segunda-feira, junho 29

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PÃO DE AÇÚCAR SEGUNDO VIEIRA DE CARVALHO

 

Por Etevaldo Amorim


Pão de Açúcar em 1869. Foto: Abílio Coutinho.


Muito do que se sabe e se poderá saber da região do Baixo São Francisco está nos relatos de viajantes que por ali passaram, quase sempre demandando as cachoeiras de Paulo Afonso.


No presente caso, trata-se do Juiz de Direito da comarca de Penedo. Entre 1850 e 1855, era seu titular o Dr. José Vieira Rodrigues de Carvalho e Silva[i], cuja assinatura consta de diversos livros antigos de Pão de Açúcar, prova de sua efetiva presença em nossa terra.


Naquela época, a comarca de Penedo abrangia uma vasta região entre a foz do rio São Francisco e a confluência do rio Moxotó, duas léguas acima da cachoeira de Paulo Afonso.


Em sua famosa carta ao Dr. G. Schuch de Capanema, escrita em 1854, ele descreve as povoações e os aspectos físicos de toda a região do baixo São Francisco, imaginando-se em viagem, dentre as muitas que deve ter realizado para cumprir os misteres de sua profissão.


O Dr. Guilherme Schuch de Capanema (1824–1908), mais tarde agraciado com o título de Barão de Capanema, foi um dos mais importantes engenheiros, físicos e naturalistas do Brasil Imperial. Nasceu em Minas Gerais (na região de Mariana/Ouro Preto). Era filho do intelectual austríaco Rochus Schüch, que veio ao Brasil na comitiva da Imperatriz Leopoldina. Seu nome original era Wilhelm Schüch. Devido à dificuldade das pessoas em pronunciar o sobrenome alemão, ele adotou "Capanema" em referência à serra próxima de onde nasceu.


O Dr. Vieira mantinha com Capanema uma cooperação e interlocução científica institucional, pautada pelo interesse mútuo na geografia, história natural e exploração do território brasileiro durante o Segundo Reinado.


Pois bem, sempre a bordo de uma canoa de tolda, que fretava por Rs. 30$000, vai subindo o rio rumo ao sertão e nos leva com ele, embarcando em Belo Monte, pouco abaixo do ponto extremo Leste do nosso município:


O riacho Salgado ainda é domínio da Lagoa Funda como assim até o Cajueiro, sendo o morro do Morim, onde está ereta a capelinha da Senhora do Rosário, pertencente ao Distrito e Povoação do Limoeiro. Deste lugar para cima, por Lei Provincial de 3 de março de 1854, criou-se a nova comarca de Mata Grande[ii]”.


A povoação do Limoeiro é situada sobre um terreno quase férreo. Contará 30 casas (se tantas), mas estende-se muito por diversas moradas interiores: tem sua capela de invocação de Jesus Maria e José e todo esse outeiro é uma mina dessa pedra esverdeada...”


A igreja é um encapelado criado pelos avós do pardo Manuel de Jesus Barbosa - João Carlos de Mello com uma légua de terra e 6 vacas por patrimônio”.


Essa redação, um tanto dúbia, é do texto original da carta publicada no Tomo XXII (Volume 22) da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (RIHGB), lançado em 1859. A nossa interpretação é de que os “avós do pardo Manuel de Jesus Barbosa” criaram a igreja; e, só depois, João Carlos de Mello constituiu o seu patrimônio.


Adiante, ele registra:


A povoação é fartíssima em criação de aves, e os ovos vendem-se de 3 a 4 por 20 réis. A várzea e lagoa do Araticum é o lugar deste rio de onde saem todos os voláteis que povoam ambas as margens. Os patos, garças, marrecões, diferentes gaivotas, marrecas, grajaus, paturis e jaburus, etc., voam de fazer rumor e anuviam o ar. O grajau tem o bico de tartaruga...”


De fato, nos meados da década de 1960, quando o rio ainda produzia cheias regulares, a população de aves era abundante. Ao final da tarde, inúmeros bandos de paturis e marrecos descolavam-se de uma coroa para outra, ou para as várzeas da lagoa da igreja, no Limoeiro, para a lagoa do Araticum.


O magistrado continua, ainda, a descrever a região contígua:


Continuam pela povoação do Limoeiro os lugares Tapera – nome tirado do seu riacho – Jacarezinho e São Tiago com sua lagoa.” ... “Pelo lado da Lagoa S.  Tiago — vão os Sítios — Espinhos — Morro do Faria— Deserto— Riacho do Faria e Aranha— (Fazenda) — e Tororó.”


Ao mencionar “Tapera”, provavelmente tenha se referido ao riacho dos Tapuios, cuja confluência está nos limites da Fazenda Santa Maria. Já sobre a referência a “Deserto”, não encontramos correspondente na atualidade.


...


O Dr. Vieira de Carvalho, supondo ter percorrido dez léguas desde a Vila de Traipu, passa a falar de Pão de Açúcar, onde costumeiramente fazia correições, como a que se nota no Cartório de Registro de Imóveis de Pão de Açúcar, em 29 de outubro de 1850.


Sobre a cidade, diz ele:


“O arraial de Pão de Açúcar conta 230 casas, o terreno plano lhe proporciona o belo arruamento que vai tendo e o comércio que aflui do centro lhe pressagia um risonho futuro. Há alguns bons sobrados e sofríveis casas. A capela do Santíssimo Coração de Jesus está em obras, ainda, de sua edificação e já é elevada em Freguesia por Lei de 1853, de 11 de julho, nº 227...”


“A povoação, nas enchentes, torna-se uma península pelas lagoas e riachos que a cercam...”


“O comércio é novo, mas ativo, e dá esperança de ser nesse ponto o empório deste rio, se houver estrada que ligue os dois rios de cima e de baixo, como aqui apelidam as partes separadas pelas grandes cachoeiras e pala de Paulo Afonso.”


Digno de registro também é a descoberta, pelo Dr. Vieira de Carvalho, de “ossos fósseis de Megateriou ou Mastodonte”, numa cacimba, no lugar chamado Aldeia, na Fazenda Poço Grande. A existência desses animais remonta a mais de cinco mil anos, segundo o cientista Agassiz[iii], que os examinou[iv].


Esse naturalista suíço Louis Agassiz, então professor na Universidade de Harvard, viajou pelo Brasil na década de 1860 comandando a chamada Expedição Thayer. A Expedição Thayer (1865–1866) foi uma das maiores e mais polêmicas missões científicas a percorrer o território brasileiro no século XIX. A viagem foi totalmente financiada pelo banqueiro e filantropo norte-americano Nathaniel Thayer Jr., de quem herdou o nome.


O objetivo declarado da expedição era coletar espécimes biológicos para o recém-criado Museu de Zoologia Comparada de Harvard. Mas Agassiz possuía duas agendas científicas pessoais muito bem definidas: O primeiro intuito era combater a Teoria da Evolução. Ele era um dos maiores opositores de Charles Darwin.


Adepto do "criacionismo/fixismo" (ideia de que as espécies foram criadas por Deus fixas e imutáveis), ele pretendia usar a vasta e isolada bacia de peixes da Amazônia para provar que a evolução geográfica não ocorria.


O outro objetivo era analisar o impacto da miscigenação na população, defendendo teorias falsas de que o cruzamento de raças gerava a degeneração dos indivíduos. Influenciado pelo racismo científico da época, Agassiz enxergava o Brasil como um "laboratório vivo" perfeito para isso.


O roteiro da expedição foi extenso e dividiu-se em três grandes fases entre abril de 1865 e março de 1866: a base na província do Rio de Janeiro, a subida costeira em direção ao Nordeste e a grande exploração fluvial da bacia amazônica.


Na fase Nordeste, em julho de 1865, a expedição começou a subir a costa brasileira em direção ao norte a bordo de barcos a vapor, fazendo paradas estratégicas em várias capitais para coletas marinhas e contatos políticos, ente elas Salvador (Bahia); Maceió (Alagoas); Recife (Pernambuco); Fortaleza (Ceará) e São Luís (Maranhão).


Louis Agassiz em seu laboratório.


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Em sua carta, Vieira de Carvalho dá conta ainda da existência de fósseis na Lagoa de Pedra, propriedade de José da Rocha Lyra, bem como no Salgadinho, do Padre Limões; Fazenda Velha, de Antônio Anacleto e em Olho D’Água das Flores, do Padre Antônio Duarte de Albuquerque.


José da Rocha Lyra é pai de Higino da Rocha Lyra (este, por sua vez, pai de Hormino Lyra, do Monsenhor Lyra e de Manoel Alves Lyra, que foi prefeito de Pão de Açúcar no final da década de 1940).


As escavações arqueológicas na Fazenda Paquiderme foram feitas por indicação do Engenheiro Fernando Halfeld, no Governo do pernambucano Antônio Correia de Sá e Albuquerque, que governou a Província das Alagoas de 14 de outubro de 1854 a 13 de abril de 1857.


Amostras desses materiais foram remetidas, em 1875, para o Museu Nacional. Entretanto, informações recentes dão conta de que nada mais existe naquele Museu.

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Dr. José Vieira Rodrigues de Carvalho e Silva. Nasceu na Bahia em 1808. Faleceu em Porto Alegre em 25 de dezembro de 1855, vítima de cólera morbus, quando era Chefe de Polícia. Era casado com a Srª Francisca Libânia de Carvalho e Silva, com quem teve os filhos: José Vieira Rodrigues de Carvalho e Silva, Francisca de Carvalho e Silva, Josefina de Carvalho e Silva e Maria Caetana de Carvalho e Silva.

[ii] A Lei de 3 de março, de que fala Vieira de Carvalho, é a mesma que emancipou Pão de Açúcar. No primeiro Artigo, cria as comarcas de Imperatriz (atual União dos Palmares) e Mata Grande; e, no segundo parágrafo, trata da criação da nova Vila de Pão de Açúcar, já destacada do território de Mata Grande, assumindo o território da respectiva Freguesia, criada no ano anterior.

[iii] Geólogo e ictiólogo suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz. Nasceu em 28 de maio de 1807 no vilarejo de Môtier (hoje parte de Mont-Vully), localizado no cantão de Friburgo, na Suíça. Filho de Louis Benjamin Rodolphe Agassiz e Rose Mayor. Faleceu Cambridge, Massachusetts, nos Estados Unidos, em 14 de dezembro de 1873.

[iv] Embora não esteja totalmente errado (pois é "mais de" cinco mil), hoje sabemos que os mastodontes (Notiomastodon platensis) e os preguiças-gigantes (Megatherium) foram extintos no final do Pleistoceno, há cerca de 10.000 a 11.000 anos. Na época do Império, as técnicas de datação geológica eram muito. 28 de maio de 1807 e faleceu em 14 de dezembro de 1873.

sábado, junho 20

NOS TEMPOS DO CINEMA MUDO

 

Por Etevaldo Amorim


 

Cartaz do filme MEIAS DE SEDA

No início do século XX, as cidades do Baixo São Francisco eram frequentemente visitadas por exibidores itinerantes — em sua maioria fotógrafos e empresários — que, munidos de projetores conhecidos como “cinematógrafos”, traziam rolos de filmes mudos para exibir em praças públicas ou salas improvisadas, como galpões e teatros.


Pão de Açúcar recebeu um desses cinemas volantes em 1911. Uma nota publicada no jornal A IDEIA, de 9 de abril daquele ano, anuncia a chegada do Sr. Max Philipsen[i], um fotógrafo alemão estabelecido em Maceió, que trazia alguns filmes para serem exibidos no Politeama Goulart de Andrade, um teatro recém-construído no local onde funcionaria, muitos anos depois, o nosso conhecido Cine Palace. Era o “Cinematógrafo Brasileiro” que estava na cidade!


Com a manchete “HOJE! CINEMA! HOJE!”, o jornal informa que haveria duas sessões:


Na primeira parte, seriam exibidos os filmes O Compositor Nervoso (Le Compositeur Toqué, 1905); Educação dos Pássaros (Éducation d'un Oiseau, 1911); A Luta pela Vida (Le Combat de la Vie, 1909); João Faz Tratamento pela Água (Hydrothérapie Fantastique, 1910) e A Vingança do Chefe do Trem (La Vengeance du Chef de Train, 1910).


Na segunda parte: Nascimento de Jesus Cristo (Le Christ Marchant sur les Eaux / La Naissance du Christ, 1899); João come alho (Le Terrible Hálito de Jean / L'Homme à l'Ail, 1907); O desaparecimento da noiva no castelo maravilhoso (Le Palais des Mille et Une Nuits / Le Château Merveilleux, 1905); e O noivo ciclista (Le Mariage de Victorine / Le Fiancé en Cycliste, 1907).


Todos esses curtas metragens eram de autoria Georges Méliès, com sua produtora Star Film. Georges Méliès (1861–1938) foi um ilusionista, ator e cineasta francês, reconhecido mundialmente como o pai dos efeitos especiais e um dos maiores pioneiros da história do cinema primitivo.


No dia 31 de agosto de 1911, também esteve em Pão de Açúcar o CINEMA SERGIPE, um desses itinerantes que passavam pela região ribeirinha.[ii] E assim deve ter acontecido com frequência até chegarmos ao CINE SÃO JOSÉ.


Prédio onde funcionou o CINE SÃO JOSÉ


De propriedade de João Damasceno Lisboa e Antônio da Silva Pereira (Toinho de seu Aprígio), foi inaugurado em 1933, segundo Aldemar de Mendonça em seu “Pão de Açúcar: história e efemérides. Entretanto, o nome de João Lisboa já aparece no Almanak Laemmert de 1927 como fotógrafo, mas também como proprietário de um cinema, nas edições de 1929 e de 1930.


Localizava-se na esquina das ruas Aurora (atual Antônio de Freitas Machado) e Silva Maia (atual Cel. Manoel Antônio Machado), local onde funcionou por muitos anos a agência da Caixa Econômica Federal.


Segundo Gervásio Francisco dos Santos, em seu livro Um Lugar no Passado, diferentemente do Cine-Politeama — que utilizava um sistema arcaico de projeção com regulagem manual dos carvões —, o projetor do Cine São José era mais moderno.


Esse equipamento seria, provavelmente, composto por lanternas de arco com avanço automático dos bastões de carbono e espelhos refletores — padrão que se consolidaria na década de 1930 para garantir a projeção contínua e a estabilidade luminosa. No sistema antigo, utilizado no Cine-Politeama, a luz vinha da queima de dois bastões de carbono (carvão) eletrificados dentro do projetor. À medida que o carvão queimava, ele encolhia, exigindo que o operador girasse manivelas constantemente para manter a distância certa e a luz acesa. Além disso, a queima trazia o incômodo de gerar fumaça e fuligem dentro da cabine.


Com a expansão das redes elétricas comerciais – Pão de Açúcar já tinha uma empresa geradora de energia por motor-gerador – é possível que o Cine São José já adotasse potentes lâmpadas elétricas incandescentes (similares às lâmpadas comuns, mas gigantescas) ou caixas de arco com avanço automático do carvão via motor. Isso eliminou a oscilação da luz na tela, reduziu os riscos de superaquecimento nas películas de nitrato e permitiu projeções mais longas e nítidas.


E foi exatamente o ano de 1927 que marcou a chegada dos sistemas de som sincronizado (como o Vitaphone), fazendo com que os projetores dessa nova safra fossem equipados não apenas com luz melhor, mas também com motores preparados para reproduzir áudio. Não era o caso deste do Cine São José, cujas exibições eram sonorizadas pela Orquestra de Mestre Nozinho, que escolheu a música “Os calças largas”, composta por Lamartine Babo e Francisco Gonçalves de Oliveira, grande sucesso da época[iii].


A letra zomba dos "almofadinhas" da época (rapazes da elite que imitavam a moda europeia) que começaram a usar calças amplas, num estilo precursor das bocas-de-sino.


Ouça OS CALÇAS LARGAS, de Lamartine Babo e Gonçalves de Oliveira, na interpretação do barítono Frederico Rocha. Disponível em "Som em Bom Tom - Youtube".  


A INAUGURAÇÃO


O primeiro filme exibido foi MEIAS DE SEDA, cujo título original é Silk Stockings, lançado oficialmente nos Estados Unidos, em 2 de outubro de 1927 pela Universal Pictures.


É uma comédia romântica baseada em uma peça de teatro da Broadway de 1914 (A Pair of Silk Stockings). A história gira em torno de um casal muito apaixonado, mas que vive brigando. Na véspera do aniversário de casamento, o marido esquece um par de meias de seda que uma mulher colocou em seu bolso, gerando uma grande e divertida confusão.


A “fita” foi estrelada por Laura La Plante (uma das maiores e mais bem pagas estrelas da Universal na era muda), no papel de Sally Thornhill,  e John Harron, interpretando Sam Thornhill.


Tinha também: Willian Agustin, no papel de Jorge Bagnal; Otis Harlan, como Juiz Foster; Burr Mc Intosh, como Juiz Harlan; e Heinie Conklin, como o vigia noturno. A direção foi de Wesley Ruggles.


Eis a sinopse do filme, que encontramos na revista CINEARTE, que se publicava no Rio de Janeiro, edição de 4 de janeiro de 1928:


Desde que descobriram o divórcio, o matrimônio como que passou a ser um vasto campo de batalha!


A encantadora Sally amara loucamente o marido, que, por sua vez, a queria acima de tudo neste mundo. Os dois, no entanto, não se entendiam e viviam em constantes rixas e disputas tremendas, que lhes tornavam a vida conjugal verdadeiro inferno.


Certo dia, os dois se deixaram arrastar para o escritório de um advogado especialista em separação de corpos: o Juiz Foster. Expõem as coisas, calorosamente, cada qual afirmando mais fortes as suas razões.


E por que todo esse barulho? Simplesmente por isto: Sam queria ir gozar as suas férias nas montanhas, ao que Sally se opunha, preferindo uma praia de banhos.


Foster não tinha interesse em separar duas criaturas que sofriam de... excesso de amor e, usando de um ‘truc’, com auxílio de um ratinho de brinquedo (Sally tinha pavor de ratos), consegue que ela, medrosa com a aproximação do ‘bicho’, se atire aos braços do marido.  Fazem as pazes e saem do escritório do advogado.


Metem-se no automóvel, onde disputam de novo, a propósito da manobra do carro que parte em grande velocidade. Sam é abordado por um inspetor de veículos e Sally protesta, procurando defender o marido.


O inspetor manda que ela alegue razões ao Juiz e mantém a multa, que Sally resolve pagar com o dinheiro que tinha guardado para comprar um novo chapéu.  Era a data do casamento dos dois.


Jorge Bagnal, amigo da família, fora à casa de Sam e Sally. Comentava a recente sentença de um Juiz, achando que era motivo pra divórcio o fato de uma esposa ter encontrado nos bolsos do marido um par de meias que não lhe pertenciam. E Sally achava ser tolice uma mulher requerer o divórcio por coisa tão fútil.


Mal sabia ela que seu Sam, tendo ido com fregueses a certo restaurante elegante, trazia para casa, numa das algibeiras, um par de meias que certa frequentadora do estabelecimento lá colocara, depois de um incidente interessante.


Sam é recebido aos beijos por Sally e o caso do divórcio provocado pelas meias indiscretas volta à baila. Sally continua na sua. Era um disparate alegar motivo tão frívolo para caso tão sério. O diabo, porém, as arma[iv] e, súbito, Sally descobre as meias que Sam tinha no bolso! E desabou a tempestade, terrível, tremenda. A lógica modificara-se e, na opinião da linda revoltada, já agora não havia homem que pudesse justificar uma ignomínia dessas!


Um par de meias de mulher usadas, no bolso do seu marido! Era o cúmulo da traição conjugal! Resultado: um novo processo de divórcio, um novo julgamento escandaloso, a justiça metida no lavar da roupa suja de mais um bêbado, um jogador! Sam era um bandido! Pobre Sam, que se torcia na sua cadeira de réu, sem poder contestar aquela série de coisas fantasticamente mentirosas.


O divórcio é decretado. E o Juiz Foster, grande analista do coração humano, compreendendo a verdade, dizia com seus botões que assim procedera para se ver se conseguia que aquelas duas ‘crianças’ tomassem juízo.


Sally fingia-se alegre com a liberdade, mas a verdade é que sofria, que se lembrava continuamente de Sam, que estava disposta a se lhe atirar nos braços de novo e a beijá-lo loucamente, se o encontrasse.


Estavam longe um do outro? Não. Enquanto Sally era hóspede do Juiz Foster, naquela elegante praia de banhos, Sam passava também ali as férias, na residência de uma família amiga.


E foi pelo próprio Foster, que lhe recomendava juízo, que evitasse se aproximar de Sam para não prejudicar a sentença definitiva do divórcio, que Sally veio a saber do paradeiro do marido.


Logo a sua ideia foi justamente fazer o contrário do que lhe recomendara Foster e nessa mesma noite penetrava na casa dos amigos do marido, disposta a reconquistar o bem perdido.


E ali se dão cenas deliciosas e imprevistas, complicações tremendas, até que a encantadora Sally cai de novo nos braços do marido, mandando às urtigas a Lei e todos os juízes que cortam a felicidade de duas criaturas que se amam.”


Na tela, o THE END. A orquestra executa os acordes finais. E bem podemos imaginar a seleta plateia da pequenina cidade do interior, reunida no aconchegante Cine São José, a gargalhar com as passagens engraçadas e, ao final, explodir em aplausos ante o desfecho apoteótico da cena comovente.


Cena do filme Meias de Seda. John Harron e Laura La Plante.


Cena do filme Meias de Seda. Willian Agustin e Laura La Plante. Revista Cinearte, RJ, 1928.


Cena do filme Meias de Seda. Otis Harlan. Revista Cinearte, RJ, 1928.


Cena do filme Meias de Seda. John Harron e Laura La Plante. Revista Cinearte, 1928.


Agradecimentos a Suely Lisboa pelas informações prestadas.

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NOTA


Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Max Philipsen. Fotógrafo de origem alemã. Em 1906, residia em Maceió na Rua do Cravo, nº 42, atual Rua Dr. Pedro de Mendonça, na Pajuçara. Em 1904, recém-chegado de Paris, ele trabalhava para a Fotografia Piereck, rua Dr. Rosa e Silva, 54, no Recife, como “retocador de retratos”, segundo notícias do Jornal do Recife e do Diário de Pernambuco, de 30 de agosto daquele ano.

[ii] A Ideia, 3 de setembro de 1911.

[iii] SANTOS, Gervásio F. dos. UM LUGAR NO PASSADO.

[iv] A expressão "as arma" (ou "o diabo as arma") é uma variação do ditado popular clássico "o diabo as arma e o tempo as desmancha". No contexto do texto, ela significa que as circunstâncias se alinham perfeitamente para criar uma cilada, uma confusão ou uma armadilha, fazendo com que um segredo seja descoberto. O significado da expressão funciona como sinônimo de "as coisas acontecem de forma a criar uma armadilha". Passa a ideia de que o destino (ou o "azar") conspirou para que o plano ou o segredo de Sam falhasse no pior momento possível.

domingo, junho 14

MEMÓRIAS DE UMA CASA DE FARINHA

 

Por Etevaldo Amorim


Uma casa de farinha. Desenho: Percy Lau, 1956.

Folheando um exemplar do jornal pão-de-açucarense A Ideia, datado de 12 de abril de 1910, deparei-me com uma notícia que me avivou a memória em um de seus pontos mais remotos. Recordei-me da farinhada, aquele animado mutirão que se fazia para o fabrico da farinha de mandioca.


Diz a nota:


Um padre que entende muito bem que não deve cuidar apenas da batina acaba de inventar no Ceará, ao cabo de 13 anos de investigações e experiências, um aparelho extremamente simples. Ele facilita extraordinariamente e reduz a despesa para triturar a mandioca, a fim de fazer farinha e artigos idênticos. As experiências públicas deram o melhor resultado. O padre, que se chama José Barbosa de Jesus[i] e descende de família de agricultores, concebeu essa ideia na adolescência, ao ver o trabalho com que seu pai macerava a paciência. Que os nossos agricultores se interessem pelo invento do benemérito patrício.”


Naquela época, para triturar a mandioca, era necessário girar manualmente uma grande e pesada roda conectada ao ralo (caititu). O invento do padre, patenteado como “Alavanca Barbosa”[ii], substituiu esse processo por um conjunto de alavancas e bielas. Acoplado ao eixo do triturador, o mecanismo reduzia drasticamente o esforço manual. O operador não precisava mais do movimento circular exaustivo: ao mover um braço longo para cima e para baixo — uma mecânica muito mais anatômica —, a força aplicada era multiplicada e convertida em uma rotação veloz no tambor de ralagem.


Lembrei-me da casa de farinha de meu pai, em um sítio de mangueiras e coqueiros, na velha Ilha do Limoeiro — no trecho que medeia a sua extensão entre a famosa Vila e o povoado Jacarezinho. Surpreendi-me ao constatar que, mesmo nos anos finais da década de 1960, o sistema utilizado era o tradicional.


A trituração da mandioca continuava sendo feita através do caititu acoplado a uma roda de aproximadamente um metro e meio de diâmetro, posicionada a cerca de três metros e meio de distância.


No caso da casa de farinha de meu pai, o eixo da roda se apoiava diretamente sobre um mancal — nada mais do que duas toras de madeira posicionadas em paralelo. Isso exigia um esforço enorme por parte dos dois operadores, que não podiam cessar o movimento giratório. Foi então que sobreveio um fato alvissareiro.


Naquela época, havia em Limoeiro um motor-gerador de energia elétrica. Para dar-lhe manutenção, a Prefeitura contratou um mecânico, o Sr. Valdemar, que morava na própria casa geradora da força. Esse prédio, um próprio municipal, passou a funcionar como sede do Correio a partir de 1970.


Pois bem, certo dia meu pai o convidou para ir ao sítio, na ilha. Chegando à casa de farinha, o mecânico verificou a roda, o eixo apoiado sobre o mancal, e comentou:


— Seu Agnelo, mas isso aqui é muito pesado! Por que o senhor não coloca uns rolamentos?


Meu pai não imaginava que essas peças pudessem servir para um equipamento tão simples. Seu Valdemar, então, se ofereceu para colocá-los, pois os tinha em casa. Alguns dias depois, lá estava a roda, com o eixo sobre os rolamentos, levinha, levinha.


Casa de farinha na Ilha do Limoeiro. Foto: Paulo Alves, 1988.

Minhas lembranças retroagem ainda mais no tempo. Meu pai se impusera no intento de montar a fabriqueta. Primeiro, construiu a casinha rústica, de taipa e coberta de telhas-canal. Depois veio a instalação dos equipamentos: o forno de ferro, a roda, o caititu, os cochos e a prensa.


Essa última foi a mais trabalhosa. Meu pai adquiriu a madeira adequada e foi em busca de um carpinteiro para confeccionar o parafuso e a porca (fêmea). Indicaram-lhe um mestre residente em Palestina, a que muitos, levados pelo costume, ainda chamavam de Retiro.


Mestre Antero. Foto: acervo Marcelo Maciel


Chamavam-no Mestre Antero[iii]. Contratado para o serviço, ele chegou no dia marcado e instalou sua oficina debaixo de uma grande e velha marizeira que havia junto à cerca da lagoa da Igreja, já próximo ao rio.


Ele trabalhava com extrema maestria, e eu passava horas e horas a vê-lo executar o seu ofício. Primeiro, o parafuso[iv]. Talhando a madeira roliça, o artesão ia moldando os seus contornos com precisão milimétrica, resultando em uma bela peça de arte e de indiscutível utilidade.


Depois, a porca — ou fêmea —, etapa ainda mais delicada e complexa, executada quase totalmente às cegas, fazendo com que o passo da rosca coincidisse perfeitamente com o do fuso de madeira já esculpido.


Manejando formões curvos[v], Seu Antero cavava pacientemente o sulco em espiral por dentro da peça. Cada passagem era testada para garantir que as paredes internas ficassem no ângulo correto. O fuso de madeira era inserido aos poucos na porca. Onde a madeira raspava e travava, o carpinteiro removia o fuso e desbastava mais um pouco com o formão, até conseguir o encaixe perfeito.


Ao final de alguns dias, não lembro quantos, estava pronta a prensa. Equipamento rústico, mas de incontestável funcionalidade, concebido pelas mãos hábeis de Mestre Antero.


A prensa é um aparelho extremamente importante no processo. Depois de cevada a mandioca, aquela massa encharcada é colocada em sacos de estopa empilhados na mesa da prensa. A prancha superior é, então, baixada sobre a inferior. Acionado o parafuso, esta comprime os sacos com o material, fazendo com que o líquido escoe pelas canaletas e precipite no cocho colocado abaixo.


Submetida à pressão máxima, até não pingar uma única gota, a massa é retirada, destorroada, peneirada para retirada das crueiras[vi] e, enfim, levada ao forno.


O líquido, chamado manipueira[vii], é altamente tóxico, pois é composto de ácido cianídrico. No entanto, desse líquido tóxico decanta uma massa fina, a chamada goma (amido puro), que após lavada e seca é usada para fazer o beiju e a tapioca.


Eu admito que são lembranças de um simples escrevinhador. Mas como se trata de uma atividade tão genuinamente enraizada nas nossas maiores tradições, permiti-me compartilhar com os leitores, na esperança de que, cultuadores dessas mesmas tradições, me perdoem a pretensão de expô-las.


Uma prensa de casa de farinha. Fonte:  CAMACAM Workshop.

Parafuso e roda de caititu. Foto: acervo Marcelo Maciel.



Cilindro de caititu. Foto: acervo Marcelo Maciel.


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Nossos agradecimentos ao pesquisador e escritor Marcelo Maciel pelas informações.

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NOTA

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[i] Foi um sacerdote, monarquista ferrenho e professor do Liceu do Ceará. Filho do Cel. José Barbosa de Lima e de Francelina Rosa de Lima, nasceu em Baturité, Estado do Ceará, em 7 de setembro de 1854 e faleceu em Fortaleza, em 25 de junho de 1945.

[ii] Na RELAÇÃO DOS PRIVILÉGIOS DE INVENÇÃO, do Relatório do Ministério da Agricultura do ano de 1911, consta o registro do invento, sob número 6.091, de 12 de maio de 1911, denominado “MÁQUINA SISTEMA-ALAVANCA PARA REDUÇÃO DE MANDIOCA”.

[iii] Antônio Pedro da Silva Filho, “Mestre Antero”, nasceu em Bom Conselho, Pernambuco, em 8 de agosto de 1903 e faleceu em Palestina, AL, no dia 23 de junho de 1993. Chegou em Retiro, hoje palestina, em 1916. Segundo o escritor Marcelo Maciel, ele era tio-avô do atual Prefeito de Palestina, Jaime do Mercado (cujo nome de registro é José Djalma Gonçalves da Silva).

[iv] Medidas mais comuns: 135 cm de altura e base com 20,5 cm de diâmetro. Peso: 27 kg.

[v] Os formões curvos, também chamados de goivas, são ferramentas manuais de corte utilizadas na carpintaria e na escultura em madeira. Diferente de um formão comum, que possui uma lâmina reta e chata, a goiva possui uma lâmina em formato de arco (em "U" ou em "V").

[vi] Resíduo fibroso e grosseiro da mandioca que fica retido na peneira. Ela é composta por pedaços maiores da raiz que não foram totalmente triturados pelo ralador, além de fibras e pequenas cascas residuais.

[vii] O termo é composto pela junção de mani (da lenda de Mani, que deu origem à palavra mandioca) e pyera (suco, líquido ou o que emana).

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia