sábado, março 14

TRAGÉDIA EM LIMOEIRO – 90 ANOS

 

Por Etevaldo Amorim


Mário Soares Vieira

Era sábado, 25 de janeiro de 1936; véspera da festa de Jesus, Maria e José, padroeiros da Vila Limoeiro. Tradicionalmente celebrada na última semana do primeiro mês do ano, era e continua sendo ensejadora de grandes alegrias, particularmente pelo encontro com os limoeirenses que vivem fora. 


As ruas cheias de gente, crianças brincando no “cúrri” ou na “onda[i]; as bancas de jogos, os leilões na calçada da igreja; a banda de pífanos e as orquestras vindas de Pão de Açúcar ou de Traipu; o pastoril, com seus cordões “azul” e “encarnado”, e a “Diana” neutra, imparcial, como ela própria se declara: “Sou a Diana, não tenho partido / O meu partido são os dois cordões."


Era esse o ambiente naquele dia. Mas, eis que se dirige a Limoeiro o cabo Vicente Honório, da Força Policial do Estado, comandante do destacamento de Belo Monte. Ao chegar, entrega suas armas e as dos soldados que o acompanhavam a um outro cabo, que já se encontrava ali, mobilizado no combate ao banditismo.


Verificando que havia uma dança familiar, o cabo Honório para lá se dirige com o firme propósito de dançar, mas não consegue um convite. Era uma casa na chamada “Rua de Baixo”, onde seria, muitos anos depois, a residência de seu Agnelo e dona Cecília.


A casa onde se realizava a "dança familiar". Foto: Érico Abreu, 1981.


Contrariado em suas pretensões, vai até a casa do Sr. Inocêncio Soares Vieira, que exercia o cargo de subdelegado, em cuja calçada se encontravam - além do próprio Sr. Inocêncio - o cabo comandante da força em combate ao cangaceirismo e o Sr. Mário Soares Vieira, que há poucos minutos havia chegado de uma viagem ao povoado São José da Tapera.

Mostrando-se extremamente irritado e já meio embriagado, o cabo Honório começou a proferir palavras injuriosas contra as famílias e a sociedade de Limoeiro. Seu Inocêncio tentou aconselhá-lo, pedindo-lhe que esquecesse o ocorrido. Mas, ainda assim, a despeito das repetidas solicitações, o cabo Honório não se conformou. O Sr. Mário também o adverte, lembrando-o que “sendo ele um militar, devia respeitar a população.”

Foi então que, dizendo que ia regressar para Belo Monte, pede as armas ao seu colega, comandante da Volante. Achando-se armado, e sem levar em conta a aglomeração, o cabo Honório saca o fuzil e desfecha vários tiros. Uma bala atinge o braço esquerdo do Sr. Mário Vieira e o crânio de um menino de 13 anos, Jonas, filho do Sr. João Amorim, que morreu instantaneamente. Em seguida, ouvem-se outras detonações, sendo que uma delas atingiu o nariz do Sr. Mário Vieira.

Segundo a reportagem da Gazeta de Alagoas, de 31 de janeiro de 1936, duas outras pessoas foram atingidas pelos disparos, com alguma gravidade. Uma delas, um rapaz, levado também para Penedo, teve parte do braço amputado, passando a ser conhecido, em razão disso, pelo apelido de “Zé Bracinho”.

Quanto ao Sr. Mário, segundo Aldemar de Mendonça, foi levado inicialmente para Pão de Açúcar. Faltando ali os recursos médicos necessários, o prefeito José Alves Feitosa[ii], seu cunhado, o levou para Penedo, onde chegaram no dia 27, segunda-feira.

Na Santa Casa de Misericórdia, naquele mesmo dia, à tarde, procederam à amputação do seu braço esquerdo, que se achava gangrenado. Entretanto, às 21 horas, veio a falecer, não obstante os esforços empregados pelos doutores Amphrisio Ribeiro[iii], Oceano Carleial[iv] e o farmacêutico João Ramalho[v].

O sepultamento do Sr. Mário Soares Vieira realizou-se no dia 28, às 8 horas, em Penedo, “com grande acompanhamento de pessoas de sua amizade, porque ele era bastante relacionado”, conclui a reportagem.


***   ***

Mário Soares Vieira contava 33 anos de idade. De família grandemente conceituada, era filho do Capitão Pedro Soares Vieira e de dona Maria Custódia Bezerra Vieira. Tinha os irmãos: o padre Fernando Vieira (então vigário de Piaçacuçu e depois de Delmiro Gouveia); Inocêncio, Afonso, Alberto, Virgílio (pai de “seu Pedrito”) e Otávio (primeiro esposo de “dona Sinharinha Tavares”.

Era casado com Maria Feitosa Vieira, irmã do Sr. José Alves Feitosa. Desse consócio, deixou uma filhinha de 9 anos[vi].

Após a Revolução de 30, de 13 de abril de 1931 a 9 de junho de 1932, ocupou o cargo de Prefeito de Pão de Açúcar, onde era comerciante. Em 1935, chegou a ser nomeado Adjunto de Promotor Público na Comarca de Pão de Açúcar. Entretanto, em Ato seguinte, o governador Osman Loureiro tornou sem efeito a nomeação e o substituiu pelo Sr. Domingos Soares Pinto.[vii]

Fazia parte do Diretório do Partido Progressista de Alagoas[viii] e, em 1935, foi candidato à Câmara Municipal, não logrando ser eleito[ix].

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Quanto a Jonas, permita-me dar um tom pessoal a esta narrativa. O menino de 13 anos, ferido mortalmente, era filho de meu avô paterno, João Tavares Amorim.

Meu saudoso pai evitava falar desse episódio, porque se emocionava. Contou-me ele que seu pai, mesmo abatido pela perda do filho naquelas circunstâncias, foi, dois dias depois para a ilha, cuidar do sítio e lá encontrou pegadas do menino, com quem estivera no dia anterior ao triste acontecimento. Apanhou, então, alguns cacos de telha que havia perto, e com eles cobriu as marcas dos pés de Jonas, em tentativa desesperada de manter viva aquela lembrança dele. E, sempre que lá voltava, levantava os pedaços de telha para contemplar, chorando, os moldes de areia.

Com o tempo, aquelas marcas desapareceram. Ficaram, entretanto, as lembranças daquele episódio triste e revoltante. Enlutadas se acham, ainda hoje, as famílias de Mário e de Jonas.

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Voltemos ao Cabo.

Após o ato tresloucado e assassino, o cabo Honório saiu correndo em direção a Belo Monte, mas perseguido pelo comandante da Volante.  Ali chegando, foi detido, não se sabendo ao certo se pelo seu colega que o perseguia, ou pelo subdelegado dali, e levado imediatamente para a cadeia de Pão de Açúcar.

No dia 16 de fevereiro de 1936, domingo, um grupo de seis homens armados invade a cadeia pública de Pão de Açúcar, onde se achava preso o Cabo Vicente Honório, aguardando julgamento. O único soldado que a guarnecia, José Manoel da Costa, vulgo “Baraúna”, ainda ofereceu resistência, mas os invasores estavam em maior número e determinados a dar cabo da vida do criminoso.

Sobre esse episódio, Aldemar de Mendonça diz, em seu Pão de Açúcar, História e Efemérides: “A parte cômica, em toda a tragédia, é que, no momento em que a população se alarmava, supondo tratar-se de um ataque feito pelo grupo de Lampião, o subdelegado de Polícia, João Bahia, procura tranquilizar o povo dizendo: ‘Não é nada, minha gente, é que estão matando o Cabo na cadeia.’”

Coube ao suplente de delegado, em exercício, Sr. Severiano Almeida Fontes, enviar telegrama ao Governador do Estado, relatando todo o ocorrido. Osman Loureiro e Ernani Basto, Chefe de Polícia[x], encaminharam uma tropa, sob o comando do Aspirante Antônio Ferreira de Oliveira - nomeado delegado de Pão de Açúcar - com ordens especiais e reservadas para agir em torno da grave ocorrência.[xi]

Episódios como este mostram o quanto havia de semelhança entre as atitudes dos cangaceiros e as forças volantes; enquanto as populações assistiam, impotentes, àquele estado de coisas.

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Nota 1

 

Em que pese a reportagem indicar a calçada da casa de seu Inocêncio como sendo o local do assassinato de Mário e Jonas, lembro-me de ter ouvido de pessoas mais velhas o seguinte: quanto ao Jonas, ele estava na calçada de uma casa próxima, daquele mesmo lado. Já seu Mário, estaria defronte a uma casa no lado oposto da rua, junto à igreja. Nesse local, lá pelos finais da década de 1970, ainda se podia ver marcas das balas no portal da casa. (veja foto da Rua Mário Vieira)

Casa de Seu Inocêncio e dona Otília. Foto: Érico Abreu, 1981.

Casa onde teria sido atingido o Sr. Mário Vieira. Foto: Érico Abreu, 1981.

As imagens de Limoeiro são fotogramas do filme ALECRIM, POVO MARGINALIZADO, de Érico Melo Abreu, 1981.


Nota 2

 

O Sr. Mário Vieira[xii] deixou ainda outro filho (de relacionamento), Juarez Feitosa Vieira, que por muitos anos residiu em Delmiro Gouveia, junto ao seu tio padre.

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NOTA 3

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 

 



[i] Cúrri. Era um carrossel rústico, muitas vezes movido manualmente ou por tração animal. O nome deriva da velocidade (do verbo "correr"), pois as crianças se sentavam em assentos simples que giravam em torno de um eixo central.

Onda. Era um tipo de carrossel que, além de girar, possuía um movimento oscilatório (subindo e descendo), simulando o movimento de uma onda no mar.

[ii] Exerceu o cargo de prefeito de 6 de janeiro de 1936 a 27/12/1937.

[iii] Dr. Amprhisio Freire Ribeiro. Filho de Manoel Pereira Ribeiro e de Maria Esmeraldina da Glória Fereire, nasceu em Penedo-AL, em 19 de junho de 1894. Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1915. Casou-se no Rio de Janeiro em 1922 com Noélia Tavares Lessa (filha de João Ferreira Tavares Lessa e Maria Eleutéria Tavares Lessa. Faleceu em Salvador – Ba em 11 de julho de 1957.

[iv] Dr. Oceano Carleial. Nasceu em Barbalha-CE em 7 de março de 1906. Filho de José Bernardino Carvalho Leite e Antônia Alves de Carvalho Leite. Deputado Federal, jornalista e médico, formado pela Faculdade de Medicina da Bahia. Faleceu em sua terra natal em 2 de novembro de 1990. Foi Deputado Federal por Alagoas, pela UDN, nas legislaturas 1955-59, 59-63, 63-67, 67-71 e 71-75.

[v] Farmacêutico João Ramalho. Filho do Dr. Frederico Ramalho de Oliveira e Joana Maria de Menezes. Era casado com Lídia Besouchet Braga, filha Manoel Marques Braga e Lídia Besouchet. Nasceu em Brejo Grande-SE, em 28 de abril de 1891. Faleceu em Penedo-AL, em 24 de outubro de 1962.

[vi] Trata-se de Maria Feitosa Vieira, formada em Farmácia pela Faculdade de Medicina da Bahia, que se casaria com o médico e deputado José Marques da Silva, assassinado em Arapiraca, em 7 de fevereiro de 1957.

[vii] Gazeta de Alagoas, 9 e 30 de agosto de 1935.

[viii] Compunham com ele o Diretório: Pe. José Soares Pinto, Antônio de Freitas Machado, Manoel Pastor da Veiga, Manoel Rego, Durval Nery de Araújo, Francisco Soares Pinto, Inocêncio Soares Vieira e João José de Freitas.

[ix] Pelo seu partido, o PPA, foram eleitos: Pe. José Soares Pinto, Álvaro Pereira Simas (pai de Adail Simas), Manoel Rego e Durval Nery de Araújo. O Sr. José Alves Feitosa, seu cunhado, foi eleito prefeito pela União Reivindicadora de Pão de Açúcar, partido local, dirigido pelo Sr. Augusto de Freitas Machado, que foi eleito presidente da Câmara.

[x] Ernani Teixeira Basto. Chefe de Polícia. Filho de Francisco Teixeira Basto e Ida Edelvina Campos Velloso. Casado em 8 de dezembro de 1923, com Moema Gonçalves Cavalcante.

[xi] Fonte: Gazeta de Alagoas, 19 de fevereiro de 1936.

[xii] Filho de Jorcelina Feitosa. Casado com Maria Rosália Vilar de Carvalho. Faleceu em 2008.

8 comentários:

  1. Excelente matéria pela clareza e cronologia dos fatos!

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  2. Parabéns Etevaldo, parabéns.

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  3. Conheci o currí no povoado Piranhas município de Traipu-Al,onde pessoas empurravam amolado enquanto outros sentados em cadeiras duplas gostavam da diversão,e com um sanfoneiro tocando para animar. Já a onda congeci em Traipu,ou seja eu era muito novo e muito nhá lembrança é vaga mas parecia ser duas plataformas redondas onde se sentava na mais alta e colocava os pés na mais baixa, enquanto pessoas giravam empurrando ao lado.Mas foi a única vez que vi.Diziam ser perigoso porque machucava os pés das pessoas que andavam.Um brinquedo de risco.enquanto o currí era mais seguro.

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  4. Execelente matéria 👏🏽👏🏽

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  5. Marcelo Maciel14 março, 2026 14:22

    Excelente fonte primária, com ricas informações do maior acontecimento do século XX, ocorrido na histórica vila Limoeiro ,interior de Pão de açúcar, envolvendo a vida de um dos filhos mais ilustres da vila - Mário Soares Vieira (1903 - 1936)

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  6. Amo ler suas "Pesquisas", Histórias!!👏👏👏👏

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  7. Infelizmente, esse lamentável episódio reforça a constante necessidade de selecionar e controlar, com o máximo cuidado e rigor, os profissionais autorizados por lei a portarem armas de fogo

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia