sábado, setembro 5

JOSÉ AMARAL, UM EMPREENDEDOR

Por Etevaldo Amorim

José Moura Amaral nasceu em Maruim, Estado de Sergipe, no dia 30 de janeiro de 1926. Filho mais velho de Nilo Amaral, também natural de Maruim, e de Odete Moura Amaral, nascida em Nossa Senhora das Dores, foi levado por estes para residir em Aracaju quando ainda tinha três anos de idade.
Na capital sergipana, iniciou como funcionário público estadual, no cargo de Operador, na Rádio Educativa, PRJ-6.
Chegou a Pão de Açúcar em 1949. No ano seguinte, instalou o famoso Bar e Sorveteria Rex, a famosa Galeria Rex, no ponto central da cidade, onde hoje se localiza a Casa da Construção. Para não depender da energia elétrica do precário sistema existente, instalou um gerador próprio, que lhe permitia iluminar também as esquinas adjacentes. Foi ele quem instalou a primeira lâmpada fluorescente em Pão de Açúcar.
Em 25 de setembro de 1938, foi inaugurado o Cine Teatro Pax, ex-Cine Teatro Moderno, que durante muito tempo foi propriedade da CEIL, Companhia de Energia Elétrica, de Joaquim Rezende e seu sócio Lauro Veiga. Quando José Amaral chegou, em 1949, o velho projetor estava quebrado e ele, que também entendia muito dessas coisas, foi logo contratado para consertá-lo, o que acabou por fixa-lo na cidade, tornando-se sócio naquele empreendimento. Tempos depois, esse cinema foi adquirido por Jurandir Gomes e passou a se chamar Cine Teatro Palace, passando depois à propriedade do Sr. Elísio Maia.
Mais tarde, em 16 de junho de 1963, em prédio adaptado, na rua Cel. Manoel Antônio Machado, 195, ele inaugura o CINE GLOBO. Algum tempo depois, o Sr. Nozinho Andrade lhe ofereceu o prédio onde se acha agora a Loja Mobilhar. Amaral construiu a marquise, adaptou o piso, enfim, criou as condições para um cinema de verdade.
O Cine Globo, de Amaral, mudou de nome quando passou a ser propriedade de Augusto César Andrade Cruz, hoje renomado radialista, empresário e agropecuarista.
Em novembro de 1953, organiza o Serviço de Autofalante denominado Departamento Publicitário Jaciobá, que fez o maior sucesso. Localizado na Av. Bráulio Cavalcante, retransmitia o noticiário da rádio Tupy, com as mais importantes notícias do Brasil e do mundo. Foi por ele, por exemplo, que os pão-de-açucarenses ficaram sabendo do suicídio do Presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, poucas horas depois do trágico acontecimento. Sua potência era tal, que chegava a ser ouvido, sobretudo à noite, até no povoado Ilha do Ferro. E com tal nitidez que as pessoas se davam ao luxo de mandar recados para os moradores de lá, na voz possante do locutor Raimundo dos Anjos, filho de D. Otília, do Caboclo.
Do seu casamento com Dona Iolanda, teve os filhos Célia, Murilo, Antônio, Mozart, Volney, Ilma, José e Diná.
De outro relacionamento, teve mais seis filhos: Reinaldo, Jâmisson, Aldo, Jakson, Leila e Lílian.
José Amaral atuou também na política, tendo sido eleito Vereador em 1961. Por duas vezes foi candidato a Vice-Prefeito pela UDN (União Democrática Nacional), em 1959, na Chapa do Sr. Ródio Machado Gonçalves, e em 1965, na do Sr. Jurandir Gomes. Naquela época, o Vice era votado nominalmente e Amaral quase vence o candidato de “seu” Elísio.
Foi ainda professor de Mecanografia, na Escola Técnica de Comércio de Pão de Açúcar.
 _____________
Extraído do livro Terra do Sol – Espelho da Lua, de Etevaldo Amorim, Ecos Gráfica e Editora, Maceió, 2004.

José Amaral, ainda nos tempos da Rádio Educativa, em Aracaju. (foto cedida pelo próprio, em 2004)

José Moura Amaral, professor em Pão de Açúcar. (foto Quadro de Formatura do Curso de Comércio)

segunda-feira, agosto 17

SONHO DE AMOR

Bráulio Cavalcante

Sonho terno de amor, grata Esperança,
de meu verso azorraga a dor em treva.
Da saudade letal, aguda lança
não mais leve meu peito e, ao pó, me leva...

— Canaan deste amor, alguém te alcança?
— Esta prece que eu digo, que se eleva
pelo céu triste, azul pode em bonança...
me da gozos que, enfim, cantar eu dera?

Como herói de nova Argos, pelo meio
desta rota, num mar que, irado, atroa,
— nos lendários tesouros também creio,

— se, consolo dá minhas grandes mágoas,
a Esperança do amor me fala boa
com o rugido dos ventos e das águas!


____________
Extraído do O Evolucionista, Maceió, 2 de junho de 1906.
Disponível em www.bn.br.


segunda-feira, agosto 3

AMOR EXTINTO

Bráulio Cavalcante

Agora Dulce vai tão descuidada
Do nosso amor de outrora que maldigo
O modo de permanecer comigo
O amor de que ela não se lembra nada! ...

Ai! Não recorda tanto afeto! Cada
Noite de enlevo e noite de perigo
Quando, num gesto carinhoso, amigo,
Eu lhe beijava a boca perfumada! ...

Isso não mais quer renovar agora
Quando mais forte esta paixão já sinto,
Quando a saudade mais tenaz devora

Este meu pobre coração! Pois, bem;
Se quer que fique o nosso amor extinto,
Certo não mais eu hei de amar ninguém!

____________
Extraído do Diário de Pernambuco, 28 de novembro de 1907, p. 2.

Disponível em www.bn.br.

sábado, julho 25

TURMA DE QUÍMICA HOMENAGEIA FREITAS MACHADO

Os formandos de Química (Licenciatura) 2011.2 da Faculdade Integrada São Vicente, de Pão de Açúcar, que concluíram o Curso no início do corrente mês, homenagearam um dos mais ilustres pão-de-açucarenses, denominando-a TURMA JOSÉ DE FREITAS MACHADO. A justa homenagem foi de iniciativa dos concluintes: Antônio Guimarães Neto Ana Nunes Silva, Ana Célia Alves da Silva, Alayne de Oliveira Correia, , Cristiano Paulo da Silva, Cremilda Mariane de Brito Biriba, Deise Cristine Alves, Emanuely Brito dos Santos, Eliana Ribeiro Castanho, Eleazer Barbosa de Farias, Grinauria Carolina Rodrigues Almeida, Jascia Kaline dos Santos, José Albeckcy Santos Oliveira, João José de Oliveira Couto, João Paulo Correia Silva, Marcos Henrick Lima Silva, Mary Hewety Oliveira Santos e Nakielda Barros Santos.
______________
No seio de uma das famílias mais tradicionais da região sanfranciscana, nasceu José de Freitas Machado, a 27 de setembro de 1881, terceiro filho do casal Miguel de Freitas Machado e Cândida Delfina Andrade Machado.
Conheceu as primeiras letras em sua terra natal. Por volta de 1888, em que se presume ter se iniciado, lecionavam nas cadeiras de Pão de Açúcar as professoras Angélica Rosa da Silva Pita e Anna Leitão de Jesus, das quais provavelmente foi aluno.
Para continuar os estudos, foi para o Recife, onde ingressou no Colégio Salesiano, chegando a iniciar o curso de Engenharia, logo interrompido.
Nessa curta passagem pela capital pernambucana, integrou, como Tesoureiro, a diretoria da Sociedade Literária Casemiro de Abreu, eleita em 6 de agosto de 1899 para o ano literário 1899/1900.
Em dezembro de 1900 fez os Exames de Preparatórios no Recife, no Ginásio Pernambucano, sendo APROVADO PLENAMENTE em Inglês e APROVADO SIMPLESMENTE em Geografia. Tais exames eram prestados pelos alunos que pleiteavam acesso aos cursos superiores e tinham como finalidade preparar os jovens para o ingresso nas academias, tudo com base no Decreto Nº 2.173, de 21 de novembro de 1895, ―numa época em que não havia curso secundário com modelo definido em número de séries, plano de estudos, sistemas de aulas e exames para todos os estabelecimentos provinciais e particularesNo dia 1ª de maio de 1901, a bordo do vapor nacional Fortaleza, segue para a Bahia.
No ano seguinte, aos vinte anos, iniciava o Curso de Farmácia, anexo da Faculdade de Medicina da Bahia, que então tinha três anos de duração. No ano seguinte, aos vinte anos, iniciava o Curso de Farmácia, anexo da Faculdade de Medicina da Bahia, que então tinha três anos de duração.
De volta a Pão de Açúcar, principia sua atividade profissional da melhor maneira possível, estabelecendo-se no seu ramo de competência, a exemplo do irmão, que começa a clinicar em sua residência como especialista em febres e moléstias das vias urinárias. Surge, assim, a ―Farmácia Machado.
Decide mudar-se para a Capital Federal. Iniciou sua carreira como químico no antigo Laboratório Municipal de Análise do Rio de Janeiro. Foi professor de Química Inorgânica e Analítica da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária. Publicou, em 1917, o artigo “Façamos Químicos”, em que exorta os poderes públicos a criarem uma escola superior para o ensino da Química no País. Em 1922, participou de um curso de especialização na Universidade de Sorbone, em Paris, em que teve a oportunidade de receber preciosos ensinamentos de Madame Curie. Nessa mesma viagem à Europa, recebe a incumbência de estudar a organização das Escolas de Química Industrial na França e na Itália.
Em 1933, foi um dos fundadores da Escola Nacional de Química, sendo o seu primeiro Diretor.

Faleceu no Rio de Janeiro a 30 de abril de 1955.



sexta-feira, julho 24

VENDO A JANELA

Bráulio Cavalcante

Eis a janela, a pobre testemunha
Dos meus loucos amores, a janela
Onde inspirado o coração depunha
Para que os lesses, lírica donzela!

Não mais as liras de ouro que eu compunha
Quando ficava no postigo dela!
Mão que abriu-a mil vezes, mal rascunha
A quadra que o tristor revela!

Ah! Grata janelinha onde, frementes,
Na confusão dos meus cinco sentidos,
Tive beijos e versos em torrentes...

Beijos longos, amor, versos de tua
Carne cheirosa, versos atrevidos
De rima franca, escandalosa e nua!

______
Publicada no Diário de Pernambuco, 31 de outubro de 1907.

Fonte: www.bn.br.
Bráulio Cavalcante

domingo, julho 5

MIGUEL DE NOVAES MELLO

Por Etevaldo Amorim 

Miguel de Novaes Mello, que viria a ser o primeiro Prefeito (Intendente) de Pão de Açúcar, nasceu em 1851, filho do Major João Machado de Novaes Mello (o Barão de Piaçabuçu) e de Maria José Leite de Novaes Mello . Foi batizado na capela de Pão de Açúcar, em 10 de maio de 1851, aos três meses de idade, pelo padre Antônio José Firmino de Novaes. Curioso é que, no registro transcrito em 1868, na freguesia de Traipu, consta MIGUEL JERÔNIMO DE NOVAES MELLO.
Casou-se com Rosa de Albuquerque, filha do Coronel Serapião Rodrigues de Albuquerque, de Traipu. O casal teve as filhas: Maria José de Albuquerque Novaes, Anita de Albuquerque Novaes e Noêmia de Albuquerque Novaes.
Em 15 de abril de 1875, já residindo em Maceió, na Praça das Princesas (atual Deodoro), assume, como sócio fundador, o cargo de Vice-Presidente da Sociedade Club Literário.
Em 1879, a bordo do vapor Mundahú, desembarca no Recife para cursar o primeiro ano da faculdade.
Em 1880, faz parte do Club Literário do Segundo Ano, tendo oportunidade de discorrer sobre os principais temas em discussão na época, como “Se o Senado deve ser temporal ou vitalício”, que lhe coube, por sorteio, em Sessão do dia 26 de maio. Naquele ano, após receber a notícia do trágico falecimento do seu irmão Antônio Ferreira de Novaes, ocorrido em 17 de julho, embarca no vapor Ceará e segue para Pão de Açúcar.
A propósito das exéquias, organizada por uma Comissão de amigos, faz publicar nas páginas do Diário de Pernambuco, a seguinte nota:

“Meus amigos, em nome do meu velho e caro pai, em nome da minha família, eu vos agradeço os sentimentos de pesar que vos acabrunharam ao receber da desastrada morte do meu inditoso irmão Antônio Ferreira de Novaes Melo, e os solenes sufrágios que, por sua alma, hoje mandastes celebrar. De há muito era admirador da grande amizade que tributáveis a ele, no qual víeis, senão uma esperança da Pátria, ao menos de sua Província. A prova cabal disto acabastes de dar, já derramando doridas lágrimas sobre seu túmulo, honrando assim sua memória, já enviando cordiais pêsames a minha família, principalmente a meu velho pai, que não cessa de dizer: “Não sei se é vida, me é preferível a morte. ” Crede que vossa gratidão é eterna.
Amigo grato, Miguel de Novaes. Recife, 17 de agosto de 1880. ”

Em 1881, lecionou Língua Nacional no Colégio Isabel, no Recife. Em 1882, foi eleito Deputado Estadual pelo 5º Distrito (que envolvia Pão de Açúcar).
Em 30 de novembro de 1883, recebe do Grau de Bacharel pela Faculdade do Recife.
Como prova do seu grande prestígio na sociedade pernambucana, temos a publicação de notícia do Jornal do Recife, edição de 4 de dezembro de 1883:

“Havendo terminado seus estudos em nossa Faculdade de Direito, e sendo-lhe conferido anteontem o respectivo Grau, segue amanhã no vapor brasileiro para Alagoas, o ilustre Dr. Miguel Novaes. Caráter sincero e probidoso, deixa nesta Capital amigos verdadeiros e dedicados. Durante sua estada entre nós, deu provas da sua esmerada educação, sendo sempre merecedor das maiores atenções de todos aqueles que tinham ocasião de entreter com ele relações. Ainda no seu 3º ano acadêmico, foi eleito membro da Assembleia Provincial das Alagoas e, na tribuna, revelou os dotes de sua esclarecida inteligência, prestando relevantíssimos serviços à Província. Que bons ventos o levem a seu destino e a felicidade o acompanhe sempre, são os nossos mais ardentes votos. Ao terminar estas linhas ditadas pelo merecimento do Dr. Miguel Novaes, não podemos deixar de dirigir nossos sinceros parabéns ao venerando coronel João Machado de Novaes Mello, digno pai do ilustre doutor, e cujas elevadas virtudes e honradez folgamos também aqui consignar. 3 de dezembro de 1883.”

Em 1885, por Decreto de 13 de outubro, foi nomeado Juiz Municipal em Traipu e, em 1888, quando ali chegou a notícia da Abolição da Escravidão.
Em 1897, deixa Viçosa para assumir o Cargo de Desembargador, mas reassume a Comarca em 3 de julho de 1897.
Em 4 de julho de 1889, o jornal São Francisco, publicado em Propriá, Província de Sergipe, noticia que o Dr. Miguel renunciava ao cargo de Juiz Municipal de Traipu e Belo Monte para se candidatar ao cargo de Deputado Geral (equivalente a Deputado Federal) pelo 5º Distrito. Já o A Imprensa, de Teresina (PI), informa que ele estaria sendo lançado pelo Partido Conservador, que pensava, assim, ter o apoio do Major João Machado, Chefe do Partido Liberal em Pão de Açúcar. Com efeito, concorreu com penedense Theóphilo Fernandes dos Santos, obtendo 27 votos, contra 121 do seu oponente. Vale lembrar que apenas os cidadãos abastados, grandes proprietários tinham direito a voto.
Pelo Decreto nº 1, de 21 de janeiro de 1890, foram extintas as Câmaras Municipais. Assim, o Governador do Estado, Pedro Paulino da Fonseca, resolveu nomear cidadãos para constituírem os Conselhos de Intendência. Em Pão de Açúcar, ficou assim constituído Poder Local:

Intendente: Dr. Miguel de Novaes Mello; e Membros do Conselho: José da Silva Maia, Luiz José da Silva Mello , Seraphim Soares Pinto e Manoel de Souza Rego. Em 1891, a composição do Conselho já se alterava para José da Silva Maia, Henrique Salathiel Canuto, Antônio Damasceno Ribeiro e João Vieira Lisboa, permanecendo o Dr. Miguel como Intendente. Curioso é que, no livro Pão de Açúcar, História e Efemérides, do competente historiador pão-de-açucarense Aldemar de Mendonça, está registrado o seu período administrativo como sendo de 02/09/1892 a 31/07/1894.
Em 1892, foi nomeado Juiz de Direito de Pão de Açúcar/Santana do Ipanema.
Em 1895, já estava na Comarca de Murici. Em 10 de setembro de 1896 foi nomeado Titular da Comarca de Viçosa, em permuta com o Dr. Luiz de França Castro Barroca, tomando posse a 9 de novembro, ali permanecendo até 28 de Junho de 1900. Em junho de 1900, foi removido para Penedo, em permuta com o Dr. Hervécio de Carvalho Guimarães. Ali faleceu aos 50 anos de idade, em 30 de maio de 1901.
O jornal A Notícia, do Rio de Janeiro, em sua edição de 20 de junho de 1901, transcrevendo o Gutenberg, diz:

“... o finado era um belo caráter, servido por uma inteligência bastante cultivada, e que a morte desse ilustre cidadão vem abrir um grande claro na magistratura alagoana, que por muito tempo há de sentir a falta que lhe faz o integérrimo Juiz, sempre sereno e reto no desempenho da sua árdua e nobilíssima missão”.
Informa também que, tanto o Senado como a Câmara dos Deputados de Alagoas, fizeram inserir, nas respectivas Atas de seus trabalhos, votos de pesar pelo seu falecimento.

Segundo o escritor Aldemar de Mendonça, este garoto seria, possivelmente, o Dr. Miguel de Novaes Mello.

Cap. Seraphim Soares Pinto

Cel. João Vieira Lisboa

Cel. José da Silva Maia (Cazuza Maia)

Cel. Luiz José da Silva Mello


_____________
Publicado originalmente no Site www.historiadealagoas.com.br, organizado pelo pão-de-açucarense Edberto Ticinaeli Pinto.




segunda-feira, junho 29

SANTA CRUZ DO DESERTO (2)


Por Etevaldo Amorim

Em 19 de setembro de 2014, publicamos um texto do Jornal do Penedo, edição de 25 de janeiro de 1879, em que se tem a origem do povoado Santa Cruz do Deserto, município de Mata Grande.
Agora, vasculhando as páginas do Diário de Pernambuco, encontrei nova referência àquela importante localidade, desta feita envolvendo um conterrâneo pão-de-açucarense, o Monselhor José de Freitas Machado, que durante muitos anos foi Secretário do Arcebispado de Olinda, e o Frei Venâncio Maria di Ferrara, missionário capuchinho (1822-1906).
Vejamos o que está na edição de 26 de outubro de 1887, p. 2, daquele importante periódico pernambucano:

SANTA MISSÃO. Escreveram-nos de Paulo Afonso, no 1º do corrente.

“O Revmº Frei Venâncio Maria de Ferrara, missionário capuchinho, tem prestado relevantes serviços e diversos lugares e ultimamente nesta freguesia.
Tendo vindo dos Olhos d’Água, do Termo de Piranhas, em agosto último, para o povoado - Espírito Santo – da freguesia de Tacaratu, com o fim de fazer ali um cemitério, como fez em poucos dias, teve que passar pela Venerável Santa Cruz do Deserto, nesta freguesia, distante desta Vila três léguas, onde existe de muitos anos um considerável número de relíquias, que atestam o grande número de doentes que milagrosamente de hão curado de graves enfermidades; razão porque foi erigida, há muito tempo, naquele lugar, uma capelinha, a qual foi de novo começada pelo Juiz de Direito desta Comarca Dr. Antônio Cardoso de Oliveira Guimarães.
De volta do Espírito Santo, o Revmº Frei Venâncio, em companhia do digno vigário desta freguesia, Padre José de Freitas Machado, e mais pessoas, demorou-se naquele lugar (Santa Cruz do Deserto) e ali permaneceu em Missão desde 25 de agosto até 15 de setembro, havendo sempre grande concorrência de povo que ia aumentando extraordinariamente de dia a dia, calculando-se nos últimos dias número superior a seis mil pessoas.
Durante a Santa Missão, houve para mais de cinquenta casamentos, mais de mil comunhões e deu-se considerável andamento ao serviço da igreja, deixando o virtuoso missionário, ao retirar-se, a quantia de 190$000 em mão do digno vigário Machado, e grande quantidade de material reunido.
Depois da retirada do incansável missionário, o vigário Machado, não menos diligente, tem conseguido continuar o serviço da dita igreja, com desejo de deixa-la ao menos coberta e fechada com portas, no que vai sendo auxiliado pelos bons católicos desta freguesia, além do que de seu bolso tem despendido.
São sempre benéficos os efeitos da nossa santa e verdadeira Religião Católica Apostólica Romana que, há 19 séculos, tem sido combatida, mas nunca vencida.
O Revmº Frei Venâncio deixou seu nome gravado no coração dos povos, por suas virtudes e maneiras afáveis, tanto assim que o digno missionário na hora de sua partida não pode conter as lágrimas, assaz comovido, tal foi a pena, o choro, com que o povo em massa dele se despediu.
Fazemos votos para que o virtuoso missionário volte em breve para esta freguesia. ”


Monsenhor Freitas, à época Vigário de Paulo Afonso, atual Mata Grande.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

PUBLICAÇÕES
Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia