domingo, julho 19
PÃO DE AÇÚCAR (1877): TÍTULO DE CIDADE E INTRIGAS NA CÂMARA
Por
Etevaldo Amorim
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| Pão de Açúcar, 1977, vendo-se a Av. Bráulio Cavalcante. Foto: Marcos Ferreira. |
Pão de Açúcar foi alçada à condição de
“cidade” pela Lei nº 756, de 18 de junho de 1877, assinada pelo Dr. Antônio dos Passos Miranda[i], Presidente da
Província. No entanto, a chegada de tão auspiciosa notícia só aconteceu no dia
2 de julho, em comunicação oficial que foi lida no dia seguinte, uma
terça-feira, em sessão da Câmara.
Vamos tratar dos detalhes que marcaram esse
acontecimento. Mas, antes de adentrarmos ao assunto, façamos um breve
esclarecimento. Muitas pessoas pensam assim: se em 18 de junho de 1877 Pão de
Açúcar foi elevada ao status de “cidade”, por que então comemoramos, em 3 de
março, a data de sua emancipação?
A resposta está no significado jurídico de
cada data. Pela Lei nº 233, de 3 de março de 1854, assinada pelo Conselheiro
José Antônio Saraiva, então presidente da Província, Pão de Açúcar tornou-se
Vila. Foi ali que nasceu o território autônomo, desmembrado de Mata Grande e
assumindo os limites da Freguesia, que já havia sido criada em 1853.
A partir daquele momento, passou a ter
autonomia política e administrativa, com direito a gerir recursos e instalar
sua própria Câmara. A elevação para “Cidade”, anos mais tarde, foi um título
honorífico que consagrou o crescimento urbano e o desenvolvimento já
consolidados.
Esclarecido
esse ponto, voltemos ao assunto. De uma carta datada de 5 de julho de 1877 e
publicada no Jornal do Penedo no dia seguinte, assinada por um correspondente
que se identifica como “Plutarcho” – possivelmente um pseudônimo – colhemos
importantes informações acerca desse fato histórico.
A
certa altura, ao mencionar notícia da conquista do status de “Cidade”, o autor
diz: “Ainda bem que se realizaram as previsões e sonhos do encantado
Aristarcho”.
Pesquisa
no mesmo jornal nos mostra que ele se referia ao que “profetizara” o misterioso
correspondente em carta datada de 6 de junho de 1877, publicada em 22 de junho
do mesmo ano.
Dizia
o missivista, ao dar a notícia de que o Dr. Antônio dos Passos Miranda assumira
a presidência da Província no dia 16 de maio último:
“Esta
florescente Vila, sendo hoje a maior e mais importante desta Província, tem
todos os atributos que comprovam o seu progresso admirável nos diversos e mais
adiantados ramos que podem ser exigidos para seu engrandecimento e mais
respeitável categoria.
Em
suas condições, entre suas irmãs, é o ponto que com maior vantagem pode
oferecer ao presente e aos nossos vindouros uma das mais pitorescas cidades, já
pela apreciada situação topográfica, assim como pelo seu importante e ativo
comércio, essa alma dos grandes países, que entre nós, de dia para dia vai
tomando proporções as mais vantajosas.
Suas
rendas gerais e provinciais ainda disso nos dão uma evidente prova pela
avultada soma que anualmente liquidam as respectivas repartições.
Portanto,
querendo agora a Assembleia Provincial elevar a nossa cara terra à categoria de
cidade, esse importante galardão de que justamente é merecedora, dizemos que
aquela corporação, nesse ato, tem procedido com a mais apurada justiça e
circunspecção; pelo que, do íntimo da alma, felicitamos os iniciadores de tão
bonita ideia.”
E diz
mais o correspondente, dando mostras de que dispunha de grande prestígio e de
preciosas informações dos meios políticos:
“Aproveitando
a azada ocasião, também lembramos aos representantes da Província duas das
maiores e mais palpitantes necessidades que se fazem sentir na importante
povoação de Entremontes, e com especialidade nesta Vila, sendo, na primeira, a
criação de uma cadeira do sexo feminino, e aqui uma segunda do sexo masculino.
Nesta
Vila existindo somente um preceptor da instrução pública, não pode ele a tempo
dar vencimento ao grande número de alunos que diariamente comparecem em sua
aula, a ponto de serem ocupadas duas salas nesses trabalhos; datando essa
grande frequência mesmo desde o tempo de seu último antecessor que, como o
atual, sempre teve crescido número de discípulos.
Por
consequente, se a Assembleia Provincial, antes de ser encerrada, apresentar o
projeto que lembramos, tendo um feliz e bom resultado, terá mais uma vez feito
um salutar e desejado benefício aos habitantes desta Vila e aos daquela
Povoação.”
Verificamos
que, efetivamente, a Lei 756, de 18 de junho de 1877, não só confirma a
promoção da Vila a “Cidade” como decreta a criação das cadeiras de instrução
pública de que falava o mencionado Aristarcho. Vejamos o seu teor:
“Antônio
dos Passos Miranda, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de
Direito do Recife e Presidente da Província das Alagoas,
Faço
saber a todos os seus habitantes que a Assembleia Provincial decretou e eu
sancionei a Lei seguinte:
Art.
1º É elevada à categoria de cidade a Vila de Pão de Açúcar.
Art.
2º A Cidade de Pão de Açúcar terá duas cadeiras de instrução pública primária
do sexo masculino.
Art.
3º Fica transferida a cadeira de instrução pública do sexo masculino das
Pedreiras[ii]
para o Fernão Velho e restaurada para o mesmo sexo a da povoação de São José do
Bolão, no termo de São José da Laje.[iii]
Art.
4º Revogam-se todas as Leis e disposições em contrário.
Mando,
portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução da referida
Lei pertencer, que a cumpram e faça cumprir tão inteiramente como nela se
contém.
O
Secretário desta Província a faça imprimir, publicar e correr.
Palácio
do Governo das Alagoas, em Maceió, 18 de junho de 1877, 56º da Independência e
do Império.
(L.
S)¹ ANTÔNIO DOS PASSOS MIRANDA
Foi
publicada a presente Lei nesta Secretaria em 18 de junho de 1877.
O
Secretário Joaquim Theotônio Soares Avellar
Registrada
às fls. 166, do livro de leis da Província. Secretaria de Governo, em Maceió,
19 de junho de 1877.
José
Joaquim do Espírito Santo”
(Fonte:
Jornal do Penedo, 6 de julho de 1877)
___
Tratemos agora do outro ponto discutido
naquela sessão. Em contraponto à alvissareira notícia, os vereadores decretaram
a demissão do procurador, ofuscando assim aquele momento que deveria ser de
plena e justa celebração. E isso teve imediata repercussão na imprensa.
Na carta de 5 de julho de 1877, publicada no
Jornal do Penedo, o correspondente Plutarcho classifica como “clamorosa
injustiça” a demissão do Procurador, afirmando que a Câmara “festejou
tão lisonjeira notícia com a demissão do Sr. Manoel Bernardes de Souza do lugar
que devida e honradamente exercia, há mais de onze anos, de procurador da mesma
câmara”. Ele acrescenta que “a Lei de 1º de outubro de 1828, Art. 80,
Tít. 5º, é letra morta e cobre de vergonha e ignomínia a transgressora Câmara
de Pão de Açúcar”.
Ocorre que a referida Lei — promulgada por D.
Pedro I e conhecida como o Regimento das Câmaras Municipais — diz exatamente o
contrário. Criada para adequar as antigas estruturas coloniais ao modelo da
Constituição de 1824, a norma limitava o tempo de serviço desse cargo, conforme
o seu texto original:
“Art. 80. A Câmara nomeará um Procurador, que será afiançado, ou por ela
mesma debaixo de sua responsabilidade, ou por fiador idôneo na proporção das
rendas, que tem de arrecadar; e servirá por quatro anos”.
Desse modo,
a acusação de 'Plutarcho' carecia de sólido fundamento jurídico, servindo mais
como munição política. Se o servidor já acumulava mais de onze anos no cargo,
sua substituição refletia as habituais disputas paroquiais da época — um
emaranhado de querelas em que cada grupo tentava 'puxar a brasa para a sua
sardinha'. Tanto é que, a certo ponto da correspondência, ao se referir ao
indicado para ocupar a vaga, o correspondente escreve em tom claramente
irônico:
“No entanto, a nomeação para o citado emprego
recaiu na pessoa de Hygino da Rocha Lyra, músico artista, ourives afamado,
solicitador atilado e uma águia na língua portuguesa, enfim, desse homem
enciclopédico!”
O ataque, contudo, não parou no sarcasmo.
Plutarcho subiu o tom para fazer graves insinuações acerca do caráter do novo
procurador, disparando:
“Há, porém, uma extraordinária diferença,
a de que o nomeado é da política do ‘venha nós’, e o demitido, além de ser
desinteressado, até hoje não esbanjou os dinheiros dos cofres da
Municipalidade; e, antes pelo contrário, foi zeloso e ativo no cumprimento de
seus deveres.”
Curiosamente, esse controverso alvo das
intrigas, o Sr. Hygino Lyra, viria a ser o patriarca de uma família de grande
relevância e respeito no município. Ele foi pai do Monsenhor Lyra — que hoje dá
nome a uma das escolas do povoado Lagoa de Pedra — e de Manoel Alves Lyra, que
ocupou o cargo de prefeito de Pão de Açúcar entre junho de 1947 e janeiro de
1948.
Naquela
ocasião, eram membros da Câmara os senhores Narciso José de Oliveira
(Presidente), Manoel Soares Pinto Filho, Manoel Temótheo de Amorim, Luiz da
Costa Nunes, José Bezerra Lima, João Marinho de Novaes Mello e José da Silva
Maia. O secretário era José Miguel de Souza.[iv]
Houve
apenas uma discordância nessa votação: a do vereador Tenente João Marinho de
Novaes Melo[v],
que apôs a sua assinatura como “voto vencido”.
Curioso
é que, tanto o demitido como o nomeado, militavam na mesma agremiação política,
o Partido Liberal. Tudo intrigas paroquianas, tanto mais se levarmos em conta o quanto era
disputado o referido Cargo.
Vejamos o que diz a já mencionada Lei de 1º
de outubro de 1828:
“Art. 81. Ao Procurador compete:
Arrecadar, e aplicar as rendas, e multas
destinadas às despesas do Conselho.
Demandar perante os Juízes de Paz a execução
das posturas, e a imposição das penas aos contraventores delas.
Defender os direitos da Câmara perante as
Justiças ordinárias.
Dar conta da receita, e despesa todos os
trimestres no princípio das sessões.
Receberá seis por cento de tudo quanto
arrecadar; se este rendimento, porém, for superior ao trabalho, a Câmara
convencionará com o Procurador sobre a gratificação merecida.”
___
E assim se conta a história da transformação
da Vila do Pão de Açúcar em CIDADE — uma conquista marcada tanto pelo empenho
de nossos antepassados quanto pelas intensas disputas políticas ocorridas
naquela oportunidade.
Um século depois desses fatos, em 1977, a
administração do prefeito Eraldo Lacet Cruz celebrou o centenário desse título
histórico. Na ocasião, a Praça Dr. José Clovis de Andrade foi rebatizada como
“Praça do Centenário”. Para marcar o acontecimento, a Prefeitura construiu um
obelisco no local e encomendou ao fotógrafo Marcos Ferreira um registro visual
da cidade à época, cujas imagens reproduzimos a seguir.
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| Avenida Bráulio Cavalcante, tomada no sentido Oeste/Leste. Foto: Marcos Ferreira, 1977. |
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| Pão de Açúcar, 1977. Tomada do alto Humaitá. Foto: Marcos Ferreira. |
____
NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”,
constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens
são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da
competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso
sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso
tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de
autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
Dr. Antônio dos Passos Miranda. Nasceu no Recife-PE, em 29 de março de 1847, e
faleceu em Belém-PA, em 8 de dezembro de 1899. Filho de Domingos dos Passos Miranda
e Laura Maria.
[ii]
Povoado então pertencente ao município de Santa Luzia do Norte, e atualmente no
território de Marechal Deodoro.
¹ As iniciais L.S. significam a expressão em latim Locus Sigilli, que se traduz literalmente como "lugar do selo". Nos documentos e leis oficiais da época do Império, essa sigla indicava o local exato onde era afixado o selo oficial de autenticidade, o brasão ou a chancela do governo.
quarta-feira, julho 15
PÃO DE AÇÚCAR, 1859 - MÚSICA PARA O IMPERADOR
Por Etevaldo Amorim
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| Partitura de La tremenda ultrice spada. |
Um dos episódios mais marcantes da história de Pão de Açúcar
é, sem dúvida, a passagem do Imperador Dom Pedro II, em 1859. A caminho da
cachoeira de Paulo Afonso, o monarca pernoitou na cidade de 17 para 18 e de 22
para 23 de outubro, deixando registradas em seu diário importantes informações
sobre a região.
Dois desses registros mencionam peças musicais que foram
executadas para ele: uma em sua chegada e outra na viagem de regresso.
No dia 17, ao descrever as impressões daquela primeira
recepção, ele anotou:
“Esquecia-me dizer que havia junto ao lugar de desembarque,
que arranjaram com algumas tábuas e coqueiros, uma música de rabecas e
outros instrumentos que tocavam o Hino da Independência feito na Bahia, que
era cantado por pessoas que me seguiram até chegar à casa da Câmara, que está
sofrivelmente arranjada. Ainda cantaram o Hino depois.”
A obra mencionada por Dom Pedro II nada mais era do que o Hino
ao 2 de Julho[i]. Essa
composição nasceu nas trincheiras da guerra — travada em diversas partes do
território baiano — e celebra a vitória dos brasileiros sobre os portugueses, em 2 de julho de 1823[ii],
em Salvador. Foi nessa data que a independência do Brasil se consolidou na
prática, pois marcou a expulsão definitiva das tropas colonizadoras do
território nacional.
É interessante notar que, embora o Império já possuísse um
Hino da Independência oficial — cuja melodia fora composta pelo próprio pai do
monarca, Dom Pedro I, para os versos de Evaristo da Veiga ("Já podeis, da
Pátria filhos, / Ver contente a mãe gentil") —, a recepção em Pão de
Açúcar optou por ignorá-lo. Em vez de lisonjear o imperador com a obra de seu
progenitor, a organização local preferiu entoar um canto regional de forte teor
anticolonial.
Ouvir aquele conjunto de rabecas acompanhado por sertanejos a
bradar que “com tiranos não combinam brasileiros corações” poderia ter
causado melindre ao visitante. No entanto, Dom Pedro II tratou a situação de
forma magnânima. Em seu diário, não há qualquer indício de incômodo político;
afinal, a vitória do 2 de Julho também consolidou o Brasil que ele governava.
___
Ouça o Hino ao 2 de Julho, interpretado por Tatau e pela Orquestra Sinfônica Juvenil 2 de Julho, regência de Yuri Azevedo. NEOJIBA - YOUTUBE. (https://www.youtube.com/watch?v=9ChXpYAtgvc&list=RD9ChXpYAtgvc&start_radio=1)
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| O Imperador Dom Pedro II. |
Já no dia 23, pouco antes de embarcar, Dom Pedro registra:
“Acordei às 5, e tenho estado a escrever. Vou agora dar um passeio até acima do Pão de Açúcar[iii],
ouvir missa e visitar as aulas, deixando esta povoação depois do almoço às 10
horas. Continuo a escrever do Pirajá onde me embarquei às 9 ½. A vista do alto
do Pão de Açúcar é bonita. Antes da missa fui às aulas e durante aquela a
música tocou muito mal a ária de La tremenda ultrice spada.”
Mesmo levando em conta o rigor do Imperador na avaliação dos
músicos, não seria de se estranhar que tivessem tocado mal. Afinal, La Tremenda
Ultrice Spada não é uma melodia qualquer. Na obra original, a execução exige
uma orquestra inteira, com instrumentos de sopro e metais, de modo a imprimir o
tom marcial e dramático da cena.
É uma famosa ária da ópera “I Capuleti e i Montecchi”, criada
por Vincenzo Bellini[iv] e
Felice Romani[v]. A
obra estreou com grande sucesso em Veneza, no ano de 1830. Cantada logo no
primeiro ato, a música faz parte de uma história inspirada em Romeu e Julieta,
mas que destaca a violenta rivalidade política entre as duas famílias.
(Capuletos (Capuleti) e os Montecchios (Montecchi).
É louvável o fato de que uma pequena cidade alagoana, em
pleno ano de 1859, já tivesse acesso a partituras europeias complexas e
possuísse músicos com técnica minimamente suficiente para tentar executar uma
peça clássica tão rebuscada. Pode-se imaginar o quão difícil foi transcrever e
adaptar essa grande obra para a realidade de uma banda de coreto no interior
alagoano.
A execução dessas composições tão emblemáticas, como de resto
toda a estrutura montada para a recepção ao Imperador, revela o esforço e o
esmero que as lideranças políticas e sociais de Pão de Açúcar foram capazes de despender
para recebê-lo, assim como comprova a sua capacidade de expressar o seu
regionalismo, mas também o seu conhecimento do mundo exterior.
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Retrato de Bellini de autoria de Antoine Maurin, 1836. Disponível em Gallica, Biblioteca Nacional da França.
___
Ouça La tremenda ultrice spada - Bellini - (https://www.youtube.com/watch?v=J7i9YCJMd1g&list=RDJ7i9YCJMd1g&start_radio=1) - Naomi Flatman - Youtube
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NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”,
constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens
são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da
competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso
sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso
tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de
autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
Nasce o Sol a dois de julho
Brilha mais que no primeiro
É sinal que neste dia
Até o Sol, até o Sol é
brasileiro
Nunca mais, nunca mais o
despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Nunca mais, nunca mais o
despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Cresce, ó filho de minh'alma
Para a Pátria defender
O Brasil já tem jurado
Independência, independência
ou morrer
Nunca mais, nunca mais o
despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Nunca mais, nunca mais o
despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Salve, ó rei das campinas
De Cabrito a Pirajá
Nossa pátria, hoje livre
Dos tiranos, dos tiranos não
será
Nunca mais, nunca mais o
despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Nunca mais, nunca mais o despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
[ii]
Hino ao 2 de Julho, com letra de Ladislau dos Santos Titara e melodia de
José dos Santos Barreto. Eles foram combatentes, negros, nas lutas pela
independência do Brasil, na Bahia.
Ladislau dos Santos
Titara (Dias d'Ávila, 24 de maio de 1801 - Rio de Janeiro, 18 de março de
1861) foi um militar, historiador e poeta brasileiro. Destacou-se nas
campanhas pela independência do Brasil na Bahia e por ter escrito depois a obra
Paraguaçu: Epopeia da Guerra da Independência na Bahia.
José dos Santos Barreto
atuou intensamente no cenário musical baiano, chegando a reger bandas militares
e filarmônicas no município de Cachoeira.
[iii]
Uma pequena observação. Sobre o trecho “Vou agora dar um passeio até
acima do Pão de Açúcar”, penso ter havido um equívoco na transcrição do diário.
Escrito assim, dá a impressão de o Imperador ter querido dizer que iria a um
lugar situado além do morro do Cavalete. No linguajar comum, ir acima quer
dizer ir subindo o rio. Creio que, na verdade, o monarca pretendia dizer que
iria até o ponto culminante do morro. Tanto é que, mais adiante, ele diz: “A
vista do alto do Pão de Açúcar é bonita”. Logo, o texto original do diário era,
provavelmente, “Vou agora dar um passeio até o cimo do Pão de Açúcar.”
[iv] Vincenzo
Salvatore Carmelo Francesco Bellini foi um célebre compositor italiano do
século XIX, um dos maiores mestres do bel canto. Nasceu em 3 de novembro de
1801, em Catânia, Sicília. Faleceu em 23 de setembro de 1835, em Puteaux, perto
de Paris.
[v]
Felice Romani (1788–1865) foi um dos maiores poetas, eruditos e libretistas
italianos da história da ópera. Nasceu em Gênova, Itália, em 31 de janeiro de
1788 e faleceu em Moneglia, Itália, em 28 de janeiro de 1865 (aos 76 anos).
quarta-feira, julho 8
PERSONALIDADES PÃO-DE-AÇUCARENSES - DR. PEDRO SOARES VIEIRA
Por Etevaldo Amorim
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| O Dr. Pedro Soares Vieira em foto de 2004. |
Filho
de Inocêncio Soares Vieira e Otília dos Anjos Vieira, o Dr. Pedro nasceu no
Limoeiro, município de Pão de Açúcar, no dia 26 de março de 1928.
Iniciou
seus estudos na escola do professor Canuto, em Pão de Açúcar. Depois de prestar
o exame de admissão, ingressou no Colégio Guido de Fontgalland, em Maceió, onde
cursou o ginasial e o científico, concluído em 1948, período em que também foi
Diretor de Publicidade da revista Mocidade.
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| O menino Pedro (1º sentado à frente, à esquerda) na escola do Pro. Haroldo Canuto, em Pão de Açúcar. |
Em
1952, participou do Congresso Regional de Defesa do Petróleo, realizado no
Recife, de 5 a 7 de setembro, no Teatro Santa Izabel[i].
Esse movimento, liderado por intelectuais, estudantes e militares, organizados
no Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional e na UNE –
União Nacional dos Estudantes, se posicionava contra o Projeto de Lei
encaminhado por Getúlio Vargas ao Congresso propondo a criação da PETROBRAS.
Isso porque o projeto não previa o monopólio estatal do petróleo. Ao final, ante
a intensa mobilização, o projeto foi alterado e aprovado em 1953. (Lei nº 2.004, sancionada em 3 de outubro de 1953)
Após
exame vestibular, Pedro Soares Vieira ingressou na Faculdade de Direito de
Alagoas, onde se formou em 8 de dezembro de 1953.
Em
dezembro de 1954, formou-se em Filosofia na primeira Turma da Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras de Maceió[ii].
A colação de grau se deu no dia 12 de dezembro, no Teatro Deodoro, além de
missa em ação de graças na Catedral e baile no Clube Fênix Alagoana.
Tendo
como paraninfo o Cônego Teófanes de Barros, a Turma homenageou o Arcebispo de
Maceió, Dom Ranulfo Farias e o governador Arnon de Mello.
Ainda
na capital alagoana, Pedro foi jornalista, escrevendo para os diários Gazeta de
Alagoas e Jornal de Alagoas.
Em
1952, foi um dos fundadores do Ginásio Dom Antônio Brandão, em Pão de Açúcar, juntamente
com o Dr. Olavo de Freitas Machado e o Professor Antônio de Freitas Machado.
Deixou
Alagoas e foi para o Sul, exercendo a advocacia nas cidades paranaenses de
Cruzeiro do Oeste e Londrina, de 1955 a 1963.
Em
1957, discursando no lançamento da pedra fundamental do novo prédio da Prefeitura
da cidade, sob a administração do prefeito Aparício Teixeira d’Ávila, assim
falou sobre Cruzeiro do Oeste, relembrando um trecho de Alcides Carneiro[iii],
numa cidadezinha da Paraíba: “que de pequena tornara-se grande, para vingar-se
de ser pequenina”.
Ele
também estava ele presente na solenidade de instalação da Comarca de Cruzeiro
do Oeste, no dia 25 de agosto de 1960, discursando na oportunidade como
promotor público.[iv]
Deixou
o Paraná e se transferiu para Brasília, onde manteve, por muitos anos,
conceituado escritório. Tendo sido um deles, chegou a ser diretor do Clube dos
Pioneiros de Brasília.
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| Anúncio do Escritório - Foto: Correio Brasiliense, 07/10/1966.. |
___
Em
15 de dezembro de 1959, casa-se com Alice Rinaldi Vieira, com quem teve os
filhos Vanja Rinaldi Vieira Ribeiro, Lincoln Rinaldi Vieira, Ana Lúcia Rinaldi
Vieira e Evandro Rinaldi Vieira.
Foi
conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil por mais de vinte anos, período em
que também foi presidente da Comissão de Defesa e Assistência dos Advogados.
Representando
a OAB, atuou como Examinador em concursos de Juiz de Direito, de Promotor e de
Procurador do Trabalho, no Distrito Federal.
Como
prova do seu reconhecimento e prestígio nos meios jurídicos, o Dr. Pedro é
citado em discurso pronunciado pelo Ministro Humberto Gomes de Barros, feito em
homenagem ao Dr. Pedro Accioli[v]:
“Estou
aqui com porta-voz do Estado em que nasci. Fui convocado pelos meus
conterrâneos para manifestar nossa gratidão a Pedro Accioli.
Desconfio
de que minhas palavras não chegarão a impressionar os demais integrantes do
Tribunal. Só compreende tanto agradecimento quem nasceu em um pequeno rincão,
pobre, sem força política, vítima de constantes injúrias e difamações.
Alagoas
é assim. Quem lá se cria e lá permanece tem tudo para não dar certo, na disputa
por um lugar ao sol, no cenário da Federação.
Para
que se avalie a dificuldade do alagoano em se projetar extramuros, basta uma
constatação: Pedro Accioli é, na história da República, o primeiro filho de
Alagoas a integrar um Tribunal Superior Federal, saindo diretamente do seu
Estado natal. Antes dele, o saudoso Amando Sampaio Costa chegou ao Tribunal
Federal de Recursos.
Mas
a trajetória deste eminente conterrâneo, entre a Província e a Corte Federal,
passou por longo estágio no Rio de Janeiro.
Há
muito tempo, o Doutor Pedro Soares Vieira, alagoano, tradicional advogado em
Brasília, fez uma observação inesquecível:
Um
sujeito mal encarado e mal humorado bazofiava, alardeando valentia, por sua
origem alagoana. Dizia:
-
Eu sou muito macho!
Pedro
Vieira o desarmou replicando:
-
Você é macho nada! – Macho é o alagoano que fica na Terra. Nós, que emigramos,
somos um bando de fujões.
Pois
bem! Pedro Accioli não emigrou. Tornou-se magistrado em Alagoas. Lá na Terra,
desde Major Isidoro – sua primeira Comarca – até a Justiça Federal, desenvolveu
uma carreira exemplar.”
O Dr. Pedro faleceu em Brasília no dia 1º de julho de 2017. A Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil divulgou, no dia 2, esta nota oficial:
“Nota
de falecimento – Pedro Soares - 02/06/2017
É
com pesar que a Seccional comunica o falecimento de Pedro Soares Vieira, um dos
advogados pioneiros de Brasília e ex-conselheiro Seccional. O velório será
hoje, das 13h às 16h30, na capela 1 do Cemitério Campo da Esperança (916 sul).
O sepultamento será em seguida.
Francisco
Lacerda Neto, ex-presidente da Seccional de 1989 a 1991, disse que Pedro Soares
era advogado brilhante e um dos mais combativos, éticos e de grande cultura
jurídica, entre todos os advogados que ele conheceu. “Alagoano, adotou Brasília
como sua cidade e a defendia sempre com muito vigor. É uma grande perda para a
classe dos advogados, especialmente porque durante todo o período de sua
carreira jurídica muito contribuiu com a OAB, sendo conselheiro, presidente de
várias comissões, enfim um grande colega. Era parceiro e compadre de outro
grande advogado, Humberto Gomes de Barros, ambos conterrâneos”.
___
NOTA
Caro leitor,
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constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens
são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da
competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso
sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso
tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de
autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
Representantes de Alagoas: Cônego Teófanes de Barros, Diretor da Faculdade de
Filosofia; deputados: Aurélio Viana, Ivan Villa, José Lopes Duarte, Júlio
Farias França, Benedito Freitas Melro, Virgílio Barbosa, Ademário Vieira Dantas
e Antenor Claudio Costa; médicos: Jaques Azevedo, presidente do Diretório Municipal
da UDN; Alberto de Araújo Jorge, Ascânio Jorge; vereadores: José Sebastião de
Barros, Wladimir Pedrosa Carvalho, presidente da Câmara Municipal de Maceió;
odontólogo Heraldo Calado. Acadêmico Pedro Soares Vieira; jornalista Policarpo Mendonça,
professor Albino Dantas, Carlos Miranda, funcionário público; João Lins Uchôa,
suplente de vereador. Fonte: Imprensa Popular, RJ, 3 de setembro de 1952.
[ii]
Formandos: Antônio Gama Vieira, Eládia Ribeiro de Alencar, Fernando Regis do
Amaral, Igor Tenório, Juarez Novais Pontes, Maria Edla de Lima, Maria Tereza
Aguiar, Norma Gomes da Silva, Pedro Soares vieira e Waldemar da Silva Menezes.
[iii]
Alcides Vieira Carneiro (1906–1976) foi um célebre advogado, magistrado,
político, jornalista, poeta e um dos maiores oradores da história do Brasil. A
famosa frase mencionada — "que de pequena tornara-se grande, para
vingar-se de ser pequenina" — foi proferida por ele em homenagem à sua
terra natal, a histórica cidade de Princesa Isabel, no sertão da Paraíba. O
trocadilho poético exalta a grandiosidade histórica do município, que ganhou
relevância nacional em 1930 ao se declarar um território independente (a
República de Princesa) durante as revoltas que antecederam a Revolução de 1930.
[iv]
DIÁRIO DO PARANÁ, Curitiba, 26 de agosto de 1960.
[v]
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Coletânea de Julgados e Momentos Jurídicos dos
Magistrados no TRF e STF.
A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR
PÃO DE AÇÚCAR
Marcus Vinícius*
Meu mundo bom
De mandacarus
E Xique-xiques;
Minha distante carícia
Onde o São Francisco
Provoca sempre
Uma mensagem de saudade.
Jaciobá,
De Manoel Rego, a exponência;
De Bráulio Cavalcante, o mártir;
De Nezinho (o Cego), a música.
Jaciobá,
Da poesia romântica
De Vinícius Ligianus;
Da parnasiana de Bem Gum.
Jaciobá,
Das regências dos maestros
Abílio e Nozinho.
Pão de Açúcar,
Vejo o exagero do violão
De Adail Simas;
Vejo acordes tão belos
De Paulo Alves e Zequinha.
O cavaquinho harmonioso
De João de Santa,
Que beleza!
O pandeiro inquieto
De Zé Negão
Naquele rítmo de extasiar;
Saudade infinita
De Agobar Feitosa
(não é bom lembrar...)
Pão de Açúcar
Dos emigrantes
Roberto Alvim,
Eraldo Lacet,
Zé Amaral...
Verdadeiros jaciobenses.
E mais:
As peixadas de Evenus Luz,
Aquele que tem a “estrela”
Sem conhecê-la.
Pão de Açúcar
Dos que saíram:
Zaluar Santana,
Américo Castro,
Darras Nóia,
Manoel Passinha.
Pão de Açúcar
Dos que ficaram:
Luizinho Machado
(a educação personificada)
E João Lisboa
(do Cristo Redentor)
A grandiosa jóia.
Pão de Açúcar,
Meu mundo distante
De Cáctus
E águas santas.
______________
Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)
(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937
(+) Maceió (AL), 07.05.1976
Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.
*****
PÃO DE AÇÚCAR
Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.
Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.
Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,
O pó que o vendaval deixou no chão cair.
Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste
O teu profundo sono num divino sorrir.
Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,
Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.
Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.
Teus jardins se parecem com vastos cemitérios
Por onde as brisas passam em brando sussurrar.
Aqui e ali tu tens um alto campanário,
Que dá maior relevo ao pálido cenário
Do teu calmo dormir em noite de luar.
____
Ben Gum, pseudônimo de José Mendes
Guimarães - Zequinha Guimarães.
PUBLICAÇÕES
Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia
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