quarta-feira, julho 15

PÃO DE AÇÚCAR, 1859 - MÚSICA PARA O IMPERADOR

 

Por Etevaldo Amorim


Partitura de La tremenda ultrice spada.


Um dos episódios mais marcantes da história de Pão de Açúcar é, sem dúvida, a passagem do Imperador Dom Pedro II, em 1859. A caminho da cachoeira de Paulo Afonso, o monarca pernoitou na cidade de 17 para 18 e de 22 para 23 de outubro, deixando registradas em seu diário importantes informações sobre a região.


Dois desses registros mencionam peças musicais que foram executadas para ele: uma em sua chegada e outra na viagem de regresso.


No dia 17, ao descrever as impressões daquela primeira recepção, ele anotou:


“Esquecia-me dizer que havia junto ao lugar de desembarque, que arranjaram com algumas tábuas e coqueiros, uma música de rabecas e outros instrumentos que tocavam o Hino da Independência feito na Bahia, que era cantado por pessoas que me seguiram até chegar à casa da Câmara, que está sofrivelmente arranjada. Ainda cantaram o Hino depois.”


A obra mencionada por Dom Pedro II nada mais era do que o Hino ao 2 de Julho[i]. Essa composição nasceu nas trincheiras da guerra — travada em diversas partes do território baiano — e celebra a vitória dos brasileiros sobre os portugueses, em 2 de julho de 1823[ii], em Salvador. Foi nessa data que a independência do Brasil se consolidou na prática, pois marcou a expulsão definitiva das tropas colonizadoras do território nacional.


É interessante notar que, embora o Império já possuísse um Hino da Independência oficial — cuja melodia fora composta pelo próprio pai do monarca, Dom Pedro I, para os versos de Evaristo da Veiga ("Já podeis, da Pátria filhos, / Ver contente a mãe gentil") —, a recepção em Pão de Açúcar optou por ignorá-lo. Em vez de lisonjear o imperador com a obra de seu progenitor, a organização local preferiu entoar um canto regional de forte teor anticolonial.

 

Ouvir aquele conjunto de rabecas acompanhado por sertanejos a bradar que “com tiranos não combinam brasileiros corações” poderia ter causado melindre ao visitante. No entanto, Dom Pedro II tratou a situação de forma magnânima. Em seu diário, não há qualquer indício de incômodo político; afinal, a vitória do 2 de Julho também consolidou o Brasil que ele governava.

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Ouça o Hino ao 2 de Julho, interpretado por Tatau e pela Orquestra Sinfônica Juvenil 2 de Julho, regência de Yuri Azevedo. NEOJIBA - YOUTUBE. (https://www.youtube.com/watch?v=9ChXpYAtgvc&list=RD9ChXpYAtgvc&start_radio=1)

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O Imperador Dom Pedro II.


Já no dia 23, pouco antes de embarcar, Dom Pedro registra:


“Acordei às 5, e tenho estado a escrever. Vou agora dar um passeio até acima do Pão de Açúcar[iii], ouvir missa e visitar as aulas, deixando esta povoação depois do almoço às 10 horas. Continuo a escrever do Pirajá onde me embarquei às 9 ½. A vista do alto do Pão de Açúcar é bonita. Antes da missa fui às aulas e durante aquela a música tocou muito mal a ária de La tremenda ultrice spada.”


Mesmo levando em conta o rigor do Imperador na avaliação dos músicos, não seria de se estranhar que tivessem tocado mal. Afinal, La Tremenda Ultrice Spada não é uma melodia qualquer. Na obra original, a execução exige uma orquestra inteira, com instrumentos de sopro e metais, de modo a imprimir o tom marcial e dramático da cena.


É uma famosa ária da ópera “I Capuleti e i Montecchi”, criada por Vincenzo Bellini[iv] e Felice Romani[v]. A obra estreou com grande sucesso em Veneza, no ano de 1830. Cantada logo no primeiro ato, a música faz parte de uma história inspirada em Romeu e Julieta, mas que destaca a violenta rivalidade política entre as duas famílias. (Capuletos (Capuleti) e os Montecchios (Montecchi).


É louvável o fato de que uma pequena cidade alagoana, em pleno ano de 1859, já tivesse acesso a partituras europeias complexas e possuísse músicos com técnica minimamente suficiente para tentar executar uma peça clássica tão rebuscada. Pode-se imaginar o quão difícil foi transcrever e adaptar essa grande obra para a realidade de uma banda de coreto no interior alagoano.


A execução dessas composições tão emblemáticas, como de resto toda a estrutura montada para a recepção ao Imperador, revela o esforço e o esmero que as lideranças políticas e sociais de Pão de Açúcar foram capazes de despender para recebê-lo, assim como comprova a sua capacidade de expressar o seu regionalismo, mas também o seu conhecimento do mundo exterior.


Retrato de Bellini de autoria de Antoine Maurin, 1836. Disponível em Gallica, Biblioteca Nacional da França.


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Ouça La tremenda ultrice spada - Bellini - (https://www.youtube.com/watch?v=J7i9YCJMd1g&list=RDJ7i9YCJMd1g&start_radio=1) - Naomi Flatman - Youtube

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NOTA


Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Nasce o Sol a dois de julho

Brilha mais que no primeiro

É sinal que neste dia

Até o Sol, até o Sol é brasileiro

 

Nunca mais, nunca mais o despotismo

Regerá, regerá nossas ações

Com tiranos não combinam

Brasileiros, brasileiros corações

 

Nunca mais, nunca mais o despotismo

Regerá, regerá nossas ações

Com tiranos não combinam

Brasileiros, brasileiros corações

Com tiranos não combinam

Brasileiros, brasileiros corações

 

Cresce, ó filho de minh'alma

Para a Pátria defender

O Brasil já tem jurado

Independência, independência ou morrer

 

Nunca mais, nunca mais o despotismo

Regerá, regerá nossas ações

Com tiranos não combinam

Brasileiros, brasileiros corações

 

Nunca mais, nunca mais o despotismo

Regerá, regerá nossas ações

Com tiranos não combinam

Brasileiros, brasileiros corações

Com tiranos não combinam

Brasileiros, brasileiros corações

 

Salve, ó rei das campinas

De Cabrito a Pirajá

Nossa pátria, hoje livre

Dos tiranos, dos tiranos não será

 

Nunca mais, nunca mais o despotismo

Regerá, regerá nossas ações

Com tiranos não combinam

Brasileiros, brasileiros corações

 

Nunca mais, nunca mais o despotismo

Regerá, regerá nossas ações

Com tiranos não combinam

Brasileiros, brasileiros corações

Com tiranos não combinam

Brasileiros, brasileiros corações

 

[ii] Hino ao 2 de Julho, com letra de Ladislau dos Santos Titara e melodia de José dos Santos Barreto. Eles foram combatentes, negros, nas lutas pela independência do Brasil, na Bahia.

Ladislau dos Santos Titara (Dias d'Ávila, 24 de maio de 1801 - Rio de Janeiro, 18 de março de 1861) foi um militar, historiador e poeta brasileiro. Destacou-se nas campanhas pela independência do Brasil na Bahia e por ter escrito depois a obra Paraguaçu: Epopeia da Guerra da Independência na Bahia.

José dos Santos Barreto atuou intensamente no cenário musical baiano, chegando a reger bandas militares e filarmônicas no município de Cachoeira.

 

[iii] Uma pequena observação. Sobre o trecho “Vou agora dar um passeio até acima do Pão de Açúcar”, penso ter havido um equívoco na transcrição do diário. Escrito assim, dá a impressão de o Imperador ter querido dizer que iria a um lugar situado além do morro do Cavalete. No linguajar comum, ir acima quer dizer ir subindo o rio. Creio que, na verdade, o monarca pretendia dizer que iria até o ponto culminante do morro. Tanto é que, mais adiante, ele diz: “A vista do alto do Pão de Açúcar é bonita”. Logo, o texto original do diário era, provavelmente, “Vou agora dar um passeio até o cimo do Pão de Açúcar.”

 

[iv] Vincenzo Salvatore Carmelo Francesco Bellini foi um célebre compositor italiano do século XIX, um dos maiores mestres do bel canto. Nasceu em 3 de novembro de 1801, em Catânia, Sicília. Faleceu em 23 de setembro de 1835, em Puteaux, perto de Paris.

 

[v] Felice Romani (1788–1865) foi um dos maiores poetas, eruditos e libretistas italianos da história da ópera. Nasceu em Gênova, Itália, em 31 de janeiro de 1788 e faleceu em Moneglia, Itália, em 28 de janeiro de 1865 (aos 76 anos).

2 comentários:

  1. Excelente artigo. A perspectiva de como nosso magno administrador (não fora apenas um mero imperador) se comportou perante aquela recepção musical (que, como registra a história, vivenciava fortes influências na mudança de regime governamental) somente confirma sua sapiência e expertise perante seu povo

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  2. Parabéns, Etevaldo pelo criterioso e cuidadoso trabalha de pesquisa que faz da nossa querida Pão de Açúcar. A história sobrevive por conta de pessoas como você que sabe o que de fato importa. Obrigada. Muito obrigada! 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


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PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

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Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia