Por Etevaldo Amorim
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| Jacaré dos Homens, Praça José Teófilo Silva. |
Nos nossos sertões, assolados pelo sol inclemente e pela escassez água, as maiores demandas giravam sempre em torno de providências que minimizassem os efeitos da seca, tornando a vida menos sofrida e amarga.
Em Jacaré dos Homens, povoado do município de Pão de Açúcar,
não era diferente. Os seus moradores, ativos e empreendedores, lutavam em
diversas frentes por melhorias, tentando se fazerem ouvir pelos poderes
públicos.
Era, sem dúvida, o mais próspero dos povoados do município de
Pão de Açúcar. Limoeiro tinha sua importância, é verdade; como entreposto
comercial, servindo de porto para a entrada e saída de mercadorias vindas ou
demandando o próprio Jacaré, além de Retiro, Guaribas e outros situados mais ao
centro, quando o fluxo comercial se dava quase que exclusivamente pelo rio São
Francisco. Mas Jacaré dos Homens era diferente. Sua vocação para a produção de
leite e derivados, oferecendo ao mercado produtos de superior qualidade,
conferia àquele pequeno povoado uma importância singular.
Suas lideranças eram ouvidas e respeitadas. Tanto que, na
Sessão de 12 de maio de 1936, da Assembleia Legislativa Estadual, foi lido
Projeto de Lei do deputado Ezechias da Rocha, que autorizava o Governador a
mandar construir um açude em Jacaré dos Homens, município de Pão de Açúcar. Tal
projeto foi aprovado em 2ª discussão na Sessão Ordinária de 20 de maio daquele
ano.
A esse respeito, um de seus líderes políticos, o Sr. Durval
Nery de Araújo, remeteu uma carta à direção da Gazeta de Alagoas, publicada na
edição 3 de julho de 1936.
“Ilmº Sr. Luiz Silveira, digno diretor da Gazeta de
Alagoas.
Cordiais saudações.
Na qualidade de leitor assíduo do vosso conceituado jornal,
venho, de há muito, observando o interesse desse independente órgão a bem da
coletividade e, muito especialmente, em prol do pobre sertanejo que, além de
ser perseguido pelas sucessivas secas, mais ainda pelos bandidos que infestam a
nossa zona, concorrendo par intranquilidade das famílias e o regresso da
economia do Estado.
Agora mesmo, com o ato de justiça que acaba de praticar o Dr.
Osman Loureiro, sancionando o Projeto nº 1.351, de 3 de julho, autorizando um
crédito de 50 contos para a construção de um açude neste povoado, veio levantar
os ânimos de um povo que, apesar do grande heroísmo e um forte espírito para
enfrentar toda sorte de intempéries, estava quase desiludido de receber
qualquer benefício da parte dos poderes públicos.
Mas, Sr. Diretor, não é tão somente de um açude que Jacaré
dos Homens precisa. Precisa de uma estrada de rodagem para melhorar a sua
situação econômica e financeira; precisa de uma agência de correio para
facilitar o meio de correspondência; em suma: precisa ao menos de uma escola
por conta do Estado para a instrução pública.
Por este princípio, meu caro Luiz Silveira, venho em nome do
povo da minha terra, agradecer a essa Folha os serviços prestados a bem da
humanidade, e fazer um apelo para que continue a trabalhar em favor desta pobre
terra, que até então julgávamos fora do mapa de Alagoas.
Ao seu dispor e muito grato, aqui fica um seu amigo e
admirador.
Durval Nery.”
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| O Sr. Durval Nery de Araújo |
Outra carta, à guisa de agradecimento, foi remetida por outra
das mais importantes lideranças locais, publicada no mesmo jornal, 5 de
setembro de 1936:
“Exmº. Sr. Dr. Deputado Ezechias da Rocha[i],
Maceió.
Jacaré dos Homens – Esta povoação plantada em plena “fornalha
dos trópicos”, este lugarejo onde o homem combate, com um entusiasmo comovente,
as investidas diabris das estiagens, vai ter um açude.
É que Vossa Excelência, que de tão perto conhece o
sofrimento, as mil e uma angústias deste povo quando alcançado pelo furor
destrutivo das secas, pediu à Câmara Estadual o melhoramento de que mais
necessitamos para a cessação das nossas lamúrias nas épocas em que o sol,
bebendo a água dos poços, nos atemoriza com a sede – a maior abantesma de nossa
terra.
A Câmara ouviu a tua voz, dando ao pedido de V. Ex.ª a forma
de um decreto que foi sancionado pelo Ex. º Dr. Osman Loureiro.
Vem de anos vibrando na alma inquieta de nosso povo a ânsia
de se antepor uma açudada à periodicidade dos estios dizimadores de árvores e
de rebanhos.
No Império, quando Rebouças afirmou “serem precisos 50 açudes
em Alagoas” para o combate à seca nós aguardamos a esmola de um açude.
E a República nos encontrou bebendo a água salobra das
cacimbas!
O jacarezeiro, como o homem desprotegido do “circo sem teto
da Amazônia”, possui “uma inspiração bramânica” que o “retém no mesmo solo que
o atraiçoa.”
Nós enfrentamos as morbidezas que nos veem com os longos dias
caniculares, sem uma maldição à gleba por “onde passou cantando a alegria de
nossos filhos” e em cujo seio descansa a velhice de nossos antepassados,
revestidos, ainda, daquela coragem quase lendária que Euclides da Cunha kodakizou[ii]
através da aparente lerdeza do sertanejo.
Nunca deixamos, porém, de esperar o amparo, de aguardar os
favores dos governos fisiocráticos – daqueles que enxergando a feracidade de
nossa terra nas épocas hibernais, se compadecem de nós quando a seca – o maior
flagelo meteorológico que nos visita, procura nos afastar de Deus pela
brutalidade das blasfêmias!
No general Gabino Besouro encontramos um homem sensível às
nossas amarguras gritantes. Esse militar nos deu um açude. Não fora a
incompetência do construtor dessa obra, o rosário dos nossos infortúnios não
teria as mil contas dolorosas que a sede tem emprestado à vida desta partícula
de sertão.
Em princípios de 1930, tivemos a felicidade de hospedar o Sr.
Álvaro Paes, então governador do Estado e o mais sertanista de todos os
governadores de Alagoas.
E este homem de coração de santo e de vida pública de uma
pureza de cristal polido, só não nos deu a açudada que lhe pedimos porque a
Revolução o afastou do Palácio dos Martírios.
Agora, V. Ex.ª alcançou para Jacaré dos Homens aquilo que há
mais de cinquenta anos nós esperamos com uma confiança perfeita de Fakir.
E fique certo V. Ex.ª de que os jacarezeiros agradecidos de
que os homens deste sertão tantas vezes ferido pela inclemência das canículas,
saberão render um culto eterno de reconhecimento à beleza de um gesto que marcará
logo o epílogo dos misereres que centenas de bocas entoam sob o pedaço de céu
azul de nossa terra!
V. Ex.ª entrou, desde dias, para a história deste povoado
como o seu maior benfeitor!
Aproveitando a oportunidade, apresento a V. Ex.ª os meus
protestos de estima e muito alta consideração.
Saudações.
José Theophilo Silva
Jacaré dos Homens, 25 de agosto de 1936.”
(Transcrito da Gazeta de Alagoas, 5 de setembro de 1936)
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| O Sr. José Teófilo Silva |
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Em 1952, projetou-se construir outro açude em Jacaré dos Homens. Para tanto, já se havia escolhido um local, conforme telegrama lido pelo deputado alagoano Mendonça Braga[iii], em Sessão Ordinária da Câmara dos Deputado, de 5 de setembro daquele ano.[iv]
Com efeito, já no ano seguinte, achava-se o açude em
construção, com capacidade para 536.500 m³.
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| O Dr. Francisco Araújo Dantas (Dr. Chico) |
Persistiram, entretanto, os danosos efeitos da seca, porquanto
os esforços desprendidos para minimizá-los não se revelaram suficientes.
Muitos anos depois, em 1970, Jacaré dos Homens, como todas as
localidades de Alagoas, sofreu com os efeitos da prolongada estiagem. A revista
O CRUZEIRO ouviu o prefeito Dr. Francisco Araújo Dantas[v].
Na edição de 16 de junho, Dr. Chico fala ao repórter Paulo Granja:
“Eu nasci aqui a 42 anos. Já vi secas, convivi muito com elas
e com suas consequências. Mas a miséria que hoje se espalha por todos os
recantos desta região é inédita.
Se ainda não houve saques nos municípios alagoanos isso se
deve exclusivamente à formação do trabalhador desta região. Ele é um homem que
não está habituado a conseguir aquilo a que não faz jus. Não consta que alguém
esteja orientando este povo a invadir feiras, armazéns, etc. O que há mesmo é
fome.”
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| O Dep. Ezechias da Rocha. Foto: site História de Alagoas |
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| O Deputado Mendonça Braga. Foto: site História de Alagoas |
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NOTA:
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema
“HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas
relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com
farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta
razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer
trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo
também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é
correto e justo.
[i]
Ezechias Jerônimo da rocha nasceu em Sertãozinho, hoje Major Isidoro-AL no dia
8 de dezembro de 1898 e faleceu no Rio de Janeiro em 8 de abril de 1983. Foi Deputado
Estadual, Senador Federal, médico, compositor. Filho de Isidoro Jerônimo da
Rocha (que dá nome à cidade de Major Isidoro) e Maria Umbelina Souto da Rocha
(solteira, Maria Umbelina de Mello Souto, filha de Manoel Lourenço de Mello
Souto e Antônia Rodrigues da Conceição).
Curso primário na terra
natal, secundário em Maceió, no Colégio 11 de janeiro. Diplomado pela Faculdade
de Medicina da Bahia (1921), especializou-se em clínica médica. De volta ao seu
estado, clinicou e tornou-se catedrático de História Natural na Escola Normal e
no Liceu Alagoano. Chefe de Clínica da Santa Casa de Misericórdia. Diretor da
Saúde Pública, em 1932-33. Posteriormente, tornou-se professor de Medicina
Tropical na Escola de Medicina de Alagoas, da qual foi um dos fundadores. Em
outubro de 1934, candidata-se a deputado estadual em Alagoas e obtém uma
suplência. Assumindo em 1936, permaneceu na Assembleia Legislativa até 10 de
novembro do ano seguinte, quando são fechados os legislativos do país. Em
outubro de 1950, elege-se senador na legenda da UDN, ocupando sua cadeira de
março de 1951 a janeiro de 1959, tendo sido membro da Comissão de Saúde e,
ainda, da Comissão de Redação. Foi delegado brasileiro às conferências
interparlamentares que se reuniram em Viena e Helsinque. Diplomado pela Escola Superior
de Guerra. Foi presidente de Sociedade de Medicina de Alagoas. Membro da AAL,
onde ocupou a cadeira 20. Sócio do IHGAL foi colaborador da revista dessa
última instituição. Pseudônimos: Frei Francisco, Paulo Bruno e Alexandre
Zabelê. Patrono da cadeira nº 22 da Academia Alagoana de Medicina. Fonte: ABC
DAS ALAGOAS – BARROS, Francisco Reynaldo Amorim de.
[ii]
Derivado da marca Kodak, o verbo era comum no início do século XX e carregava
nuances específicas. No contexto literário, era frequentemente utilizado por
escritores da Belle Époque para descrever a captura de "flagrantes"
da vida cotidiana.
[iii]
José Caralâmpio de Mendonça Braga. Nasceu no Engenho Maranhão, Camaragibe - AL em
16/04 ou 06/1904 e faleceu no Rio de Janeiro - RJ em 07/07/1982). Deputado
federal e estadual, secretário de estado, jornalista, professor, advogado.
Filho de Francisco Rodrigues Braga e Antônia de Mendonça Braga.
[iv] DIÁRIO
DE PERNAMBUCO, 6 de setembro de 1952.
[v] Dr.
Francisco Araújo Dantas. Nasceu em Jacaré dos Homens, município de Pão de
Açúcar, em 10 de setembro de 1929. Filho de Antônio Vieira Filho e Maria Laura
Araújo Dantas. Casado com a Srª Cira Souto Silva, é pai do atual prefeito de
Pão de Açúcar, Jorge Silva Dantas.






Foi uma obra, com certeza, de relevância o açude de Jacaré dos Homens. Até hj, qd passo pelo mesmo, fico admirado com a estrutura de seu paredão
ResponderExcluirEssa é a verdadeira história de uma época cheia de muitas dificuldades para o sertanejo alagoano de Jacaré dos Homens e tantos outros
ResponderExcluirAmo acompanhar suas Reportagens!! Conteúdos Maravilhosos!!
ResponderExcluirSheylatmb@gmail.com
ResponderExcluirComo leitor e cidadão jacarezeiro agradeço pelo empenho na pesquisa e o texto tão rico em detalhes.
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