terça-feira, setembro 15

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A ILHA DOS PRAZERES – CRÔNICA PÃO-DE-AÇUCARENSE

 

Por Etevaldo Amorim


A Ilha dos Prazeres. Foto: Site Canoa de Tolda.


Há, no baixo curso do rio São Francisco, uma elevação denominada Ilha dos Prazeres, em referência à simpática capela erigida em seu cume, em 1624, e que invoca a devoção a Nossa Senhora dos Prazeres.


Situado entre os povoados de Barra do Ipanema, município de Belo Monte-AL (na margem esquerda) e Ilha do Ouro, município de Porto da Folha-SE (na margem oposta), esse acidente geográfico oferece aos visitantes um belo panorama de toda a região, chegando até a mostrar, ao fundo, a majestosa Serra do Meirus e tudo quanto mais se possa avistar.


Sobre o morro e sua capela muitos viajantes já trataram em seus relatos e suas memórias, desde Vieira de Carvalho, Avé Lallemant, George Gardner, Dom Pedro II, etc, expressando sobre ele as mais variadas impressões.


Ultimamente, passando pelas páginas do Jornal do Penedo, edição de 26 de agosto de 1879, encontrei essa crônica, escrita em Pão de Açúcar, mas sem indicação de autoria. Termina com um lacônico “P.S. (do Paulo Affonso)”. O PAULO AFFONSO era um jornal fundado em Pão de Açúcar por Achiles Balbino de Leles Mello, em 27 de outubro de 1878. Anunciava-se assim: “Periódico imparcial, noticioso, comercial e literário”. Com oficinas na Rua do Comércio, nº 37, trazia em epígrafe: “Advoga a santa causa da ordem, da civilização e da justiça”.


Lamentando não poder identificar o autor de tão bela narrativa, transcrevo para conhecimento de todos:

 

“Pão de Açúcar, 24 de agosto de 1879.


N. S. DOS PRAZERES


Quem desta cidade desce rio abaixo, dando costas ao sol poente, quando passa pouco abaixo da importante povoação denominada Lagoa Funda[i], terá diante dos olhos, no mais elevado da coroa de um morro, ereta e grandiosa a Igreja dos Prazeres, cuja perspectiva majestosa atrai a curiosidade e comove a alma do viajante.


Que doce recordação a que este lugar sagrado embebe em si! Que belo espetáculo o que, na sua eloquência muda, testemunha este terreno abençoado!


No alto, a MÃE DE DEUS e dos homens, vestida de glórias, tendo por coroa o firmamento estrelado, cintilando nos espaços celestes. Aos seus pés a natureza – terra verde, animada pelos aspectos suaves e grandiosos duma meiga paisagem, sempre aquecida pelo calor e luz deslumbrante, que lhe derrama ao sol, regada pelo cristalino rocio, que a sustenta e formoseia.


Vista assim de longe, como na baixa, a Igreja, assentada na sumidade do morro, merece o nome pomposo de – PRAZERES, que lhe aplicaram os antigos, apresentando-se com a majestade própria de quem serve de trono à SOBERANA IMPERATRIZ da terra.


O cume do morro é esplanado e pouco abraça de círculo; é coroado de espinheiros bravios e matos silvestres.


O modelo da Igreja e uma inscrição, gravada acima da porta principal, atestam a antiguidade da tradição popular, que aponta este lugar como sendo consagrado desde o século antepassado pela mesma vocação.


Ao Norte, como ao Sul, os lados do morro, além rio, vestem-se de formosas várzeas de um verde alegre, e de oiteiros frescos à sombra de árvores.


Quase defronte, à margem esquerda, alveja Boa Vista.


A Leste, entra-se numa dilatada campina, assombrada de vistosos arvoredos; e a qual toda forma a ilha do mesmo nome.


A Oeste, a vista alarga-se nas águas azuladas do majestoso São Francisco, as quais espraiando-se, levantam por um lado medões[ii] de areia, enquanto do outro se quebram, ladeando, ribanceiras elevadas.


A dois tiros de arco, à margem direita, onde a corrente é menos funda e mais estreita, o riacho do Ipanema, com sua lagoa quase redonda, cujo leito abrange pouco mais ou menos, um quarto de círculo; mais acima, e no mesmo correr, a Barra, cujos lanços rotos e caídos dos seus edifícios conservam, em deplorável imagem, uma desfigurada memória do que foi no passado. Até onde a vista alcança, nas proximidades, os sítios amenos, frescos a aprazíveis, completam a perspectiva e enchem o lugar de misteriosa majestade.


Antes de concluir não inútil referir o que reza a tradição popular, apresentando à piedade dos peregrinos, o templo que a devoção anseia conhecer e venerar.


Era no fim do século dezessete.


Ao tempo em que os avoengos dos primeiros habitantes da Barra ocupavam o sítio denominado Lagoa Seca, um pouco mais abaixo daquela, tratou-se de edificar um templo em honra da VIRGEM MÃE, no ponto mais saliente da terra firme.


Nisto desaparece a primorosa efígie de Maria, que fazia o adorno do Oratório privado da primeira Senhora da família; e a quem os fiéis, se recomendando, julgavam-se defendidos no presente e olhavam para o futuro com mais inteira confiança.


Depois de reiteradas buscas e acuradas indagações, foi encontrar a imagem, com assombro e admiração de todos, sobre o tope do morro, dentro da cavidade de uma concha.


E logo depois desde sucesso admirável, que bem claramente revelava a vontade da Mãe de Deus, levantou-se o templo naquela eminência encantadora, sob a invocação dos infatigáveis padres da Companhia de Jesus.


Esta tradição popular não é mais do que notícia, filha de crença que devemos supor sincera, mas que de nenhum modo obriga. Tal é a única autoridade em que ela se funda.


Referindo-se, o nosso fim é acudir a curiosidade dos que desejam saber.


P. S. (do Paulo Afonso)”


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Transcrito do Jornal do Penedo, 26 de agosto de 1879.

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Igreja de N. S. dos Prazeres. Foto: Adailson Calheiros


Ainda sobre a famosa ilha e sua capela, temos também esse anúncio, contido no Jornal do Penedo, 8 de fevereiro de 1890, que descreve as terras da fazenda:


“SÍTIO À VENDA


Vizinho à Barra do Ipanema e quase na confrontação da Ilha do Ouro, tem alguns membros da família Cavalcante, do Engenho Furado, um dos melhores sítios de quantos existem no Baixo S. Francisco.


A casa de vivenda assente na terra firme, a pequena distância da aprazível Igreja dos Prazeres, com sua sólida construção, oferece bons cômodos.


Os terrenos de plantação de arroz, compreendidos em duas léguas e em toda a extensão da parte d’aquém do riacho do Ipanema até encontrar a primeira extrema da cerca de pedra da manga, dão anualmente nada menos de trezentos alqueires[iii], não falando na produção de outros cereais, cultivados nos cômoros[iv].


A grande manga, cercada toda ela de pedra, tem proporções para acomodar os gados magros das fazendas e refrigerá-los no tempo da seca.


Todo o demais terreno, que se estende para o interior até a distância de duas léguas, é próprio para o cultivo não só do algodão, milho, feijão e mandioca, como para a criação de gado de toda a espécie. E é nele onde estão sitas quatro não pequenas fazendas, ocupando cada uma delas um vaqueiro.


É este o sítio, cujos consenhores[v] têm resolvido vender, podendo quem pretender levar a efeito essa compra entender-se com o abaixo assinado.


Barra do Ipanema, 20 de março de 89.


Antônio de Sá Quintela Cavalcante[vi]

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Em 1936, essa fazenda foi assaltada pelos cangaceiros José Moreno e Mariano. Na época, a propriedade pertencia ao Sr. Júlio de Freitas Machado, pai do Dr. Olavo de F. Machado (este recentemente falecido).


Atualmente, e desde muitos anos, essas terras pertencem a herdeiros do Dr. Djalma Gonçalves dos Anjos e continuam encantando a todos por sua exuberante beleza natural.


Ilha dos Prazeres, 1869. Foto: Abílio Coutinho.


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NOTA


Caro leitor,


Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Atual cidade de Belo Monte, Estado de Alagoas, situada à margem esquerda do rio São Francisco.

[ii] Dunas ou grandes acumulações de areia formadas pelo vento junto ao rio.

[iii] Alqueire era uma antiga medida usada para grãos, no Baixo São Francisco. Um alqueire tem 16 salamins; e um salamim tem cerca de 2,27 litros.

[iv] Cômoro. O mesmo que combro. Elevação de terra que separa a calha principal do rio das áreas mais baixas inundáveis, conhecidas como as lagoas marginais e as várzeas.

[v] Consenhores = proprietários.

[vi] Cel. Antônio de Sá Quintella Cavalcante. Filho de José Cavalcante de Albuquerque e Rosa Maria Rabello Quintella. Nasceu em São Miguel dos Campos-AL, em 1854 e faleceu em Maceió em 12 de fevereiro de 1901. Casado com Anna Maria Quintella Cavalcante, era proprietário do Engenho Goes.

segunda-feira, setembro 7

AMOR DA PÁTRIA

 

Júlia Lopes de Almeida[i]

 

Imagem criada por IA para ilustrar este conto de Júlia Lopes de Almeida.


No dia em que entrei para o colégio, em março de 1845, disse o velho Dr. Henrique a seu neto Jorge, presenciei uma cena de que jamais me esquecerei.


Frequentava eu uma escola em Maceió, onde nasci. Como chovesse, éramos poucos na aula. Sentia-me à vontade porque, graças aos desvelos de minha mãe, eu já sabia ler alguma coisa e contar menos mal.


Eram doze horas e escrevíamos todos o nosso bastardo[ii] em cadernos ou lousas quando, sentindo rumor de passos, erguemos o olhar com curiosidade. Era um soldado que entrava com um pequeno raquítico pela mão. Queria matriculá-lo e, enquanto o mestre lhe escrevia o nome, a idade e a filiação no registro da escola, o soldado anediava[iii] os cabelos negros e encaracolados do filho.


Concluídos os apontamentos, o soldado disse:


“Senhor professor, há poucos dias que eu abracei meu filho; quase que o não conhecia, e explico-lhe isto para que o senhor compreenda a minha intenção.


Quando parti para o Rio Grande do Sul, deixei aqui no Norte minha mulher doente e meu filho com dois meses apenas.


“Eu era um simples soldado raso e ela, que não tinha recursos e era fraca, passou grandes privações. Por isso o menino não se desenvolveu.


“Só depois de acabada essa maldita guerra[iv] foi que voltei para casa, esperando ter a consolação de encontrar nela um rapaz forte, belo, alegre e desembaraçado, capaz de, mais tarde, empunhar a minha espada e defender a honra da nossa pátria com a valentia e o denodo de um verdadeiro soldado.


“Tive uma desilusão amarga quando deparei com meu filho, com estes ombros contrafeitos e este rostinho murcho de criança criada sem sangue nem alegria.”


O soldado parou, com a voz embargada pela dor; o rapazinho, humilhado, tinha os olhos cheios de lágrimas, as faces rubras de pejo e via-se que, sob a roupinha parda que vestia, todo o seu miserável corpo de aleijado estremecia numa angústia dolorosíssima.


O professor então disse alto, como se falasse a todos nós:


- Não é só com a espada que se pode elevar o nome da Pátria! As artes, as ciências, as indústrias, a agricultura, são mais belos e mais vastos campos de batalha, onde nos fica muitas vezes o coração a bem da terra que nos foi berço. Na História, fulguram com mais límpido brilho nomes de poetas que de generais. A glória de um povo não está em ser guerreiro, nem saber matar; mas exatamente em saber evitar a guerra, sempre com brio, ordem, amor ao trabalho, e consciência do seu valor. Ninguém teme afrontas quando tenha a justiça do seu lado! Vá tranquilo; trabalharei para que seu filho seja um digno cidadão desta terra, que é nossa e que todos amamos!”


Não sei porque espontâneo sentimento, como se se visse reabilitado do vexame por que tinha passado, o corcundinha beijou calorosamente as mãos do mestre e depois, voltando-se para nós, ergueu bem alto os seus braços longos e finos, e gritou com força, transfigurado e lindo:


Viva o Brasil!


Viva! Respondemos todos nós de pé, compreendendo por instinto que dentro daquele corpo mesquinho e doente palpitava uma alma forte, capaz dos sentimentos que mais enobrecem o homem e que melhor fazem progredir a terra que o viu nascer!


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Transcrito de A GAZETA-Edição infantil, São Paulo, 21 de agosto de 1930. Do livro HISTÓRIAS DA NOSSA TERRA, ALMEIDA, Júlia Lopes de. Livraria Francisco Alves, 1911.

Publicamos a propósito das comemorações da Independência do Brasil

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NOTA


Caro leitor,


Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Júlia Valentina da Silveira Lopes de Almeida foi uma escritora, cronista, teatróloga e abolicionista brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro em 24 de setembro de 1862 e ali faleceu em 30 de maio de 1934. Júlia Lopes de Almeida foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras (ABL), participando das primeiras reuniões e constando da lista inicial de fundadores. No entanto, ela foi excluída da lista final por ser mulher, e a cadeira para a qual foi cotada acabou sendo ocupada pelo seu marido, Filinto de Almeida. O seu nome foi incluído na primeira lista extraoficial de 40 "imortais" elaborada por Lúcio de Mendonça. Como a ABL seguia o modelo da Académie Française, que não aceitava mulheres na época, a escritora foi excluída da lista oficial em 1897. Em seu lugar, a cadeira número 3 foi concedida ao seu marido, o jornalista e poeta Filinto de Almeida. A injustiça foi reconhecida pela própria ABL. Em 2018, durante a posse de Joaquim Falcão, a academia homenageou Júlia Lopes de Almeida como uma das cofundadoras, corrigindo o apagamento histórico.

[ii]  Refere-se a exercício de um estilo de escrita cursiva para melhorar a caligrafia, conforme era ensinado nas aulas de "primeiras letras" do século XIX.

[iii] Tentava tornar nédio, liso o cabelo do menino.

[iv] Guerra dos Farrapos, também conhecida como Revolução Farroupilha, que durou de 1835 a 1845. O conflito foi encerrado com o Tratado de Poncho Verde, assinado em 1º de março de 1845, que estabeleceu a paz entre os farrapos e o Império brasileiro.

sábado, setembro 5

A PIRACEMA DAS CANOAS

 

Por Etevaldo Amorim


A canoa de do Sr. Janjão, embarcando em Piranhas, AL. Foto cedida por Marcos Mendonça


Tal como os peixes que, em um esforço de sobrevivência, desafiam as correntes e sobem o rio na época da piracema para gerar nova vida, o Rio São Francisco foi testemunha de um movimento semelhante de preservação e expansão cultural. Homens obstinados promoveram a subida de embarcações do Baixo para o Alto São Francisco — transpondo as cachoeiras — para disseminar a arte da navegação a vela onde antes reinavam as pesadas barcas a vara.


Em nosso artigo “MESTRE MINERVINO E A CANOA SERGIPANA”, publicado neste Blog em 18 de maio de 2019, tratamos da introdução da canoa de tolda chamada “Sergipana”, no submédio São Francisco, na região de Juazeiro, Estado da Bahia.


A sua construção, em Santa Maria da Vitória, pelo Mestre Minervino Tavares Amorim[i] (meu tio avô) sob encomenda de Manoel Vieira da Rocha[ii], levou sete meses, sendo concluída no dia 18 de dezembro de 1944, culminando com a sua chegada triunfal a Juazeiro, no dia 3 de janeiro de 1945.


Entretanto, pesquisas recentes nos mostram que outros já haviam se aventurado na difícil tarefa de levar ao curso superior do rio as embarcações e o modo de navegar do Baixo São Francisco.


No jornal pão-de-açucarense O TRABALHO, de 17 de janeiro de 1885, há essa notícia (replicada no Jornal do Recife, de 28 de fevereiro de 1885):


“Regressou de sua viagem ao Alto S. Francisco o nosso digno patrício Sr. Joaquim Alves Carneiro[iii].


Moço trabalhador a toda prova, o Sr. Carneiro, vencendo dificuldades bem sérias, transportou duas canoas grandes pela ferrovia de Paulo Afonso e com toda a felicidade percorreu trezentas e tantas léguas, rio acima, entranhando-se pela província de Minas Gerais.


Foi o Sr. Carneiro um dos primeiros que estreou a navegação de canoas a velas no Alto São Francisco, pelo que recebeu manifestações muito jubilosas daqueles habitantes, na sua maior parte tratáveis e hospitaleiros.


O sistema da nossa navegação propagada no Alto S. Francisco pelo Sr. Carneiro e outros, tem sido motivo de grande contentamento para aqueles povos, vendo o lindo panorama que oferece as nossas canoas com velas soltas, sistema muito diferente da penosa navegação de grosseiras barcas empurradas a varas.


Nós felicitamos ao nosso amigo Sr. Joaquim Carneiro pelo seu feliz regresso.”


Note-se que não há menção expressa ao termo “canoa de tolda”, mas “canoa grande”, embora se tratasse do mesmo tipo de embarcação dotada de tolda na proa.


Esse canoeiro pão-de-açucarense, tendo subido 300 léguas pelo Rio São Francisco a partir de Jatobá-PE (cerca de 1.800 quilômetros), teria alcançado a Cachoeira de Pirapora, localizada no estado de Minas Gerais.


As referências mais antigas tratavam apenas de Alto São Francisco e Baixo São Francisco. A transição da antiga divisão (em apenas dois trechos) para a atual classificação em quatro regiões fisiográficas (Alto, Médio, Sub-médio e Baixo) consolidou-se em meados do século XX. O marco definitivo ocorreu com a criação da Comissão do Vale do São Francisco (CVSF) em 1948 e, posteriormente, com a fundação da SUVALE (1967) e da CODEVASF (1974).


A delimitação das quatro regiões fisiográficas do Rio São Francisco é estabelecida por marcos geográficos e municípios específicos:


O Alto São Francisco vai da nascente, na Serra da Canastra, em São Roque de Minas (MG), até a cidade de Pirapora (MG). O Médio São Francisco estende-se de Pirapora (MG) até Remanso (BA), compreendendo o trecho mais longo e plano do rio. Já o Sub-médio São Francisco começa em Remanso (BA) e desce até Paulo Afonso (BA), englobando o reservatório de Sobradinho e a zona de grandes cachoeiras históricas. Finalmente, o Baixo São Francisco compreende o trecho entre Paulo Afonso (BA) e a foz, no Oceano Atlântico, entre Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande (SE).

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Nessa mesma época, encontramos evidências (senão provas) de que esse movimento de transportar canoas para o Alto São Francisco era incentivado pelo próprio Governo. Uma nota do jornal O TRABALHO, que se publicava em Pão de Açúcar, em edição do dia 7 de fevereiro de 1885, revela essa iniciativa do Diretor da Estrada de Ferro Paulo Afonso (Piranhas-Jatobá):


“FERROVIA DE PAULO AFONSO.


Autorizados pelo digno diretor da Ferrovia de Paulo Afonso, Sr. Dr. Luiz da Nóbrega[iv], declaramos ao público que Sua Senhoria mandará transportar, gratuitamente, de Piranhas a Jatobá, as dez primeiras canoas que se apresentarem para serem lançadas nas águas do Alto S. Francisco.


O Sr. Dr. Nóbrega, no louvável empenho de promover e executar todos os meios úteis para o engrandecimento da Estrada de Ferro Paulo Afonso, de dia-a-dia vai apresentando uma medida útil e digna de louvor.


Reiteramos por mais esta vez os nossos justos elogios ao Diretor da Paulo Afonso.”


Tal iniciativa, portanto, fazia todo sentido, uma vez que a principal motivação para a implantação da EFPA foi a integração entre o Baixo e o Alto São Francisco.


Tanto que o Relatório com que o governador do Estado das Alagoas, Coronel Pedro Paulino da Fonseca, passou a administração ao 1º Vice-Governador Dr. Roberto Calheiros de Mello, em 25 de outubro de 1890, já registrava:


“A ferrovia de Paulo Afonso, entregue ao tráfego público em 1883, com parte em território alagoano (de Piranhas ao Moxotó) e parte em território pernambucano (de Moxotó a Jatobá), medindo 116 km de extensão, até esta data tem sido de pouca utilidade para este Estado, visto o seu tráfego, presentemente insignificante, depender na navegação do Alto São Francisco, na parte encachoeirada de Jatobá a Juazeiro, cuja desobstrução morosamente está sendo feita por uma comissão do Governo Federal.”


E prossegue:


“No futuro, essa estrada será de grande vantagem para as Alagoas, visto que, com o Alto São Francisco navegando regularmente, a cidade do Penedo tornar-se-á o empório das transações feitas em todo o curso do rio abaixo da cidade de Juazeiro.”


O governo Imperial também empreendeu esforços nesse sentido, como registra essa notícia publicada no jornal Orbe, de Maceió, em 21 de dezembro de 1884:


"Dos melhoramentos efetuados no alto s. Francisco já se conseguiu manter ali entre Juazeiro, Januária e Jatobá uma navegação por meio de 12 canoas grandes. São louváveis os esforços empregados pela comissão de engenheiros encarregada desse trabalho."


Trata-se da Comissão de Melhoramentos do Rio São Francisco (criada pelo governo imperial em 1883 e ativa até 1896). Sob a liderança inicial do engenheiro-chefe Antônio Plácido Peixoto do Amarante, o grupo tinha como principal propósito executar obras de engenharia hidráulica e desobstrução fluvial para viabilizar a navegabilidade comercial do "Alto" São Francisco.


Esse transporte de canoas para o trecho alto do rio perdurou até o final da década de 1960. Temos na lembrança que, por volta de 1967/1968, aconteceu o traslado da grande canoa Cruzeiro do Sul, de propriedade do Sr. Ronalço dos Anjos, desta feita não mais através dos trilhos da ferrovia de Piranhas, que já encerrara suas atividades, mas por via terrestre.


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E assim se cumpriu uma importante fase da navegação a vela no curso superior do rio São Francisco. Sobre os trilhos da ferrovia em 1885 ou nascendo pelas mãos habilidosas do Mestre Minervino em 1944, cada uma dessas embarcações cumpriu o seu papel nesse ciclo econômico. Como os peixes da piracema, elas suplantaram barreiras geográficas e abriram suas velas sobre o rio, deixando uma marca notável na paisagem, na cultura e na história da navegação do nosso Rio São Francisco.

Canoas de tolda no porto de Barreiras-BA, margem direita do Rio Grande. Foto: Site Canoa de Tolda.


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NOTA


Caro leitor,


Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Minervino Tavares Amorim, natural de Limoeiro (Município de Pão de Açúcar-AL). Nasceu no dia 5 de abril de 1894, filho de Pedro José de Amorim e de Maria das Dores Lima de Amorim. Casado com Maria Verdulina de Amorim (Dona Vida), com quem teve os filhos: Agenor, José, Pedro, Álisson, Nayr e Creuza.

 

[ii] Manoel Vieira da Rocha, conhecido por “Nozinho Rocha”, comerciante e industrial, proprietário da fábrica São José, de beneficiamento de arroz em Propriá, Estado de Sergipe. Fonte: Cadastro Comercial, Industrial, Agrícola e Informativo do Estado de Sergipe – 1933. Manoel Vieira Rocha nasceu em Amparo do São Francisco., filho de Maximino Vieira da Rocha e Edentina Maria da Rocha. Casado com Alice Motta de Santana.

 

[iii] Joaquim Alves Carneiro era filho de José Alves Carneiro e Benedicta Maria Alves Carneiro. Em 1898, ele ainda residia em Pão de Açúcar. Posteriormente, passou a morar na cidade da Barra, Estado da Bahia, casado com Ângela Archanja Oliveira com quem teve uma filha chamada Anna Archanja Oliveira.

 

[iv] Engenheiro Luiz Felipe Alves da Nóbrega. Nomeado para dirigir a ferrovia em 1883 e exonerado em 1886. Filho de Joaquim do Nascimento Alves da Nóbrega e Maria Francisca Pereira da Nóbrega. Casado com a americana Jennie Elizabeth Kibbe. Faleceu em 1º de agosto de 1908, em Petrópolis-RJ.

sábado, agosto 29

GASTÃO E ENEIDA NA PÃO DE AÇÚCAR DOS ANOS 60

 

Por Etevaldo Amorim


Pão de Açúcar-AL, anos 1960. Av. Ferreira de Novaes, vendo-se a casa onde residiu o casal Gastão e Eneida, logo após o sobrado.


Para além dos dados históricos e geográficos de Pão de Açúcar, já fartamente tratados neste Blog, há sempre a opção de confirmar ou até colher novas informações sobre a nossa terra. Para tanto, empreendemos pesquisas em jornais e revistas nas hemerotecas de todo o país.


Foi assim que chegamos a um belo registro histórico, geográfico e, acima de tudo, afetivo da década de 1960, em que Pão de Açúcar serve de cenário e se torna objeto de observações verdadeiramente significativas. Nele, cruzam-se os caminhos de Gastão Pinto Batinga e sua esposa, a mineira Maria Eneida, em uma preciosa correspondência de memórias com o Professor Eurico Silva[i], catedrático do Colégio Estadual em Uberlândia, Minas Gerais.


Gastão Pinto Batinga[ii], embora nascido em Penedo-AL (em 6 de janeiro de 1924), tem origens em Pão de Açúcar, já que é filho de Elisa Soares Pinto (filha de José Soares Pinto e Isabel Alves Feitosa Pinto, “dona Bela”). Seu pai, o penedense Otto Batinga, casado com Maria Emília Furtado Ribeiro Soares, é filho de Jesuíno de Araújo Batinga (irmão do bispo Dom Jonas Batinga).


Na década de 1940, ele residiu no Estado do Paraná, onde foi Secretário da Federação dos Escoteiros do Paraná e Santa Catarina. Da Diretoria, também fazia parte o escritor Dalton Trevisan, contista conhecido como “O Vampiro de Curitiba”.[iii]


Posteriormente, foi para o Rio de Janeiro, onde foi jornalista e militante político. Daí foi para Minas Gerais, fixando-se em Uberlândia, a progressista cidade do Triângulo Mineiro. Lá conheceu Maria Eneida.


Depois de casados, residiram em Pão de Açúcar por algum tempo, na década de 1960. Morando ou apenas visitando, esse descendente dos “Soares Pinto” ainda era visto por lá em fins de 1968.


Cartas de Maria Eneida endereçadas a seu professor Eurico Silva, suscitaram o artigo, publicado no jornal uberlandense O REPÓRTER, edição de 23 de março de 1963, sob o título INFORMAÇÕES QUE SE PRESTAM:


“Distante 180 km da Capital, na zona do Sertão do São Francisco, à margem esquerda deste, divisa com Sergipe, a Sudoeste de Alagoas – localiza-se a cidade de Pão de Açúcar (1854), resultante de desdobramento desde Penedo (1636), Traipu (1835) e Mata Grande (1837).


O nome denomina também uma serra nas suas proximidades; um penhasco de 400 metros, na entrada da baía da Guanabara; pico de uma das ilhas de Cabo Verde, com 1.300 metros; e ainda o título de um filme que está sendo rodado em Jacarezinho, São Paulo.


Região outrora habitada pelos selvícolas urumaris e amoipiras[iv].


Sergipanos e os nativos fundaram o povoado que fica trinta metros acima do nível do mar, e para aí os trouxe a navegação fluvial que, através dos tempos, vem disseminando cidades ribeirinhas por toda essa imensa região sertaneja.


A essa grande sesmaria de Lourenço José de Brito, deu início, em 1660, a formação do núcleo populoso, exatamente ao lado do Morro do Pão de Açúcar e próximo da lagoa de mesmo nome.


Criado o município em 1854 e instalada a sede, com os foros de cidade em 1877.


Na antiga Vila, esteve duas vezes hospedado na viagem de ida e volta à cachoeira de Paulo Afonso – dias 17 e 22 de outubro de 1859 – o Imperador D. Pedro II, e cuja visita ficou registrada numa inscrição em bronze ao lado da grande queda onde hoje funciona a notável Usina elétrica que serve cinco Estados da Federação.


Na cidade é de se crer ainda exista o prédio assobradado, construído em 1854, para Casa da Câmara e que agasalhou a comitiva imperial.


A área do município é de 665 km², contando uma população de 12.768 habitantes.


Servem os munícipes várias empresas de navegação fluvial, para transporte de gado, de mercadoria e de pessoas, em toda a extensão navegável, desde Pirapora – norte de Minas, até Juazeiro, na Bahia; e de Marechal Floriano (Piranhas) além da Paulo Afonso até a foz do grande rio brasileiro, que é uma escada rolante de 1.160 km².


Ao lado do trecho encachoeirado, intermediário, construiu-se uma via férrea de 116 km de extensão.


Sabemos contar Pão de Açúcar com uma avenida de 700 x 42 metros, plana, como de resto todo aquele sítio; e arborizada com fícus. Ah, se ‘lacerdinhas’ [v]soubessem disso e ainda com aquele calor que sobe a 40 graus!...


No Museu Nacional encontram-se alguns fósseis, achados nesta beira de rio, ossos petrificados que Agassiz, paleontólogo suíço, calculou de terem mais de cinco mil anos."


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“A minha jovem e gentil afilhada uberlandense Maria Eneida, que permanentemente lá está nesses ermos interioranos do Nordeste brasileiro, numa carta destes dias, a mim motivou a súmula histórico-geográfica que acima se lê, e que será completada com as suas informações, produto de novos conhecimentos seus em um meio físico e social que até há pouco lhe era estranho.


Talvez uma indiscrição de minha parte, porém mal algum advirá daí, mas o benefício das breves informações que nos deliciam e aclaram pelas suas novas.


Realizamos, então, um intercâmbio cultural. Vai um trecho da carta amiga.


Estou mesmo pensando em lhe despachar uma mensagem em pétala de rosa, com bonita frase e o nome de Uberlândia. Mandá-la-ia, se possível, pelos bons préstimos do rio que, é e a propósito “o da unidade nacional” – soltando-a na superfície dessas águas que brotam aqui mesmo perto, na Serra da Canastra, e que lh’a levaria de bom grado, como tem levado àqueles ermos o bafejo da civilização.


Maria Eneida deixou há pouco esta Mesopotâmia e, nas asas de Cupido, acompanhou Gastão Batinga por esse mundo afora de nosso tão querido quanto imenso Brasil.”


‘Ele – o Relatório – será sobre a feira do Nordeste, melhor dito, de Pão de Açúcar, verdadeiro mercado oriental, que passei a gostar e admirar imensamente.


A feira de Pão de Açúcar é um espetáculo pelos seus tipos humanos e pela variedade de cores e surpresas que nos oferece. Ela tem a beleza bárbara do agreste, grandeza e abundância. É um acontecimento sócio-econômico de fundamental importância para a cidade e fazendas à margem do rio. Tudo na feira se compra e se vende. Todos os encontros são marcados para o seu dia. Dia de feira é dia de festa.


Desde que aqui cheguei, todas as segundas-feiras vou “fazer feira”. Gosto de seu movimento, de seu barulho peculiar, mas não aprecio muito o seu cheiro, mistura de suor, verduras e frutas passadas. Todavia, as feiras são sempre assim aqui, no Sul ou em qualquer outra parte.


Dou-lhe aqui uma relação de frutas que, desde outubro, estão aparecendo com grande abundância e frequência: manga, laranja, abacate, mamão, abacaxi, pinha, maracujá, melancia, banana, jaca, sapoti, sapota e uva. Esta última é espetacular!


Em abril, com o inverno, teremos o umbu e o jenipapo.


A carne de sol que preparam por aqui é excelente. Melhor que a de Bagagem.


Também se encontram na feira: alface, cenoura, couve, repolho, batatas as mais diversas, pimentão, tomate e todas as especiarias.


Já ouviu falar nas “mesinhas”? Nas famosas “mesinhas” do Nordeste?


Aqui as tenho visto. Vendem raízes para todos os males; rezas para curar picadas de cobra, para mau olhado e para fechar o corpo. Vendem chifre de veados, rabos de tatu, dentes de jacaré, chocalhos de cascavel – tudo para remédio. Tem de tudo, para tudo e para todos.


Os donos das “mesinhas” são geralmente curandeiros. O povo, na sua simplicidade e tradição, respeita-os bastante. Nas feiras, outro espetáculo pitoresco nos é dado pelos cantadores. Eles contam, cantam e recitam o “ABC”, típico folheto de poesia popular e são notáveis improvisadores. Têm público certo e interessado, principalmente quando há desafio de viola. Enfim, a feira daqui é algo inesquecível e maravilhoso.


Outra coisa que hei observado é o gosto que tem o povo pela música popular regional e pelo canto. Todo mundo, até parece exagero, sabe tocar um instrumento musical ou cantar. O folclore é riquíssimo.


Estou satisfeita com tudo. Aprendi a gostar do Vale do São Francisco, de suas belezas naturais, e de seu povo meio orgulhoso e valente.


Creio que o mesmo aconteceria com o senhor, pois tem sensibilidade para sentir as coisas.’

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No mesmo jornal O REPÓRTER, Uberlândia-MG, 24 de junho de 1963, encontramos esse artigo do próprio Gastão:

 

“REVOLVENDO O SERTÃO NORDESTINO


Antigamente era difícil para um nordestino falar sobre a sua região, sem tocar nas chagas do Polígono, na miséria dos mocambos do Recife, no analfabetismo dos camponeses, e nas constantes migrações dos paus-de-arara para o sul.


Hoje, os problemas da seca, dos mocambos, do analfabetismo, do pau de arara migrador, ainda existem e estão sendo enfrentados dentro das reais possibilidades do país. São problemas graves e difíceis, mas não são insolúveis.


Desde que aqui cheguei, tenho escrito sobre o Nordeste. Escrito sobre o progresso das suas cidades sertanejas, progresso palpável e que pode ser reconhecido até pelo viajante menos atento e observador.


Há uma revolução em marcha no sertão nordestino. Uma mudança radical no rápido do seu povo. A hidroelétrica de Paulo Afonso está ampliando o seu campo de ação. O São Francisco deixou de ser via de navegação apenas, e está subindo as serras, a fim de ser utilizado nas residências, bem comportado e perfeitamente encanado.


As prefeituras estão calçando ruas, praças e surgem galerias de águas pluviais. Outras obras estão sendo realizadas. A saúde do povo vem melhorando. Cuida-se do setor educacional. Modifica-se a mentalidade de todos.


Um exemplo: Pão de Açúcar, cidade agropecuária, quer industrializar-se. Os seus munícipes, tendo à frente o seu prefeito, Sr. Ronalso dos Anjos, vereadores como o Sr. José Amaral, estão entusiasmados com as conquistas da cidade e só pensam em progredir mais.


O progresso em forma de luz elétrica, em forma de água encanada, em forma de alfabetização, está revolvendo tudo. Nenhuma cidade nordestina deseja ficar atrás; ficar no antigo marco de não fazer nada. O que aconteceu com a nossa querida Uberlândia, verdadeira cidade dínamo, cidade progressista, entusiasma hoje o sertão e o sertanejo do nordeste.


Poderia citar outros exemplos. Dizer alguma coisa sobre o fim da enxada e sua substituição pelos arados manuais; sobre a grande e notável bacia leiteira do Jacaré dos Homens, de seu gado holandês-zebu; sobre o que vem realizando o DNOCS, o DNER e a SUDENE.


Em outra ocasião, talvez escreva sobre tais assuntos e, ao mesmo tempo, a respeito dos cursos de alfabetização radiofônica e audiovisual, de aprendizagem em 48 horas.”


Pão de Açúcar nos anos 1960,. Ao fundo, à esquerda a casa de esquina onde morou o casal Gastão e Eneida.


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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] O professor Eurico Silva era professor do Colégio Estadual de Uberlândia. Filho do Cel. Virgílio Augusto de Souza e Silva e Maria Salomé Vieira, nasceu em Botelhos, Minas Gerais, em 27 de setembro de 1894 e faleceu Poços de Caldas-MG, em 27 de julho de 1973.

[ii] É o autor da obra "Aspectos da Presença do Negro no Triângulo Mineiro / Alto Paranaíba: Kalunga", publicada em 1994.

[iii] Gazeta de Notícias, RJ, 6 de agosto de 1942.

[iv] Amoipiras. Os amoipiras eram um povo indígena brasileiro pertencente ao tronco Tupi-Guarani, descendentes dos tupinambás, que habitavam a região do médio rio São Francisco, principalmente na margem esquerda, no atual estado da Bahia, durante o século XVI. Parece-nos, portanto, um equívoco a citação dos mesmos como habitantes do baixo S. Francisco.

[v] Lacerdinha é o nome popular do inseto Gynaikothrips ficorum, da ordem dos tisanópteros. São minúsculos, alongados e geralmente pretos; muito comum em árvores do gênero Ficus (como o fícus-benjamina). São atraídos por roupas claras (especialmente amarelas) e entram nos olhos das pessoas, causando intensa ardência e coceira. O nome popular é uma associação ao político Carlos Lacerda, conhecido por sua postura polêmica, combativa e por irritar profundamente os seus adversários políticos.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia