sábado, agosto 15

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MEMÓRIAS DE UMA ESCOLA ISOLADA

 

Por Etevaldo Amorim

 

A Escola Isolada de Alecrim. 


Para resgatar essa memória, precisamos voltar a meados da década de 1960, essa quadra conturbada da vida nacional, mais precisamente ao ano de 1964.

O município de Pão de Açúcar já contava, em sua sede, com três grupos escolares: o Bráulio Cavalcante (construído em 1934 durante a primeira gestão do prefeito Augusto Machado), o Rosália Sampaio Bezerra (instituído pelo Decreto-Lei nº 2.201, de 19 de fevereiro de 1960, durante o governo Muniz Falcão) e o Pe. José Soares Pinto (Criado pelo do Decreto-Lei nº 1.924, de 23 de setembro de 1964, no governo do Major Luis Cavalcante)[i].

Essa estrutura de Grupo Escolar — idealizada em São Paulo por Caetano de Campos e Gabriel Prestes no final do século XIX — tinha como objetivo unificar as antigas escolas primárias urbanas em uma estrutura graduada por séries.

Embora o modelo tenha sido nacionalizado a partir da Reforma Rivadávia Corrêa (Decreto Federal nº 8.659 de 1911), a realidade da zona rural brasileira ainda era ditada pelas Escolas Isoladas. Consolidado no período republicano, o termo “Escola Isolada” designava as unidades que mantiveram o funcionamento em sala única, unidocente e multisseriada herdado das antigas “Cadeiras de Primeiras Letras” do Império, onde um único professor regia alunos de idades e níveis de escolaridade completamente diferentes.

A minha experiência pessoal reflete perfeitamente esses dois modelos de estrutura educacional. Em princípios de 1964, morando em Campinas, onde eu nasci, comecei a frequentar o Grupo Escolar Padre José dos Santos. (Veja o artigo MINHA PRIMEIRA ESCOLA)

Quando nos mudamos para a Vila Limoeiro (então chamada Alecrim), em julho de 1964, encontrei a escola em reforma, razão pela qual as aulas eram ministradas em sala improvisada. A professora era D. Maria Francisca de Melo, conhecida por Morenita, esposa do Sr. José Alves e mãe de José, Maria Alves, Creuza, Yêda, Neide, Nely e Jailton.

Dedicada e paciente, ela comandava um agrupamento de crianças de diversas idades, de diferentes séries, e de comportamento, digamos, irrequieto. Dona Morenita logo foi morar definitivamente em Pão de Açúcar, onde a família já estava.

Muita estranheza me causou o meu novo ambiente escolar. Além do aspecto físico, o método utilizado era completamente diferente daquele com o qual havia iniciado as primeiras letras.

Minha escola anterior adotava o método da cartilha Caminho Suave, associando a letra à imagem correspondente da Boneca ou da Lata, por exemplo. Cada aluno deduzia a lógica em silêncio: B com O faz BO; L com A faz LA... BOLA.  Em vez disso, o que se ouvia era uma cantoria dos meninos e meninas, soletrando em voz alta e em coro as famílias silábicas: “Bê-ó, Bó....Lê-á...Lá...BOLA...”.]


A cartilha CAMINHO SUAVE de Branca Alves de Lima.


A professora, reconhecendo a minha dificuldade com aquele coro barulhento, não me exigia tais exercícios. Aliás, por ocasião de uma visita da Coordenadora Regional de Ensino, professora Maria Mamede Lima, dona Morenita chegou a sugerir que eu, por estar mais adiantado em relação aos demais, já fosse colocado na 1ª série. A Coordenadora ponderou que seria melhor eu concluir o ano letivo na condição em que estava.


AS TÉCNICAS DE ENSINO

Durante esse período, da 1ª à 3ª série, fomos submetidos progressivamente a diversas técnicas de ensino.

O DECALQUE. Essa técnica era conhecida popularmente como "cobrir". A professora fornecia uma folha com as letras ou palavras impressas (o modelo) em traçado forte. O aluno sobrepunha uma folha de papel de seda (que é semi-transparente) ou vegetal. Olhando através do papel fino, a criança usava o lápis para contornar exatamente as letras que via por baixo. Essa técnica era considerada o estágio inicial da caligrafia. Após o aluno ganhar segurança motora com o decalque, ele "subia de nível" e passava para o traslado (copiar olhando para o quadro) ou para o treino direto no caderno de caligrafia.

O TRASLADO. O traslado era uma das técnicas mais comuns para o ensino e o exercício da escrita nas escolas primárias brasileiras naquela época. Consistia no ato de copiar textualmente um modelo de escrita considerado "perfeito" ou padrão. O objetivo principal era desenvolver a caligrafia legível, a destreza motora e a ortografia correta. A professora escrevia uma frase ou um pequeno texto no quadro-negro (o nosso era verde), e os alunos deviam reproduzir exatamente igual em seus cadernos.

O DITADO. Depois de passarmos pelas duas fases anteriores, vinha o “ditado”. A professora lia o texto completo uma vez para contextualização. Depois, lia frase por frase (ou bloco de palavras) pausadamente para os alunos escreverem. Por fim, fazia uma leitura final rápida para verificação. Ah! Um detalhe: a professora ditava os sinais de pontuação explicitamente. Ela dizia, por exemplo: “O pescador pescou um piau (vírgula) uma piranha (vírgula) e um surubim (ponto final).”

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A Escola, então chamada Escola Rural da Vila Alecrim, foi instalada no dia 18 de fevereiro de 1951, durante a gestão do governador Arnon de Mello. Possuía apenas uma sala de aula e uma residência para a professora, tendo no meio um espaço para recreio.

Após a reforma, inaugurada em 10 de março de 1965[ii], quando o governador do Estado era o Major Luis Cavalcante, uma segunda sala de aula ocupou o lugar do espaço para recreio, e este foi construído em anexo. Essa área de recreio tinha outras utilidades, desde simples reuniões até bailes com os melhores sanfoneiros da época.

É forçoso dizer o quanto era perigosa essa nova área de recreio. Como o terreno atrás da escola tinha declive acentuado, o seu nível ficou muito alto. Até havia uma pequena mureta de cerca de um metro, mas ela não constituía segurança efetiva, já que se podia subir e até sentar sobre ela. Felizmente, nunca se registrou qualquer acidente.

Cada sala tinha uma porta e três ou quatro janelas venezianas; piso de cimento queimado e teto de telhado aparente, com telhas do tipo francesa. A escola recebeu mobiliário novo: um “quadro-negro”, que na verdade era verde, ocupava quase toda a parede anterior. Possuía uma borda inferior que aparava o pó do giz. Sobre ela repousava um estojo com os bastões de giz, cuja tampa corrediça, provida de uma flanela, servia de apagador.


Sala de aula equipada com carteiras de assento duplo semelhante às nossas.


As carteiras de assento duplo traziam um selo exibindo a marca CIMO, de Curitiba. As peças eram dispostas em série: do encosto de cada assento partia uma prancha que servia de mesa para a dupla que sentava logo atrás. Logo abaixo do tampo principal da mesa havia uma prateleira de madeira onde os alunos guardavam os seus materiais.

Na parede posterior (fundo), duas estantes baixas, com portas corrediças, constituíam uma pequena biblioteca, onde se encontravam obras da literatura infantil: “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa”, “Ali-Babá e os 40 ladrões”, “Simbá, o Marujo”, “As Viagens de Gulliver” e até um exemplar da Constituição Federal, outorgada em 1967[iii].


Estante COLTED semelhante à nossa. Foto: Escola Municipal Churchill.


Nessas estantes via-se a sigla COLTED, cujo significado conheço agora: Comissão do Livro Técnico e do Livro Didático, criada pelo Decreto nº 59.355, de 4 de outubro de 1966, resultado de um convênio entre o Ministério da Educação e Cultura (MEC), o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e a USAID - United States Agency for International Development (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Essa Agência americana, aliás, foi a financiadora de toda a reforma, no âmbito desse Acordo MEC/USAID. Havia também um mapa do Brasil, ainda com 22 Estados, 4 territórios e o DF.[iv]

Em 1965, chegou nova professora: Dona Maria Alves Lima, esposa do “Sr. Chico Camarão”. Tinha crianças pequenas: Gilvânia, Sandra, Edja e Genival, que nasceu nesse período. Competente e austera, ela ficou conosco nos anos de 1965 e 1966.

Em 1967, chegaram novas professoras: Maria do Socorro Pereira Lima - com quem cursei o 3º ano - Ângela Barreto Oliveira e Jailda dos Santos, que logo se afastou por problemas de saúde. Faleceu recentemente.

 

UM VISITANTE ESTRANGEIRO

Em 1967, chegou à escola a Coordenadora da 8ª CRE, acompanhada de outras professoras e de um rapaz alto, galego e que falava um português “meio enrolado”. Logo soubemos tratar-se de um americano. Enquanto as professoras conversavam no interior do prédio, ele sentou em uma cadeira e logo fizemos uma roda em torno dele. Perguntas daqui, perguntas dali... ele se dirigiu a mim, o único que usava uniforme (o da minha antiga escola).

Quis saber o que significava a sigla G. E. P. J. S., inscrita no bolso da minha camisa. Respondi-lhe: “Grupo Escolar Padre José dos Santos”.

— E onde fica essa escola? — continuou perguntando.

— Em Campinas, São Paulo.

— Ah! — disse ele. — Então você é um viajante, veio do Sul para cá!!!

Soube depois tratar-se de Richard M. Gross, voluntário do Peace Corps (Corpo da Paz), um programa americano que enviava voluntários, em geral jovens recém-saídos das universidades, para países em desenvolvimento no intuito de prestar assistência técnica, social e humanitária, visando manter a influência dos Estados Unidos na América Latina, sobretudo naqueles tempos da chamada “Guerra Fria”.

“Ricardo”, como era conhecido, deixou Pão de Açúcar em 1968 e foi para Cuiabá, Estado de Mato Grosso. Ele fazia dupla com o “Jaime” (nome abrasileirado de Jim Lane Squires)[v], que veio a se casar com Creuza, filha da professora Morenita, indo morar nos Estados Unidos, em 1968.

 

OS LIVROS E OS MATERIAIS DIDÁTICOS

 

Na 1ª e na 2ª série, estudamos com os livros da Coleção Infância Brasileira, escrita por Ariosto Espinheira e publicada pela Companhia Editora Nacional.

Já nas séries seguintes, usamos a Coleção Nordeste, escrita pela educadora Maria Cecília Rego Ávila Pessoa[vi] e publicada pela Editora do Brasil S.A. Essa coleção explorava duas vertentes: Nordeste: Linguagem, focado em leitura, gramática e expressão escrita; e Nordeste: Lições, voltado para as chamadas “matérias de conteúdo”, que englobavam Ciências, História e Geografia.

Os cadernos eram simples, estampando na capa uma foto de inspiração ufanista e o hino nacional impresso na contracapa.

Usávamos borrachas da marca Mercur, brancas e moles, para apagar escritos com lápis grafite e uma outra mais dura, bicolor (uma parte azul e outra vermelha), para apagar textos escritos com caneta esferográfica BIC, que já começaram a aparecer.

Nossos lápis grafites eram da marca Faber-Castell, a mais difundida na época. Quando a ponta ficava rombuda, afinávamos com o apontador ou com lâmina Gillete mesmo. Assim, de tanto fazer ponta, o lápis ia diminuindo, diminuindo, a ponto de não poder mais segurá-lo. Mas aí vinha em nosso socorro o “extensor de lápis”, que era uma haste oca do tamanho de um lápis inteiro e com uma abertura em uma das extremidades. Ali fixávamos o pedacinho de lápis e apertávamos com um anel metálico deslizante. Assim podíamos aproveitar o lápis o máximo possível.

Para as provas, utilizávamos o papel pautado, folhas pautadas duplas, que a gente comprava na bodega de Dona Miúda, espécie de armarinho localizado na esquina com a Rua do Meio (R. Jayme Silva).

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Terminado o 3º Ano, entramos em 1968 (ano de grandes agitações no Brasil e no mundo). Iniciaríamos a 4ª série. Mas havia um problema: a Escola não tinha o 4º Ano!!! Nunca entendi o motivo. A professora Ângela chegou a começar as aulas conosco, mas logo veio a ordem para suspender.

Fiquei sem estudar, até que surgiu uma oportunidade de frequentar uma banca de estudos formada pelo meu amigo Lindalvo Silva Costa (noivo de Edith Lima Mendes, com quem se casaria pouco tempo depois). Era uma espécie de “cursinho” para o grande Vestibular daquela época: o Exame de Admissão ao Ginásio. A banca era formada por Edith, Eu e Paulo Andrade. Feito o Exame em final de 1968, passamos todos. Grande professor Lindalvo! 100% de aproveitamento!!!!

 

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Ressalto que a passagem das professoras Ângela e Socorro pela Escola foi marcada por grande movimentação interna e por uma salutar integração com a comunidade. Isso, sem dúvida, contribuiu para a melhoria do aprendizado.

Elas promoviam atividades como recitais de poesia — lembro-me de um que fizemos na casa de Seu Pedro e Dona Raquel, onde recitei o poema 'Cajueiro', de Gentil Braga. Também me recordo de um “café gordo”, para o qual cada um de nós contribuiu com alguma coisa. Comemos a nos fartar! Para completar, a professora Ângela ainda tocava acordeom... um verdadeiro privilégio!!!

Outra lembrança marcante foi a realização do que imagino ter sido a primeira passeata do Limoeiro, em 7 de setembro de 1967, comemorando a Independência do Brasil.

Formaram-se pelotões temáticos: lembro-me de um formado só com meninas, todas vestindo saias que exibiam na frente a bandeira de cada Estado da Federação.

Percorremos as principais ruas da vila: saindo da rua Boa Vista (onde estava a Escola), dobrando à direita para a Rua do Meio (que não ia além da casa de seu Argemiro Mangão), transpondo a igreja para chegar à Rua de Baixo (chamada Bráulio Cavalcante); fazendo em seguida o percurso inverso. À frente ia uma pequena banda vinda de Pão de Açúcar, só com instrumentos de percussão: tarol, caixa e bombo. Mas isso foi para nós uma grande novidade!!!!

E teve mais: elas ainda, por conta própria, resolveram dar aulas de alfabetização para adultos. À noite, e como ainda não havia energia elétrica, a sala era iluminada com a luz de uma lâmpada Petromax[vii], muito utilizada na época. Isso ainda antes do MOBRAL - Movimento Brasileiro de Alfabetização, que só viria a ser criado no final de 1967, pela Lei nº 5.379 de 15 de dezembro, iniciando suas atividades efetivas e em larga escala de ensino apenas a partir de 1970.

Essas são as minhas memórias da velha escola isolada em que estudei. Considerei válida a iniciativa de publicá-las, já que não são só minhas, mas faz parte da história daquela pequena Vila, igualmente isolada, mas que hoje experimenta algum sopro de desenvolvimento.


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Nota 1

Eu julgava que aquela passeata teria sido a primeira da história do Limoeiro. Recentemente, entretanto, no jornal Diário de Pernambuco, edição de 7 de outubro de 1922, encontrei uma notinha entre as muitas que noticiavam as comemorações do centenário da Independência do Brasil. Diz a nota:

“As colunas dos jornais estão cheias das notícias de semelhantes festas, das quais uma das mais tocantes, apesar de sua modéstia, foi a que se verificou na povoação do Limoeiro, município de Pão de Açúcar.

Foram as seguintes as solenidades ali realizadas:

Às 7:00 h da manhã a multidão entoou, aos espocar de girândolas de foguetes, o hino nacional, dando-se uma salva de 21 tiros.

Logo após se verificou o hasteamento da bandeira nacional, saudada com versos patrióticos pelas crianças das escolas.

Às 15:00 h o Sr. Jayme Silva efetuou uma Conferência em que brilhantemente discorreu sobre o fato que solenizava. Seguiu-se uma passeata cívica em que tomaram os escolares, grupos gentis de senhorinhas e os habitantes da localidade, que dava assim uma demonstração inconcussa de amor à Pátria.”

O Sr. Jayme Silva (Jayme Emiliano Silva) nasceu em Jacaré dos Homens, então município de Pão de Açúcar, em 1896 e ali faleceu em 10 de novembro de 1953. Era filho de José Pedro da Silva e Maria Alexandrina Souto. Casado com Maria Alves Feitosa, tiveram os filhos: Neiwton Silva, Ivanir Silva, Ib Silva, Djalma, Washington, Mair, Nicodemos (Dema), Delma, Terezinha e Jaime. Foi vereador e dá nome à antiga “Rua do Meio”, a partir de projeto do vereador Cliuton Santos (1983-1988).

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Nossos agradecimentos a Cerícia Brandão, Vânia Rezende e Edivalda dos Anjos pelas informações acerca da criação das escolas Rosália S. Bezerra e Pe. Soares Pinto.


Borrachao MERCUR bicolor.


Extensor.

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Estojo escolar Fritz Hohansen.



Livro da Série INFÂNCIA BRASILEIRA, de Ariosto Espinheira.


Caderno escolar muito usado na época.


Borracha MERCUR branca.

Placa de inauguração do Grupo Escolar Padre José Soares Pinto, em 1964. Foto: Vânia Rezende, (tratamento com IA por Vívia Amorim.


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NOTA 2

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] A placa de inauguração do Grupo Escolar Pe. José Soares Pinto faz referência ao “Plano Trienal de Educação (1963-1965)”, que integrou o plano macroeconômico de estabilização e reformas estruturais elaborado pelo economista Celso Furtado no governo de João Goulart (Jango). A vertente educacional do plano baseou-se fortemente nas diretrizes da recém-aprovada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB de 1961) e contou com a liderança intelectual do educador Anísio Teixeira. Seu propósito central era transformar a escola pública de uma instituição "ornamental" em uma ferramenta orgânica de desenvolvimento econômico e justiça social. O plano estruturou-se em torno de metas, sendo a principal delas a Universalização do Ensino Primário: O objetivo mais urgente era garantir o acesso à escola primária para 100% das crianças brasileiras em idade escolar até o ano de 1965.

 

[ii] Diário de Pernambuco, 31 de janeiro de 1965.

 

[iii] A Constituição Brasileira de 1967 foi promulgada em 24 de janeiro de 1967 e entrou em vigor em 15 de março do mesmo ano, institucionalizando legalmente o regime militar no Brasil e centralizando o poder no Poder Executivo Federal. Ela substituiu a Constituição de 1946 e incorporou as medidas autoritárias dos primeiros Atos Institucionais, do AI 1 ao AI 4.

 

[iv] Estados: Acre, Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Guanabara, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Territórios: Amapá, Roraima, Rondônia e Fernando de Noronha.

 

[v] Jim Lane Squires. Nasceu em 3 de abril de 1942, em Glendive, Dawson, Montana, EUA, e faleceu em 30 de janeiro de 2024, em Billings, Yellowstone, Montana, EUA.

[vi] Nome de casada (com Lucilo Ávila Pessoa), de Maria Cecília Mota Rego. Nasceu em Água de Pau, Lagoa, São Miguel, Açores, Portugal, filha de Ernesto Rego e Cecília Eugênia da Motta Vieira. Faleceu no Recife em 16/08/2016.

[vii] Petromax eram lanternas/lamparinas pressurizadas a querosene, ferramenta muito comum para iluminação noturna em áreas rurais ou isoladas que ainda não contavam com energia elétrica nas décadas de 1960 e 1970, como era o caso de Limoeiro, que só viria a receber luz elétrica da CHESF em 1976.

 

segunda-feira, agosto 3

PERSONALIDADES PÃO-DE-AÇUCARENSES - MONSENHOR ACHILLES MELLO

 

Por Etevaldo Amorim


O Mons. Achilles Mello. Foto: acervo Aldemar de Mendonça, tratada por IA.


Seguimos com o desfile das personalidades pão-de-açucarenses. Na passarela da História local, eles se mostram altivos, imponentes e merecedores da nossa lembrança e do culto à sua memória. Filhos da terra ou naturalizados, nela ou além, eles enalteceram o nome da cidade e fazem jus à nossa deferência e à nossa gratidão.


Destacamos agora a trajetória do Monsenhor Achilles Mello. Filho de Achiles Balbino de Leles Mello e Maria Josephina de Faria Pinto, o biografado nasceu em Pão de Açúcar, Estado de Alagoas, no dia 28 de março de 1883. Eram seus avós paternos o Capitão Benedicto Soares de Freitas Mello e Maria Angélica dos Prazeres; e maternos, Seraphim Soares Pinto e Josephina Carolina de Faria.


Seu pai foi fundador, em Pão de Açúcar, dos jornais “O Paulo Afonso” e “O Trabalho”. Ao passar a residir em Penedo, transferiu para lá esses dois periódicos, vindo depois a fundar também o hebdomadário católico “A Fé Christã”, jornais esses que tiveram vida duradoura e gloriosa. Foi neste último periódico, fundado em 1902, que o Major Achiles Mello (pai) empreendeu uma das mais fervorosas defesas dos dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana. A atuação foi tamanha a ponto de merecer do Papa Pio X, por ocasião da peregrinação brasileira ao Vaticano (1905), a 'Bênção Apostólica e indulgência plenária, em artigo de morte, na forma costumada da Igreja, ainda mesmo que só possam invocar o nome de Jesus ao menos com o coração', extensiva a todos os seus parentes consanguíneos e afins, até o terceiro grau inclusive. Do referido diploma foi portador o então Secretário-Geral do Bispado de Olinda, o também pão-de-açucarense Monsenhor Freitas.


Demonstrando desde cedo inclinação para o estudo eclesiástico, o jovem Achilles entrou para o Seminário de Olinda aos onze anos de idade. Com a criação do Seminário de Maceió, em 1902, foi para lá transferido.


Sua ordenação ocorreu no dia 18 de novembro de 1906, na Catedral N. S. dos Prazeres, em Maceió, juntamente com o seu conterrâneo, Padre José dos Anjos. Logo após a cerimônia, seguiu para Pão de Açúcar, por terra, para assistir à primeira missa do colega, na Matriz do Sagrado Coração de Jesus, que ocorreu no dia 28 de novembro de 1906. Dia seguinte, embarcou na Moxotó com destino a Penedo, onde residiam seus pais, para a sua própria Missa Nova.


Na edição de 15 de dezembro de 1906, o jornal A FÉ CHISTÃ, de propriedade do seu pai, descreve a sua primeira missa:


À hora aprazada os paraninfos, o pároco da freguesia e outros sacerdotes, seminaristas de avultado número de pessoas, tendo à frente a banda marcial Euterpe Ceciliense, dirigiram-se à residência do neo sacerdote, que foi conduzido à Matriz, onde, às 10 horas, subiu ao altar, tendo como diácono e subdiácono o padre Geminiano de Freitas e o padre José dos Anjos; como ministro assistente o vigário Manuel Vieira[i] e mestre de cerimônia o menorista Afonso Tojal.


Foram paraninfos os Srs. Joaquim Mileto da Silva Rego, Silvino Othon de Almeida[ii], Cel. Antônio Luiz da Silva Tavares (representado por seu filho Dr. Luiz Tavares Sobrinho) e Heitor Mello.


Ao Evangelho, subiu à tribuna sagrada o importante pregador Padre Justiniano Costa, vigário das Dores. Sua Reverendíssima, que nesta cidade foi ouvido pela primeira vez, pronunciou um sermão de peso – bela e digna oração de um orador feliz, eloquente e preparado. O Padre Justiniano satisfez, dominou a todos os ouvintes. Há muito tempo não vimos a tribuna sagrada, numa testa, ser ocupada com tanta perícia e competência. Depois da missa seguiu-se a tocante e emocionante cerimônia do beija-mão.


Terminado o Ato, foi o padre Achilles acompanhado à casa pelo clero e avultado número de pessoas, sendo aos circunstantes oferecida uma taça de cerveja e íntimo almoço.


Às sete horas da noite teve lugar a imponente solenidade do Te Deum laudamos, tendo ocupado o púlpito com bastante proficiência o piedoso e inteligente franciscano Frei Casimiro, que pronunciou um sermão doutrinário, edificante, que satisfez e agradou a todos os ouvintes.


A orquestra da corporação Euterpe, sob a batuta do Padre Alfredo Silva, digno reitor do seminário, desempenhou bonita missa, cuja música é de composição do mesmo reitor.


Não obstante nada haver de extraordinário, a festa da missa nova do Padre Achilles correu bem, esteve animada, divisando-se a alegria e o prazer no semblante de todos.


O padre Achilles e seus progenitores, naquele dia, foram muito cumprimentados e receberam muitos telegramas de felicitações. Ao novo sacerdote desejamos felicidades.”


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CARREIRA ECLESIÁSTICA


Logo após a ordenação em 1906, o jovem padre Achilles partiu para o Estado do Rio de Janeiro, mais especificamente para a então Diocese de Petrópolis (cuja sede administrativa ficava na região serrana e que, na época, abrangia a cidade de Niterói e o Norte Fluminense).


Ele iniciou seu ministério na histórica igreja de São Francisco Xavier, ao lado do então vigário e seu grande amigo Monsenhor Agostinho Benassi, que foi mais tarde, com a restauração da sede em 1908, bispo de Niterói.


Em 1907, ele foi nomeado Coadjutor da freguesia de São Pedro de Alcântara, Paróquia de Petrópolis, quando era vigário o Monsenhor Theodoro Rocha.


Sua primeira grande missão de destaque ocorreu em dezembro de 1912, quando o bispo diocesano elevou a antiga capela operária da Companhia Petropolitana de Tecidos ao status de paróquia. O Padre Achilles de Mello foi oficialmente nomeado o primeiro vigário encomendado da recém-criada Paróquia de Sant'Ana e São Joaquim, em Cascatinha, distrito de Petrópolis. Há registro de sua participação, em dezembro de 1913, na banca examinadora do colégio Sant’Anna, mantida pelas Irmãs do Amparo.


Embora tenha permanecido um tempo curto na função, fundou o jornal “O Círculo”,[iii] organizou a estrutura administrativa inicial da paróquia e cativou profundamente os operários católicos e imigrantes italianos da região. Décadas mais tarde, em sua homenagem, o pátio e a rua da matriz foram batizados como Praça Monsenhor Achiles Melo.


Sua transferência para o próspero município de Campos dos Goytacazes, para assumir como vigário da prestigiada Igreja Matriz do Santíssimo Salvador (atual Catedral Basílica), consolidou-se entre 1914 e 1915 — inclusive, notas do jornal Correio da Noite de 5 de março de 1914 já registravam a visita de seus pais ao sacerdote naquela cidade.


Sua gestão foi caracterizada pelo fortalecimento do laicato católico. Em Campos, ele reestruturou associações e impulsionou movimentos devocionais fortes entre os paroquianos locais. Fundou também o Centro Católico de Campos.


Ele foi o fundador e primeiro diretor espiritual da Pia União das Filhas de Maria da Catedral, uma associação religiosa de jovens mulheres dedicadas à caridade, espiritualidade Mariana e instrução catequética na sociedade campista.


Em 1915, sob sua direção, veio à luz o hebdomadário O PAROCHIAL, órgão da Federação das Associações Católicas daquela cidade, anunciando o seu programa: “Não é um jornal de partido, nem uma folha de combate; é antes um órgão de propaganda para a todos fazer chegar as verdades da nossa religião, procurando assim ganhar almas para o céu, o que há de ser a preocupação de todo o bom católico.”[iv]


Em 1917, essa mesma Federação, congregando trinta e três Associações, publicou, no jornal A União (15 de novembro de 1917), uma manifestação dirigida a Nilo Peçanha, de “solidariedade e entusiástico aplauso pela atitude patriótica assumida pelo Governo Federal declarando guerra à Alemanha”. Assinaram a nota o Padre Achilles Mello, Diretor; Theóphilo Gouveia, Presidente e Agostinho Villela, Secretário.


Registre-se que, na ocasião, o Presidente da República era o Sr. Wenceslau Brás, estando Nilo Peçanha à frente do Ministério das Relações Exteriores.


Alguns meses antes, o padre Achilles já tinha dado provas da sua dedicação à causa da Defesa Nacional, no momento em que o Brasil ainda assumia uma postura de neutralidade diante do conflito deflagrado na Europa, chamado à época de “A Grande Guerra” e, depois, conhecido como “Primeira Guerra Mundial”.


No Jornal Pequeno, que se publicava no Recife, temos uma reprodução do jornal Gazeta do Povo, da cidade de Campos dos Goytacazes, exibindo um fato interessante.


Um dos redatores do jornal visitava a Escola Paroquial, justamente fundada pelo Padre Achilles e que funcionava numa das dependências da Igreja se São Salvador, quando notou sobre um dos móveis uma carabina modelo Mauzer, própria para instrução militar.


Surpreso por encontrar em uma escola primária, dirigida por um sacerdote, um instrumento de guerra, o jornalista inquiriu o reverendo, que já esboçava um ligeiro sorrido. Respondeu o padre:


“Criando esta escola para ministrar à infância desta terra instrução primária e os preceitos da santa religião católica, eu não completaria a minha missão como padre e como brasileiro se descurasse um momento da educação cívica e militar dessa juventude que será o alicerce da Pátria amanhã.


Assim, estou militarizando os alunos da Escola Paroquial, certo de que cumpro um sagrado dever, fazendo com que essa mocidade, com a educação cívica indispensável a todos nós brasileiros, esteja apta para a defesa da integridade da nossa querida Pátria.


O nosso batalhão escolar saíra, em breve, desfraldando aos ventos a bandeira nacional, que é como sabe a bandeira da República!


O clero brasileiro é muitas vezes mal julgado na parte referente ao seu sentimento de patriotismo. Entretanto, os nossos serviços, nos momentos mais tormentosos para a Pátria, estão em letras de ouro nas páginas gloriosas do nosso passado.


Felizmente, já se pode considerar triunfante, no Brasil republicano intelectual, a ideia da volta do clero às fileiras das classes armadas, defensoras da nossa soberania, tal qual no antigo regime.


E isso já uma conquista de heroísmo do padre católico nas diversas linhas de combate das nações que se digladiam na culta Europa.


Sinto-me bem todas as vezes que se oferece ocasião de tornar público que o clero brasileiro, consciente dos seus deveres, jamais se esquece de Deus e da Pátria.”


Monsenhor Achilles de Mello é lembrado na história religiosa fluminense como um padre construtor de comunidades: acolheu e estruturou o catolicismo operário em Petrópolis; dinamizou os movimentos de leigos e pastorais no Norte Fluminense.


Deixou seu nome gravado na geografia urbana e na memória afetiva das cidades onde serviu. (fonte: Prefeitura de Campos)


 

UM GRAVE PERCALÇO


O Pe. Achilles Mello. Foto: revista A POLÍTICA-RJ, em 24.05.1918. Tratada por IA.


E foi justamente em Campos que ele enfrentou, talvez, a maior dificuldade de sua vida: foi alvo de grave acusação de assédio sexual, afinal nunca provado.


Em algum dia do mês de março de 1918, um estafeta dos Correios chamado Lino Ribeiro da Silva propalou pela cidade que, ao entrar inesperadamente um dos compartimentos reservados da igreja para entregar uma correspondência, ali encontrou, na companhia do padre Achilles, uma senhorita, filha de uma família muito conceituada na cidade.


Verdadeira ou falsa, a notícia, que corria como rastilho de pólvora, dividiu a cidade: uma parte refutava a palavra do carteiro, taxando-a de boato, intriga e calúnia; a outra parte acreditava no denunciante.


Na imprensa, concorrendo com as notícias sobre a Guerra, digladiavam-se os periódicos: de um lado, a Folha do Comércio, dirigida por Adolpho Gredilha, defendia o Padre; do outro, os jornais O Rio de Janeiro e A Notícia, este último dirigido por César Tinoco, o acusavam.


Nas ruas de Campos, eram frequentes os comícios e as manifestações pró e contra o religioso, a ponto de envolver a Polícia, o Prefeito e a Associação Comercial. Notícias da época, como as do Rio-Jornal (17 de maio de 1918), davam conta até da morte do operário Pedro Roque, baleado por um soldado conhecido como 'Bacurau', que também acabou morto. A situação ficou insustentável, e o Padre Achilles foi obrigado a deixar a cidade.


Embarcando na estação do Saco, o Padre Achilles foi para Niterói, acompanhado por sua mãe. Desembarcando na estação do Maruí, o sacerdote dirigiu-se à casa de um parente materno, o Dr. Josephino Felício dos Santos, na rua Paulo Alves, nº 60, no bairro de São Domingos (atualmente bairro do Ingá). Ali ele falou ao jornal Gazeta de Notícias:


“Há quase quatro anos fui para Campos, servir como vigário na matriz de São Salvador.


Desde que ali cheguei tenho trabalhado para o engrandecimento da religião católica, o que tenho conseguido, tanto assim que a matriz de que sou vigário é frequentada pelas famílias mais distintas da sociedade campista.


Sempre gozei de bom conceito na cidade de Campos, mas há cerca de quatro meses venho sendo vítima de uma campanha de difamação, movida por indivíduos que se tornaram meus desafetos.


Requeri ao delegado daquela cidade a abertura de um inquérito para apurar certa acusação infame em que um desclassificado envolveu meu nome e esse inquérito levou mais de três meses para ser encerrado.


Depois dessa longa demora, chegou o delegado à conclusão de que contra mim nada havia.


Pelos últimos fatos ocorridos em Campos, contra mim, culpo como principal responsável César Tinoco, Intendente Municipal.


Posso asseverar que estavam lá arrefecidos os ânimos contra mim, mas o assassínio de um cavalheiro por um soldado da polícia, no domingo último, pôs novamente em agitação os populares. De fato, se aproveitaram meus inimigos para tirar partido contra mim, insuflando o ódio do populacho.


Assim, na quarta-feira última, estava eu na matriz quando ali apareceu um grupo de indivíduos que, sem respeitar sequer as senhoras que ali se encontravam reunidas, em meio dos maiores insultos, exigiram que eu assinasse um documento, comprometendo-me a sair de Campos dentro de oito dias. Seriam 10 horas da manhã.


Esse grupo, aos gritos de “mata”, “mata”, invadiu o templo, travando conflito com os populares que ali estavam de guarda e que, atacados, não puderam evitar o atentado.


Assinei o documento exigido, para não ser vítima da fúria dos meus rancorosos inimigos. O grupo retirou-se e, cerca das 2 horas da tarde, o templo foi novamente invadido, mas desta vez por mais de 100 homens.

Tentei falar a esses homens para ver se conseguia abrandar a sua fúria, mas isso me foi impossível. Alguns mais ousados de mim se aproximaram e, agarrando-me, levaram-me aos trancos no meio de um berreiro de ensurdecer.


Os disparos de revólver que tiveram início dentro da matriz, aumentaram na praça pública.


Tratei de me defender, primeiramente com a força física e depois fazendo uso do meu revólver. Estaria a esta hora talvez morto, se um grupo de amigos dedicados, em número superior a 50, não viesse em meu socorro, alguns dos quais ficaram feridos pela turba.


No meio de toda aquela agitação, defendendo-me da melhor maneira, fui até a Santa Casa e ao subir os degraus daquele estabelecimento, ainda fui alvejado por três tiros de revólver, não sendo, porém, atingido por nenhum dos projéteis, um dos quais foi ferir um dos empregados da Santa Casa.


À noite, abandonei a Santa Casa, acompanhado de minha progenitora, tomando um trem especial que me transportou para esta cidade. Daquele pio estabelecimento até a estação, fui acompanhado por vários amigos e garantido por alguns rapazes do Tiro 29”.


Com efeito, na transcrição de parte do inquérito policial conduzido pelo suplente de delegado Gastão de Castro Pache Faria, divulgada no jornal O Fluminense, edição de 6 de agosto de 1918, tem-se que:


“Pela leitura do mesmo, forçoso é confessar que no dia seis (6) de janeiro do corrente ano, ‘entre duas e duas e meia da tarde1 (conforme auto de perguntas), não podia o sr. Lino Ribeiro da Silva ter encontrado o padre na Matriz São Salvador, a quem entregou uma carta expressa, recebendo das mãos do mesmo o respectivo recibo; depois de o ter assinado sobre uma escrivaninha ‘que havia em cima de uma cômoda’, quando neste mesmo dia tomara o suplicante (o padre) parte de uma festa religiosa que se realizava no lugar denominado Campo Limpo.”


Ressalta ainda o delegado que a participação do padre na tal festa fora divulgada no jornal Gazeta do Povo para concluir que Lino Ribeiro praticou crime de difamação, “em vista das provas contidas nestes autos”.


O Pe. Achilles Mello e seus pais. Foto: O Malho, 1918. Foto tratada por Vívia Amorim.


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Logo após deixar a Catedral de Campos, a Diocese o transferiu para o município de Paraíba do Sul, no interior do Rio de Janeiro, para onde foi designado pelas autoridades diocesanas competentes.


Foi nessa região que, devido ao seu excelente trânsito institucional, capacidade de oratória e competência na gestão das paróquias por onde passou, o Padre Achilles recebeu da Santa Sé o título honorífico de Monsenhor[v]. Nessa condição, ele passou a exercer funções mais voltadas à articulação do clero fluminense e suporte aos bispos regionais.


Lá, ele manteve o mesmo perfil dinâmico de organizador de massas: reestruturou igrejas, liderou as Ligas Católicas locais e promoveu grandes romarias de fiéis que chamavam a atenção do clero estadual. Também presidiu a Associação do Tiro de Guerra 266, ocasião em que enviou telegrama ao Presidente do Estado do Rio de Janeiro – Feliciano Sodré - comunicando a aprovação de uma “moção de solidariedade e respeito à autoridade constituída”, em face dos acontecimentos da Revolta Paulista de 1924, durante o Governo Arthur Bernardes.


Cartão de visitas do Mons. Achilles Mello. Antiquário Sagrados Tesouros.


Já na década de 1930, ostentando o título de Monsenhor e muito conhecido no meio católico fluminense, ele transferiu-se em definitivo para a cidade do Rio de Janeiro (que na época era o Distrito Federal), integrando o clero da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.


Inicialmente, em 15 de março 1931, assumiu como vigário da Paróquia Nossa Senhora da Ajuda, na Ilha do Governador-RJ, substituindo o Monsenhor Cícero.[vi]


Pouco tempo depois, em 27 de agosto de 1933, assumiu o cargo de vigário da importante e populosa Paróquia de São Luís Gonzaga, localizada no tradicional bairro de Madureira, na Zona Norte do Rio.[vii]


A sua chegada foi triunfal. Cerca de duas mil pessoas o aguardavam no Ginásio Arte e Instrução e o aplaudiam entusiasticamente, bem como na Matriz e na praça fronteira, inteiramente lotadas.


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Foi justamente durante seu período residindo e pastoreando em Madureira que o Monsenhor Achilles se aproximou da cúpula da Ação Integralista Brasileira (AIB).


Àquela época, o movimento integralista contava com muitos adeptos e simpatizantes, inclusive no seio da Igreja Católica. No caso do vigário de Madureira, chegou a haver contato direto com o “Chefe Nacional” Plínio Salgado, conforme nota n’A Ofensiva, órgão oficial da AIB, de 24 de fevereiro de 1937, marcando audiência para a sexta-feira seguinte (26).


É que o lema “Deus, Pátria e Família”, peça fundamental do manifesto dos integralistas, gerou uma imediata identificação com as bases católicas, de franca formação conservadora. Postos na ilegalidade por meio do Decreto-Lei nº 37, de 2 de dezembro de 1937, os integralistas radicalizaram, promovendo, em 11 de maio de 1938, o chamado 'Levante Integralista', com a invasão ao Palácio Guanabara, residência oficial do Presidente da República, resultando em mortes de lado a lado e pondo em risco a vida de Vargas e de sua filha Alzira.


Em resposta, a polícia política realizou, já no dia seguinte, uma varredura minuciosa na Capital e nos estados, resultando no encarceramento de cerca de 1.500 integralistas (incluindo civis, militares e clérigos). Só no bairro de Madureira “foram detidas 18 pessoas suspeitas de pertencerem à AIB: Armando Cruz; Jayme Peregrino Noronha; Octávio Pinto Mello, negociante; João Mattos, sacristão da igreja de São Luiz Gonzaga, em Madureira; e Monsenhor Achilles Mello, além de vários operários”. (O Jornal, RJ, 13 de maio de 1938)


Interrogado na Delegacia Especial, e segundo a versão de um único periódico da época, o Monsenhor Achilles Mello teria negado qualquer ligação com o movimento, admitindo que o sacristão, João da Costa Mattos, seria, de fato, um militante ativo no núcleo da AIB em Madureira.


É possível que o religioso tivesse apenas uma identificação ideológica e uma relação estritamente institucional e que, eximindo-se de culpa, buscasse preservar a sua Instituição.

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Rapidamente liberado, o vigário de Madureira retomou suas atividades paroquiais e, ao que tudo indica, o sacristão seguiu o mesmo caminho. Apenas quatro meses após o episódio, em 6 de setembro de 1938, o Diário Carioca noticiava que o Monsenhor e João Mattos integravam uma comissão recebida na sede do Governo Federal para formalizar um convite ao Presidente da República:


“Esteve no Palácio do Catete uma comissão composta dos srs. monsenhor Achilles de Mello, João da Costa Mattos, Américo Washington Favilla Nunes e Otto Caldas, que, em nome da população de Madureira, foi convidar o presidente da República para assistir à trasladação dos restos mortais do padre Carlos Manso [...], do cemitério São Francisco Xavier para a igreja matriz daquela localidade, cuja população o idolatrava...”


Nos anos que se seguiram, houve um processo de aproximação com o regime de Vargas, até porque não interessava ao Governo se indispor com a Igreja. Prova disso é que, no dia 11 de maio de 1942, o Monsenhor Achilles Mello celebrou, ao lado do Cônego Olympio de Mello, uma missa na Igreja da Candelária em memória das vítimas do levante integralista de 1938. A solenidade, que homenageou os fuzileiros navais caídos no ataque ao Palácio do Catete, foi viabilizada por uma comissão organizada por Silvestre Péricles de Goes Monteiro,[viii] então presidente do Conselho Nacional do Trabalho.


Madureira-RJ, 02.09.1939. Reunião de lançamento da pedra fundamental da nova matriz. Foto O malho_Ano XXXVIII-Nº 327-07.09.1939. O Mons. Achilles Mello entre os Srs. Antônio pereira, Francisco Rodrigues de Oliveira, João da Costa Mattos e o jornalista Mário do Amaral..


Vítima de angina pectoris, o Monsenhor Achilles Mello faleceu no Rio de Janeiro em 12 de novembro de 1946, período em que atuava como capelão da Igreja da Candelária e do Corpo de Bombeiros, sendo sepultado no Cemitério de São João Batista. Era também professor no Colégio São Marcelo, instituição dirigida por sua irmã, Madre Maria Benigna do Divino Coração (Maria Angélica Achilles Mello).


O perfil e a trajetória do religioso foram sintetizados pelo periódico católico A Cruz, em 17 de novembro de 1946:


“O que caracterizou a vida e a personalidade do monsenhor Achilles, além de uma nítida vocação sacerdotal e zelo das almas, foi um extraordinário e comovente espírito de caridade. Fez o bem o quanto pôde e a tantos quantos se lhe atravessaram no caminho. Criou e educou na vida dezenas de desvalidos, que tudo lhe devem. Onde houvesse uma alma aflita, um necessitado, uma família em dificuldade, lá estava Monsenhor Achilles, o servo de Deus e o homem do próximo a consolar, a valer e a beneficiar.”


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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Padre Manuel Ribeiro Vieira, que assumira como vigário de Penedo em 24 de maio de 1904, nomeado por Dom Antônio Manuel de Castilho Brandão.

[ii] Silvino Othon de Almeida (Pão de Açúcar, 20/11/1876 – Rio de Janeiro, 26/08/1946), filho de Cincinato de Almeida Souza e Clara Bela de Faria (cunhado do Pe. Achilles, posto que casado com sua irmã Josephina).

[iii] Fonte: Almanaque d’O Malho, 1915.

[iv] A União, Rio de Janeiro-RJ, 11 de abril de 1915.

[v] Essa dignidade eclesiástica é concedida diretamente pelo Papa a sacerdotes que prestam serviços de relevância notável para a Igreja local.

[vi] A Cruz, Rio de Janeiro, 8 de março de 1931 e Diário da Noite – RJ, 14 de março de 1931.

[vii] A Batalha, RJ. 27 de agosto de 1933.

[viii] Gazeta de Notícias, RJ. 12 de maio de 1942.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia