domingo, outubro 18

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A PAVIMENTAÇÃO DA AL-130 — 50 ANOS

 

Por Etevaldo Amorim


Outrora rota de tropeiros, nos tempos em que as mercadorias eram transportadas em lombos de burros, esse era o caminho de Pão de Açúcar para o interior. Tendo o rio São Francisco como via principal do intercâmbio de comércio de toda a região sertaneja, os produtos que desembarcavam no porto eram carreados para o centro por meio de animais e carros-de-boi, em processo lento, penoso e desgastante.


E assim se deu por muitos e muitos anos. Até que, em 1929, sobre esse caminho foi aberta uma "estrada real", durante a gestão do Prefeito Padre José Soares Pinto. O seu período administrativo contribuiu consideravelmente com o governo estadual — então liderado pelo Dr. Álvaro Corrêa Paes — na ampliação da malha viária do Estado.


O jornal Diário de Pernambuco, em sua edição de 13 de outubro de 1929, destaca que o Governo de Álvaro Paes “pôs em comunicação franca a metrópole do Estado com o extremo Norte, abrindo uma rodovia, que é geralmente louvada pelos serviços que presta a uma região de difícil acesso”.


E prossegue: “Dessas estradas de interesse local se salientam pela perfeição de seu acabamento a que se dirige de Pão de Açúcar para Santana do Ipanema e a que vai desta para Palmeira dos Índios.” Para depois concluir: “Os gabos que se fazem a essas rodovias são unânimes e recaem sobre os prefeitos que as fizeram: o Padre Soares Pinto, de Pão de Açúcar; e Graciliano Ramos, de Palmeira dos Índios.”


Cabe salientar, conforme Mensagem do Governador Álvaro Paes ao Congresso Legislativo, em 19 de novembro de 1929, que coube ao Prefeito de Santana do Ipanema, Sr. Ormindo Barros, a construção das referidas estradas nos trechos incluídos em seu território, isto é, da cidade até Olho D’Água das Flores e, por outro lado, da Sede até o limite com Palmeira dos Índios, totalizando aqui 14 km.


Não temos notícia de como se deu a construção do trecho Pão de Açúcar – Olho d’Água. Mas, sobre a parte que coube à prefeitura de Palmeira dos Índios (na futura BR-316), o prefeito Graciliano Ramos destaca em um de seus famosos relatórios:


"O serviço de estradas exigiu cuidado e despesa.


Uma via de comunicação que se abre é, incontestavelmente, fator de progresso; mas as estradas que encontrei, construídas a eito, sem plano, estragavam os veículos e consumiam tempo. [...]


Na estrada de Palmeira a Sant’Ana, numa extensão de 25 quilômetros, trabalha-se desde maio. Já ali se eliminaram ladeiras quase impraticáveis, romperam-se piçarras, aterraram-se pântanos e construíram-se bueiros. Está quase pronta. Falta apenas um quilômetro de aterro, no lugar denominado Lagoa do Canto. [...]


Não há aqui engenheiros: a locação é feita a olho, por mim ou pelos fiscais, o que não impede que as estradas saiam retas e com declives suaves. Os operários trabalham por tarefa, o que é mais econômico e evita a moleza das diárias.


Gastei na estrada de Sant’Ana a quantia de 17:152$500, o que dá uma média de 686$100 por quilômetro[i]. Quem conhecer o terreno, que é acidentado e duro, concordará em que o dinheiro foi bem empregado."


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Os mais velhos se lembram como era penoso viajar para Maceió naqueles tempos. Ainda em meados da década de 1970, gastava-se, no mínimo, oito horas nos velhos ônibus da Viação Progresso, passando por Santana do Ipanema (AL-130), para depois pegar a BR-316 e passar por Dois Riachos e Cacimbinhas, até chegar em Palmeira dos índios, onde começava o asfalto, que existia desde 1950, construído pelo governador Arnon de Mello.



Finalmente, durante o primeiro governo de Divaldo Suruagy, tivemos a pavimentação.


O financiamento da obra só foi possível devido a uma complexa operação de crédito internacional aprovada em 20 de maio de 1976 pelo Senado Federal.


Autorizado pela Resolução nº 25, o Governo de Alagoas realizou operação de crédito externo no valor de US 10.000.000,00 (DEZ MILHÕES DE DOLARES), para financiar projetos rodoviários.


Eis o teor da Resolução:


“Faço saber que o SENADO FEDERAL aprovou, nos termos do artigo 42, inciso IV, da Constituição, e eu, JOSÉ MAGALHÃES PINTO, PRESIDENTE, promulgo a seguinte:


RESOLUÇÃO Nº 25, DE 1976


Autoriza o Governo do Estado de Alagoas a realizar operação de empréstimo externo no valor de US$ 10.000,000,00 (dez milhões de dólares), para financiar projetos rodoviários naquele estado.


 Art. 1º.  É o Governo do Estado de Alagoas autorizado a realizar uma operação de empréstimo externo no valor de US$10.000.000,00 (dez milhões de dólares), ou o equivalente em outras moedas, de principal, com grupo financiador a ser indicado, sob a orientação do Ministério da Fazenda e do Banco Central do Brasil, mediante outorga de garantia do Tesouro Nacional, se necessário, destinado a auxiliar o financiamento dos investimentos previstos na construção das Rodovias AL-220; AL-130; AL-120; e AL-225, naquele Estado.


 Art. 2º.  A operação de empréstimo realizar-se-á nos termos aprovados pelo Poder Executivo Federal, à taxa de juros, despesas operacionais, acréscimos, prazos e demais condições admitidas pelo Banco Central do Brasil para registro de empréstimos da espécie obtidos no exterior, obedecidas as demais exigências dos órgãos encarregados da execução da política econômico-financeira do Governo Federal, e, ainda, as disposições da Lei nº 3.479, de 25 de novembro de 1975, da Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas, publicada no Diário Oficial do Estado no dia subsequente.


 Art. 3º. Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.


SENADO FEDERAL, 20 de maio de 1976.


JOSÉ DE MAGALHÃES PINTO - PRESIDENTE.


(Texto publicado no Diário Oficial da União - Seção 1 - 21/05/1976, Página 7231 (Publicação Original) e Diário Oficial da União - Seção 1 - 15/06/1976, Página 8399 (Retificação)”


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A AL-220 inicia no município de Barra de São Miguel (no entroncamento com a AL-101 Sul – atualmente BR-349), passando por São Miguel dos Campos e por diversos municípios, tais como Campo Alegre, Limoeiro de Anadia, Arapiraca, Craíbas, Girau do Ponciano, Jaramataia, Batalha, Jacaré dos Homens, Monteirópolis, Olho d'Água das Flores, São José da Tapera, até Delmiro Gouveia.


A AL-120 inicia no entroncamento com a AL-220, passa por Major Isidoro e vai até Cacimbinhas (BR 316).


A AL-130 liba Pão de Açúcar a Santana do Ipanema, passando por Olho d’Água das Flores, quando cruza a AL-220.


A AL-225 liga o centro histórico de Piranhas  a Olho d'Água do Casado.


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Entrementes, ainda em um dia do mês de março ou abril de 1976, a bordo do avião modelo CESSNA AIRCRAFT 182P, de prefixo PT-KIS, o governador Divaldo Suruagy e sua comitiva chegaram a Pão de Açúcar para o ato de assinatura do contrato com a empreiteira que implantaria a pavimentação da estrada.

O avião em que chegou o governador Divaldo Suruagy e sua comitiva.




O governador Divaldo Suruagy ao desembarcar. 



O governador Divaldo Suruagy assinando o contrato, vendo-se à direita o Sr. Elísio Maia.



Desconhecido (possivelmente o empreiteiro) assinando o contrato, vendo-se à mesa: Divaldo Suruagy, o prefeito Augusto Machado e o Deputado Estadual Humberto Melo Souza (natural de Pão de Açúcar).


O Dr. Carlos Fortes Melro, do DER, assinando o contrato, vendo-se Pedro Ferreira e Divaldo Suruagy.


O deputado Pedro Ferreira assinando o contrato, tendo a seu lado Divaldo Suruagy e Humberto Souza.


O prefeito Augusto Machado lendo seu discurso, tendo à sua direita o governador Divaldo Suruagy e à esquerda o Dep. Humberto Souza e Elísio Maia.


O governador Divaldo Suruagy.


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Como registro desse fato, há um discurso do Deputado Federal Antônio Ferreira, publicado no Diário da Câmara dos Deputados (Seção I), 24 de abril de 1976)


“O SR. ANTÔNIO FERREIRA (ARENA - AL. Pronuncia o seguinte discurso.)


- Sr. Presidente, Srs. Deputados, o Estado de Alagoas vive instantes de grande euforia pelas obras que realiza o Governo Divaldo Suruagy, sempre procurando solucionar antigos problemas e vencer todas as dificuldades.


Assisti, com satisfação, à solenidade de assinatura dos contratos para início das obras de asfaltamento da ligação rodoviária. entre Pão de Açúcar e Olho d'Água das Flores. Igualmente, foi assinado contrato que manda construir a ligação Olho d'água das Flores a Santana do Ipanema, por via asfáltica. Estas obras, que já foram iniciadas, refletem o interesse do Governador em proporcionar ao Estado de Alagoas perfeitas condições de comunicação entre as suas regiões, facilitando o trânsito da produção agrícola, melhorando o intercâmbio entre as comunidades alagoanas.


O asfalto que vai ligar Pão de Açúcar a Santana do Ipanema vem no momento em que o Estado estava carecendo desta estrada em perfeitas condições de uso, ao longo do rio São Francisco, outra importante ligação que integra Alagoas e faz o seu território um todo.


Secretaria de Viação e Obras Públicas do Estado de Alagoas tem servido como fator preponderante para incrementar o progresso e levar o desenvolvimento a todo o Estado, dentro das metas aprovadas pelo Governador Divaldo Suruagy, apresentadas pelo Secretário Vinicius Maia Nobre. Não nos cansamos de apontar o acerto do Governador na escolha deste ilustre Secretário, Vinicius Maia Nobre, que realmente tem sabido se conduzir à frente de sua Secretaria, trabalhando incansavelmente, mudando o Estado e dando-lhe nova feição, desde as regiões sertanejas ao litoral progressista. Igualmente não podemos desconhecer o muito que vem fazendo o Diretor do Departamento de Estradas de Rodagem, Dr. Carlos Fortes, que completa esta extraordinária equipe de Governo que, em pouco tempo, fez Alagoas acompanhar as maiores Unidades da Federação em índice de desenvolvimento.


Vale ainda ressaltar, Sr. Presidente, que nas obras de ligação asfáltica entre Pão de Açúcar e Santana do Ipanema, o Governador de Alagoas vem prestigiando os políticos locais, pois, a Aliança Renovadora Nacional tem representantes das cidades mencionadas nos legislativos estadual e federal, nas pessoas cios ilustres companheiros Pedro Ferreira, Humberto Mello, Geraldo Bulhões e este que agora lhes fala. Portanto, desta tribuna, quero agradecer ao Governador Divaldo Suruagy pelo seu esforço em dar à região que represento e ao Estado que nos mandou a esta Casa o melhor em estradas e rodovias, fator de integração e desenvolvimento, principalmente em Alagoas.


Era o que tinha a dizer.”


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Nota-se aqui um aparente descompasso cronológico entre a autorização legislativa e o início dos trabalhos. A explicação pode ser obtida, entre outras, pelo fluxo administrativo da época.


Em que pese a Resolução nº 25 do Senado Federal ter sido promulgada apenas em 20 de maio de 1976, os bastidores políticos e operacionais da obra já caminhavam em ritmo acelerado. Prova disso é o discurso do deputado Antônio Ferreira, publicado no Diário do Congresso quase um mês antes, em 24 de abril de 1976, no qual o parlamentar celebrava a assinatura dos contratos com as empreiteiras e o início imediato dos primeiros serviços.


Longe de ser uma contradição cronológica, essa defasagem de datas reflete a dinâmica administrativa da época: com o aval técnico do Ministério da Fazenda e do Banco Central praticamente assegurado, devido ao alinhamento político entre o governador Divaldo Suruagy e o regime federal, o Estado antecipou a assinatura dos contratos e os trabalhos preliminares de campo.


A subsequente aprovação pelo Senado funcionou, portanto, como a chancela jurídica e o aval financeiro definitivo do Tesouro Nacional, garantindo o fluxo subsequente dos dez milhões de dólares que sustentariam as medições de grande porte das rodovias nos meses seguintes.


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Em 7 de novembro de 1976, com a inauguração da pavimentação asfáltica da rodovia AL-130 — cujas obras haviam sido concluídas quatro dias antes —, consolidou-se a integração da bacia leiteira e do comércio ribeirinho do Rio São Francisco em Pão de Açúcar.


Hoje, passados 50 anos, podemos comemorar e afirmar que a ligação asfáltica reduziu drasticamente o tempo de viagem entre as cidades beneficiadas e a capital, Maceió, superando os antigos obstáculos logísticos da região.

 Descerramento da placa de inauguração. Foto: acervo da Prefeitura Municipal de Pão de Açúcar.


Caminhando sobre o asfalto: A partir da esquerda: o Deputado Federal Antônio Ferreira, o Sr. Eraldo Lacet Cruz (então candidato único a prefeito), o Sr. José Monte Ferreira, o prefeito Augusto de Freitas Machado, o governador Divaldo Suruagy e o senador Arnon de Mello. - Foto: acervo da Prefeitura Municipal de Pão de Açúcar.


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Fotos do acervo da Prefeitura Municipal de Pão de Açúcar. Evento realizado no auditório do Colégio São Vicente. Nelas aparecem diversas outras pessoas da cidade, algumas das quais conseguimos reconhecer. Deixamos aos leitores a tarefa de identificá-las e postar aqui nos comentários. Grato.


NOTA:

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.


[i] Essas quantias equivalem a Dezessete Contos, Cento e Cinquenta e Dois Mil e Quinhentos Réis (17:152$500), e Seiscentos e Oitenta e Seis Mil e Cem Réis (686$100), respectivamente.

quinta-feira, outubro 8

O PRESIDENTE JOSÉ BENTO EM PÃO DE AÇÚCAR – IMAGENS DA VILA

 

Por Etevaldo Amorim


O Presidente José Bento da Cunha Figueiredo Junior e sua comitiva em Pão de Açúcar


Iniciava-se o ano de 1869. O Brasil, compondo a Tríplice Aliança, achava-se envolvido no maior conflito armado do continente sul-americano: a Guerra do Paraguai. Tamandaré e Barroso, que tinham estado em Pão de Açúcar acompanhando Dom Pedro II, se tornariam figuras de destaque das nossas Forças Armadas.


No dia 5 de janeiro, dois dias depois de as tropas brasileiras tomarem a capital paraguaia, prenunciando o fim da guerra, chegava à então Vila do Pão de Açúcar o Dr. José Bento da Cunha Figueiredo Junior[i] acompanhado de numerosa comitiva. Durante o seu governo, foram enviados aos campos de batalha 277 homens, sendo 232 recrutas para o Exército, 28 recrutas para a Armada (Marinha) e 17 menores como aprendizes.


Tendo sido nomeado por Carta Imperial de 22 de agosto de 1868 e tomado posse em 2 de outubro do mesmo ano, este pernambucano logo daria mostras da profícua administração que faria, levando a cabo importantes obras, sobretudo na capital da Província, apesar do curto espaço de tempo, pois deixaria o governo em 28 de agosto de 1871, mesmo que para tanto onerasse os cofres provinciais, comprometendo futuras administrações.


Do Relatório dessa viagem ao baixo São Francisco, pudemos colher significativas informações sobre a promissora “Vila do Pão d’Açúcar”, pernoite obrigatório para tantos quantos se aventuravam pelos sertões sanfranciscanos.


A bordo do vapor Jaguaribe, pertencente à Companhia Pernambucana e sob o comando de Manoel Rodrigues dos Santos Moura, o Presidente se fez acompanhar de numerosa comitiva, com a qual se deixou fotografar por Abílio Coutinho, um dos pioneiros da fotografia no Brasil, diante de uma das pedras que compõem o hoje denominado “Parque da Paciência”.


No vapor Jequiá, da mesma Companhia, viajava o seu gerente, Sr. Francisco Ferreira Borges.


De Penedo em diante, o Presidente e comitiva passaram a utilizar os vapores da Companhia Baiana, cedidos pelo gerente, Sr. Luiz Campos. Aliás, as duas empresas disputavam o privilégio de explorar a navegação no rio São Francisco, sendo que a Baiana já gozava de subvenção dos governos de Alagoas e Sergipe.


Assim, no dia 5 de janeiro, já a bordo do vapor Paulo Afonso, comandado pelo Sr. João de Souza Reis, o Presidente José Bento e sua comitiva alcançavam as terras do sertão. Do seu Relatório, escrito por Olympio Eusébio de Arroxelas Galvão e José Antônio de Magalhães Basto, retiramos o seguinte relato:


“Antes de chegar-se a Pão de Açúcar, deixamos à direita o Araticum e a ilha de São Pedro, residência do virtuoso Frei Doroteu; a Tapera e o Saco Grande; e, à esquerda, a povoação de Lagoa Funda, com uma pequena capelinha, contendo 80 casas de telha, e é distrito de uma subdelegacia, pertencente ao Termo de Traipu e tem uma aula de instrução pública primária para o sexo masculino, dista 6 léguas daquela Vila e 4 abaixo do Pão de Açúcar.”


“Um pouco mais acima deste povoado confina a Comarca de Penedo com a de Mata Grande, pelo rio; adiante a povoação do Limoeiro, com uma capela de excelente construção e alegante, dedicada a Jesus, Maria e José, 2 ruas com mais de 60 casas, pertencente já ao Termo de Pão de Açúcar, de que dista 3 léguas; mais além, povoado Jacarezinho, Santiago, riacho e morro do Faria.”


Precisamente às 15:25 h, fundeava o vapor Paulo Afonso e, logo em seguida, o Jequitaia, onde foram recebidos por grande número de pessoas. Foguetes no ar, bandeiras em terra e tiros de bateria saudaram os ilustres visitantes.


E prossegue a narrativa:


“Sua Excelência foi logo convidada com sua comitiva para jantar em terra. A bordo, foi cumprimentado pelo Estado Maior da Guarda Nacional. Ao saltar em terra, toda a oficialidade uniformizada, a Câmara Municipal em corporação, revestida em suas insígnias, empregados públicos, delegado, subdelegado, muitos outros cavalheiros e particulares acompanhavam a S. Exª até o sobrado da residência do Ilustríssimo Senhor Dr. Juiz de Direito Paes Barreto (ausente), ricamente preparado para esse fim.”


“O presidente da Câmara Municipal dirigira uma breve alocução oral, a que S. Excelência respondeu logo agradecendo.”


“O jantar foi profuso e variadíssimo. Nessa recepção, distinguiram-se entre outros os senhores Major Cunha Figueiredo, Major Machado Novaes, Mariano Cavalcante, etc.”


“À tardinha, S. Excelência visitava a Matriz, único templo e não acabado dessa importante e florescente Vila, o cemitério, etc.”


“Tem mais de trezentas casas de telha, em geral bem construídas e altas. As ruas paralelas com o rio, exceto uma, para a frente da qual olha a principal, que é bastante extensa: são as da Matriz, Flores, Aurora, Feira Velha e Senzala.”


“A da Matriz é notável por ser reta, longa e muito larga, devendo-se a alguns particulares um ensaio de arborização, tão necessária à boa higiene dos habitantes e como meio de mitigar a ação do calor abrasador, que ali reina na estação calmosa, aumentado por enorme quantidade de pó, que se levanta durante o dia, e próprio do terreno que é areiento.”


“A Vila edificada num belo e espaçoso plano, que lhe dá linda perspectiva e ministra-lhe ainda bastante espaço de terreno para alargar-se e desenvolver-se, devendo sua denominação ao morro do Pão de Açúcar, um pouco acima, a Sudoeste e à distância de um tiro de canhão: pequeno e rotundo, de forma cônica, bem merecedor do nome que lhe dão, e é conhecido também por Morro do Cavalete. Duas léguas atrás, em rumo setentrional, fica a importante e majestosa Serra do Pão de Açúcar”.


“Contém um comércio que tende a prosperar; e 3 mil habitantes, devendo ter, a Freguesia e o Município, 7 a 8 mil almas, pouco mais ou menos.”


“A freguesia tem por invocação o Sagrado Coração de Jesus.”


“Na Vila existem fábricas de vapor para descaroçar algodão e mais de 20 casas de comércio.”


“O terreno é de criação e agrícola, dando riquíssimo e abundante algodão, mas acaba de ser assolado pela seca.”


“Na Vila residem o Juiz de Direito e o promotor da Comarca, o Juiz Municipal e o Delegado do Termo, o Subdelegado, vigário, um professor e uma professora de instrução pública primária, um Inspetor Paroquial, um gerente dos correios, coletores de rendas gerais e provinciais, Câmara Municipal, etc., e dá 18 eleitores apenas. Dista 24 léguas do Penedo e 61 da Capital.”


“Toda a comitiva pernoitou em terra, sendo S. Excelência constantemente visitado em Palácio, onde a música marcial, de bordo, tocou à porta lindas peças.”


“Às 6 horas da manhã do dia 6, os vapores da navegação fluvial se encaminharam para o termo de sua viagem a Piranhas.”


Concluída a viagem a Piranhas, o Presidente e comitiva iniciaram o retorno. Assim, no mesmo dia, o relatório registra:


“Voltou o Paulo Afonso, que às 5 horas fundeava outra vez em Pão de Açúcar, onde à tarde Sua Excelência e oito pessoas da comitiva passearam a cavalo pelas ruas da Vila, várzeas e lagoas adjacentes, e foram ao morro do Cavalete, onde subiram até certa altura, conseguindo, posto que temerariamente, o Sr. Dr. Carlos de Mornay chegar ao seu cume, montado.” “Pernoitou-se ainda em terra, em Palácio, tocou-se e cantou-se bastante.”


“Na manhã do dia seguinte, às 7 horas, a comitiva e S. Excelência deram um belo passeio a pé a uma aprazível eminência de pedras, que fica atrás das ruas da Vila, donde se descortina magnífico panorama. Esse belo quadro foi tirado pela máquina fotográfica, graças à habilidade e trabalhos do Sr. Abílio Coutinho.”


“Às 9 horas, despedia-se de nós a importante Vila e o generoso povo de Pão de Açúcar.”

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AS PRIMEIRAS IMAGENS DE PÃO DE AÇÚCAR E LIMOEIRO


Dessa importante passagem do Presidente da Província, ficaram-nos como herança os primeiros registros fotográficos de nossa terra.


FOTO DA COMITIVA


O Dr. José Bento da Cunha Figueiredo Junior (Presidente da Província, no alto, de cartola preta); Sr. Manoel Rodrigues dos Santos Moura (comandante do vapor “Jaguaribe”, da Cia. Pernambucana); Sr. Ildefonso Cantidiano da Silva (Oficial de Gabinete); Sr. Francisco Ferreira Borges (gerente da Companhia Pernambucana); Dr. João Batista Pinheiro Côrte Real (Juiz Municipal de Penedo); Sr. João de Souza Reis (comandante do vapor Paulo Afonso); Srª Angélica Arnoud Coutinho (esposa do fotógrafo Abílio Coutinho); Alferes José de Mello Passos (Ajudante de Ordens de Pessoa); Dr. Manoel Joaquim dos Santos Patury (Promotor Público de Mata Grande); Dr. José da Costa Carvalho Guimarães Junior; Dr. Manoel Sobral Pinto; Srª Luiza Mendonça (esposa do Major Luiz José de Mendonça); Carlos de Mornay (engenheiro da Província); Major João Machado de Novaes Mello (futuro Barão de Piaçabuçu, de cartola branca); Major Cunha Figueiredo; Dr. José Antônio de Magalhães Basto; Dr. Jorge Dornellas Ribeiro Pessoa[ii]; Major Luiz José de Mendonça; Cap. Bezerra Góis de Sant’Ana; Alferes Manoel Gonzaga; Tenente João Alberto Ribeiro e o Dr. Olympio Eusébio de Arroxellas Galvão.

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Pão de Açúcar, Rua da Praia, 1869. Foto: Abílio Coutinho


FOTO DA RUA DA FRENTE


Principal porta de entrada da Vila, esta fotografia mostra a região do porto, com pessoas e algumas canoas ancoradas com seus panos enluvados. Uma delas, claramente, é uma canoa de tolda, munida de um par de velas latinas unidas por um único mastro e postado diante da tolda, popularmente chamado de pano-de-asa.


Em primeiro plano, vemos uma caverna, peça de madeira arqueada com que se armavam as canoas em sua construção.


À direita, entre o casario simples, destacam-se dois sobrados: o primeiro, velho conhecido nosso, hospedou D. Pedro II, em 1859, e está atualmente em reforma. O segundo foi demolido pelos seus proprietários, herdeiros do Dr. Erasmo Rodrigues Lima.

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Pão de Açúcar, Rua do Meio, 1869. Foto: Abílio Coutinho


FOTO DA RUA DO MEIO, ATUAL AV. BRÁULIO CAVALCANTE


Aqui temos a região central da cidade: a Rua do Meio, depois chamada Av. Rio Branco e, por fim, Avenida Bráulio Cavalcante.


Tomada, provavelmente, das imediações da Prefeitura, a fotografia mostra o trato de terra — esse combro imenso —, tendo como limite ao fundo o Morro do Cavalete e o serrote que se estende para a direita.


Ao centro, em meio a um princípio de arborização, notam-se buracos no meio da rua, por certo decorrentes da retirada de material para construção.


À esquerda, veem-se habitações humildes e animais que se abrigam à sombra das árvores.


À direita, vemos um sobrado que não mais existe e, logo a seguir, a esquina com a então Rua Pedro Paulino, atualmente chamada Coronel Manoel Antônio Machado. Mais adiante, podemos identificar a velha igreja matriz, em plano diferente do que vimos na foto anterior, prolongando-se o arruamento até o ponto onde, em 1877, se iniciaria a construção da Cadeia Pública."

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Rua Augusta, atual Pe. José Soares Pinto, 1860. Foto: Abílio Coutinho


FOTO DA RUA AUGUSTA, ATUAL PE. JOSÉ SOARES PINTO


Temos aqui uma vista da Rua Augusta, já há muito tempo, denominada Padre José Soares Pinto. Bastante larga, ela vai se estreitando na saída para a então Rua do Meio (atual Avenida Bráulio Cavalcante). Atualmente, essa largura é disfarçada pelas calçadas que se projetam para muito além do alinhamento das casas.


A rua larga e espaçosa dava lugar a um início de arborização. Ao fundo, à esquerda, vemos a igreja matriz em sua forma original, sem torres, depois reformada segundo o projeto de Frei Cassiano de Comachio, cuja obra foi concluída em 1877. Ainda à esquerda, pessoas sentadas no batente das portas ou em cadeiras, abrigadas à sombra formada pela manhã ensolarada, parecendo conversar tranquilamente, em meio a animais soltos na rua.


À direita, casas de duas águas, cobertas com telha canal, com cumeeira e pé-direito altos; o detalhe das fachadas das casas demonstra a moda de portas partidas ao meio, abrindo-se apenas a parte de cima e mantendo fechada a parte de baixo. Entre uma casa e outra, uma peça que parece um pilão. Vê-se ainda uma das residências em construção no formato de sobrado.

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Pão de Açúcar, "Cavalete", 1860. Foto: Abílio Coutinho

FOTO DO CAVALETE

O álbum que compõe o relatório da viagem do Dr. José Bento anota esta foto como sendo do “Cavalete”, sem, no entanto, mostrar o morro de mesmo nome. Presume-se que seja a “Rua da Senzala”, também referida no documento da viagem, composta de moradias de escravizados.

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Pão de Açúcar, povoação do Limoeiro, 1869. Foto: Abílio Coutinho


FOTO DO LIMOEIRO


Essa foto, certamente tomada das proximidades da barra da lagoa da igreja, mostra um Limoeiro em formação. Tomando-se como base a igreja, que não era senão uma pequena capela, cuja construção data de 1787, a povoação teria aproximadamente oitenta anos. Vê-se apenas duas ruas: a atual Mário Vieira, que sobe do porto de baixo para a igreja; e a Bráulio Cavalcante (rua de Baixo), que só tinha um lado. Não havia nenhuma das casas das que hoje fazem fundo para o rio. Em primeiro plano, temos a cerca de pau-a-pique, a porteira e uma árvore, que bem pode ser a velha marizeira que ainda existia até meados da década de 1980, e que servia de abrigo a canoas em construção ou conserto. Por detrás dela, vemos o casarão que pertenceu ao meu avô João Amorim, onde atualmente há um Clube.

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Pão de Açúcar, assim como outras localidades alagoanas da região do Baixo São Francisco, devem a Abílio Coutinho a possibilidade de terem imagens de sua formação e do seu desenvolvimento, 148 anos atrás.


Mas, afinal, quem é Abílio Coutinho?


Abílio de Souza Coutinho era português. Jornais do Rio de Janeiro, noticiando o movimento do porto, registram a sua chegada no patacho português Maria, no dia 11 de janeiro de 1856, vindo de Loanda.  Essa seria, provavelmente, a data de sua chegada ao Brasil.


No dia 2 de janeiro de 1859, casa-se com Angélica Arnaud. A cerimônia foi realizada na Capela Imperial, tendo como padrinhos Leopoldina Frolik e Guilherme Froik, por parte da noiva; e o Sr. João Valentim, do noivo.


De origem italiana, procedente de Nápoles, dona Angélica era Irmã do maestro Genaro Arnaud e de Carlo Arnaud, Giácomo Arnaud, Achilles Arnaud, Carmella Arnaud Tostivin e Michele Arnaud, este falecido em 20 de abril de 1860 no Rio de Janeiro.


Em 1865, já tinham dois filhos: Achilles Arnaud Coutinho e Guilherme Arnaud Coutinho.


Dona Angélica (Maria Angelica Concetta Arnaud), uma das duas mulheres que aparecem na foto de Pão de Açúcar, nasceu no bairro San Ferdinando, Nápoli, Itália, a 16 de janeiro de 1837. Residindo na Rua Ferreira Viana, 119, no Rio de Janeiro, faleceu no dia 26 de dezembro de 1885 e foi sepultado no Cemitério São João Batista.


Em 1861 e 1862, o Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro registra Abílio Coutinho como “negociante”. Em outras fontes, aparece como empreiteiro de obras públicas, inclusive em Alagoas, durante a presidência do Dr. José Bento.[iii]

 

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NOTA:


Caro leitor,


Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Formado em Direito pela Faculdade do Recife. Filho de José Bento da Cunha Figueiredo (Visconde de Bom Conselho) e de Rosa Valeriana Duarte, nasceu em Pernambuco em 29 de novembro de 1839. Faleceu em Lorena, São Paulo, a 3 de agosto de 1885.

[ii] Filho de Jacinto Dornellas Pessoa e Brígida Maria Dornellas Pessoa, nasceu em Olinda em 23 de abril de 1934 e faleceu no Rio de Janeiro em 26 de dezembro de 1890. Formado em Direito pela Faculdade do Recife.

[iii] Fontes:   Jornal do Comércio, RJ, 12 de março de 1856, p. 3; Correio Mercantil, RJ, 12 de março de 1856.

quinta-feira, outubro 1

DELMIRO, ESSE DESPREZADO – CRÔNICA DE UM PÃO-DE-AÇUCARENSE

 

Por Etevaldo Amorim


Delmiro Gouveia. Foto: Fundação Joaquim Nabuco.


Transcrita da revista Mocidade[i], edição Nº 19 - Julho - Dezembro de 1949, publicamos hoje uma crônica do Dr. Pedro Soares Vieira, esse nosso conterrâneo de quem falamos recentemente. (https://blogdoetevaldo.blogspot.com/2026/07/personalidades-pao-de-acucarenses-dr.html


Ainda como estudante, o jovem Pedro emitia suas impressões sobre esse grande empreendedor e propulsor do desenvolvimento do sertão alagoano. Boa leitura.

 

“Pedra. Sim, de fato o seu aspecto é verdadeiramente lindo, ao longe, casas alvas, alinhadas e que se tornam risonhas ao contato da luz do sol e, à noite, o esplendor das lâmpadas elétricas bem definem o esforço de um ente predestinado a tirar de um nada a caatinga e fazer a estupenda metamorfose que se observa.


A natureza é pródiga, oferecendo ao ser humano o que possui. O esforço profícuo do homem de ação, amante da grandeza e da prosperidade, deixando o seu benefício para a posteridade julgar, acertadamente.


Nem sempre a ambição é prejudicial. Delmiro, homem pobre (não se espírito), fecunda imaginação, tirocínio inigualável, esforço dominador de sua vontade sequiosa de atos de levantamento moral e cultural, energia ferrenha, a mão da Divina Providência e protegia e recheava o seu cérebro da magna perfeição do progresso industrial.


O tabaréu do Ceará, não se sentindo satisfeito à sua condição de vida como o pobre Jeca Tatu de Lobato, que vive ao bel prazer da exploração desenfreada.


Suportava com amargura as injustiças do empregador para com o empregado.


Depois de ter construído o Cassino Derby, na cidade do Recife, abandona o convívio com pessoas educadas, para se transformar o ídolo, o bandeirante afoito, o intrépido desbravador e desencantador de nossa maravilhosa riqueza que a mãe natura nos ofereceu com toda a sua pujança.


Grandes dificuldades, porém, o espírito forte vence todos os atropelos.


O seu esforço foi para o Brasil uma fonte de engrandecimento de uma zona onde nada existia, a não ser a macambira.


Delmiro se deslumbrou com as quedas de Paulo Afonso, não como muitos visitantes, mas para tirar dali daquele paraíso de fadas, o enriquecimento que as suas lindas quedas iriam produzir.


Castro Alves decantou-se e Delmiro, lutando com homens rudes e a inclemência da “luz crua dos dias sertanejos”, que é para desanimar os fracos, mas, sentia “estonteadoramente” – ofuscante, num irradiar ardentíssimo” o que bem e bom a posteridade iria aproveitar.


O que a natureza faltou fazer, Delmiro o fez – aproveitamento de sua seiva – a energia hidráulica.


Buckle, em suas geniais extravagâncias, “faz deste país região privilegiada onde a natureza arrumou a sua mais portentosa oficina...”[ii]


Só faltava u’a mão enérgica, hábil e resoluta para o magno empreendimento, cabendo a escolha ao sertanejo Gouveia.


As grandezas do seu esforço estão como marco imperecível de sua vitória para com a natureza, domada por mão de um homem rude, mas inteligente.


E ele, sentindo a frase: “Deus nunca falou tão alto como em Paulo Afonso”, prosseguiu, mas a mão negra pôs termo a um ser vivente que não poderia desaparecer, sem que a justiça o defendesse – honrado pelo menos o aureolado nome desse indomável desbravador dos sertões.


A ambição de Gouveia serviu de melhoramento, não para ele que não pode usufruir dos seus direitos, mas para a grandeza do povo que continua a sua obra empreendedora.


Não sei se o seu mausoléu é alvo. O genial poeta criador da realidade apreciava as vestes brancas e deveria ser um túmulo branco a sua última morada.


E entre verdes matinhos e maltratados, ergue-se a sua última morada, não pomposa como era merecedor, muito simples, recompensa dos seus esforços.


Não é tratado com o desvelo merecedor.


Delmiro é um ídolo do povo, desejava fazer de Pedra uma outra cidade, talvez o coração do Brasil, mas a inveja que campeia empessoas medíocres fizera com que a filha de Delmiro (Pedra) ficasse sempre engatinhando, com o seu desaparecimento.


Sempre cuidadoso e o seu mausoléu tão desprezado.


Delmiro merecia uma pirâmide, como marco de sua imortalidade e não um simples túmulo.


Os verdadeiros ídolos dos povos não morrem, vivem a guiar os passos sadios que devem ser dados.


Delmiro merece ser melhor cultuado, pois a sua obra é imperecível na história do bem da humanidade.


O desprezo que lhe dão é tão imenso que não cabe no coração do mundo.


E... assim é a humanidade.”


____

 

NOTA


Caro leitor,


Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Revista Mocidade, redigida e publicada pelos próprios alunos. A ideia partiu de três estudantes: José de Souza Alencar — que ficou mais conhecido como Alex, jornalista do Jornal do Commercio em Recife, faleceu em janeiro de 2015 —; Heitor Palmeira Florêncio e João Palmeira Florêncio, que apresentaram o projeto ao Padre Teófanes. A revista foi lançada em ato realizado no auditório do Instituto de Educação no dia 30 de maio de 1946. Fonte: Site História de Alagoas

https://www.historiadealagoas.com.br/historia-do-colegio-guido-de-fontgalland.

 [ii] Henry Thomas Buckle foi um historiador britânico, autor da História da Civilização na Inglaterra. Autodidata, Buckle está associado ao positivismo historiográfico, tendo exercido grande influência entre intelectuais brasileiros do final do século XIX. A frase é uma citação direta de um dos maiores clássicos da literatura brasileira: o livro Os Sertões (publicado em 1902 por Euclides da Cunha).

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia