Por Etevaldo Amorim
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| Uma casa de farinha. Desenho: Percy Lau, 1956. |
Folheando um exemplar do jornal pão-de-açucarense A Ideia, datado de 12 de abril de 1910, deparei-me com uma notícia que me avivou a memória em um de seus pontos mais remotos. Recordei-me da farinhada, aquele animado mutirão que se fazia para o fabrico da farinha de mandioca.
Diz a nota:
“Um padre que entende muito bem que não deve cuidar apenas
da batina acaba de inventar no Ceará, ao cabo de 13 anos de investigações e
experiências, um aparelho extremamente simples. Ele facilita
extraordinariamente e reduz a despesa para triturar a mandioca, a fim de fazer
farinha e artigos idênticos. As experiências públicas deram o melhor resultado.
O padre, que se chama José Barbosa de Jesus[i]
e descende de família de agricultores, concebeu essa ideia na adolescência, ao
ver o trabalho com que seu pai macerava a paciência. Que os nossos agricultores
se interessem pelo invento do benemérito patrício.”
Naquela época, para triturar a mandioca, era necessário girar
manualmente uma grande e pesada roda conectada ao ralo (caititu). O invento do
padre, patenteado como “Alavanca Barbosa”[ii],
substituiu esse processo por um conjunto de alavancas e bielas. Acoplado ao
eixo do triturador, o mecanismo reduzia drasticamente o esforço manual. O
operador não precisava mais do movimento circular exaustivo: ao mover um braço
longo para cima e para baixo — uma mecânica muito mais anatômica —, a força
aplicada era multiplicada e convertida em uma rotação veloz no tambor de
ralagem.
Lembrei-me da casa de farinha de meu pai, em um sítio de
mangueiras e coqueiros, na velha Ilha do Limoeiro — no trecho que medeia a sua
extensão entre a famosa Vila e o povoado Jacarezinho. Surpreendi-me ao
constatar que, mesmo nos anos finais da década de 1960, o sistema utilizado era
o tradicional.
A trituração da
mandioca continuava sendo feita através do caititu acoplado a uma roda de
aproximadamente um metro e meio de diâmetro, posicionada a cerca de três metros
e meio de distância.
No caso da casa de farinha de meu pai, o eixo da roda se
apoiava diretamente sobre um mancal — nada mais do que duas toras de madeira
posicionadas em paralelo. Isso exigia um esforço enorme por parte dos dois
operadores, que não podiam cessar o movimento giratório. Foi então que
sobreveio um fato alvissareiro.
Naquela época, havia em Limoeiro um motor-gerador de energia
elétrica. Para dar-lhe manutenção, a Prefeitura contratou um mecânico, o Sr.
Valdemar, que morava na própria casa geradora da força. Esse prédio, um próprio
municipal, passou a funcionar como sede do Correio a partir de 1970.
Pois bem, certo dia meu pai o convidou para ir ao sítio, na
ilha. Chegando à casa de farinha, o mecânico verificou a roda, o eixo apoiado
sobre o mancal, e comentou:
— Seu Agnelo, mas isso aqui é muito pesado! Por que o senhor
não coloca uns rolamentos?
Meu pai não imaginava que essas peças pudessem servir para um
equipamento tão simples. Seu Valdemar, então, se ofereceu para colocá-los, pois
os tinha em casa. Alguns dias depois, lá estava a roda, com o eixo sobre os rolamentos,
levinha, levinha.
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| Casa de farinha na Ilha do Limoeiro. Foto: Paulo Alves, 1988. |
Minhas lembranças retroagem ainda mais no tempo. Meu pai se impusera no intento de montar a fabriqueta. Primeiro, construiu a casinha rústica, de taipa e coberta de telhas-canal. Depois veio a instalação dos equipamentos: o forno de ferro, a roda, o caititu, os cochos e a prensa.
Essa última foi a mais trabalhosa. Meu pai adquiriu a madeira
adequada e foi em busca de um carpinteiro para confeccionar o parafuso e a
porca (fêmea). Indicaram-lhe um mestre residente em Palestina, a que muitos, levados
pelo costume, ainda chamavam de Retiro.
Chamavam-no Mestre Antero[iii].
Contratado para o serviço, ele chegou no dia marcado e instalou sua oficina
debaixo de uma grande e velha marizeira que havia junto à cerca da lagoa da
Igreja, já próximo ao rio.
Ele trabalhava com extrema maestria, e eu passava horas e
horas a vê-lo executar o seu ofício. Primeiro, o parafuso[iv].
Talhando a madeira roliça, o artesão ia moldando os seus contornos com precisão
milimétrica, resultando em uma bela peça de arte e de indiscutível utilidade.
Depois, a porca — ou fêmea —, etapa ainda mais delicada e
complexa, executada quase totalmente às cegas, fazendo com que o passo da rosca
coincidisse perfeitamente com o do fuso de madeira já esculpido.
Manejando formões curvos[v],
Seu Antero cavava pacientemente o sulco em espiral por dentro da peça. Cada
passagem era testada para garantir que as paredes internas ficassem no ângulo
correto. O fuso de madeira era inserido aos poucos na porca. Onde a madeira
raspava e travava, o carpinteiro removia o fuso e desbastava mais um pouco com
o formão, até conseguir o encaixe perfeito.
Ao final de alguns dias, não lembro quantos, estava pronta a
prensa. Equipamento rústico, mas de incontestável funcionalidade, concebido
pelas mãos hábeis de Mestre Antero.
A prensa é um aparelho extremamente importante no processo. Depois
de cevada a mandioca, aquela massa encharcada é colocada em sacos de estopa
empilhados na mesa da prensa. A prancha superior é, então, baixada sobre a
inferior. Acionado o parafuso, esta comprime os sacos com o material, fazendo
com que o líquido escoe pelas canaletas e precipite no cocho colocado abaixo.
Submetida à pressão máxima, até não pingar uma única gota, a
massa é retirada, destorroada, peneirada para retirada das crueiras[vi]
e, enfim, levada ao forno.
O líquido, chamado manipueira[vii],
é altamente tóxico, pois é composto de ácido cianídrico. No entanto, desse
líquido tóxico decanta uma massa fina, a chamada goma (amido puro), que após
lavada e seca é usada para fazer o beiju e a tapioca.
Eu admito que são lembranças de um simples escrevinhador. Mas
como se trata de uma atividade tão genuinamente enraizada nas nossas maiores
tradições, permiti-me compartilhar com os leitores, na esperança de que,
cultuadores dessas mesmas tradições, me perdoem a pretensão de expô-las.
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| Uma prensa de casa de farinha. Fonte: CAMACAM Workshop. |
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| Parafuso e roda de caititu. Foto: acervo Marcelo Maciel. |
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Nossos agradecimentos ao pesquisador e escritor Marcelo
Maciel pelas informações.
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NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”,
constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens
são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da
competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso
sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso
tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de
autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
Foi um sacerdote, monarquista ferrenho e professor do Liceu do Ceará. Filho do
Cel. José Barbosa de Lima e de Francelina Rosa de Lima, nasceu em Baturité,
Estado do Ceará, em 7 de setembro de 1854 e faleceu em Fortaleza, em 25 de
junho de 1945.
[ii]
Na RELAÇÃO DOS PRIVILÉGIOS DE INVENÇÃO, do Relatório do Ministério da
Agricultura do ano de 1911, consta o registro do invento, sob número 6.091, de
12 de maio de 1911, denominado “MÁQUINA SISTEMA-ALAVANCA PARA REDUÇÃO DE
MANDIOCA”.
[iii]
Antônio Pedro da Silva Filho, “Mestre Antero”, nasceu em Bom Conselho,
Pernambuco, em 8 de agosto de 1903 e faleceu em Palestina, AL, no dia 23 de
junho de 1993. Chegou em Retiro, hoje palestina, em 1916. Segundo o escritor
Marcelo Maciel, ele era tio-avô do atual Prefeito de Palestina, Jaime do
Mercado (cujo nome de registro é José Djalma Gonçalves da Silva).
[iv]
Medidas mais comuns: 135 cm de altura e base com 20,5 cm de diâmetro. Peso: 27
kg.
[v]
Os formões curvos, também chamados de goivas, são ferramentas manuais de corte
utilizadas na carpintaria e na escultura em madeira. Diferente de um formão
comum, que possui uma lâmina reta e chata, a goiva possui uma lâmina em formato
de arco (em "U" ou em "V").
[vi]
Resíduo fibroso e grosseiro da mandioca que fica retido na peneira. Ela é
composta por pedaços maiores da raiz que não foram totalmente triturados pelo
ralador, além de fibras e pequenas cascas residuais.
[vii]
O termo é composto pela junção de mani (da lenda de Mani, que deu origem
à palavra mandioca) e pyera (suco, líquido ou o que emana).




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