Por Etevaldo Amorim
Na esquina da Avenida Bráulio Cavalcante com a Rua Dr.
Luiz Machado, com a fachada voltada para o sul, está localizado o prédio-sede
da Prefeitura Municipal de Pão de Açúcar.
É possível que ali mesmo já viesse funcionando o Poder
Executivo Municipal, mas a aquisição do imóvel e a reforma foram empreendidas
pelo intendente Cel. Manoel Antônio Machado (pai do Sr. Augusto Machado), sendo
inaugurada a nova sede em 7 de janeiro de 1916.
Interessante notar que, na Mensagem com que encaminhou
ao Conselho Municipal o Projeto de Lei Orçamentária para o Exercício de 1914, o
intendente já anunciava:
“Não menos esforços empregarei a fim de conseguir a
aquisição por compra de um prédio onde possam funcionar, com a decência
compatível com os recursos do Município, a Intendência e o Conselho Municipal.
Raro é hoje, no Estado de Alagoas, o Município que não
possui um próprio para aquele fim, só o nosso, por um descaso injustificável de
seus passados administradores, esqueceu até aqui de prover essa grande e
iniludível necessidade.
Conto, pois, com o vosso apoio e auxílio para dotar o
Município com esse melhoramento, na consecução do qual ponho o maior empenho de
minha administração.”
Com efeito, a LEI Nº 60, de 18 de novembro de 1913,
que “Orça a Receita e fixa a Despesa do município de Pão de Açúcar para o
Exercício de 1914, já preconizava, em seu:
“Art. 6º Fica o intendente autorizado:
...
§ 4º A adquirir um prédio, onde possam funcionar a
Intendência e o Conselho Municipal, precedendo acordo da maioria do Conselho.”
Assim, para o fiel cumprimento do dispositivo legal, o
procedimento administrativo foi autorizado pelo Conselho Municipal, que fazia
as vezes de Câmara de Vereadores, publicado em 25 de março de 1914, com o
seguinte teor:
“EDITAL Nº 72 - LEI Nº 62
O Conselho Municipal de Pão de Açúcar decreta o
seguinte:
Art. 1º Fica o intendente do Município autorizado a
desapropriar por utilidade municipal o prédio sito à Avenida Bráulio
Cavalcante, antiga Rua Visconde do Rio Branco[i],
nº 56, com dezoito portas em duas frentes, em que o mesmo município já possui
metade, mediante prévia indenização na forma estabelecida por Lei do Estado.
Art. 2º Pelo mesmo motivo fica o intendente autorizado
a desapropriar a casa contígua ao prédio acima mencionado, com uma porta e uma
janela, de propriedade do cidadão Pedro Pereira Simas, precedendo ainda a
indenização na forma estabelecida por Lei.
Art. 3º Revogam-se as disposições em contrário.
Sala das Sessões do Conselho Municipal de Pão de
Açúcar, 24 de março de 1914.
José Venustiniano Cavalcante, Presidente; Dr. Luiz
Machado de Andrade; Manoel Soares de Campos; João Pereira de Mello; Aprígio
Antônio de Carvalho.
Secretaria da Intendência Municipal de Pão de Açúcar,
25 de março de 1914.
J. Evangelista – Secretário.”
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Note-se que a desapropriação do prédio deveria ser
feita conforme a Lei Estadual. Essa legislação era a própria Constituição do
Estado de Alagoas (de 11 de junho de 1891), que espelhava a Constituição
Federal promulgada em 24 de fevereiro de 1891. O dispositivo central dizia:
“O direito de propriedade conserva-se em toda a sua
plenitude, salvando-se a desapropriação por necessidade ou utilidade pública,
mediante prévia indenização.”
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| A nova sede da Intendência adquirida e reformada pelo Cel. Manoel Antônio Machado. Foto: João Lisboa, tratada por IA. |
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| A nova sede da Intendência vista por outro ângulo. Foto: João Lisboa, acervo de sua filha Suely Lisboa, tratada por IA. |
Essas e outras ações empreendidas no seu período administrativo demonstram a disposição do intendente Cel. Manoel Antônio Machado em fazer cumprir o que prometera na referida Mensagem:
“Na distribuição das despesas procurarei afastar-me
daquele fatal regime de filhotismo, de tão longa prática neste Município e tão
contrário aos interesses da comunidade para, de preferência, cuidar dos
melhoramentos indispensáveis e inadiáveis de que havemos mister.”
Com uma Despesa orçada em 9:686$000 (Nove Contos,
Seiscentos e Oitenta e Seis Mil Réis) para o Exercício de 1914, o Orçamento
registrava 180$000 (Cento e oitenta mil réis) de gastos com aluguel da casa do
Conselho; 96$000 (Noventa e seis mil réis) para Aluguel da casa da Intendência,
e reservava 2:000$000 (Dois milhões de réis, ou Dois Contos de Réis) para
aquisição de um prédio para o Conselho.
Efetivamente, o prédio passou a abrigar, não só a
Intendência (depois Prefeitura), mas o Conselho Municipal (depois Câmara de
Vereadores), esta, na parte posterior, com acesso pela Rua Dr. Luiz Machado, onde
também se realizavam as Sessões do Júri.
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| A sala onde se realizavam as sessões do júri. Foto: Diário de Pernambuco, 1934, melhorada por IA> |
Na foto acima, podemos ver o ambiente organizado para
esse fim. Ao centro, destaca-se um guarda-corpo circular feito de madeira
trabalhada (balaústres), que delimita o espaço reservado aos operadores do
direito (magistrados, jurados, acusação e defesa), isolando a área técnica da
assistência e do público comum.
Nota-se uma mesa principal ao fundo com cadeiras
imponentes destinadas à presidência dos trabalhos (magistratura) e assentos
laterais reservados ao Conselho de Sentença (o júri).
À frente desse conjunto, centralizada em primeiro
plano sobre um pequeno estrado, vê-se uma cadeira isolada voltada para o
tribunal, que servia para posicionar o réu ou as testemunhas de maneira que
ficassem plenamente visíveis a todos os participantes do julgamento.
Ao fundo, fixada na parede em posição de destaque, a
imagem de um santo, provavelmente Santo Ivo, o padroeiro do direito e da
justiça, de presença frequente nos tribunais daquela época.
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| O prédio da Prefeitura em 1970 em solenidade de hasteamento da bandeira, na gestão do prefeito Dr. Pascoal. |
A Biblioteca Pública Rachel de Queiróz igualmente
funcionou na sala contígua, do lado nascente.
O edifício permaneceu com suas características originais até a gestão do prefeito Eraldo Lacet Cruz (1977-1982), quando as duas portas centrais foram substituídas por uma única porta larga e de vidro. Além disso, a base das janelas foi elevada, deixando-as mais altas.
As sessões do Júri passaram para o prédio central da
antiga SUVALE, na Praça Dr. José Cloves de Andrade, no Forum Dr. Ariston
Padilha.
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| O prédio da Prefeitura após a reforma do prefeito Eraldo Cruz, 1977/78. Foto: IBGE. |
Finalmente, no segundo semestre de 1992, a Câmara e o
Forum passaram ao novo prédio construído na gestão do prefeito Elísio Sávio
Maia, no local onde funcionou por muitos anos o Açougue Público, aliás,
construído pelo mesmo intendente Cel. Manoel Antônio Machado.
O Prédio Sede do Executivo Municipal só viria a ter
nova reforma em 2001, na gestão do prefeito Jorge Silva Dantas, mantendo-se a
fachada, mas adaptando a área interna com divisórias, formando salas para
diversos setores. Depois disso, em 2019, na administração do prefeito Flávio
Almeida da Silva Junior.
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| Placa de inauguração da reforma durante a gestão do prefeito Jorge Dantas, 2001. Foto: Joelma Mártires. |
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| Placa de inauguração da reforma na gestão do prefeito Flávio Almeida da Silva Jr. Foto: Joelma Mártires. |
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| A Prefeitura Municipal em foto recente. |
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As duas fotografias mais antigas, de autoria de João
Damasceno Lisboa, não são da época da aquisição e reforma (1916), mas feitas
durante a primeira gestão do prefeito Augusto Machado (09/06/1932 – 14/09/1934).
Ele imprimiu a Lei Orçamentária da época de seu pai, em que constam as
referidas fotos.
Prova disso é a presença de um poste de iluminação pública serviço cuja implantação teve início apenas em 1926.
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| O Intendente Cel. Manoel Antônio Machado. |
NOTA:
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA
E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes.
Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta
documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão,
solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer
trabalho, delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas que faça também
o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e
justo.
[i]
José Maria da Silva Paranhos, Visconde do Rio Brando (1819–1880). foi uma das
figuras políticas, diplomáticas e intelectuais mais importantes do Império do
Brasil. É pai do Barão do Rio Branco, de mesmo nome, o “pai da diplomacia
brasileira” e o responsável por consolidar as fronteiras modernas do Brasil.









Nossa cidade está, aos poucos, perdendo seu belo visual arquitetônico com as constantes mudanças nas fachada de suas centenárias edificações. LAMENTÁVEL
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