segunda-feira, agosto 24

PERSONALIDADES PÃO-DE-AÇUCARENSES - PERDILIANO MELLO

Por Etevaldo Amorim


O Sr. Perdiliano Gomes de Carvalho Mello. Foto: acervo da família Fialho.


PERDILIANO GOMES DE CARVALHO MELLO nasceu em São Brás, Estado de Alagoas, em 10 de janeiro de 1876 e faleceu no dia 5 de julho de 1952. Filho de Francisco Gomes de Carvalho Mello e Maria Victória da Purificação.


Em 2 de julho de 1901, já residindo em Pão de Açúcar, casou-se com ANA EXALTA PEREIRA DE MELO (“Doninha”), que passou a ser conhecida por “Doninha de Perdiliano”. Filha de Manoel Francisco Pereira e Belarmina dos Santos, nasceu em Pão de Açúcar em 20 de maio de 1884. Sobre ela assim falou Aldemar de Mendonça:


“Dama da alta sociedade. Estatura mediana. Gorda como quase todos os Pereira. Epiderme morena e um sorriso perene a iluminar-lhe o rosto, anulando a feiura de um bigodinho.

Neste trabalho, feito com o objetivo de retirar do esquecimento os nossos maiorais, que, por qualquer motivo se evidenciaram, não podia olvidar Doninha de Perdiliano, como era mais conhecida.

E se quiserem saber qual a porta pela qual aqui entrou Doninha, direi simplesmente: a da Bondade.”

 

A Srª Anna Exalta, "Doninha de Perdiliano". Foto: acervo Aldemar de Mendonça.



Ficando viúvo em 17 de agosto de 1922, seu Perdiliano casou-se com Felisbela Pereira de Mello (28/10/1898 – 04/10/1961, filha de Ismael Pereira de Mello e Severiana Maria dos Santos).

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ATIVIDADES


O Sr. Perdiliano era forte comerciante em Pão de Açúcar. Como tal, e como era comum para o transporte de mercadorias, possuía uma canoa de tolda denominada Minas Gerais. Essa embarcação, por motivo que desconhecemos, era conhecida por “Jumenta”[i].


Estabeleceu-se no comércio local com a MERCEARIA ESTRELA, sob a firma “Perdiliano Mello & Cia”, no ramo de estivas, miudezas, ferragens com departamentos de óleos, tintas, louças, etc, com vendas em atacado e a varejo.

A MERCEARIA ESTRELLA, de Perdiliano Gomes de Carvalho Mello. Fonte: MARROQUIM, Adalberto. TERRA DAS ALAGOAS, Editori Maglione & Strini, Succ. E. Loescher Roma, 1922.


Essa foto mostra um prédio que até hoje conserva as mesmas características: 14 porta

s altas emolduradas por relevos, sendo 4 voltadas para a avenida Bráulio Cavalcante e 10 alinhadas simetricamente para a rua Cel. Manoel Antônio Machado.


A fachada ostenta detalhes geométricos nas laterais, sendo o topo do edifício arrematado por uma robusta platibanda decorada, que oculta o telhado, ganhando um frontão arqueado e imponente exatamente no chanfro da esquina.


Essa fotografia está entre as onze imagens de Pão de Açúcar estampadas no livro TERRA DAS ALAGOAS, de Adalberto Marroquim, impresso em 1922, em Roma.


Nota-se, na parte superior da fachada lindeira à rua Cel. Manoel Antônio Machado, um toldo (fechado), cujo manejo se dava por meio de um mecanismo composto por uma caixa de engrenagens helicoidais. A partir dela, uma haste vertical de ferro transmitia o movimento até as peças de sustentação superior, permitindo abrir ou fechar a estrutura conforme se girava a manivela acoplada ao sistema.


Lembro-me de que, nesse ponto, entre os anos finais da década de 1960 e os iniciais da de 1970, funcionava uma loja de tecidos do Sr. Lucilo José Ribeiro[ii], que viria a ser prefeito de São José da Tapera anos depois. Mais tarde, e por muitos anos, abrigou o "Bar do Petronilo", conhecido pelas suas famosas mesas de sinuca.


Atualmente, funciona o “Arquivo Central Armando de Freitas Machado. As últimas 4 portas, lá no fundo, são entradas para outros tipos de comércio.


Na foto não aparece o nome da casa comercial, mas um anúncio publicado no Almanak Laemmert de 1913 revela a identidade do local.


 Anúncio da Mercearia Estrella no Almanak Laemmert, 1913.


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VIDA PÚBLICA


Não conseguimos saber, com precisão, quando o Sr. Perdiliano iniciou a sua vida pública. O registro mais antigo que encontramos está no JORNAL DO COMÉRCIO (RJ), de 21 de novembro de 1911. Trata-se de um telegrama enviado ao Coronel Clodoaldo da Fonseca comunicando a fundação, em Pão de Açúcar, da Liga Pró-Clodoaldo da Fonseca. Datado de 15 de novembro de 1911, diz o telegrama:


“Acabamos de fundar “Liga pró-Clodoaldo” propaganda vossa candidatura. Recebei nossas felicitações data hoje e pela escolha vosso nome salvador Alagoas.  – Manoel Pereira, Perdiliano Mello, Venustiniano Cavalcante, João Luiz, João Pereira, Bráulio Cavalcante, Aurélio Cavalcante, Ismael Mello, Luiz Paulo, Alfredo Almeida, Pereira Filho, Lucillo Mello.”


Aqui estão José Venustiniano e Aurélio, pai e irmão de Bráulio Cavalcante, que seria morto no dia 10 de março de 1912, justamente no auge da campanha do Cel. Clodoaldo.

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Em 1916, o Sr. Perdiliano era Comissário de Polícia[iii], tendo como suplentes José de Freitas Machado, Joaquim Campos e Olegário Simas.[iv] Logo foi nomeado Delegado, assim permanecendo até 1925, quando o cargo passou a ser ocupado por seu irmão Lucillo.


Em 5 de outubro de 1917, assinou o Manifesto da Assembleia Popular recomendando o apoio à candidatura do Gal. Gabino Besouro, tendo como candidato a Vice-Governador o Bel. Antônio de Mello Machado,[v] para as eleições que se realizariam no dia 12 de março do ano seguinte.


Notícia do correspondente do jornal Diário de Pernambuco, datada de 6 de novembro de 1917, publicada na edição de 10 daquele mês e ano, dá conta da fundação de um “Centro Cívico Pró Gabino Besouro”, tendo como Presidente de Honra o Sr. Perdiliano Mello; efetivo: Pedro Souto; Secretários: Olegário Simas e Theodoro Barbosa; orador: Dr. Manoel Lyra; tesoureiro: Euclides Souza.


Ainda em 1917, quando da viagem do candidato pelas localidades ribeirinhas do São Francisco, hospedou o Gal. Gabino Besouro e sua comitiva.


O Diário de Pernambuco, na edição de 26 de novembro de 1917, descreve a recepção ao general Gabino Besouro.

“Pão de Açúcar, 16. Diário do Povo. O General Gabino Besouro aqui chegou de Piranhas, no belo paquete “Siminbu” que estava todo embandeirado. Assinalado essa embarcação ainda no horizonte, afluiu à vasta praia enorme multidão impaciente por testemunhar ao ínclito republicano a sua solidariedade e estima.


Numerosas canoas embandeiradas sulcaram o rio repletas de populares e pessoas gradas, aguardando o ancoramento do “Sinimbu”, o que se realizou às 16 horas, entre vivas e aclamações. Ao saltar o general Gabino Besouro, essas aclamações reboaram estrepitosamente entre salvas de rojões e as harmonias de uma banda musical. 


Formou-se imediatamente um numeroso e entusiástico préstito que entre constantes e fervorosos vivas penetrou na cidade até a praça da matriz em busca da residência do Cel. Perdiliano Mello, onde Sua Excelência se hospedou com sua comitiva.


Enquanto pessoas gradas aí cumprimentavam S Exª, enorme multidão estacionava em frente à aprazível residência do Cel. Perdiliano, aclamando o general em verdadeiro delírio.


Saudaram S. Exª em belos discursos o Dr. Luiz Ignácio de Figueiredo, juiz substituto, e Octávio Brandão, funcionário federal[vi], discursos que o general agradeceu comovidamente.


Após algum descanso, seguiu-se lauto banquete durante o qual saudaram ao general os Drs. Antônio Arecippo, juiz de direito – e Ildefonso Cantidiano, promotor público. Sua Excelência o General agradeceu num brinde eloquente, no qual enalteceu o valor do povo panassucarense[vii], bem como os serviços dos prestigiosos políticos Cônego Soares Pinto e Cel. Perdiliano Mello. O Dr. Carlos Pontes[viii], numa oração cívica, agradeceu ao povo o seu concurso precioso, a sua dedicação à candidatura verdadeiramente popular.


O general Gabino Besouro retribuiu os cumprimentos do cônego Soares Pinto, vigário da cidade, sendo servido champagne na residência deste, orando nessa ocasião o ilustre chefe conservador Cel. Luiz José[ix]. O general agradeceu em magnífico improviso concitando os bons alagoanos a trabalharem pelos interesses da sua terra.


O general seguirá hoje mesmo depois de assistir um jantar na residência do cônego Soares. Toda a cidade exulta em ruidosas festas. Nas ruas, lindamente enfeitadas, a multidão não cessa de aclamar o general Besouro como futuro governador de Alagoas.


À noite, a fina flor da sociedade panassucarense oferecerá a Sua Excelência um baile que será animadíssimo. – Correspondente.”


O Gal. Gabino Besouro.





Bacharel Antônio de Mello Machado.

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Dez anos depois, em 1927, seu nome era anunciado como candidato a Prefeito de Pão de Açúcar no Diário de Pernambuco, de 13 de setembro de 1927.


Realizado o pleito, conseguiu 136 votos, sendo superado pelo seu opositor, o Padre José Soares Pinto, que obteve 189 sufrágios.[x]


Depois disso, anota Gervásio Francisco dos Santos em seu livro UM LUGAR NO PASSADO, o Sr. Perdiliano Mello “afastou-se definitivamente da política”, passando a cuidar apenas dos seus negócios.

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] SANTOS, Gervásio Francisco dos. UM LUGAR NO PASSADO. Rio de Janeiro, 1976.

[ii] Lucilo José Ribeiro faleceu em 1976 em acidente automobilístico na recém inaugurada, em asfalto, Rodovia AL-130.

[iii] Comissário era o operador direto da segurança pública, com subordinação ao delegado de polícia.

[iv] Fonte: Mensagens do Governador de Alagoas, João Baptista Accioly Junior, para a Assembleia (1890-1930).

[v] Fonte: Diário do Povo, órgão do Partido Republicano Conservador. 9 de outubro de 1917.

[vi] Octávio Brandão de Oliveira. Funcionário dos Correios no período de 1º de maio de 1917 a 4 de setembro de 1920. Casou-se em 9 de maio de 1917 com Maria Rosa de Oliveira Veiga (filha de Manoel Pastor da Veiga e Anna Rosa de Oliveira Veiga).

[vii] Uma curiosidade: naquela época, registrava-se o gentílico “panassucarense”, por aglutinação a partir da grafia Pão de Assúcar.

[viii] Carlos Pontes Marques de Almeida, Deputado estadual, advogado, jornalista. Filho de Avelino Marques de Almeida e Escolástica Pontes de Almeida. Nasceu em Olhos d’Água do Acioli (atual Igaci), então município de Palmeira dos Índios – AL, em 27/04/1887 e faleceu no Rio de Janeiro – DF, em 19/04/1957.

[ix] Cel. Luiz José da Silva Mello.

[x] Diário de Pernambuco, 17 de novembro de 1927. 

5 comentários:

  1. Excelente matéria com ricas narrativas a respeito de um renomado personagem que muito contribuiu com a história de pao de Açúcar. Perdiliano Gomes de Carvalho foi um homem que atuou como um conceituado comerciante na terra de Jaciobá. Parabéns nobre amigo e confrade Etevaldo Amorim por mais um valioso registro histórico

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  2. Parabém pelo excelente texto, Etevaldo Amorim! Como sempre, rico em detalhes e curiosidades sobre a história de Pão de Açúcar

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  3. História de um passado distante , porém bastante interessante. Parabéns amigo .

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  4. Parabéns amigo por trazer para dias de hoje , essa interessante história do passado do nosso sertão alagoano.

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  5. Obrigado por mais essa pérola das suas pesquisas. Fiquei curioso para saber quem era Olegário Simas.

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

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Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


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PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

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Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia