segunda-feira, outubro 26

HISTÓRIA DO PRÉDIO-SEDE DA PREFEITURA DE PÃO DE AÇÚCAR

 

Por Etevaldo Amorim


Na esquina da Avenida Bráulio Cavalcante com a Rua Dr. Luiz Machado, com a fachada voltada para o sul, está localizado o prédio-sede da Prefeitura Municipal de Pão de Açúcar.


É possível que ali mesmo já viesse funcionando o Poder Executivo Municipal, mas a aquisição do imóvel e a reforma foram empreendidas pelo intendente Cel. Manoel Antônio Machado (pai do Sr. Augusto Machado), sendo inaugurada a nova sede em 7 de janeiro de 1916.


Interessante notar que, na Mensagem com que encaminhou ao Conselho Municipal o Projeto de Lei Orçamentária para o Exercício de 1914, o intendente já anunciava:


“Não menos esforços empregarei a fim de conseguir a aquisição por compra de um prédio onde possam funcionar, com a decência compatível com os recursos do Município, a Intendência e o Conselho Municipal.


Raro é hoje, no Estado de Alagoas, o Município que não possui um próprio para aquele fim, só o nosso, por um descaso injustificável de seus passados administradores, esqueceu até aqui de prover essa grande e iniludível necessidade.


Conto, pois, com o vosso apoio e auxílio para dotar o Município com esse melhoramento, na consecução do qual ponho o maior empenho de minha administração.”


Com efeito, a LEI Nº 60, de 18 de novembro de 1913, que “Orça a Receita e fixa a Despesa do município de Pão de Açúcar para o Exercício de 1914, já preconizava, em seu:


“Art. 6º Fica o intendente autorizado:

...

§ 4º A adquirir um prédio, onde possam funcionar a Intendência e o Conselho Municipal, precedendo acordo da maioria do Conselho.”

 

Assim, para o fiel cumprimento do dispositivo legal, o procedimento administrativo foi autorizado pelo Conselho Municipal, que fazia as vezes de Câmara de Vereadores, publicado em 25 de março de 1914, com o seguinte teor:


“EDITAL Nº 72 - LEI Nº 62


O Conselho Municipal de Pão de Açúcar decreta o seguinte:


Art. 1º Fica o intendente do Município autorizado a desapropriar por utilidade municipal o prédio sito à Avenida Bráulio Cavalcante, antiga Rua Visconde do Rio Branco[i], nº 56, com dezoito portas em duas frentes, em que o mesmo município já possui metade, mediante prévia indenização na forma estabelecida por Lei do Estado.


Art. 2º Pelo mesmo motivo fica o intendente autorizado a desapropriar a casa contígua ao prédio acima mencionado, com uma porta e uma janela, de propriedade do cidadão Pedro Pereira Simas, precedendo ainda a indenização na forma estabelecida por Lei.


Art. 3º Revogam-se as disposições em contrário.


Sala das Sessões do Conselho Municipal de Pão de Açúcar, 24 de março de 1914.


José Venustiniano Cavalcante, Presidente; Dr. Luiz Machado de Andrade; Manoel Soares de Campos; João Pereira de Mello; Aprígio Antônio de Carvalho.


Secretaria da Intendência Municipal de Pão de Açúcar, 25 de março de 1914.


J. Evangelista – Secretário.”

___


Note-se que a desapropriação do prédio deveria ser feita conforme a Lei Estadual. Essa legislação era a própria Constituição do Estado de Alagoas (de 11 de junho de 1891), que espelhava a Constituição Federal promulgada em 24 de fevereiro de 1891. O dispositivo central dizia:


“O direito de propriedade conserva-se em toda a sua plenitude, salvando-se a desapropriação por necessidade ou utilidade pública, mediante prévia indenização.”

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A nova sede da Intendência adquirida e reformada pelo Cel. Manoel Antônio Machado. Foto: João Lisboa, tratada por IA.


A nova sede da Intendência vista por outro ângulo. Foto: João Lisboa, acervo de sua filha Suely Lisboa, tratada por IA.

Essas e outras ações empreendidas no seu período administrativo demonstram a disposição do intendente Cel. Manoel Antônio Machado em fazer cumprir o que prometera na referida Mensagem:


“Na distribuição das despesas procurarei afastar-me daquele fatal regime de filhotismo, de tão longa prática neste Município e tão contrário aos interesses da comunidade para, de preferência, cuidar dos melhoramentos indispensáveis e inadiáveis de que havemos mister.”


Com uma Despesa orçada em 9:686$000 (Nove Contos, Seiscentos e Oitenta e Seis Mil Réis) para o Exercício de 1914, o Orçamento registrava 180$000 (Cento e oitenta mil réis) de gastos com aluguel da casa do Conselho; 96$000 (Noventa e seis mil réis) para Aluguel da casa da Intendência, e reservava 2:000$000 (Dois milhões de réis, ou Dois Contos de Réis) para aquisição de um prédio para o Conselho.


Efetivamente, o prédio passou a abrigar, não só a Intendência (depois Prefeitura), mas o Conselho Municipal (depois Câmara de Vereadores), esta, na parte posterior, com acesso pela Rua Dr. Luiz Machado, onde também se realizavam as Sessões do Júri.


A sala onde se realizavam as sessões do júri. Foto: Diário de Pernambuco, 1934, melhorada por IA>


Na foto acima, podemos ver o ambiente organizado para esse fim. Ao centro, destaca-se um guarda-corpo circular feito de madeira trabalhada (balaústres), que delimita o espaço reservado aos operadores do direito (magistrados, jurados, acusação e defesa), isolando a área técnica da assistência e do público comum.


Nota-se uma mesa principal ao fundo com cadeiras imponentes destinadas à presidência dos trabalhos (magistratura) e assentos laterais reservados ao Conselho de Sentença (o júri).


À frente desse conjunto, centralizada em primeiro plano sobre um pequeno estrado, vê-se uma cadeira isolada voltada para o tribunal, que servia para posicionar o réu ou as testemunhas de maneira que ficassem plenamente visíveis a todos os participantes do julgamento.


Ao fundo, fixada na parede em posição de destaque, a imagem de um santo, provavelmente Santo Ivo, o padroeiro do direito e da justiça, de presença frequente nos tribunais daquela época.


O prédio da Prefeitura em 1970 em solenidade de hasteamento da bandeira, na gestão do prefeito Dr. Pascoal.


A Biblioteca Pública Rachel de Queiróz igualmente funcionou na sala contígua, do lado nascente.


O edifício permaneceu com suas características originais até a gestão do prefeito Eraldo Lacet Cruz (1977-1982), quando as duas portas centrais foram substituídas por uma única porta larga e de vidro. Além disso, a base das janelas foi elevada, deixando-as mais altas.


As sessões do Júri passaram para o prédio central da antiga SUVALE, na Praça Dr. José Cloves de Andrade, no Forum Dr. Ariston Padilha.


O prédio da Prefeitura após a reforma do prefeito Eraldo Cruz, 1977/78. Foto: IBGE.


Finalmente, no segundo semestre de 1992, a Câmara e o Forum passaram ao novo prédio construído na gestão do prefeito Elísio Sávio Maia, no local onde funcionou por muitos anos o Açougue Público, aliás, construído pelo mesmo intendente Cel. Manoel Antônio Machado.


O Prédio Sede do Executivo Municipal só viria a ter nova reforma em 2001, na gestão do prefeito Jorge Silva Dantas, mantendo-se a fachada, mas adaptando a área interna com divisórias, formando salas para diversos setores. Depois disso, em 2019, na administração do prefeito Flávio Almeida da Silva Junior.


Placa de inauguração da reforma durante a gestão do prefeito Jorge Dantas, 2001. Foto: Joelma Mártires.

Placa de inauguração da reforma na gestão do prefeito Flávio Almeida da Silva Jr. Foto: Joelma Mártires.


A Prefeitura Municipal em foto recente.


______


As duas fotografias mais antigas, de autoria de João Damasceno Lisboa, não são da época da aquisição e reforma (1916), mas feitas durante a primeira gestão do prefeito Augusto Machado (09/06/1932 – 14/09/1934). Ele imprimiu a Lei Orçamentária da época de seu pai, em que constam as referidas fotos.


Prova disso é a presença de um poste de iluminação pública serviço cuja implantação teve início apenas em 1926.


O Intendente Cel. Manoel Antônio Machado.
 ______


NOTA:


Caro leitor,


Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas que faça também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] José Maria da Silva Paranhos, Visconde do Rio Brando (1819–1880). foi uma das figuras políticas, diplomáticas e intelectuais mais importantes do Império do Brasil. É pai do Barão do Rio Branco, de mesmo nome, o “pai da diplomacia brasileira” e o responsável por consolidar as fronteiras modernas do Brasil.

Um comentário:

  1. Nossa cidade está, aos poucos, perdendo seu belo visual arquitetônico com as constantes mudanças nas fachada de suas centenárias edificações. LAMENTÁVEL

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia