sábado, 28 de janeiro de 2023

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O LADRÃO

 

Félix Lima Júnior[i]


Creio que foi em meados do ano de 1907 que eu deixei, de uma vez por todas, o seringal “Umary”, de propriedade do Cel. Leite de Carvalho, no qual cortara borracha muito tempo, sendo depois, durante quatro anos, gerente do barracão. Eu estava cansado daquela vida desgraçada, daquele isolamento no meio da floresta densa, úmida, tenebrosa, à margem de um rio cuja fama ruim corria mundo.

Ilustração José Geraldo

Já havia assistido tanta gente morrer de impaludismo, de febres malignas, de malária e de uma outra doença terrível, transmitida pelos mosquitos, doença que ataca a espinha e deforma o indivíduo; já vira tantos seringueiros devorados pelos jacarés, fulminados pela descarga elétrica do poraquê, quando pescavam ou se banhavam no rio, ou desaparecidos na mata, para serem encontrados, dias depois, semidevorados pelas onças ou mortos a frechadas pelos índios que dominava as terras altas do seringal, índios que costumavam devorar as vítimas, enfiando as cabeças num pau para leva-las para as suas malocas, onde dançavam semanas e semanas em torno do sinistro troféu; já remara tanto na semiescuridão da selva tropical, naqueles rios, lagos e igarapés solitários; já vivera sozinho, completamente isolado, numa cabana de paxiúba, no meio da mata, sofrendo o calor infernal dos trópicos, num dia, para tiritar na rede, logo depois, quando a friagem chegava quase que sem aviso, em pleno verão, matando peixes, pássaros e outros animais, além de homens, mulheres e crianças, vítimas de pneumonias violentas, de constipações fortes e gripes dizimadoras; já bebera tanto quinino, para me livrar do impaludismo, a ponto de estar com uma vista quase perdida, além de ter-me fartado de assai e de patuá; já passara dias inteiros pescando surubim, mandaí, pirarucu, ou caçando veados, pacas e antas para melhorar a boia ordinária de farinha de mandioca e jabá assada todos os dias; já andara tanto tempo enfiado num uniforme de brim mescla, e terçado à cintura e rifle a tiracolo, numa monotonia de irritar os nervos de um Buda de pedra, que em um dia de nostalgia, lembrando-me com saudade da família, principalmente de minha mãe e da fazenda onde eu nascera até aquela topada estúpida de ir para o Amazonas – resolvi deixar o emprego e voltar para minha terra.

Sim, esqueci-me de dizer. Eu nasci em Pão de Açúcar, município sertanejo à margem do S. Francisco, nas Alagoas, e para lá é que eu queria voltar. Ia para o Minador, pequena fazenda de gado que eu herdara de meu pai e que fora fundada no ano remoto de 1843, pelo meu bisavô, um português emigrante que deixara sua aldeia, na Beira, e viera para o Brasil tentar fortuna, em 1839, desembarcando no Recife, de um veleiro imundo, sem um níquel, mas com disposição de vencer na vida e que, à custa de economias ferozes, juntara uns cobres.

Deixei o seringal, entreguei o barracão ao meu substituto e um belo dia, em Belém do Pará, na casa aviadora do meu ex-patrão, recebi o meu saldo, cerca de 45 contos, uma pequena fortuna para a época. Visitei a Basílica de Nazaré, onde ouvi missa, pagando assim a promessa que fizera se escapasse com vida daquela aventura terrível a que fora arrastado pela inexperiência, com dois primos, dando ouvidos às histórias fantásticas de enriquecimento rápido no El-Dorado Amazônico e tomei passagem no Prudente de Morais, do Lloyd Brasileiro, para Fortaleza, pois eu resolvera passar 3 ou 4 meses em Guaramiranga[ii], cidade na serra, de clima ameno, próprio para repouso e cura de doentes e depauperados como eu.

Os dois primos que tinham ido comigo é que não tinham tido sorte: um desaparecera no Acre, lá para os confins de Sena Madureira, e nem a sua mala voltara; o outro morrera afogado no Iaco, um dos afluentes do Purus, quando pescava, numa monteia, de madrugada, e seus dois companheiros de barraca ficaram convencidos que a canoa fora alagada e virada pela boiuna, a cobra grande, rainha das águas, pois eles tinham ouvido seu uivo longínquo, no lago próximo, logo que o rapaz saíra do porto. Aquela gente ignorante acreditava, entre outras coisas, na existência da boiuna, da iara, do jurupurí...

Desembarquei em Fortaleza e segui no outro dia para Guaramiranga, recomendado a um negociante de lá, o Sr. José Sotero, que me cedeu uma casa meio isolada, distante três quilômetros da cidade, na qual costumava ele passar o verão. Eu estava cansado, pálido, esgotado, desfigurado mesmo e tinha esperanças de me restabelecer em três ou quatro meses. E logo estivesse restabelecido não hesitaria! Iria embora para o Minador e de lá só pretendia sair para o cemitério de Pão de Açúcar...

Dias depois que eu chegara à serra, notei que a maioria dos habitantes estava convencida de que eu era milionário... Milionário não, multimilionário! Todos eles eram pobres roceiros, vivendo com dificuldade da exploração de pequenas propriedades, lutando com a seca, com o fisco, com os cangaceiros, com o diabo... Uma pessoa que aparecia assim, relativamente bem vestida, com uma boa mala de couro, tendo dinheiro para viver sem trabalhar, devia ser rica... E tendo vindo do Amazonas, seria certamente milionária...

Comecei a ser assediado por pedidos de dinheiro emprestado, por pedidos de auxílio para doenças e enterros, para resolver casos de família; fui padrinho de um casamento e convidado para padrinho de batismo de crianças cujos pais conhecia ligeiramente ou nunca vira... Todos queriam estar relacionados com o Coronel que vinha do El-Dorado onde notas de 200$000 serviam somente para acender charutos e peles de borracha eram lavadas com cerveja e vinhos finos quando o preço da hévea subia a... 20$000 o quilo.  – era o que pensavam eles, pobres diabos ignorantes que viviam quase na miséria e davam ouvidos às histórias fantásticas dos agentes dos donos de seringais que vinham contratá-los para o serviço no extremo norte.

Eu morava sozinho. Uma preta velha – a Generosa, que eu contratara, vinha pela manhã, cuidava da casa, preparava as refeições, lavava a minha roupa e saia para a sua palhoça, distante uns dois quilômetros, mais ou menos, logo que eu acabava de jantar, às sete da noite. Certo dia, tendo ido a Guaramiranga, à casa do Sotero, fazer compras, ele, que se tornara meu amigo, entendeu prevenir-me:

- O senhor deve tomar as suas precauções. Morar sozinho naquele pondo isolado, e além disso com fama de rico...Não é boa coisa. Há muita gente ruim neste mundo. Eu não quero alarmá-lo; estou prevenindo apenas como amigo. Durma com um olho aberto e uma pistola perto da cama.

E quando eu ia montando a cavalo para voltar para casa, depois de tomar uma xícara de café saboroso, daquele café colhido na serra do Baturité, o melhor do Brasil, o meu novo amigo preveniu-me ainda:

- Olho aberto, meu caro Sr!.. Quem previne amigo é!

Saí preocupado. É verdade que já tinha tido as minhas desconfianças. Tanto assim que, mal saía a Generosa, eu trancava as portas e ia ler junto a um candeeiro belga que comprara ao Sotero, conservando ao meu lado, por precaução, a Winchester trazida do Amazonas. Eu não era dos mais medrosos. Já vivera muito tempo num seringal e não corria de caretas facilmente. O primeiro patife, pois, que tentasse destelhar a casa ou arrombar uma porta, levariam uns tiros para perder a vontade de furtar. E, note-se: eu não sou dos piores atiradores...

Conhecia todos os meus vizinhos. Entretanto, redobrei de precauções, comecei a notar os desconhecidos que passavam na estrada e passei a dormir com os ouvidos bem abertos e com a Winchester junto à cama. Precaução e água benta nunca fizeram mal a ninguém...

A casa era de taipa, mas bem construída, cumeeira alta, bem coberta, portas e janelas de pinho de Riga, reforçadas, todas com taramelas fornidas, bem pregadas. Um ladrão podia assaltar a casa, roubar-me, matar-me, mas não o faria com muita facilidade.

Cerca de um mês depois de o Sotero ter-me prevenido eu acordei, certa madrugada, com um pequeno ruído. Levantei-me sem fazer barulho, não risquei fósforo, não acendi o candeeiro e, em pé, junto à cama, fiquei escutando, procurando saber o que era. Parecia um rato grande furando a parede ou o chão para fazer um buraco. Como o barulho continuasse, eu fui, pé ante pé, pelo corredor, em direção à sala de jantar. Era uma noite bonita, de lua quase cheia, e eu verifiquei, espantado, que uma pessoa, do lado de fora da casa, estava calmamente furando a parede de taipa à altura da taramela da porta da sala de jantar. O trabalho era feito com muita cautela. Quando o buraco estivesse pronto, ela meteria o braço, levantaria a taramela, sem barulho, estava assim senhora da casa.

O plano, raciocinei às pressas, fora bem engendrado e quem o organizara, para me roubar, talvez para me matar, devia ser alguém que conhecia o interior da casa. Mas o momento não era para reflexões e hesitações! Eu tinha de agir, e agir com urgência!

Pensei um momento enquanto ouvia o barro caindo no chão à proporção que o buraco aumentava. Dentro de poucos minutos o patife colocaria o braço e abriria a porta. Organizei o meu plano e tratei de executá-lo. Fui à cozinha, de pés descalços, como estava, trouxe um maço de cordas bem fortes, um facão afiado, passei no quarto, trouxe a Winchester, por segurança, e fiquei de pé, junto à parede onde estava sendo aberto o buraco, de maneira que o ladrão não desconfiou de coisa alguma. E quando ele, tendo aberto o buraco, colocou o braço, procurando alcançar a taramela, eu segurei-o pelo pulso, puxei bem, de modo que ele ficasse unido à parede, do lado de fora, sem poder mexer-se. Amarrei o braço com a ponta da corda, bem amarrado, subi numa mesa que havia no meio da sala e prendi a outra ponta da corda numa das linhas da casa. Fiz isso sem o menor barulho, e verificando que estava tudo em ordem, fui dormir. Não tive a curiosidade de saber quem tentara assaltar a casa. Era madrugada alta, cerca de três horas, e dentro em pouco tempo o dia amanheceria. Eu olharia, então, para a cara do gatuno...

Deitei-me e dormi mais do que desejava. Não sei se foi a emoção ou outra coisa qualquer, mas só me levantei às seis horas, dia claro. Enfiei as chinelas, peguei o rifle e corri à sala. O sol já estava de fora e a sala, coberta de telha vã, não estava muito escura. Distinguia-se já alguma coisa. Notei logo que algo de anormal acontecera. Abri a janela às pressas e o que eu vi fez-me ficar arrepiado, com os cabelos em pé. A corda pendia da linha e na ponta balançava-se um pedaço de braço! Por mais incrível que pareça o ladrão, para poder fugir, cortara ou mandara que alguém cortasse o seu próprio braço! E lá estava pendurado aquele pedaço de carne sangrenta, balançando-se na ponta da corda, gotejando sangue; no chão se formara uma poça de sangue negro, coalhado, nojento. Era uma cena capaz de bolir até com quem tivesse nervos de aço. Fiquei nervoso, espantado, com o coração pulsando violentamente.

Antes, porém, que chegasse a Generosa, eu cortei a corda e enterrei o pedaço de braço num barreiro. No fundo do quintal, num buraco bem fundo, para os cachorros não desenterrarem. Cobri a poça de sangue da sala e lavei-a depois. Tapei o buraco da parede com um pouco de barro que preparei e sobre o que ocorreu não falei a pessoa alguma, nem mesmo a Generosa. Queria ver se descobria o ladrão. Visitei depois os moradores próximos, mas nenhum se ausentara ou aparecera com o braço cortado. Conversei com muita gente, indaguei, botei verde para colher maduro, mas nada surgiu. Os dias foram se passando e eu não descobri coisa alguma. Está claro que eu não podia esquecer o que acontecera e muitas noites passei em claro sem descobrir a solução do problema.

No princípio do outro mês eu fui, como de costume, a Guaramiranga, fazer compras na casa do Sotero. Montei a cavalo e apeei-me em frente à casa dele. Entrei e fiquei surpreendido vendo no balcão Dona Lindaura, sua esposa, a quem eu jamais encontrara no estabelecimento comercial do marido. Perguntei pelo dono da casa e ela, toda sem jeito, meio nervosa, respondeu-me:

- Ah, o senhor não soube? Meu marido está no hospital, em Fortaleza.

- No hospital, em Fortaleza? E de que está ele doente? – Indaguei.

E a aflita senhora, mais nervosa ainda, com uma lágrima nos olhos, explicou, enquanto despachava uma matutinha que comprava um vestido de chita azul:

- O Sotero, coitado, não é homem que goste de caçadas. É até muito caseiro. Mas um amigo nosso tanto insistiu com ele, tanto insistiu, que ele foi caçar tatus, há uns quinze dias, de madrugada, lá na serra. Saiu de casa às duas horas. A noite estava muito escura. No meio do caminho, ele tropeçou numa raiz e caiu, fraturando o braço esquerdo, que teve de ser amputado...

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Transcrito na Revista Vida Doméstica, Rio de Janeiro, fevereiro de 1949.

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NOTA.

A indicação de locais e datas, bem com a narrativa em primeira pessoa, sugere que o autor fala de si mesmo, de suas origens, suas andanças e aventuras. Nessa armadilha caiu o cronista J. de Figueiredo Filho[iii] que, em crônica publicada no Diário de Pernambuco, edição de 6 de março de 1955, diz que Lima Junior esteve, de fato, no Amazonas...fala de Guaramiranga...etc.

Essa possibilidade, porém, não existe. Notemos que o fato ocorre em 1907. Félix Lima Junior nasceu em 6 de março de 1901. Teria, portanto, seis anos de idade.

O mais provável é que Lima Júnior esteja falando de alguém da família, talvez um tio, ou do seu avô paterno – MANOEL BEZERRA LIMA.

 

Caro leitor,

Este Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, contém postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso algumas delas seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Félix Lima Junior (Maceió - AL 06/03/1901 – Maceió - AL 10/06/1986), filho de Félix Alves Bezerra Lima e de Francisca Wanderley Lima, e primo de Manoelito Bezerra Lima, o nosso “Nezinho Cego”.

[ii] Guaramiranga, do tupi guará (guará) e miranga ou piranga (vermelho), significando Guará Vermelho, é um município brasileiro localizado na Região Serrana do Estado do Ceará, a 105,5 km da capital, Fortaleza.

[iii] José de Figueiredo Filho.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

PRINCESA FABULOSA

Hormino Lyra[i]

Hormino Lyra


Filha do rei da lua e de uma fada, com seu busto de mulher encantadora e cauda de peixe, governava MÃE-D’ÁGUA todos os rios, todos os mares, por ordem da progenitora, consoante lenda antiga.

No caudaloso São Francisco era o pavor dos canoeiros de antanho. Como as sereias habitantes dos rochedos escarpados entre a Itália e Capri, as quais atraiam os viajantes com a doçura da voz a fim de os conduzir para cima dos escolhos, atraía a princesa fabulosa os canoeiros com a sua cantiga suave a fim de os conduzir para o fundo do rio majestoso.

Quando desaparecia “zingador” bem apessoado, fora MÃE D’ÁGUA que dele se aproximara, pois quem a vê fica logo encantado e cai n’água e se afoga.

João da Mata era o suco dos morenos e muitas paixões causara em todos os arredores de Paulo Afonso. Casara-se por fim com mimosa jovem, filha de um holandês com brasileira.

Findo o ano de noivos, fizera a primeira viagem pra tratar de negócios. Com os olhos lacrimosos, despedira-se da gentil esposa, beijara o primogênito e partira.

Em Piranhas, conseguira passagem na canoa “Bentevi” e embarcara com destino a Penedo, igualmente banhada pelas águas boas do majestoso São Francisco.

Alta noite. O pobre não conciliara ainda o sono na tolda da canoa. Parecia-lhe estar vendo, em idílio infantil, divino, a esposa dormir docemente presa ao filho adorado que ressonava, cingindo-lhe com os bracinhos roliços o pescoço de neve porcelana.

João da Mata levantara-se pé ante pé: fora fumar um cigarro fora da tolda e contemplar a beleza peregrina do luar consolador, mágico, que mergulhara a “Bentevi” em banho galvanizante de prata e transformara o São Francisco em cristal de baccarat.

Com o velame arreado, a canoa descia o rio. À proa, achava-se preso pela resistente embira, enorme feixe de galhos verdes que, deitado à mercê das correntezas, auxiliava a descida blandíflua.

A modo, a bendita lua acompanhava cariciosamente o barco solitário; e, para não dormitar, o zingador cauteloso namorara-se da pastorinha nomada a queixar-se-lhe em toada triste, cava, monótona, cantarolando versos de terna modinha sertaneja.

Sentado estava o moço viajante à borda da “Bentevi”, mastigando loas, quando ouvira de repente estridente risada. Era a MÃE D’AGUA que o acompanhava, gozando as delícias do luar. Em seguida cantara com voz encantadora, e dormira o zingador, embriagado pela música divina.

Indiferente às suas seduções, como Ulisses ao doce canto das sereias, não adormecera João da Mata com as cantigas dela.

Então, se aproximara do lindo moreno e pedira-lhe ao menos deixasse cair sobre os seus olhos a luz suave dos olhos dele.

Homem forte e valente, não se intimidara com a presença do monstro fabuloso.

À esmola de um olhar, suplicava mais de perto, segurando-se à borda da embarcação.

Ficara mais indiferente.

Pelo amor da mãe.

Impassível.

Pelo amor do pai.

Impassibilíssimo.

Pelo amor da esposa.

Ele, ao de leve, a olhara e... o que se mais dera, sabe-o a brisa fagueira, pois esta levara consigo o pipilar dos beijos; sabe-o a doce lua, pois só esta presenciara, lá em cima, João da Mata nos braços da MÃE D’ÁGUA e com a filha da fada submergir-se nas águas murmurantes.

(Já se concebe atualmente esta hipótese: toscanejando, dera o zingador um arranco na canoa, e o pobre João, a cochilar, caíra n’água; então, os as piranhas vorazes em cardumes o comeram, dilacerando-lhe as carnes com os dentes anavalhados; ou se afogara, fora levado pela correnteza, saíra à barra e, faminto, o tubarão, tão comum no Atlântico tropical, devorara-o com extrema avidez.)

No leito do rio majestoso, consoante a credulidade da gente simples, deve MÃE D’ÁGUA habitar palácio encantado, feito da areia mais alva e mais fina existente, no qual se presume haver tesouro magnífico; entretanto, quem lhe cai nos braços, a ventura não terá de gozar as delícias da morada nobre com os carinhos da princesa fabulosa.

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Transcrito de REVISTA DA SEMANA, 11 de maio de 1935.

http://memoria.bn.br/DocReader/025909_03/12497

 

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Caro leitor,

 Este Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, contém postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso algumas delas seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 



[i] Poeta, romancista e ensaísta, HORMINO ALVES LYRA nasceu em Pão de Açúcar, Alagoas, em 3 de agosto de 1877. Fez seus estudos secundários no Ginásio São João em Penedo, onde exerceu as funções de censor e lecionou com substituto de várias cadeiras.

Em princípio, pensou dedicar-se à vida eclesiástica. Entretanto, não obstante a sua crença religiosa, percebeu que não tinha vocação para o sacerdócio. Prestou, então, concurso para a Fazenda e para os Correios e Telégrafos. Aprovado em ambos, preferiu o segundo, sendo admitido como Telegrafista.

Escreveu para vários jornais e revista como O Malho e Revista da Semana.

Suas principais obras são: Dona Ede (romance), em 1913; O 14 (contos), também em 1913; O Barão do Triunfo, 1941, separada da Imprensa Nacional (memória); Crisol (poesia), 1960. Troveiro, 1960 (poesia).

Foi casado, em primeiras núpcias, com Alayde Vaz Ribeiro e, em segunda, com Marieta de Mello Carvalho (filha do Coronel Augusto Álvaro de Carvalho e de D. Maria Luiza de Mello Carvalho), falecida em 5 de janeiro de 1961.

Hormino Lyra é filho de Higino da Rocha Lyra e Francisca Alves da Rocha Lyra, e irmão de Manoel Alves Lira (que foi prefeito de Pão de Açúcar no período de 08/06/1947 a 22/01/1947) e do Cônego Lyra (Fernando Alves Lyra), que dá nome a uma escola no povoado Lagoa de Pedra, onde nasceu (segundo Aldemar de Mendonça). Hormino Lyra faleceu no rio de Janeiro em 13 de setembro de 1970.

  

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

NATAL - DAS “MINHAS MEMÓRIAS DE PENEDO”

 

Por Antônio Osmar Gomes[i]

Presépio.

Nos começos deste século, época da qual dou pessoal testemunho, apenas entrava o mês de dezembro, e já a velha cidade do Penedo, à margem esquerda do Rio São Francisco nas Alagoas, se aprestava, toda alvoroçada, para as festas caracteristicamente tradicionais do ciclo do Natal.

A praça escolhida para os preparativos e respectivos festejos era a primitivamente chamada de São Gonçalo Garcia, por ali se ostentar o secular templo sob a invocação desse Santo da Igreja, e que hoje se chama de Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, caboclo alagoano, canonizado pela República, que ele, com pulso forte, consolidou.

Aos meus olhos deslumbrados de menino de então, não afeitos ainda à contemplação de logradouros públicos mais amplos nem mais vistosos, essa praça se afigurava bela, muito bela e a maior do mundo. Era que nela cabia., mais ou menos folgadamente, um sem número de barracas de todos os tamanhos, feitios e cores; bazares e quiosques policromos e lantejoulados, um e às vezes até dois cavalinhos.

Certa feita, apareceu ali, como novidade espantosa, um carrossel, todo fechado numa empanada de lona branca, em forma de circo. Estava montado num tablado sobre o qual corriam, em circunferência, por cima de trilhos de ferro, as rodas em que se assentavam as bases dos soberbos cavalos de madeira e ferro, com arreios, crinas e cauda de cabelo mesmo, e as cômodas poltronas, com balança deleitável, próprias para quatro pessoas, de duas em duas, vis-à-vis. E tudo isso rodava, por determinado tempo, a tostão por cabeça, e ao som de maviosos trechos musicais de um realejo ou caixa de música, acionado pelo próprio movimento da engrenagem geral, e junto dele espevitado negro de molas, risonho, mostrando os dentes muito alvos, virando a cara ora para um ora para outro lado, trajando calças brancas e jaleco vermelho, e segurando numa das mãos a manivela do instrumento, como se fora ele quem o estivesse acionando.

Havia, mais, em uma das extremidades da praça, quase sempre em frente à igreja, o palanque enfeitado de guirlandas de papel de várias cores e reservado para as representações dos autos populares dos reisados, chegança, bailes pastoris, marujadas e maracatus. O resto eram mesinhas e bancas para os jogos.

Nos bazares e quiosques, onde se agrupavam as famílias e as pessoas de qualidade, arrumavam-se, da melhor forma possível, segundo o gosto ou, senso artístico de seus donos, objetos mimosos e variados, dos quais se faziam sorteio, mediante a venda das séries de bilhetinhos numerados, correspondendo a cada um dos artigos expostos, que iam desde o frasco de perfume da moda até o apetitoso queijo do reino.

Não havia ainda por lá o progresso da luz elétrica. Os que dispunham de mais recursos financeiros iluminavam os seus estabelecimentos com uns complicados aparelhos de acetileno – luz suave e pálida, saindo rasgada impetuosamente, de bicos forquilhados, , e  protegidas por cúpulas de vidro branco, marchetados de flores em relevo.

As mesinhas de jogo, ou de comidas e bebidas, mais pobres, onde se encostava a gente do povo, tinham apenas um alcoviteiro de querosene, com um pavio desprendendo luz fumegante e cheiro pouco agradável, mas que, nem por isso, deixava de atrair clientela bastante numerosa e alegre.

Outras um pouco melhores do que estas últimas, ostentavam a placa de gás, muito usual, então, nas casas de família, com o seu tubo de vidro, chamado comumente de “manga do candieiro”, que servia de proteção da chama contra o vento, e com o seu refletor de metal polido, dando maior intensidade à luz. Afina, fiam-se também toscos aparelhos de carbureto chiando e vacilantes, produzindo gases de cheiro característico.

Os jogos ali praticados eram de azar. Faziam-se paradas de vintém e até de tostão, sobre um pano encerado, no qual se achavam pintados seis, doze ou dezoito números, tantos fossem os dados utilizados. Continham, outros, os vinte e cinco números do jogo do bicho, cada qual num quadrado, com os seus animais titulares desenhados a capricho. A sorte corria por meio de uma roda dentada, com os números correspondentes. Quando posta em movimento essa roda, por ela passava, trepidante, uma palheta de tartaruga, várias vezes, até que, diminuindo o impulso rotativo, parava, cabendo o prêmio aos que acertassem o número indicado, assim, pela palheta.

Como disse acima, as paradas eram, na maior parte, de vintém. Um vintém acertando dava de ganho mais quatro, isto é, completava-se um tostão, variando, todavia, os planos e as vantagens, conforme o grau de confiança do público e de acordo com as práxis mesmas desse ou daquele jogo. Lembro-me de um deles que tinha o curioso nome de barrufo. Alguns, utilizando-se de dados, rifavam utensílios de uso doméstico, tais como: xícaras, pratos, talheres, panelas, copos, bacias, etc. De uma dessas rifas, me recordo que era, em altas vozes, apregoada pelo seu explorador, como sendo:

“A rifa da donzela,

com um vitém

se tira uma tigela...”

 

As comidas consistiam de jacarezadas, cozidos, peixadas, sarapatel, feijoadas, frigideiras de camarão do rio, tudo regado a vinho de caju, gengibre e outras zurrapas, e precedido, infalivelmente, pelo gabado aperitivo de aguardente, com várias misturas de folhas e frutos, cada qual com o seu nome identificador: rabo de galo, cachimbo, cambuí, laranjinha, etc.

Isso tudo se fazia em louvor do nascimento de Jesus, justificando-se as efusões de alegria coletiva com a espera da Missa do Galo.

De fato, entre meia-noite e uma hora, o povo acorria ao toque dos sinos, e se comprimia todo no pátio da igreja matriz, onde a missa se celebrava e que era, quase sempre, campal. Então, na praça de São Gonçalo Garcia ficavam os que, por isso ou por aquilo, não estavam se preocupando com essa ritual solenidade do catolicismo.

Terminada a Missa, a maior parte das famílias se retirava para as suas casas. No entanto, os jogos continuavam a funcionar, e os cavalinhos rodando sempre, até quase ao amanhecer, quando, ali mesmo, nas barracas e em baixo das mesas, dormiam, a sono solto, donos e fregueses, apostadores e banqueiros, todos vencidos pela fadiga ou pelos excessos dos prazeres do álcool.

E os festejos se prolongavam, assim, pelas noites seguintes, é verdade que menos frequentados, porém com animação bastante para se manterem até altas horas, embora não tendo mais, como pretexto, a Missa-do-Galo, mas sim os grupos que vinham dançar no palanque, em frente à igreja, para louvar o Natal do Deus Menino.

Uma noite era a “Charanga”, com sua guarnição garbosa e bem compenetrada de seu papel, composta de “Almirantes”, “Capitães-de-Mar-e-Guerra”, “Guardas-marinha”, “Comandantes”, “Padre Capelão”, “Doutor”, “Reis Mouros, etc. etc.., que enchia todo o palanque com a encenação dos seus episódios de viagens e de lutas no mar. Antes, organizavam uma passeata pelas ruas principais da cidade, tocando pandeiros, em marcha batida, e cantando a ária principal do folguedo:

 

“Alerta, alerta, que dorme! (bis)

venham moças à janela,

venham ver a nau tirana (bis)

como vai correndo à vela.”

 

Outra noite, tinha-se o “Reisado”, de que o povo gostava tanto, atraído pelas graças, nem sempre engraçadas, do “Mateu”, que era o condutor do boi, lhe chorava a morte e lhe dividia os restos mortais com as pessoas presentes, por entre a gargalhada franca do povaréu feliz. Parece-me estar a ouvir o tradicional canto do “Reisado”, tirado pelo “Mateu” e que as figuras repetiam em coro:

 

“Ó yôyô, ó yiá-yá,

olhe o boi que te dá...

entra prá dentro

meu boi malambá.”

 

Muito africanizado, pois que era todo composto de negros, o “Maracatu” se apresentava mais bárbaro, não tendo a suavidade nem a melodia dos cantos da “Chegança” e do “Reisado”. Numa toada quase agressiva, cantavam eles que:

 

“A limpeza do Brasil

É o passo de urubu...

Bravú” Bravú!

Bravo do Maracatu”

 

Mimosos, no entanto, eram os “Bailes Pastoris”. Não se organizava um só, nem dois, nem três. Eram muitos. Vinham de todas aquelas redondezas, cada qual porfiando em se apresentar no palanque de Penedo, com maiores atrações, tanto de figurantes como de cantos e orquestração. Traziam flautas, violões, rebecas, cavaquinhos, clarinetas, e vozes escolhidas de mocinhas, na flor da idade, viçosas e bonitas.

Os mais afamados “Bailes” eram os que vinham do Cedro[ii], localidade de Sergipe, perto de Propriá, pois não havia, segundo voz geral, por todas aquelas margens do São Francisco, terra de meninas mais formosas e mais alegres. “Bailes” que vinham do Cedro atraíam, desde logo, as atenções gerais, sobretudo do rapazio, que se dividia em partidos, dividindo as preferências por duas ou três figuras, uma como representando o “cordão da rosa”, outra “do cravo”, ou uma a “fita azul”, outra “a encarnada”, e, assim, se digladiavam em torneios de aplausos e de gastos de dinheiro, para a vitória da “fita” ou do “cordão” predileto. E as meninas, ufanas do seu sucesso, enquanto que o matuto empresário da “função” se sentia mais ufano de seus resultados práticos, cantavam no palanque da praça de São Gonçalo com toda garridice e encanto que lhes eram próprios, as comunicativas e lindas cantigas de “Bailes”, as principais revezando-se nas cenas para entoar a “parte” que lhes cabia, a cada um, de per si. Lembro-me bem da “parte” da “Arauna”, tão simples quão maviosa e expressiva:

 

“Chô, chô, chô, chô...

Araúna”

Não deixe ninguém te pegar,

Araúna!

Tenho dinheiro de prata,

Arauna!

Para gastar com as mulatas,

Arauna”

 

Assim era que, na primeira metade deste século, de que dou testemunho pessoal, nesta evocação, que a minha grande saudade, comovida, desperta em íntimas expansões, assim era que em Penedo se faziam as festas tradicionais do Ciclo do Natal, partindo do dia 24 de dezembro e encerrando-se depois de Reis.

Não direi que as de hoje sejam melhores nem piores.

A mim, porém, as recordações singelas das festas de ontem, me falam mais intensamente ao coração, o que é justo, pois as vivi com a idade e os alvoroços com que não é dado viver e vibrar agora na contemplação das festas tão diferentes de hoje e que, amanhã, decerto, ainda mais diferentes serão...

E não é nisso, afinal de contas, que está toda a poesia da vida?! ...

 

Bahia, dezembro de 1941.

 

 

Transcrito da revista Excelsior, 15 de dezembro de 1942.

 

Caro leitor,

 

Este Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, contém postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso algumas delas seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 



[i]  

Antônio Osmar. O Cruzeiro,
23/09/1967.

ANTÔNIO OSMAR GOMES. Economista, industrial. Nasceu em Penedo-AL no dia 14 de outubro de 1896 e faleceu em Petrópolis-RJ no dia 29 de março de 1979. Filho de Antônio Gomes de Sousa e Ester M. Gomes. Casado com Maria Esther Gomes, com quem teve o filho Osmar Gomes. Fez os seus primeiros estudos na cidade natal, de onde se transferiu, em 1913, para a capital da Bahia, onde cursou a Escola Comercial, hoje Faculdade de Ciências Econômicas, e recebeu o diploma de "graduado em Comércio e Fazenda".  Foi secretário da Associação Comercial e da Federação do Comércio da Bahia de 1944 a 1948. Membro do Conselho de Fazenda da Bahia em 1947 e Presidente da Bolsa de Mercadorias (1948). Delegado da Bahia à Conferência das Classes Produtoras na cidade de Teresópolis (1945) e Araxá (1949). Delegado do mesmo Estado na Conferência Internacional de Comércio e Produção, em Chicago (1948); em Santos SP (1950); em Santiago do Chile e em Houston (EUA) e no Peru (1952). Delegado Brasileiro à 5ª reunião do Acordo Geral de Tarifas e Comércio realizada na Inglaterra, de outubro de 1950 a abril de 1951. Presidente do Conselho Superior de Tarifa, 1949-50. Transferindo-se para o Rio de Janeiro em 1949, exerceu as funções de Presidente do 2o Conselho de Contribuintes, no Ministério da Fazenda e da Câmara de Comércio Teuto-Brasileira no Rio de Janeiro desde 1950, havendo desempenhado outras comissões de estudos econômicos no Itamarati e no Instituto de Resseguros do Brasil.  Membro do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, bem como do de Alagoas.  Pseudônimo: Paulo de Damasco. Obras: Notas de uma Excursão, 1928; Ressurreição, 1932/1935 (versos); O Soneto Inacabado, Petrópolis: Vozes, 1934/36, (crônicas); Conflitos e Posições do Espírito Moderno, Rio de Janeiro: José Olympio Ed. 1938 (ensaios); A Chegança, Contribuição Folclórica do Baixo São Francisco, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1941 (folclore); Compreensão de Humanismo, Zélio Valverde, Rio de Janeiro, 1942 (ensaio); Uma Frase Singular (esboço biográfico), Bahia, 1943; A Greve, capa de Santa Rosa, Zélio Valverde, Rio de Janeiro, 1945, (romance); O Bispo-Missionário, (biografia) Bahia, 1947; Tradições Populares do Baixo S. Francisco (folclore), Anais do 1º Congresso Brasileiro de Folclore, Rio, 1951. Colaborações: O Diário, Belo Horizonte, MG; O Imparcial, A Tarde, da Bahia; Jornal do Comércio, Dom Casmurro, e O Jornal, do Rio, e sobre assuntos econômicos na Revista Bancária Brasileira e Observador Econômico e Financeiro. Fonte: ABC DAS ALAGOAS. 

[ii] Cedro, Estado de Sergipe. A Lei nº 1.015 de 4 de outubro de 1928, sancionada pelo Governador Manoel Dantas, elevou Cedro à Categoria de Vila e Sede do Município, desmembrado de Propriá, sendo instalada a Vila a 1 de Janeiro de 1929. O decreto nº 69 de 26 de março de 1938, anexou o termo à Comarca de Propriá. Pelo Decreto-Lei nº 533, de 7 de dezembro de 1944, o Município passa a ter o nome de "Darcilena", porque o prefeito Miguel Seixas queria homenagear a mulher de Getúlio Vargas, Darcy, e a mulher de Augusto Maynard, Helena. Mudando para Cedro de São João em 6 de Fevereiro de 1954, pela Lei Estadual nº 554, passando a contar com mais um Distrito de Paz, o de São Francisco. Depois, o Distrito de São Francisco foi desmembrado, tornando-se Município. Fonte: Wikipedia.

 

sábado, 3 de dezembro de 2022

PRÁTICO DO SÃO FRANCISCO TRANSPORTOU LAMPIÃO DE ANGICOS A BORDA DA MATA

 Por Selênio Homem[i]

"Seu Quincas", em 1967.

O homem chama-se Joaquim Bezerra de Souza, casado, 53 anos, residente em Pão de Açúcar, Alagoas, cidade atraente e que possui, para orgulho dos seus habitantes, um pãozinho de rocha, com um pequeno Cristo Redentor no ápice. “Mestre Quincas”, como é mais conhecido em todo o baixo São Francisco, exerce o singular ofício de prático de água doce, e jacta de ser o mais competente nas 158 milhas navegáveis da Região. “Mestre Quincas” é o homem que a Marinha contrata, todos os anos, para guiar o navio-patrulha Piraju, na missão de atendimento às populações ribeirinhas.

Trata-se de extraordinário contador de histórias. Sabe coisas de arrepiar os cabelos e tem o dom de contá-las em ritmo pausado, persuasivo, descendo a minúcias de literatura policial.

Há um caso na vida de Quincas, uma faceta que ele narra com indisfarçável júbilo: de haver transportado o temível Lampião, rio afora, de Angicos à Fazenda Borda da Mata, estância que pertenceu, à época, ao pai do então Governador de Sergipe, Eronides de Carvalho[ii], um velhote de maus bofes que se dava ao risco de “hospedar” o Capitão Virgulino Ferreira, quando maior era o assédio das volantes. A aventura passou-se em águas sergipanas e Quincas conta o “suspense” mais ou menos assim:

Era um dia qualquer do ano de 1936. Ainda muito jovem, trabalhava como ajudante na canoa “Teresa Gois”, do Mestre Moisés Francisco dos Santos[iii], sujeito taciturno, de poucas palavras.

O barco subia o rio e ia buscar um bom frete em um lugarejo distante. Pelo menos foi o que Moisés anunciara a Quincas quando “abriu os panos” em Capoeira[iv], fazenda de sua propriedade. A tarde caia lentamente e entre ambos pairava um silêncio de clausura. Em dado momento, o Mestre rompeu a quietude com sua voz grave:

- Sabe de uma coisa, Quincas, eu não o avisei, mas tenho que apanhar uma “família” em Angicos, na ribanceira, perto da casa de compadre Chico. Joaquim não deu muita importância àquela sentença patronal. Cabia-lhe apenas cumprir as ordens do chefe.

- Tá certo, seu Moisés, tá certo...

O navio patrulha Piraju no porto de Curralinho-SE


O BANDO SURGE


Eram cinco horas da tarde quando Moisés anunciou a mudança do itinerário. Pouco depois, a canoa atracou na ribanceira. Seguiram-se longas horas de espera. Precisamente às 22 horas, Quincas avistou alguns vultos que saiam do mato, em direção ao barco. A “família” se aproximou e o jovem Joaquim sentiu o sangue fugir-lhe das veias. À frente do grupo, caminhava uma figura lendária, terror do sertão. Quincas logo o reconheceu: era Virgulino Ferreira com seus reluzentes enfeites de metal precioso, armado até os dentes. Homens morenos, de cabelos compridos e chapéus vistosos, de abas levantadas, seguiam o Rei do Cangaço.

Os sinistros passageiros tomaram assento na canoa e ficaram imóveis como estátuas de pedra. Lampião acomodou-se junto a Maria Bonita e dirigiu algumas palavras cordiais ao Mestre Moisés (“Maria era baixota, porém, bonita de verdade” – comentou Joaquim). O inexperiente ajudante estava com os nervos em pandarecos. Ficou todo o tempo na proa, fingindo ajeitar o pano, para não passar por entre os cangaceiros, embora estivesse no grupo o Zé Sereno[v], seu amigo de infância.

Aos primeiros raios do sol, a canoa chegou à fazenda Borda da Mata. Mestre Moisés recebeu sua paga e seguiu com destino a Penedo. Esta foi a última viagem de Joaquim Bezerra como ajudante da Teresa Góis.

OUTRAS ESTÓRIAS

Acontece que Mestre Quincas sabe muitas estórias do cangaço, de tanto haver percorrido o Baixo São Francisco, no tempo que Virgulino Ferreira estabeleceu seu domínio de terror nos sertões nordestinos. As cidades à beira d’água eram frequentemente visitadas por Lampião, e Joaquim continuava como ajudante de mestre, rio acima, rio abaixo.

Pouco depois de seu inusitado encontro com os cangaceiros, contou “Mestre Quincas”, a canoa “Rio Branco”, de José Pedro[vi], foi atacada pelo bando, no Morro da Abelha[vii], em Sergipe.

A embarcação seguia para Propriá, levando dois sanfoneiros que iam animar uma festança naquela cidade. Mas, Lampião não estava interessado em festa. Queria ir para a fazenda Saco dos Medeiros[viii], em Alagoas, a fim de cobrar “uma dívida” ao Coronel Gustavo, dono da terra. Virgulino desembarcou para ajustar as contas, e a “Rio Branco” subiu o rio, rumo a Pão de Açúcar.

Um delator de Lampião se encontrava a bordo da canoa. Maria Bonita reconheceu o “sujeito”, mas o Rei do Cangaço estava de bom humor e preferiu não ir à desforra. O infeliz denunciante, ante a terrível descoberta de Maria, ficou imóvel, sem bater pestanas, até o desembarque do bando. Conta-se que, ao chegar a Pão de Açúcar, saiu feito um desvairado, em louca disparada, com uma crise de histerismo.

Essa notícia Joaquim ouviu do cangaceiro “Cajazeira”, que participou do assalto à canoa.

Canoa Rio Branco, depois Luzitânia.


O CONHECEDOR DO RIO

Se alguém se dispuser a ouvir as narrativas de Mestre Quincas, terá que ter paciência de Jó. Antes de tudo, porém, Joaquim Bezerra e um prático de água doce. Conhece o Baixo São Francisco como ninguém. Sabe todas as passagens difíceis do rio e tem teoria própria sobre as mutações que se processam anualmente, no seu leito.

Diz que de Penedo à foz do rio, é tranquilo, não oferece perigo algum. “Danado” é o trecho Penedo-Piranhas, que se modifica, na época da cheia, pela ação da correnteza. Por esse motivo, todos os anos, com o rio seco, faz a correção da sua particularíssima carta fluvial.

Hoje, após tantas intempéries, Joaquim Bezerra é um homem tranquilo. Há 13 anos e prático da empresa Tupan, que faz a linha Penedo-Piranhas, transportando passageiros. Resta agora crias os moleques e terminar seus dias na santa paz do Senhor.

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NOTA.

JOAQUIM BEZERRA DE SOUZA, conhecido por “Quincas”, nasceu no povoado Curralinho, município de Porto da Folha-SE (atualmente território de Poço Redondo-SE), no dia 18/08/1910. Filho de Teotônio Martins Bezerra e Adelaide Lucas de Souza (casados em 15 de agosto de 1904, em Porto da Folha-SE). Eram seus avós: paternos, Pedro Bezerra e Antônia Rosa Bezerra; maternos, Lucas Evangelista dos Santos e Maria Rosa de Souza. Casado com Maria José Santos, natural de Pão de Açúcar, onde reside seu filho José Bezerra (Zé de Quincas).

Foi Comandante Prático da Empresa Tupan (de Sebastião e Luiz Barreto, com sede em Neópolis-SE), fazendo a linha Penedo-Piranhas desde 7 de julho de 1957 até 1979, quando a empresa encerrou as atividades naquela linha. Faltando-lhe a lancha Tupan, que comandou durante vinte e dois anos, ainda trabalhou na balsa que fazia a travessia Pão de Açúcar-AL/Niterói-SE (povoado pertencente ao município de Porto da Folha), pertencente à Empresa Fluvial Sao Francisco (Zélia Silva Gonçalves).

Faleceu em Pão de Açúcar-AL no dia 25 de agosto de 1999.

Povoado Curralinho-SE, 1967. Foto: Capitão-de-Mar-e-Guerra Alberto do Valle Rosauro de Almeida

A lancha Tupan


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Transcrito do Diário de Pernambuco, 17 de março de 1967.

http://memoria.bn.br/DocReader/029033_14/48945http://memoria.bn.br/DocReader/029033_14/48945

Informações adicionais: Wellington Santos, Tonho de Dona, Everaldo Fernandes.

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Caro leitor,

Este Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, contém postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso algumas delas seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i]


SELÊNIO HOMEM DE SIQUEIRA CAVALCANTI. Nascido em 24 de maio de 1935, em Santa Luzia do Sabugí, Sertão do Estado da Paraíba. Filho de Edgard Homem de Siqueira (Promotor de Justiça, Juiz de Direito e Desembargador) e de Jandira de Siqueira Cavalcanti. Avos paternos: Homem de Siqueira e Maria Umbelina Cavalcanti. Maternos: Antônio Eduardo Freire e Maria Antônia Freire. Seu nome é inspirado no elemento químico de número atômico 34, um ametal pertencente ao grupo dos calcogênios. Seus irmãos Yttérbio e Ruthenio também pertenciam à mesma “família” da tabela periódica. Selênio foi para o Recife em 1947. Formou-se em Economia, mas nunca exerceu a profissão. Iniciou-se no jornalismo em 1960, na “escola” do Diário de Pernambuco. Em 1969, foi agraciado com a Medalha do Mérito do Recife. Em 1971, dirigiu a Assessoria de Publicações e Pesquisas da Empresa Metropolitana de Turismo do Recife. Quem não o conhecesse, discreto como um frade, envolvido pela fumaça do cigarro, a matraquear a máquina de datilografia pé duro, invariavelmente de calças jeans e camisa sem gola, mal imaginava estar diante de um dos maiores talentos da palavra que o jornalismo pernambucano produziu. Em 1983, quando era Chefe de Reportagem do Diário de Pernambuco, recebe o título de Cidadão do Recife, outorgado pela Câmara Municipal, por inciativa do Vereador Josué Pinto. As funções do pai o fizeram residir no Rio Grande do Norte, onde foi “menino de engenho”, no Engenho Belém, de sua avó materna. Já adolescente, foi com a família para Olinda. Faleceu em Olinda-PE, no dia 14 de dezembro de 2015. Fonte: Diário de Pernambuco, 18/05/2021.

 

[ii] ANTÔNIO FERREIRA DE CARVALHO. Filho de Jesuíno Ferreira de Oliveira Costa e de Annanias Perpétua dos Anjos. Nasceu em São Brás-AL, no dia 24 de março de 1873. Faleceu a 5 de maio de 1948 em Canhob-SE. Foi prefeito do Município de Canhoba, cuja emancipação política, desmembrado de Aquidabã, ocorreu em 1937. Fonte: Familly Search.org.

 

[iii] MOISÉS FRANCISCO DOS SANTOS, conhecido por Moisés Tambangue, natural de Curralinho-Poço Redondo-SE. Fonte: Lampião e o Cangaço na Historiografia de Sergipe. Archimedes Marques.

Moisés Tambangue residia na fazenda Capoeira, abaixo do povoado Curralinho, em Poço Redondo-SE, Era casado com Sra Eulina Vital. Passou a morar em Juazeiro, Bahia, na década de 1950, para onde levou a canoa Tereza Góis. Quando precisou passar na região da ponte de Jatobá, precisou cortar a canoa ao meio. Já em Juazeiro, vendeu a canoa para Lourival de Joscelino, do povoado Jacaré, e comprou a canoa Cordilheira do Sr. Zé Brito, proprietário da fazenda Abadia, em Canindé do São Francisco-SE. (informação de Everaldo Fernandes)

 

[iv] Fazenda Capoeira, acima de Curralinho-SE.

 

[v] ZÉ SERENO, José Ribeiro Filho - nasceu em 22 de Agosto de 1913, na Fazenda dos Engrácias, no município de Chorrochó, no Estado da Bahia. Era filho de José Ribeiro e de dona Lídia Maria da Trindade. Sua mãe era irmã dos cangaceiros Antônio e Cirilo de Engrácias. Dona Lídia também era irmã do cangaceiro Faustino, "Mão de Onça", sendo este pai do terrível cangaceiro Zé Baiano, o ferrador do bando de Lampião. Zé Baiano andava com um ferro de ferrar animais com as iniciais "JB", as primeiras letras do seu nome. Para suas maldades alheias onde ferrava mulheres e homens, de preferência no rosto. Zé Baiano era primo carnal do cangaceiro Zé Sereno, isto é, pai e mãe eram irmãos dos pais de Zé Sereno. Zé Baiano e Zé Sereno eram primos legítimos do cangaceiro Mané Moreno. Zé Sereno andou no bando de Lampião com sua esposa Sila, até no dia do massacre na Grota de Angico, onde mataram Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros, sobre o comando do oficial alagoano tenente João Bezerra. Zé Sereno e Sila saíram ilesos do massacre, isto é, não foram atingidos pelas balas. O ex-cangaceiro Zé Sereno só veio a falecer em 16 de fevereiro de 1981, no Hospital Municipal de São Paulo. Sua mulher Sila faleceu no dia 15 de Outubro de 2005, também na capital Paulista. Fonte: http://blogdomendesemendes.blogspot.com/2020/04/por-josemendes-pereira-jose.html. Segundo consta do seu registro de óbito, José Ribeiro Filho era funcionário público municipal. Residia na Rua Augusto Perroni, 841 – Butantã – São Paulo-SP, e foi vítima de AVC – Acidente Vascular Cerebral.

 

[vi] Canoa Rio Branco, que depois pertenceu a Luiz Martins, segundo Carlos Eduardo Ribeiro, da ONG Canoa de Tolda. Essa embarcação, depois denominada Luzitânia, foi recuperada e, ao lado da canoa Piranhas, constituem os dois exemplares existentes desse tipo de embarcação típica do Baixo São Francisco.

 

[vii] Morro da Abelha, pouco acima de Ilha do Ouro-SE.

 

[viii] Saco do Medeiros, na margem alagoana, quase defronte a Gararu-SE, um pouco acima.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia