quinta-feira, outubro 8
O PRESIDENTE JOSÉ BENTO EM PÃO DE AÇÚCAR – IMAGENS DA VILA
Por Etevaldo Amorim
![]() |
| O Presidente José Bento da Cunha Figueiredo Junior e sua comitiva em Pão de Açúcar |
Iniciava-se o ano de 1869. O Brasil, compondo a Tríplice
Aliança, achava-se envolvido no maior conflito armado do continente
sul-americano: a Guerra do Paraguai. Tamandaré e Barroso, que tinham estado em
Pão de Açúcar acompanhando Dom Pedro II, se tornariam figuras de destaque das
nossas Forças Armadas.
No dia 5 de janeiro, dois dias depois de as tropas
brasileiras tomarem a capital paraguaia, prenunciando o fim da guerra, chegava
à então Vila do Pão de Açúcar o Dr. José Bento da Cunha Figueiredo Junior[i]
acompanhado de numerosa comitiva. Durante o seu governo, foram enviados aos
campos de batalha 277 homens, sendo 232 recrutas para o Exército, 28 recrutas
para a Armada (Marinha) e 17 menores como aprendizes.
Tendo sido nomeado por Carta Imperial de 22 de agosto de 1868
e tomado posse em 2 de outubro do mesmo ano, este pernambucano logo daria
mostras da profícua administração que faria, levando a cabo importantes obras,
sobretudo na capital da Província, apesar do curto espaço de tempo, pois
deixaria o governo em 28 de agosto de 1871, mesmo que para tanto onerasse os
cofres provinciais, comprometendo futuras administrações.
Do Relatório dessa viagem ao baixo São Francisco, pudemos
colher significativas informações sobre a promissora “Vila do Pão d’Açúcar”,
pernoite obrigatório para tantos quantos se aventuravam pelos sertões
sanfranciscanos.
A bordo do vapor Jaguaribe, pertencente à Companhia
Pernambucana e sob o comando de Manoel Rodrigues dos Santos Moura, o Presidente
se fez acompanhar de numerosa comitiva, com a qual se deixou fotografar por
Abílio Coutinho, um dos pioneiros da fotografia no Brasil, diante de uma das
pedras que compõem o hoje denominado “Parque da Paciência”.
No vapor Jequiá, da mesma Companhia, viajava o seu gerente,
Sr. Francisco Ferreira Borges.
De Penedo em diante, o Presidente e comitiva passaram a
utilizar os vapores da Companhia Baiana, cedidos pelo gerente, Sr. Luiz Campos.
Aliás, as duas empresas disputavam o privilégio de explorar a navegação no rio
São Francisco, sendo que a Baiana já gozava de subvenção dos governos de
Alagoas e Sergipe.
Assim, no dia 5 de janeiro, já a bordo do vapor Paulo Afonso,
comandado pelo Sr. João de Souza Reis, o Presidente José Bento e sua comitiva
alcançavam as terras do sertão. Do seu Relatório, escrito por Olympio Eusébio
de Arroxelas Galvão e José Antônio de Magalhães Basto, retiramos o seguinte
relato:
“Antes de chegar-se a Pão de Açúcar, deixamos à direita o
Araticum e a ilha de São Pedro, residência do virtuoso Frei Doroteu; a Tapera e
o Saco Grande; e, à esquerda, a povoação de Lagoa Funda, com uma pequena
capelinha, contendo 80 casas de telha, e é distrito de uma subdelegacia,
pertencente ao Termo de Traipu e tem uma aula de instrução pública primária
para o sexo masculino, dista 6 léguas daquela Vila e 4 abaixo do Pão de Açúcar.”
“Um pouco mais acima deste povoado confina a Comarca de
Penedo com a de Mata Grande, pelo rio; adiante a povoação do Limoeiro, com uma
capela de excelente construção e alegante, dedicada a Jesus, Maria e José, 2
ruas com mais de 60 casas, pertencente já ao Termo de Pão de Açúcar, de que
dista 3 léguas; mais além, povoado Jacarezinho, Santiago, riacho e morro do
Faria.”
Precisamente às 15:25 h, fundeava o vapor Paulo Afonso e,
logo em seguida, o Jequitaia, onde foram recebidos por grande número de
pessoas. Foguetes no ar, bandeiras em terra e tiros de bateria saudaram os
ilustres visitantes.
E prossegue a narrativa:
“Sua Excelência foi logo convidada com sua comitiva para
jantar em terra. A bordo, foi cumprimentado pelo Estado Maior da Guarda
Nacional. Ao saltar em terra, toda a oficialidade uniformizada, a Câmara
Municipal em corporação, revestida em suas insígnias, empregados públicos,
delegado, subdelegado, muitos outros cavalheiros e particulares acompanhavam a
S. Exª até o sobrado da residência do Ilustríssimo Senhor Dr. Juiz de Direito
Paes Barreto (ausente), ricamente preparado para esse fim.”
“O presidente da Câmara Municipal dirigira uma breve alocução
oral, a que S. Excelência respondeu logo agradecendo.”
“O jantar foi profuso e variadíssimo. Nessa recepção,
distinguiram-se entre outros os senhores Major Cunha Figueiredo, Major Machado
Novaes, Mariano Cavalcante, etc.”
“À tardinha, S. Excelência visitava a Matriz, único templo e
não acabado dessa importante e florescente Vila, o cemitério, etc.”
“Tem mais de trezentas casas de telha, em geral bem
construídas e altas. As ruas paralelas com o rio, exceto uma, para a frente da
qual olha a principal, que é bastante extensa: são as da Matriz, Flores,
Aurora, Feira Velha e Senzala.”
“A da Matriz é notável por ser reta, longa e muito larga,
devendo-se a alguns particulares um ensaio de arborização, tão necessária à boa
higiene dos habitantes e como meio de mitigar a ação do calor abrasador, que
ali reina na estação calmosa, aumentado por enorme quantidade de pó, que se
levanta durante o dia, e próprio do terreno que é areiento.”
“A Vila edificada num belo e espaçoso plano, que lhe dá linda
perspectiva e ministra-lhe ainda bastante espaço de terreno para alargar-se e
desenvolver-se, devendo sua denominação ao morro do Pão de Açúcar, um pouco
acima, a Sudoeste e à distância de um tiro de canhão: pequeno e rotundo, de
forma cônica, bem merecedor do nome que lhe dão, e é conhecido também por Morro
do Cavalete. Duas léguas atrás, em rumo setentrional, fica a importante e
majestosa Serra do Pão de Açúcar”.
“Contém um comércio que tende a prosperar; e 3 mil
habitantes, devendo ter, a Freguesia e o Município, 7 a 8 mil almas, pouco mais
ou menos.”
“A freguesia tem por invocação o Sagrado Coração de Jesus.”
“Na Vila existem fábricas de vapor para descaroçar algodão e
mais de 20 casas de comércio.”
“O terreno é de criação e agrícola, dando riquíssimo e
abundante algodão, mas acaba de ser assolado pela seca.”
“Na Vila residem o Juiz de Direito e o promotor da Comarca, o
Juiz Municipal e o Delegado do Termo, o Subdelegado, vigário, um professor e
uma professora de instrução pública primária, um Inspetor Paroquial, um gerente
dos correios, coletores de rendas gerais e provinciais, Câmara Municipal, etc.,
e dá 18 eleitores apenas. Dista 24 léguas do Penedo e 61 da Capital.”
“Toda a comitiva pernoitou em terra, sendo S. Excelência
constantemente visitado em Palácio, onde a música marcial, de bordo, tocou à
porta lindas peças.”
“Às 6 horas da manhã do dia 6, os vapores da navegação
fluvial se encaminharam para o termo de sua viagem a Piranhas.”
Concluída a viagem a Piranhas, o Presidente e comitiva
iniciaram o retorno. Assim, no mesmo dia, o relatório registra:
“Voltou o Paulo Afonso, que às 5 horas fundeava outra vez em
Pão de Açúcar, onde à tarde Sua Excelência e oito pessoas da comitiva passearam
a cavalo pelas ruas da Vila, várzeas e lagoas adjacentes, e foram ao morro do
Cavalete, onde subiram até certa altura, conseguindo, posto que temerariamente,
o Sr. Dr. Carlos de Mornay chegar ao seu cume, montado.” “Pernoitou-se ainda em
terra, em Palácio, tocou-se e cantou-se bastante.”
“Na manhã do dia seguinte, às 7 horas, a comitiva e S.
Excelência deram um belo passeio a pé a uma aprazível eminência de pedras, que
fica atrás das ruas da Vila, donde se descortina magnífico panorama. Esse belo
quadro foi tirado pela máquina fotográfica, graças à habilidade e trabalhos do
Sr. Abílio Coutinho.”
“Às 9 horas, despedia-se de nós a importante Vila e o
generoso povo de Pão de Açúcar.”
____
AS PRIMEIRAS IMAGENS DE PÃO DE AÇÚCAR E LIMOEIRO
Dessa importante passagem do Presidente da Província, ficaram-nos como herança os primeiros registros fotográficos de nossa terra.
FOTO DA COMITIVA
O Dr. José Bento da Cunha Figueiredo Junior (Presidente da
Província, no alto, de cartola preta); Sr. Manoel Rodrigues dos Santos Moura
(comandante do vapor “Jaguaribe”, da Cia. Pernambucana); Sr. Ildefonso
Cantidiano da Silva (Oficial de Gabinete); Sr. Francisco Ferreira Borges (gerente
da Companhia Pernambucana); Dr. João Batista Pinheiro Côrte Real (Juiz
Municipal de Penedo); Sr. João de Souza Reis (comandante do vapor Paulo
Afonso); Srª Angélica Arnoud Coutinho (esposa do fotógrafo Abílio Coutinho);
Alferes José de Mello Passos (Ajudante de Ordens de Pessoa); Dr. Manoel Joaquim
dos Santos Patury (Promotor Público de Mata Grande); Dr. José da Costa Carvalho
Guimarães Junior; Dr. Manoel Sobral Pinto; Srª Luiza Mendonça (esposa do Major
Luiz José de Mendonça); Carlos de Mornay (engenheiro da Província); Major João
Machado de Novaes Mello (futuro Barão de Piaçabuçu, de cartola branca); Major
Cunha Figueiredo; Dr. José Antônio de Magalhães Basto; Dr. Jorge Dornellas Ribeiro Pessoa[ii];
Major Luiz José de Mendonça; Cap. Bezerra Góis de Sant’Ana; Alferes Manoel
Gonzaga; Tenente João Alberto Ribeiro e o Dr. Olympio Eusébio de Arroxellas
Galvão.
___

Pão de Açúcar, Rua da Praia, 1869. Foto: Abílio Coutinho
FOTO DA RUA DA FRENTE
Principal porta de entrada da Vila, esta fotografia mostra a
região do porto, com pessoas e algumas canoas ancoradas com seus panos
enluvados. Uma delas, claramente, é uma canoa de tolda, munida de um par de
velas latinas unidas por um único mastro e postado diante da tolda,
popularmente chamado de pano-de-asa.
Em primeiro plano, vemos uma caverna, peça de madeira
arqueada com que se armavam as canoas em sua construção.
À direita, entre o casario simples, destacam-se dois
sobrados: o primeiro, velho conhecido nosso, hospedou D. Pedro II, em 1859, e
está atualmente em reforma. O segundo foi demolido pelos seus proprietários,
herdeiros do Dr. Erasmo Rodrigues Lima.
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Pão de Açúcar, Rua do Meio, 1869. Foto: Abílio Coutinho
FOTO DA RUA DO MEIO, ATUAL AV. BRÁULIO CAVALCANTE
Aqui temos a região central da cidade: a Rua do Meio, depois
chamada Av. Rio Branco e, por fim, Avenida Bráulio Cavalcante.
Tomada, provavelmente, das imediações da Prefeitura, a
fotografia mostra o trato de terra — esse combro imenso —, tendo como limite ao
fundo o Morro do Cavalete e o serrote que se estende para a direita.
Ao centro, em meio a um princípio de arborização, notam-se
buracos no meio da rua, por certo decorrentes da retirada de material para
construção.
À esquerda, veem-se habitações humildes e animais que se
abrigam à sombra das árvores.
À direita, vemos um sobrado que não mais existe e, logo a
seguir, a esquina com a então Rua Pedro Paulino, atualmente chamada Coronel
Manoel Antônio Machado. Mais adiante, podemos identificar a velha igreja
matriz, em plano diferente do que vimos na foto anterior, prolongando-se o
arruamento até o ponto onde, em 1877, se iniciaria a construção da Cadeia
Pública."

Rua Augusta, atual Pe. José Soares Pinto, 1860. Foto: Abílio Coutinho
FOTO DA RUA AUGUSTA, ATUAL PE. JOSÉ SOARES PINTO
Temos aqui uma vista da Rua Augusta, já há muito tempo,
denominada Padre José Soares Pinto. Bastante larga, ela vai se estreitando na
saída para a então Rua do Meio (atual Avenida Bráulio Cavalcante). Atualmente,
essa largura é disfarçada pelas calçadas que se projetam para muito além do
alinhamento das casas.
A rua larga e espaçosa dava lugar a um início de arborização.
Ao fundo, à esquerda, vemos a igreja matriz em sua forma original, sem torres,
depois reformada segundo o projeto de Frei Cassiano de Comachio, cuja obra foi concluída
em 1877. Ainda à esquerda, pessoas sentadas no batente das portas ou em
cadeiras, abrigadas à sombra formada pela manhã ensolarada, parecendo conversar
tranquilamente, em meio a animais soltos na rua.
À direita, casas de duas águas, cobertas com telha canal, com
cumeeira e pé-direito altos; o detalhe das fachadas das casas demonstra a moda
de portas partidas ao meio, abrindo-se apenas a parte de cima e mantendo
fechada a parte de baixo. Entre uma casa e outra, uma peça que parece um pilão.
Vê-se ainda uma das residências em construção no formato de sobrado.
___

Pão de Açúcar, "Cavalete", 1860. Foto: Abílio Coutinho
FOTO DO CAVALETE
O álbum que compõe o relatório da viagem do Dr. José Bento
anota esta foto como sendo do “Cavalete”, sem, no entanto, mostrar o morro de
mesmo nome. Presume-se que seja a “Rua da Senzala”, também referida no
documento da viagem, composta de moradias de escravizados.
____

Pão de Açúcar, povoação do Limoeiro, 1869. Foto: Abílio Coutinho
FOTO DO LIMOEIRO
Essa foto, certamente tomada das proximidades da barra da
lagoa da igreja, mostra um Limoeiro em formação. Tomando-se como base a igreja,
que não era senão uma pequena capela, cuja construção data de 1787, a povoação
teria aproximadamente oitenta anos. Vê-se apenas duas ruas: a atual Mário
Vieira, que sobe do porto de baixo para a igreja; e a Bráulio Cavalcante (rua
de Baixo), que só tinha um lado. Não havia nenhuma das casas das que hoje fazem
fundo para o rio. Em primeiro plano, temos a cerca de pau-a-pique, a porteira e
uma árvore, que bem pode ser a velha marizeira que ainda existia até meados da
década de 1980, e que servia de abrigo a canoas em construção ou conserto. Por
detrás dela, vemos o casarão que pertenceu ao meu avô João Amorim, onde
atualmente há um Clube.
____
Pão
de Açúcar, assim como outras localidades alagoanas da região do Baixo São
Francisco, devem a Abílio Coutinho a possibilidade de terem imagens de sua
formação e do seu desenvolvimento, 148 anos atrás.
Mas,
afinal, quem é Abílio Coutinho?
Abílio
de Souza Coutinho era português. Jornais do Rio de Janeiro, noticiando o
movimento do porto, registram a sua chegada no patacho português Maria, no dia
11 de janeiro de 1856, vindo de Loanda.
Essa seria, provavelmente, a data de sua chegada ao Brasil.
No
dia 2 de janeiro de 1859, casa-se com Angélica Arnaud. A cerimônia foi
realizada na Capela Imperial, tendo como padrinhos Leopoldina Frolik e
Guilherme Froik, por parte da noiva; e o Sr. João Valentim, do noivo.
De
origem italiana, procedente de Nápoles, dona Angélica era Irmã do maestro
Genaro Arnaud e de Carlo Arnaud, Giácomo Arnaud, Achilles Arnaud, Carmella
Arnaud Tostivin e Michele Arnaud, este falecido em 20 de abril de 1860 no Rio
de Janeiro.
Em
1865, já tinham dois filhos: Achilles Arnaud Coutinho e Guilherme Arnaud
Coutinho.
Dona
Angélica (Maria Angelica Concetta Arnaud), uma das duas mulheres que aparecem
na foto de Pão de Açúcar, nasceu no bairro San Ferdinando, Nápoli, Itália, a 16
de janeiro de 1837. Residindo na Rua Ferreira Viana, 119, no Rio de Janeiro,
faleceu no dia 26 de dezembro de 1885 e foi sepultado no Cemitério São João
Batista.
Em
1861 e 1862, o Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro
registra Abílio Coutinho como “negociante”. Em outras fontes, aparece como
empreiteiro de obras públicas, inclusive em Alagoas, durante a presidência do
Dr. José Bento.[iii]
*** ***
***
NOTA:
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”,
constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens
são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da
competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso
sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso
tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de
autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
Formado em Direito pela Faculdade do Recife. Filho de José Bento da Cunha
Figueiredo (Visconde de Bom Conselho) e de Rosa Valeriana Duarte, nasceu em
Pernambuco em 29 de novembro de 1839. Faleceu em Lorena, São Paulo, a 3 de
agosto de 1885.
[ii]
Filho de Jacinto Dornellas Pessoa e Brígida Maria Dornellas Pessoa, nasceu em
Olinda em 23 de abril de 1934 e faleceu no Rio de Janeiro em 26 de dezembro de
1890. Formado em Direito pela Faculdade do Recife.
[iii]
Fontes: Jornal do Comércio, RJ, 12 de
março de 1856, p. 3; Correio Mercantil, RJ, 12 de março de 1856.
quinta-feira, outubro 1
DELMIRO, ESSE DESPREZADO – CRÔNICA DE UM PÃO-DE-AÇUCARENSE
Por Etevaldo Amorim
![]() |
| Delmiro Gouveia. Foto: Fundação Joaquim Nabuco. |
Transcrita da revista Mocidade[i],
edição Nº 19 - Julho - Dezembro de 1949, publicamos hoje uma crônica do Dr. Pedro
Soares Vieira, esse nosso conterrâneo de quem falamos recentemente. (https://blogdoetevaldo.blogspot.com/2026/07/personalidades-pao-de-acucarenses-dr.html
Ainda como estudante, o jovem
Pedro emitia suas impressões sobre esse grande empreendedor e propulsor do
desenvolvimento do sertão alagoano. Boa leitura.
“Pedra. Sim, de fato o seu
aspecto é verdadeiramente lindo, ao longe, casas alvas, alinhadas e que se
tornam risonhas ao contato da luz do sol e, à noite, o esplendor das lâmpadas
elétricas bem definem o esforço de um ente predestinado a tirar de um nada a
caatinga e fazer a estupenda metamorfose que se observa.
A natureza é pródiga, oferecendo ao ser humano o que possui. O esforço profícuo do homem de ação, amante da grandeza e da prosperidade, deixando o seu benefício para a posteridade julgar, acertadamente.
Nem sempre a ambição é
prejudicial. Delmiro, homem pobre (não se espírito), fecunda imaginação,
tirocínio inigualável, esforço dominador de sua vontade sequiosa de atos de
levantamento moral e cultural, energia ferrenha, a mão da Divina Providência e
protegia e recheava o seu cérebro da magna perfeição do progresso industrial.
O tabaréu do Ceará, não se
sentindo satisfeito à sua condição de vida como o pobre Jeca Tatu de Lobato,
que vive ao bel prazer da exploração desenfreada.
Suportava com amargura as
injustiças do empregador para com o empregado.
Depois de ter construído o
Cassino Derby, na cidade do Recife, abandona o convívio com pessoas educadas,
para se transformar o ídolo, o bandeirante afoito, o intrépido desbravador e
desencantador de nossa maravilhosa riqueza que a mãe natura nos ofereceu com
toda a sua pujança.
Grandes dificuldades, porém, o
espírito forte vence todos os atropelos.
O seu esforço foi para o
Brasil uma fonte de engrandecimento de uma zona onde nada existia, a não ser a
macambira.
Delmiro se deslumbrou com as
quedas de Paulo Afonso, não como muitos visitantes, mas para tirar dali daquele
paraíso de fadas, o enriquecimento que as suas lindas quedas iriam produzir.
Castro Alves decantou-se e
Delmiro, lutando com homens rudes e a inclemência da “luz crua dos dias
sertanejos”, que é para desanimar os fracos, mas, sentia “estonteadoramente” –
ofuscante, num irradiar ardentíssimo” o que bem e bom a posteridade iria aproveitar.
O que a natureza faltou fazer,
Delmiro o fez – aproveitamento de sua seiva – a energia hidráulica.
Buckle, em suas geniais
extravagâncias, “faz deste país região privilegiada onde a natureza arrumou a
sua mais portentosa oficina...”[ii]
Só faltava u’a mão enérgica,
hábil e resoluta para o magno empreendimento, cabendo a escolha ao sertanejo
Gouveia.
As grandezas do seu esforço
estão como marco imperecível de sua vitória para com a natureza, domada por mão
de um homem rude, mas inteligente.
E ele, sentindo a frase: “Deus
nunca falou tão alto como em Paulo Afonso”, prosseguiu, mas a mão negra pôs
termo a um ser vivente que não poderia desaparecer, sem que a justiça o
defendesse – honrado pelo menos o aureolado nome desse indomável desbravador
dos sertões.
A ambição de Gouveia serviu de
melhoramento, não para ele que não pode usufruir dos seus direitos, mas para a
grandeza do povo que continua a sua obra empreendedora.
Não sei se o seu mausoléu é
alvo. O genial poeta criador da realidade apreciava as vestes brancas e deveria
ser um túmulo branco a sua última morada.
E entre verdes matinhos e
maltratados, ergue-se a sua última morada, não pomposa como era merecedor,
muito simples, recompensa dos seus esforços.
Não é tratado com o desvelo
merecedor.
Delmiro é um ídolo do povo,
desejava fazer de Pedra uma outra cidade, talvez o coração do Brasil, mas a
inveja que campeia empessoas medíocres fizera com que a filha de Delmiro
(Pedra) ficasse sempre engatinhando, com o seu desaparecimento.
Sempre cuidadoso e o seu
mausoléu tão desprezado.
Delmiro merecia uma pirâmide,
como marco de sua imortalidade e não um simples túmulo.
Os verdadeiros ídolos dos
povos não morrem, vivem a guiar os passos sadios que devem ser dados.
Delmiro merece ser melhor
cultuado, pois a sua obra é imperecível na história do bem da humanidade.
O desprezo que lhe dão é tão
imenso que não cabe no coração do mundo.
E... assim é a humanidade.”
____
NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como
tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações
históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em
geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica.
Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em
qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas
fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências.
Isso é correto e justo.
[i]
Revista Mocidade, redigida e publicada pelos próprios alunos. A ideia partiu de
três estudantes: José de Souza Alencar — que ficou mais conhecido como Alex,
jornalista do Jornal do Commercio em Recife, faleceu em janeiro de 2015 —;
Heitor Palmeira Florêncio e João Palmeira Florêncio, que apresentaram o projeto
ao Padre Teófanes. A revista foi lançada em ato realizado no auditório do
Instituto de Educação no dia 30 de maio de 1946. Fonte: Site História de
Alagoas
https://www.historiadealagoas.com.br/historia-do-colegio-guido-de-fontgalland.
quarta-feira, setembro 23
PERSONALIDADES PÃO-DE-AÇUCARENSES – FRANCISCO FIALHO
Por Etevaldo Amorim
![]() |
| O Sr. Francisco Gonçalves Fialho. Foto: acervo de Helio Fialho. |
Esse é um legítimo
pão-de-açucarense, que se inscreve no rol daqueles que deixaram a terra natal
para brilhar em outras plagas.
FRANCISCO GONÇALVES FIALHO nasceu em Pão de Açúcar, Estado de Alagoas, no ano de 1886, filho de José Targino Gonçalves Fialho (que até 1882 ocupara o cargo de agente do Correio na povoação de Piranhas[i], estabelecido em Pão de Açúcar com a Farmácia Popular.[ii]) e Maria Francisca de Lacerda.
Era tio do saudoso
farmacêutico João Fialho de Mello (Joãozinho Fialho) e do seu irmão Durval
Fialho, personalidades queridas que se estabeleceram firmemente em Pão de
Açúcar e deixaram em nossa cidade uma numerosa e estimada descendência.
Em 1904, seu nome aparece
como Escrivão[iii]
na cidade de Anajás, Estado do Pará, de onde enviava charadas para o Almanak de
Pernambuco. A propósito, há registro de viagem dele em companhia de sua mãe Maria
Francisca de Lacerda, viajando do Pará para o Recife,[iv]
dando a entender que a família passara algum tempo naquele Estado.
O fato é que, entre 1907 e
1910, dizendo-se de Pão de Açúcar, seu nome aparece numa lista de
“decifradores” no Almanak de Pernambuco, sugerindo que retornara a Pão de
Açúcar. Tanto que, no dia 18 de janeiro de 1908, aos vinte e dois anos,
casou-se com a Srtª Aurora de Aragão Lisboa, filha de Manoel Martins de Aragão
Lisboa e Francisca Vieira de Aragão Lisboa.
A mãe de Aurora, Francisca
Vieira de Aragão Lisboa, era filha de Cel. Gonçalo Martins Lisboa e de Ana
Vieira da Conceição Lisboa, e, portanto, irmã do Cel. João Vieira Lisboa (que
foi prefeito de Pão de Açúcar).
Uma nota na revista O Malho,
de 15 de fevereiro de 1908, registra o fato:
“Tenente Francisco Gonçalves
Fialho - Pão de Açúcar, Alagoas. Agradecidíssimos pela gentil participação do
seu casamento. Deus faça que a vida do feliz casal tenha sempre a doçura da
localidade, e lhe dê muitos Fialhinhos.” De fato, desse consórcio, nasceram os
“Fialhinhos”: Lienarde, Danúbio, Mozart, Hélio, Danúbio, Lanúsia, Masaix e
Lectícia.
___
ATIVIDADE COMERCIAL
Sua atividade no comércio se
iniciou em Penedo. Em 1909, na “capital do Baixo São Francisco”, era
agente da Casa Standard, que vendia os famosos e caríssimos cronômetros Royal, os
pianos Ritter Halle (de origem alemã) e as máquinas de escrever norte-americanas
Smith Premier, pelo sistema de clubs[v],
similar aos atuais consórcios.
Com sede na Rua do Ouvidor,
93-95 (depois
transformado em 106), no Rio de Janeiro, a Standard foi uma das
mais importantes importadoras e revendedoras de relógios e gramofones no Brasil
no início do século XX, adquirindo fama ao popularizar esses itens de luxo.
Os cronômetros “Royal” eram
um modelo da fábrica suíça Vacheron & Constantin, sediada em Genebra. Em 1910,
o próprio Francisco foi contemplado com um desses, proclamado como “o 1º
relógio do mundo”, conforme publicação no jornal A Imprensa (RJ), no dia 30
de outubro daquele ano.
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| A Casa Standard no dia se dia de sua inauguração em 1907. Foto O Malho, com IA |
![]() |
| Exemplar do famoso relógio de bolso Royal. |
Transferiu-se depois para
Maceió, onde se tornou “próspero comerciante, reconhecido por sua atuação no comércio de charque e
cereais em Maceió, abastecendo tanto o atacado quanto o varejo na região. Sua
casa comercial ficava localizada no Jaraguá.”[vi]
Em 1917, dirigia uma agência
de importação, Rosa Borges & Cia, de Pernambuco, para vendas de farinha de
trigo e outros artigos de estiva, estabelecida na Rua da Alfândega, 113, em
Jaraguá.[vii]
Ao que parece, suas
atividades comerciais se alternavam entre Maceió e Penedo. Tanto que, em 9 de
abril de 1920, ele subscreve um abaixo-assinado firmado por comerciantes,
industriais, agricultores, imprensa e outras classes produtoras de Penedo,
dirigido ao presidente do Banco do Brasil (José Joaquim Monteiro de Andrade),
de que foi portador o deputado Clementino do Monte, reivindicando a criação de
uma filial naquela cidade.[viii]
Em 1921, foi eleito um dos
Diretores Mensais da Associação Comercial de Maceió, ao lado de Iona & Cia,
Teixeira Basto & Cia, e outros.[ix]
Em 1922, estabelecido no
comércio de Penedo, Francisco G. Fialho matricula-se na Junta Comercial de
Alagoas.[x]
Em
1923, era agente, em Penedo, a Companhia Cervejaria Brahma. O jornal PENEDO
ESPORTIVO, de 22 de abril de 1923, anuncia que “São as melhores cervejas,
águas e gasosas”.
Em 1926, representava, em
Penedo-AL, a firma Bromberg & Cia, que negociava com produtos tipográficos.
Fonte: O Progresso, Penedo-AL, 31 de outubro de 1926.
Fundada por Martin
Bromberg, foi uma das mais importantes empresas de importação e comércio de
origem alemã no Brasil, operando principalmente entre 1863 e 1932.
Nesse mesmo ano, dirigia e
mantinha às suas custas, o jornal espírita A LUZ, de circulação semanal.[xi]
___
FILANTROPIA E TRAJETÓRIA
ESPÍRITA
Segundo informações do
farmacêutico e sobrinho João Fialho de Mello, fornecidas pelo seu filho Helio,
Francisco Fialho costumava visitar os hospícios, em Maceió, para exercitar a
caridade.
Na capital alagoana, onde já
estava em 1910, segundo registro nos jornais da época, Francisco Fialho já
exercitava sua atividade filantrópica, cooperando com a LIGA CUPON BENEFICENTE.[xii]
Esta entidade foi fundada, em Maceió, no dia 23 de agosto de 1910. A
instituição se propunha angariar “cupons” da Companhia Alagoana Trilhos
Urbanos, a fim de concorrer aos prêmios pecuniários que pela mesma companhia
fossem entregues a quem apresentar maior número deles. A importância arrecadada
teria a seguinte destinação: Aos pobres: 3%; à Sociedade São Vicente de Paula:
10%; à Auxiliadora dos Cristãos: 10%; ao Asilo de Mendicidade: 10%; à Caixa
Escolar: 10%; à biblioteca da Perseverança: 1%; e para a manutenção da Liga:
20%.[xiii]
Em
1923, em sessão do dia 13 de maio, Francisco Fialho foi eleito Tesoureiro do
Centro Espírita Alagoano Mello Maia, para o biênio 1923-1924. Em sessão de 17
de maio de 1926, foi eleito Vice-Presidente, sob a presidência de João Lício de
Almeida Marques.[xiv]
Aliás,
João Lício Marques, juntamente com sua esposa Noemi de Carvalho Marques, mantinham,
na Pajuçara, a Escola Tibúrcio de Carvalho, que abrigava cerca de cento e
cinquenta crianças pobres, que ali recebiam material didático e merenda.
![]() |
| A Escola Tibúrcio de Carvalho, na Pajuçara. Foto: Aurora, 1920. |
O
historiador Craveiro Costa, em visita à escola, narrou assim o seu sentimento:
"Um
grupo de crianças vagabundas, num dia de chuva, despertou no formoso coração da
senhora João Lício o desejo de educar aquela meninada vadia, solta na rua;
entregue à natureza áspera e ao destino incerto.
A 7
de fevereiro de 1920, em sua própria casa, ela mesma, a mestra, a senhora João
Lício, abria à frequência pública a escola "Tibúrcio de Carvalho".
Apenas três alunos, filhos de um pescador. No mês seguinte, o número de alunos
subiu a 70. Foi adquirida uma casa, convenientemente mobiliada e contratada uma
professora - Rosália Sandoval, eleita das Musas, professora provecta, mais por
vocação do que mesmo pelas exigências infungíveis da vida.
A
intolerância clerical - porque o casal João Lício professa as doutrinas
kardecistas - combateu ferozmente a escola, apontando-a como casa de corrupção.
Entretanto, o ensino da doutrina espírita ali não era nem obrigatório. E que o
fosse, não havia mal nem crime. A escola despovoou-se.
Passada
a rajada de hostilidade contra uma obra meritória, as ovelhas desgarradas
voltaram ao aprisco, atraídas pela piedade cristã da senhora João Lício.
Hoje,
ali, em Pajuçara, existe uma vasta obra de benemerência, mantida sem
estardalhaço pela caridade do casal. Um curso diurno frequentado por 58 meninas
e 50 meninos, e um curso noturno, principalmente para adultos, com 95 alunos.”[xv]
Em 1920, a escola já tinha um hino, composto pela
professora Rosália Sandoval (pseudônimo de Rita de Abreu, brilhante poetisa
alagoana).[xvi]
HINO DA ESCOLA TIBÚRCIO DE CARVALHO
Operários da estrada infinita
que percorre as esferas do Além.
Adiante! A oficina é bendita
e o trabalho é bendito também!
Tenhamos constância
em nosso lidar.
Passemos a infância
a estudar, a estudar!
Rouxinóis saídos da noite trevosa
para a escola que é dia, que é luz,
aprendemos na bíblia formosa
dos ensinos, do amor de Jesus.
Tenhamos constância, etc...
Nós seríamos sempre esquecidos
pobrezinhos sem lar e sem pão
se não fôsseis buscar os falidos
para dar-lhes amor e instrução.
Tenhamos Constância, etc...
As estrelas se miram nos lagos,
nossas almas se miram no céu,
caridade, teus doces afagos
nos envolve em lúcido véu.
Tenhamos constância, etc...
___
Em
1924, Francisco Fialho foi eleito presidente do Grupo Espírita Dr. Manoel
Antônio da Cruz, sendo reeleito sucessivamente em 1925 e 1927. A ESCOLA
ESPÍRITA criada pelo Grupo, em Jaraguá, para oferecer educação às crianças
pobres, tinha dele ajuda substancial.[xvii]
Foi
nesse período que o Grupo recebeu a visita de Viriato Corrêa,[xviii]
destacado homem de letras e adepto do espiritismo.
No
dia 9 de dezembro de 1924, em passagem por Maceió, o Dr. Viriato Corrêa aceitou
um convite para visitar o Grupo Espírita Manoel Antônio da Cruz, que funcionava
no número 86 da antiga Praça do Rayol, em Jaraguá. O seu diretor, Francisco
Fialho relata esse encontro na edição de 16 de março de 1925, do jornal A
AURORA, que se publicava no Rio de Janeiro.
“Ali
já se encontrava numerosa assistência que aguardava a visita do talentoso
espírita e o início dos trabalhos da sessão de evangelização que sempre se
realiza às terças e quintas-feiras, naquela seara cristã.
Aberta
a sessão, lido e ouvido religiosamente, naquele ambiente de paz, o ponto do Evangelho
aberto após a concentração, surgiu à tribuna o nosso confrade Dr. Theodoro
Palmeira que, num improviso, disse que sua missão era bem difícil naquele
momento, pois tinha diante de si a figura do eminente homem de letras que era
uma notabilidade literária do país, e para apresenta-lo a seus amigos sob este
ponto de vista, o momento lhe traía os bons intentos, o apoucamento espiritual fugia-lhe
à vontade, apesar da admiração e estima fraternal que votava ao eminente irmão.
Falava,
porém, como espírita, como partidário decidido da Nova Revelação
científico-espiritualista, e, como tal, erguia em nome da coletividade espírita
seus braços de irmão e, num amplexo de amor, harmonia e paz, dizia ao querido
itinerante: Viriato Corrêa, os teus irmãos te saúdam no recinto deste templo;
eles aqui se acham, como tu, à procura desse ideal superior de regeneração pelo
amor, pela renúncia, pela fé em nosso Divino Mestre em quem depositamos todas
as nossas esperanças.
Tua
visita tem para nós todos uma significação importantíssima, e para o mundo que
te vê agora adestrado romeiro do caminho da verdade.
O
Espiritismo, que nada mais é do que o restabelecimento da verdadeira doutrina
ensinada pelo Divino Mestre, muito espera de ti, do ouro do teu talento, do teu
coração e da tua nova fé.
Após
o breve discurso do nosso irmão Dr. Theodoro Palmeira, ergueu- se o Dr. Viriato
Corrêa e, com sua palavra meiga e sincera, disse que nada mais era do que um humildo
converso da doutrina espírita; sentia-se bem naquele recinto cheio de paz,
repleto de amor, onde havia afinidades espirituais.
Era
um iniciado, porém sua convicção já estava formulada sobre preciosas bases.
No
Evangelho de Jesus Cristo, explicado em espírito e verdade pelo Espiritismo,
encontrara a fonte onde ia beber a inspiração de seu espírito. Disse que tudo
vinha a tempo, tudo tinha o seu dia.
Ele
fora um desinteressado do Espiritismo; muito tempo andou assim, até que um dia,
abrindo casualmente um livro de Kardec, por um impulso que a si próprio encheu
de admiração, seus olhos demoraram pela primeira vez em letras espíritas, e
então aquilo que para ele parecia intolerável, assumiu importância capital.
Viu
então que seu descaso não tinha justificação em frente a argumentação
raciocinada da filosofia espírita, a concisão perfeita da ideia discutida e
provada. Desde então tornou-se ele um adepto do Espiritismo. Hoje sentia-se
feliz ao lado daqueles que formavam nas fileiras espíritas.
A
conferência do ilustre itinerante foi bordada de fatos interessantes pelos
quais procurou demonstrar a ação positiva e protetora do invisível sobre si, em
diversos momentos da sua vida.
As
últimas palavras do ilustre conferencista foram cobertas por uma salva de
palmas. O nosso irmão Coronel Manoel Zeferino também produziu eloquente oração,
cumprimentando o notável conferencista, exprimindo-lhe um voto ardente de fé, sua
grande satisfação por ver naquela doce comunhão espiritual a presença ilustre
do notável homem de letras e valioso adepto do Espiritismo.
O
Dr. Viriato agradeceu da tribuna a atenção com que seus amigos e irmãos
receberam sua visita e suas palavras.
Com
a excelentíssima família, o Dr. Viriato Corrêa seguiu para o Rio.
(a(a) Francisco
Fialho – Diretor.”
Em
1928, participava da Sociedade Espírita Discípulos de Jesus; e em 1929, foi
eleito presidente do GRUPO UNIÃO ESPÍRITA. Em 1930, era delegado da Federação
Espírita Portuguesa no Estado de Alagoas.
____
Francisco Gonçalves Fialho faleceu
em Maceió em 8 de março de 1930, sendo sepultado no dia seguinte, no cemitério
de Jaraguá, cujo registro foi feito pelo também pão-de-açucarense, o Cônego
Fernando Alves Lyra.
A essa época dirigia também
a Escola Santo Ambrósio, para crianças pobres.[xix]
Em 26 de março de 1943, tendo
como um dos principais fundadores a Srª Virgínia Gusmão (dona Pio)[xx], foi
criado o Centro Espírita Francisco Fialho, que funcionou provisoriamente na Rua
Santo Antônio, 335, na Ponta Grossa. Em 1954, passou para a sede própria,
inaugurada no dia 1º de setembro daquele ano, na Av. Silvestre Péricles, 1690,
conhecida como “rua Formosa” e que, àquela época se chamava Gabino Besouro.
![]() |
| O Centro Espírita Francisco Fialho na Rua Silvestre Péricles, antiga rua Formosa. |
___
Sua esposa o sucedeu nos
negócios. A firfma VIÚVA FRANCISGO G. FIALHO, estabelecida à Rua Barão de
Jaraguá, 219, era distribuidora dos bombons e caramelos da fábrica Beija-Flor, sediada
no Recife.[xxi]
Atuava como agente da Empresa
Construtora Universal Ltda, com sede Rua Líbero Badaró, 46-A, em São Paulo, que
operava com um modelo de negócios pioneiro para a época: o sistema de poupança
mútua por meio de Títulos de Capitalização e Sorteios Imobiliários.
Era também representante, em
Alagoas, da Companhia Ítalo-Brasileira de Seguros Gerais, precursora da atual
Itaú Seguradora.
____
NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como
tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações
históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em
geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica.
Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em
qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas
fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências.
Isso é correto e justo.
[i]
Diário da Manhã, Maceió-AL, 21 de maio de 1882.
[ii][ii]
Almanak do Estado de Alagoas, 1891.
[iii]
Almanak Laemert, 1904.
[iv]
Jornal do Recife, 22 de maio de 1906.
[v]
Modelo de vendas precursor dos atuais consórcios. A diferença é que o membro
sorteado ficava isento das prestações seguintes. Fonte: O Monitor, Penedo-AL,
28 de junho de 1909.
[vi]
Depoimento de Helio Fialho.
[vii]
Fonte: DIÁRIO DO POVO, Maceió, 14 de abril de 1917.
[viii]
Revista de Comércio e Indústria, publicação oficial da Associação Comercial de
São Paulo. Ano VI – Número 67, julho de 1920.
[ix]
Fonte: Diário de Pernambuco, 1º de setembro de 1921.
[x]
Correio Paulistano, 9 de julho de 1922.
[xi]
Fonte: O Progresso, Penedo-AL, 29 de novembro de 1926.
[xii]
A primeira Diretoria era assim constituída: Presidente: José Augusto Cabral;
Vice-Presidente: Dr. Odilon Auto; 1º Secretário: Synval P. de C. Gama; 2º
Secretário: Américo P. G. Filho; Tesoureiro: Alceu Andrade; Orador: Dr. Barreto
Cardoso. Fonte: Gutenberg, 3 de setembro de 1910.
[xiii]
Ao comprar a passagem de bonde, o cidadão pagava o valor total estipulado pela
companhia de trilhos urbanos. Uma fração predeterminada daquela tarifa (ou o
valor correspondente àquele "selo/cupom" específico anexo ao bilhete)
era reservada pela empresa para fins filantrópicos. O Papel do Passageiro: A
caridade dependia da ação do passageiro (ou de quem juntava os bilhetes) de não
jogar o cupom fora após a viagem. Era necessário destacar o cupom beneficente e
entregá-lo nas urnas das estações, em jornais parceiros ou diretamente às
instituições.
[xiv]
Aurora (RJ) 1º de junho de 1923.
[xv]
O JORNAL, 7 de fevereiro de 1923.
[xvi]
Aurora, 3 de outubro de 1920.
[xvii]
Fonte: JORNAL DO RECIFE, 26 de janeiro de 1924.
[xviii]
Manuel Viriato Correia Baima do Lago Filho. Jornalista, político, escritor e
dramaturgo. Nasceu em 23 de janeiro de 1884 em Pirapemas, Maranhão. Faleceu no
Rio de Janeiro em 10 de abril de 1967 aos 83 anos. Foi membro da Academia
Brasileira de Letras, sendo o terceiro ocupante da cadeira 32.[3] Foi eleito em
14 de julho de 1938, na sucessão de Ramiz Galvão, tendo sido recebido por Múcio
Leão em 29 de outubro de 1938.
[xix]
Gazeta de Alagoas, 8 de março de 1942.
[xx]
Dona Pio faleceu em 21 de junho de 1950, conforme nota na Gazeta de Alagoas de
2 de julho daquele ano.
[xxi][xxi][xxi]
Conhecida como Renda-Priori, foi fundada em 1926 pelo imigrante italiano Pedro
Renda e seu cunhado Luiz Priori. Fonte: Memória Gráfica Pernambucana, Jarbas
Espíndola Agra Jr.
A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR
PÃO DE AÇÚCAR
Marcus Vinícius*
Meu mundo bom
De mandacarus
E Xique-xiques;
Minha distante carícia
Onde o São Francisco
Provoca sempre
Uma mensagem de saudade.
Jaciobá,
De Manoel Rego, a exponência;
De Bráulio Cavalcante, o mártir;
De Nezinho (o Cego), a música.
Jaciobá,
Da poesia romântica
De Vinícius Ligianus;
Da parnasiana de Bem Gum.
Jaciobá,
Das regências dos maestros
Abílio e Nozinho.
Pão de Açúcar,
Vejo o exagero do violão
De Adail Simas;
Vejo acordes tão belos
De Paulo Alves e Zequinha.
O cavaquinho harmonioso
De João de Santa,
Que beleza!
O pandeiro inquieto
De Zé Negão
Naquele rítmo de extasiar;
Saudade infinita
De Agobar Feitosa
(não é bom lembrar...)
Pão de Açúcar
Dos emigrantes
Roberto Alvim,
Eraldo Lacet,
Zé Amaral...
Verdadeiros jaciobenses.
E mais:
As peixadas de Evenus Luz,
Aquele que tem a “estrela”
Sem conhecê-la.
Pão de Açúcar
Dos que saíram:
Zaluar Santana,
Américo Castro,
Darras Nóia,
Manoel Passinha.
Pão de Açúcar
Dos que ficaram:
Luizinho Machado
(a educação personificada)
E João Lisboa
(do Cristo Redentor)
A grandiosa jóia.
Pão de Açúcar,
Meu mundo distante
De Cáctus
E águas santas.
______________
Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)
(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937
(+) Maceió (AL), 07.05.1976
Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.
*****
PÃO DE AÇÚCAR
Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.
Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.
Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,
O pó que o vendaval deixou no chão cair.
Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste
O teu profundo sono num divino sorrir.
Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,
Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.
Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.
Teus jardins se parecem com vastos cemitérios
Por onde as brisas passam em brando sussurrar.
Aqui e ali tu tens um alto campanário,
Que dá maior relevo ao pálido cenário
Do teu calmo dormir em noite de luar.
____
Ben Gum, pseudônimo de José Mendes
Guimarães - Zequinha Guimarães.
PUBLICAÇÕES
Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia
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