segunda-feira, fevereiro 23

PÃO DE AÇÚCAR – AVIÕES NO CÉU E NA TERRA

 

Por Etevaldo Amorim


O avião PP-RZQ pousado sobre a coroa de Pão de Açúcar. Foto: acervo de Seu Tonho do Mestre

 

Acontecimento inusitado em Pão de Açúcar. No dia 8 de junho de 1927, um avião sobrevoa a cidade, para surpresa e assombro de todos. Segundo o historiador Aldemar de Mendonça, aquele teria sido o primeiro a ser visto pelos pão-de-açucarenses.

Pode-se bem imaginar a reação daqueles sertanejos que, em meio à sua vida pacata e tranquila, de repente são surpreendidos pelo ronco estridente e metálico daquele objeto estranho voando acima de suas cabeças.

Dez anos antes, o Tenente Vilela (Marcos Evangelista da Costa Vilela Junior) fez o primeiro voo com o monoplano “Aribu”, projetado e construído por ele mesmo. Em 1918, ele construiu e voou no seu segundo modelo, batizado de Alagoas, que utilizava a fuselagem de um avião Blériot e um motor de 80 HP.

 

Marcos Evangelista da Costa Vilela Junior, pioneiro na aviação militar, nasceu em Meirus, município de Pão de Açúcar-AL, no dia 24 de março de 1875. Filho de Marcos Evangelista da Costa Vilela e Maria Rosa de Lima. Faleceu em 17 de novembro de 1965, no Rio de Janeiro.

 

No Exército, onde foi combatente em Canudos, ele chegou ao posto de General. Em 1941, com a criação do Ministério da Aeronáutica, foi promovido a Brigadeiro do Ar (já na reserva), tornando-se o primeiro militar a atingir esse posto na recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB).

 

Não temos informações sobre o motivo desse sobrevoo. Uma das hipóteses é que a aeronave pertencesse à Companhia Geral de Empresas Aeronáuticas (Latécoère), que estava em plena fase de expansão de suas rotas no Nordeste. E foi justamente naquele ano que a aviação comercial tomava impulso definitivo no Brasil, marcadamente pela fundação da Varig (Viação Aérea Rio-Grandense), em 7 de maio de 1927.

 

Provavelmente, outros sobrevoos tenham ocorrido dali em diante. Contudo, não deixa de ser surpreendente o registro da data exata em que se deu esse evento pioneiro. Devemos isso à capacidade memorialista de Seu Dema.


Mas outro pão-de-açucarense, a quem não faltava o zelo e o cuidado com as coisas de nossa terra, também nos deixaria um registro de outro episódio envolvendo aviões, seu Tonho do Mestre[i].


Certa vez, em sua casa, ele me mostrou a fotografia que ilustra este artigo. Entre outras imagens que me cedeu em cópia, essa foi a que mais me interessou, pelo ineditismo do fato ali registrado.


Pousado sobre a areia da ponta da coroa, ela exibe um pequeno monomotor de asa alta e dois assentos em tandem (um atrás do outro). Com motor, coberto e rodinha na cauda (trem de pouso convencional) ostentava o prefixo PP-RZQ. Em volta dele, um grande número de curiosos, certamente admirados ante a presença daquele aparelho estranho, nunca antes visto assim tão de perto.


Entre os curiosos, seu Tonho do Mestre conseguiu identificar alguns: à esquerda, com a cabeça rente à asa direita do aparelho, o Sr. Linhares, proprietário de uma sorveteria no número 979 da avenida Ferreira de Novaes, onde atualmente está o “Tempero do Japa”, conhecida casa de comida japonesa, de Lázaro Haruo Ota. À direita, em primeiro plano, de boné, o Sr. Manoel (Mané de Quininha, irmão de Albertina); na extrema direita (de chapéu) José da Silva Costa (conhecido por “Zé de Filinto”, pai do nosso amigo José de Arimatéia (“Neguinho”). Diante do avião, de branco, o piloto de nome Jackson. 


Esse pouso pode ter ocorrido entre 1947 e 1949, já que esse modelo começou a ser fabricado em 1945. Lembro-me perfeitamente de ele ter dito que o pouso foi “na ponta da coroa”, sem, no entanto, precisar o ano.


Vale lembrar que, ainda segundo Aldemar de Mendonça, em seu PÃO DE AÇÚCAR, HISTÓRIA E EFEMÉRIDES, em 3 de maio de 1947, foi concluída a construção do campo de pouso, localizado na parte Leste da cidade, no que seria o prolongamento da Avenida Bráulio Cavalcante (hoje Manoelito Bezerra Lima), prosseguindo a partir dos fundos do Grupo Escolar Bráulio Cavalcante.


Ali, quando ainda nem existia o hospital, foi reservada uma área de 600 m x 45 m (27.000 m²).  No dia seguinte, pousou o primeiro avião (téco-téco), trazendo de Maceió o Sr.  Augusto de Freitas Machado.


Pode-se deduzir, portanto, que o aviãozinho pousou antes de 3 de maio de 1947, a menos que, premido por forte necessidade, tenha sido forçado a descer na coroa, em data posterior.


Pão de Açúcar, 1947. Campo de pouso em construção. Da esquerda para a direita: Rosalvo (Sula); Wilson de Juca Marques (rapazinho sem camisa, escorado na enxada). Em segundo plano, à esquerda, de calça escura: Antônio Simas. Foto: acervo de Seu Tonho do Mestre.

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Trata-se de um avião um modelo American Champion 7AC, fabricado pela American Champion Aircraft Corporation, com sede e fábrica em Rochester, Wisconsin, Estados Unidos.

Essa aeronave pertencia a Antônio Acioli Bastos. Ele requereu, no Registro Aeronáutico Brasileiro, transferência de propriedade da aeronave Aeronca matrícula 7AC, número de série 4.563, à qual foram atribuídas as marcas PP-RZQ.[ii]

Antônio Accioly Bastos, natural de Passo de Camaragibe, filho de Manoel Lopes Bastos e Gracinda Accioly Bastos, era casado com Letícia de Aragão Fialho (filha de Francisco Gonçalves Fialho e Aurora de Aragão Lisboa). Letícia era prima do Sr. João Fialho de Mello, já que seu pai (Francisco G. Fialho) era meio-irmão de dona Maria Amélia, mãe do conceituado farmacêutico pão-de-açucarense.


Essas relações familiares talvez expliquem a presença daquele avião na longínqua Pão de Açúcar.

 

OUTRO POSSÍVEL POUSO.

 

Pesquisas genéricas indicam que pode ter havido um segundo pouso desse aparelho em terras de Pão de Açúcar. O Aeronca 7AC Champion, prefixo PP-RZQ, teria realizado um pouso em outubro de 1949, pilotado pelo seu jovem proprietário, Domiciano Augusto de Araújo (conhecido como Domicinho)[iii], em um campo improvisado nas proximidades do povoado Lagoa de Pedra.

Domiciano, que havia requerido carta de piloto de recreio ou desporto em 30 de abril de 1949[iv], solicitou transferência de propriedade da Aeronave Aeronca 7AC (Champion), n° de Série 4.563, de Marcas PP-RZQ, para seu nome, deferido sob número Ref. DC. 1.923-50. (fonte DOU – 18 DE FEVEREIRO DE 1950.)


Não sabemos o propósito daquele pouso em Pão de Açúcar. Mas há indícios de que esse avião teria sido contratado pelo Sr. Joaquim Rezende, por algum motivo comercial de urgência.

Lamentavelmente, o jovem piloto e proprietário do nosso PP-RZQ, que também era 2º Tenente-Aviador da Força Aérea Brasileira, faleceu em acidente no campo de pouso de Mafra, Estado de Santa Catarina, no dia 30 de julho de 1956.[v]

 

CONTINUA EM OPERAÇÃO.

 

Registros históricos indicam que este mesmo prefixo (ou o próprio avião mantendo a matrícula) continuou em operação por décadas no Brasil, constando do Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB) como um modelo da American Champion (sucessora da Aeronca) em anos mais recentes. 


A aeronave de matrícula PP-RZQ continua ativa e bem preservada, operando no Clube de Voo Aeroquadra, na cidade de Quadra, Estado de São Paulo.


Clique AQUI para ver um pouso dele no Aeroquadra SIVQ 2024, na cidade de Quadra, Estado de São Paulo. Fonte:  Geraldo Marcicano, youtube.


Tecnicamente, é a mesma aeronave que pousou em Pão de Açúcar. O modelo 7AC específico foi produzido em massa entre 1945 e 1948.

 

O número de série da PP-RZQ (7AC-4563) indica que ela foi fabricada durante o período de produção original da década de 1940. Portanto, a estrutura básica (o "esqueleto" ou chassi) da aeronave que você vê no vídeo é, de fato, um item fabricado naquela época.

Aeronaves dessa idade passam por processos de reconstrução total para continuar voando com segurança. No Brasil, ela foi registrada sob a matrícula PP-RZQ em 2013, o que geralmente acontece após uma importação ou uma grande restauração que a coloca de volta no ar.

 

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O campo de pouso de Pão de Açúcar foi desativado há muitos anos e o acesso pelo ar passou a ser por meio de helicópteros; restam essas lembranças, que procuramos registrar para conhecimento das atuais e das gerações futuras.

 

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NOTA:

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 



[i] Antônio de Melo Barbosa, filho de Manoel Victorino Filho – Mestre Nozinho e Florina Mello.

[ii] O requerimento foi deferido sob a referência DC-7.489-46. Fonte: DOU 21 de janeiro de 1947.

[iii] Domiciano Augusto de Araújo, conhecido por “Domicinho”, filho de Joaquim Corrêa de Araújo e Alice Augusta de Araújo. Natural de Humaitá, Estado do Amazonas, faleceu em Mafra-SC em 30 de julho de 1956, aos 33 anos de idade, sendo sepultado no Rio de Janeiro, então Distrito Federal.

[iv] Fonte: Diário Oficial da União, de 6 de maio de 1949.

[v] CONSIDEDO PROMOVIDO, Nos termos do parágrafo único do Art. 1.° da Lei n° 1.156, de 12 de junho de 1950, ao posto de Primeiro-Tenente,  o Segundo-Tenente aviador Domiciano Augusto de Araújo, falecido em 30 de julho de 1956, ficando assegurados aos seus herdeiros os direitos decorrentes do posto a que é considerado promovido, a partir da data do seu falecimento, visto haver servido na zona de guerra definida pelo Decreto n° 10.490-A, de 25 de setembro de 1942, nos termos do parágrafo único do artigo 1º da Lei nº 1.156, de 12 de maio de 1950, de combinado com o art. 2.° da Lei nº 288, de 8 de junho de 1948. Fonte: DOU, de 6 de setembro de 1956.

5 comentários:

  1. Boa tarde!!! O Sr. Joaquim Rezende não era o prefeito que foi assassinado?

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  2. Tem alguma informação a mais da família Aragão mencionada acima?

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  3. Matéria muito interessante. Nunca ouvira falar de pousos de aeronaves nessas longínquas datas em nossa terra. Ótimo levantamento histórico. Parabéns

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  4. Boa tarde, amigo etevaldo ! O Manoel de quininha citado acima era irmão também de: zequinha residia em água Branca onde foi maestro da banda de música, tinha também totonho marculino esse era mascate negociava de penedo a pão de açúcar e a sra. Aurita esposa do sr. Gerson Serafim dos mártires.

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  5. Excelentes informações sobre o contexto da aviação em Pão de Açúcar, com seus pousos inéditos ainda em tempos remotos, marcando a história da plaga de Jaciobá, sendo os primeiros registros feitos pelo nosso inesquecível e estimado mestre pesquisador aldemar de Mendonça, e, doravante, surgem outras novas informações acrescentadas por esse grande historiador Etevaldo Amorim ,meus sinceros cumprimentos pela relevante matéria

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia