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| Bráulio Cavalcante |
Dentro da noite, naquela segunda-feira aziaga, pela vereda
sombria, marginada de frondosas baraúnas, de umbuzeiros sinistros que lembravam
fantasmas, soturno vinha o desgraçado vaqueiro, vezes pensando na carestia dos
gêneros na feira da Vila, sonhando outras vezes com o grande roçado, que o sol
de outubro estivera a comburir flamando. E, no silêncio daquela mesma noite,
uma sombra diabólica, tendo uma grande faca nua na mão, dentro da caatinga,
esperava de tocaia o vaqueiro. E o vaqueiro vinha.
Resplandecia-lhe na alma a pureza dos martírios obscuros, que
à vida inteira vão, sem um dia de festa, sem um consolo único, a não ser o
trabalho.
Era um caboclo de seus trinta e tantos anos, o olhar
afogueado pelos sóis de verão, a pele enegrecida pela canícula das pachorrentas
estiagens.
Nascera em Amargosa, um lugarejo misérrimo que ficava muito
longe. Viera de lá quando 77 surgira tirano, com aquele sol implacável,
impiedoso, devastando, flagelando campos e cidades...
Ah 77, a grande seca! ...
Numa véspera de São João, quase morrera o desgraçado de uma
explosão de sal de Bertholet e súlfur. Fora suficiente a pressão de uma pedra
sobre a matéria para que esta se inflamasse, com um pavoroso estampido, atirando
para os ares o infeliz, que veio arrebentar na queda a tíbia direita,
deslocando a clavícula, deslocando falanginhas e falangetas.
Surdo e cego, gemia o desventurado, se amparando ao ombro do
velho Manoel Jerônymo, que acudira ao ruido pavoroso, sinistro.
Mas escapara desta vez...
Entretanto, havia naquela segunda-feira aziaga, quando
voltava do trabalho honrado, em busca da esposa e dos filhos, encontrar numa
tocaia do caminho o braço traiçoeiro, covarde...
Em 1888, viajava pelo norte do Estado, acompanhando um
protetor que nada lhe podia dar, exceto a rigidez inquebrantável dos martírios do
trabalho honesto, a pureza dos bons princípios e os parcos rendimentos de uma
fazenda de vacas.
Não fora uma vida sem aventuras. Fora uma vida de lágrimas,
de desespero, de sangue. Diziam que assassinara, em caminho da Viçosa, um
vaqueiro.
Anoitecera em uma espessa mata; perdera-se, não sabia como
dela sair. Zumbia entristecedoramente nos labirintos sombrios dos parênquimas,
dos caules, ou dos troncos, a orquestra isócrona dos homópteros; e,
repentinamente, o frio torturante da noite hibernal começara a arrepiar
inclemente as carnes. Vezes parecia cachoar, batendo na mata com uma
impertinência aborrida, a chuva de inverno. Calavam-se os homópteros... Quando
cessava, a chuva era terrível, e desolador aquele dédalo!
Dormia pelos barrancos negros da terra, pelas ribanceiras dos
riachos, ganhando anfractuosidades, o fantasma sombrio da Solidão.
Dentro da mata, seria impossível apreciar uma estrela que
estivesse no céu. E o viajante como que se asfixiava, sentindo n’alma um terror
incrível. Montado numa égua passeira, podia furar o mundo, em outras
circunstâncias, porém ali parecia que o próprio animal não tinha mais coragem
para dar um passo. Então maior receio feria o viajante.
Sonhava que de dentro da mata vinha os olhos de fogo, aquele
horroroso Pedro Botelho, o rei dos infernos...
Despertava-lhe na psiquê o tumultuar sombrio dos prejuízos
hereditários, o medo do sobrenatural... E se lembrava de uma história horrenda
que a Rita do Antônio Joaquim lhe contara, história de arrepiar cabelos...
Não receava onças, que lá como que não havia onças! Não receava homens, porque destes nunca fugira em ocasiões de perigo... Porém, de coisas outras tinha medo...
Parecia-lhe que aquele engano, aquela transição desconhecida na má viagem, era uma cilada que os demônios lhe estavam armando. Desorientado, suava gelo. A égua ferida pelo chicote, crivada pela espora, escorregava, perdia-se dédalo da mata a dentro.
E as coisas passadas, os dias de Amargosa, únicos dias quase
felizes de sua vida, quando menino ele era, vezes despontavam-lhe no cérebro
como fossem um relampado de março numa caverna sombria.
Súbito, no meio da vereda surge-lhe um vulto, agarrando a
rédea do animal, escarrando ao peito do cavaleiro uma grande pistola que lhe
pareceu pedra de fogo. Porém, o viajante desviou o braço do ladrão, e
com a pistola que também trazia, disparou-lhe um balaço rápido, certeiro,
terrível. Então rugiu como o latido estranho de uma fera, quebradas a dentro, o
eco pavoroso, medonho, do tiro. Subindo pelas galhadas dos itapicurus,
turibulava o aroma enjoado de súlfur e nitro combustos.
E a vítima rouquejava lugubremente, estortegava
horrendamente, no meio da mata, no coração negro da noite. O viajante, numa
disparada febril, desaparecia assombrado em cima da besta assombrada, fugia sem
saber para onde no intrincado da mata, se afundando na treva...
E, alguns dias depois, batia à porta de casa, chamava pela
esposa... Era quando estava abrolhando uma esplendorosa alvorada.
- Isabel! Isabel!!
E a mulher foi recebe-lo, assustando-se perante aquela feição
cheia de pavores, de remorsos... E ele contou o acontecimento à esposa,
confusamente, nervosamente... Estava ainda mais queimado pelo sol, ainda mais
roto, mais pobre, mais desgraçado.
Porém, escapara desta vez ainda. Não escaparia, entanto,
naquela segunda-feira aziaga, quando dentro da noite, soturno vinha pela vereda
sombria, marginada de baraúnas frondosas, de umbuzeiros que lembravam
fantasmas...
Numa volta do triste caminho aquela visão diabólica, o Manoel
Ângelo, o bandido, o assassino, o degenerado, vibrou-lhe traiçoeiramente uma
facada que o fez tombar quase morto...
Tomara, na Vila, o infeliz vaqueiro um pouco de aguardente...
O Avelino lhe retrucara na taverna do Fortunato:
- Caboclo, não bebas mais! Olha, tu vais sozinho de noite
para o Mundo-Novo... O ditado diz “quem tem inimigo não dorme”...
- Avelino, poderás me encontrar morto, porém, não desfeitado.
E com aquele entusiasmo de sertanejo honesto, dizendo adeus, se retirara da taverna. Agora, estava morto, o corpo trespassado de faca, o sangue porejando por mil feridas...
E a noite, somente a desolada noite, confidenciara das suas
derradeiras angústias. ...
*** ***
Hoje, porém, o veredo está interdito pelas galhas que o vento
das trovoadas derriba. E o povo rústico abandonou por completo o veredo
sinistro, porém, ninguém se encoraja perante os fantasmas que gostam de
aparecer junto das cruzes.
- Consequências mesológicas, de hereditariedade, não se
vencem de modo tão rápido e o povo é o pobre povo da superstição, do atraso...
À noite, olhando a serra desolada, a casa do infeliz
vaqueiro, os currais da fazenda caindo, as cercas arruinadas, a capoeira do
roçado rebentando numa fertilidade espantosa...
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NOTA
Caro
leitor,
Deste
Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de
informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita
pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência
bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse
para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior
proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a
citação das referências. Isso é correto e justo.
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Conto de Bráulio Cavalcante[i],
transcrito do jornal O MONITOR, Penedo-AL, edições de 10 e 17 de maio de 1909 (de
propriedade de Moreno Brandão).
[i]
Bráulio Guatimozim Cavalcante. Filho do Capitão José Venustiniano Cavalcante e
de D. Maria Olympia. Nasceu em Pão de Açúcar-AL, no dia 14 de março de 1887, na
casa nº 23 da rua da Matriz (hoje Avenida Bráulio Cavalcante, nº 209). Faleceu
em 10 de março de 1912, na Praça dos Martírios, em Maceió, de um ferimento
penetrante na linha axilar posterior direita, no quarto intercostal, recebido
quando realizava um comício em prol das candidaturas do Cel. Clodoaldo da
Fonseca e do Dr. Fernandes Lima.

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