sábado, agosto 29

GASTÃO E ENEIDA NA PÃO DE AÇÚCAR DOS ANOS 60

 

Por Etevaldo Amorim


Pão de Açúcar-AL, anos 1960. Av. Ferreira de Novaes, vendo-se a casa onde residiu o casal Gastão e Eneida, logo após o sobrado.


Para além dos dados históricos e geográficos de Pão de Açúcar, já fartamente tratados neste Blog, há sempre a opção de confirmar ou até colher novas informações sobre a nossa terra. Para tanto, empreendemos pesquisas em jornais e revistas nas hemerotecas de todo o país.


Foi assim que chegamos a um belo registro histórico, geográfico e, acima de tudo, afetivo da década de 1960, em que Pão de Açúcar serve de cenário e se torna objeto de observações verdadeiramente significativas. Nele, cruzam-se os caminhos de Gastão Pinto Batinga e sua esposa, a mineira Maria Eneida, em uma preciosa correspondência de memórias com o Professor Eurico Silva[i], catedrático do Colégio Estadual em Uberlândia, Minas Gerais.


Gastão Pinto Batinga[ii], embora nascido em Penedo-AL (em 6 de janeiro de 1924), tem origens em Pão de Açúcar, já que é filho de Elisa Soares Pinto (filha de José Soares Pinto e Isabel Alves Feitosa Pinto, “dona Bela”). Seu pai, o penedense Otto Batinga, casado com Maria Emília Furtado Ribeiro Soares, é filho de Jesuíno de Araújo Batinga (irmão do bispo Dom Jonas Batinga).


Na década de 1940, ele residiu no Estado do Paraná, onde foi Secretário da Federação dos Escoteiros do Paraná e Santa Catarina. Da Diretoria, também fazia parte o escritor Dalton Trevisan, contista conhecido como “O Vampiro de Curitiba”.[iii]


Posteriormente, foi para o Rio de Janeiro, onde foi jornalista e militante político. Daí foi para Minas Gerais, fixando-se em Uberlândia, a progressista cidade do Triângulo Mineiro. Lá conheceu Maria Eneida.


Depois de casados, residiram em Pão de Açúcar por algum tempo, na década de 1960. Morando ou apenas visitando, esse descendente dos “Soares Pinto” ainda era visto por lá em fins de 1968.


Cartas de Maria Eneida endereçadas a seu professor Eurico Silva, suscitaram o artigo, publicado no jornal uberlandense O REPÓRTER, edição de 23 de março de 1963, sob o título INFORMAÇÕES QUE SE PRESTAM:


“Distante 180 km da Capital, na zona do Sertão do São Francisco, à margem esquerda deste, divisa com Sergipe, a Sudoeste de Alagoas – localiza-se a cidade de Pão de Açúcar (1854), resultante de desdobramento desde Penedo (1636), Traipu (1835) e Mata Grande (1837).


O nome denomina também uma serra nas suas proximidades; um penhasco de 400 metros, na entrada da baía da Guanabara; pico de uma das ilhas de Cabo Verde, com 1.300 metros; e ainda o título de um filme que está sendo rodado em Jacarezinho, São Paulo.


Região outrora habitada pelos selvícolas urumaris e amoipiras[iv].


Sergipanos e os nativos fundaram o povoado que fica trinta metros acima do nível do mar, e para aí os trouxe a navegação fluvial que, através dos tempos, vem disseminando cidades ribeirinhas por toda essa imensa região sertaneja.


A essa grande sesmaria de Lourenço José de Brito, deu início, em 1660, a formação do núcleo populoso, exatamente ao lado do Morro do Pão de Açúcar e próximo da lagoa de mesmo nome.


Criado o município em 1854 e instalada a sede, com os foros de cidade em 1877.


Na antiga Vila, esteve duas vezes hospedado na viagem de ida e volta à cachoeira de Paulo Afonso – dias 17 e 22 de outubro de 1859 – o Imperador D. Pedro II, e cuja visita ficou registrada numa inscrição em bronze ao lado da grande queda onde hoje funciona a notável Usina elétrica que serve cinco Estados da Federação.


Na cidade é de se crer ainda exista o prédio assobradado, construído em 1854, para Casa da Câmara e que agasalhou a comitiva imperial.


A área do município é de 665 km², contando uma população de 12.768 habitantes.


Servem os munícipes várias empresas de navegação fluvial, para transporte de gado, de mercadoria e de pessoas, em toda a extensão navegável, desde Pirapora – norte de Minas, até Juazeiro, na Bahia; e de Marechal Floriano (Piranhas) além da Paulo Afonso até a foz do grande rio brasileiro, que é uma escada rolante de 1.160 km².


Ao lado do trecho encachoeirado, intermediário, construiu-se uma via férrea de 116 km de extensão.


Sabemos contar Pão de Açúcar com uma avenida de 700 x 42 metros, plana, como de resto todo aquele sítio; e arborizada com fícus. Ah, se ‘lacerdinhas’ [v]soubessem disso e ainda com aquele calor que sobe a 40 graus!...


No Museu Nacional encontram-se alguns fósseis, achados nesta beira de rio, ossos petrificados que Agassiz, paleontólogo suíço, calculou de terem mais de cinco mil anos."


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“A minha jovem e gentil afilhada uberlandense Maria Eneida, que permanentemente lá está nesses ermos interioranos do Nordeste brasileiro, numa carta destes dias, a mim motivou a súmula histórico-geográfica que acima se lê, e que será completada com as suas informações, produto de novos conhecimentos seus em um meio físico e social que até há pouco lhe era estranho.


Talvez uma indiscrição de minha parte, porém mal algum advirá daí, mas o benefício das breves informações que nos deliciam e aclaram pelas suas novas.


Realizamos, então, um intercâmbio cultural. Vai um trecho da carta amiga.


Estou mesmo pensando em lhe despachar uma mensagem em pétala de rosa, com bonita frase e o nome de Uberlândia. Mandá-la-ia, se possível, pelos bons préstimos do rio que, é e a propósito “o da unidade nacional” – soltando-a na superfície dessas águas que brotam aqui mesmo perto, na Serra da Canastra, e que lh’a levaria de bom grado, como tem levado àqueles ermos o bafejo da civilização.


Maria Eneida deixou há pouco esta Mesopotâmia e, nas asas de Cupido, acompanhou Gastão Batinga por esse mundo afora de nosso tão querido quanto imenso Brasil.”


‘Ele – o Relatório – será sobre a feira do Nordeste, melhor dito, de Pão de Açúcar, verdadeiro mercado oriental, que passei a gostar e admirar imensamente.


A feira de Pão de Açúcar é um espetáculo pelos seus tipos humanos e pela variedade de cores e surpresas que nos oferece. Ela tem a beleza bárbara do agreste, grandeza e abundância. É um acontecimento sócio-econômico de fundamental importância para a cidade e fazendas à margem do rio. Tudo na feira se compra e se vende. Todos os encontros são marcados para o seu dia. Dia de feira é dia de festa.


Desde que aqui cheguei, todas as segundas-feiras vou “fazer feira”. Gosto de seu movimento, de seu barulho peculiar, mas não aprecio muito o seu cheiro, mistura de suor, verduras e frutas passadas. Todavia, as feiras são sempre assim aqui, no Sul ou em qualquer outra parte.


Dou-lhe aqui uma relação de frutas que, desde outubro, estão aparecendo com grande abundância e frequência: manga, laranja, abacate, mamão, abacaxi, pinha, maracujá, melancia, banana, jaca, sapoti, sapota e uva. Esta última é espetacular!


Em abril, com o inverno, teremos o umbu e o jenipapo.


A carne de sol que preparam por aqui é excelente. Melhor que a de Bagagem.


Também se encontram na feira: alface, cenoura, couve, repolho, batatas as mais diversas, pimentão, tomate e todas as especiarias.


Já ouviu falar nas “mesinhas”? Nas famosas “mesinhas” do Nordeste?


Aqui as tenho visto. Vendem raízes para todos os males; rezas para curar picadas de cobra, para mau olhado e para fechar o corpo. Vendem chifre de veados, rabos de tatu, dentes de jacaré, chocalhos de cascavel – tudo para remédio. Tem de tudo, para tudo e para todos.


Os donos das “mesinhas” são geralmente curandeiros. O povo, na sua simplicidade e tradição, respeita-os bastante. Nas feiras, outro espetáculo pitoresco nos é dado pelos cantadores. Eles contam, cantam e recitam o “ABC”, típico folheto de poesia popular e são notáveis improvisadores. Têm público certo e interessado, principalmente quando há desafio de viola. Enfim, a feira daqui é algo inesquecível e maravilhoso.


Outra coisa que hei observado é o gosto que tem o povo pela música popular regional e pelo canto. Todo mundo, até parece exagero, sabe tocar um instrumento musical ou cantar. O folclore é riquíssimo.


Estou satisfeita com tudo. Aprendi a gostar do Vale do São Francisco, de suas belezas naturais, e de seu povo meio orgulhoso e valente.


Creio que o mesmo aconteceria com o senhor, pois tem sensibilidade para sentir as coisas.’

___ 


No mesmo jornal O REPÓRTER, Uberlândia-MG, 24 de junho de 1963, encontramos esse artigo do próprio Gastão:

 

“REVOLVENDO O SERTÃO NORDESTINO


Antigamente era difícil para um nordestino falar sobre a sua região, sem tocar nas chagas do Polígono, na miséria dos mocambos do Recife, no analfabetismo dos camponeses, e nas constantes migrações dos paus-de-arara para o sul.


Hoje, os problemas da seca, dos mocambos, do analfabetismo, do pau de arara migrador, ainda existem e estão sendo enfrentados dentro das reais possibilidades do país. São problemas graves e difíceis, mas não são insolúveis.


Desde que aqui cheguei, tenho escrito sobre o Nordeste. Escrito sobre o progresso das suas cidades sertanejas, progresso palpável e que pode ser reconhecido até pelo viajante menos atento e observador.


Há uma revolução em marcha no sertão nordestino. Uma mudança radical no rápido do seu povo. A hidroelétrica de Paulo Afonso está ampliando o seu campo de ação. O São Francisco deixou de ser via de navegação apenas, e está subindo as serras, a fim de ser utilizado nas residências, bem comportado e perfeitamente encanado.


As prefeituras estão calçando ruas, praças e surgem galerias de águas pluviais. Outras obras estão sendo realizadas. A saúde do povo vem melhorando. Cuida-se do setor educacional. Modifica-se a mentalidade de todos.


Um exemplo: Pão de Açúcar, cidade agropecuária, quer industrializar-se. Os seus munícipes, tendo à frente o seu prefeito, Sr. Ronalso dos Anjos, vereadores como o Sr. José Amaral, estão entusiasmados com as conquistas da cidade e só pensam em progredir mais.


O progresso em forma de luz elétrica, em forma de água encanada, em forma de alfabetização, está revolvendo tudo. Nenhuma cidade nordestina deseja ficar atrás; ficar no antigo marco de não fazer nada. O que aconteceu com a nossa querida Uberlândia, verdadeira cidade dínamo, cidade progressista, entusiasma hoje o sertão e o sertanejo do nordeste.


Poderia citar outros exemplos. Dizer alguma coisa sobre o fim da enxada e sua substituição pelos arados manuais; sobre a grande e notável bacia leiteira do Jacaré dos Homens, de seu gado holandês-zebu; sobre o que vem realizando o DNOCS, o DNER e a SUDENE.


Em outra ocasião, talvez escreva sobre tais assuntos e, ao mesmo tempo, a respeito dos cursos de alfabetização radiofônica e audiovisual, de aprendizagem em 48 horas.”


Pão de Açúcar nos anos 1960,. Ao fundo, à esquerda a casa de esquina onde morou o casal Gastão e Eneida.


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NOTA

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] O professor Eurico Silva era professor do Colégio Estadual de Uberlândia. Filho do Cel. Virgílio Augusto de Souza e Silva e Maria Salomé Vieira, nasceu em Botelhos, Minas Gerais, em 27 de setembro de 1894 e faleceu Poços de Caldas-MG, em 27 de julho de 1973.

[ii] É o autor da obra "Aspectos da Presença do Negro no Triângulo Mineiro / Alto Paranaíba: Kalunga", publicada em 1994.

[iii] Gazeta de Notícias, RJ, 6 de agosto de 1942.

[iv] Amoipiras. Os amoipiras eram um povo indígena brasileiro pertencente ao tronco Tupi-Guarani, descendentes dos tupinambás, que habitavam a região do médio rio São Francisco, principalmente na margem esquerda, no atual estado da Bahia, durante o século XVI. Parece-nos, portanto, um equívoco a citação dos mesmos como habitantes do baixo S. Francisco.

[v] Lacerdinha é o nome popular do inseto Gynaikothrips ficorum, da ordem dos tisanópteros. São minúsculos, alongados e geralmente pretos; muito comum em árvores do gênero Ficus (como o fícus-benjamina). São atraídos por roupas claras (especialmente amarelas) e entram nos olhos das pessoas, causando intensa ardência e coceira. O nome popular é uma associação ao político Carlos Lacerda, conhecido por sua postura polêmica, combativa e por irritar profundamente os seus adversários políticos.

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia