Por Etevaldo Amorim
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| Pão de Açúcar-AL, anos 1960. Av. Ferreira de Novaes, vendo-se a casa onde residiu o casal Gastão e Eneida, logo após o sobrado. |
Para além dos dados históricos e geográficos de Pão de
Açúcar, já fartamente tratados neste Blog, há sempre a opção de confirmar ou
até colher novas informações sobre a nossa terra. Para tanto, empreendemos
pesquisas em jornais e revistas nas hemerotecas de todo o país.
Foi assim que chegamos a um belo registro histórico,
geográfico e, acima de tudo, afetivo da década de 1960, em que Pão de Açúcar
serve de cenário e se torna objeto de observações verdadeiramente
significativas. Nele, cruzam-se os caminhos de Gastão Pinto Batinga e sua
esposa, a mineira Maria Eneida, em uma preciosa correspondência de memórias com
o Professor Eurico Silva[i],
catedrático do Colégio Estadual em Uberlândia, Minas Gerais.
Gastão Pinto Batinga[ii],
embora nascido em Penedo-AL (em 6 de janeiro de 1924), tem origens em Pão de
Açúcar, já que é filho de Elisa Soares Pinto (filha de José Soares Pinto e
Isabel Alves Feitosa Pinto, “dona Bela”). Seu pai, o penedense Otto Batinga,
casado com Maria Emília Furtado Ribeiro Soares, é filho de Jesuíno de Araújo
Batinga (irmão do bispo Dom Jonas Batinga).
Na década de 1940, ele residiu no Estado do Paraná, onde foi Secretário
da Federação dos Escoteiros do Paraná e Santa Catarina. Da Diretoria, também fazia
parte o escritor Dalton Trevisan, contista conhecido como “O Vampiro de Curitiba”.[iii]
Posteriormente, foi para o Rio de Janeiro, onde foi
jornalista e militante político. Daí foi para Minas Gerais, fixando-se em Uberlândia,
a progressista cidade do Triângulo Mineiro. Lá conheceu Maria Eneida.
Depois de casados, residiram em Pão de Açúcar por algum tempo,
na década de 1960. Morando ou apenas visitando, esse descendente dos “Soares
Pinto” ainda era visto por lá em fins de 1968.
Cartas de Maria Eneida endereçadas a seu professor Eurico
Silva, suscitaram o artigo, publicado no jornal uberlandense O REPÓRTER, edição
de 23 de março de 1963, sob o título INFORMAÇÕES QUE SE PRESTAM:
“Distante 180 km da Capital, na zona do Sertão do São
Francisco, à margem esquerda deste, divisa com Sergipe, a Sudoeste de Alagoas –
localiza-se a cidade de Pão de Açúcar (1854), resultante de desdobramento desde
Penedo (1636), Traipu (1835) e Mata Grande (1837).
O nome denomina também uma serra nas suas proximidades; um
penhasco de 400 metros, na entrada da baía da Guanabara; pico de uma das ilhas
de Cabo Verde, com 1.300 metros; e ainda o título de um filme que está sendo
rodado em Jacarezinho, São Paulo.
Região outrora habitada pelos selvícolas urumaris e amoipiras[iv].
Sergipanos e os nativos fundaram o povoado que fica trinta
metros acima do nível do mar, e para aí os trouxe a navegação fluvial que,
através dos tempos, vem disseminando cidades ribeirinhas por toda essa imensa
região sertaneja.
A essa grande sesmaria de Lourenço José de Brito, deu início,
em 1660, a formação do núcleo populoso, exatamente ao lado do Morro do Pão de
Açúcar e próximo da lagoa de mesmo nome.
Criado o município em 1854 e instalada a sede, com os foros
de cidade em 1877.
Na antiga Vila, esteve duas vezes hospedado na viagem de ida
e volta à cachoeira de Paulo Afonso – dias 17 e 22 de outubro de 1859 – o
Imperador D. Pedro II, e cuja visita ficou registrada numa inscrição em bronze
ao lado da grande queda onde hoje funciona a notável Usina elétrica que serve
cinco Estados da Federação.
Na cidade é de se crer ainda exista o prédio assobradado,
construído em 1854, para Casa da Câmara e que agasalhou a comitiva imperial.
A área do município é de 665 km², contando uma população de 12.768
habitantes.
Servem os munícipes várias empresas de navegação fluvial,
para transporte de gado, de mercadoria e de pessoas, em toda a extensão
navegável, desde Pirapora – norte de Minas, até Juazeiro, na Bahia; e de
Marechal Floriano (Piranhas) além da Paulo Afonso até a foz do grande rio
brasileiro, que é uma escada rolante de 1.160 km².
Ao lado do trecho encachoeirado, intermediário, construiu-se
uma via férrea de 116 km de extensão.
Sabemos contar Pão de Açúcar com uma avenida de 700 x 42
metros, plana, como de resto todo aquele sítio; e arborizada com fícus. Ah, se ‘lacerdinhas’
[v]soubessem
disso e ainda com aquele calor que sobe a 40 graus!...
No Museu Nacional encontram-se alguns fósseis, achados nesta
beira de rio, ossos petrificados que Agassiz, paleontólogo suíço, calculou de
terem mais de cinco mil anos."
___ *** ___
“A minha jovem e gentil afilhada uberlandense Maria Eneida,
que permanentemente lá está nesses ermos interioranos do Nordeste brasileiro, numa
carta destes dias, a mim motivou a súmula histórico-geográfica que acima se lê,
e que será completada com as suas informações, produto de novos conhecimentos
seus em um meio físico e social que até há pouco lhe era estranho.
Talvez uma indiscrição de minha parte, porém mal algum advirá
daí, mas o benefício das breves informações que nos deliciam e aclaram pelas
suas novas.
Realizamos, então, um intercâmbio cultural. Vai um trecho da
carta amiga.
Estou mesmo pensando em lhe despachar uma mensagem em pétala
de rosa, com bonita frase e o nome de Uberlândia. Mandá-la-ia, se possível,
pelos bons préstimos do rio que, é e a propósito “o da unidade nacional” –
soltando-a na superfície dessas águas que brotam aqui mesmo perto, na Serra da
Canastra, e que lh’a levaria de bom grado, como tem levado àqueles ermos o
bafejo da civilização.
Maria Eneida deixou há pouco esta Mesopotâmia e, nas asas de
Cupido, acompanhou Gastão Batinga por esse mundo afora de nosso tão querido
quanto imenso Brasil.”
‘Ele – o Relatório – será sobre a feira do Nordeste, melhor
dito, de Pão de Açúcar, verdadeiro mercado oriental, que passei a gostar e
admirar imensamente.
A feira de Pão de Açúcar é um espetáculo pelos seus tipos
humanos e pela variedade de cores e surpresas que nos oferece. Ela tem a beleza
bárbara do agreste, grandeza e abundância. É um acontecimento sócio-econômico
de fundamental importância para a cidade e fazendas à margem do rio. Tudo na
feira se compra e se vende. Todos os encontros são marcados para o seu dia. Dia
de feira é dia de festa.
Desde que aqui cheguei, todas as segundas-feiras vou “fazer
feira”. Gosto de seu movimento, de seu barulho peculiar, mas não aprecio
muito o seu cheiro, mistura de suor, verduras e frutas passadas. Todavia, as
feiras são sempre assim aqui, no Sul ou em qualquer outra parte.
Dou-lhe aqui uma relação de frutas que, desde outubro, estão
aparecendo com grande abundância e frequência: manga, laranja, abacate, mamão,
abacaxi, pinha, maracujá, melancia, banana, jaca, sapoti, sapota e uva. Esta
última é espetacular!
Em abril, com o inverno, teremos o umbu e o jenipapo.
A carne de sol que preparam por aqui é excelente. Melhor que
a de Bagagem.
Também se encontram na feira: alface, cenoura, couve,
repolho, batatas as mais diversas, pimentão, tomate e todas as especiarias.
Já ouviu falar nas “mesinhas”? Nas famosas “mesinhas” do
Nordeste?
Aqui as tenho visto. Vendem raízes para todos os males; rezas
para curar picadas de cobra, para mau olhado e para fechar o corpo. Vendem
chifre de veados, rabos de tatu, dentes de jacaré, chocalhos de cascavel – tudo
para remédio. Tem de tudo, para tudo e para todos.
Os donos das “mesinhas” são geralmente curandeiros. O povo,
na sua simplicidade e tradição, respeita-os bastante. Nas feiras, outro
espetáculo pitoresco nos é dado pelos cantadores. Eles contam, cantam e recitam
o “ABC”, típico folheto de poesia popular e são notáveis improvisadores. Têm
público certo e interessado, principalmente quando há desafio de viola. Enfim,
a feira daqui é algo inesquecível e maravilhoso.
Outra coisa que hei observado é o gosto que tem o povo pela
música popular regional e pelo canto. Todo mundo, até parece exagero, sabe
tocar um instrumento musical ou cantar. O folclore é riquíssimo.
Estou satisfeita com tudo. Aprendi a gostar do Vale do São Francisco,
de suas belezas naturais, e de seu povo meio orgulhoso e valente.
Creio que o mesmo aconteceria com o senhor, pois tem
sensibilidade para sentir as coisas.’
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No mesmo jornal O REPÓRTER, Uberlândia-MG, 24 de junho de
1963, encontramos esse artigo do próprio Gastão:
“REVOLVENDO O SERTÃO NORDESTINO
Antigamente era difícil para um nordestino falar sobre a sua
região, sem tocar nas chagas do Polígono, na miséria dos mocambos do Recife, no
analfabetismo dos camponeses, e nas constantes migrações dos paus-de-arara para
o sul.
Hoje, os problemas da seca, dos mocambos, do analfabetismo,
do pau de arara migrador, ainda existem e estão sendo enfrentados dentro das
reais possibilidades do país. São problemas graves e difíceis, mas não são
insolúveis.
Desde que aqui cheguei, tenho escrito sobre o Nordeste.
Escrito sobre o progresso das suas cidades sertanejas, progresso palpável e que
pode ser reconhecido até pelo viajante menos atento e observador.
Há uma revolução em marcha no sertão nordestino. Uma mudança
radical no rápido do seu povo. A hidroelétrica de Paulo Afonso está ampliando o
seu campo de ação. O São Francisco deixou de ser via de navegação apenas, e
está subindo as serras, a fim de ser utilizado nas residências, bem comportado
e perfeitamente encanado.
As prefeituras estão calçando ruas, praças e surgem galerias
de águas pluviais. Outras obras estão sendo realizadas. A saúde do povo vem
melhorando. Cuida-se do setor educacional. Modifica-se a mentalidade de todos.
Um exemplo: Pão de Açúcar, cidade agropecuária, quer
industrializar-se. Os seus munícipes, tendo à frente o seu prefeito, Sr.
Ronalso dos Anjos, vereadores como o Sr. José Amaral, estão entusiasmados com
as conquistas da cidade e só pensam em progredir mais.
O progresso em forma de luz elétrica, em forma de água
encanada, em forma de alfabetização, está revolvendo tudo. Nenhuma cidade
nordestina deseja ficar atrás; ficar no antigo marco de não fazer nada. O que
aconteceu com a nossa querida Uberlândia, verdadeira cidade dínamo, cidade
progressista, entusiasma hoje o sertão e o sertanejo do nordeste.
Poderia citar outros exemplos. Dizer alguma coisa sobre o fim
da enxada e sua substituição pelos arados manuais; sobre a grande e notável
bacia leiteira do Jacaré dos Homens, de seu gado holandês-zebu; sobre o que vem
realizando o DNOCS, o DNER e a SUDENE.
Em outra ocasião, talvez escreva sobre tais assuntos e, ao
mesmo tempo, a respeito dos cursos de alfabetização radiofônica e audiovisual,
de aprendizagem em 48 horas.”
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| Pão de Açúcar nos anos 1960,. Ao fundo, à esquerda a casa de esquina onde morou o casal Gastão e Eneida. |
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NOTA
Caro
leitor,
Deste
Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de
informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita
pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência
bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse
para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior
proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a
citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
O professor Eurico Silva era professor do Colégio Estadual de Uberlândia. Filho
do Cel. Virgílio Augusto de Souza e Silva e Maria Salomé Vieira, nasceu em
Botelhos, Minas Gerais, em 27 de setembro de 1894 e faleceu Poços de Caldas-MG,
em 27 de julho de 1973.
[ii]
É o autor da obra "Aspectos da Presença do Negro no Triângulo Mineiro /
Alto Paranaíba: Kalunga", publicada em 1994.
[iii] Gazeta
de Notícias, RJ, 6 de agosto de 1942.
[iv]
Amoipiras. Os amoipiras eram um povo indígena brasileiro pertencente ao tronco
Tupi-Guarani, descendentes dos tupinambás, que habitavam a região do médio rio
São Francisco, principalmente na margem esquerda, no atual estado da Bahia,
durante o século XVI. Parece-nos, portanto, um equívoco a citação dos mesmos
como habitantes do baixo S. Francisco.
[v]
Lacerdinha é o nome popular do inseto Gynaikothrips ficorum, da ordem dos
tisanópteros. São minúsculos, alongados e geralmente pretos; muito comum em
árvores do gênero Ficus (como o fícus-benjamina). São atraídos por roupas
claras (especialmente amarelas) e entram nos olhos das pessoas, causando
intensa ardência e coceira. O nome popular é uma associação ao político Carlos
Lacerda, conhecido por sua postura polêmica, combativa e por irritar
profundamente os seus adversários políticos.


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