sábado, maio 9

TOCAIA – UM CONTO DE BRÁULIO CAVALCANTE

 

Bráulio Cavalcante


Dentro da noite, naquela segunda-feira aziaga, pela vereda sombria, marginada de frondosas baraúnas, de umbuzeiros sinistros que lembravam fantasmas, soturno vinha o desgraçado vaqueiro, vezes pensando na carestia dos gêneros na feira da Vila, sonhando outras vezes com o grande roçado, que o sol de outubro estivera a comburir flamando. E, no silêncio daquela mesma noite, uma sombra diabólica, tendo uma grande faca nua na mão, dentro da caatinga, esperava de tocaia o vaqueiro. E o vaqueiro vinha.


Resplandecia-lhe na alma a pureza dos martírios obscuros, que à vida inteira vão, sem um dia de festa, sem um consolo único, a não ser o trabalho.


Era um caboclo de seus trinta e tantos anos, o olhar afogueado pelos sóis de verão, a pele enegrecida pela canícula das pachorrentas estiagens.


Nascera em Amargosa, um lugarejo misérrimo que ficava muito longe. Viera de lá quando 77 surgira tirano, com aquele sol implacável, impiedoso, devastando, flagelando campos e cidades...


Ah 77, a grande seca! ...


Numa véspera de São João, quase morrera o desgraçado de uma explosão de sal de Bertholet e súlfur. Fora suficiente a pressão de uma pedra sobre a matéria para que esta se inflamasse, com um pavoroso estampido, atirando para os ares o infeliz, que veio arrebentar na queda a tíbia direita, deslocando a clavícula, deslocando falanginhas e falangetas.  


Surdo e cego, gemia o desventurado, se amparando ao ombro do velho Manoel Jerônymo, que acudira ao ruido pavoroso, sinistro.


Mas escapara desta vez...


Entretanto, havia naquela segunda-feira aziaga, quando voltava do trabalho honrado, em busca da esposa e dos filhos, encontrar numa tocaia do caminho o braço traiçoeiro, covarde...


Em 1888, viajava pelo norte do Estado, acompanhando um protetor que nada lhe podia dar, exceto a rigidez inquebrantável dos martírios do trabalho honesto, a pureza dos bons princípios e os parcos rendimentos de uma fazenda de vacas.


Não fora uma vida sem aventuras. Fora uma vida de lágrimas, de desespero, de sangue. Diziam que assassinara, em caminho da Viçosa, um vaqueiro.


Anoitecera em uma espessa mata; perdera-se, não sabia como dela sair. Zumbia entristecedoramente nos labirintos sombrios dos parênquimas, dos caules, ou dos troncos, a orquestra isócrona dos homópteros; e, repentinamente, o frio torturante da noite hibernal começara a arrepiar inclemente as carnes. Vezes parecia cachoar, batendo na mata com uma impertinência aborrida, a chuva de inverno. Calavam-se os homópteros... Quando cessava, a chuva era terrível, e desolador aquele dédalo!


Dormia pelos barrancos negros da terra, pelas ribanceiras dos riachos, ganhando anfractuosidades, o fantasma sombrio da Solidão.


Dentro da mata, seria impossível apreciar uma estrela que estivesse no céu. E o viajante como que se asfixiava, sentindo n’alma um terror incrível. Montado numa égua passeira, podia furar o mundo, em outras circunstâncias, porém ali parecia que o próprio animal não tinha mais coragem para dar um passo. Então maior receio feria o viajante.


Sonhava que de dentro da mata vinha os olhos de fogo, aquele horroroso Pedro Botelho, o rei dos infernos...


Despertava-lhe na psiquê o tumultuar sombrio dos prejuízos hereditários, o medo do sobrenatural... E se lembrava de uma história horrenda que a Rita do Antônio Joaquim lhe contara, história de arrepiar cabelos...


Não receava onças, que lá como que não havia onças! Não receava homens, porque destes nunca fugira em ocasiões de perigo... Porém, de coisas outras tinha medo...


Parecia-lhe que aquele engano, aquela transição desconhecida na má viagem, era uma cilada que os demônios lhe estavam armando. Desorientado, suava gelo. A égua ferida pelo chicote, crivada pela espora, escorregava, perdia-se dédalo da mata a dentro.


E as coisas passadas, os dias de Amargosa, únicos dias quase felizes de sua vida, quando menino ele era, vezes despontavam-lhe no cérebro como fossem um relampado de março numa caverna sombria.


Súbito, no meio da vereda surge-lhe um vulto, agarrando a rédea do animal, escarrando ao peito do cavaleiro uma grande pistola que lhe pareceu pedra de fogo. Porém, o viajante desviou o braço do ladrão, e com a pistola que também trazia, disparou-lhe um balaço rápido, certeiro, terrível. Então rugiu como o latido estranho de uma fera, quebradas a dentro, o eco pavoroso, medonho, do tiro. Subindo pelas galhadas dos itapicurus, turibulava o aroma enjoado de súlfur e nitro combustos.


E a vítima rouquejava lugubremente, estortegava horrendamente, no meio da mata, no coração negro da noite. O viajante, numa disparada febril, desaparecia assombrado em cima da besta assombrada, fugia sem saber para onde no intrincado da mata, se afundando na treva...


E, alguns dias depois, batia à porta de casa, chamava pela esposa... Era quando estava abrolhando uma esplendorosa alvorada.


- Isabel!   Isabel!!


E a mulher foi recebe-lo, assustando-se perante aquela feição cheia de pavores, de remorsos... E ele contou o acontecimento à esposa, confusamente, nervosamente... Estava ainda mais queimado pelo sol, ainda mais roto, mais pobre, mais desgraçado.


Porém, escapara desta vez ainda. Não escaparia, entanto, naquela segunda-feira aziaga, quando dentro da noite, soturno vinha pela vereda sombria, marginada de baraúnas frondosas, de umbuzeiros que lembravam fantasmas...


Numa volta do triste caminho aquela visão diabólica, o Manoel Ângelo, o bandido, o assassino, o degenerado, vibrou-lhe traiçoeiramente uma facada que o fez tombar quase morto...


Tomara, na Vila, o infeliz vaqueiro um pouco de aguardente... O Avelino lhe retrucara na taverna do Fortunato:


- Caboclo, não bebas mais! Olha, tu vais sozinho de noite para o Mundo-Novo... O ditado diz “quem tem inimigo não dorme”...


- Avelino, poderás me encontrar morto, porém, não desfeitado.


E com aquele entusiasmo de sertanejo honesto, dizendo adeus, se retirara da taverna. Agora, estava morto, o corpo trespassado de faca, o sangue porejando por mil feridas... 


E a noite, somente a desolada noite, confidenciara das suas derradeiras angústias. ...


***   ***


Hoje, porém, o veredo está interdito pelas galhas que o vento das trovoadas derriba. E o povo rústico abandonou por completo o veredo sinistro, porém, ninguém se encoraja perante os fantasmas que gostam de aparecer junto das cruzes.


- Consequências mesológicas, de hereditariedade, não se vencem de modo tão rápido e o povo é o pobre povo da superstição, do atraso...


À noite, olhando a serra desolada, a casa do infeliz vaqueiro, os currais da fazenda caindo, as cercas arruinadas, a capoeira do roçado rebentando numa fertilidade espantosa...

 

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 

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Conto de Bráulio Cavalcante[i], transcrito do jornal O MONITOR, Penedo-AL, edições de 10 e 17 de maio de 1909 (de propriedade de Moreno Brandão).

 

 



[i] Bráulio Guatimozim Cavalcante. Filho do Capitão José Venustiniano Cavalcante e de D. Maria Olympia. Nasceu em Pão de Açúcar-AL, no dia 14 de março de 1887, na casa nº 23 da rua da Matriz (hoje Avenida Bráulio Cavalcante, nº 209). Faleceu em 10 de março de 1912, na Praça dos Martírios, em Maceió, de um ferimento penetrante na linha axilar posterior direita, no quarto intercostal, recebido quando realizava um comício em prol das candidaturas do Cel. Clodoaldo da Fonseca e do Dr. Fernandes Lima.

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia