quinta-feira, novembro 5

DEIXE AQUI O SEU COMENTÁRIO - PONHA SEU NOME NO CORPO DA MENSAGEM


1907 – O GOVERNADOR EUCLIDES MALTA VISITA PÃO DE AÇÚCAR

 

Por Etevaldo Amorim


Em duas oportunidades (de 12 de junho de 1900 a 12 de junho de 1903 e de 12 de junho de 1909 a 13 de março de 1912), o Estado de Alagoas foi governado pelo Dr. Euclides Malta.


Filho de Manoel Francisco Malta e Maria Vieira Malta, Euclides Vieira Malta nasceu em Mata Grande no dia 16 de setembro de 1861 e faleceu 16 de julho de 1944, em Recife. Em 19 de maio de 1890, casa-se em Penedo com Maria Gomes Ribeiro, filha de Manoel Gomes Ribeiro – o Barão de Traipu.


A "chata" Moxotó no porto de Penedo momentos antes da partida.


Foi durante o seu primeiro período de governo que ele empreendeu uma viagem de recreio pelo rio São Francisco, visitando as diversas localidades ribeirinhas.


A partida de Maceió estava prevista para o dia 26 de julho de 1907, a bordo do paquete Marahú, da Navegação Baiana, sob o comando do capitão-tenente Fábio Rino, com destino a Penedo. Dali em diante, seguiria a comitiva rio acima a bordo da “chata” Moxotó.


Segundo o jornal, a comitiva seria formada pelas seguintes personalidades: o Dr. Joaquim Goulart de Andrade, redator do jornal Gutenberg[i]; Guedes Nogueira, intendente de Maceió[ii]; Protasio Trigueiros, artista plástico e desenhista[iii]; Antônio Alves Brasileiro; comerciante; Arsênio Fortes, comerciante em Maceió e Penedo; Alfredo de Maya, secretário particular do governador[iv]; coronel Salustiano Sarmento, comandante da Força Pública[v]; Antônio de Mello Machado, juiz substituto da 1ª vara da capital; José Gomes Ribeiro, diretor do jornal A Tribuna, órgão oficial do Partido situacionista[vi]; Jacintho Paes Pinto, inspetor do Tesouro Estadual; um ajudante de ordem do governador, o major José Pereira Accioly, do Corpo Policial); um representante do jornal Gutenberg e outro do Diário de Notícias do Rio de Janeiro.


Havia ainda a possibilidade de ser incorporado à comitiva o Dr. Sarjob Barcellos[vii], Engenheiro Fiscal da Great Western, que iria fiscalizar a ferrovia de Paulo Afonso.


A "chata" Moxotó rio acima.


As primeiras notícias da viagem são veiculadas no jornal Gutenberg no dia 1º de agosto, repercutindo telegrama remetido de Pão de Açúcar no dia 30 de julho. Diz o correspondente:


“Partimos de Traipu hoje às 7 horas da manhã. Em Belo Monte, veio numerosa comissão incorporar-se à comitiva, fazendo parte o deputado Freitas Melro[viii] e o Dr. Hugo Botelho[ix].”


Às 14:00, chegam a Pão de Açúcar. A numerosa comitiva é festivamente recebida com fogos, vivas, canoas embandeiradas. Ao som da banda de música, atravessam a extensa coroa de areia em direção à cidade.


Primeiro, foram à casa do Cel. Luiz José da Silva Mello (Deputado Estadual) e, em seguida, para a casa do Cel. João Vieira Lisboa, onde foram recebidos com flores e confetes. Ali foi servido um farto banquete, ocasião em que falaram o Cel. Luiz José e o Governador.


Em seu discurso, Euclides Malta mostrou-se satisfeito por verificar o congraçamento entre elementos políticos dissidentes (Luiz José e João Lisboa[x]), conclamando a que continuassem em harmonia.


Disse também que o objetivo de sua viagem era conhecer melhor as necessidades das comunidades ribeirinhas do São Francisco, e assim envidar esforços para melhor desenvolvê-las.


Ali também estavam presentes: o chefe político de São Brás, os deputados Goulart, Maya, Luiz José, Freitas Melro, João Lisboa, Álvaro Cardoso[xi] e Nunes Leite.[xii]


Também durante o almoço o poeta pão-de-açucarense Damasceno Ribeiro, que havia frequentado a Escola de Belas Artes no Rio de Janeiro, cobrou em forma de poema a construção de um hospital na cidade, declamou a seguinte poesia:


“Os Pobres


Venho em nome da pobreza,

Que mora neste lugar,

Embora com tibieza,

Da luta o gênio saudar!

 

Sim! A camada esquecida

Ou falha de proteção

Sente também que há vida

Vibrando em seu coração!…

 

Por isso venho em seu nome

Brindar o Governador,

Que nas lutas fez renome

Sem nunca as armas depor!

 

A classe que represento,

Tida por muito infeliz;

Que tem o seu advento

Na própria dor que maldiz;

 

Que produz, fecunda a terra,

Em pleno reino da paz,

E corre a morrer na guerra,

Que o gênio do mal nos traz;

 

Essa classe que mais luta

Sem um fim… sem ambição

E se consola, se escuta

O eco de uma oração;

 

Não mandou-me tão somente

As boas-vindas vos dar!

Mas quer também um presente

De vossas mãos alcançar.

 

É sorte de quem padeço

Parecendo não sentir!

— O pobre quando aparece

É sempre para pedir!

 

Pedem os pobres da terra

(E é o meu ideal!)

O lenitivo que encerra

O teto de um hospital.

 

Tem palácio o rico, o nobre,

Onde prolonga o viver!…

— Um hospital quer o pobre,

Onde descanse ao morrer!

 

Eis pois o que mais aspira

O pobre do meu torrão!…

Para quem geme ou suspira

Há mais nobre aspiração?

 

— Dai a todos, um a um,

Sem excluir a ninguém!…

Quem trabalha a bem comum

Aparelha o próprio bem!”


Chegada do governador e comitiva a Pão de Açúcar.


À noite, na residência do Cel. João Lisboa, houve um sarau dançante com a presença da elite social “panassucarense”[xiii] e a banda de música que acompanhava a comitiva.


O governador e comitiva também visitaram a Estação Telegráfica, a cargo do telegrafista Júlio Cavalcante[xiv], que ali chegara em 1905 vindo de Penedo, e que foi considerada bem cuidada, recebendo por isso muitos elogios.


A certa altura da viagem, o Dr. Joaquim Goulart de Andrade telegrafou ao seu irmão Eusébio de Andrade, Deputado Federal (que estava entre os possíveis membros da comitiva, mas que não a acompanhou por motivo de doença)[xv], nos seguintes termos:


“Tenho sido distinguido sempre pelo bom amigo Dr. Euclides. Não há dúvida que este ilustre contemporâneo dispõe de verdadeiras dedicações. Seu prestígio aqui resplende vigoroso para refletir-se em todas as fronteiras da nossa amada Alagoas. Estou encantado com os lindíssimos panoramas dessa belíssima região.”


O governador Euclides Malta e comitiva defronte a residência do Cel. João Vieira Lisboa.


____


Segundo o jornal Gutenberg, que fez a cobertura da viagem, o álbum dessa viagem, com belas vistas das comunidades ribeirinhas de Alagoas, foi organizado pelo Deputado Álvaro Cardoso, e ficaram expostas na sede daquele importante órgão da imprensa alagoana.


O governador Euclides Malta

O Cel. João Lisboa


___ 

Fonte: Portal HISTÓRIA DE ALAGOAS.

______

NOTA:


Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas que faça também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Gutenberg, 1º de agosto de 1907.

[ii] Antônio Guedes Nogueira, Intendente de Maceió no período de 07/01/1907 a 07/01/1909.

[iii] Protásio Trigueiros (Bahia, 1851 – Maceió-1936) era desenhista e gravador, especialista em impressão em pedra e zinco. Era proprietário da empresa Typo Lyto-Zincographia Trigueiros, situada na Rua do Comércio.

[iv] Alfredo de Farias Maya. Filho de Manoel Melchisedeck de Farias Maya e Francisca Emília de Farias Bittencourt.

[v] Coronel Salustiano Tavares de Mendonça Sarmento (1853-1930).

[vi] O jornal A Tribuna, órgão oficial do partido situacionista, funcionava como Diário Oficial. Isso porque o Diário Oficial propriamente dito só viria a ser fundado por meio do Decreto nº 537, tendo a primeira edição circulado no dia 17 de janeiro de 1912, utilizando as máquinas que o governo comprou d'A Tribuna após o fechamento desta.

[vii] Sarjob Barcellos. Engenheiro Civil, natural do Rio de Janeiro. Filho de Jos.é Bernardino Rodrigues Barcellos e Sabina Vieira de Lemos. Casado com Maria Emília Cavalcanti.

[viii] Joaquim Freitas Melro (1863-1945), filho de Francisco de Freitas Melro e Antônia Angélica da Assumpção. Casado com Maria do Valimento Mello. Desse casal nasceu Aurita de Freitas Melro, primeira esposa do Sr. Joaquim Cruz Rezende.

[ix] Dr. Victor Hugo Botelho, filho de Victorino do Amaral Botelho e Maria Magdalena Cabral.

[x][x] O Cel. João Lisboa era, então, Deputado Estadual. Ele que havia sido Intendente de Pão de Açúcar de 07/01/1899 a 07/01/1901.

[xi] Álvaro Cardoso Dias. (Penedo – AL 1862 – Rio de Janeiro – RJ  11/11/1911).

[xii][xii] Dr. Antônio Nunes Leite (23/10/1882 – 19/10/1960), formado pela Faculdade de Direito do Recife, filho de Jacintho José Nunes Leite e Maria Tereza de Jesus. Casado com Astrogilda Alves Ether, irmã do poeta Agripino Ether.

[xiii] “Panassucarense”. Era assim que se escrevia o gentílico de quem nasce em Pão de Açúcar naquela época.

[xiv] Em 1914, passou a se chamar Júlio Jaciobá Cavalcanti. Fonte: Boletim Telegráfico da Repartição dos Telégrafos. Filho do Cap. Mariano Joaquim Cavalcanti e Tereza Vieira Cavalcanti.

[xv] Gutenberg, 25 de julho de 1997.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

PUBLICAÇÕES
Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia