Por Etevaldo Amorim
![]() |
| Partitura de La tremenda ultrice spada. |
Um dos episódios mais marcantes da história de Pão de Açúcar
é, sem dúvida, a passagem do Imperador Dom Pedro II, em 1859. A caminho da
cachoeira de Paulo Afonso, o monarca pernoitou na cidade de 17 para 18 e de 22
para 23 de outubro, deixando registradas em seu diário importantes informações
sobre a região.
Dois desses registros mencionam peças musicais que foram
executadas para ele: uma em sua chegada e outra na viagem de regresso.
No dia 17, ao descrever as impressões daquela primeira
recepção, ele anotou:
“Esquecia-me dizer que havia junto ao lugar de desembarque,
que arranjaram com algumas tábuas e coqueiros, uma música de rabecas e
outros instrumentos que tocavam o Hino da Independência feito na Bahia, que
era cantado por pessoas que me seguiram até chegar à casa da Câmara, que está
sofrivelmente arranjada. Ainda cantaram o Hino depois.”
A obra mencionada por Dom Pedro II nada mais era do que o Hino
ao 2 de Julho[i]. Essa
composição nasceu nas trincheiras da guerra — travada em diversas partes do
território baiano — e celebra a vitória dos brasileiros sobre os portugueses, em 2 de julho de 1823[ii],
em Salvador. Foi nessa data que a independência do Brasil se consolidou na
prática, pois marcou a expulsão definitiva das tropas colonizadoras do
território nacional.
É interessante notar que, embora o Império já possuísse um
Hino da Independência oficial — cuja melodia fora composta pelo próprio pai do
monarca, Dom Pedro I, para os versos de Evaristo da Veiga ("Já podeis, da
Pátria filhos, / Ver contente a mãe gentil") —, a recepção em Pão de
Açúcar optou por ignorá-lo. Em vez de lisonjear o imperador com a obra de seu
progenitor, a organização local preferiu entoar um canto regional de forte teor
anticolonial.
Ouvir aquele conjunto de rabecas acompanhado por sertanejos a
bradar que “com tiranos não combinam brasileiros corações” poderia ter
causado melindre ao visitante. No entanto, Dom Pedro II tratou a situação de
forma magnânima. Em seu diário, não há qualquer indício de incômodo político;
afinal, a vitória do 2 de Julho também consolidou o Brasil que ele governava.
___
Ouça o Hino ao 2 de Julho, interpretado por Tatau e pela Orquestra Sinfônica Juvenil 2 de Julho, regência de Yuri Azevedo. NEOJIBA - YOUTUBE. (https://www.youtube.com/watch?v=9ChXpYAtgvc&list=RD9ChXpYAtgvc&start_radio=1)
___
![]() |
| O Imperador Dom Pedro II. |
Já no dia 23, pouco antes de embarcar, Dom Pedro registra:
“Acordei às 5, e tenho estado a escrever. Vou agora dar um passeio até acima do Pão de Açúcar[iii],
ouvir missa e visitar as aulas, deixando esta povoação depois do almoço às 10
horas. Continuo a escrever do Pirajá onde me embarquei às 9 ½. A vista do alto
do Pão de Açúcar é bonita. Antes da missa fui às aulas e durante aquela a
música tocou muito mal a ária de La tremenda ultrice spada.”
Mesmo levando em conta o rigor do Imperador na avaliação dos
músicos, não seria de se estranhar que tivessem tocado mal. Afinal, La Tremenda
Ultrice Spada não é uma melodia qualquer. Na obra original, a execução exige
uma orquestra inteira, com instrumentos de sopro e metais, de modo a imprimir o
tom marcial e dramático da cena.
É uma famosa ária da ópera “I Capuleti e i Montecchi”, criada
por Vincenzo Bellini[iv] e
Felice Romani[v]. A
obra estreou com grande sucesso em Veneza, no ano de 1830. Cantada logo no
primeiro ato, a música faz parte de uma história inspirada em Romeu e Julieta,
mas que destaca a violenta rivalidade política entre as duas famílias.
(Capuletos (Capuleti) e os Montecchios (Montecchi).
É louvável o fato de que uma pequena cidade alagoana, em
pleno ano de 1859, já tivesse acesso a partituras europeias complexas e
possuísse músicos com técnica minimamente suficiente para tentar executar uma
peça clássica tão rebuscada. Pode-se imaginar o quão difícil foi transcrever e
adaptar essa grande obra para a realidade de uma banda de coreto no interior
alagoano.
A execução dessas composições tão emblemáticas, como de resto
toda a estrutura montada para a recepção ao Imperador, revela o esforço e o
esmero que as lideranças políticas e sociais de Pão de Açúcar foram capazes de despender
para recebê-lo, assim como comprova a sua capacidade de expressar o seu
regionalismo, mas também o seu conhecimento do mundo exterior.
![]() |
Retrato de Bellini de autoria de Antoine Maurin, 1836. Disponível em Gallica, Biblioteca Nacional da França.
___
Ouça La tremenda ultrice spada - Bellini - (https://www.youtube.com/watch?v=J7i9YCJMd1g&list=RDJ7i9YCJMd1g&start_radio=1) - Naomi Flatman - Youtube
____
NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”,
constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens
são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da
competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso
sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso
tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de
autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
Nasce o Sol a dois de julho
Brilha mais que no primeiro
É sinal que neste dia
Até o Sol, até o Sol é
brasileiro
Nunca mais, nunca mais o
despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Nunca mais, nunca mais o
despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Cresce, ó filho de minh'alma
Para a Pátria defender
O Brasil já tem jurado
Independência, independência
ou morrer
Nunca mais, nunca mais o
despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Nunca mais, nunca mais o
despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Salve, ó rei das campinas
De Cabrito a Pirajá
Nossa pátria, hoje livre
Dos tiranos, dos tiranos não
será
Nunca mais, nunca mais o
despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Nunca mais, nunca mais o despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros
corações
[ii]
Hino ao 2 de Julho, com letra de Ladislau dos Santos Titara e melodia de
José dos Santos Barreto. Eles foram combatentes, negros, nas lutas pela
independência do Brasil, na Bahia.
Ladislau dos Santos
Titara (Dias d'Ávila, 24 de maio de 1801 - Rio de Janeiro, 18 de março de
1861) foi um militar, historiador e poeta brasileiro. Destacou-se nas
campanhas pela independência do Brasil na Bahia e por ter escrito depois a obra
Paraguaçu: Epopeia da Guerra da Independência na Bahia.
José dos Santos Barreto
atuou intensamente no cenário musical baiano, chegando a reger bandas militares
e filarmônicas no município de Cachoeira.
[iii]
Uma pequena observação. Sobre o trecho “Vou agora dar um passeio até
acima do Pão de Açúcar”, penso ter havido um equívoco na transcrição do diário.
Escrito assim, dá a impressão de o Imperador ter querido dizer que iria a um
lugar situado além do morro do Cavalete. No linguajar comum, ir acima quer
dizer ir subindo o rio. Creio que, na verdade, o monarca pretendia dizer que
iria até o ponto culminante do morro. Tanto é que, mais adiante, ele diz: “A
vista do alto do Pão de Açúcar é bonita”. Logo, o texto original do diário era,
provavelmente, “Vou agora dar um passeio até o cimo do Pão de Açúcar.”
[iv] Vincenzo
Salvatore Carmelo Francesco Bellini foi um célebre compositor italiano do
século XIX, um dos maiores mestres do bel canto. Nasceu em 3 de novembro de
1801, em Catânia, Sicília. Faleceu em 23 de setembro de 1835, em Puteaux, perto
de Paris.
[v]
Felice Romani (1788–1865) foi um dos maiores poetas, eruditos e libretistas
italianos da história da ópera. Nasceu em Gênova, Itália, em 31 de janeiro de
1788 e faleceu em Moneglia, Itália, em 28 de janeiro de 1865 (aos 76 anos).



Excelente artigo. A perspectiva de como nosso magno administrador (não fora apenas um mero imperador) se comportou perante aquela recepção musical (que, como registra a história, vivenciava fortes influências na mudança de regime governamental) somente confirma sua sapiência e expertise perante seu povo
ResponderExcluirParabéns, Etevaldo pelo criterioso e cuidadoso trabalha de pesquisa que faz da nossa querida Pão de Açúcar. A história sobrevive por conta de pessoas como você que sabe o que de fato importa. Obrigada. Muito obrigada! 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
ResponderExcluir