domingo, janeiro 18

UM AÇUDE PARA JACARÉ

 

Por Etevaldo Amorim


Jacaré dos Homens, Praça José Teófilo Silva.

Nos nossos sertões, assolados pelo sol inclemente e pela escassez água, as maiores demandas giravam sempre em torno de providências que minimizassem os efeitos da seca, tornando a vida menos sofrida e amarga.


Em Jacaré dos Homens, povoado do município de Pão de Açúcar, não era diferente. Os seus moradores, ativos e empreendedores, lutavam em diversas frentes por melhorias, tentando se fazerem ouvir pelos poderes públicos.


Era, sem dúvida, o mais próspero dos povoados do município de Pão de Açúcar. Limoeiro tinha sua importância, é verdade; como entreposto comercial, servindo de porto para a entrada e saída de mercadorias vindas ou demandando o próprio Jacaré, além de Retiro, Guaribas e outros situados mais ao centro, quando o fluxo comercial se dava quase que exclusivamente pelo rio São Francisco. Mas Jacaré dos Homens era diferente. Sua vocação para a produção de leite e derivados, oferecendo ao mercado produtos de superior qualidade, conferia àquele pequeno povoado uma importância singular.


Suas lideranças eram ouvidas e respeitadas. Tanto que, na Sessão de 12 de maio de 1936, da Assembleia Legislativa Estadual, foi lido Projeto de Lei do deputado Ezechias da Rocha, que autorizava o Governador a mandar construir um açude em Jacaré dos Homens, município de Pão de Açúcar. Tal projeto foi aprovado em 2ª discussão na Sessão Ordinária de 20 de maio daquele ano.


A esse respeito, um de seus líderes políticos, o Sr. Durval Nery de Araújo, remeteu uma carta à direção da Gazeta de Alagoas, publicada na edição 3 de julho de 1936.


Ilmº Sr. Luiz Silveira, digno diretor da Gazeta de Alagoas.


Cordiais saudações.


Na qualidade de leitor assíduo do vosso conceituado jornal, venho, de há muito, observando o interesse desse independente órgão a bem da coletividade e, muito especialmente, em prol do pobre sertanejo que, além de ser perseguido pelas sucessivas secas, mais ainda pelos bandidos que infestam a nossa zona, concorrendo par intranquilidade das famílias e o regresso da economia do Estado.


Agora mesmo, com o ato de justiça que acaba de praticar o Dr. Osman Loureiro, sancionando o Projeto nº 1.351, de 3 de julho, autorizando um crédito de 50 contos para a construção de um açude neste povoado, veio levantar os ânimos de um povo que, apesar do grande heroísmo e um forte espírito para enfrentar toda sorte de intempéries, estava quase desiludido de receber qualquer benefício da parte dos poderes públicos.


Mas, Sr. Diretor, não é tão somente de um açude que Jacaré dos Homens precisa. Precisa de uma estrada de rodagem para melhorar a sua situação econômica e financeira; precisa de uma agência de correio para facilitar o meio de correspondência; em suma: precisa ao menos de uma escola por conta do Estado para a instrução pública.


Por este princípio, meu caro Luiz Silveira, venho em nome do povo da minha terra, agradecer a essa Folha os serviços prestados a bem da humanidade, e fazer um apelo para que continue a trabalhar em favor desta pobre terra, que até então julgávamos fora do mapa de Alagoas.


Ao seu dispor e muito grato, aqui fica um seu amigo e admirador.


Durval Nery.”


O Sr. Durval Nery de Araújo

Outra carta, à guisa de agradecimento, foi remetida por outra das mais importantes lideranças locais, publicada no mesmo jornal, 5 de setembro de 1936:


Exmº. Sr. Dr. Deputado Ezechias da Rocha[i], Maceió.


Jacaré dos Homens – Esta povoação plantada em plena “fornalha dos trópicos”, este lugarejo onde o homem combate, com um entusiasmo comovente, as investidas diabris das estiagens, vai ter um açude.


É que Vossa Excelência, que de tão perto conhece o sofrimento, as mil e uma angústias deste povo quando alcançado pelo furor destrutivo das secas, pediu à Câmara Estadual o melhoramento de que mais necessitamos para a cessação das nossas lamúrias nas épocas em que o sol, bebendo a água dos poços, nos atemoriza com a sede – a maior abantesma de nossa terra.


A Câmara ouviu a tua voz, dando ao pedido de V. Ex.ª a forma de um decreto que foi sancionado pelo Ex. º Dr. Osman Loureiro.


Vem de anos vibrando na alma inquieta de nosso povo a ânsia de se antepor uma açudada à periodicidade dos estios dizimadores de árvores e de rebanhos.


No Império, quando Rebouças afirmou “serem precisos 50 açudes em Alagoas” para o combate à seca nós aguardamos a esmola de um açude.


E a República nos encontrou bebendo a água salobra das cacimbas!


O jacarezeiro, como o homem desprotegido do “circo sem teto da Amazônia”, possui “uma inspiração bramânica” que o “retém no mesmo solo que o atraiçoa.”


Nós enfrentamos as morbidezas que nos veem com os longos dias caniculares, sem uma maldição à gleba por “onde passou cantando a alegria de nossos filhos” e em cujo seio descansa a velhice de nossos antepassados, revestidos, ainda, daquela coragem quase lendária que Euclides da Cunha kodakizou[ii] através da aparente lerdeza do sertanejo.


Nunca deixamos, porém, de esperar o amparo, de aguardar os favores dos governos fisiocráticos – daqueles que enxergando a feracidade de nossa terra nas épocas hibernais, se compadecem de nós quando a seca – o maior flagelo meteorológico que nos visita, procura nos afastar de Deus pela brutalidade das blasfêmias!


No general Gabino Besouro encontramos um homem sensível às nossas amarguras gritantes. Esse militar nos deu um açude. Não fora a incompetência do construtor dessa obra, o rosário dos nossos infortúnios não teria as mil contas dolorosas que a sede tem emprestado à vida desta partícula de sertão.


Em princípios de 1930, tivemos a felicidade de hospedar o Sr. Álvaro Paes, então governador do Estado e o mais sertanista de todos os governadores de Alagoas.


E este homem de coração de santo e de vida pública de uma pureza de cristal polido, só não nos deu a açudada que lhe pedimos porque a Revolução o afastou do Palácio dos Martírios.


Agora, V. Ex.ª alcançou para Jacaré dos Homens aquilo que há mais de cinquenta anos nós esperamos com uma confiança perfeita de Fakir.


E fique certo V. Ex.ª de que os jacarezeiros agradecidos de que os homens deste sertão tantas vezes ferido pela inclemência das canículas, saberão render um culto eterno de reconhecimento à beleza de um gesto que marcará logo o epílogo dos misereres que centenas de bocas entoam sob o pedaço de céu azul de nossa terra!


V. Ex.ª entrou, desde dias, para a história deste povoado como o seu maior benfeitor!


Aproveitando a oportunidade, apresento a V. Ex.ª os meus protestos de estima e muito alta consideração.


Saudações.


José Theophilo Silva


Jacaré dos Homens, 25 de agosto de 1936.”


(Transcrito da Gazeta de Alagoas, 5 de setembro de 1936)


O Sr. José Teófilo Silva


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Em 1952, projetou-se construir outro açude em Jacaré dos Homens. Para tanto, já se havia escolhido um local, conforme telegrama lido pelo deputado alagoano Mendonça Braga[iii], em Sessão Ordinária da Câmara dos Deputado, de 5 de setembro daquele ano.[iv]


Com efeito, já no ano seguinte, achava-se o açude em construção, com capacidade para 536.500 m³.

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O Dr. Francisco Araújo Dantas (Dr. Chico)


Persistiram, entretanto, os danosos efeitos da seca, porquanto os esforços desprendidos para minimizá-los não se revelaram suficientes.

Muitos anos depois, em 1970, Jacaré dos Homens, como todas as localidades de Alagoas, sofreu com os efeitos da prolongada estiagem. A revista O CRUZEIRO ouviu o prefeito Dr. Francisco Araújo Dantas[v]. Na edição de 16 de junho, Dr. Chico fala ao repórter Paulo Granja:

“Eu nasci aqui a 42 anos. Já vi secas, convivi muito com elas e com suas consequências. Mas a miséria que hoje se espalha por todos os recantos desta região é inédita.

Se ainda não houve saques nos municípios alagoanos isso se deve exclusivamente à formação do trabalhador desta região. Ele é um homem que não está habituado a conseguir aquilo a que não faz jus. Não consta que alguém esteja orientando este povo a invadir feiras, armazéns, etc. O que há mesmo é fome.”


O Dep. Ezechias da Rocha. Foto: site História de Alagoas

O Deputado Mendonça Braga. Foto: site História de Alagoas


_____

NOTA:

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Ezechias Jerônimo da rocha nasceu em Sertãozinho, hoje Major Isidoro-AL no dia 8 de dezembro de 1898 e faleceu no Rio de Janeiro em 8 de abril de 1983. Foi Deputado Estadual, Senador Federal, médico, compositor. Filho de Isidoro Jerônimo da Rocha (que dá nome à cidade de Major Isidoro) e Maria Umbelina Souto da Rocha (solteira, Maria Umbelina de Mello Souto, filha de Manoel Lourenço de Mello Souto e Antônia Rodrigues da Conceição).

Curso primário na terra natal, secundário em Maceió, no Colégio 11 de janeiro. Diplomado pela Faculdade de Medicina da Bahia (1921), especializou-se em clínica médica. De volta ao seu estado, clinicou e tornou-se catedrático de História Natural na Escola Normal e no Liceu Alagoano. Chefe de Clínica da Santa Casa de Misericórdia. Diretor da Saúde Pública, em 1932-33. Posteriormente, tornou-se professor de Medicina Tropical na Escola de Medicina de Alagoas, da qual foi um dos fundadores. Em outubro de 1934, candidata-se a deputado estadual em Alagoas e obtém uma suplência. Assumindo em 1936, permaneceu na Assembleia Legislativa até 10 de novembro do ano seguinte, quando são fechados os legislativos do país. Em outubro de 1950, elege-se senador na legenda da UDN, ocupando sua cadeira de março de 1951 a janeiro de 1959, tendo sido membro da Comissão de Saúde e, ainda, da Comissão de Redação. Foi delegado brasileiro às conferências interparlamentares que se reuniram em Viena e Helsinque. Diplomado pela Escola Superior de Guerra. Foi presidente de Sociedade de Medicina de Alagoas. Membro da AAL, onde ocupou a cadeira 20. Sócio do IHGAL foi colaborador da revista dessa última instituição. Pseudônimos: Frei Francisco, Paulo Bruno e Alexandre Zabelê. Patrono da cadeira nº 22 da Academia Alagoana de Medicina. Fonte: ABC DAS ALAGOAS – BARROS, Francisco Reynaldo Amorim de.

[ii] Derivado da marca Kodak, o verbo era comum no início do século XX e carregava nuances específicas. No contexto literário, era frequentemente utilizado por escritores da Belle Époque para descrever a captura de "flagrantes" da vida cotidiana.

[iii] José Caralâmpio de Mendonça Braga. Nasceu no Engenho Maranhão, Camaragibe - AL em 16/04 ou 06/1904 e faleceu no Rio de Janeiro - RJ em 07/07/1982). Deputado federal e estadual, secretário de estado, jornalista, professor, advogado. Filho de Francisco Rodrigues Braga e Antônia de Mendonça Braga.

[iv] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 6 de setembro de 1952.

[v] Dr. Francisco Araújo Dantas. Nasceu em Jacaré dos Homens, município de Pão de Açúcar, em 10 de setembro de 1929. Filho de Antônio Vieira Filho e Maria Laura Araújo Dantas. Casado com a Srª Cira Souto Silva, é pai do atual prefeito de Pão de Açúcar, Jorge Silva Dantas.

5 comentários:

  1. Foi uma obra, com certeza, de relevância o açude de Jacaré dos Homens. Até hj, qd passo pelo mesmo, fico admirado com a estrutura de seu paredão

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  2. Essa é a verdadeira história de uma época cheia de muitas dificuldades para o sertanejo alagoano de Jacaré dos Homens e tantos outros

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  3. Amo acompanhar suas Reportagens!! Conteúdos Maravilhosos!!

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  4. Sheylatmb@gmail.com

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  5. Paulo Lima Rodrigues Cajé18 janeiro, 2026 17:08

    Como leitor e cidadão jacarezeiro agradeço pelo empenho na pesquisa e o texto tão rico em detalhes.

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia