sexta-feira, maio 15

“BRÁULIO CAVALCANTE” – O AVIÃO

 

Por Etevaldo Amorim


Avião semelhante ao "Bráulio Cavalcante". Foto ilustração - Fonte: portal História de Alagoas.


Ao entrar para a História, o nosso conterrâneo Bráulio Cavalcante foi merecedor de diversas homenagens: nome de avenida e de escola em sua terra, nome de rua em Palmeira dos Índios e no Recife, nome de praça em Maceió, bustos em praça pública em Pão de Açúcar e na capital do Estado. Mas, em meio a essas merecidas honrarias, há uma que o eleva, literalmente, aos céus: o batismo de um avião com seu nome.


Isso aconteceu em 24 de julho de 1947, no Calabouço[i], Rio de Janeiro, quando foram batizados seis novos aparelhos de treinamento, no âmbito da Campanha Nacional de Aviação, sob o lema “Deem asas ao Brasil”.[ii] Estavam presentes o tenente coronel Armando de Menezes, chefe do Gabinete do Estado Maior da Aeronáutica, e o major aviador Ruthênio Carneiro da Cunha, também do Estado Maior da Aeronáutica. Presidiu a solenidade o senador Salgado Filho.


O avião, modelo Neiva P-56 C, conhecido como "Paulistinha", que seria destinado ao Aeroclube de Alagoas, foi paraninfado pelo Brigadeiro Ajalmar Mascarenhas[iii], um alagoano de Anadia, que conheceu Bráulio e a sua luta.


Antes de derramar champagne sobre a hélice do avião, ele pronunciou o seguinte discurso:


“Este avião, que a Campanha Nacional de Aviação destinou ao aeroclube de Alagoas, se ilustra com o nome do ardoroso tribuno, do jornalista de escol, do maior poeta alagoano, que se chamou Bráulio Cavalcante.


Bráulio Cavalcante, filho de José Venustiniano Cavalcante, nasceu na cidade de Pão de Açúcar a 14 de março de 1887.


Desde criança – dizem-nos seus biógrafos – revelava ‘grande lucidez de espírito, privilegiada inteligência, servido ainda por uma excepcional faculdade de assimilação que muito contribuiu para a aquisição do vasto tesouro de cultura que, num espaço de tempo limitado, conseguiu acumular.


Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade do Recife, onde se diplomou a 11 de dezembro de 1911, Bráulio hipotecou sua pena e sua palavra à causa da liberdade e da justiça, na imprensa e na tribuna de sua terra, em dias de intensa agitação política.


Seu verbo inflamado, a vastidão de sua cultura e a impenitência de seu idealismo arrastavam multidões a ouvi-lo cantar:


‘Alagoas, terra verde, feliz aberta em flores, cheia

Dos lagos de alumínio e verdes coqueirais!

Terra onde o São Francisco majestoso ondeia

E a Paulo Afonso atroa mil fanfarras reais!’


A 10 de março de 1912, justo três meses depois de sua formatura, e quando ia em meio uma campanha de libertação de brancos, Bráulio, no pedestal da estátua de Floriano, batalha desigual com o espírito da intolerância, invocando a Constituição Federal na defesa de seu direito de manifestação de pensamento em praça pública.


Eram suas armas a palavra fluente, a lógica da razão, a confiança no simples, o estoicismo do moço e... as garantias constitucionais.


Não havia Bráulio vivido bastante para perceber que o preço da liberdade seria o holocausto da sua própria vida.


Bráulio tombou à sombra da estátua do Marechal de Ferro, ao cair de uma tarde que seria igualmente o cair da tarde de uma tirania.


As forças da reação apagavam aquela vida que, aos 25 anos, se fazia a bandeira de um povo oprimido; e as forças da reação se extinguiram com o sacrifício daquele bravo.


E desde então Bráulio começou a viver, no coração de seu povo, a vida dos imortais.


Os “lagos de alumínio” cantam seus versos; os “verdes coqueirais” sussurram seus poemas.


Trinta e cinco anos depois, este pequeno avião se enobrece com o nome e o espírito do poeta mártir; suas asas irão encher os céus de minha terra da harmonia de seus versos; e irão também lembrar aos moços de hoje que esse moço morreu por um ideal de liberdade.


Pilotos do “Bráulio Cavalcante”, sede dignos de Bráulio como ele o foi de sua querida Alagoas!”


 

O brigadeiro Ajalmar Mascarenhas quando discursava ao lado do Sen. Salgado Filho. Foto: O Jornal.

Em seu discurso, nessa mesma cerimônia, Assis Chateaubriand, jornalista e dono do maior império das comunicações do país, ele próprio um dos grandes incentivadores da Campanha, assim se referiu à homenagem a Bráulio:


“Um major-brigadeiro, soldado da ordem, paraninfando um poeta dos coqueirais da Pajuçara em Alagoas e um rebelado lutador contra as oligarquias do Nordeste.”[iv]


Bráulio Cavalcante, o homenageado.


___


O brigadeiro Ajalmar Mascarenhas é irmão de “Linda Mascarenhas” (Laurinda Vieira Mascarenhas) a famosa “Dama do Teatro Alagoano”. Aliás, o DIA DO TEATRO ALAGOANO é comemorado no dia 14 de maio, em alusão ao nascimento dela.


A data foi instituída oficialmente pela Lei Estadual nº 6.243, de 2 de julho de 2001, cujo Projeto teve a autoria do deputado estadual pão-de-açucarense Antônio Carlos Lima Rezende (Cacalo), atendendo a sugestão da ATA – Associação Teatral das Alagoas, por intermédio do ator Ronaldo de Andrade.

___


NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Antigo campo de pouso situado no local onde hoje se encontra o Aeroporto Santos Dumont.

[ii] O Jornal, RJ, 29 de julho de 1947.

[iii] Ajalmar Vieira Mascarenhas.  (Anadia - AL 13/08/1897- Rio de Janeiro 18/10/1964). Militar. Filho de Manoel Cesário Mascarenhas e Lourença Vieira Mascarenhas. Estudou no Colégio Diocesano e no Liceu Alagoano. Em 1914, juntamente com Romeu de Avelar, José Portugal Ramalho, José Guedes Quintela e Amarílio dos Santos, lançou a revista Frou-Frou. Nesse período, usava o pseudônimo de Berilo Prates. Ainda em 1914, participou da criação do jornal Diário do Norte.Sentou praça em agosto de 1915, ingressando na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro. Cursou a Escola de Aviação Militar, ainda no Rio de Janeiro, integrando, no ano seguinte, a primeira turma de observadores aéreos. Ocupou diversos cargos durante sua vida militar, tais como: comandante da Escola de Aviação Militar; comandante da então IV Zona Aérea, sediada em Porto Alegre, e Chefe da Diretoria de Pessoal da Aeronáutica. Integra, em dezembro do mesmo ano, a comitiva do ministro da Aeronáutica, em visita ao front italiano, durante a Segunda Guerra Mundial. Comanda a II ZA, com sede em Recife; membro do Estado-Maior Geral, órgão precursor do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), na condição de subchefe da Aeronáutica, tendo sido, um mês depois, promovido a major-brigadeiro-do-ar. Em 1955, presidiu, na condição de chefe da delegação brasileira, a Comissão Militar Mista Brasil-Estados Unidos. Foi nomeado adido aeronáutico à embaixada brasileira em Washington. Promovido a tenente-brigadeiro em dezembro do ano seguinte, voltou a chefiar o EMAER entre julho de 1962 e dezembro do mesmo ano. Ainda em dezembro de 1962, recebeu a patente de marechal-do-ar. Membro da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG). Sócio do IHGAL. Fonte: ABC DAS ALAGOAS.

[iv] O Jornal, RJ, 15 de agosto de 1947.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

PUBLICAÇÕES
Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia