sábado, junho 20

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NOS TEMPOS DO CINEMA MUDO

 

Por Etevaldo Amorim


 

Cartaz do filme MEIAS DE SEDA

No início do século XX, as cidades do Baixo São Francisco eram frequentemente visitadas por exibidores itinerantes — em sua maioria fotógrafos e empresários — que, munidos de projetores conhecidos como “cinematógrafos”, traziam rolos de filmes mudos para exibir em praças públicas ou salas improvisadas, como galpões e teatros.


Pão de Açúcar recebeu um desses cinemas volantes em 1911. Uma nota publicada no jornal A IDEIA, de 9 de abril daquele ano, anuncia a chegada do Sr. Max Philipsen[i], um fotógrafo alemão estabelecido em Maceió, que trazia alguns filmes para serem exibidos no Politeama Goulart de Andrade, um teatro recém-construído no local onde funcionaria, muitos anos depois, o nosso conhecido Cine Palace. Era o “Cinematógrafo Brasileiro” que estava na cidade!


Com a manchete “HOJE! CINEMA! HOJE!”, o jornal informa que haveria duas sessões:


Na primeira parte, seriam exibidos os filmes O Compositor Nervoso (Le Compositeur Toqué, 1905); Educação dos Pássaros (Éducation d'un Oiseau, 1911); A Luta pela Vida (Le Combat de la Vie, 1909); João Faz Tratamento pela Água (Hydrothérapie Fantastique, 1910) e A Vingança do Chefe do Trem (La Vengeance du Chef de Train, 1910).


Na segunda parte: Nascimento de Jesus Cristo (Le Christ Marchant sur les Eaux / La Naissance du Christ, 1899); João come alho (Le Terrible Hálito de Jean / L'Homme à l'Ail, 1907); O desaparecimento da noiva no castelo maravilhoso (Le Palais des Mille et Une Nuits / Le Château Merveilleux, 1905); e O noivo ciclista (Le Mariage de Victorine / Le Fiancé en Cycliste, 1907).


Todos esses curtas metragens eram de autoria Georges Méliès, com sua produtora Star Film. Georges Méliès (1861–1938) foi um ilusionista, ator e cineasta francês, reconhecido mundialmente como o pai dos efeitos especiais e um dos maiores pioneiros da história do cinema primitivo.


No dia 31 de agosto de 1911, também esteve em Pão de Açúcar o CINEMA SERGIPE, um desses itinerantes que passavam pela região ribeirinha.[ii] E assim deve ter acontecido com frequência até chegarmos ao CINE SÃO JOSÉ.


Prédio onde funcionou o CINE SÃO JOSÉ


De propriedade de João Damasceno Lisboa e Antônio da Silva Pereira (Toinho de seu Aprígio), foi inaugurado em 1933, segundo Aldemar de Mendonça em seu “Pão de Açúcar: história e efemérides. Entretanto, o nome de João Lisboa já aparece no Almanak Laemmert de 1927 como fotógrafo, mas também como proprietário de um cinema, nas edições de 1929 e de 1930.


Localizava-se na esquina das ruas Aurora (atual Antônio de Freitas Machado) e Silva Maia (atual Cel. Manoel Antônio Machado), local onde funcionou por muitos anos a agência da Caixa Econômica Federal.


Segundo Gervásio Francisco dos Santos, em seu livro Um Lugar no Passado, diferentemente do Cine-Politeama — que utilizava um sistema arcaico de projeção com regulagem manual dos carvões —, o projetor do Cine São José era mais moderno.


Esse equipamento seria, provavelmente, composto por lanternas de arco com avanço automático dos bastões de carbono e espelhos refletores — padrão que se consolidaria na década de 1930 para garantir a projeção contínua e a estabilidade luminosa. No sistema antigo, utilizado no Cine-Politeama, a luz vinha da queima de dois bastões de carbono (carvão) eletrificados dentro do projetor. À medida que o carvão queimava, ele encolhia, exigindo que o operador girasse manivelas constantemente para manter a distância certa e a luz acesa. Além disso, a queima trazia o incômodo de gerar fumaça e fuligem dentro da cabine.


Com a expansão das redes elétricas comerciais – Pão de Açúcar já tinha uma empresa geradora de energia por motor-gerador – é possível que o Cine São José já adotasse potentes lâmpadas elétricas incandescentes (similares às lâmpadas comuns, mas gigantescas) ou caixas de arco com avanço automático do carvão via motor. Isso eliminou a oscilação da luz na tela, reduziu os riscos de superaquecimento nas películas de nitrato e permitiu projeções mais longas e nítidas.


E foi exatamente o ano de 1927 que marcou a chegada dos sistemas de som sincronizado (como o Vitaphone), fazendo com que os projetores dessa nova safra fossem equipados não apenas com luz melhor, mas também com motores preparados para reproduzir áudio. Não era o caso deste do Cine São José, cujas exibições eram sonorizadas pela Orquestra de Mestre Nozinho, que escolheu a música “Os calças largas”, composta por Lamartine Babo e Francisco Gonçalves de Oliveira, grande sucesso da época[iii].


A letra zomba dos "almofadinhas" da época (rapazes da elite que imitavam a moda europeia) que começaram a usar calças amplas, num estilo precursor das bocas-de-sino.


Ouça OS CALÇAS LARGAS, de Lamartine Babo e Gonçalves de Oliveira, na interpretação do barítono Frederico Rocha. Disponível em "Som em Bom Tom - Youtube".  


A INAUGURAÇÃO


O primeiro filme exibido foi MEIAS DE SEDA, cujo título original é Silk Stockings, lançado oficialmente nos Estados Unidos, em 2 de outubro de 1927 pela Universal Pictures.


É uma comédia romântica baseada em uma peça de teatro da Broadway de 1914 (A Pair of Silk Stockings). A história gira em torno de um casal muito apaixonado, mas que vive brigando. Na véspera do aniversário de casamento, o marido esquece um par de meias de seda que uma mulher colocou em seu bolso, gerando uma grande e divertida confusão.


A “fita” foi estrelada por Laura La Plante (uma das maiores e mais bem pagas estrelas da Universal na era muda), no papel de Sally Thornhill,  e John Harron, interpretando Sam Thornhill.


Tinha também: Willian Agustin, no papel de Jorge Bagnal; Otis Harlan, como Juiz Foster; Burr Mc Intosh, como Juiz Harlan; e Heinie Conklin, como o vigia noturno. A direção foi de Wesley Ruggles.


Eis a sinopse do filme, que encontramos na revista CINEARTE, que se publicava no Rio de Janeiro, edição de 4 de janeiro de 1928:


Desde que descobriram o divórcio, o matrimônio como que passou a ser um vasto campo de batalha!


A encantadora Sally amara loucamente o marido, que, por sua vez, a queria acima de tudo neste mundo. Os dois, no entanto, não se entendiam e viviam em constantes rixas e disputas tremendas, que lhes tornavam a vida conjugal verdadeiro inferno.


Certo dia, os dois se deixaram arrastar para o escritório de um advogado especialista em separação de corpos: o Juiz Foster. Expõem as coisas, calorosamente, cada qual afirmando mais fortes as suas razões.


E por que todo esse barulho? Simplesmente por isto: Sam queria ir gozar as suas férias nas montanhas, ao que Sally se opunha, preferindo uma praia de banhos.


Foster não tinha interesse em separar duas criaturas que sofriam de... excesso de amor e, usando de um ‘truc’, com auxílio de um ratinho de brinquedo (Sally tinha pavor de ratos), consegue que ela, medrosa com a aproximação do ‘bicho’, se atire aos braços do marido.  Fazem as pazes e saem do escritório do advogado.


Metem-se no automóvel, onde disputam de novo, a propósito da manobra do carro que parte em grande velocidade. Sam é abordado por um inspetor de veículos e Sally protesta, procurando defender o marido.


O inspetor manda que ela alegue razões ao Juiz e mantém a multa, que Sally resolve pagar com o dinheiro que tinha guardado para comprar um novo chapéu.  Era a data do casamento dos dois.


Jorge Bagnal, amigo da família, fora à casa de Sam e Sally. Comentava a recente sentença de um Juiz, achando que era motivo pra divórcio o fato de uma esposa ter encontrado nos bolsos do marido um par de meias que não lhe pertenciam. E Sally achava ser tolice uma mulher requerer o divórcio por coisa tão fútil.


Mal sabia ela que seu Sam, tendo ido com fregueses a certo restaurante elegante, trazia para casa, numa das algibeiras, um par de meias que certa frequentadora do estabelecimento lá colocara, depois de um incidente interessante.


Sam é recebido aos beijos por Sally e o caso do divórcio provocado pelas meias indiscretas volta à baila. Sally continua na sua. Era um disparate alegar motivo tão frívolo para caso tão sério. O diabo, porém, as arma[iv] e, súbito, Sally descobre as meias que Sam tinha no bolso! E desabou a tempestade, terrível, tremenda. A lógica modificara-se e, na opinião da linda revoltada, já agora não havia homem que pudesse justificar uma ignomínia dessas!


Um par de meias de mulher usadas, no bolso do seu marido! Era o cúmulo da traição conjugal! Resultado: um novo processo de divórcio, um novo julgamento escandaloso, a justiça metida no lavar da roupa suja de mais um bêbado, um jogador! Sam era um bandido! Pobre Sam, que se torcia na sua cadeira de réu, sem poder contestar aquela série de coisas fantasticamente mentirosas.


O divórcio é decretado. E o Juiz Foster, grande analista do coração humano, compreendendo a verdade, dizia com seus botões que assim procedera para se ver se conseguia que aquelas duas ‘crianças’ tomassem juízo.


Sally fingia-se alegre com a liberdade, mas a verdade é que sofria, que se lembrava continuamente de Sam, que estava disposta a se lhe atirar nos braços de novo e a beijá-lo loucamente, se o encontrasse.


Estavam longe um do outro? Não. Enquanto Sally era hóspede do Juiz Foster, naquela elegante praia de banhos, Sam passava também ali as férias, na residência de uma família amiga.


E foi pelo próprio Foster, que lhe recomendava juízo, que evitasse se aproximar de Sam para não prejudicar a sentença definitiva do divórcio, que Sally veio a saber do paradeiro do marido.


Logo a sua ideia foi justamente fazer o contrário do que lhe recomendara Foster e nessa mesma noite penetrava na casa dos amigos do marido, disposta a reconquistar o bem perdido.


E ali se dão cenas deliciosas e imprevistas, complicações tremendas, até que a encantadora Sally cai de novo nos braços do marido, mandando às urtigas a Lei e todos os juízes que cortam a felicidade de duas criaturas que se amam.”


Na tela, o THE END. A orquestra executa os acordes finais. E bem podemos imaginar a seleta plateia da pequenina cidade do interior, reunida no aconchegante Cine São José, a gargalhar com as passagens engraçadas e, ao final, explodir em aplausos ante o desfecho apoteótico da cena comovente.


Cena do filme Meias de Seda. John Harron e Laura La Plante.


Cena do filme Meias de Seda. Willian Agustin e Laura La Plante. Revista Cinearte, RJ, 1928.


Cena do filme Meias de Seda. Otis Harlan. Revista Cinearte, RJ, 1928.


Cena do filme Meias de Seda. John Harron e Laura La Plante. Revista Cinearte, 1928.


Agradecimentos a Suely Lisboa pelas informações prestadas.

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NOTA


Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Max Philipsen. Fotógrafo de origem alemã. Em 1906, residia em Maceió na Rua do Cravo, nº 42, atual Rua Dr. Pedro de Mendonça, na Pajuçara. Em 1904, recém-chegado de Paris, ele trabalhava para a Fotografia Piereck, rua Dr. Rosa e Silva, 54, no Recife, como “retocador de retratos”, segundo notícias do Jornal do Recife e do Diário de Pernambuco, de 30 de agosto daquele ano.

[ii] A Ideia, 3 de setembro de 1911.

[iii] SANTOS, Gervásio F. dos. UM LUGAR NO PASSADO.

[iv] A expressão "as arma" (ou "o diabo as arma") é uma variação do ditado popular clássico "o diabo as arma e o tempo as desmancha". No contexto do texto, ela significa que as circunstâncias se alinham perfeitamente para criar uma cilada, uma confusão ou uma armadilha, fazendo com que um segredo seja descoberto. O significado da expressão funciona como sinônimo de "as coisas acontecem de forma a criar uma armadilha". Passa a ideia de que o destino (ou o "azar") conspirou para que o plano ou o segredo de Sam falhasse no pior momento possível.

domingo, junho 14

MEMÓRIAS DE UMA CASA DE FARINHA

 

Por Etevaldo Amorim


Uma casa de farinha. Desenho: Percy Lau, 1956.

Folheando um exemplar do jornal pão-de-açucarense A Ideia, datado de 12 de abril de 1910, deparei-me com uma notícia que me avivou a memória em um de seus pontos mais remotos. Recordei-me da farinhada, aquele animado mutirão que se fazia para o fabrico da farinha de mandioca.


Diz a nota:


Um padre que entende muito bem que não deve cuidar apenas da batina acaba de inventar no Ceará, ao cabo de 13 anos de investigações e experiências, um aparelho extremamente simples. Ele facilita extraordinariamente e reduz a despesa para triturar a mandioca, a fim de fazer farinha e artigos idênticos. As experiências públicas deram o melhor resultado. O padre, que se chama José Barbosa de Jesus[i] e descende de família de agricultores, concebeu essa ideia na adolescência, ao ver o trabalho com que seu pai macerava a paciência. Que os nossos agricultores se interessem pelo invento do benemérito patrício.”


Naquela época, para triturar a mandioca, era necessário girar manualmente uma grande e pesada roda conectada ao ralo (caititu). O invento do padre, patenteado como “Alavanca Barbosa”[ii], substituiu esse processo por um conjunto de alavancas e bielas. Acoplado ao eixo do triturador, o mecanismo reduzia drasticamente o esforço manual. O operador não precisava mais do movimento circular exaustivo: ao mover um braço longo para cima e para baixo — uma mecânica muito mais anatômica —, a força aplicada era multiplicada e convertida em uma rotação veloz no tambor de ralagem.


Lembrei-me da casa de farinha de meu pai, em um sítio de mangueiras e coqueiros, na velha Ilha do Limoeiro — no trecho que medeia a sua extensão entre a famosa Vila e o povoado Jacarezinho. Surpreendi-me ao constatar que, mesmo nos anos finais da década de 1960, o sistema utilizado era o tradicional.


A trituração da mandioca continuava sendo feita através do caititu acoplado a uma roda de aproximadamente um metro e meio de diâmetro, posicionada a cerca de três metros e meio de distância.


No caso da casa de farinha de meu pai, o eixo da roda se apoiava diretamente sobre um mancal — nada mais do que duas toras de madeira posicionadas em paralelo. Isso exigia um esforço enorme por parte dos dois operadores, que não podiam cessar o movimento giratório. Foi então que sobreveio um fato alvissareiro.


Naquela época, havia em Limoeiro um motor-gerador de energia elétrica. Para dar-lhe manutenção, a Prefeitura contratou um mecânico, o Sr. Valdemar, que morava na própria casa geradora da força. Esse prédio, um próprio municipal, passou a funcionar como sede do Correio a partir de 1970.


Pois bem, certo dia meu pai o convidou para ir ao sítio, na ilha. Chegando à casa de farinha, o mecânico verificou a roda, o eixo apoiado sobre o mancal, e comentou:


— Seu Agnelo, mas isso aqui é muito pesado! Por que o senhor não coloca uns rolamentos?


Meu pai não imaginava que essas peças pudessem servir para um equipamento tão simples. Seu Valdemar, então, se ofereceu para colocá-los, pois os tinha em casa. Alguns dias depois, lá estava a roda, com o eixo sobre os rolamentos, levinha, levinha.


Casa de farinha na Ilha do Limoeiro. Foto: Paulo Alves, 1988.

Minhas lembranças retroagem ainda mais no tempo. Meu pai se impusera no intento de montar a fabriqueta. Primeiro, construiu a casinha rústica, de taipa e coberta de telhas-canal. Depois veio a instalação dos equipamentos: o forno de ferro, a roda, o caititu, os cochos e a prensa.


Essa última foi a mais trabalhosa. Meu pai adquiriu a madeira adequada e foi em busca de um carpinteiro para confeccionar o parafuso e a porca (fêmea). Indicaram-lhe um mestre residente em Palestina, a que muitos, levados pelo costume, ainda chamavam de Retiro.


Chamavam-no Mestre Antero[iii]. Contratado para o serviço, ele chegou no dia marcado e instalou sua oficina debaixo de uma grande e velha marizeira que havia junto à cerca da lagoa da Igreja, já próximo ao rio.


Ele trabalhava com extrema maestria, e eu passava horas e horas a vê-lo executar o seu ofício. Primeiro, o parafuso[iv]. Talhando a madeira roliça, o artesão ia moldando os seus contornos com precisão milimétrica, resultando em uma bela peça de arte e de indiscutível utilidade.


Depois, a porca — ou fêmea —, etapa ainda mais delicada e complexa, executada quase totalmente às cegas, fazendo com que o passo da rosca coincidisse perfeitamente com o do fuso de madeira já esculpido.


Manejando formões curvos[v], Seu Antero cavava pacientemente o sulco em espiral por dentro da peça. Cada passagem era testada para garantir que as paredes internas ficassem no ângulo correto. O fuso de madeira era inserido aos poucos na porca. Onde a madeira raspava e travava, o carpinteiro removia o fuso e desbastava mais um pouco com o formão, até conseguir o encaixe perfeito.


Ao final de alguns dias, não lembro quantos, estava pronta a prensa. Equipamento rústico, mas de incontestável funcionalidade, concebido pelas mãos hábeis de Mestre Antero.


A prensa é um aparelho extremamente importante no processo. Depois de cevada a mandioca, aquela massa encharcada é colocada em sacos de estopa empilhados na mesa da prensa. A prancha superior é, então, baixada sobre a inferior. Acionado o parafuso, esta comprime os sacos com o material, fazendo com que o líquido escoe pelas canaletas e precipite no cocho colocado abaixo.


Submetida à pressão máxima, até não pingar uma única gota, a massa é retirada, destorroada, peneirada para retirada das crueiras[vi] e, enfim, levada ao forno.


O líquido, chamado manipueira[vii], é altamente tóxico, pois é composto de ácido cianídrico. No entanto, desse líquido tóxico decanta uma massa fina, a chamada goma (amido puro), que após lavada e seca é usada para fazer o beiju e a tapioca.


Eu admito que são lembranças de um simples escrevinhador. Mas como se trata de uma atividade tão genuinamente enraizada nas nossas maiores tradições, permiti-me compartilhar com os leitores, na esperança de que, cultuadores dessas mesmas tradições, me perdoem a pretensão de expô-las.


Uma prensa de casa de farinha. Fonte:  CAMACAM Workshop.

Parafuso e roda de caititu. Foto: acervo Marcelo Maciel.



Cilindro de caititu. Foto: acervo Marcelo Maciel.


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Nossos agradecimentos ao pesquisador e escritor Marcelo Maciel pelas informações.

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 



[i] Foi um sacerdote, monarquista ferrenho e professor do Liceu do Ceará. Filho do Cel. José Barbosa de Lima e de Francelina Rosa de Lima, nasceu em Baturité, Estado do Ceará, em 7 de setembro de 1854 e faleceu em Fortaleza, em 25 de junho de 1945.

[ii] Na RELAÇÃO DOS PRIVILÉGIOS DE INVENÇÃO, do Relatório do Ministério da Agricultura do ano de 1911, consta o registro do invento, sob número 6.091, de 12 de maio de 1911, denominado “MÁQUINA SISTEMA-ALAVANCA PARA REDUÇÃO DE MANDIOCA”.

[iii] Antônio Pedro da Silva Filho, “Mestre Antero”, nasceu em Bom Conselho, Pernambuco, em 8 de agosto de 1903 e faleceu em Palestina, AL, no dia 23 de junho de 1993. Chegou em Retiro, hoje palestina, em 1916. Segundo o escritor Marcelo Maciel, ele era tio-avô do atual Prefeito de Palestina, Jaime do Mercado (cujo nome de registro é José Djalma Gonçalves da Silva).

[iv] Medidas mais comuns: 135 cm de altura e base com 20,5 cm de diâmetro. Peso: 27 kg.

[v] Os formões curvos, também chamados de goivas, são ferramentas manuais de corte utilizadas na carpintaria e na escultura em madeira. Diferente de um formão comum, que possui uma lâmina reta e chata, a goiva possui uma lâmina em formato de arco (em "U" ou em "V").

[vi] Resíduo fibroso e grosseiro da mandioca que fica retido na peneira. Ela é composta por pedaços maiores da raiz que não foram totalmente triturados pelo ralador, além de fibras e pequenas cascas residuais.

[vii] O termo é composto pela junção de mani (da lenda de Mani, que deu origem à palavra mandioca) e pyera (suco, líquido ou o que emana).

quinta-feira, junho 4

A HISTÓRIA DA BANDEIRA E DO HINO DE PÃO DE AÇÚCAR

 

Por Etevaldo Amorim


A bandeira do município de Pão de Açúcar


Todos sabemos que os símbolos municipais foram instituídos por iniciativa do vereador Pedro Lúcio Rocha[i], que nos deixou no último dia 21 de maio. Cumpria ele o seu primeiro mandato quando apresentou, na Câmara, os projetos de lei que criaram a bandeira e o hino de Pão de Açúcar.


A BANDEIRA


O primeiro projeto, relativo à bandeira, foi aprovado pelos seus pares e sancionado pelo prefeito Augusto de Freitas Machado, resultando na Lei Municipal nº 394, de 10 de julho de 1969.


O pavilhão municipal é composto por três faixas horizontais nas cores verde, branca e azul-celeste, e traz o brasão de armas centralizado na faixa branca. O conjunto de símbolos representa a autoridade do povo, a geografia local e a história econômica do município, possuindo significado oficial.


Significado das Cores da Bandeira


As três cores carregam simbolismos específicos voltados à identidade local:


Verde: Representa a natureza regional, os campos e as caatingas que, embora castigados pelo clima, ressurgem em todo o seu esplendor ao primeiro sinal de chuvas.


Branca: Simboliza o desejo e a manutenção da paz social na comunidade.


Azul-celeste: Representa o firmamento e o céu aberto característico do sertão alagoano.



Elementos do Brasão de Armas


Efígie Indígena (Topo do Escudo): Substituindo a tradicional coroa mural, a cabeça de um índio ornamenta o topo do brasão. Este elemento simboliza os primeiros habitantes da região, como as tribos Urumaris e Chocós. Representa a ancestralidade, a resistência e o nome original da localidade antes da colonização: Jaciobá (que significa "Espelho da Lua" em tupi-guarani).


O Escudo Central:


Montes estilizados: Alusão direta à topografia acidentada local, destacando o histórico Morro do Cavalete, cuja forma (semelhante a uma forma de purificar o açúcar na época) batizou a fazenda que deu origem à cidade.


Ondas azuis e uma canoa: Representação do Rio São Francisco, via vital que banha a cidade, e da navegação tradicional, pilares do desenvolvimento econômico da região.


Ramos Agrícolas nas Laterais: O escudo é ladeado por ramos de arroz e algodão, culturas que constituíam a base econômica do município.


Listel (Faixa Inferior): A faixa cor de rosa, que traz o nome do município (Pão de Açúcar-AL), representa as manifestações culturais e folguedos populares. Segundo informações do jornalista Hélio Fialho, reproduzindo as palavras do próprio autor, o elemento homenageia: o coco de Rosa de Lia, a chegança de Zé Nica, o pastoril de Dona Julita, o reisado de Pedro da Paz e o candomblé de Abre-Ala (Tonho Capoeira). 


Segundo relatos da época confirmados por outras pessoas, a bandeira e suas designações, teriam sido concebidas pelas Irmãs do Colégio São Vicente (particularmente pela Irmã Odiliana), a partir da ideia original do autor Pedro Lúcio Rocha.


Pedro Lúcio Rocha, autor do projeto que instituiu a bandeira e o hino.

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O HINO


O Pe. José Nascimento, colaborador na letra do hino.


Já a proposição relativa ao hino foi aprovada pela Câmara e sancionada pelo mesmo prefeito em 15 de setembro de 1969, transformando-se na Lei nº 399.


Sobre as circunstâncias que cercaram a concepção e o desenvolvimento dessa ideia, tivemos a felicidade de receber uma mensagem do extraordinário músico, multi-instrumentista pão-de-açucarense, Billy Magno[ii], contendo uma entrevista que fizera com Pedro Lúcio no dia 15 de janeiro de 2020.


Nessa entrevista, Pedro Lúcio relata, em detalhes, os passos que teve de seguir para a concretização do seu intento, com preciosas informações que agora compartilhamos.


Em uma determinada sessão da Câmara de Vereadores, foi lido um expediente oriundo da cidade de Ouro Preto-MG. Era, na verdade, um convite para um evento dedicado a enaltecer o legado intelectual do Prof. José de Freitas Machado, in memoriam.


Após a leitura, foi aberta a discussão para escolher o representante do município, mas nenhum dos edis se apresentou. Pedro, que por intermédio de Aldemar de Mendonça (Seu Dema) já tinha consciência de quem era o Professor Freitas Machado, ofereceu-se para ir. Considerou que, como o homenageado era um legítimo pão-de-açucarense, tal convite não poderia ser desconsiderado. Ele mesmo falou com o prefeito Augusto Machado, que respondeu indicando o próprio vereador Pedro Lúcio Rocha.


Uma breve pesquisa nos dá a indicação de que o evento em questão foi, provavelmente, uma reunião comemorativa ou congresso acadêmico que celebrou o cinquentenário do movimento "Façamos Químicos", idealizado pelo professor José de Freitas Machado.


O professor Freitas Machado é historicamente reconhecido como o organizador e primeiro diretor da Escola Nacional de Química (fundada em 1933, atual Escola de Química da UFRJ).


Em 1918, ele publicou um artigo intitulado "Façamos químicos", considerado a verdadeira "certidão de nascimento" dos cursos regulares de química industrial no Brasil. Nesse texto, redigido em março de 1917[iii], ele conclamou os poderes públicos a criarem cursos superiores de química no Brasil.


Em 1968, completaram-se exatamente 50 anos desse marco fundamental. Para celebrar o jubileu de ouro do manifesto e homenagear a memória de seu criador, a comunidade científica e associações de química organizaram eventos comemorativos. Ouro Preto foi escolhida como um dos palcos simbólicos devido à forte ligação da cidade com o ensino técnico e mineralógico do país (por meio da histórica Escola de Minas).


Necessário observar que, na correspondência enviada, os promotores do evento pediram a bandeira e o hino do município. Informados de que estes não existiam, solicitaram os símbolos de Alagoas, no que foram atendidos.


Pedro viajou a Ouro Preto e, segundo seu relato, foi recebido com todas as honras como representante do povo de Pão de Açúcar, ao som do Hino de Alagoas. Ele notou, porém, que os demais delegados eram recebidos com as composições de suas respectivas edilidades. Ao retornar, inconformado com essa carência em sua terra natal, começou a se movimentar.


É aqui que surge um novo personagem nesta história: o professor Antônio de Freitas Machado (irmão do professor Freitas Machado). Pedro o procurou propondo que ele escrevesse a letra do hino. Alegando, com inteira razão, problemas de saúde para dedicar-se a tal empreitada, o velho poeta, uma das mais célebres personalidades da intelectualidade pão-de-açucarense, o aconselhou a buscar a ajuda de outra pessoa.


Depois de muito procurar e não encontrar ninguém, Pedro voltou para relatar a sua dificuldade. O professor, então, disse:


— Pois, então, já temos uma pessoa que pode fazer isso.


— Que bom! – alegrou-se Pedro, que perguntou:


— Quem?


— Você! — respondeu o mestre.


Pedro tomou um susto!


— Eu?!


Resignado, foi para casa e se entregou à tarefa. Depois de muito rabiscar – palavras dele- voltou ao professor. Seu Totonho disse que o que Pedro tinha feito estava bom, mas sugeriu que ele procurasse alguém para dar um “retoque final”.


Ele, então, procurou o padre José Nascimento[iv], que era seu amigo. Ainda que surpreso pela escolha do seu nome, o vigário aceitou colaborar. Tomou os “rabiscos” de Pedro e, alguns dias depois, mostrou-lhe uma versão, que acabou sendo a definitiva.

 

LETRA DO HINO DE PÃO DE AÇÚCAR


Eia! Avante, pão-de-açucarenses,
À procura do porvir,
Pois o solo em que nascemos
Terá que subsistir.

Estes montes circundantes
Nos convidam a galgar
As alturas fulgurantes
Do bem esmagando o mal.

Para a frente, jubilosos,
O sucesso procurar.
Jesus Cristo Redentor
Garantia há de nos dar.

Nosso slogan, jubilosos,
O sucesso procurar.
Jesus Cristo Redentor
Garantia há de nos dar.

Nosso rio grande e tão sublime.
Nosso povo tão gentil.
Nesse solo venerado,
Nessa plaga do Brasil.

Esta terra tão sublime
Nos convida a lutar.
Salve, ó terra idolatrada
Por nome Jaciobá!

(letra de Pedro Lúcio Rocha, com a colaboração do Padre José Nascimento, e música de Manoel Passinha (Manoel Capitulino de Castro)[v].

 

Elementos Históricos e Culturais Presentes na letra do Hino


Montes circundantes: Faz alusão à topografia local que cerca a cidade, especialmente o morro do Cavalete, a oeste; o morro do Faria, a Leste; e, mais ao Norte, a majestosa Serra do Meirus.


Jesus Cristo Redentor: Uma clara referência ao monumento do Cristo Redentor situado no topo do Morro do Cavalete, um dos principais pontos turísticos do município.


Nosso rio grande e tão sublime: Refere-se ao imponente rio São Francisco, que banha a cidade.


Jaciobá: O hino resgata o nome indígena original da região (Jaciobá significa "Espelho da Lua" em tupi), herança dos povos nativos que habitavam as margens do rio antes da colonização portuguesa.

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O maestro Manoel Passinha, aqui regendo a Orquestra Paganini. Foto MISA _foto MISA, cedida por Billy Magno.

Estava feita a letra do hino, mas faltava a melodia, observa o entrevistador.


- Como você conheceu Passinha? – quis saber.


Pedro, então, esclarece que, na casa de Dona Maroquinha[vi] (mãe de seu Elísio Maia), a qual frequentava com assiduidade, morava uma senhora que era irmã do maestro. Essa senhora era Maria de Castro, conhecida por Mariquinha.[vii]


Pedro lembrou-se de que Seu Dema já lhe havia dito que Manoel Passinha era um dos músicos "mais eficientes" do Nordeste. Foi assim que, por intermédio da irmã, conseguiu um contato com o famoso musicista.


De uma primeira tentativa, foi a Maceió e o procurou no 20º BC (Vigésimo Batalhão de Caçadores), mas não o encontrou. Na segunda vez, conseguiu falar com ele e marcaram de se encontrar na casa do militar, na Av. Santos Pacheco, 252, bairro do Prado.


O maestro aceitou a incumbência e marcou um novo encontro. No dia aprazado, o músico exibiu uma partitura e, com a batuta na mão, solfejava a melodia, pedindo a sua opinião sobre algumas versões.


— Prefere esta ou esta? Prefere esta ou aquela? Esta outra ou a primeira?


Até que chegou a uma de que Pedro Lúcio gostou e se decidiu por ela.

 

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Instituídos os símbolos municipais, foi feita uma gravação do hino em fita cassete, com música e voz, a fim de difundir a sua execução.


Lembro-me de quando cursava a 1ª série do ginasial no Ginásio Cenecista Dom Antônio Brandão: o diretor, Dr. Átila Pinto Machado, entrou na minha sala com algumas professoras para ensaiarmos a nova canção cívica.


Entre nós, estudantes, duas palavras causaram curiosidade: “slogan” e “plaga”. Mas logo os professores vieram em nosso socorro, explicando os seus reais significados.


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E assim, jubilosos e sob a proteção do Cristo Redentor, os habitantes deste solo venerado, nesse recanto do Brasil, passaram a ter os seus símbolos — uma flâmula e seus versos melódicos — para cultuar a sua história e enaltecer a força do seu povo.


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Nossos agradecimentos a Billy Magno pela cessão da entrevista com Pedro Lúcio Rocha; a Massilon Ferreira da Silva, Hélio Silva Fialho e Claudenice Bezerra por outras informações relevantes.


Para saber mais sobre o maestro Manoel Passinha acesse Passinha, maestro de todos os ritmos e instrumentos.

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Pedro Lúcio Rocha nasceu no povoado Agreste (então município de Pão de Açúcar; hoje pertencente a Monteirópolis), no dia 15 de junho de 1938, filho do casal Lúcio Rocha e Maria do Céu.

[ii] Williams Magno Barbosa Fialho. Filho de Yvan Silva Fialho e Núbia Barbosa, nasceu em Pão de Açúcar em 5 de julho de 1978.

[iii] AMORIM, Etevaldo Alves. FREITAS MACHADO, VIDA E OBRAS. EDUFAL, 2011.

[iv] José Nascimento de Oliveira nasceu em Palmeira dos Índios no dia 7 de setembro de 1936. Filho de Pedro Raimundo da Silva e Maria José do Nascimento.

[v] MANOEL PASSINHA. Manoel Capitulino de Castro nasceu em Pão de Açúcar no dia 11 de outubro de 1908. Filho de João Euzébio de Castro e Maria Luiza Souza de Castro. Eram seus avós paternos: José Dias de Castro e Luzia Francisca da Assumpção; e, maternos: Manoel Ferreira de Barros e Maria das Dores Pinto. Em 1933, casou-se com Alice de Sabóia Porto. O casal teve uma filha chamada Irma, falecida aos três meses de idade em 5 de dezembro de 1935. Moravam na Av. Santos Pacheco, 252, bairro do Prado, Maceió. Faleceu em Maceió no dia 3 de junho de 1993.

[vi] Maria Joaquina da Anunciação, filha de Manoel Fernandes e Joana Maria da Anunciação.

[vii] Maria de Castro (Mariquinha) faleceu em Pão de Açúcar, no dia 9 de abril de 1996.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

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Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


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PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

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Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia