sábado, agosto 29
GASTÃO E ENEIDA NA PÃO DE AÇÚCAR DOS ANOS 60
Por Etevaldo Amorim
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| Pão de Açúcar-AL, anos 1960. Av. Ferreira de Novaes, vendo-se a casa onde residiu o casal Gastão e Eneida, logo após o sobrado. |
Para além dos dados históricos e geográficos de Pão de
Açúcar, já fartamente tratados neste Blog, há sempre a opção de confirmar ou
até colher novas informações sobre a nossa terra. Para tanto, empreendemos
pesquisas em jornais e revistas nas hemerotecas de todo o país.
Foi assim que chegamos a um belo registro histórico,
geográfico e, acima de tudo, afetivo da década de 1960, em que Pão de Açúcar
serve de cenário e se torna objeto de observações verdadeiramente
significativas. Nele, cruzam-se os caminhos de Gastão Pinto Batinga e sua
esposa, a mineira Maria Eneida, em uma preciosa correspondência de memórias com
o Professor Eurico Silva[i],
catedrático do Colégio Estadual em Uberlândia, Minas Gerais.
Gastão Pinto Batinga[ii],
embora nascido em Penedo-AL (em 6 de janeiro de 1924), tem origens em Pão de
Açúcar, já que é filho de Elisa Soares Pinto (filha de José Soares Pinto e
Isabel Alves Feitosa Pinto, “dona Bela”). Seu pai, o penedense Otto Batinga,
casado com Maria Emília Furtado Ribeiro Soares, é filho de Jesuíno de Araújo
Batinga (irmão do bispo Dom Jonas Batinga).
Na década de 1940, ele residiu no Estado do Paraná, onde foi Secretário
da Federação dos Escoteiros do Paraná e Santa Catarina. Da Diretoria, também fazia
parte o escritor Dalton Trevisan, contista conhecido como “O Vampiro de Curitiba”.[iii]
Posteriormente, foi para o Rio de Janeiro, onde foi
jornalista e militante político. Daí foi para Minas Gerais, fixando-se em Uberlândia,
a progressista cidade do Triângulo Mineiro. Lá conheceu Maria Eneida.
Depois de casados, residiram em Pão de Açúcar por algum tempo,
na década de 1960. Morando ou apenas visitando, esse descendente dos “Soares
Pinto” ainda era visto por lá em fins de 1968.
Cartas de Maria Eneida endereçadas a seu professor Eurico
Silva, suscitaram o artigo, publicado no jornal uberlandense O REPÓRTER, edição
de 23 de março de 1963, sob o título INFORMAÇÕES QUE SE PRESTAM:
“Distante 180 km da Capital, na zona do Sertão do São
Francisco, à margem esquerda deste, divisa com Sergipe, a Sudoeste de Alagoas –
localiza-se a cidade de Pão de Açúcar (1854), resultante de desdobramento desde
Penedo (1636), Traipu (1835) e Mata Grande (1837).
O nome denomina também uma serra nas suas proximidades; um
penhasco de 400 metros, na entrada da baía da Guanabara; pico de uma das ilhas
de Cabo Verde, com 1.300 metros; e ainda o título de um filme que está sendo
rodado em Jacarezinho, São Paulo.
Região outrora habitada pelos selvícolas urumaris e amoipiras[iv].
Sergipanos e os nativos fundaram o povoado que fica trinta
metros acima do nível do mar, e para aí os trouxe a navegação fluvial que,
através dos tempos, vem disseminando cidades ribeirinhas por toda essa imensa
região sertaneja.
A essa grande sesmaria de Lourenço José de Brito, deu início,
em 1660, a formação do núcleo populoso, exatamente ao lado do Morro do Pão de
Açúcar e próximo da lagoa de mesmo nome.
Criado o município em 1854 e instalada a sede, com os foros
de cidade em 1877.
Na antiga Vila, esteve duas vezes hospedado na viagem de ida
e volta à cachoeira de Paulo Afonso – dias 17 e 22 de outubro de 1859 – o
Imperador D. Pedro II, e cuja visita ficou registrada numa inscrição em bronze
ao lado da grande queda onde hoje funciona a notável Usina elétrica que serve
cinco Estados da Federação.
Na cidade é de se crer ainda exista o prédio assobradado,
construído em 1854, para Casa da Câmara e que agasalhou a comitiva imperial.
A área do município é de 665 km², contando uma população de 12.768
habitantes.
Servem os munícipes várias empresas de navegação fluvial,
para transporte de gado, de mercadoria e de pessoas, em toda a extensão
navegável, desde Pirapora – norte de Minas, até Juazeiro, na Bahia; e de
Marechal Floriano (Piranhas) além da Paulo Afonso até a foz do grande rio
brasileiro, que é uma escada rolante de 1.160 km².
Ao lado do trecho encachoeirado, intermediário, construiu-se
uma via férrea de 116 km de extensão.
Sabemos contar Pão de Açúcar com uma avenida de 700 x 42
metros, plana, como de resto todo aquele sítio; e arborizada com fícus. Ah, se ‘lacerdinhas’
[v]soubessem
disso e ainda com aquele calor que sobe a 40 graus!...
No Museu Nacional encontram-se alguns fósseis, achados nesta
beira de rio, ossos petrificados que Agassiz, paleontólogo suíço, calculou de
terem mais de cinco mil anos."
___ *** ___
“A minha jovem e gentil afilhada uberlandense Maria Eneida,
que permanentemente lá está nesses ermos interioranos do Nordeste brasileiro, numa
carta destes dias, a mim motivou a súmula histórico-geográfica que acima se lê,
e que será completada com as suas informações, produto de novos conhecimentos
seus em um meio físico e social que até há pouco lhe era estranho.
Talvez uma indiscrição de minha parte, porém mal algum advirá
daí, mas o benefício das breves informações que nos deliciam e aclaram pelas
suas novas.
Realizamos, então, um intercâmbio cultural. Vai um trecho da
carta amiga.
Estou mesmo pensando em lhe despachar uma mensagem em pétala
de rosa, com bonita frase e o nome de Uberlândia. Mandá-la-ia, se possível,
pelos bons préstimos do rio que, é e a propósito “o da unidade nacional” –
soltando-a na superfície dessas águas que brotam aqui mesmo perto, na Serra da
Canastra, e que lh’a levaria de bom grado, como tem levado àqueles ermos o
bafejo da civilização.
Maria Eneida deixou há pouco esta Mesopotâmia e, nas asas de
Cupido, acompanhou Gastão Batinga por esse mundo afora de nosso tão querido
quanto imenso Brasil.”
‘Ele – o Relatório – será sobre a feira do Nordeste, melhor
dito, de Pão de Açúcar, verdadeiro mercado oriental, que passei a gostar e
admirar imensamente.
A feira de Pão de Açúcar é um espetáculo pelos seus tipos
humanos e pela variedade de cores e surpresas que nos oferece. Ela tem a beleza
bárbara do agreste, grandeza e abundância. É um acontecimento sócio-econômico
de fundamental importância para a cidade e fazendas à margem do rio. Tudo na
feira se compra e se vende. Todos os encontros são marcados para o seu dia. Dia
de feira é dia de festa.
Desde que aqui cheguei, todas as segundas-feiras vou “fazer
feira”. Gosto de seu movimento, de seu barulho peculiar, mas não aprecio
muito o seu cheiro, mistura de suor, verduras e frutas passadas. Todavia, as
feiras são sempre assim aqui, no Sul ou em qualquer outra parte.
Dou-lhe aqui uma relação de frutas que, desde outubro, estão
aparecendo com grande abundância e frequência: manga, laranja, abacate, mamão,
abacaxi, pinha, maracujá, melancia, banana, jaca, sapoti, sapota e uva. Esta
última é espetacular!
Em abril, com o inverno, teremos o umbu e o jenipapo.
A carne de sol que preparam por aqui é excelente. Melhor que
a de Bagagem.
Também se encontram na feira: alface, cenoura, couve,
repolho, batatas as mais diversas, pimentão, tomate e todas as especiarias.
Já ouviu falar nas “mesinhas”? Nas famosas “mesinhas” do
Nordeste?
Aqui as tenho visto. Vendem raízes para todos os males; rezas
para curar picadas de cobra, para mau olhado e para fechar o corpo. Vendem
chifre de veados, rabos de tatu, dentes de jacaré, chocalhos de cascavel – tudo
para remédio. Tem de tudo, para tudo e para todos.
Os donos das “mesinhas” são geralmente curandeiros. O povo,
na sua simplicidade e tradição, respeita-os bastante. Nas feiras, outro
espetáculo pitoresco nos é dado pelos cantadores. Eles contam, cantam e recitam
o “ABC”, típico folheto de poesia popular e são notáveis improvisadores. Têm
público certo e interessado, principalmente quando há desafio de viola. Enfim,
a feira daqui é algo inesquecível e maravilhoso.
Outra coisa que hei observado é o gosto que tem o povo pela
música popular regional e pelo canto. Todo mundo, até parece exagero, sabe
tocar um instrumento musical ou cantar. O folclore é riquíssimo.
Estou satisfeita com tudo. Aprendi a gostar do Vale do São Francisco,
de suas belezas naturais, e de seu povo meio orgulhoso e valente.
Creio que o mesmo aconteceria com o senhor, pois tem
sensibilidade para sentir as coisas.’
___
No mesmo jornal O REPÓRTER, Uberlândia-MG, 24 de junho de
1963, encontramos esse artigo do próprio Gastão:
“REVOLVENDO O SERTÃO NORDESTINO
Antigamente era difícil para um nordestino falar sobre a sua
região, sem tocar nas chagas do Polígono, na miséria dos mocambos do Recife, no
analfabetismo dos camponeses, e nas constantes migrações dos paus-de-arara para
o sul.
Hoje, os problemas da seca, dos mocambos, do analfabetismo,
do pau de arara migrador, ainda existem e estão sendo enfrentados dentro das
reais possibilidades do país. São problemas graves e difíceis, mas não são
insolúveis.
Desde que aqui cheguei, tenho escrito sobre o Nordeste.
Escrito sobre o progresso das suas cidades sertanejas, progresso palpável e que
pode ser reconhecido até pelo viajante menos atento e observador.
Há uma revolução em marcha no sertão nordestino. Uma mudança
radical no rápido do seu povo. A hidroelétrica de Paulo Afonso está ampliando o
seu campo de ação. O São Francisco deixou de ser via de navegação apenas, e
está subindo as serras, a fim de ser utilizado nas residências, bem comportado
e perfeitamente encanado.
As prefeituras estão calçando ruas, praças e surgem galerias
de águas pluviais. Outras obras estão sendo realizadas. A saúde do povo vem
melhorando. Cuida-se do setor educacional. Modifica-se a mentalidade de todos.
Um exemplo: Pão de Açúcar, cidade agropecuária, quer
industrializar-se. Os seus munícipes, tendo à frente o seu prefeito, Sr.
Ronalso dos Anjos, vereadores como o Sr. José Amaral, estão entusiasmados com
as conquistas da cidade e só pensam em progredir mais.
O progresso em forma de luz elétrica, em forma de água
encanada, em forma de alfabetização, está revolvendo tudo. Nenhuma cidade
nordestina deseja ficar atrás; ficar no antigo marco de não fazer nada. O que
aconteceu com a nossa querida Uberlândia, verdadeira cidade dínamo, cidade
progressista, entusiasma hoje o sertão e o sertanejo do nordeste.
Poderia citar outros exemplos. Dizer alguma coisa sobre o fim
da enxada e sua substituição pelos arados manuais; sobre a grande e notável
bacia leiteira do Jacaré dos Homens, de seu gado holandês-zebu; sobre o que vem
realizando o DNOCS, o DNER e a SUDENE.
Em outra ocasião, talvez escreva sobre tais assuntos e, ao
mesmo tempo, a respeito dos cursos de alfabetização radiofônica e audiovisual,
de aprendizagem em 48 horas.”
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| Pão de Açúcar nos anos 1960,. Ao fundo, à esquerda a casa de esquina onde morou o casal Gastão e Eneida. |
____
NOTA
Caro
leitor,
Deste
Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de
informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita
pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência
bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse
para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior
proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a
citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
O professor Eurico Silva era professor do Colégio Estadual de Uberlândia. Filho
do Cel. Virgílio Augusto de Souza e Silva e Maria Salomé Vieira, nasceu em
Botelhos, Minas Gerais, em 27 de setembro de 1894 e faleceu Poços de Caldas-MG,
em 27 de julho de 1973.
[ii]
É o autor da obra "Aspectos da Presença do Negro no Triângulo Mineiro /
Alto Paranaíba: Kalunga", publicada em 1994.
[iii] Gazeta
de Notícias, RJ, 6 de agosto de 1942.
[iv]
Amoipiras. Os amoipiras eram um povo indígena brasileiro pertencente ao tronco
Tupi-Guarani, descendentes dos tupinambás, que habitavam a região do médio rio
São Francisco, principalmente na margem esquerda, no atual estado da Bahia,
durante o século XVI. Parece-nos, portanto, um equívoco a citação dos mesmos
como habitantes do baixo S. Francisco.
[v]
Lacerdinha é o nome popular do inseto Gynaikothrips ficorum, da ordem dos
tisanópteros. São minúsculos, alongados e geralmente pretos; muito comum em
árvores do gênero Ficus (como o fícus-benjamina). São atraídos por roupas
claras (especialmente amarelas) e entram nos olhos das pessoas, causando
intensa ardência e coceira. O nome popular é uma associação ao político Carlos
Lacerda, conhecido por sua postura polêmica, combativa e por irritar
profundamente os seus adversários políticos.
segunda-feira, agosto 24
PERSONALIDADES PÃO-DE-AÇUCARENSES - PERDILIANO MELLO
Por Etevaldo Amorim
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| O Sr. Perdiliano Gomes de Carvalho Mello. Foto: acervo da família Fialho. |
PERDILIANO
GOMES DE CARVALHO MELLO nasceu em São Brás, Estado de Alagoas, em 10 de janeiro
de 1876 e faleceu no dia 5 de julho de 1952. Filho de Francisco Gomes de
Carvalho Mello e Maria Victória da Purificação.
Em 2 de julho de 1901, já residindo em Pão de Açúcar, casou-se com ANA EXALTA PEREIRA DE MELO (“Doninha”), que passou a ser conhecida por “Doninha de Perdiliano”. Filha de Manoel Francisco Pereira e Belarmina dos Santos, nasceu em Pão de Açúcar em 20 de maio de 1884. Sobre ela assim falou Aldemar de Mendonça:
“Dama da alta sociedade. Estatura mediana. Gorda como quase todos os Pereira. Epiderme morena e um sorriso perene a iluminar-lhe o rosto, anulando a feiura de um bigodinho.
Neste trabalho, feito com o objetivo de retirar do esquecimento os nossos maiorais, que, por qualquer motivo se evidenciaram, não podia olvidar Doninha de Perdiliano, como era mais conhecida.
E se quiserem saber qual a porta pela qual aqui entrou Doninha, direi
simplesmente: a da Bondade.”
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| A Srª Anna Exalta, "Doninha de Perdiliano". Foto: acervo Aldemar de Mendonça. |
Ficando viúvo em 17 de agosto de 1922, seu Perdiliano casou-se com Felisbela Pereira de Mello (28/10/1898 – 04/10/1961, filha de Ismael Pereira de Mello e Severiana Maria dos Santos).
_____
ATIVIDADES
O
Sr. Perdiliano era forte comerciante em Pão de Açúcar. Como tal, e como era
comum para o transporte de mercadorias, possuía uma canoa de tolda denominada
Minas Gerais. Essa embarcação, por motivo que desconhecemos, era conhecida por
“Jumenta”[i].
Estabeleceu-se
no comércio local com a MERCEARIA ESTRELA, sob a firma “Perdiliano Mello &
Cia”, no ramo de estivas, miudezas, ferragens com departamentos de óleos,
tintas, louças, etc, com vendas em atacado e a varejo.
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| A MERCEARIA ESTRELLA, de Perdiliano Gomes de Carvalho Mello. Fonte: MARROQUIM, Adalberto. TERRA DAS ALAGOAS, Editori Maglione & Strini, Succ. E. Loescher Roma, 1922. |
Essa foto mostra um prédio que até hoje conserva as mesmas características: 14 porta
s altas emolduradas por relevos, sendo 4 voltadas para a avenida Bráulio
Cavalcante e 10 alinhadas simetricamente para a rua Cel. Manoel Antônio
Machado.
A
fachada ostenta detalhes geométricos nas laterais, sendo o topo do edifício
arrematado por uma robusta platibanda decorada, que oculta o telhado, ganhando
um frontão arqueado e imponente exatamente no chanfro da esquina.
Essa
fotografia está entre as onze imagens de Pão de Açúcar estampadas no livro
TERRA DAS ALAGOAS, de Adalberto Marroquim, impresso em 1922, em Roma.
Nota-se,
na parte superior da fachada lindeira à rua Cel. Manoel Antônio Machado, um
toldo (fechado), cujo manejo se dava por meio de um mecanismo composto por uma
caixa de engrenagens helicoidais. A partir dela, uma haste vertical de ferro
transmitia o movimento até as peças de sustentação superior, permitindo abrir
ou fechar a estrutura conforme se girava a manivela acoplada ao sistema.
Lembro-me
de que, nesse ponto, entre os anos finais da década de 1960 e os iniciais da de
1970, funcionava uma loja de tecidos do Sr. Lucilo José Ribeiro[ii],
que viria a ser prefeito de São José da Tapera anos depois. Mais tarde, e por
muitos anos, abrigou o "Bar do Petronilo", conhecido pelas suas
famosas mesas de sinuca.
Atualmente,
funciona o “Arquivo Central Armando de Freitas Machado. As últimas 4 portas, lá
no fundo, são entradas para outros tipos de comércio.
Na
foto não aparece o nome da casa comercial, mas um anúncio publicado no Almanak
Laemmert de 1913 revela a identidade do local.
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| Anúncio da Mercearia Estrella no Almanak Laemmert, 1913. |
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VIDA
PÚBLICA
Não
conseguimos saber, com precisão, quando o Sr. Perdiliano iniciou a sua vida
pública. O registro mais antigo que encontramos está no JORNAL DO COMÉRCIO
(RJ), de 21 de novembro de 1911. Trata-se de um telegrama enviado ao Coronel
Clodoaldo da Fonseca comunicando a fundação, em Pão de Açúcar, da Liga
Pró-Clodoaldo da Fonseca. Datado de 15 de novembro de 1911, diz o telegrama:
“Acabamos
de fundar “Liga pró-Clodoaldo” propaganda vossa candidatura. Recebei nossas
felicitações data hoje e pela escolha vosso nome salvador Alagoas. – Manoel Pereira, Perdiliano Mello,
Venustiniano Cavalcante, João Luiz, João Pereira, Bráulio Cavalcante, Aurélio
Cavalcante, Ismael Mello, Luiz Paulo, Alfredo Almeida, Pereira Filho, Lucillo
Mello.”
Aqui
estão José Venustiniano e Aurélio, pai e irmão de Bráulio Cavalcante, que seria
morto no dia 10 de março de 1912, justamente no auge da campanha do Cel.
Clodoaldo.
_____
Em
1916, o Sr. Perdiliano era Comissário de Polícia[iii],
tendo como suplentes José de Freitas Machado, Joaquim Campos e Olegário Simas.[iv]
Em
5 de outubro de 1917, assinou o Manifesto da Assembleia Popular recomendando o apoio
à candidatura do Gal. Gabino Besouro, tendo como candidato a Vice-Governador o
Bel. Antônio de Mello Machado,[v]
para as eleições que se realizariam no dia 12 de março do ano seguinte.
Notícia
do correspondente do jornal Diário de Pernambuco, datada de 6 de novembro de
1917, publicada na edição de 10 daquele mês e ano, dá conta da fundação de um “Centro
Cívico Pró Gabino Besouro”, tendo como Presidente de Honra o Sr. Perdiliano
Mello; efetivo: Pedro Souto; Secretários: Olegário Simas e Theodoro Barbosa; orador:
Dr. Manoel Lyra; tesoureiro: Euclides Souza.
Ainda
em 1917, quando da viagem do candidato pelas localidades ribeirinhas do São
Francisco, hospedou o Gal. Gabino Besouro e sua comitiva.
O
Diário de Pernambuco, na edição de 26 de novembro de 1917, descreve a recepção
ao general Gabino Besouro.
“Pão
de Açúcar, 16. Diário do Povo. O General Gabino Besouro aqui chegou de Piranhas,
no belo paquete “Siminbu” que estava todo embandeirado. Assinalado essa
embarcação ainda no horizonte, afluiu à vasta praia enorme multidão impaciente
por testemunhar ao ínclito republicano a sua solidariedade e estima.
Numerosas
canoas embandeiradas sulcaram o rio repletas de populares e pessoas gradas, aguardando
o ancoramento do “Sinimbu”, o que se realizou às 16 horas, entre vivas e
aclamações. Ao saltar o general Gabino Besouro, essas aclamações reboaram estrepitosamente
entre salvas de rojões e as harmonias de uma banda musical.
Formou-se
imediatamente um numeroso e entusiástico préstito que entre constantes e
fervorosos vivas penetrou na cidade até a praça da matriz em busca da
residência do Cel. Perdiliano Mello, onde Sua Excelência se hospedou com sua
comitiva.
Enquanto
pessoas gradas aí cumprimentavam S Exª, enorme multidão estacionava em frente à
aprazível residência do Cel. Perdiliano, aclamando o general em verdadeiro
delírio.
Saudaram
S. Exª em belos discursos o Dr. Luiz Ignácio de Figueiredo, juiz substituto, e
Octávio Brandão, funcionário federal[vi],
discursos que o general agradeceu comovidamente.
Após
algum descanso, seguiu-se lauto banquete durante o qual saudaram ao general os
Drs. Antônio Arecippo, juiz de direito – e Ildefonso Cantidiano, promotor
público. Sua Excelência o General agradeceu num brinde eloquente, no qual
enalteceu o valor do povo panassucarense[vii],
bem como os serviços dos prestigiosos políticos Cônego Soares Pinto e Cel.
Perdiliano Mello. O Dr. Carlos Pontes[viii],
numa oração cívica, agradeceu ao povo o seu concurso precioso, a sua dedicação
à candidatura verdadeiramente popular.
O
general Gabino Besouro retribuiu os cumprimentos do cônego Soares Pinto,
vigário da cidade, sendo servido champagne na residência deste, orando nessa
ocasião o ilustre chefe conservador Cel. Luiz José[ix].
O general agradeceu em magnífico improviso concitando os bons alagoanos a
trabalharem pelos interesses da sua terra.
O
general seguirá hoje mesmo depois de assistir um jantar na residência do cônego
Soares. Toda a cidade exulta em ruidosas festas. Nas ruas, lindamente
enfeitadas, a multidão não cessa de aclamar o general Besouro como futuro
governador de Alagoas.
À
noite, a fina flor da sociedade panassucarense oferecerá a Sua Excelência um
baile que será animadíssimo. – Correspondente.”
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| O Gal. Gabino Besouro. |
![]() |
| Bacharel Antônio de Mello Machado. |
_____
Dez
anos depois, em 1927, seu nome era anunciado como candidato a Prefeito de Pão
de Açúcar no Diário de Pernambuco, de 13 de setembro de 1927.
Realizado
o pleito, conseguiu 136 votos, sendo superado pelo seu opositor, o Padre José
Soares Pinto, que obteve 189 sufrágios.[x]
Depois
disso, anota Gervásio Francisco dos Santos em seu livro UM LUGAR NO PASSADO, o
Sr. Perdiliano Mello “afastou-se definitivamente da política”, passando a
cuidar apenas dos seus negócios.
_____
NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos
repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado
de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente
referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu
interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o
maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e
a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
SANTOS, Gervásio Francisco dos. UM LUGAR NO PASSADO. Rio de Janeiro, 1976.
[ii]
Lucilo José Ribeiro faleceu em 1976 em acidente automobilístico na recém
inaugurada, em asfalto, Rodovia AL-130.
[iii]
Comissário era o operador direto da segurança pública, com subordinação ao
delegado de polícia.
[iv]
Fonte: Mensagens do Governador de Alagoas, João Baptista Accioly Junior, para a
Assembleia (1890-1930).
[v]
Fonte: Diário do Povo, órgão do Partido Republicano Conservador. 9 de outubro
de 1917.
[vi]
Octávio Brandão de Oliveira. Funcionário dos Correios no período de 1º de maio
de 1917 a 4 de setembro de 1920. Casou-se em 9 de maio de 1917 com Maria Rosa
de Oliveira Veiga (filha de Manoel Pastor da Veiga e Anna Rosa de Oliveira
Veiga).
[vii]
Uma curiosidade: naquela época, registrava-se o gentílico “panassucarense”, por
aglutinação a partir da grafia Pão de Assúcar.
[viii]
Carlos Pontes Marques de Almeida, Deputado estadual, advogado, jornalista.
Filho de Avelino Marques de Almeida e Escolástica Pontes de Almeida. Nasceu em Olhos
d’Água do Acioli (atual Igaci), então município de Palmeira dos Índios – AL, em
27/04/1887 e faleceu no Rio de Janeiro – DF, em 19/04/1957.
[ix]
Cel. Luiz José da Silva Mello.
[x] Diário de Pernambuco, 17 de novembro de 1927.
sábado, agosto 15
MEMÓRIAS DE UMA ESCOLA ISOLADA
Por
Etevaldo Amorim
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| A Escola Isolada de Alecrim. |
Para
resgatar essa memória, precisamos voltar a meados da década de 1960, essa quadra
conturbada da vida nacional, mais precisamente ao ano de 1964.
O
município de Pão de Açúcar já contava, em sua sede, com três grupos escolares:
o Bráulio Cavalcante (construído em 1934 durante a primeira gestão do prefeito
Augusto Machado), o Rosália Sampaio Bezerra (instituído pelo Decreto-Lei nº 2.201,
de 19 de fevereiro de 1960, durante o governo Muniz Falcão) e o Pe. José Soares
Pinto (Criado pelo do Decreto-Lei nº 1.924, de 23 de setembro de 1964, no
governo do Major Luis Cavalcante)[i].
Essa
estrutura de Grupo Escolar — idealizada em São Paulo por Caetano de Campos e
Gabriel Prestes no final do século XIX — tinha como objetivo unificar as
antigas escolas primárias urbanas em uma estrutura graduada por séries.
Embora
o modelo tenha sido nacionalizado a partir da Reforma Rivadávia Corrêa (Decreto
Federal nº 8.659 de 1911), a realidade da zona rural brasileira ainda era
ditada pelas Escolas Isoladas. Consolidado no período republicano, o termo “Escola
Isolada” designava as unidades que mantiveram o funcionamento em sala
única, unidocente e multisseriada herdado das antigas “Cadeiras de Primeiras
Letras” do Império, onde um único professor regia alunos de idades e níveis de
escolaridade completamente diferentes.
A
minha experiência pessoal reflete perfeitamente esses dois modelos de estrutura
educacional. Em princípios de 1964, morando em Campinas, onde eu nasci, comecei
a frequentar o Grupo Escolar Padre José dos Santos. (Veja o artigo MINHA PRIMEIRA ESCOLA)
Quando
nos mudamos para a Vila Limoeiro (então chamada Alecrim), em julho de 1964, encontrei
a escola em reforma, razão pela qual as aulas eram ministradas em sala
improvisada. A professora era D. Maria Francisca de Melo, conhecida por
Morenita, esposa do Sr. José Alves e mãe de José,
Maria Alves, Creuza, Yêda, Neide, Nely e Jailton.
Dedicada
e paciente, ela comandava um agrupamento de crianças de diversas idades, de
diferentes séries, e de comportamento, digamos, irrequieto. Dona Morenita logo
foi morar definitivamente em Pão de Açúcar, onde a família já estava.
Muita
estranheza me causou o meu novo ambiente escolar. Além do aspecto físico, o
método utilizado era completamente diferente daquele com o qual havia iniciado
as primeiras letras.
Minha
escola anterior adotava o método da cartilha Caminho Suave, associando a letra
à imagem correspondente da Boneca ou
da Lata, por exemplo. Cada aluno deduzia a lógica em silêncio: B
com O faz BO; L com A faz LA... BOLA. Em vez disso, o que se ouvia era uma cantoria
dos meninos e meninas, soletrando em voz alta e em coro as famílias silábicas: “Bê-ó,
Bó....Lê-á...Lá...BOLA...”.]
![]() |
| A cartilha CAMINHO SUAVE de Branca Alves de Lima. |
A
professora, reconhecendo a minha dificuldade com aquele coro barulhento, não me
exigia tais exercícios. Aliás, por ocasião de uma visita da Coordenadora
Regional de Ensino, professora Maria Mamede Lima, dona Morenita chegou a
sugerir que eu, por estar mais adiantado em relação aos demais, já fosse
colocado na 1ª série. A Coordenadora ponderou que seria melhor eu concluir o
ano letivo na condição em que estava.
AS TÉCNICAS
DE ENSINO
Durante
esse período, da 1ª à 3ª série, fomos submetidos progressivamente a diversas
técnicas de ensino.
O DECALQUE.
Essa técnica era conhecida popularmente como "cobrir". A professora
fornecia uma folha com as letras ou palavras impressas (o modelo) em traçado
forte. O aluno sobrepunha uma folha de papel de seda (que é semi-transparente)
ou vegetal. Olhando através do papel fino, a criança usava o lápis para
contornar exatamente as letras que via por baixo. Essa técnica era considerada
o estágio inicial da caligrafia. Após o aluno ganhar segurança motora com o
decalque, ele "subia de nível" e passava para o traslado (copiar
olhando para o quadro) ou para o treino direto no caderno de caligrafia.
O TRASLADO.
O traslado era uma das técnicas mais comuns para o ensino e o exercício da
escrita nas escolas primárias brasileiras naquela época. Consistia no ato de
copiar textualmente um modelo de escrita considerado "perfeito" ou
padrão. O objetivo principal era desenvolver a caligrafia legível, a destreza
motora e a ortografia correta. A professora escrevia uma frase ou um pequeno
texto no quadro-negro (o nosso era verde), e os alunos deviam reproduzir
exatamente igual em seus cadernos.
O DITADO.
Depois de passarmos pelas duas fases anteriores, vinha o “ditado”. A professora
lia o texto completo uma vez para contextualização. Depois, lia frase por frase
(ou bloco de palavras) pausadamente para os alunos escreverem. Por fim, fazia
uma leitura final rápida para verificação. Ah! Um
detalhe: a professora ditava os sinais de pontuação explicitamente. Ela dizia,
por exemplo: “O pescador pescou um piau (vírgula) uma piranha (vírgula) e um
surubim (ponto final).”
___
A
Escola, então chamada Escola Rural da Vila Alecrim, foi instalada no dia 18 de
fevereiro de 1951, durante a gestão do governador Arnon de Mello. Possuía
apenas uma sala de aula e uma residência para a professora, tendo no meio um
espaço para recreio.
Após a
reforma, inaugurada em 10 de março de 1965[ii], quando o governador do
Estado era o Major Luis Cavalcante, uma segunda sala de aula ocupou o lugar do
espaço para recreio, e este foi construído em anexo. Essa área de recreio tinha
outras utilidades, desde simples reuniões até bailes com os melhores
sanfoneiros da época.
É
forçoso dizer o quanto era perigosa essa nova área de recreio. Como o terreno
atrás da escola tinha declive acentuado, o seu nível ficou muito alto. Até havia
uma pequena mureta de cerca de um metro, mas ela não constituía segurança
efetiva, já que se podia subir e até sentar sobre ela. Felizmente, nunca se
registrou qualquer acidente.
Cada
sala tinha uma porta e três ou quatro janelas venezianas; piso de cimento
queimado e teto de telhado aparente, com telhas do tipo francesa. A escola
recebeu mobiliário novo: um “quadro-negro”, que na verdade era verde, ocupava
quase toda a parede anterior. Possuía uma borda inferior que aparava o pó do
giz. Sobre ela repousava um estojo com os bastões de giz, cuja tampa corrediça,
provida de uma flanela, servia de apagador.
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| Sala de aula equipada com carteiras de assento duplo semelhante às nossas. |
As
carteiras de assento duplo traziam um selo exibindo a marca CIMO, de Curitiba.
As peças eram dispostas em série: do encosto de cada assento partia uma prancha
que servia de mesa para a dupla que sentava logo atrás. Logo abaixo do tampo principal
da mesa havia uma prateleira de madeira onde os alunos guardavam os seus
materiais.
Na
parede posterior (fundo), duas estantes baixas, com portas corrediças,
constituíam uma pequena biblioteca, onde se encontravam obras da literatura
infantil: “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa”, “Ali-Babá e os 40 ladrões”, “Simbá,
o Marujo”, “As Viagens de Gulliver” e até um exemplar da Constituição Federal,
outorgada em 1967[iii].
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| Estante COLTED semelhante à nossa. Foto: Escola Municipal Churchill. |
Nessas
estantes via-se a sigla COLTED, cujo significado conheço agora: Comissão do
Livro Técnico e do Livro Didático, criada pelo Decreto nº 59.355, de 4 de
outubro de 1966, resultado de um convênio entre o Ministério da Educação e
Cultura (MEC), o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e a USAID -
United States Agency for International Development (Agência dos Estados Unidos
para o Desenvolvimento Internacional). Essa Agência americana, aliás, foi a
financiadora de toda a reforma, no âmbito desse Acordo MEC/USAID. Havia também
um mapa do Brasil, ainda com 22 Estados, 4 territórios e o DF.[iv]
Em
1965, chegou nova professora: Dona Maria Alves Lima, esposa do “Sr. Chico
Camarão”. Tinha crianças pequenas: Gilvânia, Sandra, Edja e Genival, que nasceu
nesse período. Competente e austera, ela ficou conosco nos anos de 1965 e 1966.
Em
1967, chegaram novas professoras: Maria do Socorro Pereira Lima - com quem cursei
o 3º ano - Ângela Barreto Oliveira e Jailda dos Santos, que logo se afastou por
problemas de saúde. Faleceu recentemente.
UM
VISITANTE ESTRANGEIRO
Em
1967, chegou à escola a Coordenadora da 8ª CRE, acompanhada de outras
professoras e de um rapaz alto, galego e que falava um português “meio
enrolado”. Logo soubemos tratar-se de um americano. Enquanto as professoras
conversavam no interior do prédio, ele sentou em uma cadeira e logo fizemos uma
roda em torno dele. Perguntas daqui, perguntas dali... ele se dirigiu a mim, o
único que usava uniforme (o da minha antiga escola).
Quis
saber o que significava a sigla G. E. P. J. S., inscrita no bolso da minha
camisa. Respondi-lhe: “Grupo Escolar Padre José dos Santos”.
— E
onde fica essa escola? — continuou perguntando.
— Em
Campinas, São Paulo.
— Ah!
— disse ele. — Então você é um viajante, veio do Sul para cá!!!
Soube
depois tratar-se de Richard M. Gross, voluntário do Peace Corps (Corpo da Paz),
um programa americano que enviava voluntários, em geral jovens recém-saídos das
universidades, para países em desenvolvimento no intuito de prestar assistência
técnica, social e humanitária, visando manter a influência dos Estados Unidos
na América Latina, sobretudo naqueles tempos da chamada “Guerra Fria”.
“Ricardo”,
como era conhecido, deixou Pão de Açúcar em 1968 e foi para Cuiabá, Estado de
Mato Grosso. Ele fazia dupla com o “Jaime” (nome abrasileirado de Jim Lane
Squires)[v], que veio a se casar com
Creuza, filha da professora Morenita, indo morar nos Estados Unidos, em 1968.
OS
LIVROS E OS MATERIAIS DIDÁTICOS
Na 1ª e na 2ª série, estudamos com os livros da Coleção
Infância Brasileira, escrita por Ariosto Espinheira e publicada pela Companhia
Editora Nacional.
Já nas
séries seguintes, usamos a Coleção Nordeste, escrita pela educadora Maria
Cecília Rego Ávila Pessoa[vi] e publicada pela Editora
do Brasil S.A. Essa coleção explorava duas vertentes: Nordeste: Linguagem, focado em leitura, gramática e expressão
escrita; e Nordeste: Lições,
voltado para as chamadas “matérias de conteúdo”, que englobavam Ciências,
História e Geografia.
Os
cadernos eram simples, estampando na capa uma foto de inspiração ufanista e o
hino nacional impresso na contracapa.
Usávamos
borrachas da marca Mercur, brancas e moles, para apagar escritos com lápis
grafite e uma outra mais dura, bicolor (uma parte azul e outra vermelha), para
apagar textos escritos com caneta esferográfica BIC, que já começaram a
aparecer.
Nossos
lápis grafites eram da marca Faber-Castell, a mais difundida na época. Quando a
ponta ficava rombuda, afinávamos com o apontador ou com lâmina Gillete mesmo. Assim,
de tanto fazer ponta, o lápis ia diminuindo, diminuindo, a ponto de não poder
mais segurá-lo. Mas aí vinha em nosso socorro o “extensor de lápis”, que era
uma haste oca do tamanho de um lápis inteiro e com uma abertura em uma das
extremidades. Ali fixávamos o pedacinho de lápis e apertávamos com um anel
metálico deslizante. Assim podíamos aproveitar o lápis o máximo possível.
Para
as provas, utilizávamos o papel pautado, folhas pautadas duplas, que a gente
comprava na bodega de Dona Miúda, espécie de armarinho localizado na esquina
com a Rua do Meio (R. Jayme Silva).
___
Terminado
o 3º Ano, entramos em 1968 (ano de grandes agitações no Brasil e no mundo).
Iniciaríamos a 4ª série. Mas havia um problema: a Escola não tinha o 4º Ano!!!
Nunca entendi o motivo. A professora Ângela chegou a começar as aulas conosco,
mas logo veio a ordem para suspender.
Fiquei
sem estudar, até que surgiu uma oportunidade de frequentar uma banca de estudos
formada pelo meu amigo Lindalvo Silva Costa (noivo de Edith Lima Mendes, com
quem se casaria pouco tempo depois). Era uma espécie de “cursinho” para o
grande Vestibular daquela época: o Exame de Admissão ao Ginásio. A banca era
formada por Edith, Eu e Paulo Andrade. Feito o Exame em final de 1968, passamos
todos. Grande professor Lindalvo! 100% de aproveitamento!!!!
***
Ressalto
que a passagem das professoras Ângela e Socorro pela Escola foi marcada por
grande movimentação interna e por uma salutar integração com a comunidade. Isso,
sem dúvida, contribuiu para a melhoria do aprendizado.
Elas
promoviam atividades como recitais de poesia — lembro-me de um que fizemos na
casa de Seu Pedro e Dona Raquel, onde recitei o poema 'Cajueiro', de Gentil
Braga. Também me recordo de um “café gordo”, para o qual cada um de nós
contribuiu com alguma coisa. Comemos a nos fartar! Para completar, a professora
Ângela ainda tocava acordeom... um verdadeiro privilégio!!!
Outra
lembrança marcante foi a realização do que imagino ter sido a primeira passeata
do Limoeiro, em 7 de setembro de 1967, comemorando a Independência do Brasil.
Formaram-se
pelotões temáticos: lembro-me de um formado só com meninas, todas vestindo
saias que exibiam na frente a bandeira de cada Estado da Federação.
Percorremos
as principais ruas da vila: saindo da rua Boa Vista (onde estava a Escola),
dobrando à direita para a Rua do Meio (que não ia além da casa de seu Argemiro
Mangão), transpondo a igreja para chegar à Rua de Baixo (chamada Bráulio
Cavalcante); fazendo em seguida o percurso inverso. À frente ia uma pequena
banda vinda de Pão de Açúcar, só com instrumentos de percussão: tarol, caixa e
bombo. Mas isso foi para nós uma grande novidade!!!!
E teve
mais: elas ainda, por conta própria, resolveram dar aulas de alfabetização para
adultos. À noite, e como ainda não havia energia elétrica, a sala era iluminada
com a luz de uma lâmpada Petromax[vii], muito utilizada na
época. Isso ainda antes do MOBRAL - Movimento Brasileiro de Alfabetização, que só
viria a ser criado no final de 1967, pela Lei nº 5.379 de 15 de dezembro, iniciando
suas atividades efetivas e em larga escala de ensino apenas a partir de 1970.
Essas
são as minhas memórias da velha escola isolada em que estudei. Considerei
válida a iniciativa de publicá-las, já que não são só minhas, mas faz parte da
história daquela pequena Vila, igualmente isolada, mas que hoje experimenta
algum sopro de desenvolvimento.
____
Nota 1
Eu julgava que aquela passeata teria
sido a primeira da história do Limoeiro. Recentemente, entretanto, no jornal Diário
de Pernambuco, edição de 7 de outubro de 1922, encontrei uma notinha entre as
muitas que noticiavam as comemorações do centenário da Independência do Brasil.
Diz a nota:
“As
colunas dos jornais estão cheias das notícias de semelhantes festas, das quais
uma das mais tocantes, apesar de sua modéstia, foi a que se verificou na
povoação do Limoeiro, município de Pão de Açúcar.
Foram
as seguintes as solenidades ali realizadas:
Às
7:00 h da manhã a multidão entoou, aos espocar de girândolas de foguetes, o
hino nacional, dando-se uma salva de 21 tiros.
Logo
após se verificou o hasteamento da bandeira nacional, saudada com versos
patrióticos pelas crianças das escolas.
Às
15:00 h o Sr. Jayme Silva efetuou uma Conferência em que brilhantemente
discorreu sobre o fato que solenizava. Seguiu-se uma passeata cívica em que
tomaram os escolares, grupos gentis de senhorinhas e os habitantes da
localidade, que dava assim
uma demonstração inconcussa de amor à Pátria.”
O Sr. Jayme Silva (Jayme Emiliano Silva) nasceu em Jacaré dos Homens, então município de Pão de Açúcar, em 1896 e ali faleceu em 10 de novembro de 1953. Era filho de José Pedro da Silva e Maria Alexandrina Souto. Casado com Maria Alves Feitosa, tiveram os filhos: Neiwton Silva, Ivanir Silva, Ib Silva, Djalma, Washington, Mair, Nicodemos (Dema), Delma, Terezinha e Jaime. Foi vereador e dá nome à antiga “Rua do Meio”, a partir de projeto do vereador Cliuton Santos (1983-1988).
___
Nossos agradecimentos a Cerícia Brandão, Vânia Rezende e Edivalda dos Anjos pelas informações acerca da criação das escolas Rosália S. Bezerra e Pe. Soares Pinto.
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| Borrachao MERCUR bicolor. |
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| Extensor. |
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| Estojo escolar Fritz Hohansen. |
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| Livro da Série INFÂNCIA BRASILEIRA, de Ariosto Espinheira. |
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| Caderno escolar muito usado na época. |
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| Borracha MERCUR branca. |
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| Placa de inauguração do Grupo Escolar Padre José Soares Pinto, em 1964. Foto: Vânia Rezende, (tratamento com IA por Vívia Amorim. |
_____
NOTA 2
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos
repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado
de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente
referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu
interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o
maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e
a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
A placa de inauguração do Grupo Escolar Pe. José Soares Pinto faz referência ao
“Plano Trienal de Educação (1963-1965)”, que integrou o plano macroeconômico de
estabilização e reformas estruturais elaborado pelo economista Celso Furtado no
governo de João Goulart (Jango). A vertente educacional do plano baseou-se
fortemente nas diretrizes da recém-aprovada Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDB de 1961) e contou com a liderança intelectual do
educador Anísio Teixeira. Seu propósito central era transformar a escola
pública de uma instituição "ornamental" em uma ferramenta orgânica de
desenvolvimento econômico e justiça social. O plano estruturou-se em torno de
metas, sendo a principal delas a Universalização do Ensino Primário: O objetivo
mais urgente era garantir o acesso à escola primária para 100% das crianças
brasileiras em idade escolar até o ano de 1965.
[ii]
Diário de Pernambuco, 31 de janeiro de 1965.
[iii]
A Constituição Brasileira de 1967 foi promulgada em 24 de janeiro de 1967 e
entrou em vigor em 15 de março do mesmo ano, institucionalizando legalmente o
regime militar no Brasil e centralizando o poder no Poder Executivo Federal.
Ela substituiu a Constituição de 1946 e incorporou as medidas autoritárias dos
primeiros Atos Institucionais, do AI 1 ao AI 4.
[iv]
Estados: Acre, Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte,
Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio
de Janeiro, Guanabara, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e
Rio Grande do Sul. Territórios: Amapá, Roraima, Rondônia e Fernando de Noronha.
[v]
Jim Lane Squires. Nasceu em 3 de abril de 1942, em Glendive, Dawson, Montana, EUA,
e faleceu em 30 de janeiro de 2024, em Billings, Yellowstone, Montana, EUA.
[vi]
Nome de casada (com Lucilo Ávila Pessoa), de Maria Cecília Mota Rego. Nasceu em
Água de Pau, Lagoa, São Miguel, Açores, Portugal, filha de Ernesto Rego e Cecília
Eugênia da Motta Vieira. Faleceu no Recife em 16/08/2016.
[vii]
Petromax eram lanternas/lamparinas pressurizadas a querosene, ferramenta muito
comum para iluminação noturna em áreas rurais ou isoladas que ainda não
contavam com energia elétrica nas décadas de 1960 e 1970, como era o caso de
Limoeiro, que só viria a receber luz elétrica da CHESF em 1976.
A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR
PÃO DE AÇÚCAR
Marcus Vinícius*
Meu mundo bom
De mandacarus
E Xique-xiques;
Minha distante carícia
Onde o São Francisco
Provoca sempre
Uma mensagem de saudade.
Jaciobá,
De Manoel Rego, a exponência;
De Bráulio Cavalcante, o mártir;
De Nezinho (o Cego), a música.
Jaciobá,
Da poesia romântica
De Vinícius Ligianus;
Da parnasiana de Bem Gum.
Jaciobá,
Das regências dos maestros
Abílio e Nozinho.
Pão de Açúcar,
Vejo o exagero do violão
De Adail Simas;
Vejo acordes tão belos
De Paulo Alves e Zequinha.
O cavaquinho harmonioso
De João de Santa,
Que beleza!
O pandeiro inquieto
De Zé Negão
Naquele rítmo de extasiar;
Saudade infinita
De Agobar Feitosa
(não é bom lembrar...)
Pão de Açúcar
Dos emigrantes
Roberto Alvim,
Eraldo Lacet,
Zé Amaral...
Verdadeiros jaciobenses.
E mais:
As peixadas de Evenus Luz,
Aquele que tem a “estrela”
Sem conhecê-la.
Pão de Açúcar
Dos que saíram:
Zaluar Santana,
Américo Castro,
Darras Nóia,
Manoel Passinha.
Pão de Açúcar
Dos que ficaram:
Luizinho Machado
(a educação personificada)
E João Lisboa
(do Cristo Redentor)
A grandiosa jóia.
Pão de Açúcar,
Meu mundo distante
De Cáctus
E águas santas.
______________
Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)
(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937
(+) Maceió (AL), 07.05.1976
Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.
*****
PÃO DE AÇÚCAR
Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.
Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.
Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,
O pó que o vendaval deixou no chão cair.
Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste
O teu profundo sono num divino sorrir.
Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,
Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.
Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.
Teus jardins se parecem com vastos cemitérios
Por onde as brisas passam em brando sussurrar.
Aqui e ali tu tens um alto campanário,
Que dá maior relevo ao pálido cenário
Do teu calmo dormir em noite de luar.
____
Ben Gum, pseudônimo de José Mendes
Guimarães - Zequinha Guimarães.
PUBLICAÇÕES
Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia
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