domingo, junho 14

MEMÓRIAS DE UMA CASA DE FARINHA

 

Por Etevaldo Amorim


Uma casa de farinha. Desenho: Percy Lau, 1956.

Folheando um exemplar do jornal pão-de-açucarense A Ideia, datado de 12 de abril de 1910, deparei-me com uma notícia que me avivou a memória em um de seus pontos mais remotos. Recordei-me da farinhada, aquele animado mutirão que se fazia para o fabrico da farinha de mandioca.


Diz a nota:


Um padre que entende muito bem que não deve cuidar apenas da batina acaba de inventar no Ceará, ao cabo de 13 anos de investigações e experiências, um aparelho extremamente simples. Ele facilita extraordinariamente e reduz a despesa para triturar a mandioca, a fim de fazer farinha e artigos idênticos. As experiências públicas deram o melhor resultado. O padre, que se chama José Barbosa de Jesus[i] e descende de família de agricultores, concebeu essa ideia na adolescência, ao ver o trabalho com que seu pai macerava a paciência. Que os nossos agricultores se interessem pelo invento do benemérito patrício.”


Naquela época, para triturar a mandioca, era necessário girar manualmente uma grande e pesada roda conectada ao ralo (caititu). O invento do padre, patenteado como “Alavanca Barbosa”[ii], substituiu esse processo por um conjunto de alavancas e bielas. Acoplado ao eixo do triturador, o mecanismo reduzia drasticamente o esforço manual. O operador não precisava mais do movimento circular exaustivo: ao mover um braço longo para cima e para baixo — uma mecânica muito mais anatômica —, a força aplicada era multiplicada e convertida em uma rotação veloz no tambor de ralagem.


Lembrei-me da casa de farinha de meu pai, em um sítio de mangueiras e coqueiros, na velha Ilha do Limoeiro — no trecho que medeia a sua extensão entre a famosa Vila e o povoado Jacarezinho. Surpreendi-me ao constatar que, mesmo nos anos finais da década de 1960, o sistema utilizado era o tradicional.


A trituração da mandioca continuava sendo feita através do caititu acoplado a uma roda de aproximadamente um metro e meio de diâmetro, posicionada a cerca de três metros e meio de distância.


No caso da casa de farinha de meu pai, o eixo da roda se apoiava diretamente sobre um mancal — nada mais do que duas toras de madeira posicionadas em paralelo. Isso exigia um esforço enorme por parte dos dois operadores, que não podiam cessar o movimento giratório. Foi então que sobreveio um fato alvissareiro.


Naquela época, havia em Limoeiro um motor-gerador de energia elétrica. Para dar-lhe manutenção, a Prefeitura contratou um mecânico, o Sr. Valdemar, que morava na própria casa geradora da força. Esse prédio, um próprio municipal, passou a funcionar como sede do Correio a partir de 1970.


Pois bem, certo dia meu pai o convidou para ir ao sítio, na ilha. Chegando à casa de farinha, o mecânico verificou a roda, o eixo apoiado sobre o mancal, e comentou:


— Seu Agnelo, mas isso aqui é muito pesado! Por que o senhor não coloca uns rolamentos?


Meu pai não imaginava que essas peças pudessem servir para um equipamento tão simples. Seu Valdemar, então, se ofereceu para colocá-los, pois os tinha em casa. Alguns dias depois, lá estava a roda, com o eixo sobre os rolamentos, levinha, levinha.


Casa de farinha na Ilha do Limoeiro. Foto: Paulo Alves, 1988.

Minhas lembranças retroagem ainda mais no tempo. Meu pai se impusera no intento de montar a fabriqueta. Primeiro, construiu a casinha rústica, de taipa e coberta de telhas-canal. Depois veio a instalação dos equipamentos: o forno de ferro, a roda, o caititu, os cochos e a prensa.


Essa última foi a mais trabalhosa. Meu pai adquiriu a madeira adequada e foi em busca de um carpinteiro para confeccionar o parafuso e a porca (fêmea). Indicaram-lhe um mestre residente em Palestina, a que muitos, levados pelo costume, ainda chamavam de Retiro.


Chamavam-no Mestre Antero[iii]. Contratado para o serviço, ele chegou no dia marcado e instalou sua oficina debaixo de uma grande e velha marizeira que havia junto à cerca da lagoa da Igreja, já próximo ao rio.


Ele trabalhava com extrema maestria, e eu passava horas e horas a vê-lo executar o seu ofício. Primeiro, o parafuso[iv]. Talhando a madeira roliça, o artesão ia moldando os seus contornos com precisão milimétrica, resultando em uma bela peça de arte e de indiscutível utilidade.


Depois, a porca — ou fêmea —, etapa ainda mais delicada e complexa, executada quase totalmente às cegas, fazendo com que o passo da rosca coincidisse perfeitamente com o do fuso de madeira já esculpido.


Manejando formões curvos[v], Seu Antero cavava pacientemente o sulco em espiral por dentro da peça. Cada passagem era testada para garantir que as paredes internas ficassem no ângulo correto. O fuso de madeira era inserido aos poucos na porca. Onde a madeira raspava e travava, o carpinteiro removia o fuso e desbastava mais um pouco com o formão, até conseguir o encaixe perfeito.


Ao final de alguns dias, não lembro quantos, estava pronta a prensa. Equipamento rústico, mas de incontestável funcionalidade, concebido pelas mãos hábeis de Mestre Antero.


A prensa é um aparelho extremamente importante no processo. Depois de cevada a mandioca, aquela massa encharcada é colocada em sacos de estopa empilhados na mesa da prensa. A prancha superior é, então, baixada sobre a inferior. Acionado o parafuso, esta comprime os sacos com o material, fazendo com que o líquido escoe pelas canaletas e precipite no cocho colocado abaixo.


Submetida à pressão máxima, até não pingar uma única gota, a massa é retirada, destorroada, peneirada para retirada das crueiras[vi] e, enfim, levada ao forno.


O líquido, chamado manipueira[vii], é altamente tóxico, pois é composto de ácido cianídrico. No entanto, desse líquido tóxico decanta uma massa fina, a chamada goma (amido puro), que após lavada e seca é usada para fazer o beiju e a tapioca.


Eu admito que são lembranças de um simples escrevinhador. Mas como se trata de uma atividade tão genuinamente enraizada nas nossas maiores tradições, permiti-me compartilhar com os leitores, na esperança de que, cultuadores dessas mesmas tradições, me perdoem a pretensão de expô-las.


Uma prensa de casa de farinha. Fonte:  CAMACAM Workshop.

Parafuso e roda de caititu. Foto: acervo Marcelo Maciel.


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Nossos agradecimentos ao pesquisador e escritor Marcelo Maciel pelas informações.

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 



[i] Foi um sacerdote, monarquista ferrenho e professor do Liceu do Ceará. Filho do Cel. José Barbosa de Lima e de Francelina Rosa de Lima, nasceu em Baturité, Estado do Ceará, em 7 de setembro de 1854 e faleceu em Fortaleza, em 25 de junho de 1945.

[ii] Na RELAÇÃO DOS PRIVILÉGIOS DE INVENÇÃO, do Relatório do Ministério da Agricultura do ano de 1911, consta o registro do invento, sob número 6.091, de 12 de maio de 1911, denominado “MÁQUINA SISTEMA-ALAVANCA PARA REDUÇÃO DE MANDIOCA”.

[iii] Antônio Pedro da Silva Filho, “Mestre Antero”, nasceu em Bom Conselho, Pernambuco, em 8 de agosto de 1903 e faleceu em Palestina, AL, no dia 23 de junho de 1993. Chegou em Retiro, hoje palestina, em 1916. Segundo o escritor Marcelo Maciel, ele era tio-avô do atual Prefeito de Palestina, Jaime do Mercado (cujo nome de registro é José Djalma Gonçalves da Silva).

[iv] Medidas mais comuns: 135 cm de altura e base com 20,5 cm de diâmetro. Peso: 27 kg.

[v] Os formões curvos, também chamados de goivas, são ferramentas manuais de corte utilizadas na carpintaria e na escultura em madeira. Diferente de um formão comum, que possui uma lâmina reta e chata, a goiva possui uma lâmina em formato de arco (em "U" ou em "V").

[vi] Resíduo fibroso e grosseiro da mandioca que fica retido na peneira. Ela é composta por pedaços maiores da raiz que não foram totalmente triturados pelo ralador, além de fibras e pequenas cascas residuais.

[vii] O termo é composto pela junção de mani (da lenda de Mani, que deu origem à palavra mandioca) e pyera (suco, líquido ou o que emana).

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia