Júlia Lopes de Almeida[i]
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| Imagem criada por IA para ilustrar este conto de Júlia Lopes de Almeida. |
No dia em que entrei para o colégio, em março de 1845, disse
o velho Dr. Henrique a seu neto Jorge, presenciei uma cena de que jamais me
esquecerei.
Frequentava eu uma escola em Maceió, onde nasci. Como chovesse,
éramos poucos na aula. Sentia-me à vontade porque, graças aos desvelos de minha
mãe, eu já sabia ler alguma coisa e contar menos mal.
Eram doze horas e escrevíamos todos o nosso bastardo[ii]
em cadernos ou lousas quando, sentindo rumor de passos, erguemos o olhar com
curiosidade. Era um soldado que entrava com um pequeno raquítico pela mão.
Queria matriculá-lo e, enquanto o mestre lhe escrevia o nome, a idade e a
filiação no registro da escola, o soldado anediava[iii]
os cabelos negros e encaracolados do filho.
Concluídos os apontamentos, o soldado disse:
“Senhor professor, há poucos dias que eu abracei meu filho;
quase que o não conhecia, e explico-lhe isto para que o senhor compreenda a
minha intenção.
Quando parti para o Rio Grande do Sul, deixei aqui no Norte
minha mulher doente e meu filho com dois meses apenas.
“Eu era um simples soldado raso e ela, que não tinha recursos
e era fraca, passou grandes privações. Por isso o menino não se desenvolveu.
“Só depois de acabada essa maldita guerra[iv]
foi que voltei para casa, esperando ter a consolação de encontrar nela um rapaz
forte, belo, alegre e desembaraçado, capaz de, mais tarde, empunhar a minha
espada e defender a honra da nossa pátria com a valentia e o denodo de um
verdadeiro soldado.
“Tive uma desilusão amarga quando deparei com meu filho, com
estes ombros contrafeitos e este rostinho murcho de criança criada sem sangue
nem alegria.”
O soldado parou, com a voz embargada pela dor; o rapazinho,
humilhado, tinha os olhos cheios de lágrimas, as faces rubras de pejo e via-se
que, sob a roupinha parda que vestia, todo o seu miserável corpo de aleijado
estremecia numa angústia dolorosíssima.
O professor então disse alto, como se falasse a todos nós:
- Não é só com a espada que se pode elevar o nome da Pátria!
As artes, as ciências, as indústrias, a agricultura, são mais belos e mais
vastos campos de batalha, onde nos fica muitas vezes o coração a bem da terra
que nos foi berço. Na História, fulguram com mais límpido brilho nomes de
poetas que de generais. A glória de um povo não está em ser guerreiro, nem
saber matar; mas exatamente em saber evitar a guerra, sempre com brio, ordem,
amor ao trabalho, e consciência do seu valor. Ninguém teme afrontas quando
tenha a justiça do seu lado! Vá tranquilo; trabalharei para que seu filho seja
um digno cidadão desta terra, que é nossa e que todos amamos!”
Não sei porque espontâneo sentimento, como se se visse
reabilitado do vexame por que tinha passado, o corcundinha beijou calorosamente
as mãos do mestre e depois, voltando-se para nós, ergueu bem alto os seus
braços longos e finos, e gritou com força, transfigurado e lindo:
Viva o Brasil!
Viva! Respondemos todos nós de pé, compreendendo por instinto
que dentro daquele corpo mesquinho e doente palpitava uma alma forte, capaz dos
sentimentos que mais enobrecem o homem e que melhor fazem progredir a terra que
o viu nascer!
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Transcrito de A GAZETA-Edição infantil, São Paulo, 21 de
agosto de 1930. Do livro HISTÓRIAS DA NOSSA TERRA, ALMEIDA, Júlia Lopes de.
Livraria Francisco Alves, 1911.
Publicamos a propósito das comemorações da Independência do Brasil
____
NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E
LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes.
Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta
documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão,
solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer
trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo
também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é
correto e justo.
[i] Júlia Valentina da Silveira Lopes de Almeida foi uma escritora, cronista, teatróloga e abolicionista brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro em 24 de setembro de 1862 e ali faleceu em 30 de maio de 1934. Júlia Lopes de Almeida foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras (ABL), participando das primeiras reuniões e constando da lista inicial de fundadores. No entanto, ela foi excluída da lista final por ser mulher, e a cadeira para a qual foi cotada acabou sendo ocupada pelo seu marido, Filinto de Almeida. O seu nome foi incluído na primeira lista extraoficial de 40 "imortais" elaborada por Lúcio de Mendonça. Como a ABL seguia o modelo da Académie Française, que não aceitava mulheres na época, a escritora foi excluída da lista oficial em 1897. Em seu lugar, a cadeira número 3 foi concedida ao seu marido, o jornalista e poeta Filinto de Almeida. A injustiça foi reconhecida pela própria ABL. Em 2018, durante a posse de Joaquim Falcão, a academia homenageou Júlia Lopes de Almeida como uma das cofundadoras, corrigindo o apagamento histórico.
[ii] Refere-se a exercício de um estilo de escrita cursiva para melhorar a caligrafia, conforme era ensinado nas aulas de "primeiras letras" do século XIX.
[iii] Tentava tornar nédio, liso o cabelo do menino.
[iv]
Guerra dos Farrapos, também conhecida como Revolução Farroupilha, que durou de
1835 a 1845. O conflito foi encerrado com o Tratado de Poncho Verde, assinado
em 1º de março de 1845, que estabeleceu a paz entre os farrapos e o Império
brasileiro.

Viva a pátria, viva o Brasil, viva o denodo e o desvelo do povo brasileiro pela terra do gigante Brasil!
ResponderExcluirQue belo e singelo texto! Pergunto-me por quantas mãos de anônimos, ou quase isso, nossa Pátria foi forjada? Decerto somos muitas nações, diversos povos vivendo e sobrevivendo em um vasto e vigoroso território, alimentado por esperançosos que com muita resiliência, procuram insistentemente propiciar dias melhores a todos nós. Viva o Brasil e um viva à nossa impagável liberdade!
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