sábado, agosto 15

MEMÓRIAS DE UMA ESCOLA ISOLADA

 

Por Etevaldo Amorim

 

A Escola Isolada de Alecrim. 


Para resgatar essa memória, precisamos voltar a meados da década de 1960, essa quadra conturbada da vida nacional, mais precisamente ao ano de 1964.

O município de Pão de Açúcar já contava, em sua sede, com três grupos escolares: o Bráulio Cavalcante (construído em 1934 durante a primeira gestão do prefeito Augusto Machado), o Rosália Sampaio Bezerra (instituído pelo Decreto-Lei nº 2.201, de 19 de fevereiro de 1960, durante o governo Muniz Falcão) e o Pe. José Soares Pinto (Criado pelo do Decreto-Lei nº 1.924, de 23 de setembro de 1964, no governo do Major Luis Cavalcante)[i].

Essa estrutura de Grupo Escolar — idealizada em São Paulo por Caetano de Campos e Gabriel Prestes no final do século XIX — tinha como objetivo unificar as antigas escolas primárias urbanas em uma estrutura graduada por séries.

Embora o modelo tenha sido nacionalizado a partir da Reforma Rivadávia Corrêa (Decreto Federal nº 8.659 de 1911), a realidade da zona rural brasileira ainda era ditada pelas Escolas Isoladas. Consolidado no período republicano, o termo “Escola Isolada” designava as unidades que mantiveram o funcionamento em sala única, unidocente e multisseriada herdado das antigas “Cadeiras de Primeiras Letras” do Império, onde um único professor regia alunos de idades e níveis de escolaridade completamente diferentes.

A minha experiência pessoal reflete perfeitamente esses dois modelos de estrutura educacional. Em princípios de 1964, morando em Campinas, onde eu nasci, comecei a frequentar o Grupo Escolar Padre José dos Santos. (Veja o artigo MINHA PRIMEIRA ESCOLA)

Quando nos mudamos para a Vila Limoeiro (então chamada Alecrim), em julho de 1964, encontrei a escola em reforma, razão pela qual as aulas eram ministradas em sala improvisada. A professora era D. Maria Francisca de Melo, conhecida por Morenita, esposa do Sr. José Alves e mãe de José, Maria Alves, Creuza, Yêda, Neide, Nely e Jailton.

Dedicada e paciente, ela comandava um agrupamento de crianças de diversas idades, de diferentes séries, e de comportamento, digamos, irrequieto. Dona Morenita logo foi morar definitivamente em Pão de Açúcar, onde a família já estava.

Muita estranheza me causou o meu novo ambiente escolar. Além do aspecto físico, o método utilizado era completamente diferente daquele com o qual havia iniciado as primeiras letras.

Minha escola anterior adotava o método da cartilha Caminho Suave, associando a letra à imagem correspondente da Boneca ou da Lata, por exemplo. Cada aluno deduzia a lógica em silêncio: B com O faz BO; L com A faz LA... BOLA.  Em vez disso, o que se ouvia era uma cantoria dos meninos e meninas, soletrando em voz alta e em coro as famílias silábicas: “Bê-ó, Bó....Lê-á...Lá...BOLA...”.]


A cartilha CAMINHO SUAVE de Branca Alves de Lima.


A professora, reconhecendo a minha dificuldade com aquele coro barulhento, não me exigia tais exercícios. Aliás, por ocasião de uma visita da Coordenadora Regional de Ensino, professora Maria Mamede Lima, dona Morenita chegou a sugerir que eu, por estar mais adiantado em relação aos demais, já fosse colocado na 1ª série. A Coordenadora ponderou que seria melhor eu concluir o ano letivo na condição em que estava.


AS TÉCNICAS DE ENSINO

Durante esse período, da 1ª à 3ª série, fomos submetidos progressivamente a diversas técnicas de ensino.

O DECALQUE. Essa técnica era conhecida popularmente como "cobrir". A professora fornecia uma folha com as letras ou palavras impressas (o modelo) em traçado forte. O aluno sobrepunha uma folha de papel de seda (que é semi-transparente) ou vegetal. Olhando através do papel fino, a criança usava o lápis para contornar exatamente as letras que via por baixo. Essa técnica era considerada o estágio inicial da caligrafia. Após o aluno ganhar segurança motora com o decalque, ele "subia de nível" e passava para o traslado (copiar olhando para o quadro) ou para o treino direto no caderno de caligrafia.

O TRASLADO. O traslado era uma das técnicas mais comuns para o ensino e o exercício da escrita nas escolas primárias brasileiras naquela época. Consistia no ato de copiar textualmente um modelo de escrita considerado "perfeito" ou padrão. O objetivo principal era desenvolver a caligrafia legível, a destreza motora e a ortografia correta. A professora escrevia uma frase ou um pequeno texto no quadro-negro (o nosso era verde), e os alunos deviam reproduzir exatamente igual em seus cadernos.

O DITADO. Depois de passarmos pelas duas fases anteriores, vinha o “ditado”. A professora lia o texto completo uma vez para contextualização. Depois, lia frase por frase (ou bloco de palavras) pausadamente para os alunos escreverem. Por fim, fazia uma leitura final rápida para verificação. Ah! Um detalhe: a professora ditava os sinais de pontuação explicitamente. Ela dizia, por exemplo: “O pescador pescou um piau (vírgula) uma piranha (vírgula) e um surubim (ponto final).”

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A Escola, então chamada Escola Rural da Vila Alecrim, foi instalada no dia 18 de fevereiro de 1951, durante a gestão do governador Arnon de Mello. Possuía apenas uma sala de aula e uma residência para a professora, tendo no meio um espaço para recreio.

Após a reforma, inaugurada em 10 de março de 1965[ii], quando o governador do Estado era o Major Luis Cavalcante, uma segunda sala de aula ocupou o lugar do espaço para recreio, e este foi construído em anexo. Essa área de recreio tinha outras utilidades, desde simples reuniões até bailes com os melhores sanfoneiros da época.

É forçoso dizer o quanto era perigosa essa nova área de recreio. Como o terreno atrás da escola tinha declive acentuado, o seu nível ficou muito alto. Até havia uma pequena mureta de cerca de um metro, mas ela não constituía segurança efetiva, já que se podia subir e até sentar sobre ela. Felizmente, nunca se registrou qualquer acidente.

Cada sala tinha uma porta e três ou quatro janelas venezianas; piso de cimento queimado e teto de telhado aparente, com telhas do tipo francesa. A escola recebeu mobiliário novo: um “quadro-negro”, que na verdade era verde, ocupava quase toda a parede anterior. Possuía uma borda inferior que aparava o pó do giz. Sobre ela repousava um estojo com os bastões de giz, cuja tampa corrediça, provida de uma flanela, servia de apagador.


Sala de aula equipada com carteiras de assento duplo semelhante às nossas.


As carteiras de assento duplo traziam um selo exibindo a marca CIMO, de Curitiba. As peças eram dispostas em série: do encosto de cada assento partia uma prancha que servia de mesa para a dupla que sentava logo atrás. Logo abaixo do tampo principal da mesa havia uma prateleira de madeira onde os alunos guardavam os seus materiais.

Na parede posterior (fundo), duas estantes baixas, com portas corrediças, constituíam uma pequena biblioteca, onde se encontravam obras da literatura infantil: “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa”, “Ali-Babá e os 40 ladrões”, “Simbá, o Marujo”, “As Viagens de Gulliver” e até um exemplar da Constituição Federal, outorgada em 1967[iii].


Estante COLTED semelhante à nossa. Foto: Escola Municipal Churchill.


Nessas estantes via-se a sigla COLTED, cujo significado conheço agora: Comissão do Livro Técnico e do Livro Didático, criada pelo Decreto nº 59.355, de 4 de outubro de 1966, resultado de um convênio entre o Ministério da Educação e Cultura (MEC), o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e a USAID - United States Agency for International Development (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Essa Agência americana, aliás, foi a financiadora de toda a reforma, no âmbito desse Acordo MEC/USAID. Havia também um mapa do Brasil, ainda com 22 Estados, 4 territórios e o DF.[iv]

Em 1965, chegou nova professora: Dona Maria Alves Lima, esposa do “Sr. Chico Camarão”. Tinha crianças pequenas: Gilvânia, Sandra, Edja e Genival, que nasceu nesse período. Competente e austera, ela ficou conosco nos anos de 1965 e 1966.

Em 1967, chegaram novas professoras: Maria do Socorro Pereira Lima - com quem cursei o 3º ano - Ângela Barreto Oliveira e Jailda dos Santos, que logo se afastou por problemas de saúde. Faleceu recentemente.

 

UM VISITANTE ESTRANGEIRO

Em 1967, chegou à escola a Coordenadora da 8ª CRE, acompanhada de outras professoras e de um rapaz alto, galego e que falava um português “meio enrolado”. Logo soubemos tratar-se de um americano. Enquanto as professoras conversavam no interior do prédio, ele sentou em uma cadeira e logo fizemos uma roda em torno dele. Perguntas daqui, perguntas dali... ele se dirigiu a mim, o único que usava uniforme (o da minha antiga escola).

Quis saber o que significava a sigla G. E. P. J. S., inscrita no bolso da minha camisa. Respondi-lhe: “Grupo Escolar Padre José dos Santos”.

— E onde fica essa escola? — continuou perguntando.

— Em Campinas, São Paulo.

— Ah! — disse ele. — Então você é um viajante, veio do Sul para cá!!!

Soube depois tratar-se de Richard M. Gross, voluntário do Peace Corps (Corpo da Paz), um programa americano que enviava voluntários, em geral jovens recém-saídos das universidades, para países em desenvolvimento no intuito de prestar assistência técnica, social e humanitária, visando manter a influência dos Estados Unidos na América Latina, sobretudo naqueles tempos da chamada “Guerra Fria”.

“Ricardo”, como era conhecido, deixou Pão de Açúcar em 1968 e foi para Cuiabá, Estado de Mato Grosso. Ele fazia dupla com o “Jaime” (nome abrasileirado de Jim Lane Squires)[v], que veio a se casar com Creuza, filha da professora Morenita, indo morar nos Estados Unidos, em 1968.

 

OS LIVROS E OS MATERIAIS DIDÁTICOS

 

Na 1ª e na 2ª série, estudamos com os livros da Coleção Infância Brasileira, escrita por Ariosto Espinheira e publicada pela Companhia Editora Nacional.

Já nas séries seguintes, usamos a Coleção Nordeste, escrita pela educadora Maria Cecília Rego Ávila Pessoa[vi] e publicada pela Editora do Brasil S.A. Essa coleção explorava duas vertentes: Nordeste: Linguagem, focado em leitura, gramática e expressão escrita; e Nordeste: Lições, voltado para as chamadas “matérias de conteúdo”, que englobavam Ciências, História e Geografia.

Os cadernos eram simples, estampando na capa uma foto de inspiração ufanista e o hino nacional impresso na contracapa.

Usávamos borrachas da marca Mercur, brancas e moles, para apagar escritos com lápis grafite e uma outra mais dura, bicolor (uma parte azul e outra vermelha), para apagar textos escritos com caneta esferográfica BIC, que já começaram a aparecer.

Nossos lápis grafites eram da marca Faber-Castell, a mais difundida na época. Quando a ponta ficava rombuda, afinávamos com o apontador ou com lâmina Gillete mesmo. Assim, de tanto fazer ponta, o lápis ia diminuindo, diminuindo, a ponto de não poder mais segurá-lo. Mas aí vinha em nosso socorro o “extensor de lápis”, que era uma haste oca do tamanho de um lápis inteiro e com uma abertura em uma das extremidades. Ali fixávamos o pedacinho de lápis e apertávamos com um anel metálico deslizante. Assim podíamos aproveitar o lápis o máximo possível.

Para as provas, utilizávamos o papel pautado, folhas pautadas duplas, que a gente comprava na bodega de Dona Miúda, espécie de armarinho localizado na esquina com a Rua do Meio (R. Jayme Silva).

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Terminado o 3º Ano, entramos em 1968 (ano de grandes agitações no Brasil e no mundo). Iniciaríamos a 4ª série. Mas havia um problema: a Escola não tinha o 4º Ano!!! Nunca entendi o motivo. A professora Ângela chegou a começar as aulas conosco, mas logo veio a ordem para suspender.

Fiquei sem estudar, até que surgiu uma oportunidade de frequentar uma banca de estudos formada pelo meu amigo Lindalvo Silva Costa (noivo de Edith Lima Mendes, com quem se casaria pouco tempo depois). Era uma espécie de “cursinho” para o grande Vestibular daquela época: o Exame de Admissão ao Ginásio. A banca era formada por Edith, Eu e Paulo Andrade. Feito o Exame em final de 1968, passamos todos. Grande professor Lindalvo! 100% de aproveitamento!!!!

 

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Ressalto que a passagem das professoras Ângela e Socorro pela Escola foi marcada por grande movimentação interna e por uma salutar integração com a comunidade. Isso, sem dúvida, contribuiu para a melhoria do aprendizado.

Elas promoviam atividades como recitais de poesia — lembro-me de um que fizemos na casa de Seu Pedro e Dona Raquel, onde recitei o poema 'Cajueiro', de Gentil Braga. Também me recordo de um “café gordo”, para o qual cada um de nós contribuiu com alguma coisa. Comemos a nos fartar! Para completar, a professora Ângela ainda tocava acordeom... um verdadeiro privilégio!!!

Outra lembrança marcante foi a realização do que imagino ter sido a primeira passeata do Limoeiro, em 7 de setembro de 1967, comemorando a Independência do Brasil.

Formaram-se pelotões temáticos: lembro-me de um formado só com meninas, todas vestindo saias que exibiam na frente a bandeira de cada Estado da Federação.

Percorremos as principais ruas da vila: saindo da rua Boa Vista (onde estava a Escola), dobrando à direita para a Rua do Meio (que não ia além da casa de seu Argemiro Mangão), transpondo a igreja para chegar à Rua de Baixo (chamada Bráulio Cavalcante); fazendo em seguida o percurso inverso. À frente ia uma pequena banda vinda de Pão de Açúcar, só com instrumentos de percussão: tarol, caixa e bombo. Mas isso foi para nós uma grande novidade!!!!

E teve mais: elas ainda, por conta própria, resolveram dar aulas de alfabetização para adultos. À noite, e como ainda não havia energia elétrica, a sala era iluminada com a luz de uma lâmpada Petromax[vii], muito utilizada na época. Isso ainda antes do MOBRAL - Movimento Brasileiro de Alfabetização, que só viria a ser criado no final de 1967, pela Lei nº 5.379 de 15 de dezembro, iniciando suas atividades efetivas e em larga escala de ensino apenas a partir de 1970.

Essas são as minhas memórias da velha escola isolada em que estudei. Considerei válida a iniciativa de publicá-las, já que não são só minhas, mas faz parte da história daquela pequena Vila, igualmente isolada, mas que hoje experimenta algum sopro de desenvolvimento.


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Nota 1

Eu julgava que aquela passeata teria sido a primeira da história do Limoeiro. Recentemente, entretanto, no jornal Diário de Pernambuco, edição de 7 de outubro de 1922, encontrei uma notinha entre as muitas que noticiavam as comemorações do centenário da Independência do Brasil. Diz a nota:

“As colunas dos jornais estão cheias das notícias de semelhantes festas, das quais uma das mais tocantes, apesar de sua modéstia, foi a que se verificou na povoação do Limoeiro, município de Pão de Açúcar.

Foram as seguintes as solenidades ali realizadas:

Às 7:00 h da manhã a multidão entoou, aos espocar de girândolas de foguetes, o hino nacional, dando-se uma salva de 21 tiros.

Logo após se verificou o hasteamento da bandeira nacional, saudada com versos patrióticos pelas crianças das escolas.

Às 15:00 h o Sr. Jayme Silva efetuou uma Conferência em que brilhantemente discorreu sobre o fato que solenizava. Seguiu-se uma passeata cívica em que tomaram os escolares, grupos gentis de senhorinhas e os habitantes da localidade, que dava assim uma demonstração inconcussa de amor à Pátria.”

O Sr. Jayme Silva (Jayme Emiliano Silva) nasceu em Jacaré dos Homens, então município de Pão de Açúcar, em 1896 e ali faleceu em 10 de novembro de 1953. Era filho de José Pedro da Silva e Maria Alexandrina Souto. Casado com Maria Alves Feitosa, tiveram os filhos: Neiwton Silva, Ivanir Silva, Ib Silva, Djalma, Washington, Mair, Nicodemos (Dema), Delma, Terezinha e Jaime. Foi vereador e dá nome à antiga “Rua do Meio”, a partir de projeto do vereador Cliuton Santos (1983-1988).

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Nossos agradecimentos a Cerícia Brandão, Vânia Rezende e Edivalda dos Anjos pelas informações acerca da criação das escolas Rosália S. Bezerra e Pe. Soares Pinto.


Borrachao MERCUR bicolor.


Extensor.

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Estojo escolar Fritz Hohansen.



Livro da Série INFÂNCIA BRASILEIRA, de Ariosto Espinheira.


Caderno escolar muito usado na época.


Borracha MERCUR branca.

Placa de inauguração do Grupo Escolar Padre José Soares Pinto, em 1964. Foto: Vânia Rezende, (tratamento com IA por Vívia Amorim.


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NOTA 2

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] A placa de inauguração do Grupo Escolar Pe. José Soares Pinto faz referência ao “Plano Trienal de Educação (1963-1965)”, que integrou o plano macroeconômico de estabilização e reformas estruturais elaborado pelo economista Celso Furtado no governo de João Goulart (Jango). A vertente educacional do plano baseou-se fortemente nas diretrizes da recém-aprovada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB de 1961) e contou com a liderança intelectual do educador Anísio Teixeira. Seu propósito central era transformar a escola pública de uma instituição "ornamental" em uma ferramenta orgânica de desenvolvimento econômico e justiça social. O plano estruturou-se em torno de metas, sendo a principal delas a Universalização do Ensino Primário: O objetivo mais urgente era garantir o acesso à escola primária para 100% das crianças brasileiras em idade escolar até o ano de 1965.

 

[ii] Diário de Pernambuco, 31 de janeiro de 1965.

 

[iii] A Constituição Brasileira de 1967 foi promulgada em 24 de janeiro de 1967 e entrou em vigor em 15 de março do mesmo ano, institucionalizando legalmente o regime militar no Brasil e centralizando o poder no Poder Executivo Federal. Ela substituiu a Constituição de 1946 e incorporou as medidas autoritárias dos primeiros Atos Institucionais, do AI 1 ao AI 4.

 

[iv] Estados: Acre, Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Guanabara, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Territórios: Amapá, Roraima, Rondônia e Fernando de Noronha.

 

[v] Jim Lane Squires. Nasceu em 3 de abril de 1942, em Glendive, Dawson, Montana, EUA, e faleceu em 3 de abril de 1942, em Billings, Yellowstone, Montana, EUA.

[vi] Nome de casada (com Lucilo Ávila Pessoa), de Maria Cecília Mota Rego. Nasceu em Água de Pau, Lagoa, São Miguel, Açores, Portugal, filha de Ernesto Rego e Cecília Eugênia da Motta Vieira. Faleceu no Recife em 16/08/2016.

[vii] Petromax eram lanternas/lamparinas pressurizadas a querosene, ferramenta muito comum para iluminação noturna em áreas rurais ou isoladas que ainda não contavam com energia elétrica nas décadas de 1960 e 1970, como era o caso de Limoeiro, que só viria a receber luz elétrica da CHESF em 1976.

 

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia