segunda-feira, setembro 7

AMOR DA PÁTRIA

 

Júlia Lopes de Almeida[i]

 

Imagem criada por IA para ilustrar este conto de Júlia Lopes de Almeida.


No dia em que entrei para o colégio, em março de 1845, disse o velho Dr. Henrique a seu neto Jorge, presenciei uma cena de que jamais me esquecerei.


Frequentava eu uma escola em Maceió, onde nasci. Como chovesse, éramos poucos na aula. Sentia-me à vontade porque, graças aos desvelos de minha mãe, eu já sabia ler alguma coisa e contar menos mal.


Eram doze horas e escrevíamos todos o nosso bastardo[ii] em cadernos ou lousas quando, sentindo rumor de passos, erguemos o olhar com curiosidade. Era um soldado que entrava com um pequeno raquítico pela mão. Queria matriculá-lo e, enquanto o mestre lhe escrevia o nome, a idade e a filiação no registro da escola, o soldado anediava[iii] os cabelos negros e encaracolados do filho.


Concluídos os apontamentos, o soldado disse:


“Senhor professor, há poucos dias que eu abracei meu filho; quase que o não conhecia, e explico-lhe isto para que o senhor compreenda a minha intenção.


Quando parti para o Rio Grande do Sul, deixei aqui no Norte minha mulher doente e meu filho com dois meses apenas.


“Eu era um simples soldado raso e ela, que não tinha recursos e era fraca, passou grandes privações. Por isso o menino não se desenvolveu.


“Só depois de acabada essa maldita guerra[iv] foi que voltei para casa, esperando ter a consolação de encontrar nela um rapaz forte, belo, alegre e desembaraçado, capaz de, mais tarde, empunhar a minha espada e defender a honra da nossa pátria com a valentia e o denodo de um verdadeiro soldado.


“Tive uma desilusão amarga quando deparei com meu filho, com estes ombros contrafeitos e este rostinho murcho de criança criada sem sangue nem alegria.”


O soldado parou, com a voz embargada pela dor; o rapazinho, humilhado, tinha os olhos cheios de lágrimas, as faces rubras de pejo e via-se que, sob a roupinha parda que vestia, todo o seu miserável corpo de aleijado estremecia numa angústia dolorosíssima.


O professor então disse alto, como se falasse a todos nós:


- Não é só com a espada que se pode elevar o nome da Pátria! As artes, as ciências, as indústrias, a agricultura, são mais belos e mais vastos campos de batalha, onde nos fica muitas vezes o coração a bem da terra que nos foi berço. Na História, fulguram com mais límpido brilho nomes de poetas que de generais. A glória de um povo não está em ser guerreiro, nem saber matar; mas exatamente em saber evitar a guerra, sempre com brio, ordem, amor ao trabalho, e consciência do seu valor. Ninguém teme afrontas quando tenha a justiça do seu lado! Vá tranquilo; trabalharei para que seu filho seja um digno cidadão desta terra, que é nossa e que todos amamos!”


Não sei porque espontâneo sentimento, como se se visse reabilitado do vexame por que tinha passado, o corcundinha beijou calorosamente as mãos do mestre e depois, voltando-se para nós, ergueu bem alto os seus braços longos e finos, e gritou com força, transfigurado e lindo:


Viva o Brasil!


Viva! Respondemos todos nós de pé, compreendendo por instinto que dentro daquele corpo mesquinho e doente palpitava uma alma forte, capaz dos sentimentos que mais enobrecem o homem e que melhor fazem progredir a terra que o viu nascer!


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Transcrito de A GAZETA-Edição infantil, São Paulo, 21 de agosto de 1930. Do livro HISTÓRIAS DA NOSSA TERRA, ALMEIDA, Júlia Lopes de. Livraria Francisco Alves, 1911.

Publicamos a propósito das comemorações da Independência do Brasil

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NOTA


Caro leitor,


Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Júlia Valentina da Silveira Lopes de Almeida foi uma escritora, cronista, teatróloga e abolicionista brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro em 24 de setembro de 1862 e ali faleceu em 30 de maio de 1934. Júlia Lopes de Almeida foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras (ABL), participando das primeiras reuniões e constando da lista inicial de fundadores. No entanto, ela foi excluída da lista final por ser mulher, e a cadeira para a qual foi cotada acabou sendo ocupada pelo seu marido, Filinto de Almeida. O seu nome foi incluído na primeira lista extraoficial de 40 "imortais" elaborada por Lúcio de Mendonça. Como a ABL seguia o modelo da Académie Française, que não aceitava mulheres na época, a escritora foi excluída da lista oficial em 1897. Em seu lugar, a cadeira número 3 foi concedida ao seu marido, o jornalista e poeta Filinto de Almeida. A injustiça foi reconhecida pela própria ABL. Em 2018, durante a posse de Joaquim Falcão, a academia homenageou Júlia Lopes de Almeida como uma das cofundadoras, corrigindo o apagamento histórico.

[ii]  Refere-se a exercício de um estilo de escrita cursiva para melhorar a caligrafia, conforme era ensinado nas aulas de "primeiras letras" do século XIX.

[iii] Tentava tornar nédio, liso o cabelo do menino.

[iv] Guerra dos Farrapos, também conhecida como Revolução Farroupilha, que durou de 1835 a 1845. O conflito foi encerrado com o Tratado de Poncho Verde, assinado em 1º de março de 1845, que estabeleceu a paz entre os farrapos e o Império brasileiro.

3 comentários:

  1. Viva a pátria, viva o Brasil, viva o denodo e o desvelo do povo brasileiro pela terra do gigante Brasil!

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  2. Que belo e singelo texto! Pergunto-me por quantas mãos de anônimos, ou quase isso, nossa Pátria foi forjada? Decerto somos muitas nações, diversos povos vivendo e sobrevivendo em um vasto e vigoroso território, alimentado por esperançosos que com muita resiliência, procuram insistentemente propiciar dias melhores a todos nós. Viva o Brasil e um viva à nossa impagável liberdade!

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  3. Texto belíssimo. Li recentemente o conto "Os porcos" da mesma autora, que levanta muitas discussões/provocações interessantes. Não lembro se já havia lido algo de sua pena. Mas me surpreendeu como uma mulher, naquele período de nossa história conseguia publicar aquele texto. Depois já li outros escritos dela.

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia