sábado, setembro 5

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A PIRACEMA DAS CANOAS

 

Por Etevaldo Amorim


A canoa de do Sr. Janjão, embarcando em Piranhas, AL. Foto cedida por Marcos Mendonça


Tal como os peixes que, em um esforço de sobrevivência, desafiam as correntes e sobem o rio na época da piracema para gerar nova vida, o Rio São Francisco foi testemunha de um movimento semelhante de preservação e expansão cultural. Homens obstinados promoveram a subida de embarcações do Baixo para o Alto São Francisco — transpondo as cachoeiras — para disseminar a arte da navegação a vela onde antes reinavam as pesadas barcas a vara.


Em nosso artigo “MESTRE MINERVINO E A CANOA SERGIPANA”, publicado neste Blog em 18 de maio de 2019, tratamos da introdução da canoa de tolda chamada “Sergipana”, no submédio São Francisco, na região de Juazeiro, Estado da Bahia.


A sua construção, em Santa Maria da Vitória, pelo Mestre Minervino Tavares Amorim[i] (meu tio avô) sob encomenda de Manoel Vieira da Rocha[ii], levou sete meses, sendo concluída no dia 18 de dezembro de 1944, culminando com a sua chegada triunfal a Juazeiro, no dia 3 de janeiro de 1945.


Entretanto, pesquisas recentes nos mostram que outros já haviam se aventurado na difícil tarefa de levar ao curso superior do rio as embarcações e o modo de navegar do Baixo São Francisco.


No jornal pão-de-açucarense O TRABALHO, de 17 de janeiro de 1885, há essa notícia (replicada no Jornal do Recife, de 28 de fevereiro de 1885):


“Regressou de sua viagem ao Alto S. Francisco o nosso digno patrício Sr. Joaquim Alves Carneiro[iii].


Moço trabalhador a toda prova, o Sr. Carneiro, vencendo dificuldades bem sérias, transportou duas canoas grandes pela ferrovia de Paulo Afonso e com toda a felicidade percorreu trezentas e tantas léguas, rio acima, entranhando-se pela província de Minas Gerais.


Foi o Sr. Carneiro um dos primeiros que estreou a navegação de canoas a velas no Alto São Francisco, pelo que recebeu manifestações muito jubilosas daqueles habitantes, na sua maior parte tratáveis e hospitaleiros.


O sistema da nossa navegação propagada no Alto S. Francisco pelo Sr. Carneiro e outros, tem sido motivo de grande contentamento para aqueles povos, vendo o lindo panorama que oferece as nossas canoas com velas soltas, sistema muito diferente da penosa navegação de grosseiras barcas empurradas a varas.


Nós felicitamos ao nosso amigo Sr. Joaquim Carneiro pelo seu feliz regresso.”


Note-se que não há menção expressa ao termo “canoa de tolda”, mas “canoa grande”, embora se tratasse do mesmo tipo de embarcação dotada de tolda na proa.


Esse canoeiro pão-de-açucarense, tendo subido 300 léguas pelo Rio São Francisco a partir de Jatobá-PE (cerca de 1.800 quilômetros), teria alcançado a Cachoeira de Pirapora, localizada no estado de Minas Gerais.


As referências mais antigas tratavam apenas de Alto São Francisco e Baixo São Francisco. A transição da antiga divisão (em apenas dois trechos) para a atual classificação em quatro regiões fisiográficas (Alto, Médio, Sub-médio e Baixo) consolidou-se em meados do século XX. O marco definitivo ocorreu com a criação da Comissão do Vale do São Francisco (CVSF) em 1948 e, posteriormente, com a fundação da SUVALE (1967) e da CODEVASF (1974).


A delimitação das quatro regiões fisiográficas do Rio São Francisco é estabelecida por marcos geográficos e municípios específicos:


O Alto São Francisco vai da nascente, na Serra da Canastra, em São Roque de Minas (MG), até a cidade de Pirapora (MG). O Médio São Francisco estende-se de Pirapora (MG) até Remanso (BA), compreendendo o trecho mais longo e plano do rio. Já o Sub-médio São Francisco começa em Remanso (BA) e desce até Paulo Afonso (BA), englobando o reservatório de Sobradinho e a zona de grandes cachoeiras históricas. Finalmente, o Baixo São Francisco compreende o trecho entre Paulo Afonso (BA) e a foz, no Oceano Atlântico, entre Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande (SE).

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Nessa mesma época, encontramos evidências (senão provas) de que esse movimento de transportar canoas para o Alto São Francisco era incentivado pelo próprio Governo. Uma nota do jornal O TRABALHO, que se publicava em Pão de Açúcar, em edição do dia 7 de fevereiro de 1885, revela essa iniciativa do Diretor da Estrada de Ferro Paulo Afonso (Piranhas-Jatobá):


“FERROVIA DE PAULO AFONSO.


Autorizados pelo digno diretor da Ferrovia de Paulo Afonso, Sr. Dr. Luiz da Nóbrega[iv], declaramos ao público que Sua Senhoria mandará transportar, gratuitamente, de Piranhas a Jatobá, as dez primeiras canoas que se apresentarem para serem lançadas nas águas do Alto S. Francisco.


O Sr. Dr. Nóbrega, no louvável empenho de promover e executar todos os meios úteis para o engrandecimento da Estrada de Ferro Paulo Afonso, de dia-a-dia vai apresentando uma medida útil e digna de louvor.


Reiteramos por mais esta vez os nossos justos elogios ao Diretor da Paulo Afonso.”


Tal iniciativa, portanto, fazia todo sentido, uma vez que a principal motivação para a implantação da EFPA foi a integração entre o Baixo e o Alto São Francisco.


Tanto que o Relatório com que o governador do Estado das Alagoas, Coronel Pedro Paulino da Fonseca, passou a administração ao 1º Vice-Governador Dr. Roberto Calheiros de Mello, em 25 de outubro de 1890, já registrava:


“A ferrovia de Paulo Afonso, entregue ao tráfego público em 1883, com parte em território alagoano (de Piranhas ao Moxotó) e parte em território pernambucano (de Moxotó a Jatobá), medindo 116 km de extensão, até esta data tem sido de pouca utilidade para este Estado, visto o seu tráfego, presentemente insignificante, depender na navegação do Alto São Francisco, na parte encachoeirada de Jatobá a Juazeiro, cuja desobstrução morosamente está sendo feita por uma comissão do Governo Federal.”


E prossegue:


“No futuro, essa estrada será de grande vantagem para as Alagoas, visto que, com o Alto São Francisco navegando regularmente, a cidade do Penedo tornar-se-á o empório das transações feitas em todo o curso do rio abaixo da cidade de Juazeiro.”


O governo Imperial também empreendeu esforços nesse sentido, como registra essa notícia publicada no jornal Orbe, de Maceió, em 21 de dezembro de 1884:


"Dos melhoramentos efetuados no alto s. Francisco já se conseguiu manter ali entre Juazeiro, Januária e Jatobá uma navegação por meio de 12 canoas grandes. São louváveis os esforços empregados pela comissão de engenheiros encarregada desse trabalho."


Trata-se da Comissão de Melhoramentos do Rio São Francisco (criada pelo governo imperial em 1883 e ativa até 1896). Sob a liderança inicial do engenheiro-chefe Antônio Plácido Peixoto do Amarante, o grupo tinha como principal propósito executar obras de engenharia hidráulica e desobstrução fluvial para viabilizar a navegabilidade comercial do "Alto" São Francisco.


Esse transporte de canoas para o trecho alto do rio perdurou até o final da década de 1960. Temos na lembrança que, por volta de 1967/1968, aconteceu o traslado da grande canoa Cruzeiro do Sul, de propriedade do Sr. Ronalço dos Anjos, desta feita não mais através dos trilhos da ferrovia de Piranhas, que já encerrara suas atividades, mas por via terrestre.


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E assim se cumpriu uma importante fase da navegação a vela no curso superior do rio São Francisco. Sobre os trilhos da ferrovia em 1885 ou nascendo pelas mãos habilidosas do Mestre Minervino em 1944, cada uma dessas embarcações cumpriu o seu papel nesse ciclo econômico. Como os peixes da piracema, elas suplantaram barreiras geográficas e abriram suas velas sobre o rio, deixando uma marca notável na paisagem, na cultura e na história da navegação do nosso Rio São Francisco.

Canoas de tolda no porto de Barreiras-BA, margem direita do Rio Grande. Foto: Site Canoa de Tolda.


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NOTA


Caro leitor,


Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Minervino Tavares Amorim, natural de Limoeiro (Município de Pão de Açúcar-AL). Nasceu no dia 5 de abril de 1894, filho de Pedro José de Amorim e de Maria das Dores Lima de Amorim. Casado com Maria Verdulina de Amorim (Dona Vida), com quem teve os filhos: Agenor, José, Pedro, Álisson, Nayr e Creuza.

 

[ii] Manoel Vieira da Rocha, conhecido por “Nozinho Rocha”, comerciante e industrial, proprietário da fábrica São José, de beneficiamento de arroz em Propriá, Estado de Sergipe. Fonte: Cadastro Comercial, Industrial, Agrícola e Informativo do Estado de Sergipe – 1933. Manoel Vieira Rocha nasceu em Amparo do São Francisco., filho de Maximino Vieira da Rocha e Edentina Maria da Rocha. Casado com Alice Motta de Santana.

 

[iii] Joaquim Alves Carneiro era filho de José Alves Carneiro e Benedicta Maria Alves Carneiro. Em 1898, ele ainda residia em Pão de Açúcar. Posteriormente, passou a morar na cidade da Barra, Estado da Bahia, casado com Ângela Archanja Oliveira com quem teve uma filha chamada Anna Archanja Oliveira.

 

[iv] Engenheiro Luiz Felipe Alves da Nóbrega. Nomeado para dirigir a ferrovia em 1883 e exonerado em 1886. Filho de Joaquim do Nascimento Alves da Nóbrega e Maria Francisca Pereira da Nóbrega. Casado com a americana Jennie Elizabeth Kibbe. Faleceu em 1º de agosto de 1908, em Petrópolis-RJ.

sábado, agosto 29

GASTÃO E ENEIDA NA PÃO DE AÇÚCAR DOS ANOS 60

 

Por Etevaldo Amorim


Pão de Açúcar-AL, anos 1960. Av. Ferreira de Novaes, vendo-se a casa onde residiu o casal Gastão e Eneida, logo após o sobrado.


Para além dos dados históricos e geográficos de Pão de Açúcar, já fartamente tratados neste Blog, há sempre a opção de confirmar ou até colher novas informações sobre a nossa terra. Para tanto, empreendemos pesquisas em jornais e revistas nas hemerotecas de todo o país.


Foi assim que chegamos a um belo registro histórico, geográfico e, acima de tudo, afetivo da década de 1960, em que Pão de Açúcar serve de cenário e se torna objeto de observações verdadeiramente significativas. Nele, cruzam-se os caminhos de Gastão Pinto Batinga e sua esposa, a mineira Maria Eneida, em uma preciosa correspondência de memórias com o Professor Eurico Silva[i], catedrático do Colégio Estadual em Uberlândia, Minas Gerais.


Gastão Pinto Batinga[ii], embora nascido em Penedo-AL (em 6 de janeiro de 1924), tem origens em Pão de Açúcar, já que é filho de Elisa Soares Pinto (filha de José Soares Pinto e Isabel Alves Feitosa Pinto, “dona Bela”). Seu pai, o penedense Otto Batinga, casado com Maria Emília Furtado Ribeiro Soares, é filho de Jesuíno de Araújo Batinga (irmão do bispo Dom Jonas Batinga).


Na década de 1940, ele residiu no Estado do Paraná, onde foi Secretário da Federação dos Escoteiros do Paraná e Santa Catarina. Da Diretoria, também fazia parte o escritor Dalton Trevisan, contista conhecido como “O Vampiro de Curitiba”.[iii]


Posteriormente, foi para o Rio de Janeiro, onde foi jornalista e militante político. Daí foi para Minas Gerais, fixando-se em Uberlândia, a progressista cidade do Triângulo Mineiro. Lá conheceu Maria Eneida.


Depois de casados, residiram em Pão de Açúcar por algum tempo, na década de 1960. Morando ou apenas visitando, esse descendente dos “Soares Pinto” ainda era visto por lá em fins de 1968.


Cartas de Maria Eneida endereçadas a seu professor Eurico Silva, suscitaram o artigo, publicado no jornal uberlandense O REPÓRTER, edição de 23 de março de 1963, sob o título INFORMAÇÕES QUE SE PRESTAM:


“Distante 180 km da Capital, na zona do Sertão do São Francisco, à margem esquerda deste, divisa com Sergipe, a Sudoeste de Alagoas – localiza-se a cidade de Pão de Açúcar (1854), resultante de desdobramento desde Penedo (1636), Traipu (1835) e Mata Grande (1837).


O nome denomina também uma serra nas suas proximidades; um penhasco de 400 metros, na entrada da baía da Guanabara; pico de uma das ilhas de Cabo Verde, com 1.300 metros; e ainda o título de um filme que está sendo rodado em Jacarezinho, São Paulo.


Região outrora habitada pelos selvícolas urumaris e amoipiras[iv].


Sergipanos e os nativos fundaram o povoado que fica trinta metros acima do nível do mar, e para aí os trouxe a navegação fluvial que, através dos tempos, vem disseminando cidades ribeirinhas por toda essa imensa região sertaneja.


A essa grande sesmaria de Lourenço José de Brito, deu início, em 1660, a formação do núcleo populoso, exatamente ao lado do Morro do Pão de Açúcar e próximo da lagoa de mesmo nome.


Criado o município em 1854 e instalada a sede, com os foros de cidade em 1877.


Na antiga Vila, esteve duas vezes hospedado na viagem de ida e volta à cachoeira de Paulo Afonso – dias 17 e 22 de outubro de 1859 – o Imperador D. Pedro II, e cuja visita ficou registrada numa inscrição em bronze ao lado da grande queda onde hoje funciona a notável Usina elétrica que serve cinco Estados da Federação.


Na cidade é de se crer ainda exista o prédio assobradado, construído em 1854, para Casa da Câmara e que agasalhou a comitiva imperial.


A área do município é de 665 km², contando uma população de 12.768 habitantes.


Servem os munícipes várias empresas de navegação fluvial, para transporte de gado, de mercadoria e de pessoas, em toda a extensão navegável, desde Pirapora – norte de Minas, até Juazeiro, na Bahia; e de Marechal Floriano (Piranhas) além da Paulo Afonso até a foz do grande rio brasileiro, que é uma escada rolante de 1.160 km².


Ao lado do trecho encachoeirado, intermediário, construiu-se uma via férrea de 116 km de extensão.


Sabemos contar Pão de Açúcar com uma avenida de 700 x 42 metros, plana, como de resto todo aquele sítio; e arborizada com fícus. Ah, se ‘lacerdinhas’ [v]soubessem disso e ainda com aquele calor que sobe a 40 graus!...


No Museu Nacional encontram-se alguns fósseis, achados nesta beira de rio, ossos petrificados que Agassiz, paleontólogo suíço, calculou de terem mais de cinco mil anos."


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“A minha jovem e gentil afilhada uberlandense Maria Eneida, que permanentemente lá está nesses ermos interioranos do Nordeste brasileiro, numa carta destes dias, a mim motivou a súmula histórico-geográfica que acima se lê, e que será completada com as suas informações, produto de novos conhecimentos seus em um meio físico e social que até há pouco lhe era estranho.


Talvez uma indiscrição de minha parte, porém mal algum advirá daí, mas o benefício das breves informações que nos deliciam e aclaram pelas suas novas.


Realizamos, então, um intercâmbio cultural. Vai um trecho da carta amiga.


Estou mesmo pensando em lhe despachar uma mensagem em pétala de rosa, com bonita frase e o nome de Uberlândia. Mandá-la-ia, se possível, pelos bons préstimos do rio que, é e a propósito “o da unidade nacional” – soltando-a na superfície dessas águas que brotam aqui mesmo perto, na Serra da Canastra, e que lh’a levaria de bom grado, como tem levado àqueles ermos o bafejo da civilização.


Maria Eneida deixou há pouco esta Mesopotâmia e, nas asas de Cupido, acompanhou Gastão Batinga por esse mundo afora de nosso tão querido quanto imenso Brasil.”


‘Ele – o Relatório – será sobre a feira do Nordeste, melhor dito, de Pão de Açúcar, verdadeiro mercado oriental, que passei a gostar e admirar imensamente.


A feira de Pão de Açúcar é um espetáculo pelos seus tipos humanos e pela variedade de cores e surpresas que nos oferece. Ela tem a beleza bárbara do agreste, grandeza e abundância. É um acontecimento sócio-econômico de fundamental importância para a cidade e fazendas à margem do rio. Tudo na feira se compra e se vende. Todos os encontros são marcados para o seu dia. Dia de feira é dia de festa.


Desde que aqui cheguei, todas as segundas-feiras vou “fazer feira”. Gosto de seu movimento, de seu barulho peculiar, mas não aprecio muito o seu cheiro, mistura de suor, verduras e frutas passadas. Todavia, as feiras são sempre assim aqui, no Sul ou em qualquer outra parte.


Dou-lhe aqui uma relação de frutas que, desde outubro, estão aparecendo com grande abundância e frequência: manga, laranja, abacate, mamão, abacaxi, pinha, maracujá, melancia, banana, jaca, sapoti, sapota e uva. Esta última é espetacular!


Em abril, com o inverno, teremos o umbu e o jenipapo.


A carne de sol que preparam por aqui é excelente. Melhor que a de Bagagem.


Também se encontram na feira: alface, cenoura, couve, repolho, batatas as mais diversas, pimentão, tomate e todas as especiarias.


Já ouviu falar nas “mesinhas”? Nas famosas “mesinhas” do Nordeste?


Aqui as tenho visto. Vendem raízes para todos os males; rezas para curar picadas de cobra, para mau olhado e para fechar o corpo. Vendem chifre de veados, rabos de tatu, dentes de jacaré, chocalhos de cascavel – tudo para remédio. Tem de tudo, para tudo e para todos.


Os donos das “mesinhas” são geralmente curandeiros. O povo, na sua simplicidade e tradição, respeita-os bastante. Nas feiras, outro espetáculo pitoresco nos é dado pelos cantadores. Eles contam, cantam e recitam o “ABC”, típico folheto de poesia popular e são notáveis improvisadores. Têm público certo e interessado, principalmente quando há desafio de viola. Enfim, a feira daqui é algo inesquecível e maravilhoso.


Outra coisa que hei observado é o gosto que tem o povo pela música popular regional e pelo canto. Todo mundo, até parece exagero, sabe tocar um instrumento musical ou cantar. O folclore é riquíssimo.


Estou satisfeita com tudo. Aprendi a gostar do Vale do São Francisco, de suas belezas naturais, e de seu povo meio orgulhoso e valente.


Creio que o mesmo aconteceria com o senhor, pois tem sensibilidade para sentir as coisas.’

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No mesmo jornal O REPÓRTER, Uberlândia-MG, 24 de junho de 1963, encontramos esse artigo do próprio Gastão:

 

“REVOLVENDO O SERTÃO NORDESTINO


Antigamente era difícil para um nordestino falar sobre a sua região, sem tocar nas chagas do Polígono, na miséria dos mocambos do Recife, no analfabetismo dos camponeses, e nas constantes migrações dos paus-de-arara para o sul.


Hoje, os problemas da seca, dos mocambos, do analfabetismo, do pau de arara migrador, ainda existem e estão sendo enfrentados dentro das reais possibilidades do país. São problemas graves e difíceis, mas não são insolúveis.


Desde que aqui cheguei, tenho escrito sobre o Nordeste. Escrito sobre o progresso das suas cidades sertanejas, progresso palpável e que pode ser reconhecido até pelo viajante menos atento e observador.


Há uma revolução em marcha no sertão nordestino. Uma mudança radical no rápido do seu povo. A hidroelétrica de Paulo Afonso está ampliando o seu campo de ação. O São Francisco deixou de ser via de navegação apenas, e está subindo as serras, a fim de ser utilizado nas residências, bem comportado e perfeitamente encanado.


As prefeituras estão calçando ruas, praças e surgem galerias de águas pluviais. Outras obras estão sendo realizadas. A saúde do povo vem melhorando. Cuida-se do setor educacional. Modifica-se a mentalidade de todos.


Um exemplo: Pão de Açúcar, cidade agropecuária, quer industrializar-se. Os seus munícipes, tendo à frente o seu prefeito, Sr. Ronalso dos Anjos, vereadores como o Sr. José Amaral, estão entusiasmados com as conquistas da cidade e só pensam em progredir mais.


O progresso em forma de luz elétrica, em forma de água encanada, em forma de alfabetização, está revolvendo tudo. Nenhuma cidade nordestina deseja ficar atrás; ficar no antigo marco de não fazer nada. O que aconteceu com a nossa querida Uberlândia, verdadeira cidade dínamo, cidade progressista, entusiasma hoje o sertão e o sertanejo do nordeste.


Poderia citar outros exemplos. Dizer alguma coisa sobre o fim da enxada e sua substituição pelos arados manuais; sobre a grande e notável bacia leiteira do Jacaré dos Homens, de seu gado holandês-zebu; sobre o que vem realizando o DNOCS, o DNER e a SUDENE.


Em outra ocasião, talvez escreva sobre tais assuntos e, ao mesmo tempo, a respeito dos cursos de alfabetização radiofônica e audiovisual, de aprendizagem em 48 horas.”


Pão de Açúcar nos anos 1960,. Ao fundo, à esquerda a casa de esquina onde morou o casal Gastão e Eneida.


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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] O professor Eurico Silva era professor do Colégio Estadual de Uberlândia. Filho do Cel. Virgílio Augusto de Souza e Silva e Maria Salomé Vieira, nasceu em Botelhos, Minas Gerais, em 27 de setembro de 1894 e faleceu Poços de Caldas-MG, em 27 de julho de 1973.

[ii] É o autor da obra "Aspectos da Presença do Negro no Triângulo Mineiro / Alto Paranaíba: Kalunga", publicada em 1994.

[iii] Gazeta de Notícias, RJ, 6 de agosto de 1942.

[iv] Amoipiras. Os amoipiras eram um povo indígena brasileiro pertencente ao tronco Tupi-Guarani, descendentes dos tupinambás, que habitavam a região do médio rio São Francisco, principalmente na margem esquerda, no atual estado da Bahia, durante o século XVI. Parece-nos, portanto, um equívoco a citação dos mesmos como habitantes do baixo S. Francisco.

[v] Lacerdinha é o nome popular do inseto Gynaikothrips ficorum, da ordem dos tisanópteros. São minúsculos, alongados e geralmente pretos; muito comum em árvores do gênero Ficus (como o fícus-benjamina). São atraídos por roupas claras (especialmente amarelas) e entram nos olhos das pessoas, causando intensa ardência e coceira. O nome popular é uma associação ao político Carlos Lacerda, conhecido por sua postura polêmica, combativa e por irritar profundamente os seus adversários políticos.

segunda-feira, agosto 24

PERSONALIDADES PÃO-DE-AÇUCARENSES - PERDILIANO MELLO

Por Etevaldo Amorim


O Sr. Perdiliano Gomes de Carvalho Mello. Foto: acervo da família Fialho.


PERDILIANO GOMES DE CARVALHO MELLO nasceu em São Brás, Estado de Alagoas, em 10 de janeiro de 1876 e faleceu no dia 5 de julho de 1952. Filho de Francisco Gomes de Carvalho Mello e Maria Victória da Purificação.


Em 2 de julho de 1901, já residindo em Pão de Açúcar, casou-se com ANA EXALTA PEREIRA DE MELO (“Doninha”), que passou a ser conhecida por “Doninha de Perdiliano”. Filha de Manoel Francisco Pereira e Belarmina dos Santos, nasceu em Pão de Açúcar em 20 de maio de 1884. Sobre ela assim falou Aldemar de Mendonça:


“Dama da alta sociedade. Estatura mediana. Gorda como quase todos os Pereira. Epiderme morena e um sorriso perene a iluminar-lhe o rosto, anulando a feiura de um bigodinho.

Neste trabalho, feito com o objetivo de retirar do esquecimento os nossos maiorais, que, por qualquer motivo se evidenciaram, não podia olvidar Doninha de Perdiliano, como era mais conhecida.

E se quiserem saber qual a porta pela qual aqui entrou Doninha, direi simplesmente: a da Bondade.”

 

A Srª Anna Exalta, "Doninha de Perdiliano". Foto: acervo Aldemar de Mendonça.



Ficando viúvo em 17 de agosto de 1922, seu Perdiliano casou-se com Felisbela Pereira de Mello (28/10/1898 – 04/10/1961, filha de Ismael Pereira de Mello e Severiana Maria dos Santos).

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ATIVIDADES


O Sr. Perdiliano era forte comerciante em Pão de Açúcar. Como tal, e como era comum para o transporte de mercadorias, possuía uma canoa de tolda denominada Minas Gerais. Essa embarcação, por motivo que desconhecemos, era conhecida por “Jumenta”[i].


Estabeleceu-se no comércio local com a MERCEARIA ESTRELA, sob a firma “Perdiliano Mello & Cia”, no ramo de estivas, miudezas, ferragens com departamentos de óleos, tintas, louças, etc, com vendas em atacado e a varejo.

A MERCEARIA ESTRELLA, de Perdiliano Gomes de Carvalho Mello. Fonte: MARROQUIM, Adalberto. TERRA DAS ALAGOAS, Editori Maglione & Strini, Succ. E. Loescher Roma, 1922.


Essa foto mostra um prédio que até hoje conserva as mesmas características: 14 porta

s altas emolduradas por relevos, sendo 4 voltadas para a avenida Bráulio Cavalcante e 10 alinhadas simetricamente para a rua Cel. Manoel Antônio Machado.


A fachada ostenta detalhes geométricos nas laterais, sendo o topo do edifício arrematado por uma robusta platibanda decorada, que oculta o telhado, ganhando um frontão arqueado e imponente exatamente no chanfro da esquina.


Essa fotografia está entre as onze imagens de Pão de Açúcar estampadas no livro TERRA DAS ALAGOAS, de Adalberto Marroquim, impresso em 1922, em Roma.


Nota-se, na parte superior da fachada lindeira à rua Cel. Manoel Antônio Machado, um toldo (fechado), cujo manejo se dava por meio de um mecanismo composto por uma caixa de engrenagens helicoidais. A partir dela, uma haste vertical de ferro transmitia o movimento até as peças de sustentação superior, permitindo abrir ou fechar a estrutura conforme se girava a manivela acoplada ao sistema.


Lembro-me de que, nesse ponto, entre os anos finais da década de 1960 e os iniciais da de 1970, funcionava uma loja de tecidos do Sr. Lucilo José Ribeiro[ii], que viria a ser prefeito de São José da Tapera anos depois. Mais tarde, e por muitos anos, abrigou o "Bar do Petronilo", conhecido pelas suas famosas mesas de sinuca.


Atualmente, funciona o “Arquivo Central Armando de Freitas Machado. As últimas 4 portas, lá no fundo, são entradas para outros tipos de comércio.


Na foto não aparece o nome da casa comercial, mas um anúncio publicado no Almanak Laemmert de 1913 revela a identidade do local.


 Anúncio da Mercearia Estrella no Almanak Laemmert, 1913.


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VIDA PÚBLICA


Não conseguimos saber, com precisão, quando o Sr. Perdiliano iniciou a sua vida pública. O registro mais antigo que encontramos está no JORNAL DO COMÉRCIO (RJ), de 21 de novembro de 1911. Trata-se de um telegrama enviado ao Coronel Clodoaldo da Fonseca comunicando a fundação, em Pão de Açúcar, da Liga Pró-Clodoaldo da Fonseca. Datado de 15 de novembro de 1911, diz o telegrama:


“Acabamos de fundar “Liga pró-Clodoaldo” propaganda vossa candidatura. Recebei nossas felicitações data hoje e pela escolha vosso nome salvador Alagoas.  – Manoel Pereira, Perdiliano Mello, Venustiniano Cavalcante, João Luiz, João Pereira, Bráulio Cavalcante, Aurélio Cavalcante, Ismael Mello, Luiz Paulo, Alfredo Almeida, Pereira Filho, Lucillo Mello.”


Aqui estão José Venustiniano e Aurélio, pai e irmão de Bráulio Cavalcante, que seria morto no dia 10 de março de 1912, justamente no auge da campanha do Cel. Clodoaldo.

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Em 1916, o Sr. Perdiliano era Comissário de Polícia[iii], tendo como suplentes José de Freitas Machado, Joaquim Campos e Olegário Simas.[iv] Logo foi nomeado Delegado, assim permanecendo até 1925, quando o cargo passou a ser ocupado por seu irmão Lucillo.


Em 5 de outubro de 1917, assinou o Manifesto da Assembleia Popular recomendando o apoio à candidatura do Gal. Gabino Besouro, tendo como candidato a Vice-Governador o Bel. Antônio de Mello Machado,[v] para as eleições que se realizariam no dia 12 de março do ano seguinte.


Notícia do correspondente do jornal Diário de Pernambuco, datada de 6 de novembro de 1917, publicada na edição de 10 daquele mês e ano, dá conta da fundação de um “Centro Cívico Pró Gabino Besouro”, tendo como Presidente de Honra o Sr. Perdiliano Mello; efetivo: Pedro Souto; Secretários: Olegário Simas e Theodoro Barbosa; orador: Dr. Manoel Lyra; tesoureiro: Euclides Souza.


Ainda em 1917, quando da viagem do candidato pelas localidades ribeirinhas do São Francisco, hospedou o Gal. Gabino Besouro e sua comitiva.


O Diário de Pernambuco, na edição de 26 de novembro de 1917, descreve a recepção ao general Gabino Besouro.

“Pão de Açúcar, 16. Diário do Povo. O General Gabino Besouro aqui chegou de Piranhas, no belo paquete “Siminbu” que estava todo embandeirado. Assinalado essa embarcação ainda no horizonte, afluiu à vasta praia enorme multidão impaciente por testemunhar ao ínclito republicano a sua solidariedade e estima.


Numerosas canoas embandeiradas sulcaram o rio repletas de populares e pessoas gradas, aguardando o ancoramento do “Sinimbu”, o que se realizou às 16 horas, entre vivas e aclamações. Ao saltar o general Gabino Besouro, essas aclamações reboaram estrepitosamente entre salvas de rojões e as harmonias de uma banda musical. 


Formou-se imediatamente um numeroso e entusiástico préstito que entre constantes e fervorosos vivas penetrou na cidade até a praça da matriz em busca da residência do Cel. Perdiliano Mello, onde Sua Excelência se hospedou com sua comitiva.


Enquanto pessoas gradas aí cumprimentavam S Exª, enorme multidão estacionava em frente à aprazível residência do Cel. Perdiliano, aclamando o general em verdadeiro delírio.


Saudaram S. Exª em belos discursos o Dr. Luiz Ignácio de Figueiredo, juiz substituto, e Octávio Brandão, funcionário federal[vi], discursos que o general agradeceu comovidamente.


Após algum descanso, seguiu-se lauto banquete durante o qual saudaram ao general os Drs. Antônio Arecippo, juiz de direito – e Ildefonso Cantidiano, promotor público. Sua Excelência o General agradeceu num brinde eloquente, no qual enalteceu o valor do povo panassucarense[vii], bem como os serviços dos prestigiosos políticos Cônego Soares Pinto e Cel. Perdiliano Mello. O Dr. Carlos Pontes[viii], numa oração cívica, agradeceu ao povo o seu concurso precioso, a sua dedicação à candidatura verdadeiramente popular.


O general Gabino Besouro retribuiu os cumprimentos do cônego Soares Pinto, vigário da cidade, sendo servido champagne na residência deste, orando nessa ocasião o ilustre chefe conservador Cel. Luiz José[ix]. O general agradeceu em magnífico improviso concitando os bons alagoanos a trabalharem pelos interesses da sua terra.


O general seguirá hoje mesmo depois de assistir um jantar na residência do cônego Soares. Toda a cidade exulta em ruidosas festas. Nas ruas, lindamente enfeitadas, a multidão não cessa de aclamar o general Besouro como futuro governador de Alagoas.


À noite, a fina flor da sociedade panassucarense oferecerá a Sua Excelência um baile que será animadíssimo. – Correspondente.”


O Gal. Gabino Besouro.





Bacharel Antônio de Mello Machado.

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Dez anos depois, em 1927, seu nome era anunciado como candidato a Prefeito de Pão de Açúcar no Diário de Pernambuco, de 13 de setembro de 1927.


Realizado o pleito, conseguiu 136 votos, sendo superado pelo seu opositor, o Padre José Soares Pinto, que obteve 189 sufrágios.[x]


Depois disso, anota Gervásio Francisco dos Santos em seu livro UM LUGAR NO PASSADO, o Sr. Perdiliano Mello “afastou-se definitivamente da política”, passando a cuidar apenas dos seus negócios.

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] SANTOS, Gervásio Francisco dos. UM LUGAR NO PASSADO. Rio de Janeiro, 1976.

[ii] Lucilo José Ribeiro faleceu em 1976 em acidente automobilístico na recém inaugurada, em asfalto, Rodovia AL-130.

[iii] Comissário era o operador direto da segurança pública, com subordinação ao delegado de polícia.

[iv] Fonte: Mensagens do Governador de Alagoas, João Baptista Accioly Junior, para a Assembleia (1890-1930).

[v] Fonte: Diário do Povo, órgão do Partido Republicano Conservador. 9 de outubro de 1917.

[vi] Octávio Brandão de Oliveira. Funcionário dos Correios no período de 1º de maio de 1917 a 4 de setembro de 1920. Casou-se em 9 de maio de 1917 com Maria Rosa de Oliveira Veiga (filha de Manoel Pastor da Veiga e Anna Rosa de Oliveira Veiga).

[vii] Uma curiosidade: naquela época, registrava-se o gentílico “panassucarense”, por aglutinação a partir da grafia Pão de Assúcar.

[viii] Carlos Pontes Marques de Almeida, Deputado estadual, advogado, jornalista. Filho de Avelino Marques de Almeida e Escolástica Pontes de Almeida. Nasceu em Olhos d’Água do Acioli (atual Igaci), então município de Palmeira dos Índios – AL, em 27/04/1887 e faleceu no Rio de Janeiro – DF, em 19/04/1957.

[ix] Cel. Luiz José da Silva Mello.

[x] Diário de Pernambuco, 17 de novembro de 1927. 

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

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Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


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PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

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Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia