sábado, agosto 4

CORTAR O TEMPO

                                                          Carlos Drumond de Andrade

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui prá diante vai ser diferente.

sábado, junho 2

MANOELITO BEZERRA LIMA, O POETA DO VIOLÃO


Por Etevaldo Amorim


            Numa terra de músicos, em que muitas gerações foram formadas e fizeram a fama dessa cidade do sertão alagoano, ribeirinha do São Francisco, surgiu um que era dotado de extraordinário talento e portador de uma limitação que não o impediu, no entanto, de se tornar o mais conhecido de todos.
Manoel Bezerra Lima nasceu em Pão de Açúcar, Estado de Alagoas, no dia 8 de julho de 1883, na casa de número 173 da Rua Antônio Machado Guimarães (antiga Duque de Caxias). O filho de D. Rosenda e de "seu’ Joaquim Alves Bezerra Lima perdeu a visão logo nos primeiros meses de vida e cresceu sendo tratado por “Ceguinho de Joaquim Bezerra” ou “Nezinho Cego”. Segundo descrição de Adherbal de Arecipo, Manoelito, como também era chamado, “tinha baixa estatura, era magro e gozava de boa saúde. Seus olhos — pode-se dizer, não apareciam: eram vazados, formando uma espécie de vácuo”. Talvez para compensar a visão que lhe faltava, a sua percepção auditiva se desenvolveu enormemente. No estudo da música, isso o favoreceu sobremaneira.
Conta-se que, certa noite, estando ele em companhia de um grupo de amigos, na tranquila cidadezinha sertaneja, ouviram o som característico de carros de boi, que desciam a ladeira em demanda ao Campo Grande, costumeiro lugar de pouso dessas caravanas que transportavam as mercadorias para embarque nas canoas. Os amigos o desafiaram:
— Você não tem o ouvido bom, Ceguinho??!!! Pois diga quantos carros estão vindo...
Nezinho apurou o ouvido por alguns poucos minutos, o suficiente para distinguir o som que cada carro emitia pelo roçar dos eixos nos cocões, e respondeu taxativo:
— Seis.
Foram todos para o local e, contanto os carros, constataram que eram cinco. E, então, gritaram todos:
— Errou, Ceguinho!!!! Você disse que eram seis.....
            Foi então que um dos carreiros apressou-se em explicar. Na verdade, eram mesmo seis carros, mas um deles quebrou na descida, sendo forçado a parar. O “ouvido” do Nezinho era mesmo afinadíssimo.
Segundo o Dicionário MPB (site www.dicionariompb.com.br), Manoelito foi para o Rio de Janeiro em 1908, ocasião em que se apresentou no Teatro Mourisco, durante a Exposição Nacional, na Praia Vermelha. 
Estudou música desde criança. Ingressou em 1912 no Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, onde aprendeu a ler e a escrever em braile.
Consta, entretanto que, em 1910, em viagem ao Rio de Janeiro, apresentou-se em Salvador, tendo merecido este comentário do jornal Diário de Notícias:
“O Hino Nacional de Gottschalk, executado pelo ceguinho, merecia, só ele, uma crônica. Tudo o que dissermos será pouco para manifestar nossa admiração pela bela e sublime execução da peça”.
Esse “hino” é a música Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, composta por Louis Moreau Gottschelk (renomado músico americano), que serviu por muito tempo de tema dos programas do PDT, à qual se seguia a fala de Leonel Brizola: “Pooooovo brasileiro....”.
            Chegando à Capital Federal, logrou apresentar-se numa das Salas da Associação de Imprensa, no dia 2 de julho de 1910. O jornal O PAIZ, em edição do dia seguinte, em nota intitulada “Cego e virtuose”, na seção Artes e Artistas, enaltece o seu talento, ressaltando fato de que, possuidor de “uma agilidade rara, conhecendo o braço do violão à maravilha, consegue torná-lo um instrumento de concerto”. Por aquele tempo, o violão era um instrumento utilizado apenas por artistas populares, sem reconhecimento da crítica. E ainda acrescenta, “Não o toca, porém, como toda a gente, mas sim em forma de cítara, descansando-o sobre os joelhos”.
            Durante essa apresentação, executou, numa primeira parte, o Schottisch (Xóti) “Venturosa”; o dobrado “Nilo Peçanha”; o tango “Ver ao longe”; a mazurka “Coração”; a valsa “Naninha”; e o “Hino de Gottschelk”. Em seguida: a cavatina “Melodiosa”; o dobrado “Associação de Imprensa”; a valsa “Saudades de Aracajú”; a polka “Cuxillo”; o dobrado “Um pensamento” e o tango “Bahia”. Manoelito Lima, com foi chamado na ocasião, apresentava ainda uma inovação: tocou várias melodias numa “gaitinha de vento”, acompanhando-se ao violão. A gaita era presa a um cavalete de madeira, que a suspendia até a altura dos lábios.
            De retorno a Pão de Açúcar, ainda segundo Arecipo, desembarcou vestindo fraque. No porto, o esperava a banda “União e Perseverança” e um grande número de parentes e amigos que o acompanharam até sua casa, onde tocou vários instrumentos, no que foi seguido por seus conterrâneos. Como disse, Pão de Açúcar é uma terra de músicos.
Transferiu-se depois para o Recife. Não se sabe exatamente quando, mas há um registro de seu embarque em Maceió, a bordo do vapor “Pará”, publicado no jornal Correio do Povo, em edição do dia 4 de março de 1917.
Em 1923, fez apresentações no Salão Nobre do Diário de Pernambuco. Uma delas, talvez a primeira, noticiada pelo jornal A PROVÍNCIA, aconteceu no dia 20 de março daquele ano. Na primeira parte, executou ao violão, de sua autoria, as polkas “Serena estrela” e “Serena lua”; “Dutra”, de Pás de Quatre; “O Guarany – 3º ato, de Carlos Gomes; e “A viúva alegre”, de Franz Lehár. Para a segunda parte ficaram: a cavatina “Fantasia”, executada ao violão, cavaquinho e realejo. No último segmento, ao violão e realejo, a valsa “Carmélia”. Naquela Sala de concertos esteve ele no dia 5 de maio, recebendo caloroso acolhimento. No dia 11, estava ele no Salão Pio X, em Olinda, gentilmente cedido pelo seu diretor Frei Philoteo Siepmann.
            Já devidamente integrado à vida da cidade, Manoelito era convidado para as mais diversas atividades artísticas. Assim é que, no dia 22 de maio de 1923, o nosso Nezinho acompanha o Bloco Apois Fum numa caravana até Caruarú para comemorar o aniversário do seu presidente de honra, Cel. Francisco Sá Leitão. Dois vagões especiais são atrelados ao trem do horário. Além da orquestra, dirigida pelo maestro Zuzinha, vai também o time do Nacional Foot Ball Club, para um jogo amistoso com o Caruaruense Foot Ball Club. À noite, um animado baile pontificou a homenagem, posto que também estava com eles a Banda do 2º Corpo de Polícia.
            No dia 17 de junho daquele mesmo ano, participa das festividades do Colégio Arquidiocesano de Olinda, pelo encerramento do primeiro semestre letivo. Lá estava ele tocando violão e bandolim, pontificando a parte recreativa do evento. No dia 7 de agosto, faz conferência durante a exibição do saxofonista cego, mineiro de Uberlância, Ladário Teixeira, no Salão de Concertos do Diário de Pernambuco.
            Em 12 de fevereiro de 1925, Manoelito apresenta-se para a imprensa no Diário de Pernambuco. A crítica informa que “a assistência foi regular e em sua maioria composta de elementos autorizados no nosso meio artístico.” E acrescenta: “Desse musicista não se pode exigir mais do que ele nos ofereceu, pois que lhe falta o mais importante dos sentidos que é a vista”. O promotor desse evento foi o Dr. Clóvis S. da Nóbrega² e o convite, dirigido ao jornal A PROVÍNCIA, era extensivo à colaboradora deste: Sylvia Moncorvo, escritora crítica de arte pernambucana. Clovis da Nóbrega era engenheiro e um dos Diretores da Companhia Agro Fabril Mercantil, fabricante das linhas da Pedra.
            A 14 de maio de 1926 com uma apresentação de Manoelito para a imprensa no Salão de Conferências e Arte do Diário de Pernambuco. Nesse mesmo ano, ingressa no grupo vocal e instrumental denominado pelo historiador Mário Melo de TURUNAS DA MAURICÉA, numa referência ao domínio holandês sob o comando de Maurício de Nassau. Naquele tempo a cidade era chamada de “Mauricéia”; e turuna é uma palavra de origem tupi, que significa negro poderoso, valente.
O conjunto era formado pelo cantor alagoano Augusto Calheiros; João Frazão, violonista e diretor; Romualdo de Miranda, violonista; João de Miranda, ao bandolim; Luperce Miranda, extraordinário bandolinista; e por Manoel de Lima, também conhecido por Manoelito ou Ceguinho de Pão de Açúcar. Na tarde do dia 14 de maio daquele ano fizeram uma exibição para a imprensa pernambucana, no Salão de Conferências e Arte do Diário de Pernambuco, sendo muito elogiados. No dia 20 de agosto de 1926, organizaram um Festival, no Teatro do Parque, com que se despediram do público pernambucano, dias antes de seguiram para o Rio de Janeiro.
Chegaram ao Rio sem qualquer auxílio, “confiado apenas no valor de cada um”, como afirmava o jornal Correio da Manhã em sua edição de 16 de janeiro de 1927, ao tempo em que assegurava o seu patrocínio, em associação com o empresário Nicolino Niggiani, anunciando uma apresentação para o sábado seguinte, dia 22, no Teatro Lírico.
            Ao espetáculo, que foi transmitido pela Rádio Sociedade, compareceu a mais distinta elite da Capital, inclusive o Prefeito Antônio da Silva Prado Junior, que representou o Presidente da República Washington Luiz. Em sua homenagem, o Manoelito executou o Hino Nacional, de Francisco Manoel da Silva.
            Em consequência do retumbante sucesso que alcançaram, os Turunas foram contratados pela empresa N. Vigginani para mais uma apresentação no seu Teatro Lírico, na quinta-feira seguinte. Manoelito, que definitivamente angariou a simpatia e a admiração de todos, recebeu de presente um violão, oferecido pelo grupo carnavalesco “Cordão da Bola Preta”, por considerá-lo “um de seus melhores intérpretes”.
...
O CONCURSO “O QUE É NOSSO”
           
            No dia 16 de janeiro de 1927, o jornal Correio da Manhã lança um Concurso de sambas, maxixes, canções sertanejas, emboladas, desafios e violão, a ser realizado em 19 e 20 de fevereiro, com vistas a promover o carnaval daquele ano.
No concurso de violão, havia três concorrentes: Américo Jacomino, o Canhoto, renomado violonista paulista; uma menina de 10 anos chamada Yvonne Rabello (seria parente do saudoso Raphael Rabello?); e Manoel de Lima, o nosso Ceguinho. Os estilos eram completamente diversos. A menina Yvonne foi a única a cumprir as exigências co Concurso, solando em violão de cordas de tripa, em posição clássica, a peça “Capricho árabe”, de Tarrega. A comissão julgadora, composta por João Itiberê da Cunha, Corbiniano Villaça e Homero Alvares, levando em contra tratar-se de uma disputa genuinamente brasileira, resolveu conferir a premiação considerando o estilo de cada um. Assim, foi conferido o Prêmio “João Pernambuco” a Américo Jacomino – o “Canhoto”; o Prêmio “Joaquim dos Santos” a Yvonne Rabello e o Prêmio “Levino Conceição” a Manoel de Lima, considerando, segundo o jornal Correio da Manhã: ser um “artista de excepcional inspiração, cego como o patrono do prêmio, cujo mérito está consagrado e não permite confronto”.
Enquanto esperavam o concurso, faziam a festa nas principais casas do Rio. Os jornais anunciavam para o dia 6 de fevereiro “Uma tarde do que é nosso”, com Turunas da Mauricéia no Teatro João Caetano (ex-São Pedro), com a empresa Paschoal Segreto. Manoel de Lima era anunciado como “o poeta do violão”, dividindo o palco com os conjuntos Africanos de Vila Isabel e Trio Carioca. A temporada se prolongou até 26 de março.
No dia 9 de fevereiro, estreiam no Teatro São José (empresa Paschoal Segreto). Na tela, o filme “Beber, amar e sofrer” com Jean Hersholt, Louise Fazenda, June Marlowe e George Lewis. A temporada ali também se estende, tendo inclusive matinée infantil.
Em 6 de abril, Quarta-feira, 20:30 h. Os Turunas da Mauricéia se apresentam no C. R. Botafogo, perante os sócios e suas famílias, por intermediação dos sócios Boabdil de Miranda e Dr. Alberto Ruiz. Este Clube de Regatas Botafogo foi fundado em 1º de julho de 1894. Em 8 de dezembro de 1942, fundiu-se como Botafogo Football Club, este fundado em 1904 com o nome de Eletro Club, transformando-se no atual BOTAFOGO DE FUTEBOL E REGATAS.
Diversas exibições fizeram eles em Niterói, sendo as duas últimas nos dias 11 e 12 de junho, no Teatro Colyseu.
No dia 3 de julho de 1927, os Turunas se apresentaram no palco do palco do Cine Teatro Central, na Avenida Rio Branco, 168. Com eles estavam LOS CORBATI (acrobacia volante sobre 3 barras). Na tela, o filme “Ouro, mulher e lei”, com John Gilbert. Exibia-se também o filme “Jahú rumo ao céu da Pátria”. A Empresa Pinfildi o anunciava como “o único filme em que se vê nitidamente o glorioso JOÃO RIBEIRO DE BARROS e sua excelentíssima progenitora D. Margarida Ribeiro de Barros e toda a sua ilustre família – e outros detalhes interessantes”. Tratava-se de João Ribeiro de Barros, aviador brasileiro (Jaú, SP: 04/04/1900 – Jaú, SP: 20/07/1947) que, juntamente com Arthur Cunha, Newton Braga, Vasco Ciquini, tornaram-se pioneiros na travessia aérea do Atlântico Sul. Partiram de Gênova (Itália) para Santo Amaro (SP, Brasil), com escalas na Espanha, Gibraltar, Cabo Verde e Fernando de Noronha.
 Outra apresentação se fez ainda no dia 19 daquele mês, desta feita com a presença dos intrépidos aviadores. Os Turunas executaram o “Hino ao Jahú”, o avião em que levaram a efeito a grande façanha.
No dia 8 de julho, os Turunas da Mauricéia estiveram no Studio da rádio A Capital, sob a direção de Américo Jacomino, “Canhoto”. Manoelito, tocando “Grande fantasia trinfal sobre o Hino Nacional Basileiro” e Canhoto interpretando Abismo de Rosas, Viola Minha Viola e Marcha dos Apaixonados. Em 6 de setembro, apresentam-se no Beira-Mar Casino, em comemoração ao aniversário da Independência do Brasil.
Em 1929, de volta ao Recife, apresentou-se no Teatro Santa Isabel e no Cinema Moderno e, novamente, na Salão de Concertos do Diário de Pernambuco, no dia 11 de maio, sob o patrocínio do Governador do Estado de Pernambuco (Júlio Celso de Albuquerque Belo) e do Dr. Carlos Lyra, diretor daquele jornal. Exibiu-se ainda no Natal Club, da capital potiguar.
Em 22 de setembro de 1933, o Ceguinho de Pão de Açúcar toma parte no Festival realizado no Cassino Rio Branco, em Aracaju, quando é homenageado. Voltou a Sergipe em 1938, quando mostrou sua arte no Salão Nobre da Biblioteca Pública de Aracaju e, em Propriá, na Sociedade Recreativa,
Em 1934, fez exibições no Salão Nobre da Escola Normal Pedro II e no Jornal Diário da Manhã, na cidade de Vitória, Espírito Santo.
Em 1939, de volta ao Recife, exibia-se no Cine-Teatro Guarani. No ano seguinte, estava ele no Cine Eldorado e, 1941, no Cassino Baltazar, na cidade de Carpina. Em 1942, o “Mozart alagoano”, como alguns jornais o chamavam, se fazia ver no Cine-Teatro Caruaru, na progressista cidade do interior pernambucano.
Dentre as muitas composições suas, podemos citar: as valsas “Abandono”, “Alice” e “Amor Oculto”; o samba “Escorrego do urubu”; o choro “Fuxico” e o tango “Murmúrio”; além da valsa em seis partes “Veneza americana”, com que fez homenagem à cidade do Recife.
Depois de alguns anos, retornou para Alagoas, com apresentações no Teatro Deodoro e no Cine-Teatro Floriano. Manoel Bezerra Lima faleceu em Recife (PE) no dia 14 de janeiro de 1944, na residência de sua irmã Marieta Canuto Lima, na rua Zeferino Agra, 72, no bairro da Arruda. Foi sepultado às 16:00 horas no Cemitério de Santo Amaro. Félix Lima Junior, seu primo, posto que era filho do seu tio Félix Alves Bezerra Lima, destacou sua arte em "DOIS MAESTROS ALAGOANOS - Misael Domingues e Manoel Bezerra Lima - Nozinho" e, para homenageá-lo, seus conterrâneos deram o seu nome a um dos principais logradouros da cidade. A "Avenida Manoelito Bezerra Lima", em prolongamento da "Bráulio Cavalcante", no sentido Leste, compõe-se de modernas residências e sedia importantes estabelecimentos públicos, tais como: o hospital, a 8ª Coordenadoria Regional de Ensino e a Escola Estadual "Padre José Soares Pinto".
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¹ Publicado no jornal Gazeta de Alagoas, caderno Saber, em 03/06/2012.
² Clóvis Santiago da Nóbrega era genro de Delmiro Gouveia. Casou-se, em 20 de setembro de   1924, com Maria da Cruz Gouveia. Um dos padrinhos foi o Deputado potiguar Juvenal Lamartine, relator do Projeto de Lei que passou a permitir o voto feminino em todo o Brasil e que, eleito Presidente do Rio Grande do Norte, fez com que aquele Estado fosse o primeiro a permitir o voto das mulheres.



Nezinho Cego com o grupo Batutas Sergipanos por ocasião do Festival realizado na noite do dia 22 de setembro de 1933, no Cassino Rio Branco, Aracaju-Sergipe.
Fonte: Almanack de Sergipe, nº 05 – 1934.

Em pé: da esquerda para a direita: João Prado, José de Albuquerque Feijó (banjista); Sales de Campos, orador do grupo; Tenente Amynthas Barretto (barítono); J. Campos Morais; Prof. Vicente Ferreira e Deucaleão Guimarães.
Sentados, na mesma ordem: João dos Santos, conhecido por Zão Cula, afamado violinista; maestro Ceciliano Cruz, Manoel Lima (homenageado). Maestro Domício Fraga e João Motta.


 Nezinho Cego, Yvonne Rabello e Américo Jacomino-Canhoto 


Turunas da Mauricéia (Manoel de Lima, João Miranda, Romualdo Miranda, João Frazão, Agusto Calheiros).


       OsTurunas da Mauricéia no studio da Rádio Sociedade (Correio da Manhã de 20.02.1927)

Anúncio da apresentação dos Turunas no Teatro Lírico.


A ampla Sala doTeatro Lírico na tarde de 19.02.1927, lotado para o concurso “O QUE É NOSSO”. Foto: jornal Correio da Manhã_20.02.1927.

Teatro Lírico - Rio de Janeiro.

Teatro-Cassino O BEIRA MAR. Empresa N. Viggiani e Laport.



                                           
Empresário Nicolino Viggiani.


Praça Tiradentes, Rio de Janeiro - Teatro São José ao fundo.

                                                            Cinema-Central, Rio de Janeiro.




sexta-feira, junho 1

O NOVO APPARELHO DE SIGNAES PARA VEHICULOS


Com esse título, a Revista da Semana, do Rio de Janeiro, em sua edição de 15 de janeiro de 1918 – ANO XIX – Nº 19, noticia o aparecimento do “Sinal de Trânsito” ou “Farol”, também chamado “Semáforo”. Uma perfeita novidade!

A Inspectoria de Vehiculos tem em experiência na Avenida Rio Branco um apparelho de signaes, de invenção do fiscal Sr. Caniné. O apparelho consiste numa haste de ferro supportando uma flexa, que funcciona mecanicamente e que permitte aos vehiculos avistarem o signal de interrupção ou liberdade de trânsito a uma razoável distância, o que não acontecia pelo processo antigo, em que o guarda fazia os signaes com o casse-tête e o apito. As photographias mostram, em confronto, os dois processos de assignalar a diretriz do trânsito.”
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Disponível em: http://memoria.bn.br.

quinta-feira, maio 31

EPICYCLO


Jorge de Lima

         (Ao grande espírito de Afrânio Peixoto)

Alma, sê forte; corpo, sê robusto!
Nesse conflito atávico e instintivo
Sê como o gênio que possante e altivo
Constrói antes de morte o próprio busto!

Refreia o teu instinto e o doma a custo
Da dor — da grande dor de seres vivo...
Eu quero! — esse presente indicativo
Octávio a conjugá-lo fez-se Augusto...

Mas nunca concretizes teu ideal!
Um ideal realizado é um transparente
Fruto que ao ser provado sabe mal!

O artista é comoo Errático do mito:
Onde pensa que é o fim, surge-lhe à frente
A estrada interminável do infinito!

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Publicado no Jornal das Moças, nº 94 - 1916

sexta-feira, abril 13

O PASSADO DE PRESENTE


O VELHO “GENERAL”¹
(Sertão de Alagoas)

Ascendino Christo


Tarde quente de verão. Sobre a terra escaldante desdobra-se o imenso pálio de céu rubro.
No poente, há como chamas gigantescas de uma fogueira monstruosa, onde mergulha incandescente o disco solar. Há espalhados pela campina, na copa das árvores altaneiras, no escuro da mataria densa, nos picos alvadios ou negros das montanhas, faixas, rastilhos, toques de luz vermelha. É a magnificência do crepúsculo na selva tropical.
Calmo e pesado, tênue sopro agita a plumagem rala de árvores despidas. Nem força tem para suspender o pó ressequido e ocre da tortuosa estrada. Há nervosos estertores de gravitos e vagens secas a crepitar em estalidos irritantes ao calor intenso.
A longa estrada riscada em sulcos paralelos, pontilhada de brilhantes seixos, vai pouco a pouco imergindo na sombra plúmbea, guarda avançada da noite estrelada.
Três horas a fio, cavalgando suarento tordilho, coberto de pó e enfado, já sem prazer na visão da natureza esquelética, vi passar desde minha partida de Meirús. E a montanha da estrada em fogo fazia-me esgotar a esperança de um descanso perto de breve entrada na linda cidade de Pão de Açúcar.
Agora percorria a baixada que antecede o Alto da Bela Vista, o ponto de onde se descortina vasto horizonte de variedade empolgante, desde a cidade ao sopé, à praia arenosa, ao rio azul e veloz até as montanhas em caprichosos recortes na margem oposta.
Caminheiro prostrado de jornada de muitos sóis e de muitas luas, combalido e sedento de água refrigerante, que ali chega, se tiver ainda forças para dilatar as pálpebras cerradas pela morte das energias e olhar o deslumbrante panorama: os montes, os vales, cultivados campos, a casaria avermelhando, de telhados novos, paredes alvas de cal, e o rio em filete de cristal ao fundo – caminheiro que ali chega, corre, voa, galga a légua que o separa da cidade, do rio, sem cansaço, sem alquebramento.
- Di-lo o povo na sua adoração justa da natureza rica e emocionante.
Também eu sentia ânsia de transpor o vale que me afastava da mágica culminância. Também sentia pruridos de rever o já muito conhecido quadro tão grato aos meus olhos de adolescente! E esporeava o manso tordilho, e atirava ao ar interjeições de alegria, onomatopeias de animação.
- Êh! ... Êh! ...Tordilho, vamos. É ali a Bela Vista.

***   ***
            Transporto o alto, para trás a íngreme e enfadonha ladeira, eu era mais forte: vira a cidade amada e o rio querido. Uma grande alegria repassada de alívio ungia min’alma, o coração pulava de contentamento. Em breve alcançara um carro de boi, morosamente estadejando para a cidade. Chiava pesaroso, num concerto rústico, gemendo ao peso da carga arrumada em pilhas.

E lá ia o tosco veículo, ora chorando em lamentos lancinantes a sorte da craibeira do eixo, meio carbonizado, reluzente, pelo atrito constante dos cocões — ora soluçando trôpego, cansado já, empoeirado do caminho das estradas. Guinchava, às vezes, acelerando a pesada andadura pelo bárbaro ferroar aos mansos bois.

Sempre monótono, cantando alegrias ou entoando nênias, jamais calado, vai pelos caminhos ingratos até o repouso, onde descansa do sol em pino à sombra escassa de alguma árvore, pendido o cabeçalho ao chão. Só ai para de cantar, só ai cessa a música esquisita que atirou aos ares durante horas sem fim.

  ***   ***

         Contou-me o carreiro —um rapagão sadio e forte, sempre pregado à palmatória do seu carro, alegre, jovial, cantarolando loas ou imitando, às vezes, passarinhos em assovio fino, estrídulo: - contou-me o carreiro com lágrimas nos olhos:

— “O meu melhor boi chamava-se “General”. Era um animal de estimação: coiceiro afamado, nenhum outro o vencia no seu posto. Fazia gosto ver como ele escorava a dianteira numa descida ‘a pique’. ...

“Viajara muito e não esquecia atoleiro onde passasse uma vez, nem ignorava precipício a evitar. Do rio – de Pão de Açúcar – até vinte, e trinta e mais léguas, na ‘redondeza’ ele fora, por longos anos, o melhor, o mais valente boi de carro. Atravessara valados, galgara serras e palmilhara alagadiços; à chuva, ao sol causticante; de dia, à noite; à luz nitente, na treva horrífica; sempre aquilo: manso, pronto ao constante viajar, liso e belo, de ‘pelo lustroso’, como se a alegria de viver lhe mudasse em gozo a agrura do labor. Daí a sua alcunha de ‘General’. Como um bravo que foi teve sua ferida de honra e de reforma.

‘Foi ao descer da enorme e maldita ladeira do Parujé. Uma dianteira era um velhaco e manhoso garrote, ainda enfezado e selvagemente forte. O ‘alma do diabo’ tirou em disparada ladeira abaixo. Em frente, abria-se o chão num escancarado grotão, atraindo o carro, a carga os bois e eu. O outro dianteira era manso, porém, fraquinho, perdeu a ação: deixou-se arrastar na corrida infernal. O momento era terrível: mais um arranco do garrote, e estaríamos perdidos. Foi quando “General”, aquele bravo “General”, num esforço inaudito, ouvindo os meus scio! ... Scio! ...desesperados, sustou a carreira danada em que íamos e, desviando o carro do precipício com extraordinário sacrifício, arrastou-nos devagar até ao sopé do despenhadeiro.

‘No lombo roxo do Parujé, porém – concluiu abatido, o carreiro – ficara-se com um mugido de ‘cortar coração’, uma das suas unhas presa ao vale por uma fita rubra de sangue.”
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Publicada no jornal CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 25 de abril de 1909.

Desenho de Percy Lau.


quarta-feira, abril 11

DESASTRE EM PIRANHAS E A MORTE DE FERREIRA DE NOVAES


Etevaldo Amorim

A implantação do primeiro trecho da Estrada de Ferro Paulo Afonso, todo ele em território alagoano — 28 km entre Piranhas e Olhos D’ Água — cuja inauguração se deu em 25 de fevereiro de 1881, foi marcada por um trágico episódio, que faria registrar também, na história de Pão de Açúcar, um fato contristador.
Naquele 17 de julho de 1880, de subida para o local das obras, partiu a máquina “Piranhas”, rebocando cinco vagões carregados de material, dormentes e trilhos para o assentamento da via permanente.  Sobre os carros iam muitas pessoas: operários, engenheiros e visitantes. Necessitando abastecer-se de água, o maquinista faz parar a locomotiva na linha de nível do Cipó, onde havia um depósito, ao final de uma rampa de 4 km de extensão. Julgando estar seguro para a manobra, inadvertida e imprudentemente desengata a máquina, num ponto em que a rampa contava ainda com um declive de 3 %. Os vagões, com um peso de aproximadamente 35 toneladas, precipitam-se por uma extensão de mais de mil metros. Ainda dentro de um “corte grande”, descarrilou um vagão, o que proporcionou a retenção dos demais.
É possível que nada de mais grave viesse a acontecer, não fosse outra intervenção do maquinista que, percebendo a descida os vagões, voltou com a máquina a toda velocidade na tentativa de alcançá-la.  Quanto tentou frear já era tarde. A locomotiva montou sobre os primeiros vagões, esmagando onze pessoas e ferindo gravemente outras três. Os engenheiros Barcellos e Souza Reis, pressentindo o perigo, saltaram logo, assim que os troles começaram a descer. Escaparam ilesos.
            Tudo isso se deu entre as 11:00 h e o meio dia. Treze foram os mortos nesse pavoroso desastre. Entre eles, o comerciante pernambucano Maturino Barroso e o Dr. Ferreira de Novaes. Entre os muitos feridos, achava-se ainda um seu irmão: Major João Marinho de Novaes Mello.

Ferreira de Novaes, à esquerda. Não teria mais que 17 anos, posto que o seu cunhado, João Francisco Paes Barreto, que aparece a seu lado, faleceu em 1873.

            Os jornais da época, nos mais diferentes pontos do país, noticiaram o fato a partir da reprodução de telegramas entre as autoridades, a exemplo do Jornal da Tarde, de São Paulo (SP); Gazeta do Norte, de Fortaleza (CE); O Iniciador, de Corumbá (MT) e do O Baependyano, de Baependi (MG).
            O Engenheiro Chefe da Estrada, Dr. Eduardo José de Moraes, telegrafou ao Ministro da Agricultura Buarque de Macedo relatando o ocorrido e informando que havia mandado prender o maquinista. O Ministro, por sua vez, determinou ao Dr. Hermelindo Accioly de Barros Pimentel, 3º Vice-Presidente, no exercício interino da Presidência da Província de Alagoas (cujo Titular era o Dr. Cicinato Pinto da Silva), a adoção de imediatas providências visando a apuração das causas do acidente. Assim, foi nomeada uma Comissão composta do Dr. Theophilo Fernandes dos Santos, Tenente-Coronel Agapito de Lemos Medeiros e Engenheiro Mecânico Eduardo Lima, todos residentes na cidade do Penedo, a fim de examinar com toda minúcia e rigor as causas do desastre, dando conta do resultado com a maior brevidade.

Antônio Ferreira de Novaes Mello era filho do Major João Machado de Novaes Mello e de D. Maria José Leite Sampaio. Nasceu em Pão de Açúcar, no dia 5 de dezembro de 1856. Aos vinte e três anos, já estava formado pela Faculdade de Direito do Estado de São Paulo, colando grau em 10 de novembro de 1879. A essa 48ª Turma pertenceu Antônio Caio da Silva Prado (Caio Prado), que viria a ser Presidente da Província de Alagoas de 05/09/1887 a 16/04/1888.

Sobre a sua formatura e sua eleição, destacou o jornal O ORBE, Maceió-AL, na edição de 3 de dezembro de 1879:

"Sobre o nosso comprovinciano Antônio Ferreira de Novaes Mello, diz a Gazeta do Povo, de São Paulo:
'Recebeu hoje o grau de bacharel em direito, pela nossa faculdade, o Sr. Antônio Ferreira de Novaes Mello, moço de inteligência e ilustração, e que deu exuberantes provas, quando redigiu O Liberal, jornal que se publicou ultimamente nesta capital e de que foi ele o redator principal; tendo recebido ainda ultimamente a prova mais plena de confiança de seu partido, que o elegeu deputado provincial pela sua província natal.
Felicitando ao novo bacharel, fazemos ardentes votos para que seja feliz na carreira que vai iniciar.'"

Ferreira de Novaes, com apenas 23 anos, já era Deputado Provincial em Alagoas, integrando as hostes do Partido Liberal. Pouco antes de voltar para Alagoas, exerceu o cargo de Promotor Público na cidade de Capivary, Estado de São Paulo. Quando iniciava sua carreira parlamentar, foi levado pela fatalidade. No dia 24 de julho de 1880, por encomenda do seu mestre, e também alagoano, José Francisco Soares, foi rezada uma missa na Igreja da Sé, na Capital paulista
Seu pai, o Major João Machado de Novaes Mello – Barão de Piaçabuçú, era destacado líder do Partido Liberal e chefe político daquela Região e de uma família da qual sairia o primeiro Prefeito (Intendente) do Município – o Juiz de Direito Dr. Miguel de Novaes Mello.
            Uma das principais avenidas da cidade, marginal ao rio São Francisco, adota o nome de um membro de uma das mais importantes famílias de Pão de Açúcar. Pela Lei Nº 57, de 7 de janeiro de 1913, assinada pelo Intendente Cel. Manoel Antônio Machado, a Rua da Praia passou a se chamar Avenida Ferreira de Novaes.


Passagem do Cipó - local do acidente. Foto: Ignácio Mendo. 1880.

Piranhas, vista da margem sergipana. Foto: Adolpho Lindemann. 1888.












quinta-feira, março 29


MINHA PRIMEIRA ESCOLA

Etevaldo Amorim

            Eu não tinha ainda completado sete anos de idade quando ingressei no Grupo Escolar do Bairro Novo Campos Elíseos, na bela a progressista cidade de Campinas. Era uma escola nova, ainda no seu segundo ano de funcionamento. Há pouco mais de um ano, num final de tarde, eu e meus primos fomos levados pela minha mãe e minha tia para conhecer a nossa futura escola. Visitamos as obras, já em fase de conclusão, conduzidos por um pedreiro conhecido. Edivaldo e Vera já iniciaram na primeira turma, em 1963. Em março de 1964, chegaria a minha vez. E lá estava eu com meu uniforme – calça curta azul marinho e camisa branca, lancheira a tira colo e uma pasta de couro com cadernos, estojo e a cartilha Caminho Suave, da renomada pedagoga Branca Alves de Lima.

            Era uma Escola moderna. Lá, os alunos tinham acesso a assistência médica, odontológica, alimentação e até barbeiro. Sala espaçosa preenchida com carteiras duplas, dispostas em colunas; um quadro-negro para o professor e outro na parede interna, para uso dos alunos. Na outra, janelas de vidro ocupando quase todo o espaço superior, permitindo a luminosidade e por onde se podia ver a parte externa do prédio de dois pavimentos.

Certo dia, recebemos a visita do dentista. Perguntava quem desejava ir ao consultório para, eventualmente, tratar de algum dente. Ante o silêncio de todos, enchi-me de coragem e fui com ele. Nesse dia, livrei-me do meu último dente de leite, um molar, que resistia e me incomodava. Chegando a casa, contei para minha mãe, que ficou surpresa e me elogiou. Noutra ocasião, porém, minha reação foi diferente. Quando o tempo prenunciava uma forte tempestade, a professora disse que, quem morasse longe, poderia sair mais cedo para evitar a chuva. Tendo pavor de trovões, disse que morava muito longe. Dez minutos depois, estava em casa, não mais que quinhentos metros da Escola. Minha mãe não ficou surpresa: conhecia o meu medo.

            Lembro ainda dos rostos infantis à minha volta, meninos e meninas experimentando o contato com as primeiras letras. A meu lado, o Daniel, feições orientais e jeito calado. Atrás, um menino engraçado, cujo nome não me lembro, a não ser que parecia mais velho que os demais. Nas horas de folga, eu o via passar pelas ruas do bairro, tabuleiro pendurado no pescoço, vendendo pirulito. Tinha ainda os irmãos Alexandre e a Cristina, esta uma loirinha de cabelos cacheados.

            A primeira professora, D. Maria Izabel Vieira, pouco tempo ficou conosco. Logo veio o Professor Jonas Tayar, muito alegre e habilidoso no trato com as crianças. Mas, também ele, não demorou com a Turma. Veio, então, a jovem professora Neuza (Neuza Fernandes Costa), simpática e também muito talentosa. Esbelta e elegante, sua fisionomia e gestos, compararia depois, se assemelhavam aos da “Professora Helena”, personagem do Programa Carrossel, da TV mexicana, exibido pelo SBT nos anos 80/90. Lembro-me de quando dela me despedi no dia em que fui àquela escola pela última vez, antes de viajar com minha família para o Nordeste. Gentil, como era, disse que ia sentir a minha falta.

            Nunca mais voltei a Campinas e talvez não a veja mais. Entretanto, com os recursos hoje disponíveis, consigo ver como está hoje aquele bairro que deixei em formação, as ruas ainda carentes de pavimentação e a iluminação feita em postes de madeira. O Google Earth me mostra, com incrível precisão, a casa onde eu morava, de número 188, na Rua Amparo. Volto no tempo e me vejo percorrer o pequeno trecho até o seu final, para chegar ao Grupo, já na Rua Piracicaba.

            A escola já existia desde 1957, o ano em que nasci. Aprovando o Projeto de lei nº 279/1957, de autoria do Deputado Cássio Ciampolini, do PSD – Partido Social Democrático, a Assembleia Legislativa de São Paulo denominou o Grupo Escolar de “Padre José dos Santos”. Sancionado pelo Governador Jânio Quadros, tomou a forma de Lei com o Nº 4.378, de 16 de novembro de 1957. Entretanto, o mesmo Governador assina, em 21 de outubro de 1958, o Decreto n. 33.834, dando ao Grupo Escolar a denominação de "Professor Moysés Horta de Macedo". Para corrigir o equívoco, o seu sucessor, Carvalho Pinto, baixou o Decreto Nº 35.337, de 12 de agosto de 1959, tornando sem efeito aquele Diploma Legal. Para a construção do prédio próprio do Grupo Escolar, o Estado, por meio do Decreto Nº 38.533, de 29 de maio de 1961, assinado ainda pelo mesmo Governador Carvalho Pinto, desapropriou uma área de 6.050,00 m², pertencente a Armando dos Santos.

O patrono da minha Escola nasceu em Funchal, Ilha da Madeira, a 17 de agosto de 1874.  Era filho de Maria Augusta dos Santos e de Antônio Teixeira. Ainda menino, veio para o Brasil, ingressando no Liceu Sagrado Coração de Jesus, em São Paulo, no ano de 1887. Debaixo da guia paterna de D. Lourenço Giordani, e naquele santo ambiente de família dos primeiros salesianos que aportaram ao Brasil, desenvolveu-se a flor da sua vocação religiosa e sacerdotal, fazendo o noviciado em Lorena, no ano de 1892 e emitindo seus votos perpétuos em janeiro de 1893.

Durante os nove anos seguintes, portanto até o ano de 1902, trabalhou no Colégio São Joaquim, de Lorena, e ai também completou os seus estudos filosóficos e teológicos. Ordenando-se sacerdote em 1901, ele foi mandado a Turim e logo depois a Lisboa como primeiro redator do “Boletim Salesiano” em língua portuguesa. Regressando ao Brasil, foi nomeado, em 1912, diretor do Externado São João, em Campinas.

Importante é o programa desenvolvido por aquele sacerdote no Externato São João, estabelecimento de ensino este que abriu as suas portas à instrução primária de Campinas, quando nos seus grupos escolares era necessário sorteio para as crianças poderem neles ingressar, devido ao número reduzido de vagas. Foi nessa mencionada época que o Externado São João iniciou o ensino primário para as crianças pobres, ali tendo acorrido cerca de duzentos alunos. Dada a enorme procura de lugares, a matrícula subiu para mais de 400 alunos, no curso diurno, e 200, no noturno, curso este instituído para os que trabalhavam durante o dia. E assim foi que, sob a direção do Padre José dos Santos, aquela casa salesiana veio acudir o ensino primário de Campinas, quando era ele da mais absoluta necessidade.

Dotado de extrema bondade, tolerante, paciente, com o coração sempre aberto à prática do bem, profundamente piedoso, ao mesmo tempo que se empenhava em dilatar o programa de inscrição à infância, realizou obras notáveis, fundando o Oratório Festivo, que tirou das ruas mais de mil crianças.

Fundou, ainda, o Padre José dos Santos, a Associação de Nossa Senhora Auxiliadora, que se transformou numa verdadeira legião de associados, instituição essa que ainda existe no Externado São João. Foi, ainda,Capelão do Colégio Progresso Campineiro, também ali exerceu o seu ministério sagrado.

A “Echola Cantorum”, constituída de alunos do Externado São João, foi mais uma das suas obras, tendo participado de numerosas funções religiosas, tanto no Externado, como no Liceu Nossa Senhora Auxiliadora, na Capital e em várias cidades do interior. Em 1914, fundou a Associação dos Ex-Alunos D. Bosco, entidade que recebeu em seu quadro social não só elementos que haviam passado pelos bancos do Externado São João, como também de todas as camadas sociais.

Grande músico, além de professor emérito, fundou uma excelente orquestra; organizou um ótimo grupo de amadores teatrais; criou uma seção de esportes dentro da Associação dos Ex-Alunos. Em 1931, foi removido, em movimento rotineiro de sua congregação, para o cargo de Diretor do Colégio São Joaquim, de Lorena. Faleceu no dia 3 de novembro de 1937, em São Paulo.

Sala de aula_parecida com a minha.

Eu nos tempos da Escola.

O Professor Jonas Tayar, à direita, aqui com alunos do Externato São João. Foto obtida no site:
Fachada  da minha escola hoje. Fonte: maps. google.

Fachada  da minha escola hoje. Fonte: maps. google.


No centro, Dom Agostinho Francisco Benassi, bispo de Niterói. À direita dele (esquerda de quem olha): o Capitão João Crhisóstomo; Amélia Rodrigues, poetisa baiana; Monsenhor Augusto Leão Quartin; Padre Francisco Solano; Padre Angelo Alberti. À esquerda do Bispo (direita de quem olha): Padre Carlos Peretto; Dr. José Agostinho dos Reis; Padre Lourenço Giordani; Padre Frederico Gioia; PADRE JOSÉ DOS SANTOS. Comemoravam o 25º aniversário das chegadas dos salesianos no Brasil.
Fonte: Revista da Semana, 15/11/1908.

Alunos do Ginásio São Joaquim, em Lorena-SP, tendo ao centro os Srs. João Correia Moreira (septuagenário); Monsenhor João dos Santos, vigário de Caxambu; Dr. Francisco Pinto de Moura, Prefeito; e o PADRE JOSÉ DOS SANTOS, diretor. Lá no alto, o Cônego Pedro Pinto. Fonte: Revista Fon Fon, Rio de Janeiro, 6 de agosto de 1921.
O Pe. José dos Santos (terceiro da esquerda para a direita) tendo a sua esquerda o Ministro uruguaio Dr. Ramos Montero, no Ginásio São Joaquim, em Lorena-SP, foto abaixo. Fonte: O Malho, 10/11/1923.


Padre José dos Santos. Foto: Vida Doméstica, Fevereiro de 1934.






A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia