terça-feira, 8 de janeiro de 2019

A POESIA DE MURILO GAMA


A POESIA DE MURILO GAMA[i]
SONETO[ii]

Faz tanto tempo que estou deitado
E não consegui ainda adormecer...
Pensando no presente e no passado,
Tenho u’a vontade louca de morrer.

No futuro, também tenho pensado,
Mas não suponho o que virá a ser:
Se o retrato fiel do meu passado
Ou do presente que me faz sofrer.

O meu passado: a gloriosa infância,
Que já passou e que se vai perdida...
No turbilhão dos anos, na distância.

Meu presente: a tétrica mocidade,
Esta quadra infeliz da minha vida
Que não há de ser nunca uma saudade.

***   ***   ***
INCERTEZA

Eu quisera saber porque a saudade,
Irmanada à tristeza, ao sofrimento,
É mais profundo no morrer da tarde
Quando se busca a paz do esquecimento.

Eu quisera saber se o meu tormento
Não findará, jamais, na mocidade...
E se triste terei, no pensamento,
Uma eterna lembrança, uma saudade.

Eu quisera saber e, no entanto,
Vejo somente muda, em cada canto,
A INCERTEZA – que aumenta o meu sofrer.

Eu serei apenas, nesta vida
O fantasma da dor – sombra perdida-
Entre as sombras sem fim deste querer.

NA SOLIDÃO

Esses versos que faço a sós co’a lua,
Na triste solidão do meu destino;
É refletindo na imagem tua
Botão de rosa, belo e purpurino.

A noite é bela. Na deserta rua
Vagueio triste a procurar, sem tino,
Alguém que fale da beleza tua.
Do rosto teu, angelical, divino.

É só a lua em seu fulgor radiante,
Vem falar ao triste namorado errante
Que tem por sina vaguear sozinho.

E a noite inteira prá cantar num verso:
A saudade, a tristeza, o amor diverso
Dos que vivem na terra sem carinho.
(Cajueiro-AL, 1954)





O poeta Murilo Gama

[i] Murilo Gama Costa nasceu em Cajueiro, então pertencente ao município de Capela, Estado de Alagoas, a 12 de junho de 1933. Filho de José Vieira Costa e Edelvita Gama Costa, tinha como avós paternos Antônio Vieira Costa e Januária Guilhermina da Costa e, maternos, Antônio Rolemberg Gama e Luzia de Ataíde Lessa.
Fez o Curso Primário em sua terra natal. Em Maceió, concluiu o 2º Grau no colégio Guido de Fontgalland.
Foi jornalista policial, Fiscal de Rendas Estadual, professor de história em Cajueiro, Contabilista, Secretário Municipal de Cajueiro na Administração do então prefeito Antônio Palmery Soriano, e Assessor Jurídico da Câmara Municipal de Vereadores de Cajueiro.
Formou-se em Direito e História pelo CESMAC. Atuou na área de advocacia criminal na Região da Zona da Mata de Alagoas, sobretudo na comarca de Capela. Foi ainda Suplente de Vereador no Município de Cajueiro, na Legislatura 1983/1988).
Casado com Iracema Cassiano Gama, com quem teve os filhos: José Sebastião Cassiano Gama, Lúcia Verônica Cassiano Gama, Lívia Maria Cassiano Gama (falecida), Lícia de Guadalupe Cassiano Gama, Múcio Murilo Cassiano Gama, José Claudio Cassiano Gama, José Clódio Cassiano Gama, Sâmia Galgani Cassiano Gama, Saadia Sofia Cassiano Gama e Fúlvia Soraya Cassiano Gama (falecida).
Faleceu a 1º de março de 2007 em sua terra natal.
Pela Lei Municipal nº 700, de 25 de abril de 2014, a Prefeitura Municipal de Cajueiro denominou a Rua “B” do Conjunto Residencial Presidente Fernando Collor de “RUA MURILO GAMA COSTA”.

(Colaboração de Múcio Murilo Cassiano Gama)

[ii] Publicado na Revista Mocidade, Ano X, nº 31, Abril de 1956, p. 47.

Um comentário:

  1. Saudades Eterna ao meu amigo Murilo Gama.que foi tratado por mim como pai amigo irmão de todas as horas,pelo qual nos ajudamos em vários momentos,então o céu ganhou uma alma de Luz com cara séria mais um coração Lindo,no momento só tenho a agradecer tudo que fizestes por nós vc sabe eu e deus.eternamente Grata! Tânia Couto

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia