sábado, abril 11

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O CRISTO REDENTOR DO MORRO DO CAVALETE

 

Por Etevaldo Amorim


O Cristo Redentor em 1995 após a reforma. Foto: Cícero Tomatão.


O Cristo Redentor erigido no alto do Morro do Cavalete é, sem dúvida, o mais importante monumento da cidade de Pão de Açúcar. Antes dele, sobre o mais destacado acidente geográfico da “Terra de Jaciobá”, que inspirou o novo nome da localidade, “foi fincada uma cruz em comemoração à passagem do século”, em 1º de janeiro de 1900, segundo relato de Aldemar de Mendonça, em seu livro PÃO DE AÇÚCAR, HISTÓRIA E EFEMÉRIDES.


Ocorrido dessa maneira, o fato teria sido antecipado em um ano, posto que a passagem do Século XIX para o século XX só ocorreria na virada do dia 31 de dezembro de 1900 para o 1º de janeiro de 1901.


A referida cruz foi destruída por forte tempestade e, somente em 1919, foi recolocada outra, que perdurou até o erguimento do Cristo Redentor.


O historiador patrício cita reportagem do jornal “O Independente” que, em número especial de 29 de janeiro de 1950, faz referência ao nosso Cristo, desde a concepção da ideia até a sua inauguração:


“Numa dessas tardes quentes, tão habituais em Pão de Açúcar, numerosas pessoas acompanhavam um cortejo fúnebre que se destinava à Necrópole que fica bem próxima ao Morro do Cavalete.


Entre essas pessoas, vinha Ernesto da Silva Pereira ‘seu Galego’, que foi surpreendido por uma luminosa ideia. Olhando um enorme cruzeiro naquele morro, marco implantado pela fé dos antigos habitantes, lembrou-se do Cristo Redentor do Corcovado, no Rio de Janeiro.


Procurou o escultor João Lisboa, narrando-lhe o que estava maquinando o seu cérebro.  João Lisboa acolheu amavelmente o amigo e empolgou-se com a ideia.”


A ideia foi tomando vulto e as iniciativas foram sendo tomadas. Tanto que, na noite de 21 de outubro de 1948 – ainda segundo Aldemar de Mendonça - no Grupo Escolar Bráulio Cavalcante, realizou-se uma movimentada reunião a fim de ser feita a primeira coleta de donativos. Todo o comércio foi avisado e o povo católico de Pão de Açúcar tomou conhecimento daquela saudável iniciativa.


Destacavam-se à frente do movimento os senhores: Carlos dos Anjos, Prefeito do Município; José Teófilo Filho, do alto comércio; Aldemar de Mendonça, Agente de Estatística; Antônio Machado Guimarães, Presidente da Câmara de Vereadores; e muitas outras figuras de expressão na sociedade local: José Mendes Guimarães, produtor rural e poeta; Antônio de Freitas Machado, professor e tabelião; Antônio da Silva Pereira, Antônio Alves da Silva, João Damasceno Lisboa, Elísio da Silva Maia, Racine Bezerra Lima, Luiz Aquino da Rocha, Cícero José da Silva, Manoel Vitorino Filho, Virgílio Campos, D. Clélia Mendonça Lima, Diretora do Grupo Escolar onde se realizava a reunião; Anísio Ramos de Aquino e Paulo Pires Guimarães.


Representante de Pão de Açúcar na Assembleia Legislativa, o deputado Augusto Machado, muito trabalhou, na Capital do Estado, para a construção da obra, além de um grande número de pessoas que contribuíram para a concretização desse sonho. 


No dia 1º de janeiro de 1949, foi assentada a primeira pedra para a construção do monumento do cristo redentor, no morro do Cavalete, a Oeste da cidade. Ao som da banda de música e sob salvas de foguetes, seguiram-se as bênçãos do Padre Jasson Souto e o discurso do Promotor de Justiça da Comarca:


“É com a mais intensa emoção que me encontro diante de vós para experimentar a sensação de vos dizer da importância desta solenidade que, estou certo, não será o complemento desta homenagem, mas terá no seu atômico sentido, um sentido amplo, porque expressa o pensar deste grupo que sempre tem sabido elevar o nome desta terra que, vigiada silenciosamente pelo São Francisco, irá vibrar às comoções centrais do organismo de nossa Pátria, este monstro sagrado nascido para os afagos da luz.”


“Meus senhores, para muitos de vós a ideia, e o curioso e sugestivo lançamento da pedra base do monumento do Cristo Redentor, hoje gloriosamente sagrada pelas mãos do nosso dirigente espiritual, eram no seu começo uma “aglomeração de horrores”. Em nossa mente desfilava um número sem fim de paisagens duvidosas; aqui a política da destruição; ali a questão pecuniária, semelhante ao “gênio supliciado, aquele ser alucinante, aquela paisagem invertida, se não são jogos de fantasias de artistas zombeteiros.  E não está findo o nosso espanto, outros “horrores” vos aguardam.”


“Daqui a pouco, juntando-se a esta fileira de disparates, vossos olhos focalizarão em suas retinas a sublime estátua do Cristo, miniatura do mestre erguido no ápice do Corcovado, na capital do país; e tudo isso irá revoltar àqueles que reagem movidos pela força do passado, mas para estes retardatários a “arte continua a ser o belo”.


“A emoção geradora da arte é tão funda, tão universal, que forjou no cérebro desta plêiade a ideia de criar, de interpretar e de assistir como expectador de sua própria arte, a beleza do monumento ao divino Mestre, que, da curva deste morro, ficará de braços abertos a abençoar os seus filhos, irmanando-os ao princípio da igualdade; como sinaleiro, ficará a guiar os heróis das águas revoltas do São Francisco, cujas convulsões representam a nota pitoresca e real de sua existência.”


“O que hoje fixamos é o renascimento de uma arte que sempre existiu na nossa imaginação. É o próprio e comovente nascimento da arte no coração do povo de Pão de Açúcar.”


“Eis que tomo a liberdade de dizer-vos, como porta-voz desta assistência esteta, que hoje se inicia a fase gloriosa de nossa terra, na pujança de sua vida na arte; e, na pessoa de João Lisboa, entregamos o destino desta obra, para que finda a sua tarefa, faça vibrar o seu martelo, cujo erro repetirá, estou certo, o ‘PARLA’ de Michelângelo, quando esculpiu o seu Moisés, embriagado pela perfeição da arte.”


“Meus senhores, pudera ter conhecimento de vos dizer como se consegue realizar o impossível, mas o Sábio Tomás de Aquino vos dirá, quando em uma de suas aulas, cansados os alunos, um ergueu a voz e disse: “Mestre, olhe um boi voando!”. E o Mestre levantou-se a ver o fenômeno, enquanto os demais alunos ficaram a sorrir; e, interpelado porque acreditara no impossível, respondeu-lhe que mais impossível era um religioso mentir.”


“Mas, meus amigos, vamos, em uníssona voz, dizer: foi erguido o Monumento ao Cristo Redentor, e realizou-se o impossível; porque o sacerdote que abençoa esta pedra não é o aluno do Sábio Santo, e veio convosco, representando a comissão idealizadora, mostrar como o nosso espírito se libertou da “aglomeração de horrores” saindo para arte real e vitoriosa.”


“Estamos, pois, com a construção deste monumento, talhados a dizer:

É como um girassol de pétalas rendadas

Ao sol acompanhando a marcha vencedora

O símbolo d’amos da Pátria nas jornadas

Dos povos lhe assiste glória redentora.

 

Imagem desta cruz que o Cristo nos legara

Por meio de Cabral surgindo em nossos mares

Mais alto nos afirma a história viva e calma

Dos nossos ancestrais e feitos singulares.”

 

“Olhemos, pois, para o alto e, em se avistar um arco-íris, lembremo-nos que na sua curva existe uma montanha de ouro e no seu ápice coloquemos, com um pouco de esforço, estes sentimentais do belo, para que fiquem mais aproximados de Deus.”

 

As obras começaram, efetivamente, no dia 2 de janeiro de 1949 e terminaram em 30 de dezembro do mesmo ano. Coadjuvado por Pedro Pereira, “seu” Joãozinho se dedicou de corpo e alma na materialização desse sonho pão-de-açucarense. “Fomos os únicos que, de cima dos andaimes, enfrentamos a dureza dos tempos de inverno, que muitas vezes nos obrigava a descer, completamente roxos de frio. Ainda tinha o vento, que era fortíssimo, e qualquer descuido, um pé em falso, a queda seria desastrada e fatal.”


Pela Lei nº 153, de 30 de novembro daquele ano, foi o Prefeito autorizado a conceder o auxílio de Cr$ 10.000,00 (Dez Mil Cruzeiros). O Governador do Estado, Silvestre Péricles de Góis Monteiro, autorizou o Tesouro Estadual a dispender uma verba de 30 mil cruzeiros em favor da obra.


No dia 29 de janeiro de 1950, foi o monumento solenemente inaugurado. Ainda segundo Aldemar de Mendonça, compareceram à cerimônia de inauguração cerca de 3.000 pessoas. A solenidade contou com a presença do Bispo Diocesano de Penedo, Dom Felício de Vasconcelos, que realizava a sua primeira visita pastoral, e foi recebido no porto pelo jovem Dr. Carlos dos Anjos Filho (Dr. Carlinhos), filho do então prefeito.

No alto dos seus 84 metros, o morro do Cavalete encimava agora um monumento de 12,80 m de altura (10 de figura). O cimento, vergalhões de aço e pedras britadas utilizadas na obra, conferem ao monumento um peso de 287 toneladas.


Em 1ª de janeiro de 1950, o jornal Gazeta de Alagoas publicou a seguinte reportagem:

 

“Nas margens do São Francisco, no sertão de Alagoas, um simples comerciante, verificando que Deus pusera em suas mãos a graça de modelar imagens de pedra, cismou um dia de levantar em um morro de sua cidade, a cidade de Pão de Açúcar, uma imagem do Cristo Redentor.


Era uma ideia temerária, mas o fotógrafo amador João Lisboa, também pintor e escultor, não mediu as dificuldades. Fez um projeto da imagem, não tão grande como a do Corcovado, porém bem majestosa, e apresentou ao prefeito Carlos dos Anjos, Chefe do Executivo Municipal de Pão de Açúcar.


 O prefeito deixou-se contagiar pelo entusiasmo daquele artista espontâneo e conseguiu, não só auxílio da sua Prefeitura como do Governador do Estado. E o artista, com os meios necessários, levou para a colina o material e começou a esculpir a magnífica imagem do Cristo Redentor.


O mais impressionante, no entanto, é o fato de as linhas dominantes dessa obra ligarem-se às mais modernas correntes da escultura. O seu traço é firme e definitivo e qualquer crítico, à primeira vista, afirmaria, sem medo, encontrar-se diante de uma obra saída do atelier de um Ceschiatti[i] ou Bruno Giorgi[ii].

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REFORMAS.

O monumento é também um importante atrativo turístico. Esta condição se consolidou com a construção de um restaurante próximo ao cume, com vista para o oeste, na Administração do prefeito Elísio Sávio dos Anjos Maia (1989-1992), com adequação e pavimentação do acesso, permitindo alcançá-lo em veículo motorizado.


Em 1995, durante a primeira gestão do prefeito Antônio Carlos Lima Rezende - “Cacalo” – achando-se a estátua em péssimo estado de conservação, realizou-se uma grande reforma e um minucioso restauro, com implantação de guarda-corpos, melhoria no acesso e na iluminação.


Durante a gestão do prefeito Jasson Silva Gonçalves (2009-2012), o monumento passou por uma nova restauração. Além do reparo de grandes rachaduras nos braços e das ferragens desgastadas, a obra incluiu uma base de granito, nova pintura, iluminação revitalizada e melhorias no acesso.


Recentemente, já nesta gestão do prefeito Jorge Dantas, o equipamento turístico recebeu novos melhoramentos, consolidando-se como ponto de referência para o pão-de-açucarense e para que nos visita.


O morro do Cavalete em 1939, vendo-se no alto o cruzeiro erguido em 1919. Foto: Edgard de Cerqueira  Falcão.


O escultor João Lisboa trabalhando. Foto: 1949, acervo de Suely Lisboa.


A imagem do Cristo em construção. Foto: 1949, acervo Suely Lisboa.


A estátua já em fase final de construção. Foto: Suely Lisboa.


O escultor João Damasceno Lisboa, o grande artífice da magnífica obra.


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Agradecimentos a Suely Lisboa e Massilon Ferreira da Silva.

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Alfredo Ceschiatti (1918–1989) foi um dos mais influentes escultores modernistas do Brasil, conhecido principalmente por sua colaboração com Oscar Niemeyer em Brasília. Suas obras são ícones da integração entre arte e arquitetura na capital federal. A Justiça (1958): Talvez sua obra mais famosa, é a escultura em granito de uma mulher sentada e com olhos vendados que fica em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) na Praça dos Três Poderes; Os Anjos e Os Evangelistas (1970); As Banhistas (1958; As Gêmeas (1970); O Anjo (1970); Contemplação: Localizada nos jardins do Palácio do Jaburu, residência oficial do Vice-Presidente.

 

[ii] Bruno Giorgi (1905–1993) foi um renomado escultor brasileiro, expoente do modernismo, conhecido por integrar arte à arquitetura moderna, especialmente em Brasília. Utilizando bronze e mármore, suas obras se destacam pela fluidez, formas orgânicas e uso de espaços vazios, com obras icônicas como Os Candangos (1960) e Meteoro (1967).

 

quinta-feira, abril 2

CALMARIA E TEMPESTADE

 

Por Etevaldo Amorim


Porto de Limoeiro, 1988. Foto: Paulo Alves.


Sob o sol de meio de tarde, no sinuoso canal da ilha do Limoeiro, um menino e seu pai conduzem uma canoa demandando o porto de Jacarezinho. Vento algum se podia sentir. Apenas um mormaço sufocante e a pele a arder ante o calor escaldante. Não se via uma ruga sequer sobre a superfície. O pano da canoa, erguido sobre o banco dianteiro, revelava-se inútil. Direcionando a canoa bem próximo à margem, reduzindo assim o efeito da correnteza, os dois tripulantes seguiam remando, derretendo-se em suor.


Deslizando morosamente junto à margem povoada de caniços e calumbis, encontram, aqui e acolá, algumas groseiras armadas pelos pescadores das redondezas, e capivaras que, assustadas, se atiram na água. À esquerda, a grande ilha, repleta de mangueiras e coqueiros, cujas folhas se quedavam imóveis, revelando a calmaria reinante.


Adiante, divisam uma clareira onde meninos e meninas tomavam banho: era o porto da fazenda Santa Maria, que medeia o pequeno trecho. Uma parada para descanso; uns punhados de água jogados sobre o rosto; alguns goles da moringa guardada sob o carro de popa. Um alívio. Seguem viagem.


O calor continua e nenhuma brisa sequer. O menino suplica a São Lourenço, o Senhor dos ventos. Em vão. O remo parece agora pesar uma tonelada, os braços em molambo... fadiga...cansaço.


Algumas remadas a mais, chegam enfim ao porto. Depois de tratativas comerciais com Seu Asdrúbal, pai e filho se preparam para o retorno a Limoeiro. Eis, porém, que, chegando ao porto, encontram o senhor Caboquinho, que embarcava alguns cavalos na canoa de Zé Pretinho, pretendendo levá-los à fazenda Belém, situada na margem sergipana.


A essa altura, o vento já chegara. Zé Pretinho, temendo alguma dificuldade na travessia, procura o homem e pede que junte as duas canoas, visando conseguir maior estabilidade. Solícito, o homem concorda.


Juntadas as canoas, atadas por dois mastros dispostos transversalmente, largaram do Jacarezinho.


A travessia principiara tranquila. Mas, do meio para o fim, refregas mais fortes faziam as canoas balançarem como a dançar sobre as águas.


Chegam a Belém. A grande fazenda, pertencente à família Brito, pouco abaixo da Ilha de São Pedro - cenário de páginas memoráveis da História do antigo Morgado de Porto da Folha – ainda se mostrava operosa e produtiva.


Desembarcados os animais, seguem-se os agradecimentos, posto que nenhum pagamento foi aceito; apenas a solidariedade movida por sentimentos de amizade e consideração.


O retorno para a costa alagoana se revelaria difícil e arriscado. O vento agora já soprava forte, assumindo ares de tempestade. Nuvens de poeira se podiam ver nos combros de ambas as margens, elevando-se até os céus. A superfície do rio se encrespara sobremaneira, formando ondas gigantescas, sobre as quais a canoa mais parecia um simples brinquedo. O piloto, atônito, apavorado com tamanha tormenta, a muito custo conseguia aprumá-la no rumo certo.


O menino, impotente, sentado sobre o estrado do fundo da embarcação, sentiu o vento arrancar-lhe, de súbito, o belo chapéu de palhinha que seu pai comprara na feira de Pão de Açúcar.


Por fim chegam à costa Sul da ilha, justamente na parte que pertencia ao dito homem. Ali tiveram outra dificuldade: a cada marulhada, a canoa pinoteava, o que exigia que a segurassem a uma certa distância para que não se espatifasse na costa. Tiveram que ficar ali por, pelo menos, uma hora, até que a tempestade amainasse.


Nesse ínterim, em meio às ondas que quebravam sobre a ribanceira, o menino avista o chapéu de palhinha que a ventania lhe arrancara da cabeça. Exultante, recoloca-o no seu devido lugar.


Passado o temporal e sentindo-se seguros, deitam o pano e principiam a volta para casa. Novamente remando, molhados dos pés à cabeça, chegam ao porto de origem. Já é fim de tarde. Logo vem uma noite fresca, de temperatura amena e uma leve brisa que lhes oferece um repouso tranquilo e reparador.

 

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

sábado, março 28

ESCOLAS E SEUS PATRONOS – U.M.E. MONSENHOR LYRA

 

Por Etevaldo Amorim


A Unidade Municipal de Ensino Mons. Lyra, em Lagoa de Pedra.


A Unidade Municipal de Ensino do povoado Lagoa de Pedra foi fundada em 28 de fevereiro de 1968, na gestão do prefeito Augusto Machado, segundo informações do seu diretor Prof. Gildácio Silva Pinto, complementada pelo escritor Marcelo Maciel. Desde então, tem formado inúmeras gerações de meninos e meninas, muitos dos quais alcançaram destacadas posições na sociedade.


Em julho de 2023, sob a gestão do prefeito Jorge Dantas, a escola passou por uma grande reforma, e agora conta com seis salas de aula, uma secretaria, sala de recursos, almoxarifado, cozinha, lavanderia, quatro banheiros, pátio aberto e pátio coberto.


Atualmente tem 190 alunos matriculados, oriundos do próprio povoado de Lagoa de Pedra e de outras localidades circunvizinhas: Entroncamento, Tupã, Quibanzê, Serrinha, Serraria e Assentamento Marí.


O Corpo Funcional é composto ainda por Vivianne de Oliveira Pinto (Coordenação); Silvaneide da Cruz Feitosa (Articulação) e as Assistentes Administrativas Izadora Lisboa da Rocha e Izabela de Campos Alcântara.


Na Creche, a professora Gislane Silva Pinto; no Pré-Escolar I, Zilvaneide Vieira da Silva; no Pré-Escolar II, Jéssica Ferreira Lisboa.


No 1º Ano, Eliane Oliveira Pinto; 2º Ano, Mayara de Alcântara; 3º Ano, Barbara Mariana de Alcântara; 4º Ano, Raquel da Silva Sampaio; 5º Ano, Cléssia Souza da Cruz Rodrigues.


No EJA (Educação de Jovens e Adultos), Solange Alves da Silva e Zilvaneide Vieira da Silva.


Completam o Quadro os professores: Silvestre da Rocha Lyra e Wemerson Gouveia Oliveira; os Cuidadores: André Rocha Sampaio, Gleize Cristina Souza Nunes, Hemylle Isabele Alcântara, Joseilma de Oliveira, Renan Farias dos Santos; os agentes do PMAC[i]: Delane Farias Santos Silva, Jaqueline Souza da Silva, Rejane Alcântara Lira Santos e Willian Lisboa da Silva; as Auxiliares de Sala: Hannely Oliveira do Nascimento, Ingrid Lisboa da Rocha e Samara Ferreira da Silva; os Vigias Lídio Simões de Oliveira Filho, Renan Santos Oliveira e Gabriel da Rocha Amaral; as Cozinheiras Rafaela Farias Santos e Lívia da Silva Oliveira; e os Auxiliares de Serviços Gerais: Jandeccly Antônio Bezerra, Victor Manoel Costa Farias.


A Escola antes da reforma de 2023. Foto: arquivo da U. M. E.



Placa alusiva à reforma empreendida em 2023.

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O PATRONO


O Cônego Fernando Lyra.

Fernando Alves da Rocha Lyra. Segundo Aldemar de Mendonça, nasceu no povoado Lagoa de Pedra, município de Pão de Açúcar, onde ainda residem muitos dos membros da família Lira.


Segundo muitas fontes, nasceu no dia 29 de maio de 1886[ii]. Segundo outras, teria nascido em 30 de maio.


Filho do casal Higino da Rocha Lyra e Francisca Cavalcanti Alves, tinha como avós paternos: José da Rocha Lyra e Francisca das Chagas de Jesus; e, maternos: Antônio Luiz Vieira Rego Alves e Genoveva Cavalcanti.


Seu pai era “Solicitador” - profissional do Direito que atuava como intermediário entre a parte (o cliente) e o tribunal ou o advogado- atuando em Penedo, onde residia[iii], e em outras comarcas do baixo São Francisco. Por vezes, atuava também como advogado, embora não tivesse formação jurídica.


CARREIRA ECLESIÁSTICA


Em 1903, aos 17 anos, ele ingressou no Seminário Diocesano de Maceió,[iv] cumprindo plenamente os requisitos para o início da sua carreira. No dia 20 de novembro de 1905, em solenidade realizada na Catedral Metropolitana de Maceió, recebeu a prima tonsura[v], executada pelo Bispo Diocesano Dom Antônio Brandão, tendo como diáconos assistentes o Cônego Octávio Costa (pão-de-açucarense) e o presbítero Mons. Silva Lessa. Foram diáconos da missa os presbíteros José Omena e José Pimentel, que viriam a ser vigário e coadjutor da Paróquia de Pão de Açúcar, respectivamente. O subdiácono recém-ordenado Achilles Mello (também pão-de-açucarense) cantou a Epístola da missa.


No dia 8 de dezembro de 1909, em missa celebrada às 9 horas da manhã, na Catedral Metropolitana, o Bispo Dom Antônio Brandão conferiu a ordem de presbítero aos diáconos Antônio Tobias da Costa e Fernando da Rocha Lyra[vi].[vii]


Assim, devidamente ordenado, o jovem clérigo celebrou a primeira missa na igreja de Nossa Senhora do Livramento no dia 10 daquele mês e ano.[viii]


Em junho de 1911, o bispo Dom Manoel Antônio de Oliveira Lopes - que houvera tomado posse em 13 de março de 1911, sucedendo Dom Antônio Brandão – o nomeou para dirigir a paróquia de Nossa Senhora Mãe do Povo, em Jaraguá. Sucedia, assim, o seu conterrâneo Pe. José Soares Pinto, que ali pontificara entre 1909 e 1910.[ix] Permaneceu no cargo até 1935, quando foi sucedido pelo Pe. Antônio Monteiro.


O bispo Dom Manoel Lopes, que nomeou  o Pe. Fernando Lyra para a paróquia de Jaraguá.


Foi durante a sua passagem pela paróquia de Nossa Senhora Mãe do Povo, que foi construída a nova matriz de Jaraguá, cujas obras atravessaram anos e contou com a colaboração de diversos setores da sociedade. Registre-se que, em maio de 1917, a pedido do Cônego, o governador Baptista Accioly mandou pagar 4 contos de réis dos 8.500 que a matriz de Jaraguá tinha depositado no Tesouro Estadual, prometendo pagar o resto em duas prestações nos meses de junho e julho próximos.[x] Mais tarde, em 1921, o Intendente de Maceió, Firmino de Vasconcellos, foi autorizado por Lei a entregar 1 conto de réis ao Padre Fernando Lyra para auxiliar nas obras da igreja de Jaraguá.[xi]


A nova Matriz se fez sobre a primeira capela, cuja construção se iniciou no ano de 1820, em homenagem a Nossa Senhora Mãe do Povo e concluída em 1º de agosto de 1827.[xii]


Por fim, no dia 29 de abril de 1923, foi solenemente inaugurada a nova matriz de Jaraguá. O ponto culminante foi a missa solene, iniciada às 9:30 h, celebrada pelo Cônego Antônio Tobias, com a participação do Padre José Soares Pinto, ex-vigário daquela paróquia.


A velha Matriz de Jaraguá ao tempo do Côneto Lyra. Foto O Malho, 27.03.1915.


A Matriz de N. S. Mãe do Povo nos dias atuais.


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Em agosto de 1918, foi ao Recife para receber o hábito da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo.[xiii]


No dia 24 de agosto de 1922, abençoou a jangada Independência, pouco antes da partida para a épica jornada até o Rio de Janeiro, como parte das solenidades de comemoração do centenário da independência do Brasil.[xiv]


Em 1931, chefiou uma delegação de peregrinos alagoanos que, a exemplo de tantas outra de todas as partes do país, foram ao Rio de Janeiro para a inauguração do monumento ao Cristo Redentor, sendo recebidos, no dia 9 de outubro, pelo Sr. Getúlio Vargas, Presidente da República.[xv]


Em 1933, enquanto secretário do Arcebispado, era diretor do jornal católico O SEMEADOR,[xvi] que tinha como Redator-Chefe Emilio de Maya, e como Diretor-Gerente o Cônego João Lessa.


Aliás, “O Semeador era um jornal de caráter católico e um dos canais de propagação dos pensamentos da Liga Eleitoral Católica – LEC[xvii], uma organização de caráter conservador e que mantinha ligações com o integralismo. O Cônego Lyra era, portanto, “lecista”: denominação dos adeptos da referida Liga.


Em 1937, era Presidente de Honra do Grêmio Ronald de Carvalho, fundado em 1936 pelos alunos do Colégio Diocesano.[xviii]Em 1938, foi nomeado Inspetor do Ensino Secundário no Estado de Alagoas.[xix]


Em 1945 o Cônego Lyra era capelão do colégio Arquidiocesano,[xx] e, em 1947, por Ato de 21 de maio, o governador Silvestre Péricles o nomeou Capitão-Capelão dos serviços religiosos da Polícia Militar do Estado de Alagoas.[xxi]


Cônego Fernando Alves da Rocha Lyra faleceu no dia 25 de abril de 1961, depois de mais de 50 anos dedicados ao sacerdócio, sendo a maior parte desse tempo à frente da Paróquia de Nossa Senhora Mãe do Povo, em Jaraguá, onde se tornou uma das figuras mais influentes da sociedade alagoana de sua época.

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Além de dar nome à escola do povoado Lagoa de Pedra, ele recebeu outra homenagem. No bairro do Trapiche da Barra, em Maceió, há uma rua que leva o seu nome, por força da Lei Municipal nº 1.825, de 30 de junho de 1971, assinada pelo Prefeito João Sampaio. Essa rua é paralela à Avenida Siqueira Campos, onde está localizado o Hospital Escola Hélvio Auto.

Com a designação de "Monsenhor Lyra", encontramos apenas uma menção, no jornal Gazeta de Alagoas, edição de 22 de setembro de 1950. Aliás, o termo monsenhor (do francês monseigneur, "meu senhor") é um título honorífico concedido pelo Papa a sacerdotes da Igreja Católica que se destacaram por serviços relevantes ou por sua dedicação à comunidade.


Mesa Diretora do Primeiro Congresso Médico de Alagoas. Ao centro, o Interventor Federal Cap. Affonso de Carvalho; à sua esquerda, o Dr. Orlando Araújo (prefeito de Maceió); o Cônego Fernando Lyra, Secretário do Arcebispado; Dr. Ezequias da Rocha, Diretor de Saúde Pública do Estado; e o Dr. José Maria Correia das Neves, Titular Interino da Secretaria Geral do Estado. À direita do Interventor, os médicos José Carneiro, Sebastião da Hora e Abelardo Duarte. Foto: Revista da Semana, RJ, 22 de julho de 1933, capturada do site História de Alagoas.


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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] PMAC – Programa Municipal de Agentes da Cidadania. O programa tem o objetivo de incentivar a participação social e o protagonismo juvenil ou comunitário. O programa recruta moradores para atuar como agentes de transformação em suas comunidades, recebendo em troca uma bolsa-auxílio.

[ii] Gazeta de Alagoas, Maceió-AL, 29 de maio de 1934.

[iii] Sua residência em Penedo foi onde nasceu o General Gabino Besouro. Fonte: Diário do Povo, Maceió-AL, reproduzindo matéria de A Semana, jornal penedense, de propriedade de Joaquim Mazoni.

[iv] A Fé Cristã, Penedo-AL, 28 de novembro de 1903.

[v] A “prima tonsura” era o rito litúrgico e a cerimônia inicial na Igreja Católica que marcava o ingresso no estado clerical, onde o bispo cortava simbolicamente uma parte do cabelo do ordinando, criando uma coroa. Representava a renúncia às vaidades do mundo e a conformidade com Cristo. Em 15 de agosto de 1972, o Papa Paulo VI, através do documento Motu proprio Ministeria quaedam, suprimiu a prima tonsura na Igreja de rito romano.

[vi] Evolucionista, Maceió-AL, 20 de novembro de 1905.

[vii] Jornal Gutenberg, Maceió-AL, 8 de dezembro de 1909.

[viii] Jornal Gutenberg, Maceió-AL, 10 de dezembro de 1909.

[ix] Jornal Gutenbert, Maceió-al, 7 de junho de 1911.

[x] Jornal do Comércio, RJ, 24 de maio de 1917.

[xi] Jornal do Recife, 9 de junho de 1921.

[xii] A Paróquia de Jaraguá e suas matrizes culturais. Disponível em: PARÓQUIA MÃE DO POVO.

https://paroquiamaedopovo.wixsite.com/website/contact.

[xiii] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 16 de agosto de 1918. A Ordem Terceira do Carmo (OTC), formalmente conhecida como Ordem Secular Carmelitana da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, é uma associação de fiéis leigos da Igreja Católica que buscam viver o carisma carmelita no cotidiano de suas vidas seculares.

[xiv] Jornal do Recife, 7 de setembro de 1922.

[xv] A CRUZ, RJ, 18 de outubro de 1931.

[xvi] Gazeta de Alagoas, Maceió-AL, 2 de março de 1935.

[xvii] NERI, Gustavo Nunes Costa. A AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA EM TERRAS ALAGOANAS – 1930  1937,  UFAL, 2014.

[xviii] Gazeta de Alagoas, Maceió-AL, 9 de abril de 1937.

[xix] Diário da Manhã, Recife-PE, 26 de fevereiro de 1938.

[xx] A CRUZ, RJ, 18 de fevereiro de 1945.

[xxi] Gazeta de Alagoas, Maceió-AL, 23 de maio de 1947.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia