sábado, agosto 15
MEMÓRIAS DE UMA ESCOLA ISOLADA
Por
Etevaldo Amorim
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| A Escola Isolada de Alecrim. |
Para
resgatar essa memória, precisamos voltar a meados da década de 1960, essa quadra
conturbada da vida nacional, mais precisamente ao ano de 1964.
O
município de Pão de Açúcar já contava, em sua sede, com três grupos escolares:
o Bráulio Cavalcante (construído em 1934 durante a primeira gestão do prefeito
Augusto Machado), o Rosália Sampaio Bezerra (instituído pelo Decreto-Lei nº 2.201,
de 19 de fevereiro de 1960, durante o governo Muniz Falcão) e o Pe. José Soares
Pinto (Criado pelo do Decreto-Lei nº 1.924, de 23 de setembro de 1964, no
governo do Major Luis Cavalcante)[i].
Essa
estrutura de Grupo Escolar — idealizada em São Paulo por Caetano de Campos e
Gabriel Prestes no final do século XIX — tinha como objetivo unificar as
antigas escolas primárias urbanas em uma estrutura graduada por séries.
Embora
o modelo tenha sido nacionalizado a partir da Reforma Rivadávia Corrêa (Decreto
Federal nº 8.659 de 1911), a realidade da zona rural brasileira ainda era
ditada pelas Escolas Isoladas. Consolidado no período republicano, o termo “Escola
Isolada” designava as unidades que mantiveram o funcionamento em sala
única, unidocente e multisseriada herdado das antigas “Cadeiras de Primeiras
Letras” do Império, onde um único professor regia alunos de idades e níveis de
escolaridade completamente diferentes.
A
minha experiência pessoal reflete perfeitamente esses dois modelos de estrutura
educacional. Em princípios de 1964, morando em Campinas, onde eu nasci, comecei
a frequentar o Grupo Escolar Padre José dos Santos. (Veja o artigo MINHA PRIMEIRA ESCOLA)
Quando
nos mudamos para a Vila Limoeiro (então chamada Alecrim), em julho de 1964, encontrei
a escola em reforma, razão pela qual as aulas eram ministradas em sala
improvisada. A professora era D. Maria Francisca de Melo, conhecida por
Morenita, esposa do Sr. José Alves e mãe de José,
Maria Alves, Creuza, Yêda, Neide, Nely e Jailton.
Dedicada
e paciente, ela comandava um agrupamento de crianças de diversas idades, de
diferentes séries, e de comportamento, digamos, irrequieto. Dona Morenita logo
foi morar definitivamente em Pão de Açúcar, onde a família já estava.
Muita
estranheza me causou o meu novo ambiente escolar. Além do aspecto físico, o
método utilizado era completamente diferente daquele com o qual havia iniciado
as primeiras letras.
Minha
escola anterior adotava o método da cartilha Caminho Suave, associando a letra
à imagem correspondente da Boneca ou
da Lata, por exemplo. Cada aluno deduzia a lógica em silêncio: B
com O faz BO; L com A faz LA... BOLA. Em vez disso, o que se ouvia era uma cantoria
dos meninos e meninas, soletrando em voz alta e em coro as famílias silábicas: “Bê-ó,
Bó....Lê-á...Lá...BOLA...”.]
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| A cartilha CAMINHO SUAVE de Branca Alves de Lima. |
A
professora, reconhecendo a minha dificuldade com aquele coro barulhento, não me
exigia tais exercícios. Aliás, por ocasião de uma visita da Coordenadora
Regional de Ensino, professora Maria Mamede Lima, dona Morenita chegou a
sugerir que eu, por estar mais adiantado em relação aos demais, já fosse
colocado na 1ª série. A Coordenadora ponderou que seria melhor eu concluir o
ano letivo na condição em que estava.
AS TÉCNICAS
DE ENSINO
Durante
esse período, da 1ª à 3ª série, fomos submetidos progressivamente a diversas
técnicas de ensino.
O DECALQUE.
Essa técnica era conhecida popularmente como "cobrir". A professora
fornecia uma folha com as letras ou palavras impressas (o modelo) em traçado
forte. O aluno sobrepunha uma folha de papel de seda (que é semi-transparente)
ou vegetal. Olhando através do papel fino, a criança usava o lápis para
contornar exatamente as letras que via por baixo. Essa técnica era considerada
o estágio inicial da caligrafia. Após o aluno ganhar segurança motora com o
decalque, ele "subia de nível" e passava para o traslado (copiar
olhando para o quadro) ou para o treino direto no caderno de caligrafia.
O TRASLADO.
O traslado era uma das técnicas mais comuns para o ensino e o exercício da
escrita nas escolas primárias brasileiras naquela época. Consistia no ato de
copiar textualmente um modelo de escrita considerado "perfeito" ou
padrão. O objetivo principal era desenvolver a caligrafia legível, a destreza
motora e a ortografia correta. A professora escrevia uma frase ou um pequeno
texto no quadro-negro (o nosso era verde), e os alunos deviam reproduzir
exatamente igual em seus cadernos.
O DITADO.
Depois de passarmos pelas duas fases anteriores, vinha o “ditado”. A professora
lia o texto completo uma vez para contextualização. Depois, lia frase por frase
(ou bloco de palavras) pausadamente para os alunos escreverem. Por fim, fazia
uma leitura final rápida para verificação. Ah! Um
detalhe: a professora ditava os sinais de pontuação explicitamente. Ela dizia,
por exemplo: “O pescador pescou um piau (vírgula) uma piranha (vírgula) e um
surubim (ponto final).”
___
A
Escola, então chamada Escola Rural da Vila Alecrim, foi instalada no dia 18 de
fevereiro de 1951, durante a gestão do governador Arnon de Mello. Possuía
apenas uma sala de aula e uma residência para a professora, tendo no meio um
espaço para recreio.
Após a
reforma, inaugurada em 10 de março de 1965[ii], quando o governador do
Estado era o Major Luis Cavalcante, uma segunda sala de aula ocupou o lugar do
espaço para recreio, e este foi construído em anexo. Essa área de recreio tinha
outras utilidades, desde simples reuniões até bailes com os melhores
sanfoneiros da época.
É
forçoso dizer o quanto era perigosa essa nova área de recreio. Como o terreno
atrás da escola tinha declive acentuado, o seu nível ficou muito alto. Até havia
uma pequena mureta de cerca de um metro, mas ela não constituía segurança
efetiva, já que se podia subir e até sentar sobre ela. Felizmente, nunca se
registrou qualquer acidente.
Cada
sala tinha uma porta e três ou quatro janelas venezianas; piso de cimento
queimado e teto de telhado aparente, com telhas do tipo francesa. A escola
recebeu mobiliário novo: um “quadro-negro”, que na verdade era verde, ocupava
quase toda a parede anterior. Possuía uma borda inferior que aparava o pó do
giz. Sobre ela repousava um estojo com os bastões de giz, cuja tampa corrediça,
provida de uma flanela, servia de apagador.
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| Sala de aula equipada com carteiras de assento duplo semelhante às nossas. |
As
carteiras de assento duplo traziam um selo exibindo a marca CIMO, de Curitiba.
As peças eram dispostas em série: do encosto de cada assento partia uma prancha
que servia de mesa para a dupla que sentava logo atrás. Logo abaixo do tampo principal
da mesa havia uma prateleira de madeira onde os alunos guardavam os seus
materiais.
Na
parede posterior (fundo), duas estantes baixas, com portas corrediças,
constituíam uma pequena biblioteca, onde se encontravam obras da literatura
infantil: “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa”, “Ali-Babá e os 40 ladrões”, “Simbá,
o Marujo”, “As Viagens de Gulliver” e até um exemplar da Constituição Federal,
outorgada em 1967[iii].
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| Estante COLTED semelhante à nossa. Foto: Escola Municipal Churchill. |
Nessas
estantes via-se a sigla COLTED, cujo significado conheço agora: Comissão do
Livro Técnico e do Livro Didático, criada pelo Decreto nº 59.355, de 4 de
outubro de 1966, resultado de um convênio entre o Ministério da Educação e
Cultura (MEC), o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e a USAID -
United States Agency for International Development (Agência dos Estados Unidos
para o Desenvolvimento Internacional). Essa Agência americana, aliás, foi a
financiadora de toda a reforma, no âmbito desse Acordo MEC/USAID. Havia também
um mapa do Brasil, ainda com 22 Estados, 4 territórios e o DF.[iv]
Em
1965, chegou nova professora: Dona Maria Alves Lima, esposa do “Sr. Chico
Camarão”. Tinha crianças pequenas: Gilvânia, Sandra, Edja e Genival, que nasceu
nesse período. Competente e austera, ela ficou conosco nos anos de 1965 e 1966.
Em
1967, chegaram novas professoras: Maria do Socorro Pereira Lima - com quem cursei
o 3º ano - Ângela Barreto Oliveira e Jailda dos Santos, que logo se afastou por
problemas de saúde. Faleceu recentemente.
UM
VISITANTE ESTRANGEIRO
Em
1967, chegou à escola a Coordenadora da 8ª CRE, acompanhada de outras
professoras e de um rapaz alto, galego e que falava um português “meio
enrolado”. Logo soubemos tratar-se de um americano. Enquanto as professoras
conversavam no interior do prédio, ele sentou em uma cadeira e logo fizemos uma
roda em torno dele. Perguntas daqui, perguntas dali... ele se dirigiu a mim, o
único que usava uniforme (o da minha antiga escola).
Quis
saber o que significava a sigla G. E. P. J. S., inscrita no bolso da minha
camisa. Respondi-lhe: “Grupo Escolar Padre José dos Santos”.
— E
onde fica essa escola? — continuou perguntando.
— Em
Campinas, São Paulo.
— Ah!
— disse ele. — Então você é um viajante, veio do Sul para cá!!!
Soube
depois tratar-se de Richard M. Gross, voluntário do Peace Corps (Corpo da Paz),
um programa americano que enviava voluntários, em geral jovens recém-saídos das
universidades, para países em desenvolvimento no intuito de prestar assistência
técnica, social e humanitária, visando manter a influência dos Estados Unidos
na América Latina, sobretudo naqueles tempos da chamada “Guerra Fria”.
“Ricardo”,
como era conhecido, deixou Pão de Açúcar em 1968 e foi para Cuiabá, Estado de
Mato Grosso. Ele fazia dupla com o “Jaime” (nome abrasileirado de Jim Lane
Squires)[v], que veio a se casar com
Creuza, filha da professora Morenita, indo morar nos Estados Unidos, em 1968.
OS
LIVROS E OS MATERIAIS DIDÁTICOS
Na 1ª e na 2ª série, estudamos com os livros da Coleção
Infância Brasileira, escrita por Ariosto Espinheira e publicada pela Companhia
Editora Nacional.
Já nas
séries seguintes, usamos a Coleção Nordeste, escrita pela educadora Maria
Cecília Rego Ávila Pessoa[vi] e publicada pela Editora
do Brasil S.A. Essa coleção explorava duas vertentes: Nordeste: Linguagem, focado em leitura, gramática e expressão
escrita; e Nordeste: Lições,
voltado para as chamadas “matérias de conteúdo”, que englobavam Ciências,
História e Geografia.
Os
cadernos eram simples, estampando na capa uma foto de inspiração ufanista e o
hino nacional impresso na contracapa.
Usávamos
borrachas da marca Mercur, brancas e moles, para apagar escritos com lápis
grafite e uma outra mais dura, bicolor (uma parte azul e outra vermelha), para
apagar textos escritos com caneta esferográfica BIC, que já começaram a
aparecer.
Nossos
lápis grafites eram da marca Faber-Castell, a mais difundida na época. Quando a
ponta ficava rombuda, afinávamos com o apontador ou com lâmina Gillete mesmo. Assim,
de tanto fazer ponta, o lápis ia diminuindo, diminuindo, a ponto de não poder
mais segurá-lo. Mas aí vinha em nosso socorro o “extensor de lápis”, que era
uma haste oca do tamanho de um lápis inteiro e com uma abertura em uma das
extremidades. Ali fixávamos o pedacinho de lápis e apertávamos com um anel
metálico deslizante. Assim podíamos aproveitar o lápis o máximo possível.
Para
as provas, utilizávamos o papel pautado, folhas pautadas duplas, que a gente
comprava na bodega de Dona Miúda, espécie de armarinho localizado na esquina
com a Rua do Meio (R. Jayme Silva).
___
Terminado
o 3º Ano, entramos em 1968 (ano de grandes agitações no Brasil e no mundo).
Iniciaríamos a 4ª série. Mas havia um problema: a Escola não tinha o 4º Ano!!!
Nunca entendi o motivo. A professora Ângela chegou a começar as aulas conosco,
mas logo veio a ordem para suspender.
Fiquei
sem estudar, até que surgiu uma oportunidade de frequentar uma banca de estudos
formada pelo meu amigo Lindalvo Silva Costa (noivo de Edith Lima Mendes, com
quem se casaria pouco tempo depois). Era uma espécie de “cursinho” para o
grande Vestibular daquela época: o Exame de Admissão ao Ginásio. A banca era
formada por Edith, Eu e Paulo Andrade. Feito o Exame em final de 1968, passamos
todos. Grande professor Lindalvo! 100% de aproveitamento!!!!
***
Ressalto
que a passagem das professoras Ângela e Socorro pela Escola foi marcada por
grande movimentação interna e por uma salutar integração com a comunidade. Isso,
sem dúvida, contribuiu para a melhoria do aprendizado.
Elas
promoviam atividades como recitais de poesia — lembro-me de um que fizemos na
casa de Seu Pedro e Dona Raquel, onde recitei o poema 'Cajueiro', de Gentil
Braga. Também me recordo de um “café gordo”, para o qual cada um de nós
contribuiu com alguma coisa. Comemos a nos fartar! Para completar, a professora
Ângela ainda tocava acordeom... um verdadeiro privilégio!!!
Outra
lembrança marcante foi a realização do que imagino ter sido a primeira passeata
do Limoeiro, em 7 de setembro de 1967, comemorando a Independência do Brasil.
Formaram-se
pelotões temáticos: lembro-me de um formado só com meninas, todas vestindo
saias que exibiam na frente a bandeira de cada Estado da Federação.
Percorremos
as principais ruas da vila: saindo da rua Boa Vista (onde estava a Escola),
dobrando à direita para a Rua do Meio (que não ia além da casa de seu Argemiro
Mangão), transpondo a igreja para chegar à Rua de Baixo (chamada Bráulio
Cavalcante); fazendo em seguida o percurso inverso. À frente ia uma pequena
banda vinda de Pão de Açúcar, só com instrumentos de percussão: tarol, caixa e
bombo. Mas isso foi para nós uma grande novidade!!!!
E teve
mais: elas ainda, por conta própria, resolveram dar aulas de alfabetização para
adultos. À noite, e como ainda não havia energia elétrica, a sala era iluminada
com a luz de uma lâmpada Petromax[vii], muito utilizada na
época. Isso ainda antes do MOBRAL - Movimento Brasileiro de Alfabetização, que só
viria a ser criado no final de 1967, pela Lei nº 5.379 de 15 de dezembro, iniciando
suas atividades efetivas e em larga escala de ensino apenas a partir de 1970.
Essas
são as minhas memórias da velha escola isolada em que estudei. Considerei
válida a iniciativa de publicá-las, já que não são só minhas, mas faz parte da
história daquela pequena Vila, igualmente isolada, mas que hoje experimenta
algum sopro de desenvolvimento.
____
Nota 1
Eu julgava que aquela passeata teria
sido a primeira da história do Limoeiro. Recentemente, entretanto, no jornal Diário
de Pernambuco, edição de 7 de outubro de 1922, encontrei uma notinha entre as
muitas que noticiavam as comemorações do centenário da Independência do Brasil.
Diz a nota:
“As
colunas dos jornais estão cheias das notícias de semelhantes festas, das quais
uma das mais tocantes, apesar de sua modéstia, foi a que se verificou na
povoação do Limoeiro, município de Pão de Açúcar.
Foram
as seguintes as solenidades ali realizadas:
Às
7:00 h da manhã a multidão entoou, aos espocar de girândolas de foguetes, o
hino nacional, dando-se uma salva de 21 tiros.
Logo
após se verificou o hasteamento da bandeira nacional, saudada com versos
patrióticos pelas crianças das escolas.
Às
15:00 h o Sr. Jayme Silva efetuou uma Conferência em que brilhantemente
discorreu sobre o fato que solenizava. Seguiu-se uma passeata cívica em que
tomaram os escolares, grupos gentis de senhorinhas e os habitantes da
localidade, que dava assim
uma demonstração inconcussa de amor à Pátria.”
O Sr. Jayme Silva (Jayme Emiliano Silva) nasceu em Jacaré dos Homens, então município de Pão de Açúcar, em 1896 e ali faleceu em 10 de novembro de 1953. Era filho de José Pedro da Silva e Maria Alexandrina Souto. Casado com Maria Alves Feitosa, tiveram os filhos: Neiwton Silva, Ivanir Silva, Ib Silva, Djalma, Washington, Mair, Nicodemos (Dema), Delma, Terezinha e Jaime. Foi vereador e dá nome à antiga “Rua do Meio”, a partir de projeto do vereador Cliuton Santos (1983-1988).
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Nossos agradecimentos a Cerícia Brandão, Vânia Rezende e Edivalda dos Anjos pelas informações acerca da criação das escolas Rosália S. Bezerra e Pe. Soares Pinto.
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| Borrachao MERCUR bicolor. |
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| Extensor. |
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| Estojo escolar Fritz Hohansen. |
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| Livro da Série INFÂNCIA BRASILEIRA, de Ariosto Espinheira. |
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| Caderno escolar muito usado na época. |
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| Borracha MERCUR branca. |
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| Placa de inauguração do Grupo Escolar Padre José Soares Pinto, em 1964. Foto: Vânia Rezende, (tratamento com IA por Vívia Amorim. |
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NOTA 2
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos
repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado
de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente
referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu
interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o
maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e
a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
A placa de inauguração do Grupo Escolar Pe. José Soares Pinto faz referência ao
“Plano Trienal de Educação (1963-1965)”, que integrou o plano macroeconômico de
estabilização e reformas estruturais elaborado pelo economista Celso Furtado no
governo de João Goulart (Jango). A vertente educacional do plano baseou-se
fortemente nas diretrizes da recém-aprovada Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDB de 1961) e contou com a liderança intelectual do
educador Anísio Teixeira. Seu propósito central era transformar a escola
pública de uma instituição "ornamental" em uma ferramenta orgânica de
desenvolvimento econômico e justiça social. O plano estruturou-se em torno de
metas, sendo a principal delas a Universalização do Ensino Primário: O objetivo
mais urgente era garantir o acesso à escola primária para 100% das crianças
brasileiras em idade escolar até o ano de 1965.
[ii]
Diário de Pernambuco, 31 de janeiro de 1965.
[iii]
A Constituição Brasileira de 1967 foi promulgada em 24 de janeiro de 1967 e
entrou em vigor em 15 de março do mesmo ano, institucionalizando legalmente o
regime militar no Brasil e centralizando o poder no Poder Executivo Federal.
Ela substituiu a Constituição de 1946 e incorporou as medidas autoritárias dos
primeiros Atos Institucionais, do AI 1 ao AI 4.
[iv]
Estados: Acre, Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte,
Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio
de Janeiro, Guanabara, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e
Rio Grande do Sul. Territórios: Amapá, Roraima, Rondônia e Fernando de Noronha.
[v]
Jim Lane Squires. Nasceu em 3 de abril de 1942, em Glendive, Dawson, Montana, EUA,
e faleceu em 30 de janeiro de 2024, em Billings, Yellowstone, Montana, EUA.
[vi]
Nome de casada (com Lucilo Ávila Pessoa), de Maria Cecília Mota Rego. Nasceu em
Água de Pau, Lagoa, São Miguel, Açores, Portugal, filha de Ernesto Rego e Cecília
Eugênia da Motta Vieira. Faleceu no Recife em 16/08/2016.
[vii]
Petromax eram lanternas/lamparinas pressurizadas a querosene, ferramenta muito
comum para iluminação noturna em áreas rurais ou isoladas que ainda não
contavam com energia elétrica nas décadas de 1960 e 1970, como era o caso de
Limoeiro, que só viria a receber luz elétrica da CHESF em 1976.
segunda-feira, agosto 3
PERSONALIDADES PÃO-DE-AÇUCARENSES - MONSENHOR ACHILLES MELLO
Por Etevaldo Amorim
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| O Mons. Achilles Mello. Foto: acervo Aldemar de Mendonça, tratada por IA. |
Seguimos
com o desfile das personalidades pão-de-açucarenses. Na passarela da História
local, eles se mostram altivos, imponentes e merecedores da nossa lembrança e
do culto à sua memória. Filhos da terra ou naturalizados, nela ou além, eles
enalteceram o nome da cidade e fazem jus à nossa deferência e à nossa gratidão.
Destacamos
agora a trajetória do Monsenhor Achilles Mello. Filho de Achiles Balbino de
Leles Mello e Maria Josephina de Faria Pinto, o biografado nasceu em Pão de
Açúcar, Estado de Alagoas, no dia 28 de março de 1883. Eram seus avós paternos
o Capitão Benedicto Soares de Freitas Mello e Maria Angélica dos Prazeres; e
maternos, Seraphim Soares Pinto e Josephina Carolina de Faria.
Seu
pai foi fundador, em Pão de Açúcar, dos jornais “O Paulo Afonso” e “O
Trabalho”. Ao passar a residir em Penedo, transferiu para lá esses dois
periódicos, vindo depois a fundar também o hebdomadário católico “A Fé Christã”,
jornais esses que tiveram vida duradoura e gloriosa. Foi neste último periódico,
fundado em 1902, que o Major Achiles Mello (pai) empreendeu uma das mais
fervorosas defesas dos dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana. A atuação
foi tamanha a ponto de merecer do Papa Pio X, por ocasião da peregrinação
brasileira ao Vaticano (1905), a 'Bênção Apostólica e indulgência plenária,
em artigo de morte, na forma costumada da Igreja, ainda mesmo que só possam
invocar o nome de Jesus ao menos com o coração', extensiva a todos os seus
parentes consanguíneos e afins, até o terceiro grau inclusive. Do referido
diploma foi portador o então Secretário-Geral do Bispado de Olinda, o também
pão-de-açucarense Monsenhor Freitas.
Demonstrando
desde cedo inclinação para o estudo eclesiástico, o jovem Achilles entrou para
o Seminário de Olinda aos onze anos de idade. Com a criação do Seminário de
Maceió, em 1902, foi para lá transferido.
Sua ordenação
ocorreu no dia 18 de novembro de 1906, na Catedral N. S. dos Prazeres, em
Maceió, juntamente com o seu conterrâneo, Padre José dos Anjos. Logo após a
cerimônia, seguiu para Pão de Açúcar, por terra, para assistir à primeira missa
do colega, na Matriz do Sagrado Coração de Jesus, que ocorreu no dia 28 de novembro de 1906. Dia
seguinte, embarcou na Moxotó com destino a Penedo, onde residiam seus pais,
para a sua própria Missa Nova.
Na
edição de 15 de dezembro de 1906, o jornal A FÉ CHISTÃ, de propriedade do seu
pai, descreve a sua primeira missa:
“À
hora aprazada os paraninfos, o pároco da freguesia e outros sacerdotes,
seminaristas de avultado número de pessoas, tendo à frente a banda marcial
Euterpe Ceciliense, dirigiram-se à residência do neo sacerdote, que foi
conduzido à Matriz, onde, às 10 horas, subiu ao altar, tendo como diácono e
subdiácono o padre Geminiano de Freitas e o padre José dos Anjos; como ministro
assistente o vigário Manuel Vieira[i] e
mestre de cerimônia o menorista Afonso Tojal.
Foram
paraninfos os Srs. Joaquim Mileto da Silva Rego, Silvino Othon de Almeida[ii],
Cel. Antônio Luiz da Silva Tavares (representado por seu filho Dr. Luiz Tavares
Sobrinho) e Heitor Mello.
Ao Evangelho, subiu à tribuna sagrada o importante pregador Padre Justiniano Costa, vigário das Dores. Sua Reverendíssima, que nesta cidade foi ouvido pela primeira vez, pronunciou um sermão de peso – bela e digna oração de um orador feliz, eloquente e preparado. O Padre Justiniano satisfez, dominou a todos os ouvintes. Há muito tempo não vimos a tribuna sagrada, numa testa, ser ocupada com tanta perícia e competência. Depois da missa seguiu-se a tocante e emocionante cerimônia do beija-mão.
Terminado
o Ato, foi o padre Achilles acompanhado à casa pelo clero e avultado número de
pessoas, sendo aos circunstantes oferecida uma taça de cerveja e íntimo almoço.
Às
sete horas da noite teve lugar a imponente solenidade do Te Deum laudamos,
tendo ocupado o púlpito com bastante proficiência o piedoso e inteligente
franciscano Frei Casimiro, que pronunciou um sermão doutrinário, edificante,
que satisfez e agradou a todos os ouvintes.
A
orquestra da corporação Euterpe, sob a batuta do Padre Alfredo Silva, digno
reitor do seminário, desempenhou bonita missa, cuja música é de composição do
mesmo reitor.
Não
obstante nada haver de extraordinário, a festa da missa nova do Padre Achilles
correu bem, esteve animada, divisando-se a alegria e o prazer no semblante de
todos.
O padre Achilles e seus progenitores, naquele dia, foram muito cumprimentados e receberam muitos telegramas de felicitações. Ao novo sacerdote desejamos felicidades.”
____
CARREIRA
ECLESIÁSTICA
Logo após a ordenação em 1906, o jovem padre
Achilles partiu para o Estado do Rio de Janeiro, mais especificamente para a
então Diocese de Petrópolis (cuja sede administrativa ficava na região serrana
e que, na época, abrangia a cidade de Niterói e o Norte Fluminense).
Ele iniciou seu ministério na histórica
igreja de São Francisco Xavier, ao lado do então vigário e seu grande amigo
Monsenhor Agostinho Benassi, que foi mais tarde, com a restauração da sede em
1908, bispo de Niterói.
Em 1907, ele foi nomeado Coadjutor da
freguesia de São Pedro de Alcântara, Paróquia de Petrópolis, quando era vigário
o Monsenhor Theodoro Rocha.
Sua primeira grande missão de destaque
ocorreu em dezembro de 1912, quando o bispo diocesano elevou a antiga capela
operária da Companhia Petropolitana de Tecidos ao status de paróquia. O Padre
Achilles de Mello foi oficialmente nomeado o primeiro vigário encomendado da
recém-criada Paróquia de Sant'Ana e São Joaquim, em Cascatinha, distrito de
Petrópolis. Há registro de sua participação, em dezembro de 1913, na banca
examinadora do colégio Sant’Anna, mantida pelas Irmãs do Amparo.
Embora tenha permanecido um tempo curto na
função, fundou o jornal “O Círculo”,[iii] organizou a estrutura
administrativa inicial da paróquia e cativou profundamente os operários
católicos e imigrantes italianos da região. Décadas mais tarde, em sua
homenagem, o pátio e a rua da matriz foram batizados como Praça Monsenhor
Achiles Melo.
Sua transferência para o próspero município
de Campos dos Goytacazes, para assumir como vigário da prestigiada Igreja
Matriz do Santíssimo Salvador (atual Catedral Basílica), consolidou-se entre
1914 e 1915 — inclusive, notas do jornal Correio da Noite de 5 de março de 1914
já registravam a visita de seus pais ao sacerdote naquela cidade.
Sua
gestão foi caracterizada pelo fortalecimento do laicato católico. Em Campos,
ele reestruturou associações e impulsionou movimentos devocionais fortes entre
os paroquianos locais. Fundou também o Centro Católico de Campos.
Ele
foi o fundador e primeiro diretor espiritual da Pia União das Filhas de Maria
da Catedral, uma associação religiosa de jovens mulheres dedicadas à caridade,
espiritualidade Mariana e instrução catequética na sociedade campista.
Em
1915, sob sua direção, veio à luz o hebdomadário O PAROCHIAL, órgão da
Federação das Associações Católicas daquela cidade, anunciando o seu programa:
“Não é um jornal de partido, nem uma folha de combate; é antes um órgão de
propaganda para a todos fazer chegar as verdades da nossa religião, procurando
assim ganhar almas para o céu, o que há de ser a preocupação de todo o bom
católico.”[iv]
Em
1917, essa mesma Federação, congregando trinta e três Associações, publicou, no
jornal A União (15 de novembro de 1917), uma manifestação dirigida a Nilo
Peçanha, de “solidariedade e entusiástico aplauso pela atitude patriótica
assumida pelo Governo Federal declarando guerra à Alemanha”. Assinaram a
nota o Padre Achilles Mello, Diretor; Theóphilo Gouveia, Presidente e Agostinho
Villela, Secretário.
Registre-se
que, na ocasião, o Presidente da República era o Sr. Wenceslau Brás, estando
Nilo Peçanha à frente do Ministério das Relações Exteriores.
Alguns
meses antes, o padre Achilles já tinha dado provas da sua dedicação à causa da
Defesa Nacional, no momento em que o Brasil ainda assumia uma postura de
neutralidade diante do conflito deflagrado na Europa, chamado à época de “A
Grande Guerra” e, depois, conhecido como “Primeira Guerra Mundial”.
No
Jornal Pequeno, que se publicava no Recife, temos uma reprodução do jornal
Gazeta do Povo, da cidade de Campos dos Goytacazes, exibindo um fato
interessante.
Um
dos redatores do jornal visitava a Escola Paroquial, justamente fundada pelo
Padre Achilles e que funcionava numa das dependências da Igreja se São
Salvador, quando notou sobre um dos móveis uma carabina modelo Mauzer, própria
para instrução militar.
Surpreso
por encontrar em uma escola primária, dirigida por um sacerdote, um instrumento
de guerra, o jornalista inquiriu o reverendo, que já esboçava um ligeiro
sorrido. Respondeu o padre:
“Criando
esta escola para ministrar à infância desta terra instrução primária e os
preceitos da santa religião católica, eu não completaria a minha missão como
padre e como brasileiro se descurasse um momento da educação cívica e militar
dessa juventude que será o alicerce da Pátria amanhã.
Assim,
estou militarizando os alunos da Escola Paroquial, certo de que cumpro um
sagrado dever, fazendo com que essa mocidade, com a educação cívica
indispensável a todos nós brasileiros, esteja apta para a defesa da integridade
da nossa querida Pátria.
O
nosso batalhão escolar saíra, em breve, desfraldando aos ventos a bandeira
nacional, que é como sabe a bandeira da República!
O
clero brasileiro é muitas vezes mal julgado na parte referente ao seu
sentimento de patriotismo. Entretanto, os nossos serviços, nos momentos mais
tormentosos para a Pátria, estão em letras de ouro nas páginas gloriosas do
nosso passado.
Felizmente,
já se pode considerar triunfante, no Brasil republicano intelectual, a ideia da
volta do clero às fileiras das classes armadas, defensoras da nossa soberania,
tal qual no antigo regime.
E
isso já uma conquista de heroísmo do padre católico nas diversas linhas de
combate das nações que se digladiam na culta Europa.
Sinto-me
bem todas as vezes que se oferece ocasião de tornar público que o clero
brasileiro, consciente dos seus deveres, jamais se esquece de Deus e da
Pátria.”
Monsenhor
Achilles de Mello é lembrado na história religiosa fluminense como um padre
construtor de comunidades: acolheu e estruturou o catolicismo operário em
Petrópolis; dinamizou os movimentos de leigos e pastorais no Norte Fluminense.
Deixou
seu nome gravado na geografia urbana e na memória afetiva das cidades onde
serviu. (fonte: Prefeitura de Campos)
UM
GRAVE PERCALÇO
![]() |
| O Pe. Achilles Mello. Foto: revista A POLÍTICA-RJ, em 24.05.1918. Tratada por IA. |
E
foi justamente em Campos que ele enfrentou, talvez, a maior dificuldade de sua
vida: foi alvo de grave acusação de assédio sexual, afinal nunca provado.
Em
algum dia do mês de março de 1918, um estafeta dos Correios chamado Lino
Ribeiro da Silva propalou pela cidade que, ao entrar inesperadamente um dos
compartimentos reservados da igreja para entregar uma correspondência, ali
encontrou, na companhia do padre Achilles, uma senhorita, filha de uma família
muito conceituada na cidade.
Verdadeira
ou falsa, a notícia, que corria como rastilho de pólvora, dividiu a cidade: uma
parte refutava a palavra do carteiro, taxando-a de boato, intriga e calúnia; a
outra parte acreditava no denunciante.
Na
imprensa, concorrendo com as notícias sobre a Guerra, digladiavam-se os
periódicos: de um lado, a Folha do Comércio, dirigida por Adolpho Gredilha,
defendia o Padre; do outro, os jornais O Rio de Janeiro e A Notícia, este
último dirigido por César Tinoco, o acusavam.
Nas
ruas de Campos, eram frequentes os comícios e as manifestações pró e contra o
religioso, a ponto de envolver a Polícia, o Prefeito e a Associação Comercial.
Notícias da época, como as do Rio-Jornal (17 de maio de 1918), davam conta até
da morte do operário Pedro Roque, baleado por um soldado conhecido como
'Bacurau', que também acabou morto. A situação ficou insustentável, e o Padre
Achilles foi obrigado a deixar a cidade.
Embarcando
na estação do Saco, o Padre Achilles foi para Niterói, acompanhado por sua mãe.
Desembarcando na estação do Maruí, o sacerdote dirigiu-se à casa de um
parente materno, o Dr. Josephino Felício dos Santos, na rua Paulo Alves, nº 60,
no bairro de São Domingos (atualmente bairro do Ingá). Ali ele falou ao jornal Gazeta
de Notícias:
“Há
quase quatro anos fui para Campos, servir como vigário na matriz de São
Salvador.
Desde
que ali cheguei tenho trabalhado para o engrandecimento da religião católica, o
que tenho conseguido, tanto assim que a matriz de que sou vigário é frequentada
pelas famílias mais distintas da sociedade campista.
Sempre
gozei de bom conceito na cidade de Campos, mas há cerca de quatro meses venho
sendo vítima de uma campanha de difamação, movida por indivíduos que se
tornaram meus desafetos.
Requeri
ao delegado daquela cidade a abertura de um inquérito para apurar certa
acusação infame em que um desclassificado envolveu meu nome e esse inquérito
levou mais de três meses para ser encerrado.
Depois
dessa longa demora, chegou o delegado à conclusão de que contra mim nada havia.
Pelos
últimos fatos ocorridos em Campos, contra mim, culpo como principal responsável
César Tinoco, Intendente Municipal.
Posso
asseverar que estavam lá arrefecidos os ânimos contra mim, mas o assassínio de
um cavalheiro por um soldado da polícia, no domingo último, pôs novamente em
agitação os populares. De fato, se aproveitaram meus inimigos para tirar
partido contra mim, insuflando o ódio do populacho.
Assim, na quarta-feira última, estava eu na matriz quando ali apareceu um grupo de indivíduos que, sem respeitar sequer as senhoras que ali se encontravam reunidas, em meio dos maiores insultos, exigiram que eu assinasse um documento, comprometendo-me a sair de Campos dentro de oito dias. Seriam 10 horas da manhã.
Esse
grupo, aos gritos de “mata”, “mata”, invadiu o templo, travando conflito com os
populares que ali estavam de guarda e que, atacados, não puderam evitar o
atentado.
Assinei o documento exigido, para não ser vítima da fúria dos meus rancorosos inimigos. O grupo retirou-se e, cerca das 2 horas da tarde, o templo foi novamente invadido, mas desta vez por mais de 100 homens.
Tentei falar a esses homens para ver se conseguia abrandar a sua fúria, mas isso me foi impossível. Alguns mais ousados de mim se aproximaram e, agarrando-me, levaram-me aos trancos no meio de um berreiro de ensurdecer.
Os
disparos de revólver que tiveram início dentro da matriz, aumentaram na praça
pública.
Tratei de me defender, primeiramente com a força física e depois fazendo uso do meu revólver. Estaria a esta hora talvez morto, se um grupo de amigos dedicados, em número superior a 50, não viesse em meu socorro, alguns dos quais ficaram feridos pela turba.
No
meio de toda aquela agitação, defendendo-me da melhor maneira, fui até a Santa
Casa e ao subir os degraus daquele estabelecimento, ainda fui alvejado por três
tiros de revólver, não sendo, porém, atingido por nenhum dos projéteis, um dos
quais foi ferir um dos empregados da Santa Casa.
À noite, abandonei a Santa Casa, acompanhado de minha progenitora, tomando um trem especial que me transportou para esta cidade. Daquele pio estabelecimento até a estação, fui acompanhado por vários amigos e garantido por alguns rapazes do Tiro 29”.
Com
efeito, na transcrição de parte do inquérito policial conduzido pelo suplente
de delegado Gastão de Castro Pache Faria, divulgada no jornal O Fluminense,
edição de 6 de agosto de 1918, tem-se que:
“Pela
leitura do mesmo, forçoso é confessar que no dia seis (6) de janeiro do
corrente ano, ‘entre duas e duas e meia da tarde1 (conforme auto de perguntas),
não podia o sr. Lino Ribeiro da Silva ter encontrado o padre na Matriz São
Salvador, a quem entregou uma carta expressa, recebendo das mãos do mesmo o
respectivo recibo; depois de o ter assinado sobre uma escrivaninha ‘que havia
em cima de uma cômoda’, quando neste mesmo dia tomara o suplicante (o padre)
parte de uma festa religiosa que se realizava no lugar denominado Campo Limpo.”
Ressalta
ainda o delegado que a participação do padre na tal festa fora divulgada no
jornal Gazeta do Povo para concluir que Lino Ribeiro praticou crime de
difamação, “em vista das provas contidas nestes autos”.
![]() |
| O Pe. Achilles Mello e seus pais. Foto: O Malho, 1918. Foto tratada por Vívia Amorim. |
___
Logo
após deixar a Catedral de Campos, a Diocese o transferiu para o município de
Paraíba do Sul, no interior do Rio de Janeiro, para onde foi designado pelas
autoridades diocesanas competentes.
Foi
nessa região que, devido ao seu excelente trânsito institucional, capacidade de
oratória e competência na gestão das paróquias por onde passou, o Padre
Achilles recebeu da Santa Sé o título honorífico de Monsenhor[v].
Nessa condição, ele passou a exercer funções mais voltadas à articulação do
clero fluminense e suporte aos bispos regionais.
Lá,
ele manteve o mesmo perfil dinâmico de organizador de massas: reestruturou
igrejas, liderou as Ligas Católicas locais e promoveu grandes romarias de fiéis
que chamavam a atenção do clero estadual. Também presidiu a Associação do Tiro
de Guerra 266, ocasião em que enviou telegrama ao Presidente do Estado do Rio
de Janeiro – Feliciano Sodré - comunicando a aprovação de uma “moção de
solidariedade e respeito à autoridade constituída”, em face dos
acontecimentos da Revolta Paulista de 1924, durante o Governo Arthur Bernardes.
![]() |
| Cartão de visitas do Mons. Achilles Mello. Antiquário Sagrados Tesouros. |
Já
na década de 1930, ostentando o título de Monsenhor e muito conhecido no meio
católico fluminense, ele transferiu-se em definitivo para a cidade do Rio de
Janeiro (que na época era o Distrito Federal), integrando o clero da
Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Inicialmente,
em 15 de março 1931, assumiu como vigário da Paróquia Nossa Senhora da Ajuda,
na Ilha do Governador-RJ, substituindo o Monsenhor Cícero.[vi]
Pouco
tempo depois, em 27 de agosto de 1933, assumiu o cargo de vigário da importante
e populosa Paróquia de São Luís Gonzaga, localizada no tradicional bairro de Madureira,
na Zona Norte do Rio.[vii]
A
sua chegada foi triunfal. Cerca de duas mil pessoas o aguardavam no Ginásio
Arte e Instrução e o aplaudiam entusiasticamente, bem como na Matriz e na praça
fronteira, inteiramente lotadas.
____
Foi
justamente durante seu período residindo e pastoreando em Madureira que o
Monsenhor Achilles se aproximou da cúpula da Ação Integralista Brasileira
(AIB).
Àquela
época, o movimento integralista contava com muitos adeptos e simpatizantes,
inclusive no seio da Igreja Católica. No caso do vigário de Madureira, chegou a
haver contato direto com o “Chefe Nacional” Plínio Salgado, conforme nota n’A
Ofensiva, órgão oficial da AIB, de 24 de fevereiro de 1937, marcando audiência
para a sexta-feira seguinte (26).
É
que o lema “Deus, Pátria e Família”, peça fundamental do manifesto dos
integralistas, gerou uma imediata identificação com as bases católicas, de
franca formação conservadora. Postos na ilegalidade por meio do Decreto-Lei nº
37, de 2 de dezembro de 1937, os integralistas radicalizaram, promovendo, em 11
de maio de 1938, o chamado 'Levante Integralista', com a invasão ao Palácio
Guanabara, residência oficial do Presidente da República, resultando em mortes
de lado a lado e pondo em risco a vida de Vargas e de sua filha Alzira.
Em
resposta, a polícia política realizou, já no dia seguinte, uma varredura
minuciosa na Capital e nos estados, resultando no encarceramento de cerca de
1.500 integralistas (incluindo civis, militares e clérigos). Só no bairro de
Madureira “foram detidas 18 pessoas suspeitas de pertencerem à AIB: Armando
Cruz; Jayme Peregrino Noronha; Octávio Pinto Mello, negociante; João Mattos,
sacristão da igreja de São Luiz Gonzaga, em Madureira; e Monsenhor Achilles
Mello, além de vários operários”. (O Jornal, RJ, 13 de maio de 1938)
Interrogado
na Delegacia Especial, e segundo a versão de um único periódico da época, o
Monsenhor Achilles Mello teria negado qualquer ligação com o movimento,
admitindo que o sacristão, João da Costa Mattos, seria, de fato, um militante
ativo no núcleo da AIB em Madureira.
É possível que o religioso tivesse apenas uma identificação ideológica e uma
relação estritamente institucional e que, eximindo-se de culpa, buscasse
preservar a sua Instituição.
____
Rapidamente liberado, o vigário de Madureira retomou suas atividades paroquiais e, ao que tudo indica, o sacristão seguiu o mesmo caminho. Apenas quatro meses após o episódio, em 6 de setembro de 1938, o Diário Carioca noticiava que o Monsenhor e João Mattos integravam uma comissão recebida na sede do Governo Federal para formalizar um convite ao Presidente da República:
“Esteve
no Palácio do Catete uma comissão composta dos srs. monsenhor Achilles de
Mello, João da Costa Mattos, Américo Washington Favilla Nunes e Otto Caldas,
que, em nome da população de Madureira, foi convidar o presidente da República
para assistir à trasladação dos restos mortais do padre Carlos Manso [...], do
cemitério São Francisco Xavier para a igreja matriz daquela localidade, cuja
população o idolatrava...”
Nos
anos que se seguiram, houve um processo de aproximação com o regime de Vargas,
até porque não interessava ao Governo se indispor com a Igreja. Prova disso é
que, no dia 11 de maio de 1942, o Monsenhor Achilles Mello celebrou, ao lado do
Cônego Olympio de Mello, uma missa na Igreja da Candelária em memória das
vítimas do levante integralista de 1938. A solenidade, que homenageou os
fuzileiros navais caídos no ataque ao Palácio do Catete, foi viabilizada por
uma comissão organizada por Silvestre
Péricles de Goes Monteiro,[viii] então presidente do
Conselho Nacional do Trabalho.
Vítima de angina pectoris, o Monsenhor Achilles Mello faleceu no
Rio de Janeiro em 12 de novembro de 1946, período em que atuava como capelão da
Igreja da Candelária e do Corpo de Bombeiros, sendo sepultado no Cemitério de
São João Batista. Era também professor no Colégio São Marcelo, instituição
dirigida por sua irmã, Madre Maria Benigna do Divino Coração (Maria Angélica
Achilles Mello).
O perfil e a trajetória do religioso foram sintetizados pelo periódico
católico A Cruz, em 17 de novembro de 1946:
“O que caracterizou a vida e a personalidade do monsenhor Achilles, além
de uma nítida vocação sacerdotal e zelo das almas, foi um extraordinário e
comovente espírito de caridade. Fez o bem o quanto pôde e a tantos quantos se
lhe atravessaram no caminho. Criou e educou na vida dezenas de desvalidos, que
tudo lhe devem. Onde houvesse uma alma aflita, um necessitado, uma família em
dificuldade, lá estava Monsenhor Achilles, o servo de Deus e o homem do próximo
a consolar, a valer e a beneficiar.”
_____
NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”,
constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens
são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da
competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso
sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso
tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de
autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
Padre Manuel Ribeiro Vieira, que assumira como vigário de Penedo em 24 de maio
de 1904, nomeado por Dom Antônio Manuel de Castilho Brandão.
[ii]
Silvino Othon de Almeida (Pão de Açúcar, 20/11/1876 – Rio de Janeiro,
26/08/1946), filho de Cincinato de Almeida Souza e Clara Bela de Faria (cunhado
do Pe. Achilles, posto que casado com sua irmã Josephina).
[iii]
Fonte: Almanaque d’O Malho, 1915.
[iv]
A União, Rio de Janeiro-RJ, 11 de abril de 1915.
[v]
Essa dignidade eclesiástica é concedida diretamente pelo Papa a sacerdotes que
prestam serviços de relevância notável para a Igreja local.
[vi]
A Cruz, Rio de Janeiro, 8 de março de 1931 e Diário da Noite – RJ, 14 de março
de 1931.
[vii]
A Batalha, RJ. 27 de agosto de 1933.
[viii]
Gazeta de Notícias, RJ. 12 de maio de 1942.
A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR
PÃO DE AÇÚCAR
Marcus Vinícius*
Meu mundo bom
De mandacarus
E Xique-xiques;
Minha distante carícia
Onde o São Francisco
Provoca sempre
Uma mensagem de saudade.
Jaciobá,
De Manoel Rego, a exponência;
De Bráulio Cavalcante, o mártir;
De Nezinho (o Cego), a música.
Jaciobá,
Da poesia romântica
De Vinícius Ligianus;
Da parnasiana de Bem Gum.
Jaciobá,
Das regências dos maestros
Abílio e Nozinho.
Pão de Açúcar,
Vejo o exagero do violão
De Adail Simas;
Vejo acordes tão belos
De Paulo Alves e Zequinha.
O cavaquinho harmonioso
De João de Santa,
Que beleza!
O pandeiro inquieto
De Zé Negão
Naquele rítmo de extasiar;
Saudade infinita
De Agobar Feitosa
(não é bom lembrar...)
Pão de Açúcar
Dos emigrantes
Roberto Alvim,
Eraldo Lacet,
Zé Amaral...
Verdadeiros jaciobenses.
E mais:
As peixadas de Evenus Luz,
Aquele que tem a “estrela”
Sem conhecê-la.
Pão de Açúcar
Dos que saíram:
Zaluar Santana,
Américo Castro,
Darras Nóia,
Manoel Passinha.
Pão de Açúcar
Dos que ficaram:
Luizinho Machado
(a educação personificada)
E João Lisboa
(do Cristo Redentor)
A grandiosa jóia.
Pão de Açúcar,
Meu mundo distante
De Cáctus
E águas santas.
______________
Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)
(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937
(+) Maceió (AL), 07.05.1976
Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.
*****
PÃO DE AÇÚCAR
Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.
Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.
Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,
O pó que o vendaval deixou no chão cair.
Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste
O teu profundo sono num divino sorrir.
Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,
Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.
Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.
Teus jardins se parecem com vastos cemitérios
Por onde as brisas passam em brando sussurrar.
Aqui e ali tu tens um alto campanário,
Que dá maior relevo ao pálido cenário
Do teu calmo dormir em noite de luar.
____
Ben Gum, pseudônimo de José Mendes
Guimarães - Zequinha Guimarães.
PUBLICAÇÕES
Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia
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