domingo, abril 26

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FEITO MEMORÁVEL: TIME DE PÃO DE AÇÚCAR VENCE CAMPEÃO ALAGOANO

 

Por Etevaldo Amorim


Formação do IPIRANGA: De pé, a partir da esquerda: Chico Preto, Zé Baixo, Roque, Luiz de Vitória (ou seria Joabe?), Elísio e Albertino. Agachados: ____,____, _____,_____ e Germínio. Foto melhorada por Marcos Braga, a quem agradecemos.


Neste Blog, já tratamos das origens do nosso futebol, com a publicação, em 17 de janeiro de 2010, do artigo “CEM ANOS DE FUTEBOL EM PÃO DE AÇÚCAR", identificando a implantação desse esporte de origem inglesa entre o final de 1909 e início de 1910.


Recentemente, em 19 de junho de 2025, publicamos “ESPORTES COM BOLA EM PÃO DE AÇÚCAR – AS ORIGENS”, em que o futebol se destaca por ser, sem dúvida, o mais popular de todos.


Agora, passeando pelas páginas do jornal Gazeta de Alagoas, encontramos, na edição do dia 11 de julho de 1954, uma preciosa reportagem sobre um jogo realizado em Pão de Açúcar há quase 72 anos.


Aquele 4 de julho de 1954 entraria para a história como o dia em que um time praticamente desconhecido desbancou o Campeão Alagoano de Futebol. Esse time foi o Ipiranga, que representava o Centro Cultural Ipiranga, fundado em 7 de setembro de 1949, sob a presidência do Sr. Eraldo Lacet Cruz.[i]


O Ipiranga vinha de uma estrondosa vitória por 5 x 0 sobre o Grêmio Esportivo Deodorense, da cidade de Marechal Deodoro. Essa agremiação, fundada em 1º de maio de 1948, possuía uma equipe que se destacava no Campeonato do Interior, cuja formação básica era: Né, Antônio Cícero e Agnaldo; Paulo, Cícero e Aquino; Juca, Gersino, Avelino, Zé Ramos e Luiz.[ii]


IPIRANCA x ASA DE ARAPIRACA


Time do ASA campeão alagoano de 1953.


Pois bem, para o dia 4 de julho de 1954 foi marcado um jogo amistoso entre as equipes do Ipiranga e do ASA – Associação Sportiva de Arapiraca. O ASA, fundado em 25 de setembro de 1952, ostentava o título de Campeão Alagoano de Futebol de 1953.


Naquela época, o certame era disputado em dois Grupos: Grupo da Capital e Grupo do Interior. Em melhor de três disputada com o CSE – Centro Social e Esportivo, de Palmeira dos Índios, o ASA foi campeão do Interior. Já o Ferroviário, comandado pelo técnico Madalena, o conhecidíssimo Tenente Madalena (José Ribeiro Madalena), sagrou-se campeão do Grupo da Capital superando o CRB.


O campeão seria conhecido em disputa de “melhor de três”. Entretanto, o Ferroviário se negou a jogar em Arapiraca. Com isso, a Federação Alagoana de Desportos, através do Ato nº 6, de 20 de março de 1954, declarou o ASA campeão alagoano de 1953.


Com a manchete ASA CAMPEÃO, a Gazeta de Alagoas, de 7 de abril de 1954, publicou o Ato da Federação:


“Ilmº Sr. Cronista Desportivo da Gazeta de Alagoas, para vosso conhecimento e devidos fins, transcrevo a seguir o Ato nº 6, da presidência desta Entidade, concebido nos seguintes termos:


‘Ato nº 6. O Presidente da Federação Alagoana de Desportos, usando da atribuição que lhe confere o Estatuto em vigor, e tendo em vista o relatório apresentado pelo Diretor-Geral de Desportos,


RESOLVE proclamar CAMPEÃO ALAGOANO DE FUTEBOL DE 1953, na classe de amadores, a Associação Sportiva de Arapiraca.


Dê-se ciência ao interessado e publique-se.


Federação Alagoana de Desportos, em 20 de março de 1954.


Ass. Major Kleber Rodrigues de Andrade – Vice-Presidente em Exercício.'


‘Valho-me do ensejo para apresentar a V. S meus protestos de consideração e grande estima.

“Unidos Venceremos”!


CLÁUDIO DA ROCHA LIMA, Secretário-Geral.”

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O ASA CHEGA A PÃO DE AÇÚCAR


Às 10 horas da manhã daquele dia, a equipe visitante foi recepcionada pelos dirigentes do Centro Cultural Ipiranga: Eraldo Lacet Cruz[iii], Pedro Netto[iv], Miguel dos Anjos[v], José Duarte Machado[vi], Virgílio Silva Filho[vii] e Odilon Rodrigues dos Mártires[viii].


No Hotel Vitória, onde ocorreu a recepção, a delegação arapiraquense foi saudada pelo acadêmico Carlos dos Anjos Filho[ix], que “expressou a satisfação dos desportistas locais pela honrosa presença, naquela cidade, do campeão alagoano de futebol.” Em seguida, falou o presidente do ASA, Sr. Manoel Brasil Leão da Costa, agradecendo a hospitalidade[x].


Hotel Vitória, local da recepção à delegação do ASA.
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O JOGO


Às 15:40h, calor de rachar, começou o jogo. Coube ao atacante Cecé, do ASA, dar o pontapé inicial. O time arapiraquense tratou logo de impor o seu jogo, "investindo constante e perigosamente à meta guarnecida por Roque, considerado um dos melhores goleiros do Estado" - diz a reportagem.


Mas os jogadores do Ipiranga não se intimidaram com o toque-de-bola do adversário e, aos 7 minutos, num surpreendente e bem arquitetado contra-ataque, o centro-avante Bebé, numa de suas arrancadas características, marcou o primeiro gol da partida. Os torcedores vibraram intensamente com gritos e aplausos.


O time do ASA reagiu imediatamente, passando a jogar com mais cuidado e objetividade. Mas encontrava sempre uma defesa forte e bem postada, destacando-se o zaqueiro-central Chico Preto que, ao lado do Centro-Médio Joab e do Médio-Esquerdo Albertino, formavam uma barreira difícil de ser vencida.

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O ESQUEMA DE JOGO[xi]


Façamos aqui uma breve reflexão. Considerando a nomenclatura das posições citadas, tudo indica que o Ipiranga adotava um sistema de jogo conhecido como WM Diagonal (ou simplesmente “Diagonal”), que era a variação brasileira do tradicional sistema WM (3-2-2-3).


Criado pelo treinador inglês Herbert Chapman, do Arsenal, em meados da década de 1920, o sistema WM substituía o velho "2-3-5", também conhecido por Pirâmide.


Ele foi trazido para o Brasil pelo técnico húngaro Izidor Kürschner (Dori Kürschner) que, em 1937, era treinador do Flamengo, e chegou a aplicar esse sistema no Botafogo pouco tempo depois.


Funcionava com 3 zagueiros (números 2, 3 e 4), dois meias defensivos (5 e 6), dois meias ofensivos (8 e 7) e três atacantes (9, 10, e 11). A essência do novo esquema de Chapman era o recuo do centromédio (número 3), de modo que ele exercesse a função de um zagueiro central. Dessa forma, defesa ficava mais protegida com o estabelecimento de 2 meias defensivos, o que possibilitou uma melhor marcação dos atacantes adversários.


Flávio Costa, que fora seu auxiliar e sucessor no comando do Flamengo, introduziu, por volta de 1941, uma pequena alteração, concebendo o que viria a ser chamado WM Diagonal.


Enquanto o WM original era simétrico e "quadrado", a Diagonal trazia uma assimetria que se adaptava melhor ao talento e ao improviso dos jogadores brasileiros.


Como funcionava esse sistema?


Primeiro, a Queda da Simetria. No WM europeu, os dois médios (volantes) e os dois meias (armadores) formavam um quadrado perfeito no meio de campo. Na Diagonal, esse desenho era inclinado.


Um dos médios (o médio-apoiador) jogava mais avançado, quase como um meia. Um dos meias (o meia-armador) recuava para ajudar na saída de bola. Isso criava uma linha inclinada (diagonal) no meio de campo, facilitando triangulações e troca de passes a curta distância.


A posição de zagueiro-central surgiu da necessidade de recuar um jogador do meio-campo para a defesa a fim de marcar o centroavante adversário. Na Seleção Brasileira na Copa de 1954 (com Zezé Moreira), esse zagueiro-central era o defensor que atuava pelo meio da área. No Ipiranga, essa função cabia ao nosso Chico Preto.


O Centro-médio (ou Médio-centro) era o jogador que atuava à frente da defesa, cabendo-lhe fazer a marcação no setor central e iniciar a transição para o ataque. No sistema Diagonal, um dos médios era mais recuado e defensivo. Aqui estava o Joab (seria o Sr. Joab Carnaúba, pai de João, Rita e Moabe?)


Já o Centroavante era o atacante centralizado, que atuava como ponto mais avançado da equipe, principal responsável por finalizar as jogadas e marcar gols. No ataque do Ipiranga, aí estava Bebé Gaita.


O esquema WM europeu.

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VOLTEMOS AO JOGO


Aos 28 minutos - diz o jornal - o atacante Cecé, "completamente livre e quase à queima-roupa, atirou um formidável petardo no canto esquerdo, que Roque defendeu de munhecaço, salvando um gol certo e fazendo vibrar a torcida com seu feito espetacular."


Finalmente, aos 43 minutos, o ataque do ASA consegue superar a retranca ipiranguense e faz o gol de empate por intermédio de Everaldo.


Voltando as equipes para o segundo tempo, verificou-se uma mudança significativa no panorama da partida. O Ipiranga, que passara quase toda a primeira etapa na defensiva, passou a atacar incessantemente, graças às alterações processadas pelo técnico José Duarte.


Com o incentivo da torcida e exibindo um perfeito entrosamento entre a defesa e o ataque, o Ipiranga agigantou-se dentro de campo, dominando por completo o poderoso adversário que, atordoado pela reviravolta, não conseguia se reencontrar.”


E prossegue o repórter da Gazeta: “Os lances mais sensacionais foram apreciados no segundo tempo, brindando a numerosa assistência que não se cansava de aplaudir as espetaculares jogadas dos cracks, naquele duelo de gigantes. A turma verde e amarela procurava a todo custo desempatar a peleja. Padeiro, Vavá, Germínio e Gaita excursionavam sempre e perigosamente à meta adversária, pondo em polvorosa a defesa do ASA onde, como pontos altos da equipe se destacavam, Graça Leite e Orizon...”


Aliás, Graça Leite havia defendido o Auto Esporte (de Maceió), campeão do 1º Turno do Grupo da Capital, no campeonato de 1953. Orizon, por sua vez, defendera o Ferroviário, campeão da Capital.

 

O DESEMPATE E A VITÓRIA   


Obstinado pela vitória, o Ipiranga persistia no ataque. Assim, com força e determinação, aos 4 minutos do segundo tempo, numa investida bem armada dos seus atacantes, o extrema esquerda Germínio, bem colocado na área, recebendo um passe de Vavá, atira para o gol com força e boa direção. “Ao tentar salvar, o zagueiro Cícero o faz com infelicidade, não podendo impedir que a bola se aninhasse no fundo das redes.” – conclui a reportagem da Gazeta.


Gol do Ipiranga!!!  O time de Pão de Açúcar permaneceu à frente do placar até o final da partida. Ao apito do juiz, a torcida explode em festa e invade o campo para abraçar os bravos jogadores.


Vitória épica! Feito memorável!


E o Blog do Etevaldo, passados esses 72 anos, utilizando-se dos recursos da História, tem o prazer de festejar com os pão-de-açucarenses essa vitória sensacional.

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IPIRANGA X PROPRIÁ


Ainda naquele mês de julho de 1954, no dia 23, domingo, o Ipiranga jogaria contra o Esporte Clube Propriá, empatando por 2 x 2.


Terminou o primeiro tempo com o Ipiranga vencendo por 2 x 0. Mas, no segundo, o Propriá reagiu e, aproveitando-se de algumas substituições infelizes do Ipiranga, bem como da falta de preparo físico de seus jogadores, conseguiu empatar a partida. Registre-se ainda que o juiz deixou de assinalar um fragoroso pênalti em favor do Ipiranga.[xii]

 

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RECONHECIMENTO HISTÓRICO

Os jogadores do Ipiranga figuram, ainda hoje, entre os melhores craques do futebol da nossa terra. Tanto que o jornal O CLARIM, em sua edição de 4 de abril de 1972, pelo seu colunista esportivo José Alves da Silva (Zé Papaió), num trabalho de pesquisa entre os torcedores daquela época, escalou duas seleções pão-de-açucarenses de todos os tempos: a primeira, de 1950 a 1960, tinha a seguinte formação: Roque, Zé Baixo, Chico Preto, Luiz de Vitória, Albertino, Elísio Tri, Geremias, Zé de Ercília, Vavá, Manoel Gustavo[xiii] e Germínio[xiv]. A segunda, situada entre 1961 e 1971, formava assim: João Jorge, Deustete, Irineu, Tempero, Murilo, Guri, Carlos, Romeu, Jair, Bobito e Edilson.


Notem que, sendo essa última “seleção” limitada ao ano de 1971, ainda não considerava Berêu, Fernandinho, Baiaco, Cananô, Motorzinho... e tantos outros craques que se destacaram em sua terra e em outras plagas.


O Sr. Miguel dos Anjos, dirigente do Ipiranga.



Virgílio Silva Filho (Virgilinho), dirigente do Ipiranga.



O Sr. Pedro Teixeira Netto, dirigente do Ipiranga.


O Sr. Eeraldo Lacet Cruz, fundador e primeiro presidente do Centro Cultural Ipiranga.




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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 

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Vavá (Napoleão Brandão de Souza), conhecido por "Vavá de Cosete". 
Bebé Gaita (Adalberto Pedro da Cruz).

Rogamos aos prezados leitores e leitoras que se, porventura, tiverem alguma informação que complemente esta história, utilizem os comentários. 





[i] MENDONÇA, Aldemar de. PÃO DE AÇÚCAR-HISTÓRIA E EFEMÉRIDE. 1974.

[ii] Gazeta de Alagoas, 16 de setembro de 1954.

[iii] Eraldo Lacet Cruz. Natural de Penedo-AL. Coletor Federal e ex-prefeito de Pão de Açúcar. Filho de José Cruz Silva e Othília Lacet de Vasconcelos.

[iv] Pedro Teixeira Netto. Fiscal de Rendas. Filho de Teóphilo Teixeira Cavalcante e Helena Maia. Pai de José Alcir dos Anjos.

[v] Miguel Oliveira dos Anjos. Comerciante. Filho de Antônio Oliveira dos Anjos (conhecido por Vigário) e de dona Maria da Glória dos Anjos. Seus avós paternos eram Agostinho Vieira dos Anjos e Francisca Rosa dos Anjos. E os maternos eram Antônio Ferreira Machado e Ritta Duarte de Albuquerque. Pai do Eng. Antônio Guimarães Neto e Maria da Conceição Guimarães dos Anjos.

[vi][vi] José Duarte Machado, funcionário da Comissão do Vale do São Francisco.

[vii] Virgílio Silva Filho, “Virgilinho”. Filho de Virgílio da Silva e Maria Felicidade Silva. Irmão de “Zé Papaió” (José Alves da Silva) e tio de “Guri” (ex-jogador do Internacional na década de 1970). Faleceu em Palmeira dos Índios em 19 de abril de 2016.

[viii] Odilon Rodrigues dos Mártires. Filho de Tertuliano Serafim dos Mártires e Maria Francisca de Jesus. Irmão do ex-Vereador Gérson Serafim dos Mártires e pai das professoras Marilena e Lucy, e dos conhecidíssimos Romeu, Edson (Dédo) e Edivalda. Faleceu em Pão de Açúcar em 24 de novembro de 2000.

[ix] Carlos dos Anjos Filho. Advogado. Filho de Carlos Serafim dos Anjos e Maria do Carmo Silva.

[x] Manoel Brasil Leão da Costa, coletor federal em Arapiraca. Natural de Óbidos, Estado do Pará, filho de Pacífico Siqueira da Costa e Vitorina Vieira Leão da Costa. Junto ao então prefeito Luiz Pereira Lima, ao Padre Epitácio Rodrigues, Dr. Coaracy da Mata Fonseca, Dr. Nelson Rodrigues, Dr. Claudionor Albuquerque Lima e a Professora Maria de Lourdes Queiroz, fundou o Ginásio Nossa Senhora do Bom Conselho em Arapiraca.

[xi] ESQUEMAS TÁTICOS DO FUTEBOL. Blog HISTÓRIA DO FUTEBOL. Disponível em: <https://historiadofutebol.com/blog/?p=10919>

[xii] Gazeta de Alagoas, 30 de julho de 1954.

[xiii] Manoel Gustavo dos Santos. Filho de José Gustavo dos Santos e Maria da Glória Santos. Irmão de José Gustavo Filho – “Seu Jaú”, funcionário da F-SESP.

[xiv][xiv] Germínio Araújo Costa. Vereador nas Legislaturas 1970/72 – 1973/76 e 1977/82, tendo falecido antes de concluir este último período. Nasceu em Pão de Açúcar em 10 de outubro de 1925 e faleceu em Batalha no dia 21 de abril de 1979. Filho de Luis Paulo Costa e Filomena Emília de Araújo. Casado com dona Sofia Goes Gosta, teve os filhos Reginaldo (Régis, que foi goleiro do C. S. Internacional) e Régia Maria.

segunda-feira, abril 20

UMA VALSA CHAMADA “GUIOMAR”

 

Por Etevaldo Amorim


Partitura da valsa "Guiomar", de Agérico Lins, 1915. Acervo de Tonho do Mestre, via Billy Magno.


Música com nome de mulher. Essa conjunção de melodia, harmonia e ritmo com amor e devoção pode ter sido a motivação de tantos compositores que, pelas mais diversas razões, as distinguiram para denominar suas composições, eternizando seus nomes em famosas canções, muitas delas obras-primas da música popular brasileira. 


Em diferentes épocas e nos mais variados estilos, são fartos os exemplos: Carolina e Bárbara (Chico Buarque e Ruy Guerra, parceiro nesta última); Luiza e Lígia (Tom Jobim); Madalena (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza); Ai que saudades da Amélia (Mário Lago e Ataulfo Alves); Anna Júlia (Los Hermanos); Chica da Silva (Jorge Ben); Camila (Nenhum de Nós); Daniela (Biquini Cavadão).


Em nosso caso, a merecedora do título de uma linda valsa é uma mocinha de nome Guiomar, natural de Coruripe e filha do capitão José Pinheiro da Silva e da dona Luzia Lessa Pinheiro, e que, por volta de 1906, morava na Rua Barão de Anadia, nº 6, em Maceió.[i] Ela não traz uma letra que lhe enalteça as virtudes, ou um poema que lhe evoque. Mas emite uma melodia suave e dolente, que toca fundo na sensibilidade de quem a ouve.

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Logo adianto que as informações que aqui reproduzo vêm do artigo Guiomar Uma linda valsa para banda, do prezado amigo e conterrâneo Billy Magno, no seu precioso blog Filarmônica Mestre Elísio.


Williams Magno Barbosa Fialho[ii], esse multi-instrumentista, arranjador e maestro, que muito nos orgulha, fez um trabalho magnífico sobre essa valsa de autoria do renomado músico alagoano Agérico Lins[iii].


Diz ele:


“Conheci esta valsa quando estive na casa de Tonho pela primeira vez em maio de 1995 pesquisando outras obras, mas, somente em abril de 1997, quando lá estive novamente, ela chegaria em minhas mãos.”


“Escrita em 1915, esta obra demonstra a maturidade artística do compositor numa simples e dolente melodia bem ao gosto da época, mas em tonalidade tecnicamente difícil (mi bemol menor) e não muito usual para instrumentos de sopro.”


“Em 1944, ela passaria por uma primeira revisão feita por Mestre Nozinho, que em 30 de junho refez a parte de pistom e acrescentou, em 7 de julho, a parte de sax alto, enquanto seu aluno Racine Bezerra Lima[iv] copiou a parte de baixo em dó. A segunda revisão foi feita por mim em setembro de 1997 quando acrescentei partes de 3º clarinete e 3º pistom, ampliando a orquestração.”


“Na revisão feita para esta edição, foram eliminados os costumeiros erros ou enganos dos copistas da época e acrescentadas as partes de flauta, sax tenor e sax barítono, mantidas as de sax alto e baixo em dó da revisão de 1944, assim como as de 3º pistom e 3º clarinete da revisão de 1997, nenhuma delas constante da orquestração original de 1915.”


“Hoje, 103 anos depois de ter sido escrita, temos finalmente a 1ª edição da bela valsa Guiomar, para que enfim se faça justiça à memória do pioneiro maestro alagoano Agérico de Azevedo Pontes Lins.”

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Utilizando-se do software Sibelius,[v] Billy conseguiu a reprodução da valsa “Guiomar” com base na partitura do acervo do Mestre Nozinho, preservada pelo seu filho Antônio Melo Barbosa (Tonho do Mestre).


E ficou de tal modo perfeita, que, ao ouvi-la, é como se nos transportássemos no tempo, adentrando os elegantes salões daqueles tempos, ou mesmo a imponente Catedral de Maceió, onde provavelmente foi executada, no ato de casamento de Augusto com a mocinha da “Barão de Anadia”.


O nome da valsa foi um presente de Agérico Lins por ocasião do casamento de Augusto de Freitas Machado com a jovem Guiomar Lessa Pinheiro[vi], celebrado no dia 17 de julho de 1915, pelo Monsenhor Freitas (tio do noivo), na catedral de Nossa Senhora dos Prazeres, em Maceió, por licença do Cônego João Machado de Mello.


Em seu artigo, Billy especula sobre as razões de o autor ter atribuído esse nome a sua valsa. É que, sendo também militar, Agérico naturalmente tinha ligações com o pai da moça. Provavelmente muito mais do que com o jovem Augusto, de apenas 20 anos de idade e que trabalhava como Auxiliar do Comércio em Maceió. Entretanto, a dedicatória contida na partitura original deixa claro que se tratava de uma distinção ao noivo: “Composta e dedicada no auge de consideração ao sympáthico moço Augusto de F. Machado D.D. auxiliar do comércio, 1915”


E vai ainda mais além o nosso Billy:


“Não seria demais arriscar que esta valsa poderia ter sido composta para ser executada pela banda de música da Polícia Militar sob regência do próprio compositor no enlace de Augusto e Guiomar ocorrido em 17/07/1915, talvez na própria igreja, fato esse que, por falta de fontes, permanece como mera especulação”.


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Dona Guiomar Pinheiro Machado, 1935.


Augusto de Freitas Machado, 1935.



Dentre o rol das primeiras-damas de Pão de Açúcar — de Dona Rosa de Albuquerque Novaes à atual, a Sra. Soraya Omena Dantas — Dona Guiomar foi a que ocupou o posto por mais tempo. Ao longo de três mandatos de seu esposo, o prefeito Augusto de Freitas Machado, ocorridos entre 1932 e 1970, ela ostentou o título por 4.326 dias.


Dona Guiomar Lessa Pinheiro (Pinheiro Machado após o casamento) faleceu em 6 de março de 1972. Era, como já dissemos, filha do Cap. José Pinheiro da Silva e de dona Luzia Lessa. Tinha como avós paternos: José Pinheiro da Silva e   Rosalina Francisca de Lima; e, maternos:  Antônio Pedro de Araújo Lessa e Umbelina de Lima Lessa.

 


A valsa "Guiomar". Clique aqui e ouça. (Youtube José Gomes Brandão)


O autor da valsa Agérico Lins, 1924.


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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Gutenberg, 16 de janeiro de 1906.

[ii] Filho de Yvan Silva Fialho e Núbia Barbosa, nasceu em Pão de Açúcar em 5 de julho de 1978.

[iii] Agérico de Azevedo Pontes Lins. Filho do Major Genuíno dos Prazeres Pontes Lins e Idalina Pontes de Azevedo, nascidos em Portugal. Ao chegarem ao Brasil, já casados, se fixaram em Passo de Camaragibe-AL, na época uma pequena vila e lá tiveram seus filhos sendo o primogênito, Agérico de Azevedo Pontes Lins, nascido em 1862.  Único músico profissional da família, Agérico foi trompetista, trombonista, flautista, Maestro Agérico Lins (1924). Compositor, maestro e segundo o escritor Raul Lima (1911-1985), primeiro regente da banda de música União Camaragibana, fundada em 30/10/1890.Casou-se com Anysia Accioly Lins (nascida cerca de 1864 e falecida por volta de 1955) e tiveram 18 filhos, mas criaram-se apenas Odolino (1894-1973), Regina (1897-1937), José Maria (nascido cerca de 1900 e falecido por volta de 1959) e Idalina (1907-1936). Por decreto do Ministério da Justiça de 30/09/1895, é nomeado 2º tenente da 3ª bateria do 7º batalhão de artilharia de posição, na comarca de Camaragibe, conforme publicação do Diário Oficial da União (DOU) em 05/10/1895.  Pouco depois, se muda com a família para o bairro da Levada em Maceió-AL. Conforme o escritor Félix Lima Júnior (1901-1986)8 foi maestro da banda de música da Polícia Militar do Estado de Alagoas, embora seu prontuário não tenha sido encontrado, por ser anterior a 1919, data da organização do fichário geral.  (Dados biográficos coligidos por Billy Magno.)

[iv] Racine Bezerra Lima, militar e músico, nasceu em Pão de Açúcar em 19 de março de 1926 e faleceu em Salvador em 5 de agosto de 2018. Filho de João Bezerra Lima e Laura Gonzaga da Silva Lima.

[v] Sibelius: programa de notação musical que permite criar, editar e imprimir partituras complexas, além de reproduzir a música usando bibliotecas de sons de alta qualidade,

[vi] Guiomar Pinheiro Lessa, filha do Cap. José Pinheiro da Silva e de dona Luzia Lessa. Eram seus avós paternos: José Pinheiro da Silva e   Rosalina Francisca de lima; e, maternos:  Antônio Pedro de Araújo Lessa e Umbelina de Lima Lessa.





 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia