quarta-feira, setembro 23
PERSONALIDADES PÃO-DE-AÇUCARENSES – FRANCISCO FIALHO
Por Etevaldo Amorim
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| O Sr. Francisco Gonçalves Fialho. Foto: acervo de Helio Fialho. |
Esse é um legítimo
pão-de-açucarense, que se inscreve no rol daqueles que deixaram a terra natal
para brilhar em outras plagas.
FRANCISCO GONÇALVES FIALHO nasceu em Pão de Açúcar, Estado de Alagoas, no ano de 1886, filho de José Targino Gonçalves Fialho (que até 1882 ocupara o cargo de agente do Correio na povoação de Piranhas[i], estabelecido em Pão de Açúcar com a Farmácia Popular.[ii]) e Maria Francisca de Lacerda.
Era tio do saudoso
farmacêutico João Fialho de Mello (Joãozinho Fialho) e do seu irmão Durval
Fialho, personalidades queridas que se estabeleceram firmemente em Pão de
Açúcar e deixaram em nossa cidade uma numerosa e estimada descendência.
Em 1904, seu nome aparece
como Escrivão[iii]
na cidade de Anajás, Estado do Pará, de onde enviava charadas para o Almanak de
Pernambuco. A propósito, há registro de viagem dele em companhia de sua mãe Maria
Francisca de Lacerda, viajando do Pará para o Recife,[iv]
dando a entender que a família passara algum tempo naquele Estado.
O fato é que, entre 1907 e
1910, dizendo-se de Pão de Açúcar, seu nome aparece numa lista de
“decifradores” no Almanak de Pernambuco, sugerindo que retornara a Pão de
Açúcar. Tanto que, no dia 18 de janeiro de 1908, aos vinte e dois anos,
casou-se com a Srtª Aurora de Aragão Lisboa, filha de Manoel Martins de Aragão
Lisboa e Francisca Vieira de Aragão Lisboa.
A mãe de Aurora, Francisca
Vieira de Aragão Lisboa, era filha de Cel. Gonçalo Martins Lisboa e de Ana
Vieira da Conceição Lisboa, e, portanto, irmã do Cel. João Vieira Lisboa (que
foi prefeito de Pão de Açúcar).
Uma nota na revista O Malho,
de 15 de fevereiro de 1908, registra o fato:
“Tenente Francisco Gonçalves
Fialho - Pão de Açúcar, Alagoas. Agradecidíssimos pela gentil participação do
seu casamento. Deus faça que a vida do feliz casal tenha sempre a doçura da
localidade, e lhe dê muitos Fialhinhos.” De fato, desse consórcio, nasceram os
“Fialhinhos”: Lienarde, Danúbio, Mozart, Hélio, Danúbio, Lanúsia, Masaix e
Lectícia.
___
ATIVIDADE COMERCIAL
Sua atividade no comércio se
iniciou em Penedo. Em 1909, na “capital do Baixo São Francisco”, era
agente da Casa Standard, que vendia os famosos e caríssimos cronômetros Royal, os
pianos Ritter Halle (de origem alemã) e as máquinas de escrever norte-americanas
Smith Premier, pelo sistema de clubs[v],
similar aos atuais consórcios.
Com sede na Rua do Ouvidor,
93-95 (depois
transformado em 106), no Rio de Janeiro, a Standard foi uma das
mais importantes importadoras e revendedoras de relógios e gramofones no Brasil
no início do século XX, adquirindo fama ao popularizar esses itens de luxo.
Os cronômetros “Royal” eram
um modelo da fábrica suíça Vacheron & Constantin, sediada em Genebra. Em 1910,
o próprio Francisco foi contemplado com um desses, proclamado como “o 1º
relógio do mundo”, conforme publicação no jornal A Imprensa (RJ), no dia 30
de outubro daquele ano.
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| A Casa Standard no dia se dia de sua inauguração em 1907. Foto O Malho, com IA |
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| Exemplar do famoso relógio de bolso Royal. |
Transferiu-se depois para
Maceió, onde se tornou “próspero comerciante, reconhecido por sua atuação no comércio de charque e
cereais em Maceió, abastecendo tanto o atacado quanto o varejo na região. Sua
casa comercial ficava localizada no Jaraguá.”[vi]
Em 1917, dirigia uma agência
de importação, Rosa Borges & Cia, de Pernambuco, para vendas de farinha de
trigo e outros artigos de estiva, estabelecida na Rua da Alfândega, 113, em
Jaraguá.[vii]
Ao que parece, suas
atividades comerciais se alternavam entre Maceió e Penedo. Tanto que, em 9 de
abril de 1920, ele subscreve um abaixo-assinado firmado por comerciantes,
industriais, agricultores, imprensa e outras classes produtoras de Penedo,
dirigido ao presidente do Banco do Brasil (José Joaquim Monteiro de Andrade),
de que foi portador o deputado Clementino do Monte, reivindicando a criação de
uma filial naquela cidade.[viii]
Em 1921, foi eleito um dos
Diretores Mensais da Associação Comercial de Maceió, ao lado de Iona & Cia,
Teixeira Basto & Cia, e outros.[ix]
Em 1922, estabelecido no
comércio de Penedo, Francisco G. Fialho matricula-se na Junta Comercial de
Alagoas.[x]
Em
1923, era agente, em Penedo, a Companhia Cervejaria Brahma. O jornal PENEDO
ESPORTIVO, de 22 de abril de 1923, anuncia que “São as melhores cervejas,
águas e gasosas”.
Em 1926, representava, em
Penedo-AL, a firma Bromberg & Cia, que negociava com produtos tipográficos.
Fonte: O Progresso, Penedo-AL, 31 de outubro de 1926.
Fundada por Martin
Bromberg, foi uma das mais importantes empresas de importação e comércio de
origem alemã no Brasil, operando principalmente entre 1863 e 1932.
Nesse mesmo ano, dirigia e
mantinha às suas custas, o jornal espírita A LUZ, de circulação semanal.[xi]
___
FILANTROPIA E TRAJETÓRIA
ESPÍRITA
Segundo informações do
farmacêutico e sobrinho João Fialho de Mello, fornecidas pelo seu filho Helio,
Francisco Fialho costumava visitar os hospícios, em Maceió, para exercitar a
caridade.
Na capital alagoana, onde já
estava em 1910, segundo registro nos jornais da época, Francisco Fialho já
exercitava sua atividade filantrópica, cooperando com a LIGA CUPON BENEFICENTE.[xii]
Esta entidade foi fundada, em Maceió, no dia 23 de agosto de 1910. A
instituição se propunha angariar “cupons” da Companhia Alagoana Trilhos
Urbanos, a fim de concorrer aos prêmios pecuniários que pela mesma companhia
fossem entregues a quem apresentar maior número deles. A importância arrecadada
teria a seguinte destinação: Aos pobres: 3%; à Sociedade São Vicente de Paula:
10%; à Auxiliadora dos Cristãos: 10%; ao Asilo de Mendicidade: 10%; à Caixa
Escolar: 10%; à biblioteca da Perseverança: 1%; e para a manutenção da Liga:
20%.[xiii]
Em
1923, em sessão do dia 13 de maio, Francisco Fialho foi eleito Tesoureiro do
Centro Espírita Alagoano Mello Maia, para o biênio 1923-1924. Em sessão de 17
de maio de 1926, foi eleito Vice-Presidente, sob a presidência de João Lício de
Almeida Marques.[xiv]
Aliás,
João Lício Marques, juntamente com sua esposa Noemi de Carvalho Marques, mantinham,
na Pajuçara, a Escola Tibúrcio de Carvalho, que abrigava cerca de cento e
cinquenta crianças pobres, que ali recebiam material didático e merenda.
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| A Escola Tibúrcio de Carvalho, na Pajuçara. Foto: Aurora, 1920. |
O
historiador Craveiro Costa, em visita à escola, narrou assim o seu sentimento:
"Um
grupo de crianças vagabundas, num dia de chuva, despertou no formoso coração da
senhora João Lício o desejo de educar aquela meninada vadia, solta na rua;
entregue à natureza áspera e ao destino incerto.
A 7
de fevereiro de 1920, em sua própria casa, ela mesma, a mestra, a senhora João
Lício, abria à frequência pública a escola "Tibúrcio de Carvalho".
Apenas três alunos, filhos de um pescador. No mês seguinte, o número de alunos
subiu a 70. Foi adquirida uma casa, convenientemente mobiliada e contratada uma
professora - Rosália Sandoval, eleita das Musas, professora provecta, mais por
vocação do que mesmo pelas exigências infungíveis da vida.
A
intolerância clerical - porque o casal João Lício professa as doutrinas
kardecistas - combateu ferozmente a escola, apontando-a como casa de corrupção.
Entretanto, o ensino da doutrina espírita ali não era nem obrigatório. E que o
fosse, não havia mal nem crime. A escola despovoou-se.
Passada
a rajada de hostilidade contra uma obra meritória, as ovelhas desgarradas
voltaram ao aprisco, atraídas pela piedade cristã da senhora João Lício.
Hoje,
ali, em Pajuçara, existe uma vasta obra de benemerência, mantida sem
estardalhaço pela caridade do casal. Um curso diurno frequentado por 58 meninas
e 50 meninos, e um curso noturno, principalmente para adultos, com 95 alunos.”[xv]
Em 1920, a escola já tinha um hino, composto pela
professora Rosália Sandoval (pseudônimo de Rita de Abreu, brilhante poetisa
alagoana).[xvi]
HINO DA ESCOLA TIBÚRCIO DE CARVALHO
Operários da estrada infinita
que percorre as esferas do Além.
Adiante! A oficina é bendita
e o trabalho é bendito também!
Tenhamos constância
em nosso lidar.
Passemos a infância
a estudar, a estudar!
Rouxinóis saídos da noite trevosa
para a escola que é dia, que é luz,
aprendemos na bíblia formosa
dos ensinos, do amor de Jesus.
Tenhamos constância, etc...
Nós seríamos sempre esquecidos
pobrezinhos sem lar e sem pão
se não fôsseis buscar os falidos
para dar-lhes amor e instrução.
Tenhamos Constância, etc...
As estrelas se miram nos lagos,
nossas almas se miram no céu,
caridade, teus doces afagos
nos envolve em lúcido véu.
Tenhamos constância, etc...
___
Em
1924, Francisco Fialho foi eleito presidente do Grupo Espírita Dr. Manoel
Antônio da Cruz, sendo reeleito sucessivamente em 1925 e 1927. A ESCOLA
ESPÍRITA criada pelo Grupo, em Jaraguá, para oferecer educação às crianças
pobres, tinha dele ajuda substancial.[xvii]
Foi
nesse período que o Grupo recebeu a visita de Viriato Corrêa,[xviii]
destacado homem de letras e adepto do espiritismo.
No
dia 9 de dezembro de 1924, em passagem por Maceió, o Dr. Viriato Corrêa aceitou
um convite para visitar o Grupo Espírita Manoel Antônio da Cruz, que funcionava
no número 86 da antiga Praça do Rayol, em Jaraguá. O seu diretor, Francisco
Fialho relata esse encontro na edição de 16 de março de 1925, do jornal A
AURORA, que se publicava no Rio de Janeiro.
“Ali
já se encontrava numerosa assistência que aguardava a visita do talentoso
espírita e o início dos trabalhos da sessão de evangelização que sempre se
realiza às terças e quintas-feiras, naquela seara cristã.
Aberta
a sessão, lido e ouvido religiosamente, naquele ambiente de paz, o ponto do Evangelho
aberto após a concentração, surgiu à tribuna o nosso confrade Dr. Theodoro
Palmeira que, num improviso, disse que sua missão era bem difícil naquele
momento, pois tinha diante de si a figura do eminente homem de letras que era
uma notabilidade literária do país, e para apresenta-lo a seus amigos sob este
ponto de vista, o momento lhe traía os bons intentos, o apoucamento espiritual fugia-lhe
à vontade, apesar da admiração e estima fraternal que votava ao eminente irmão.
Falava,
porém, como espírita, como partidário decidido da Nova Revelação
científico-espiritualista, e, como tal, erguia em nome da coletividade espírita
seus braços de irmão e, num amplexo de amor, harmonia e paz, dizia ao querido
itinerante: Viriato Corrêa, os teus irmãos te saúdam no recinto deste templo;
eles aqui se acham, como tu, à procura desse ideal superior de regeneração pelo
amor, pela renúncia, pela fé em nosso Divino Mestre em quem depositamos todas
as nossas esperanças.
Tua
visita tem para nós todos uma significação importantíssima, e para o mundo que
te vê agora adestrado romeiro do caminho da verdade.
O
Espiritismo, que nada mais é do que o restabelecimento da verdadeira doutrina
ensinada pelo Divino Mestre, muito espera de ti, do ouro do teu talento, do teu
coração e da tua nova fé.
Após
o breve discurso do nosso irmão Dr. Theodoro Palmeira, ergueu- se o Dr. Viriato
Corrêa e, com sua palavra meiga e sincera, disse que nada mais era do que um humildo
converso da doutrina espírita; sentia-se bem naquele recinto cheio de paz,
repleto de amor, onde havia afinidades espirituais.
Era
um iniciado, porém sua convicção já estava formulada sobre preciosas bases.
No
Evangelho de Jesus Cristo, explicado em espírito e verdade pelo Espiritismo,
encontrara a fonte onde ia beber a inspiração de seu espírito. Disse que tudo
vinha a tempo, tudo tinha o seu dia.
Ele
fora um desinteressado do Espiritismo; muito tempo andou assim, até que um dia,
abrindo casualmente um livro de Kardec, por um impulso que a si próprio encheu
de admiração, seus olhos demoraram pela primeira vez em letras espíritas, e
então aquilo que para ele parecia intolerável, assumiu importância capital.
Viu
então que seu descaso não tinha justificação em frente a argumentação
raciocinada da filosofia espírita, a concisão perfeita da ideia discutida e
provada. Desde então tornou-se ele um adepto do Espiritismo. Hoje sentia-se
feliz ao lado daqueles que formavam nas fileiras espíritas.
A
conferência do ilustre itinerante foi bordada de fatos interessantes pelos
quais procurou demonstrar a ação positiva e protetora do invisível sobre si, em
diversos momentos da sua vida.
As
últimas palavras do ilustre conferencista foram cobertas por uma salva de
palmas. O nosso irmão Coronel Manoel Zeferino também produziu eloquente oração,
cumprimentando o notável conferencista, exprimindo-lhe um voto ardente de fé, sua
grande satisfação por ver naquela doce comunhão espiritual a presença ilustre
do notável homem de letras e valioso adepto do Espiritismo.
O
Dr. Viriato agradeceu da tribuna a atenção com que seus amigos e irmãos
receberam sua visita e suas palavras.
Com
a excelentíssima família, o Dr. Viriato Corrêa seguiu para o Rio.
(a(a) Francisco
Fialho – Diretor.”
Em
1928, participava da Sociedade Espírita Discípulos de Jesus; e em 1929, foi
eleito presidente do GRUPO UNIÃO ESPÍRITA. Em 1930, era delegado da Federação
Espírita Portuguesa no Estado de Alagoas.
____
Francisco Gonçalves Fialho faleceu
em Maceió em 8 de março de 1930, sendo sepultado no dia seguinte, no cemitério
de Jaraguá, cujo registro foi feito pelo também pão-de-açucarense, o Cônego
Fernando Alves Lyra.
A essa época dirigia também
a Escola Santo Ambrósio, para crianças pobres.[xix]
Em 26 de março de 1943, tendo
como um dos principais fundadores a Srª Virgínia Gusmão (dona Pio)[xx], foi
criado o Centro Espírita Francisco Fialho, que funcionou provisoriamente na Rua
Santo Antônio, 335, na Ponta Grossa. Em 1954, passou para a sede própria,
inaugurada no dia 1º de setembro daquele ano, na Av. Silvestre Péricles, 1690,
conhecida como “rua Formosa” e que, àquela época se chamava Gabino Besouro.
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| O Centro Espírita Francisco Fialho na Rua Silvestre Péricles, antiga rua Formosa. |
___
Sua esposa o sucedeu nos
negócios. A firfma VIÚVA FRANCISGO G. FIALHO, estabelecida à Rua Barão de
Jaraguá, 219, era distribuidora dos bombons e caramelos da fábrica Beija-Flor, sediada
no Recife.[xxi]
Atuava como agente da Empresa
Construtora Universal Ltda, com sede Rua Líbero Badaró, 46-A, em São Paulo, que
operava com um modelo de negócios pioneiro para a época: o sistema de poupança
mútua por meio de Títulos de Capitalização e Sorteios Imobiliários.
Era também representante, em
Alagoas, da Companhia Ítalo-Brasileira de Seguros Gerais, precursora da atual
Itaú Seguradora.
____
NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como
tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações
históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em
geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica.
Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em
qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas
fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências.
Isso é correto e justo.
[i]
Diário da Manhã, Maceió-AL, 21 de maio de 1882.
[ii][ii]
Almanak do Estado de Alagoas, 1891.
[iii]
Almanak Laemert, 1904.
[iv]
Jornal do Recife, 22 de maio de 1906.
[v]
Modelo de vendas precursor dos atuais consórcios. A diferença é que o membro
sorteado ficava isento das prestações seguintes. Fonte: O Monitor, Penedo-AL,
28 de junho de 1909.
[vi]
Depoimento de Helio Fialho.
[vii]
Fonte: DIÁRIO DO POVO, Maceió, 14 de abril de 1917.
[viii]
Revista de Comércio e Indústria, publicação oficial da Associação Comercial de
São Paulo. Ano VI – Número 67, julho de 1920.
[ix]
Fonte: Diário de Pernambuco, 1º de setembro de 1921.
[x]
Correio Paulistano, 9 de julho de 1922.
[xi]
Fonte: O Progresso, Penedo-AL, 29 de novembro de 1926.
[xii]
A primeira Diretoria era assim constituída: Presidente: José Augusto Cabral;
Vice-Presidente: Dr. Odilon Auto; 1º Secretário: Synval P. de C. Gama; 2º
Secretário: Américo P. G. Filho; Tesoureiro: Alceu Andrade; Orador: Dr. Barreto
Cardoso. Fonte: Gutenberg, 3 de setembro de 1910.
[xiii]
Ao comprar a passagem de bonde, o cidadão pagava o valor total estipulado pela
companhia de trilhos urbanos. Uma fração predeterminada daquela tarifa (ou o
valor correspondente àquele "selo/cupom" específico anexo ao bilhete)
era reservada pela empresa para fins filantrópicos. O Papel do Passageiro: A
caridade dependia da ação do passageiro (ou de quem juntava os bilhetes) de não
jogar o cupom fora após a viagem. Era necessário destacar o cupom beneficente e
entregá-lo nas urnas das estações, em jornais parceiros ou diretamente às
instituições.
[xiv]
Aurora (RJ) 1º de junho de 1923.
[xv]
O JORNAL, 7 de fevereiro de 1923.
[xvi]
Aurora, 3 de outubro de 1920.
[xvii]
Fonte: JORNAL DO RECIFE, 26 de janeiro de 1924.
[xviii]
Manuel Viriato Correia Baima do Lago Filho. Jornalista, político, escritor e
dramaturgo. Nasceu em 23 de janeiro de 1884 em Pirapemas, Maranhão. Faleceu no
Rio de Janeiro em 10 de abril de 1967 aos 83 anos. Foi membro da Academia
Brasileira de Letras, sendo o terceiro ocupante da cadeira 32.[3] Foi eleito em
14 de julho de 1938, na sucessão de Ramiz Galvão, tendo sido recebido por Múcio
Leão em 29 de outubro de 1938.
[xix]
Gazeta de Alagoas, 8 de março de 1942.
[xx]
Dona Pio faleceu em 21 de junho de 1950, conforme nota na Gazeta de Alagoas de
2 de julho daquele ano.
[xxi][xxi][xxi]
Conhecida como Renda-Priori, foi fundada em 1926 pelo imigrante italiano Pedro
Renda e seu cunhado Luiz Priori. Fonte: Memória Gráfica Pernambucana, Jarbas
Espíndola Agra Jr.
terça-feira, setembro 15
A ILHA DOS PRAZERES – CRÔNICA PÃO-DE-AÇUCARENSE
Por Etevaldo Amorim
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| A Ilha dos Prazeres. Foto: Site Canoa de Tolda. |
Há, no baixo curso do rio São
Francisco, uma elevação denominada Ilha dos Prazeres, em referência à simpática
capela erigida em seu cume, em 1624, e que invoca a devoção a Nossa Senhora dos
Prazeres.
Situado entre os povoados de Barra
do Ipanema, município de Belo Monte-AL (na margem esquerda) e Ilha do Ouro,
município de Porto da Folha-SE (na margem oposta), esse acidente geográfico
oferece aos visitantes um belo panorama de toda a região, chegando até a
mostrar, ao fundo, a majestosa Serra do Meirus e tudo quanto mais se possa
avistar.
Sobre o morro e sua capela
muitos viajantes já trataram em seus relatos e suas memórias, desde Vieira de
Carvalho, Avé Lallemant, George Gardner, Dom Pedro II, etc, expressando sobre
ele as mais variadas impressões.
Ultimamente, passando pelas
páginas do Jornal do Penedo, edição de 26 de agosto de 1879, encontrei essa
crônica, escrita em Pão de Açúcar, mas sem indicação de autoria. Termina com um
lacônico “P.S. (do Paulo Affonso)”. O PAULO AFFONSO era um jornal fundado em
Pão de Açúcar por Achiles Balbino de Leles Mello, em 27 de outubro de 1878.
Anunciava-se assim: “Periódico imparcial, noticioso, comercial e literário”. Com
oficinas na Rua do Comércio, nº 37, trazia em epígrafe: “Advoga a santa
causa da ordem, da civilização e da justiça”.
Lamentando não poder
identificar o autor de tão bela narrativa, transcrevo para conhecimento de
todos:
“Pão de Açúcar, 24 de agosto de 1879.
N.
S. DOS PRAZERES
Quem desta cidade desce rio
abaixo, dando costas ao sol poente, quando passa pouco abaixo da importante
povoação denominada Lagoa Funda[i],
terá diante dos olhos, no mais elevado da coroa de um morro, ereta e grandiosa
a Igreja dos Prazeres, cuja perspectiva majestosa atrai a curiosidade e comove
a alma do viajante.
Que doce recordação a que este
lugar sagrado embebe em si! Que belo espetáculo o que, na sua eloquência muda,
testemunha este terreno abençoado!
No alto, a MÃE DE DEUS e dos
homens, vestida de glórias, tendo por coroa o firmamento estrelado, cintilando
nos espaços celestes. Aos seus pés a natureza – terra verde, animada pelos
aspectos suaves e grandiosos duma meiga paisagem, sempre aquecida pelo calor e luz
deslumbrante, que lhe derrama ao sol, regada pelo cristalino rocio, que a
sustenta e formoseia.
Vista assim de longe, como na
baixa, a Igreja, assentada na sumidade do morro, merece o nome pomposo de –
PRAZERES, que lhe aplicaram os antigos, apresentando-se com a majestade própria
de quem serve de trono à SOBERANA IMPERATRIZ da terra.
O cume do morro é esplanado e
pouco abraça de círculo; é coroado de espinheiros bravios e matos silvestres.
O modelo da Igreja e uma
inscrição, gravada acima da porta principal, atestam a antiguidade da tradição
popular, que aponta este lugar como sendo consagrado desde o século antepassado
pela mesma vocação.
Ao Norte, como ao Sul, os
lados do morro, além rio, vestem-se de formosas várzeas de um verde alegre, e
de oiteiros frescos à sombra de árvores.
Quase defronte, à margem
esquerda, alveja Boa Vista.
A Leste, entra-se numa
dilatada campina, assombrada de vistosos arvoredos; e a qual toda forma a ilha
do mesmo nome.
A Oeste, a vista alarga-se nas
águas azuladas do majestoso São Francisco, as quais espraiando-se, levantam por
um lado medões[ii]
de areia, enquanto do outro se quebram, ladeando, ribanceiras elevadas.
A dois tiros de arco, à margem
direita, onde a corrente é menos funda e mais estreita, o riacho do Ipanema,
com sua lagoa quase redonda, cujo leito abrange pouco mais ou menos, um quarto
de círculo; mais acima, e no mesmo correr, a Barra, cujos lanços rotos e caídos
dos seus edifícios conservam, em deplorável imagem, uma desfigurada memória do
que foi no passado. Até onde a vista alcança, nas proximidades, os sítios
amenos, frescos a aprazíveis, completam a perspectiva e enchem o lugar de
misteriosa majestade.
Antes de concluir não inútil
referir o que reza a tradição popular, apresentando à piedade dos peregrinos, o
templo que a devoção anseia conhecer e venerar.
Era no fim do século
dezessete.
Ao tempo em que os avoengos
dos primeiros habitantes da Barra ocupavam o sítio denominado Lagoa Seca, um
pouco mais abaixo daquela, tratou-se de edificar um templo em honra da VIRGEM
MÃE, no ponto mais saliente da terra firme.
Nisto desaparece a primorosa
efígie de Maria, que fazia o adorno do Oratório privado da primeira Senhora da
família; e a quem os fiéis, se recomendando, julgavam-se defendidos no presente
e olhavam para o futuro com mais inteira confiança.
Depois de reiteradas buscas e
acuradas indagações, foi encontrar a imagem, com assombro e admiração de todos,
sobre o tope do morro, dentro da cavidade de uma concha.
E logo depois desde sucesso
admirável, que bem claramente revelava a vontade da Mãe de Deus, levantou-se o
templo naquela eminência encantadora, sob a invocação dos infatigáveis padres
da Companhia de Jesus.
Esta tradição popular não é
mais do que notícia, filha de crença que devemos supor sincera, mas que de
nenhum modo obriga. Tal é a única autoridade em que ela se funda.
Referindo-se, o nosso fim é
acudir a curiosidade dos que desejam saber.
P. S. (do Paulo Afonso)”
___
Transcrito do Jornal do
Penedo, 26 de agosto de 1879.
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| Igreja de N. S. dos Prazeres. Foto: Adailson Calheiros |
Ainda sobre a famosa ilha e
sua capela, temos também esse anúncio, contido no Jornal do Penedo, 8 de
fevereiro de 1890, que descreve as terras da fazenda:
“SÍTIO À VENDA
Vizinho à Barra do Ipanema e
quase na confrontação da Ilha do Ouro, tem alguns membros da família
Cavalcante, do Engenho Furado, um dos melhores sítios de quantos existem no
Baixo S. Francisco.
A casa de vivenda assente na
terra firme, a pequena distância da aprazível Igreja dos Prazeres, com sua
sólida construção, oferece bons cômodos.
Os terrenos de plantação de
arroz, compreendidos em duas léguas e em toda a extensão da parte d’aquém do
riacho do Ipanema até encontrar a primeira extrema da cerca de pedra da manga,
dão anualmente nada menos de trezentos alqueires[iii],
não falando na produção de outros cereais, cultivados nos cômoros[iv].
A grande manga, cercada toda
ela de pedra, tem proporções para acomodar os gados magros das fazendas e
refrigerá-los no tempo da seca.
Todo o demais terreno, que se
estende para o interior até a distância de duas léguas, é próprio para o
cultivo não só do algodão, milho, feijão e mandioca, como para a criação de
gado de toda a espécie. E é nele onde estão sitas quatro não pequenas fazendas,
ocupando cada uma delas um vaqueiro.
É este o sítio, cujos
consenhores[v]
têm resolvido vender, podendo quem pretender levar a efeito essa compra
entender-se com o abaixo assinado.
Barra do Ipanema, 20 de março
de 89.
Antônio de Sá Quintela
Cavalcante[vi]”
___
Em 1936, essa fazenda foi
assaltada pelos cangaceiros José Moreno e Mariano. Na época, a propriedade
pertencia ao Sr. Júlio de Freitas Machado, pai do Dr. Olavo de F. Machado (este
recentemente falecido).
Atualmente, e desde muitos
anos, essas terras pertencem a herdeiros do Dr. Djalma Gonçalves dos Anjos e
continuam encantando a todos por sua exuberante beleza natural.
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| Ilha dos Prazeres, 1869. Foto: Abílio Coutinho. |
_____
NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema
“HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas
relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com
farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta
razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer
trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo
também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é
correto e justo.
[i]
Atual cidade de Belo Monte, Estado de Alagoas, situada à margem esquerda do rio
São Francisco.
[ii]
Dunas ou grandes acumulações de areia formadas pelo vento junto ao rio.
[iii]
Alqueire era uma antiga medida usada para grãos, no Baixo São Francisco. Um
alqueire tem 16 salamins; e um salamim tem cerca de 2,27 litros.
[iv]
Cômoro. O mesmo que combro. Elevação de terra que separa a calha principal do
rio das áreas mais baixas inundáveis, conhecidas como as lagoas marginais e as
várzeas.
[v]
Consenhores = proprietários.
[vi]
Cel. Antônio de Sá Quintella Cavalcante. Filho de José Cavalcante de
Albuquerque e Rosa Maria Rabello Quintella. Nasceu em São Miguel dos Campos-AL,
em 1854 e faleceu em Maceió em 12 de fevereiro de 1901. Casado com Anna Maria
Quintella Cavalcante, era proprietário do Engenho Goes.
A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR
PÃO DE AÇÚCAR
Marcus Vinícius*
Meu mundo bom
De mandacarus
E Xique-xiques;
Minha distante carícia
Onde o São Francisco
Provoca sempre
Uma mensagem de saudade.
Jaciobá,
De Manoel Rego, a exponência;
De Bráulio Cavalcante, o mártir;
De Nezinho (o Cego), a música.
Jaciobá,
Da poesia romântica
De Vinícius Ligianus;
Da parnasiana de Bem Gum.
Jaciobá,
Das regências dos maestros
Abílio e Nozinho.
Pão de Açúcar,
Vejo o exagero do violão
De Adail Simas;
Vejo acordes tão belos
De Paulo Alves e Zequinha.
O cavaquinho harmonioso
De João de Santa,
Que beleza!
O pandeiro inquieto
De Zé Negão
Naquele rítmo de extasiar;
Saudade infinita
De Agobar Feitosa
(não é bom lembrar...)
Pão de Açúcar
Dos emigrantes
Roberto Alvim,
Eraldo Lacet,
Zé Amaral...
Verdadeiros jaciobenses.
E mais:
As peixadas de Evenus Luz,
Aquele que tem a “estrela”
Sem conhecê-la.
Pão de Açúcar
Dos que saíram:
Zaluar Santana,
Américo Castro,
Darras Nóia,
Manoel Passinha.
Pão de Açúcar
Dos que ficaram:
Luizinho Machado
(a educação personificada)
E João Lisboa
(do Cristo Redentor)
A grandiosa jóia.
Pão de Açúcar,
Meu mundo distante
De Cáctus
E águas santas.
______________
Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)
(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937
(+) Maceió (AL), 07.05.1976
Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.
*****
PÃO DE AÇÚCAR
Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.
Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.
Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,
O pó que o vendaval deixou no chão cair.
Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste
O teu profundo sono num divino sorrir.
Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,
Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.
Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.
Teus jardins se parecem com vastos cemitérios
Por onde as brisas passam em brando sussurrar.
Aqui e ali tu tens um alto campanário,
Que dá maior relevo ao pálido cenário
Do teu calmo dormir em noite de luar.
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Ben Gum, pseudônimo de José Mendes
Guimarães - Zequinha Guimarães.
PUBLICAÇÕES
Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia
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