Por Etevaldo Amorim
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| A bandeira do município de Pão de Açúcar |
Todos sabemos que os símbolos municipais foram instituídos
por iniciativa do vereador Pedro Lúcio Rocha[i],
que nos deixou no último dia 21 de maio. Cumpria ele o seu primeiro mandato quando
apresentou, na Câmara, os projetos de lei que criaram a bandeira e o hino de
Pão de Açúcar.
A BANDEIRA
O primeiro projeto, relativo à bandeira, foi aprovado pelos
seus pares e sancionado pelo prefeito Augusto de Freitas Machado, resultando na
Lei Municipal nº 394, de 10 de julho de 1969.
O pavilhão municipal é composto por três faixas horizontais nas
cores verde, branca e azul-celeste, e traz o brasão de armas centralizado na
faixa branca. O conjunto de símbolos representa a autoridade do povo, a
geografia local e a história econômica do município, possuindo significado
oficial.
Significado das Cores da Bandeira
As três cores carregam simbolismos específicos voltados à
identidade local:
Verde: Representa a natureza regional, os campos e as caatingas que, embora
castigados pelo clima, ressurgem em todo o seu esplendor ao primeiro sinal de
chuvas.
Branca: Simboliza o desejo e a manutenção da paz social na comunidade.
Azul-celeste: Representa o firmamento e o céu aberto característico do
sertão alagoano.
Elementos do Brasão de Armas
Efígie Indígena (Topo do Escudo): Substituindo a tradicional coroa
mural, a cabeça de um índio ornamenta o topo do brasão. Este elemento simboliza
os primeiros habitantes da região, como as tribos Urumaris e Chocós. Representa
a ancestralidade, a resistência e o nome original da localidade antes da
colonização: Jaciobá (que significa "Espelho da Lua" em
tupi-guarani).
O Escudo Central:
Montes estilizados: Alusão direta à topografia acidentada local, destacando o
histórico Morro do Cavalete, cuja forma (semelhante a uma forma de
purificar o açúcar na época) batizou a fazenda que deu origem à cidade.
Ondas azuis e uma canoa: Representação do Rio São Francisco, via vital que
banha a cidade, e da navegação tradicional, pilares do desenvolvimento
econômico da região.
Ramos Agrícolas nas Laterais: O escudo é ladeado por ramos de
arroz e algodão, culturas que constituíam a base econômica do município.
Listel (Faixa Inferior): A faixa cor de rosa, que traz o nome do município (Pão de Açúcar-AL), representa as manifestações culturais e folguedos populares. Segundo informações do jornalista Hélio Fialho, reproduzindo as palavras do próprio autor, o elemento homenageia: o coco de Rosa de Lia, a chegança de Zé Nica, o pastoril de Dona Julita, o reisado de Pedro da Paz e o candoblé de Abre-Alas.
Segundo relatos da época confirmados por outras pessoas, a
bandeira e suas designações, teriam sido concebidas pelas Irmãs do Colégio São
Vicente (particularmente pela Irmã Odiliana), a partir da ideia original do
autor Pedro Lúcio Rocha.
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| Pedro Lúcio Rocha, autor do projeto que instituiu a bandeira e o hino. |
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O HINO
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| O Pe. José Nascimento, colaborador na letra do hino. |
Já a proposição relativa ao hino foi aprovada pela Câmara e sancionada pelo mesmo prefeito em 15 de setembro de 1969, transformando-se na Lei nº 399.
Sobre as circunstâncias que cercaram a concepção e o desenvolvimento dessa ideia, tivemos a felicidade de receber uma mensagem do extraordinário músico, multi-instrumentista pão-de-açucarense, Billy Magno[ii], contendo uma entrevista que fizera com Pedro Lúcio no dia 15 de janeiro de 2020.
Nessa entrevista, Pedro Lúcio relata,
em detalhes, os passos que teve de seguir para a concretização do seu intento, com
preciosas informações que agora compartilhamos.
Em uma determinada sessão da Câmara
de Vereadores, foi lido um expediente oriundo da cidade de Ouro Preto-MG. Era,
na verdade, um convite para um evento dedicado a enaltecer o legado intelectual
do Prof. José de Freitas Machado, in memoriam.
Após a leitura, foi aberta a
discussão para escolher o representante do município, mas nenhum dos edis se
apresentou. Pedro, que por intermédio de Aldemar de Mendonça (Seu Dema) já
tinha consciência de quem era o Professor Freitas Machado, ofereceu-se para ir.
Considerou que, como o homenageado era um legítimo pão-de-açucarense, tal
convite não poderia ser desconsiderado. Ele mesmo falou com o prefeito Augusto
Machado, que respondeu indicando o próprio vereador Pedro Lúcio Rocha.
Uma breve pesquisa nos dá a indicação de que o evento
em questão foi, provavelmente, uma reunião comemorativa ou congresso acadêmico
que celebrou o cinquentenário do movimento "Façamos Químicos",
idealizado pelo professor José de Freitas Machado.
O professor Freitas Machado é historicamente reconhecido
como o organizador e primeiro diretor da Escola Nacional de Química (fundada em
1933, atual Escola de Química da UFRJ).
Em 1918, ele publicou um artigo intitulado "Façamos
químicos", considerado a verdadeira "certidão de nascimento"
dos cursos regulares de química industrial no Brasil. Nesse texto, redigido em
março de 1917[iii],
ele conclamou os poderes públicos a criarem cursos superiores de química no
Brasil.
Em 1968, completaram-se exatamente 50 anos desse marco fundamental. Para celebrar o jubileu de ouro do manifesto e homenagear a memória de seu criador, a comunidade científica e associações de química organizaram eventos comemorativos. Ouro Preto foi escolhida como um dos palcos simbólicos devido à forte ligação da cidade com o ensino técnico e mineralógico do país (por meio da histórica Escola de Minas).
Necessário observar que, na
correspondência enviada, os promotores do evento pediram a bandeira e o hino do
município. Informados de que estes não existiam, solicitaram os símbolos de
Alagoas, no que foram atendidos.
Pedro viajou a Ouro Preto e, segundo
seu relato, foi recebido com todas as honras como representante do povo de Pão
de Açúcar, ao som do Hino de Alagoas. Ele notou, porém, que os demais delegados
eram recebidos com as composições de suas respectivas edilidades. Ao retornar,
inconformado com essa carência em sua terra natal, começou a se movimentar.
É aqui que surge um novo personagem
nesta história: o professor Antônio de Freitas Machado (irmão do professor
Freitas Machado). Pedro o procurou propondo que ele escrevesse a letra do hino.
Alegando, com inteira razão, problemas de saúde para dedicar-se a tal
empreitada, o velho poeta, uma das mais célebres personalidades da
intelectualidade pão-de-açucarense, o aconselhou a buscar a ajuda de outra
pessoa.
Depois de muito procurar e não
encontrar ninguém, Pedro voltou para relatar a sua dificuldade. O professor,
então, disse:
— Pois, então, já temos uma pessoa
que pode fazer isso.
— Que bom! – alegrou-se Pedro, que
perguntou:
— Quem?
— Você! — respondeu o mestre.
Pedro tomou um susto!
— Eu?!
Resignado, foi para casa e se entregou
à tarefa. Depois de muito rabiscar – palavras dele- voltou ao professor. Seu
Totonho disse que o que Pedro tinha feito estava bom, mas sugeriu que ele
procurasse alguém para dar um “retoque final”.
Ele, então, procurou o padre José Nascimento[iv], que era seu amigo. Ainda que surpreso pela escolha do seu nome, o vigário aceitou colaborar. Tomou os “rabiscos” de Pedro e, alguns dias depois, mostrou-lhe uma versão, que acabou sendo a definitiva.
LETRA DO HINO
DE PÃO DE AÇÚCAR
Eia! Avante,
pão-de-açucarenses,
À procura do porvir,
Pois o solo em que nascemos
Terá que subsistir.
Estes montes
circundantes
Nos convidam a galgar
As alturas fulgurantes
Do bem esmagando o mal.
Para a
frente, jubilosos,
O sucesso procurar.
Jesus Cristo Redentor
Garantia há de nos dar.
Nosso
slogan, jubilosos,
O sucesso procurar.
Jesus Cristo Redentor
Garantia há de nos dar.
Nosso rio
grande e tão sublime.
Nosso povo tão gentil.
Nesse solo venerado,
Nessa plaga do Brasil.
Esta terra
tão sublime
Nos convida a lutar.
Salve, ó terra idolatrada
Por nome Jaciobá!
(letra de Pedro Lúcio Rocha, com a
colaboração do Padre José Nascimento, e música de Manoel Passinha (Manoel
Capitulino de Castro)[v].
Elementos Históricos e Culturais Presentes na letra do Hino
Montes circundantes: Faz alusão à topografia local que cerca a cidade,
especialmente o morro do Cavalete, a oeste; o morro do Faria, a Leste; e, mais
ao Norte, a majestosa Serra do Meirus.
Jesus Cristo Redentor: Uma clara referência ao monumento do Cristo Redentor
situado no topo do Morro do Cavalete, um dos principais pontos turísticos do
município.
Nosso rio grande e tão sublime: Refere-se ao imponente rio São
Francisco, que banha a cidade.
Jaciobá: O hino resgata o nome indígena original da região (Jaciobá significa
"Espelho da Lua" em tupi), herança dos povos nativos que habitavam as
margens do rio antes da colonização portuguesa.
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| O maestro Manoel Passinha, aqui regendo a Orquestra Paganini. Foto MISA _foto MISA, cedida por Billy Magno. |
Estava feita a letra do hino, mas faltava
a melodia, observa o entrevistador.
- Como você conheceu Passinha? – quis
saber.
Pedro, então, esclarece que, na casa
de Dona Maroquinha[vi] (mãe
de seu Elísio Maia), a qual frequentava com assiduidade, morava uma senhora que
era irmã do maestro. Essa senhora era Maria de Castro, conhecida por Mariquinha.[vii]
Pedro lembrou-se de que Seu Dema já lhe
havia dito que Manoel Passinha era um dos músicos "mais eficientes"
do Nordeste. Foi assim que, por intermédio da irmã, conseguiu um contato com o
famoso musicista.
De uma primeira tentativa, foi a
Maceió e o procurou no 20º BC (Vigésimo Batalhão de Caçadores), mas não o
encontrou. Na segunda vez, conseguiu falar com ele e marcaram de se encontrar
na casa do militar, na Av. Santos Pacheco, 252, bairro do Prado.
O maestro aceitou a incumbência e
marcou um novo encontro. No dia aprazado, o músico exibiu uma partitura e, com
a batuta na mão, solfejava a melodia, pedindo a sua opinião sobre algumas
versões.
— Prefere esta ou esta? Prefere esta
ou aquela? Esta outra ou a primeira?
Até que chegou a uma de que Pedro
Lúcio gostou e se decidiu por ela.
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Instituídos os símbolos municipais, foi feita uma gravação do
hino em fita cassete, com música e voz, a fim de difundir a sua execução.
Lembro-me de quando cursava a 1ª série do ginasial no Ginásio
Cenecista Dom Antônio Brandão: o diretor, Dr. Átila Pinto Machado, entrou na
minha sala com algumas professoras para ensaiarmos a nova canção cívica.
Entre nós, estudantes, duas palavras causaram curiosidade: “slogan”
e “plaga”. Mas logo os professores vieram em nosso socorro, explicando
os seus reais significados.
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E assim, jubilosos e sob a proteção do Cristo Redentor, os
habitantes deste solo venerado, nesse recanto do Brasil, passaram a ter os seus
símbolos — uma flâmula e seus versos melódicos — para cultuar a sua história e
enaltecer a força do seu povo.
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Nossos agradecimentos a Billy Magno pela cessão da entrevista
com Pedro Lúcio Rocha; a Massilon Ferreira da Silva, Hélio Silva Fialho e Claudenice
Bezerra por outras informações relevantes.
Para saber mais sobre o maestro Manoel Passinha acesse Passinha, maestro de todos os ritmos e instrumentos.
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NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”,
constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens
são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da
competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso
sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso
tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de
autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
Pedro Lúcio Rocha nasceu no povoado Agreste (então município de Pão de Açúcar;
hoje pertencente a Monteirópolis), no dia 15 de junho de 1938, filho do casal
Lúcio Rocha e Maria do Céu.
[ii]
Williams Magno Barbosa Fialho. Filho de Yvan Silva Fialho e Núbia Barbosa,
nasceu em Pão de Açúcar em 5 de julho de 1978.
[iii]
AMORIM, Etevaldo Alves. FREITAS MACHADO, VIDA E OBRAS. EDUFAL, 2011.
[iv]
José Nascimento de Oliveira nasceu em Palmeira dos Índios no dia 7 de setembro
de 1936. Filho de Pedro Raimundo da Silva e Maria José do Nascimento.
[v]
MANOEL PASSINHA. Manoel Capitulino de Castro nasceu em Pão de Açúcar no dia 11
de outubro de 1908. Filho de João Euzébio de Castro e Maria Luiza Souza de
Castro. Eram seus avós paternos: José Dias de Castro e Luzia Francisca da
Assumpção; e, maternos: Manoel Ferreira de Barros e Maria das Dores Pinto. Em
1933, casou-se com Alice de Sabóia Porto. O casal teve uma filha chamada Irma,
falecida aos três meses de idade em 5 de dezembro de 1935. Moravam na Av.
Santos Pacheco, 252, bairro do Prado, Maceió. Faleceu em Maceió no dia 3 de
junho de 1993.
[vi]
Maria Joaquina da Anunciação, filha de Manoel Fernandes e Joana Maria da
Anunciação.
[vii]
Maria de Castro (Mariquinha) faleceu em Pão de Açúcar, no dia 9 de abril de
1996.




As riquezas de detalhes do presente artigo sobre esses dois símbolos de nossa terra com certeza servirão, doravante, como uma excelente fonte de consulta sobre os mesmos. Parabéns, confrade
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