Por Etevaldo Amorim
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| A canoa de do Sr. Janjão, embarcando em Piranhas, AL. Foto cedida por Marcos Mendonça |
Tal
como os peixes que, em um esforço de sobrevivência, desafiam as correntes e
sobem o rio na época da piracema para gerar nova vida, o Rio São Francisco foi
testemunha de um movimento semelhante de preservação e expansão cultural.
Homens obstinados promoveram a subida de embarcações do Baixo para o Alto São
Francisco — transpondo as cachoeiras — para disseminar a arte da navegação a
vela onde antes reinavam as pesadas barcas a vara.
Em
nosso artigo “MESTRE MINERVINO E A CANOA SERGIPANA”, publicado neste Blog em 18
de maio de 2019, tratamos da introdução da canoa de tolda chamada “Sergipana”,
no submédio São Francisco, na região de Juazeiro, Estado da Bahia.
A
sua construção, em Santa Maria da Vitória, pelo Mestre Minervino Tavares Amorim[i]
(meu tio avô) sob encomenda de Manoel Vieira da Rocha[ii],
levou sete meses, sendo concluída no dia 18 de dezembro de 1944, culminando com
a sua chegada triunfal a Juazeiro, no dia 3 de janeiro de 1945.
Entretanto,
pesquisas recentes nos mostram que outros já haviam se aventurado na difícil
tarefa de levar ao curso superior do rio as embarcações e o modo de navegar do
Baixo São Francisco.
No
jornal pão-de-açucarense O TRABALHO, de 17 de janeiro de 1885, há essa notícia
(replicada no Jornal do Recife, de 28 de fevereiro de 1885):
“Regressou
de sua viagem ao Alto S. Francisco o nosso digno patrício Sr. Joaquim Alves
Carneiro[iii].
Moço
trabalhador a toda prova, o Sr. Carneiro, vencendo dificuldades bem sérias,
transportou duas canoas grandes pela ferrovia de Paulo Afonso e com toda a
felicidade percorreu trezentas e tantas léguas, rio acima, entranhando-se pela
província de Minas Gerais.
Foi
o Sr. Carneiro um dos primeiros que estreou a navegação de canoas a velas no
Alto São Francisco, pelo que recebeu manifestações muito jubilosas daqueles
habitantes, na sua maior parte tratáveis e hospitaleiros.
O
sistema da nossa navegação propagada no Alto S. Francisco pelo Sr. Carneiro e
outros, tem sido motivo de grande contentamento para aqueles povos, vendo o
lindo panorama que oferece as nossas canoas com velas soltas, sistema muito
diferente da penosa navegação de grosseiras barcas empurradas a varas.
Nós
felicitamos ao nosso amigo Sr. Joaquim Carneiro pelo seu feliz regresso.”
Note-se
que não há menção expressa ao termo “canoa de tolda”, mas “canoa
grande”, embora se tratasse do mesmo tipo de embarcação dotada de tolda na
proa.
Esse canoeiro pão-de-açucarense,
tendo subido 300 léguas pelo Rio
São Francisco a partir de Jatobá-PE (cerca de 1.800 quilômetros), teria
alcançado a Cachoeira de Pirapora, localizada no estado de Minas Gerais.
As referências mais antigas
tratavam apenas de Alto São Francisco e Baixo São Francisco. A transição da
antiga divisão (em apenas dois trechos) para a atual classificação em quatro
regiões fisiográficas (Alto, Médio, Sub-médio e Baixo) consolidou-se em meados
do século XX. O marco definitivo ocorreu com a criação da Comissão do Vale do
São Francisco (CVSF) em 1948 e, posteriormente, com a fundação da SUVALE (1967)
e da CODEVASF (1974).
A delimitação das quatro
regiões fisiográficas do Rio São Francisco é estabelecida por marcos
geográficos e municípios específicos:
O Alto São Francisco vai da
nascente, na Serra da Canastra, em São Roque de Minas (MG), até a cidade de
Pirapora (MG). O Médio São Francisco estende-se de Pirapora (MG) até Remanso
(BA), compreendendo o trecho mais longo e plano do rio. Já o Sub-médio São
Francisco começa em Remanso (BA) e desce até Piranhas (AL), englobando o
reservatório de Sobradinho e a zona de grandes cachoeiras históricas. Finalmente,
o Baixo São Francisco compreende o trecho entre Piranhas (AL) e a foz, no
Oceano Atlântico, entre Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande (SE).
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Nessa mesma época, encontramos
evidências (senão provas) de que esse movimento de transportar canoas para o
Alto São Francisco era incentivado pelo próprio Governo. Uma nota do jornal O
TRABALHO, que se publicava em Pão de Açúcar, em edição do dia 7 de fevereiro de
1885, revela essa iniciativa do Diretor da Estrada de Ferro Paulo Afonso
(Piranhas-Jatobá):
“FERROVIA DE PAULO AFONSO.
Autorizados pelo digno diretor
da Ferrovia de Paulo Afonso, Sr. Dr. Luiz da Nóbrega[iv],
declaramos ao público que Sua Senhoria mandará transportar, gratuitamente, de
Piranhas a Jatobá, as dez primeiras canoas que se apresentarem para serem
lançadas nas águas do Alto S. Francisco.
O Sr. Dr. Nóbrega, no louvável
empenho de promover e executar todos os meios úteis para o engrandecimento da
Estrada de Ferro Paulo Afonso, de dia-a-dia vai apresentando uma medida útil e
digna de louvor.
Reiteramos por mais esta vez
os nossos justos elogios ao Diretor da Paulo Afonso.”
Tal
iniciativa, portanto, fazia todo sentido, uma vez que a principal motivação
para a implantação da EFPA foi a integração entre o Baixo e o Alto São
Francisco.
Tanto que o Relatório com que
o governador do Estado das Alagoas, Coronel Pedro Paulino da Fonseca, passou a
administração ao 1º Vice-Governador Dr. Roberto Calheiros de Mello, em 25 de
outubro de 1890, já registrava:
“A ferrovia de Paulo Afonso,
entregue ao tráfego público em 1883, com parte em território alagoano (de
Piranhas ao Moxotó) e parte em território pernambucano (de Moxotó a Jatobá),
medindo 116 km de extensão, até esta data tem sido de pouca utilidade para este
Estado, visto o seu tráfego, presentemente insignificante, depender na
navegação do Alto São Francisco, na parte encachoeirada de Jatobá a Juazeiro,
cuja desobstrução morosamente está sendo feita por uma comissão do Governo
Federal.”
E prossegue:
“No futuro, essa estrada será
de grande vantagem para as Alagoas, visto que, com o Alto São Francisco
navegando regularmente, a cidade do Penedo tornar-se-á o empório das transações
feitas em todo o curso do rio abaixo da cidade de Juazeiro.”
O
governo Imperial também empreendeu esforços nesse sentido, como registra essa notícia
publicada no jornal Orbe, de Maceió, em 21 de dezembro de 1884:
"Dos
melhoramentos efetuados no alto s. Francisco já se conseguiu manter ali entre
Juazeiro, Januária e Jatobá uma navegação por meio de 12 canoas grandes. São
louváveis os esforços empregados pela comissão de engenheiros encarregada desse
trabalho."
Trata-se
da Comissão de Melhoramentos do Rio São Francisco (criada pelo governo imperial
em 1883 e ativa até 1896). Sob a liderança inicial do engenheiro-chefe Antônio
Plácido Peixoto do Amarante, o grupo tinha como principal propósito executar
obras de engenharia hidráulica e desobstrução fluvial para viabilizar a
navegabilidade comercial do "Alto" São Francisco.
Esse
transporte de canoas para o trecho alto do rio perdurou até o final da década
de 1960. Temos na lembrança que, por volta de 1967/1968, aconteceu o traslado
da grande canoa Cruzeiro do Sul, de propriedade do Sr. Ronalço dos Anjos, desta
feita não mais através dos trilhos da ferrovia de Piranhas, que já encerrara
suas atividades, mas por via terrestre.
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E
assim se cumpriu uma importante fase da navegação a vela no curso superior do
rio São Francisco. Sobre os trilhos da ferrovia em 1885 ou nascendo pelas mãos
habilidosas do Mestre Minervino em 1944, cada uma dessas embarcações cumpriu o
seu papel nesse ciclo econômico. Como os peixes da piracema, elas suplantaram
barreiras geográficas e abriram suas velas sobre o rio, deixando uma marca
notável na paisagem, na cultura e na história da navegação do nosso Rio São
Francisco.
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| Canoas de tolda no porto de Barreiras-BA, margem direita do Rio Grande. Foto: Site Canoa de Tolda. |
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NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos
repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado
de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente
referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu
interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o
maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e
a citação das referências. Isso é correto e justo.
[i]
Minervino Tavares Amorim, natural de Limoeiro (Município de Pão de Açúcar-AL).
Nasceu no dia 5 de abril de 1894, filho de Pedro José de Amorim e de Maria das
Dores Lima de Amorim. Casado com Maria Verdulina de Amorim (Dona Vida), com
quem teve os filhos: Agenor, José, Pedro, Álisson, Nayr e Creuza.
[ii]
Manoel Vieira da Rocha, conhecido por “Nozinho Rocha”, comerciante e
industrial, proprietário da fábrica São José, de beneficiamento de arroz em
Propriá, Estado de Sergipe. Fonte: Cadastro Comercial, Industrial, Agrícola e Informativo
do Estado de Sergipe – 1933. Manoel Vieira Rocha nasceu em Amparo do São
Francisco., filho de Maximino Vieira da Rocha e Edentina Maria da Rocha. Casado
com Alice Motta de Santana.
[iii]
Joaquim Alves Carneiro era filho de José Alves Carneiro e Benedicta Maria Alves
Carneiro. Em 1898, ele ainda residia em Pão de Açúcar. Posteriormente, passou a
morar na cidade da Barra, Estado da Bahia, casado com Ângela Archanja Oliveira
com quem teve uma filha chamada Anna Archanja Oliveira.
[iv]
Engenheiro Luiz Felipe Alves da Nóbrega. Nomeado para dirigir a ferrovia em
1883 e exonerado em 1886. Filho de Joaquim do Nascimento Alves da Nóbrega e
Maria Francisca Pereira da Nóbrega. Casado com a americana Jennie Elizabeth
Kibbe. Faleceu em 1º de agosto de 1908, em Petrópolis-RJ.


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