segunda-feira, junho 29

PÃO DE AÇÚCAR SEGUNDO VIEIRA DE CARVALHO

 

Por Etevaldo Amorim


Pão de Açúcar em 1869. Foto: Abílio Coutinho.


Muito do que se sabe e se poderá saber da região do Baixo São Francisco está nos relatos de viajantes que por ali passaram, quase sempre demandando as cachoeiras de Paulo Afonso.


No presente caso, trata-se do Juiz de Direito da comarca de Penedo. Entre 1850 e 1855, era seu titular o Dr. José Vieira Rodrigues de Carvalho e Silva[i], cuja assinatura consta de diversos livros antigos de Pão de Açúcar, prova de sua efetiva presença em nossa terra.


Naquela época, a comarca de Penedo abrangia uma vasta região entre a foz do rio São Francisco e a confluência do rio Moxotó, duas léguas acima da cachoeira de Paulo Afonso.


Em sua famosa carta ao Dr. G. Schuch de Capanema, escrita em 1854, ele descreve as povoações e os aspectos físicos de toda a região do baixo São Francisco, imaginando-se em viagem, dentre as muitas que deve ter realizado para cumprir os misteres de sua profissão.


O Dr. Guilherme Schuch de Capanema (1824–1908), mais tarde agraciado com o título de Barão de Capanema, foi um dos mais importantes engenheiros, físicos e naturalistas do Brasil Imperial. Nasceu em Minas Gerais (na região de Mariana/Ouro Preto). Era filho do intelectual austríaco Rochus Schüch, que veio ao Brasil na comitiva da Imperatriz Leopoldina. Seu nome original era Wilhelm Schüch. Devido à dificuldade das pessoas em pronunciar o sobrenome alemão, ele adotou "Capanema" em referência à serra próxima de onde nasceu.


O Dr. Vieira mantinha com Capanema uma cooperação e interlocução científica institucional, pautada pelo interesse mútuo na geografia, história natural e exploração do território brasileiro durante o Segundo Reinado.


Pois bem, sempre a bordo de uma canoa de tolda, que fretava por Rs. 30$000, vai subindo o rio rumo ao sertão e nos leva com ele, embarcando em Belo Monte, pouco abaixo do ponto extremo Leste do nosso município:


O riacho Salgado ainda é domínio da Lagoa Funda como assim até o Cajueiro, sendo o morro do Morim, onde está ereta a capelinha da Senhora do Rosário, pertencente ao Distrito e Povoação do Limoeiro. Deste lugar para cima, por Lei Provincial de 3 de março de 1854, criou-se a nova comarca de Mata Grande[ii]”.


A povoação do Limoeiro é situada sobre um terreno quase férreo. Contará 30 casas (se tantas), mas estende-se muito por diversas moradas interiores: tem sua capela de invocação de Jesus Maria e José e todo esse outeiro é uma mina dessa pedra esverdeada...”


A igreja é um encapelado criado pelos avós do pardo Manuel de Jesus Barbosa - João Carlos de Mello com uma légua de terra e 6 vacas por patrimônio”.


Essa redação, um tanto dúbia, é do texto original da carta publicada no Tomo XXII (Volume 22) da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (RIHGB), lançado em 1859. A nossa interpretação é de que os “avós do pardo Manuel de Jesus Barbosa” criaram a igreja; e, só depois, João Carlos de Mello constituiu o seu patrimônio.


Adiante, ele registra:


A povoação é fartíssima em criação de aves, e os ovos vendem-se de 3 a 4 por 20 réis. A várzea e lagoa do Araticum é o lugar deste rio de onde saem todos os voláteis que povoam ambas as margens. Os patos, garças, marrecões, diferentes gaivotas, marrecas, grajaus, paturis e jaburus, etc., voam de fazer rumor e anuviam o ar. O grajau tem o bico de tartaruga...”


De fato, nos meados da década de 1960, quando o rio ainda produzia cheias regulares, a população de aves era abundante. Ao final da tarde, inúmeros bandos de paturis e marrecos descolavam-se de uma coroa para outra, ou para as várzeas da lagoa da igreja, no Limoeiro, para a lagoa do Araticum.


O magistrado continua, ainda, a descrever a região contígua:


Continuam pela povoação do Limoeiro os lugares Tapera – nome tirado do seu riacho – Jacarezinho e São Tiago com sua lagoa.” ... “Pelo lado da Lagoa S.  Tiago — vão os Sítios — Espinhos — Morro do Faria— Deserto— Riacho do Faria e Aranha— (Fazenda) — e Tororó.”


Ao mencionar “Tapera”, provavelmente tenha se referido ao riacho dos Tapuios, cuja confluência está nos limites da Fazenda Santa Maria. Já sobre a referência a “Deserto”, não encontramos correspondente na atualidade.


...


O Dr. Vieira de Carvalho, supondo ter percorrido dez léguas desde a Vila de Traipu, passa a falar de Pão de Açúcar, onde costumeiramente fazia correições, como a que se nota no Cartório de Registro de Imóveis de Pão de Açúcar, em 29 de outubro de 1850.


Sobre a cidade, diz ele:


“O arraial de Pão de Açúcar conta 230 casas, o terreno plano lhe proporciona o belo arruamento que vai tendo e o comércio que aflui do centro lhe pressagia um risonho futuro. Há alguns bons sobrados e sofríveis casas. A capela do Santíssimo Coração de Jesus está em obras, ainda, de sua edificação e já é elevada em Freguesia por Lei de 1853, de 11 de julho, nº 227...”


“A povoação, nas enchentes, torna-se uma península pelas lagoas e riachos que a cercam...”


“O comércio é novo, mas ativo, e dá esperança de ser nesse ponto o empório deste rio, se houver estrada que ligue os dois rios de cima e de baixo, como aqui apelidam as partes separadas pelas grandes cachoeiras e pala de Paulo Afonso.”


Digno de registro também é a descoberta, pelo Dr. Vieira de Carvalho, de “ossos fósseis de Megateriou ou Mastodonte”, numa cacimba, no lugar chamado Aldeia, na Fazenda Poço Grande. A existência desses animais remonta a mais de cinco mil anos, segundo o cientista Agassiz[iii], que os examinou[iv].


Esse naturalista suíço Louis Agassiz, então professor na Universidade de Harvard, viajou pelo Brasil na década de 1860 comandando a chamada Expedição Thayer. A Expedição Thayer (1865–1866) foi uma das maiores e mais polêmicas missões científicas a percorrer o território brasileiro no século XIX. A viagem foi totalmente financiada pelo banqueiro e filantropo norte-americano Nathaniel Thayer Jr., de quem herdou o nome.


O objetivo declarado da expedição era coletar espécimes biológicos para o recém-criado Museu de Zoologia Comparada de Harvard. Mas Agassiz possuía duas agendas científicas pessoais muito bem definidas: O primeiro intuito era combater a Teoria da Evolução. Ele era um dos maiores opositores de Charles Darwin.


Adepto do "criacionismo/fixismo" (ideia de que as espécies foram criadas por Deus fixas e imutáveis), ele pretendia usar a vasta e isolada bacia de peixes da Amazônia para provar que a evolução geográfica não ocorria.


O outro objetivo era analisar o impacto da miscigenação na população, defendendo teorias falsas de que o cruzamento de raças gerava a degeneração dos indivíduos. Influenciado pelo racismo científico da época, Agassiz enxergava o Brasil como um "laboratório vivo" perfeito para isso.


O roteiro da expedição foi extenso e dividiu-se em três grandes fases entre abril de 1865 e março de 1866: a base na província do Rio de Janeiro, a subida costeira em direção ao Nordeste e a grande exploração fluvial da bacia amazônica.


Na fase Nordeste, em julho de 1865, a expedição começou a subir a costa brasileira em direção ao norte a bordo de barcos a vapor, fazendo paradas estratégicas em várias capitais para coletas marinhas e contatos políticos, ente elas Salvador (Bahia); Maceió (Alagoas); Recife (Pernambuco); Fortaleza (Ceará) e São Luís (Maranhão).


Louis Agassiz em seu laboratório.


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Em sua carta, Vieira de Carvalho dá conta ainda da existência de fósseis na Lagoa de Pedra, propriedade de José da Rocha Lyra, bem como no Salgadinho, do Padre Limões; Fazenda Velha, de Antônio Anacleto e em Olho D’Água das Flores, do Padre Antônio Duarte de Albuquerque.


José da Rocha Lyra é pai de Higino da Rocha Lyra (este, por sua vez, pai de Hormino Lyra, do Monsenhor Lyra e de Manoel Alves Lyra, que foi prefeito de Pão de Açúcar no final da década de 1940).


As escavações arqueológicas na Fazenda Paquiderme foram feitas por indicação do Engenheiro Fernando Halfeld, no Governo do pernambucano Antônio Correia de Sá e Albuquerque, que governou a Província das Alagoas de 14 de outubro de 1854 a 13 de abril de 1857.


Amostras desses materiais foram remetidas, em 1875, para o Museu Nacional. Entretanto, informações recentes dão conta de que nada mais existe naquele Museu.

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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Dr. José Vieira Rodrigues de Carvalho e Silva. Nasceu na Bahia em 1808. Faleceu em Porto Alegre em 25 de dezembro de 1855, vítima de cólera morbus, quando era Chefe de Polícia. Era casado com a Srª Francisca Libânia de Carvalho e Silva, com quem teve os filhos: José Vieira Rodrigues de Carvalho e Silva, Francisca de Carvalho e Silva, Josefina de Carvalho e Silva e Maria Caetana de Carvalho e Silva.

[ii] A Lei de 3 de março, de que fala Vieira de Carvalho, é a mesma que emancipou Pão de Açúcar. No primeiro Artigo, cria as comarcas de Imperatriz (atual União dos Palmares) e Mata Grande; e, no segundo parágrafo, trata da criação da nova Vila de Pão de Açúcar, já destacada do território de Mata Grande, assumindo o território da respectiva Freguesia, criada no ano anterior.

[iii] Geólogo e ictiólogo suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz. Nasceu em 28 de maio de 1807 no vilarejo de Môtier (hoje parte de Mont-Vully), localizado no cantão de Friburgo, na Suíça. Filho de Louis Benjamin Rodolphe Agassiz e Rose Mayor. Faleceu Cambridge, Massachusetts, nos Estados Unidos, em 14 de dezembro de 1873.

[iv] Embora não esteja totalmente errado (pois é "mais de" cinco mil), hoje sabemos que os mastodontes (Notiomastodon platensis) e os preguiças-gigantes (Megatherium) foram extintos no final do Pleistoceno, há cerca de 10.000 a 11.000 anos. Na época do Império, as técnicas de datação geológica eram muito. 28 de maio de 1807 e faleceu em 14 de dezembro de 1873.

2 comentários:

  1. Excelente registro de uma fase histórica de nosso Município.

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  2. Excelente narrativa descrevendo um dos relatos mais abrangentes da história do baixo e médio rio São Francisco com destaques para Pão de Açúcar, nos locais citados onde haviam ossos de animais da pre - história ainda é possível encontrar fortes vestígios de sua remota existência a exemplos das localidades Poço Grande e Lagoa de pedra. Sabe-se tambem da existência de tais fósseis nas localidades Meirus e Alemar

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia