecuarista. Nasceu em São Luiz do Quitunde, Estado de Alagoas, em 28 de setembro de 1899 e faleceu em Maceió 28 de setembro de 1987. Filho de Esperidião Lopes de Farias e Cândida Carolina Lamenha Lins.

[xii] Pedro Barreto Falcão. Jornalista e estatístico, nasceu em Viçosa – AL, em 14/05/1902 e faleceu em Maceió - AL em 05/09/1945. Filho de Francisco Barreto Falcão e Orminda César Falcão. Jornalista, estatístico.

[xiii] Lauro Bezerra Montenegro. Nasceu em Guarabira – PB em 28/02/1896 e faleceu no Rio de Janeiro - DF 22/04/1950). Deputado federal, engenheiro-agrônomo. Filho de José Vicente Montenegro e Maria Bezerra Montenegro.

[xiv] José Arthur Souto. Filho de Pedro Lobão Souto (proprietário e comerciante em Batalha) e Maria da Glória Souto. Residia em São Luiz do Quitunde, onde era proprietário.

[xv] Paulo Travassos Sarinho. Contabilista. Nasceu em 13 de outubro de 1903 em Timbaúba-PE e faleceu 29 de janeiro de 1982 em Olinda, Pernambuco. Filho de Manoel Travassos Sarinho Sobrinho e Maria Febrônia de Araújo Sarinho. Casado com Maria do Carmo Travassos Sarinho.

[xvi] José Oscar Silva. Filho de José Teófilo Silva e Cândida Andrade Silva. Nasceu em Pão de Açúcar, em 19 de setembro de 1910 e Faleceu em Maceió em 2 de setembro de 1985.

[xvii] Ernesto Silva. Filho de José Pedro da Silva e Maria Alexandrina Souto. Casado com Lavínia Dantas Silva.

[xviii] Pedro Abílio Madeiro. Nasceu em Cana Brava (atual Taquarana-AL), em 17 de abril de 1903 e faleceu em Jacaré dos Homens em 5 de março de 1963. Filho de Manoel Pedro da Silva Madeiro e Maria Cândida Madeiro.

[xix][xix] Jaime Emiliano Silva (1896-1953). Filho de José Pedro da Silva e Maria Alexandrina Souto. Casado com Maria José Feitosa. (pai de Neiwton, Ib, Jaime, Nicodemos (Dema), Djalma, Washington, Ivanir)

[xx] Seria Frutuoso Ferreira Barbosa (seria o pai de Zé de Frutuoso?)

[xxi] Pedro Rocha Cavalcanti (1891-1961). Filho do Major Pedro da Rocha Cavalcanti e de Maria Alexandrina Bezerra Cansanção. Casado com Edith Pavié Gonçalves.

[xxii] Manoel Messias Cavalcanti de Gusmão. Engenheiro -Arquiteto. Nasceu no Rio de Janeiro em 1911. Filho de Antônio Cavalcanti de Gusmão e Emília Vieira Gusmão. Foi casado com Heloisa Albuquerque Sarmento.

[xxiii] Roberto Bezerra de Menezes. Engenheiro Agrônomo. Filho de Álvaro Bezerra de Menezes e Consuelo Queixada Bezerra. Nasceu em Fortaleza-CE, em 1916 e lá faleceu em 4 de agosto de 1997.

[xxiv] PEDRO MENEZES LIMA- diretor comercial da nova diretoria 1952. Nasceu em 26 de maio de 1921, em Petrolândia, Pernambuco. Faleceu em Jacaré dos Homens, Alagoas, em 22 de julho de 2011. Filho de Manoel Gomes Correia Lima e Maria Aureliana de Menezes Lima.

[xxv] SILVA, José Natan Gonçalves da. TERRITÓRIOS QUEIJEIROS: Tradição e Ressignificação no Sistema Agroalimentar Localizado do Leite em Alagoas. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA. São Cristóvão, fevereiro de 2021. Disponível em:

<https://ri.ufs.br/bitstream/riufs/14944/5/JOSE_NATAN_GONCALVES_SILVA.pdf> Acesso em fev 2026.

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia