quinta-feira, março 5

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PÃO DE AÇÚCAR EM CARTAS

 

Por Etevaldo Amorim

 

Pão de Açúcar, década de 1910. Foto: Adalberto Marroquim, Terra das Alagoas.

Nesse nosso ofício de pesquisar, não raro nos deparamos com notas de considerável valor histórico, mas que não trazem qualquer indicação de autoria. Quando muito, vêm assinadas por um falso nome, o que nos limita e intriga sobremaneira.

 

É precisamente o caso dessas “Cartas Íntimas” publicadas no Jornal Gutenberg, edições de 24 e 26 de agosto de 1911, assinadas por um certo João de Deus, de Boca da Caixa.

 

Boca da Caixa é uma localidade no município de Marechal Deodoro, Estado de Alagoas (à época denominada simplesmente Alagoas). Já o “João de Deus”, que diz ter convivido na região do Baixo São Francisco, não sabemos de quem se trata, pois não há referência alguma de família, podendo ainda ser um pseudônimo.

 

O conteúdo é dirigido a um amigo a quem chama de “Riquète de Christa”, que bem pode ser também um falso nome.

Entretanto, mesmo sem esses requisitos tão necessários, resolvemos aproveitar as “cartas” pelas referências a pessoas e lugares da Região do Baixo São Francisco, especialmente de Pão de Açúcar, seus costumes, seu modo de vida... na esperança de que algum pesquisador mais arguto os identifique e possa revelar a sua autoria.

 

As tais “Cartas Íntimas” foram publicadas em duas partes. Na primeira, o cenário é a região próxima a Penedo (Ponta Mofina, Saúde, Passagem...). A certa altura, faz referência ao governador Euclides Malta, que sendo natural de Mata Grande, morou em Penedo, onde casou, em 19 de maio de 1890, com Maria Gomes Ribeiro, filha do Barão de Traipu, também ali residente por muitos anos.

Na segunda carta é que o missivista, por assim dizer, sobe o rio e vai revelando os lugares e pessoas na nossa Pão de Açúcar e seus arredores. Sobre esta, todo o nosso interesse.

Vamos a elas!

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CARTAS ÍNTIMAS - I

 

Amigo Riquète de Christa,

 

Somente hoje aqui me chegaram os jornais que Você me mandou para eu ler as suas empoladas cartas íntimas dirigidas ao nosso bom governador do Estado.


Você me pede opinião acerca das intimidades alegadas em as suas cartas, quer que eu lhe diga algo sobre o seu modo de escrever, e ainda me pergunta se eu me recordo do tempo das suas pescarias de poita[i] para as bandas da Ponta Mofina ou da Saúde naquela canoinha mal calafetada[ii] do Chico Veneno.


Homem, para lhe falar a verdade, eu não entendo dessas coisas, e principalmente depois que me fiz praciano e deixei o diabo da vida de plantador de arroz lá para os brejos do Capitão Jerônymo[iii] da Passagem.


Entretanto, amigo RIQUÈTE, como Você ainda se lembrou de mim, o que tenho a dizer-lhe é que as suas cartas íntimas me deixaram a fazer o sinal da cruz, pelas suas expressões de macróbio que, posto já estar velho e macambúzio, ainda não conseguiu dobrar o Cabo da Boa Esperança da vida.


Macacos me roam quando eu decifrar as suas charadas; e Você, RIQUÈTE, sabia e sabe que este seu velho camarada nunca se meteu nessas olhadas de charadistas...


Ora, você chama o Penedo de terra das piranhas, diz que quando voltava da feira que ainda se faz ali bem defronte das lojas do Manoel Souto e do José Menezes,[iv] aos sábados, via o nosso ilustre governador “numa rede, deitado, cismarento, vendo ao longe as canoas céleres e os sonhos cor-de-rosa”; diz ainda Você, meu Riquète, que por esse tempo o governador era lente do Liceu Penedense, que comia ovos de tartaruga com dores e tutti quanti.


Continuando, Você diz na sua carta que então o governador fazia parte da Assembleia Provincial, que usava umas calças remendadas nos fundilhos, metendo na sua xaropada, Riquète, umas descobertas à la diable como os dentes triangulados das piranhas, os macacos da Mata Grande, aquela história de pedaços esparsos lembrando estranhas lendas de canibais antropófagos de indômitas plagas serranas e outros inventos, que somente a sua cachimônia de antigo poiteiro das imediações do Aracaré, quando o Dr. Zé Guilherme[v] não estava na lua, poderia sacudir no papel e mandar para as folhas.


Por mais que eu lesse, por mais que eu sacudisse os olhos esbugalhados em cima das suas cartas, amigo RIQUÈTE, não consegui pescar os danados dos seus gatafunhos, que só me pareceram um cardume de mandins sem gordura e sem ovas, daqueles que Você saboreava nas ribeiras do Brejo Grande, às goladas da boa pinga do Coronel Milício[vi].


Mas voltemos às suas descobertas, amigo RIQUÈTE.  Vejo que Você já não está regulando certo; é da sua idade já bem avançada e cheia de pecados essa falta que já se nota na sua conversa.


Porque não posso compreender o meio como você via o Dr. Euclides a embalar-se numa rede, na sua volta da feira.


Ora, o governador residia então na rua da Matriz e Você naturalmente subia pela Rua do Convento. O governador morava num sobrado e Você muito de baixo enxergava o moço dentro da rede, olhando as canoas correndo rio acima. Isto aqui é charada, amigo RIQUÉTE. Espero, portanto, o conceito para lhe mandar a decifração. ..


Depois Penedo não é a terra das piranhas, nem as piranhas têm dentes triangulados, nem há macacos em Mata Grande, como Você diz nas suas cartas.


Sinto dizer-lhe que o governador nunca foi deputado à Assembleia Provincial e que o Liceu de Penedo data do Governo Gabino Besouro e não dos tempos provincianos.


Para mostrar a sua demência, amigo RIQUÈTE, basta citar aquele prato guisado com ovos de tartaruga, flores e tutti quanti, que Você diz ter sido da predileção do governador. Esse tempero tutti quanti é desconhecido em Maceió, e creio mesmo que em todo o Brasil.


Diante, pois, das suas caduquices, conclui-se que o homem que Você via usar calças com remendos nos fundilhos só poderia ser o Frei Caputo ou o Elias, que por amor ao decoro das famílias, ainda tinham o cuidado de remendar os fundilhos das calças, para que as inconveniências da brisa, lhes não pusessem a nu as redomas brancas das ceroulas, como sucede a muita gente medida a coisa aí na Capital...


Quanto aos macacos da Mata Grande, isso são bichos que só se encontram em abundância nos montes da Ilha Grande.


Você escrevendo, amigo RIQUÈTE, é direito aquele orador dos fonógrafos; quando falta é um esgoto furado: vai tudo saindo de veneta.


Perdoe que assim lhe fale, mas faça de conta que nós estamos sozinhos na saudosa poita da Ponta Mofina, pescando noite a fio, sem ter quem nos perceba, ou então nas praias do Carrapicho à espera que o dia amanheça para entrarmos nos saborosos pitéus das curimatás gostosas...


Toque aqui nesses ossos - do seu velho amigo –

 

João de Deus, Boca da Caixa, 1911.”

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Pão de Açúcar-AL, morro do Cavalete, 1939. Foto: Edgard de Cerqueira Falcão


“CARTAS ÍNTIMAS – II

 

Amigo Riquète de Christa

 

Continuo hoje a conversar com Você, muito intimamente, visto como o velho amigo veio despertar a curiosidade de quem há muitos anos vive retraído dos acontecimentos públicos desta boa terra dos grandes lagos e das moquecas saborosas, que ainda hoje fazem chegar água ao bico de muito papagaio velho...


As suas cartas, Riquète, apesar de indecifráveis, por serem escritas numa linguagem de matemático, contudo me fizeram algum bem, porque me vieram acordar na memória aquelas variadas cenas do nosso passado, já bem distante.


Longe embora do nosso amado Sertão, do S. Francisco ruidoso, como Você, à hora em que leio as suas cartas charadísticas, Riquète, eu recordo o nosso tempo que se foi, vejo-me ainda com o bondoso amigo bem na culminância da Pedra da Paciência[vii], em o nosso Pão de Açúcar lamentoso, depois galgando a encosta do morro do Soares, para no dia seguinte irmos arrombar a tapagem da Lagoa da Porta, e nesse mesmo dia irmos bolir com a Maria Doida lá para um canto do Xique-Xique, ou com o Chico da Zefa, naquele rancho do Campo Grande[viii].


Belos tempos os que se foram!!! As suas cartas vieram trazer-me lembranças imensas!


Aquela grande feira de Pão de Açúcar, às segundas, as pinhas deliciosas que os matutos conduziam de Santana do Ipanema, em grandes caçuás, os araçás-de-moça que as mucamas gordas e quartudas traziam das Traíras ou do Riacho Grande, os passeios aos domingos aos Meirus ou ao Abaití do Coronel Tatônio Tavares, as caçadas aos patos e às paturis[ix], tudo isso Você veio me lembrar, amigo Riquète, depois de decorrido tanto tempo.


E as goiabas e os mamões do Zé Nico, o cavalo de macambira[x] do Antônio Simões[xi], aquele engraçado ferreiro que morava na Rua da Frente, sempre espirituoso e pilhérico, a meter na forja dois vinténs de dobrão, e depois de incandescentes, sacudindo-os na calçada para ver os moleques apanhá-los e chiarem em seguida pelas queimaduras. Oh! Amigo Riquète, tudo aquilo eu recordei ao ler as suas cartas sobre o nosso governador, que Você quer a pulso colocar no seu lugar.


Mas Você tem razão: com a velhice vem o esquecimento, a teimosia, a perda de noção do tempo e do espaço, e dá-se quase sempre essa inversão de papéis que se deu no caso das suas cartas.


Porque Você não é de Penedo, Riquète, como eu também não sou.


Às vezes íamos ter ali por aquelas praias adjacentes, arrastados pela corrente do rio, em noites de pescarias, quando o sono nos pegara e a canoa ia descendo, descendo até que acordávamos naquelas redondezas.


Lembre-se que nós nos criamos e vivemos em Pão de Açúcar. Parece que vejo aquilo tudo: a padaria do Libório, as célebres bolachas Americanas, o Professor Jovino da Luz[xii] naquela casa da Rua Augusta[xiii], o Lessa e os filhos a baterem na sola, a gente galgando de vez em quando os cimos do Cavalete, perseguindo as cabras que bodejavam lá no alto, com risco de cair ao rio e outras coisas mais que não posso numerar, as suas cartas acabam de despertar na memória do seu velho amigo.


Lembro também daquela extensa praia da cidade, as inúmeras canoas grandes no porto, com os mastros levantados, parecendo uma floresta, e no meio delas a Meio-Mundo, a Gararu, a Flor do Rio e tantas outras em que pulávamos para abiscoitarmos as frutas deliciosas que subiam de Piaçabuçu ou da Ilha dos Bois.


Bons tempos! Depois, no outro dia, após o almoço, lá íamos à poita, metidos sempre na canoinha do Chico Veneno. Na volta, eram peixes a valer. Tínhamos gorda manjuba[xiv] para muitos dias de descanso, que as ribeiras da Caiçara[xv] ou da Ilha do Ferro[xvi] deixavam-nos esfalfados. Então, Riquète, sacudíamos os ossos moles naquelas redes safadas, de que Você fala nas suas cartas, cerca de cinquenta vezes, atribuindo aquele nosso antigo costume ao governador do Estado.


Lembro-me ainda de uma coisa: a sua rede era de pano, custara-lhe seis patacas, e por muito suja, porque nunca fora à fonte, chegara a ficar socada e fedorenta de meter nojo; ao passo que a minha rede era mais limpa, porque era de corda de tucum, comprada ao velho Noya, em dia de feira, por duas patacas, se não me engano. Doía-me um pouco no pretérito o diabo da rede, mas consolava-me porque era minha e não catingava como a sua.


Em suma, vivemos sempre na doce Paz do Senhor, como bons amigos.


Veio depois a maturidade, os interesses, as necessidades vitais, maiores e mais sérias, e como pouco tempo nos separávamos. Foi então que me fiz aos brejos do Capitão Jerônymo, e Você embrenhou-se no oco do mundo.


Hoje, casualmente nos encontramos, mas vejo, Riquète, que Você já não é o amigo das poitas e das piabas, porque a senilidade matou-lhe os cinco sentidos, tornando-o um agravado do tempo e da idade...Recorra ao Vinho Caramuru, e espere ainda por mim, que tornarei ainda à sua segunda carta.


Saudades muitas do seu amigo velho e certo.

 

João de Deus, Boca da Caixa, 1911”.

 

***   ***

Pão de Açúcar, alto do Humaitá, 1939. Foto: Edgard de C. Falcão.


Como dissemos no início, são referências importantes que, embora não mencionem a autoria de quem as fez, nos trazem informações e memórias de épocas passadas, de lugares e pessoas conhecidas.


Temos aí a lendária pedra da Paciência, ponto predileto para os encontros amorosos, no passado. A Lagoa da Porta, localizada no caminho para o morro do Cavalete (COHAB), hoje propriedade de herdeiros de Maria Jesuína Soares Pinto; Xique-Xique, região marginal às lagoas, nas imediações dos campos do Jaciobá e do Internacional.


Menção também se faz à padaria de “seu Libório”, grande e bem sortida, localizada na Av. Bráulio Cavalcante, 378, na casa onde morou o tabelião Luiz Vieira de Carvalho (Lula). Libório, de nacionalidade italiana, era casado com uma senhora da família Carvalho e tinha parentesco com a família de João Gomes de Carvalho Mello (João Mouco), pai dos farmacêuticos João Fialho de Mello e Durval Fialho de Mello.[xvii]


Mas há também menção a nomes e lugares completamente ignorados hoje em dia. É o caso de “morro do Soares”. Que lugar seria esse?


Ou então: “o Abaiti do Coronel Tatônio Tavares”, referindo-se, talvez, ao Cel. Antônio Luiz da Silva Tavares, filho do Cap. Luiz da Silva Tavares, dono do Araticum, adquirido de herdeiros do Morgado do Porto da Folha.


Enfim, como a História é dinâmica, ficam essas questões em aberto até que ela nos enseje a possibilidade de elucidá-las por completo.


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NOTA:

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Poita: Objeto pesado que faz as vezes de âncora em embarcações miúdas. Pescaria de poita é, portanto, aquela que se faz utilizando-se anzol com vara ou linha de mão, mas com a canoa fixa em poita em local determinado.

[ii] Calafetar: impedir a passagem da água pela vedação, com massa apropriada e estopa, de junturas, fendas e frestas de tonéis, pisos, telhados, janelas, tabiques e embarcações, como no caso citado.

[iii] Jerônymo Vieira Bastos, do povoado Passagem, localizada no município de Vila Nova (atual Neópolis), Estado de Sergipe, onde se acha situada uma fábrica de tecidos Peixoto Gonçalves S/A Indústria e Comércio.

[iv] Loja de tecido situada na Rua do Comércio, nº 18, em Penedo, constituída na firma Menezes & Cia, de que era sócio o comendador Manoel Souto. Em janeiro de 1914, foi adquirida pelo sr. Virgílio Alves da Silva, Fonte: 28 de fevereiro de 1914.

http://memoria.bn.br/DocReader/761575/206

 

[v] Dr. José Guilherme Silva Martins Sobrinho.

[vi] Coronel Melício de Souza Machado.

[vii] Pedra da Paciência, eminência de pedras localizada no alto do Humaitá, região Oeste da cidade.

[viii] Campo Grande, via compreendida entre a Praça do Bonfim e o Alto do Fonseca, denominada Avenida José de Freitas Machado, em homenagem ao industrial José de F. Machado, Zuza.

[ix] Paturi-preta (Netta erythrophthalma), que tem por habitar a região do Baixo São Francisco, frequentemente encontradas nas coroas.

[x] Cavalo de Macambira é um brinquedo artesanal tradicional, um tipo de cavalo de pau feito a partir da haste floral (pedúnculo) da Macambira-de-flecha (Encholirium spectabile). Essa planta é uma bromélia rústica que cresce em afloramentos rochosos (lajedos) na Caatinga. Diferente da macambira comum, ela produz uma haste longa, leve e resistente quando seca, que se assemelha a uma "flecha". O brinquedo é feito tomando-se a haste seca, que serve como o corpo (cabo) do cavalo. A extremidade superior da haste, que muitas vezes possui uma curvatura natural ou restos da inflorescência, é modelada ou amarrada para simular a cabeça do animal.

[xi] Antônio Simões dos Reis. Ferreiro. Casado com Izabel Simões (falecida em 1896).

[xii] Jovino Pereira da Luz, filho de Justino Pereira da Luz e de Alexandrina Eulália da Conceição (naturais de Garanhuns-PE), nasceu em Olhos D’Água do Accioly (atual cidade de Igaci), à época um povoado do município de Palmeira dos Índios, Estado de Alagoas, no dia 28 de junho de 1855. Faleceu no dia 21 de abril de 1908, na casa de número 82 da Rua Joaquim Nabuco, na cidade de Penedo, aos 52 anos.

[xiii] Rua Augusta, atual R. Padre José Soares Pinto.

[xiv] Trata-se da famosa Pilombeta, Anchoviella lepidentostole, muito apreciada para tira-gosto.

[xv] Caiçara. Região pertencente aos proprietários da Fazenda Belém, de João Fernandes de Brito (João Porfírio), em histórico litígio com os índios Xocó.

[xvi] Ilha do Ferro. Povoado situado 12 km acima de Pão de Açúcar, célebre pelo naufrágio da lancha Moxotó, em 10 de janeiro de 1917, e hoje grande centro de artesanato.

[xvii] Informações do jornalista Helio Fialho, a quem agradecemos.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia