sexta-feira, maio 15

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“BRÁULIO CAVALCANTE” – O AVIÃO

 

Por Etevaldo Amorim


Avião semelhante ao "Bráulio Cavalcante". Foto ilustração - Fonte: portal História de Alagoas.


Ao entrar para a História, o nosso conterrâneo Bráulio Cavalcante foi merecedor de diversas homenagens: nome de avenida e de escola em sua terra, nome de rua em Palmeira dos Índios e no Recife, nome de praça em Maceió, bustos em praça pública em Pão de Açúcar e na capital do Estado. Mas, em meio a essas merecidas honrarias, há uma que o eleva, literalmente, aos céus: o batismo de um avião com seu nome.


Isso aconteceu em 24 de julho de 1947, no Calabouço[i], Rio de Janeiro, quando foram batizados seis novos aparelhos de treinamento, no âmbito da Campanha Nacional de Aviação, sob o lema “Deem asas ao Brasil”.[ii] Estavam presentes o tenente coronel Armando de Menezes, chefe do Gabinete do Estado Maior da Aeronáutica, e o major aviador Ruthênio Carneiro da Cunha, também do Estado Maior da Aeronáutica. Presidiu a solenidade o senador Salgado Filho.


O avião, modelo Neiva P-56 C, conhecido como "Paulistinha", que seria destinado ao Aeroclube de Alagoas, foi paraninfado pelo Brigadeiro Ajalmar Mascarenhas[iii], um alagoano de Anadia, que conheceu Bráulio e a sua luta.


Antes de derramar champagne sobre a hélice do avião, ele pronunciou o seguinte discurso:


“Este avião, que a Campanha Nacional de Aviação destinou ao aeroclube de Alagoas, se ilustra com o nome do ardoroso tribuno, do jornalista de escol, do maior poeta alagoano, que se chamou Bráulio Cavalcante.


Bráulio Cavalcante, filho de José Venustiniano Cavalcante, nasceu na cidade de Pão de Açúcar a 14 de março de 1887.


Desde criança – dizem-nos seus biógrafos – revelava ‘grande lucidez de espírito, privilegiada inteligência, servido ainda por uma excepcional faculdade de assimilação que muito contribuiu para a aquisição do vasto tesouro de cultura que, num espaço de tempo limitado, conseguiu acumular.


Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade do Recife, onde se diplomou a 11 de dezembro de 1911, Bráulio hipotecou sua pena e sua palavra à causa da liberdade e da justiça, na imprensa e na tribuna de sua terra, em dias de intensa agitação política.


Seu verbo inflamado, a vastidão de sua cultura e a impenitência de seu idealismo arrastavam multidões a ouvi-lo cantar:


‘Alagoas, terra verde, feliz aberta em flores, cheia

Dos lagos de alumínio e verdes coqueirais!

Terra onde o São Francisco majestoso ondeia

E a Paulo Afonso atroa mil fanfarras reais!’


A 10 de março de 1912, justo três meses depois de sua formatura, e quando ia em meio uma campanha de libertação de brancos, Bráulio, no pedestal da estátua de Floriano, batalha desigual com o espírito da intolerância, invocando a Constituição Federal na defesa de seu direito de manifestação de pensamento em praça pública.


Eram suas armas a palavra fluente, a lógica da razão, a confiança no simples, o estoicismo do moço e... as garantias constitucionais.


Não havia Bráulio vivido bastante para perceber que o preço da liberdade seria o holocausto da sua própria vida.


Bráulio tombou à sombra da estátua do Marechal de Ferro, ao cair de uma tarde que seria igualmente o cair da tarde de uma tirania.


As forças da reação apagavam aquela vida que, aos 25 anos, se fazia a bandeira de um povo oprimido; e as forças da reação se extinguiram com o sacrifício daquele bravo.


E desde então Bráulio começou a viver, no coração de seu povo, a vida dos imortais.


Os “lagos de alumínio” cantam seus versos; os “verdes coqueirais” sussurram seus poemas.


Trinta e cinco anos depois, este pequeno avião se enobrece com o nome e o espírito do poeta mártir; suas asas irão encher os céus de minha terra da harmonia de seus versos; e irão também lembrar aos moços de hoje que esse moço morreu por um ideal de liberdade.


Pilotos do “Bráulio Cavalcante”, sede dignos de Bráulio como ele o foi de sua querida Alagoas!”


 

O brigadeiro Ajalmar Mascarenhas quando discursava ao lado do Sen. Salgado Filho. Foto: O Jornal.

Em seu discurso, nessa mesma cerimônia, Assis Chateaubriand, jornalista e dono do maior império das comunicações do país, ele próprio um dos grandes incentivadores da Campanha, assim se referiu à homenagem a Bráulio:


“Um major-brigadeiro, soldado da ordem, paraninfando um poeta dos coqueirais da Pajuçara em Alagoas e um rebelado lutador contra as oligarquias do Nordeste.”[iv]


Bráulio Cavalcante, o homenageado.


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O brigadeiro Ajalmar Mascarenhas é irmão de “Linda Mascarenhas” (Laurinda Vieira Mascarenhas) a famosa “Dama do Teatro Alagoano”. Aliás, o DIA DO TEATRO ALAGOANO é comemorado no dia 14 de maio, em alusão ao nascimento dela.


A data foi instituída oficialmente pela Lei Estadual nº 6.243, de 2 de julho de 2001, cujo Projeto teve a autoria do deputado estadual pão-de-açucarense Antônio Carlos Lima Rezende (Cacalo), atendendo a sugestão da ATA – Associação Teatral das Alagoas, por intermédio do ator Ronaldo de Andrade.

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Antigo campo de pouso situado no local onde hoje se encontra o Aeroporto Santos Dumont.

[ii] O Jornal, RJ, 29 de julho de 1947.

[iii] Ajalmar Vieira Mascarenhas.  (Anadia - AL 13/08/1897- Rio de Janeiro 18/10/1964). Militar. Filho de Manoel Cesário Mascarenhas e Lourença Vieira Mascarenhas. Estudou no Colégio Diocesano e no Liceu Alagoano. Em 1914, juntamente com Romeu de Avelar, José Portugal Ramalho, José Guedes Quintela e Amarílio dos Santos, lançou a revista Frou-Frou. Nesse período, usava o pseudônimo de Berilo Prates. Ainda em 1914, participou da criação do jornal Diário do Norte.Sentou praça em agosto de 1915, ingressando na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro. Cursou a Escola de Aviação Militar, ainda no Rio de Janeiro, integrando, no ano seguinte, a primeira turma de observadores aéreos. Ocupou diversos cargos durante sua vida militar, tais como: comandante da Escola de Aviação Militar; comandante da então IV Zona Aérea, sediada em Porto Alegre, e Chefe da Diretoria de Pessoal da Aeronáutica. Integra, em dezembro do mesmo ano, a comitiva do ministro da Aeronáutica, em visita ao front italiano, durante a Segunda Guerra Mundial. Comanda a II ZA, com sede em Recife; membro do Estado-Maior Geral, órgão precursor do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), na condição de subchefe da Aeronáutica, tendo sido, um mês depois, promovido a major-brigadeiro-do-ar. Em 1955, presidiu, na condição de chefe da delegação brasileira, a Comissão Militar Mista Brasil-Estados Unidos. Foi nomeado adido aeronáutico à embaixada brasileira em Washington. Promovido a tenente-brigadeiro em dezembro do ano seguinte, voltou a chefiar o EMAER entre julho de 1962 e dezembro do mesmo ano. Ainda em dezembro de 1962, recebeu a patente de marechal-do-ar. Membro da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG). Sócio do IHGAL. Fonte: ABC DAS ALAGOAS.

[iv] O Jornal, RJ, 15 de agosto de 1947.

sábado, maio 9

TOCAIA – UM CONTO DE BRÁULIO CAVALCANTE

 

Bráulio Cavalcante


Dentro da noite, naquela segunda-feira aziaga, pela vereda sombria, marginada de frondosas baraúnas, de umbuzeiros sinistros que lembravam fantasmas, soturno vinha o desgraçado vaqueiro, vezes pensando na carestia dos gêneros na feira da Vila, sonhando outras vezes com o grande roçado, que o sol de outubro estivera a comburir flamando. E, no silêncio daquela mesma noite, uma sombra diabólica, tendo uma grande faca nua na mão, dentro da caatinga, esperava de tocaia o vaqueiro. E o vaqueiro vinha.


Resplandecia-lhe na alma a pureza dos martírios obscuros, que à vida inteira vão, sem um dia de festa, sem um consolo único, a não ser o trabalho.


Era um caboclo de seus trinta e tantos anos, o olhar afogueado pelos sóis de verão, a pele enegrecida pela canícula das pachorrentas estiagens.


Nascera em Amargosa, um lugarejo misérrimo que ficava muito longe. Viera de lá quando 77 surgira tirano, com aquele sol implacável, impiedoso, devastando, flagelando campos e cidades...


Ah 77, a grande seca! ...


Numa véspera de São João, quase morrera o desgraçado de uma explosão de sal de Bertholet e súlfur. Fora suficiente a pressão de uma pedra sobre a matéria para que esta se inflamasse, com um pavoroso estampido, atirando para os ares o infeliz, que veio arrebentar na queda a tíbia direita, deslocando a clavícula, deslocando falanginhas e falangetas.  


Surdo e cego, gemia o desventurado, se amparando ao ombro do velho Manoel Jerônymo, que acudira ao ruido pavoroso, sinistro.


Mas escapara desta vez...


Entretanto, havia naquela segunda-feira aziaga, quando voltava do trabalho honrado, em busca da esposa e dos filhos, encontrar numa tocaia do caminho o braço traiçoeiro, covarde...


Em 1888, viajava pelo norte do Estado, acompanhando um protetor que nada lhe podia dar, exceto a rigidez inquebrantável dos martírios do trabalho honesto, a pureza dos bons princípios e os parcos rendimentos de uma fazenda de vacas.


Não fora uma vida sem aventuras. Fora uma vida de lágrimas, de desespero, de sangue. Diziam que assassinara, em caminho da Viçosa, um vaqueiro.


Anoitecera em uma espessa mata; perdera-se, não sabia como dela sair. Zumbia entristecedoramente nos labirintos sombrios dos parênquimas, dos caules, ou dos troncos, a orquestra isócrona dos homópteros; e, repentinamente, o frio torturante da noite hibernal começara a arrepiar inclemente as carnes. Vezes parecia cachoar, batendo na mata com uma impertinência aborrida, a chuva de inverno. Calavam-se os homópteros... Quando cessava, a chuva era terrível, e desolador aquele dédalo!


Dormia pelos barrancos negros da terra, pelas ribanceiras dos riachos, ganhando anfractuosidades, o fantasma sombrio da Solidão.


Dentro da mata, seria impossível apreciar uma estrela que estivesse no céu. E o viajante como que se asfixiava, sentindo n’alma um terror incrível. Montado numa égua passeira, podia furar o mundo, em outras circunstâncias, porém ali parecia que o próprio animal não tinha mais coragem para dar um passo. Então maior receio feria o viajante.


Sonhava que de dentro da mata vinha os olhos de fogo, aquele horroroso Pedro Botelho, o rei dos infernos...


Despertava-lhe na psiquê o tumultuar sombrio dos prejuízos hereditários, o medo do sobrenatural... E se lembrava de uma história horrenda que a Rita do Antônio Joaquim lhe contara, história de arrepiar cabelos...


Não receava onças, que lá como que não havia onças! Não receava homens, porque destes nunca fugira em ocasiões de perigo... Porém, de coisas outras tinha medo...


Parecia-lhe que aquele engano, aquela transição desconhecida na má viagem, era uma cilada que os demônios lhe estavam armando. Desorientado, suava gelo. A égua ferida pelo chicote, crivada pela espora, escorregava, perdia-se dédalo da mata a dentro.


E as coisas passadas, os dias de Amargosa, únicos dias quase felizes de sua vida, quando menino ele era, vezes despontavam-lhe no cérebro como fossem um relampado de março numa caverna sombria.


Súbito, no meio da vereda surge-lhe um vulto, agarrando a rédea do animal, escarrando ao peito do cavaleiro uma grande pistola que lhe pareceu pedra de fogo. Porém, o viajante desviou o braço do ladrão, e com a pistola que também trazia, disparou-lhe um balaço rápido, certeiro, terrível. Então rugiu como o latido estranho de uma fera, quebradas a dentro, o eco pavoroso, medonho, do tiro. Subindo pelas galhadas dos itapicurus, turibulava o aroma enjoado de súlfur e nitro combustos.


E a vítima rouquejava lugubremente, estortegava horrendamente, no meio da mata, no coração negro da noite. O viajante, numa disparada febril, desaparecia assombrado em cima da besta assombrada, fugia sem saber para onde no intrincado da mata, se afundando na treva...


E, alguns dias depois, batia à porta de casa, chamava pela esposa... Era quando estava abrolhando uma esplendorosa alvorada.


- Isabel!   Isabel!!


E a mulher foi recebe-lo, assustando-se perante aquela feição cheia de pavores, de remorsos... E ele contou o acontecimento à esposa, confusamente, nervosamente... Estava ainda mais queimado pelo sol, ainda mais roto, mais pobre, mais desgraçado.


Porém, escapara desta vez ainda. Não escaparia, entanto, naquela segunda-feira aziaga, quando dentro da noite, soturno vinha pela vereda sombria, marginada de baraúnas frondosas, de umbuzeiros que lembravam fantasmas...


Numa volta do triste caminho aquela visão diabólica, o Manoel Ângelo, o bandido, o assassino, o degenerado, vibrou-lhe traiçoeiramente uma facada que o fez tombar quase morto...


Tomara, na Vila, o infeliz vaqueiro um pouco de aguardente... O Avelino lhe retrucara na taverna do Fortunato:


- Caboclo, não bebas mais! Olha, tu vais sozinho de noite para o Mundo-Novo... O ditado diz “quem tem inimigo não dorme”...


- Avelino, poderás me encontrar morto, porém, não desfeitado.


E com aquele entusiasmo de sertanejo honesto, dizendo adeus, se retirara da taverna. Agora, estava morto, o corpo trespassado de faca, o sangue porejando por mil feridas... 


E a noite, somente a desolada noite, confidenciara das suas derradeiras angústias. ...


***   ***


Hoje, porém, o veredo está interdito pelas galhas que o vento das trovoadas derriba. E o povo rústico abandonou por completo o veredo sinistro, porém, ninguém se encoraja perante os fantasmas que gostam de aparecer junto das cruzes.


- Consequências mesológicas, de hereditariedade, não se vencem de modo tão rápido e o povo é o pobre povo da superstição, do atraso...


À noite, olhando a serra desolada, a casa do infeliz vaqueiro, os currais da fazenda caindo, as cercas arruinadas, a capoeira do roçado rebentando numa fertilidade espantosa...

 

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 

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Conto de Bráulio Cavalcante[i], transcrito do jornal O MONITOR, Penedo-AL, edições de 10 e 17 de maio de 1909 (de propriedade de Moreno Brandão).

 

 



[i] Bráulio Guatimozim Cavalcante. Filho do Capitão José Venustiniano Cavalcante e de D. Maria Olympia. Nasceu em Pão de Açúcar-AL, no dia 14 de março de 1887, na casa nº 23 da rua da Matriz (hoje Avenida Bráulio Cavalcante, nº 209). Faleceu em 10 de março de 1912, na Praça dos Martírios, em Maceió, de um ferimento penetrante na linha axilar posterior direita, no quarto intercostal, recebido quando realizava um comício em prol das candidaturas do Cel. Clodoaldo da Fonseca e do Dr. Fernandes Lima.

domingo, abril 26

FEITO MEMORÁVEL: TIME DE PÃO DE AÇÚCAR VENCE CAMPEÃO ALAGOANO

 

Por Etevaldo Amorim


Formação do IPIRANGA: De pé, a partir da esquerda: Chico Preto, Zé Baixo, Roque, Luiz de Vitória (ou seria Joabe?), Elísio e Albertino. Agachados: ____,____, _____,_____ e Germínio. Foto melhorada por Marcos Braga, a quem agradecemos.


Neste Blog, já tratamos das origens do nosso futebol, com a publicação, em 17 de janeiro de 2010, do artigo “CEM ANOS DE FUTEBOL EM PÃO DE AÇÚCAR", identificando a implantação desse esporte de origem inglesa entre o final de 1909 e início de 1910.


Recentemente, em 19 de junho de 2025, publicamos “ESPORTES COM BOLA EM PÃO DE AÇÚCAR – AS ORIGENS”, em que o futebol se destaca por ser, sem dúvida, o mais popular de todos.


Agora, passeando pelas páginas do jornal Gazeta de Alagoas, encontramos, na edição do dia 11 de julho de 1954, uma preciosa reportagem sobre um jogo realizado em Pão de Açúcar há quase 72 anos.


Aquele 4 de julho de 1954 entraria para a história como o dia em que um time praticamente desconhecido desbancou o Campeão Alagoano de Futebol. Esse time foi o Ipiranga, que representava o Centro Cultural Ipiranga, fundado em 7 de setembro de 1949, sob a presidência do Sr. Eraldo Lacet Cruz.[i]


O Ipiranga vinha de uma estrondosa vitória por 5 x 0 sobre o Grêmio Esportivo Deodorense, da cidade de Marechal Deodoro. Essa agremiação, fundada em 1º de maio de 1948, possuía uma equipe que se destacava no Campeonato do Interior, cuja formação básica era: Né, Antônio Cícero e Agnaldo; Paulo, Cícero e Aquino; Juca, Gersino, Avelino, Zé Ramos e Luiz.[ii]


IPIRANCA x ASA DE ARAPIRACA


Time do ASA campeão alagoano de 1953.


Pois bem, para o dia 4 de julho de 1954 foi marcado um jogo amistoso entre as equipes do Ipiranga e do ASA – Associação Sportiva de Arapiraca. O ASA, fundado em 25 de setembro de 1952, ostentava o título de Campeão Alagoano de Futebol de 1953.


Naquela época, o certame era disputado em dois Grupos: Grupo da Capital e Grupo do Interior. Em melhor de três disputada com o CSE – Centro Social e Esportivo, de Palmeira dos Índios, o ASA foi campeão do Interior. Já o Ferroviário, comandado pelo técnico Madalena, o conhecidíssimo Tenente Madalena (José Ribeiro Madalena), sagrou-se campeão do Grupo da Capital superando o CRB.


O campeão seria conhecido em disputa de “melhor de três”. Entretanto, o Ferroviário se negou a jogar em Arapiraca. Com isso, a Federação Alagoana de Desportos, através do Ato nº 6, de 20 de março de 1954, declarou o ASA campeão alagoano de 1953.


Com a manchete ASA CAMPEÃO, a Gazeta de Alagoas, de 7 de abril de 1954, publicou o Ato da Federação:


“Ilmº Sr. Cronista Desportivo da Gazeta de Alagoas, para vosso conhecimento e devidos fins, transcrevo a seguir o Ato nº 6, da presidência desta Entidade, concebido nos seguintes termos:


‘Ato nº 6. O Presidente da Federação Alagoana de Desportos, usando da atribuição que lhe confere o Estatuto em vigor, e tendo em vista o relatório apresentado pelo Diretor-Geral de Desportos,


RESOLVE proclamar CAMPEÃO ALAGOANO DE FUTEBOL DE 1953, na classe de amadores, a Associação Sportiva de Arapiraca.


Dê-se ciência ao interessado e publique-se.


Federação Alagoana de Desportos, em 20 de março de 1954.


Ass. Major Kleber Rodrigues de Andrade – Vice-Presidente em Exercício.'


‘Valho-me do ensejo para apresentar a V. S meus protestos de consideração e grande estima.

“Unidos Venceremos”!


CLÁUDIO DA ROCHA LIMA, Secretário-Geral.”

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O ASA CHEGA A PÃO DE AÇÚCAR


Às 10 horas da manhã daquele dia, a equipe visitante foi recepcionada pelos dirigentes do Centro Cultural Ipiranga: Eraldo Lacet Cruz[iii], Pedro Netto[iv], Miguel dos Anjos[v], José Duarte Machado[vi], Virgílio Silva Filho[vii] e Odilon Rodrigues dos Mártires[viii].


No Hotel Vitória, onde ocorreu a recepção, a delegação arapiraquense foi saudada pelo acadêmico Carlos dos Anjos Filho[ix], que “expressou a satisfação dos desportistas locais pela honrosa presença, naquela cidade, do campeão alagoano de futebol.” Em seguida, falou o presidente do ASA, Sr. Manoel Brasil Leão da Costa, agradecendo a hospitalidade[x].


Hotel Vitória, local da recepção à delegação do ASA.
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O JOGO


Às 15:40h, calor de rachar, começou o jogo. Coube ao atacante Cecé, do ASA, dar o pontapé inicial. O time arapiraquense tratou logo de impor o seu jogo, "investindo constante e perigosamente à meta guarnecida por Roque, considerado um dos melhores goleiros do Estado" - diz a reportagem.


Mas os jogadores do Ipiranga não se intimidaram com o toque-de-bola do adversário e, aos 7 minutos, num surpreendente e bem arquitetado contra-ataque, o centro-avante Bebé, numa de suas arrancadas características, marcou o primeiro gol da partida. Os torcedores vibraram intensamente com gritos e aplausos.


O time do ASA reagiu imediatamente, passando a jogar com mais cuidado e objetividade. Mas encontrava sempre uma defesa forte e bem postada, destacando-se o zaqueiro-central Chico Preto que, ao lado do Centro-Médio Joab e do Médio-Esquerdo Albertino, formavam uma barreira difícil de ser vencida.

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O ESQUEMA DE JOGO[xi]


Façamos aqui uma breve reflexão. Considerando a nomenclatura das posições citadas, tudo indica que o Ipiranga adotava um sistema de jogo conhecido como WM Diagonal (ou simplesmente “Diagonal”), que era a variação brasileira do tradicional sistema WM (3-2-2-3).


Criado pelo treinador inglês Herbert Chapman, do Arsenal, em meados da década de 1920, o sistema WM substituía o velho "2-3-5", também conhecido por Pirâmide.


Ele foi trazido para o Brasil pelo técnico húngaro Izidor Kürschner (Dori Kürschner) que, em 1937, era treinador do Flamengo, e chegou a aplicar esse sistema no Botafogo pouco tempo depois.


Funcionava com 3 zagueiros (números 2, 3 e 4), dois meias defensivos (5 e 6), dois meias ofensivos (8 e 7) e três atacantes (9, 10, e 11). A essência do novo esquema de Chapman era o recuo do centromédio (número 3), de modo que ele exercesse a função de um zagueiro central. Dessa forma, defesa ficava mais protegida com o estabelecimento de 2 meias defensivos, o que possibilitou uma melhor marcação dos atacantes adversários.


Flávio Costa, que fora seu auxiliar e sucessor no comando do Flamengo, introduziu, por volta de 1941, uma pequena alteração, concebendo o que viria a ser chamado WM Diagonal.


Enquanto o WM original era simétrico e "quadrado", a Diagonal trazia uma assimetria que se adaptava melhor ao talento e ao improviso dos jogadores brasileiros.


Como funcionava esse sistema?


Primeiro, a Queda da Simetria. No WM europeu, os dois médios (volantes) e os dois meias (armadores) formavam um quadrado perfeito no meio de campo. Na Diagonal, esse desenho era inclinado.


Um dos médios (o médio-apoiador) jogava mais avançado, quase como um meia. Um dos meias (o meia-armador) recuava para ajudar na saída de bola. Isso criava uma linha inclinada (diagonal) no meio de campo, facilitando triangulações e troca de passes a curta distância.


A posição de zagueiro-central surgiu da necessidade de recuar um jogador do meio-campo para a defesa a fim de marcar o centroavante adversário. Na Seleção Brasileira na Copa de 1954 (com Zezé Moreira), esse zagueiro-central era o defensor que atuava pelo meio da área. No Ipiranga, essa função cabia ao nosso Chico Preto.


O Centro-médio (ou Médio-centro) era o jogador que atuava à frente da defesa, cabendo-lhe fazer a marcação no setor central e iniciar a transição para o ataque. No sistema Diagonal, um dos médios era mais recuado e defensivo. Aqui estava o Joab (seria o Sr. Joab Carnaúba, pai de João, Rita e Moabe?)


Já o Centroavante era o atacante centralizado, que atuava como ponto mais avançado da equipe, principal responsável por finalizar as jogadas e marcar gols. No ataque do Ipiranga, aí estava Bebé Gaita.


O esquema WM europeu.

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VOLTEMOS AO JOGO


Aos 28 minutos - diz o jornal - o atacante Cecé, "completamente livre e quase à queima-roupa, atirou um formidável petardo no canto esquerdo, que Roque defendeu de munhecaço, salvando um gol certo e fazendo vibrar a torcida com seu feito espetacular."


Finalmente, aos 43 minutos, o ataque do ASA consegue superar a retranca ipiranguense e faz o gol de empate por intermédio de Everaldo.


Voltando as equipes para o segundo tempo, verificou-se uma mudança significativa no panorama da partida. O Ipiranga, que passara quase toda a primeira etapa na defensiva, passou a atacar incessantemente, graças às alterações processadas pelo técnico José Duarte.


Com o incentivo da torcida e exibindo um perfeito entrosamento entre a defesa e o ataque, o Ipiranga agigantou-se dentro de campo, dominando por completo o poderoso adversário que, atordoado pela reviravolta, não conseguia se reencontrar.”


E prossegue o repórter da Gazeta: “Os lances mais sensacionais foram apreciados no segundo tempo, brindando a numerosa assistência que não se cansava de aplaudir as espetaculares jogadas dos cracks, naquele duelo de gigantes. A turma verde e amarela procurava a todo custo desempatar a peleja. Padeiro, Vavá, Germínio e Gaita excursionavam sempre e perigosamente à meta adversária, pondo em polvorosa a defesa do ASA onde, como pontos altos da equipe se destacavam, Graça Leite e Orizon...”


Aliás, Graça Leite havia defendido o Auto Esporte (de Maceió), campeão do 1º Turno do Grupo da Capital, no campeonato de 1953. Orizon, por sua vez, defendera o Ferroviário, campeão da Capital.

 

O DESEMPATE E A VITÓRIA   


Obstinado pela vitória, o Ipiranga persistia no ataque. Assim, com força e determinação, aos 4 minutos do segundo tempo, numa investida bem armada dos seus atacantes, o extrema esquerda Germínio, bem colocado na área, recebendo um passe de Vavá, atira para o gol com força e boa direção. “Ao tentar salvar, o zagueiro Cícero o faz com infelicidade, não podendo impedir que a bola se aninhasse no fundo das redes.” – conclui a reportagem da Gazeta.


Gol do Ipiranga!!!  O time de Pão de Açúcar permaneceu à frente do placar até o final da partida. Ao apito do juiz, a torcida explode em festa e invade o campo para abraçar os bravos jogadores.


Vitória épica! Feito memorável!


E o Blog do Etevaldo, passados esses 72 anos, utilizando-se dos recursos da História, tem o prazer de festejar com os pão-de-açucarenses essa vitória sensacional.

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IPIRANGA X PROPRIÁ


Ainda naquele mês de julho de 1954, no dia 23, domingo, o Ipiranga jogaria contra o Esporte Clube Propriá, empatando por 2 x 2.


Terminou o primeiro tempo com o Ipiranga vencendo por 2 x 0. Mas, no segundo, o Propriá reagiu e, aproveitando-se de algumas substituições infelizes do Ipiranga, bem como da falta de preparo físico de seus jogadores, conseguiu empatar a partida. Registre-se ainda que o juiz deixou de assinalar um fragoroso pênalti em favor do Ipiranga.[xii]

 

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RECONHECIMENTO HISTÓRICO

Os jogadores do Ipiranga figuram, ainda hoje, entre os melhores craques do futebol da nossa terra. Tanto que o jornal O CLARIM, em sua edição de 4 de abril de 1972, pelo seu colunista esportivo José Alves da Silva (Zé Papaió), num trabalho de pesquisa entre os torcedores daquela época, escalou duas seleções pão-de-açucarenses de todos os tempos: a primeira, de 1950 a 1960, tinha a seguinte formação: Roque, Zé Baixo, Chico Preto, Luiz de Vitória, Albertino, Elísio Tri, Geremias, Zé de Ercília, Vavá, Manoel Gustavo[xiii] e Germínio[xiv]. A segunda, situada entre 1961 e 1971, formava assim: João Jorge, Deustete, Irineu, Tempero, Murilo, Guri, Carlos, Romeu, Jair, Bobito e Edilson.


Notem que, sendo essa última “seleção” limitada ao ano de 1971, ainda não considerava Berêu, Fernandinho, Baiaco, Cananô, Motorzinho... e tantos outros craques que se destacaram em sua terra e em outras plagas.


O Sr. Miguel dos Anjos, dirigente do Ipiranga.



Virgílio Silva Filho (Virgilinho), dirigente do Ipiranga.



O Sr. Pedro Teixeira Netto, dirigente do Ipiranga.


O Sr. Eeraldo Lacet Cruz, fundador e primeiro presidente do Centro Cultural Ipiranga.




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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 

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Vavá (Napoleão Brandão de Souza), conhecido por "Vavá de Cosete". 
Bebé Gaita (Adalberto Pedro da Cruz).

Rogamos aos prezados leitores e leitoras que se, porventura, tiverem alguma informação que complemente esta história, utilizem os comentários. 





[i] MENDONÇA, Aldemar de. PÃO DE AÇÚCAR-HISTÓRIA E EFEMÉRIDE. 1974.

[ii] Gazeta de Alagoas, 16 de setembro de 1954.

[iii] Eraldo Lacet Cruz. Natural de Penedo-AL. Coletor Federal e ex-prefeito de Pão de Açúcar. Filho de José Cruz Silva e Othília Lacet de Vasconcelos.

[iv] Pedro Teixeira Netto. Fiscal de Rendas. Filho de Teóphilo Teixeira Cavalcante e Helena Maia. Pai de José Alcir dos Anjos.

[v] Miguel Oliveira dos Anjos. Comerciante. Filho de Antônio Oliveira dos Anjos (conhecido por Vigário) e de dona Maria da Glória dos Anjos. Seus avós paternos eram Agostinho Vieira dos Anjos e Francisca Rosa dos Anjos. E os maternos eram Antônio Ferreira Machado e Ritta Duarte de Albuquerque. Pai do Eng. Antônio Guimarães Neto e Maria da Conceição Guimarães dos Anjos.

[vi][vi] José Duarte Machado, funcionário da Comissão do Vale do São Francisco.

[vii] Virgílio Silva Filho, “Virgilinho”. Filho de Virgílio da Silva e Maria Felicidade Silva. Irmão de “Zé Papaió” (José Alves da Silva) e tio de “Guri” (ex-jogador do Internacional na década de 1970). Faleceu em Palmeira dos Índios em 19 de abril de 2016.

[viii] Odilon Rodrigues dos Mártires. Filho de Tertuliano Serafim dos Mártires e Maria Francisca de Jesus. Irmão do ex-Vereador Gérson Serafim dos Mártires e pai das professoras Marilena e Lucy, e dos conhecidíssimos Romeu, Edson (Dédo) e Edivalda. Faleceu em Pão de Açúcar em 24 de novembro de 2000.

[ix] Carlos dos Anjos Filho. Advogado. Filho de Carlos Serafim dos Anjos e Maria do Carmo Silva.

[x] Manoel Brasil Leão da Costa, coletor federal em Arapiraca. Natural de Óbidos, Estado do Pará, filho de Pacífico Siqueira da Costa e Vitorina Vieira Leão da Costa. Junto ao então prefeito Luiz Pereira Lima, ao Padre Epitácio Rodrigues, Dr. Coaracy da Mata Fonseca, Dr. Nelson Rodrigues, Dr. Claudionor Albuquerque Lima e a Professora Maria de Lourdes Queiroz, fundou o Ginásio Nossa Senhora do Bom Conselho em Arapiraca.

[xi] ESQUEMAS TÁTICOS DO FUTEBOL. Blog HISTÓRIA DO FUTEBOL. Disponível em: <https://historiadofutebol.com/blog/?p=10919>

[xii] Gazeta de Alagoas, 30 de julho de 1954.

[xiii] Manoel Gustavo dos Santos. Filho de José Gustavo dos Santos e Maria da Glória Santos. Irmão de José Gustavo Filho – “Seu Jaú”, funcionário da F-SESP.

[xiv][xiv] Germínio Araújo Costa. Vereador nas Legislaturas 1970/72 – 1973/76 e 1977/82, tendo falecido antes de concluir este último período. Nasceu em Pão de Açúcar em 10 de outubro de 1925 e faleceu em Batalha no dia 21 de abril de 1979. Filho de Luis Paulo Costa e Filomena Emília de Araújo. Casado com dona Sofia Goes Gosta, teve os filhos Reginaldo (Régis, que foi goleiro do C. S. Internacional) e Régia Maria.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia