quarta-feira, março 10

BRÁULIO CAVALCANTE

Há exatos noventa e oito anos, falecia em Maceió o pão-de-açucarense Bráulio Cavalcante.
Em meio à intensa agitação política de oposição ao Governador Euclides Malta, enquanto participava de uma manifestação em prol da candidatura do General Clodoaldo da Fonseca, foi assassinado em frente ao Palácio do Governo, na Praça dos Martírios.
Recém formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade do Recife, e a quatro dias de completar vinte e cinco anos, tinha uma vida promissora, ele que ainda tão jovem já era poeta, dramaturgo, romancista e jornalista.
Seu nome está imortalizado em Pão de Açúcar, onde dá nome à principal avenida da cidade e, em Maceió, com a Praça Bráulio Cavalcante, mais conhecida como Praça do Montepio.




terça-feira, março 2

SALVE 3 DE MARÇO!!!! 156 ANOS DA EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DE PÃO DE AÇÚCAR

A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DE PÃO DE AÇÚCAR - UM ATO DO CONSELHEIRO SARAIVA


Entre 20 de outubro de 1853 e 26 de abril de 1854, presidiu a Província de Alagoas o Conselheiro José Antônio Saraiva. Este notável político e estadista brasileiro, nascido em Bom Jardim, município de Santo Amaro (BA), em 1º de maio de 1823, foi quase tudo neste país.

Em 1845, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo. Já em 1849 era eleito membro da Assembléia da Bahia e, em 1850, foi nomeado por D. Pedro II para presidir a Província do Piauí. Ali, sob forte oposição, transferiu a capital da Província de Oeiras para Teresina, que recebera o nome em homenagem à Imperatriz Tereza Cristina.

Em 1852, foi eleito Deputado, sendo em seguida nomeado Presidente da Província de Alagoas e, depois, de São Paulo e Pernambuco. Foi Ministro em várias Pastas do Império: Marinha, Negócios Estrangeiros, Fazenda, Guerra e Presidente do Conselho de Ministros, de 1881 a 1885, quando fez aprovar o Projeto de Lei que instituía as eleições diretas, que ficou conhecida como “Lei Saraiva” ou “Lei do Censo”.

Deixou ainda outro Projeto que o notabilizaria: o que tornava livres os escravos com mais de sessenta anos de idade. Este Projeto acabou por ser aprovado já no Governo de seu sucessor, o Barão de Cotegipe, em 28 de setembro de 1885, passando a ser conhecida por “Lei Saraiva-Cotegipe”.

Sendo homem de confiança de D. Pedro II, retirou-se para a Bahia após a proclamação da República. Foi ainda eleito Senador para o Congresso Constituinte – 1890/1891 mas, doente e frustrado com os rumos políticos do País, renunciou e permaneceu em Salvador até morrer, em 21 de julho de 1895.

Poucos dias antes de deixar a Província de Alagoas, assina, em 3 de março de 1854, a Lei Nº 233, conferindo a Pão de Açúcar a condição de Vila, emancipando-a da Vila de Mata Grande, circunscrita a uma vastíssima área de 2.195,2 km².

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Fonte: TERRA DO SOL ESPELHO DA LUA, de Etevaldo Amorim.



LEI Nº 233 DE 3 DE MARÇO DE 1854.

Art. 1º Ficam creadas duas novas comarcas nesta província, uma denominada Comarca de Imperatriz e outra Comarca de Matta-Grande, que terão por sedes as villas dos mesmos nomes, comprehendendo a primeira os termos da Imperatriz e Assembléia e a segunda os da freguezia de Pão de Assúcar e villa da Matta-Grande.

Art. 2º A povoação de Pão de Assúcar fica elevada à cathegoria de Villa, com a mesma denominação, tendo por limites os da respectiva freguezia.

Art. 3º Ficam revogadas quaesquer leis e desposições em contrário.


José Antônio Saraiva
PRESIDENTE


Nesta Secretaria foi publicada a presente Lei em 4 de março de 1854.
José Alexandrino Dias de Moura


Conselheiro JOSÉ ANTÔNIO SARAIVA

domingo, janeiro 17

CEM ANOS DO FUTEBOL EM PÃO DE AÇÚCAR

No Brasil e em muitos outros países o Futebol é o esporte mais praticado, mais popular e, cada vez mais, um interessante negócio que movimenta milhões de dólares.
A sua chegada em solo brasileiro se deu através de estudantes brasileiros na Europa. No caso de São Paulo, por Charles Miller; no Rio de Janeiro, por Oscar Cox; na Bahia, por José Ferreira Filho e, em Pernambuco, em fins do ano de 1903, pelas mãos de Guilherme de Aquino Fonseca, pernambucano que estudava na Inglaterra.
Segundo o cronista esportivo Givanildo Alves (um alagoano de Rio Largo radicado em Recife), coube ainda a Guilherme de Aquino Fonseca fundar o Sport Club do Recife, em 13 de maio de 1905, que abraçou o novo esporte, diferentemente do seu rival Clube Náutico Capibaribe, que recusara os seus apelos alegando que o Náutico “era destinado exclusivamente à prática de esportes aquáticos e que, além disso, o futebol não era esporte e sim troca de pontapés”.
Alguns anos depois, em 1909, o novo Presidente Ernesto Pereira Carneiro, “para não ver mais os rapazes do Náutico misturados aos do Sport, treinando futebol na Campina do Derby, como os jornais vinham noticiando quase todos os dias, resolveu introduzir o futebol no Náutico.” – Givanildo Alves, em História do futebol em Pernambuco.
Ainda naquele mesmo ano, no dia 24 de julho, aconteceu o primeiro jogo entre Náutico e Sport, no British Club, em que este perdeu por 3 x 1, segundo relata Givanildo Alves, enquanto transcreve a notícia do Jornal Pequeno:

“Os forwards do Sport Club ontem estavam infelizes nos seus passes, dando isso motivo a que a bola sempre caísse em poder dos half-backers do Náutico”, acrescentando ainda: “há muito aqui no Recife não tínhamos o prazer de assistir a uma festa tão concorrida e que pela sua própria natureza entusiasmasse tanto os espectadores. Decididamente, o futebol é um grande diplomata!”

Em Alagoas, segundo Lauteney Perdigão - conhecido pesquisador e profundo conhecedor das coisas do esporte, o futebol teria chegado “no ano de 1908, trazido pelos filhos de famílias poderosas que estudavam o curso superior na capital pernambucana; entre eles estavam o próprio varão do quase vitalício governador Euclides Malta.” – (Douglas Apratto Tenório – A Metamorfose das Oligarquias).
Em Pão de Açúcar tudo indica que aconteceu da mesmíssima forma. A capital pernambucana experimentava o futebol, recém apresentado pelo estudante Guilherme. Além disso, muitos ingleses ali residiam e estimulavam a sua prática. Filhos das famílias mais abastadas de Pão de Açúcar estudavam em Recife.
Esta notinha social, inserta na página 3 da edição de 19 de dezembro de 1909 do jornal A IDÉIA, nos leva a crer que a introdução do futebol em Pão de Açúcar tenha se dado através desses estudantes. Senão vejamos:

“Viajantes
Do Recife chegou no dia 14 o Dr. Luiz Machado, trazendo em sua companhia os esperançosos estudantes:
Augusto de F. Machado, Luiz de F. Machado, Júlio Evangelista, Antônio Alves Feitosa, Antônio de F. Machado, José Alves Feitosa e Júlio de Freitas Machado.”

Provavelmente em gozo de férias, é de se supor que esses jovens – entre catorze e dezesseis anos, logo iniciaram ou incentivaram a prática futebolística nas nossas várzeas ou nas nossas coroas, ou mesmo no meio da rua (quem sabe na nossa hoje conhecida Avenida Bráulio Cavalcante, na época desprovida de qualquer urbanização), já que, na edição de 23 de janeiro de 1910, o mesmo semanário noticia:

“FOOT BALL
Louvamos a idéia de alguns moços pão-de-açucarenses terem organizado um “Sport Club”, pois é mais um passo que damos para o progresso material de nossa terra.
Entretanto, lamentamos a falta de união que existe entre estes jovens, pois já consta que, levados pelo orgulho, cada um quer ser o primeiro.
Desejamos que olvidem-se essas diminutas discrepâncias e o “Sport Club” tenha uma vida duradoura.”

Note-se que o nome da nova agremiação era exatamente igual à do Recife: “SPORT CLUB”, numa clara reprodução da idéia concebida na capital de Pernambuco.
Tal era o entusiasmo que, no Carnaval daquele ano, a novidade foi a presença dos rapazes do Futebol. Aproveitando a popularidade da festa, os adeptos do novo esporte fizeram uma boa divulgação, desfilando pelas ruas da cidade, conforme noticiou a imprensa local:

“O foot-ball club merece especial atenção pela originalidade que patenteou. De frack e cartola, marchava a dois de fundo, músicos a retaguarda e, num recolhimento profundo, cantava de vez em quando e litanias plangentes de sabor rigorosamente fúnebre.”
Ao aparecerem na rua, muitas pessoas se levantaram de chapéu na mão, aguardando, respeitosas, a passagem dos restos de algum infeliz patrício. Alguns oficiosos, então, encarregavam-se de avisar que aquilo era o foot-ball club.
Deram a nota os rapazes do foot-ball.”
(A IDÉIA, 13 de fevereiro de 1910)

Apenas para reforçar a nossa premissa, lembramos que, em 1930, ocorreu a fundação de outro famoso clube de futebol em Pão de Açúcar: o Ypiranga Esporte Clube, cuja Diretoria assim se compunha: Júlio de Freitas Machado (Presidente), Antônio de Freitas Machado (Vice-Presidente), José Mendes Guimarães-“Zequinha Guimarães” (Diretor Esportivo), Odilon Pires de Carvalho (Tesoureiro), Antônio Tavares (Secretário), Lauro Marques de Albuquerque (Orador Oficial) e Odilon Rodrigues (encarregado do material esportivo e do campo) – Gervásio Francisco dos Santos, UM LUGAR NO PASSADO.
Lá estavam os outrora estudantes (Júlio e Antônio), ainda empenhados na consolidação do futebol em sua terra natal.
Nesses cem anos, muito progrediu esse esporte, principalmente após o surgimento, na década de 1960, dos dois maiores Clubes: Jaciobá Atlético Clube e Centro Sportivo Internacional, revelando craques e dividindo a cidade em disputas ferrenhas e apaixonadas
Na edição de 4 de abril de 1972, o jornal O CLARIM, pelo seu colunista esportivo José Alves da Silva (Zé Papaió), num trabalho de pesquisa entre os torcedores, escalou duas seleções pão-de-açucarenses de todos os tempos: a primeira, de 1950 a 1960, tinha a seguinte formação: Roque, Zé Baixo, Chico Preto, Luiz de Vitória, Albertino, Elísio Tri, Geremias, Zé de Ercília, Vavá, Manoel Gustavo e Germínio. A segunda, situada entre 1961 e 1971, formava assim: João Jorge, Deustete, Irineu, Tempero, Murilo, Guri, Carlos, Romeu, Jair, Bobito e Edilson.
Desde então, muitos outros bons jogadores surgiram, atuando pelos dois principais clubes da cidade e, também, em agremiações de outras cidades alagoanas e de outros Estados, como o CRB, CSE de Palmeira dos Indios, Capelense, Ipanema e outros. Foi o caso de Irineu, Berêu, Fernandinho, Cananô, Nei Braga e tantos outros.
Saudemos, então, os pioneiros do “esporte bretão” nas terras de Pão de Açúcar, augurando que a sua prática seja promotora da paz, da união e da fraternidade entre os seus praticantes e torcedores.

CENTRO SPORTIVO INTERNACIONAL
JACIOBÁ ATLÉTICO CLUBE

sexta-feira, novembro 27

DUAS PEQUENAS OPERAÇÕES

(OBSERVAÇÃO DE DOIS CASOS DE AMIGDALOTOMIA COM APLICAÇÃO DE COCAÍNA, pelo Dr. Antônio Militão de Bragança)

Lendo em um dos números da Revista de Medicina, de Paris, a descrição de um caso de amigdalotomia praticada pelo Dr. Millard, no hospital de Beaujon, na qual empregou o ilustre médico a cocaína como anestésico, por minha vez lembrei-me de, oportunamente, estudar e apreciar os efeitos surpreendentes de tão precioso agente terapêutico.
De posse desse alcalóide, proporcionando-me ultimamente a clínica dois doentes afetados de amigdalite crônica, operei a ambos e tive então ocasião de observar os resultados da anestesia cocaínica.
O primeiro operado foi um menino de sete anos de idade, filho do do Sr. Capitão Antônio Luiz da Silva Tavares. A tonsila direita apresentava um volume extraordinário, ocupando quase todo o istmo da garganta. A esquerda estava ligeiramente hipertrofiada.
Fiz, com intervalos de cinco minutos, quatro aplicações com um pincel embebido em uma solução de Cloridrato de Cocaína a 20% em toda a superfície de ambas as amígdalas e, seis minutos depois da última aplicação, a anestesia era completa. Imediatamente pratiquei a secção da tonsila direita, sendo a dor acusada pelo pequeno doente quase nula.
O segundo operado foi um rapaz de quinze anos de idade, filho do Sr. Manoel José d’ Oliveira. Ambas as amígdalas estavam enormemente hipertrofiadas.
Como no caso precedente, fiz as aplicações da mesma solução de Cloridrato de Cocaína. Anestesiadas as hipertrofiadas tonsilas, pratiquei sucessivamente a sua extirpação, não acusando o paciente a menor dor. Em ambos os casos servi-me do amigdalótomo de Loryenne.
A observação do Dr Millard refere-se a uma rapariga de quinze anos de idade, cujas amígdalas estavam hipertrofiadas a tal ponto que se tocavam de cima a baixo, obstruindo completamente o istmo da garganta. Feitas as aplicações da solução anestésica, procedeu o ilustre médico do hospital de Beaujom a amigdalotomia, não demonstrando a doente o menor indício de sofrimento.
Estas observações, feitas em pessoas de sexo e idade diferentes, provam exuberantemente as propriedades analgésicas da cocaína, deixando prever os resultados brilhantes que pode colher a cirurgia com o emprego desse alcalóide em muitas outras operações de garganta.
Brevemente apreciarei a influência anestesiante da cocaína em algumas operações de olhos que tenho de praticar.
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Pão de Açúcar(AL), 28 de setembro de 1885.
(Publicado no jornal O TRABALHO, edição de 3 de outubro de 1885).
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ANTONIO MILITÃO DE BRAGANÇA
Nasceu em 31 de julho de 1860 em Laranjeiras/SE, filho de Dr. Francisco Alberto de Bragança e Possidônia Maria de Santa Cruz .
Formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia em 15 de dezembro de 1883, defendendo a tese “Paralisias Consecutivas às Moléstias Agudas”. Recém formado, vai ao Rio de Janeiro por breve espaço de tempo e volta para Laranjeiras onde monta consultório na rua Direita.
Informado da inexistência de médico em Pão de Açúcar (AL), transfere-se para lá onde permanece por 7 anos naquela cidade ribeirinha. Em 1892 regressa a Laranjeiras.
Em 1898 foi Delegado de Higiene em Laranjeiras. Participa em 1910 da fundação da Sociedade de Medicina de Sergipe.
Em 1911, violento surto de varíola atinge Laranjeiras e quase a despovoa, tal o número dos que fugiram para a Capital, a este tempo melhorada em seus aspectos sanitários e com maiores recursos de atendimento. Dr. Militão de Bragança escreve “A Varíola em Laranjeiras”, trabalho muito rico em detalhes clínicos, epidemiológicos e profiláticos. A pandemia de gripe espanhola arrasa Laranjeiras em 1918, com centena de mortes, conforme o registro dos serviços públicos. Militão de Bragança é infatigável nessa luta.
Urbanizou, com recursos próprios, a primeira praça de Laranjeiras, que recebeu o nome de Dona Possidônia. Praticava também o oftalmologia e dele se conta, sem comprovação, que teria secretamente prestado atendimento médico a Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, retirando-lhe de um dos olhos um graveto que havia penetrado acidentalmente. Progressista e inovador, incluiu-se entre os primeiros a importar gado indiano e introduzi-lo nos rebanhos sergipanos.
Compositor, compôs, entre outras: “Saudades de Philomena” (mazurca), “Minha simpatia” (valsa), “Idealizando” (mazurca). Faleceu aos 89 anos de idade, no dia 27 de março de 1949, em Aracaju. É patrono da cadeira 2 da Academia Sergipana de Medicina.
( by Ac.Lúcio Antonio Prado Dias, da Academia Sergipana de Medicina - 2006)

quinta-feira, novembro 26

SONHO


Foto: Arquivo Roberto Silva(Propriá-SE).
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F. Palmares

É delicioso o luar.
A branca casaria e as torres das igrejas de Propriá destacam-se poeticamente à claridade argentina da deusa da noite. Silenciosa, a cidade formosa contempla o poético rio S. Francisco, o velho Opara, que corre veloz a seus pés, rumo ao Atlântico.
As vagas espumantes e fosforescentes beijam-lhe o curvo e extenso cais. Argentinas e fosforescentes águas, de ardentias fabulosas e vagalumes incandescentes, correndo a princípio pelas brechas profundas das altas serras azuis do alto Sertão; depois, seguindo brilhantes, reverberam ao luar, formando as cascatas sem rival, os lagos transparentes e estreitos canais, por onde passam com maior velocidade, vêm depois de mil voltas, roçar-se neste sinuoso cais.
No porto, uma flotilha de canoas de diversos tamanhos, coloridas, de traquetes derribados e presas as suas amarras em pequenas âncoras de três pontas, balouça-se rangendo as vergas e cavernas, cujos sons formam o que quer que é de rude arpejo de plangente violão dedilhado por hábil tocador.
Sobre os bancos das canoas descansam os seus tripulantes, seminus, prontos a partirem.Por momentos, ouve-se o badalar sonoro, vibrante do sino da velha Matriz a tocar nove horas.
A iluminação dentro das toldas das canoas, passando através das vigias, imprimem n’ água traços luminosos; são as primeiras canoas que partem.
Recolhem-se as amarras e os canoeiros, ao som do rém-rém produzido pela roçagem dos remos nas cavidades das popas, nostálgicos, cantam belas canções que falam d’ amor e evocam o pálido e frio luar.
Das alturas, Diana ilumina a esplêndida paisagem.
O rém-rém e as modinhas continuam, diminuindo pela distância, até perderem-se ao longe.
Nada mais se vê e se ouve, então, do que o ciciar das vagas a quebrarem-se de encontro às pedras do cais da Veneza Sergipana, e o rico luar espargindo, sobre a casaria branca e silenciosa da cidade, seus límpidos raios.

(Propriá-SE, fevereiro de 1910). A IDÉIA, 17 de fevereiro de 1910.
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Por conta das comemorações do CENTENÁRIO do jornal A IDÉIA, impresso em Pão de Açúcar(AL), cuja edição inaugural circulou em 14 de novembro de 1909, estamos reproduzindo algumas crônicas e poemas desse importante periódico.
Esta crônica de F. Palmares (que pode ser um pseudônimo) exalta as características das cidades ribeirinhas, tal como está retratada na foto que a ilustra.Vemos o porto de Propriá repleto de canoas, a ponto de, não havendo mais espaço para que se colocassem junto à margem, postavam-se lado a lado, exigindo que os passageiros e tripulantes passassem por outras canoas até conseguirem saltar à terra.(Etevaldo)

sábado, novembro 14

CENTENÁRIO D’ A IDEIA


No dia 14 de novembro de 1909 circulava a primeira edição do jornal A IDEIA, tendo como proprietários Hypólito de Souza (Redator-Chefe) e Álvaro Machado (Redator-Gerente).
Portanto, há cem anos, na jutentude dos seus vinte e poucos anos, esses dois pão-de-açucarenses faziam prevalecer o que já era uma característica de Pão de Açúcar e de outras cidades ribeirinhas do São Francisco, sustentar um veículo de comunicação, com oficinas gráficas e tudo o mais, a despeito de todas as adversidades.
Definindo-se como “órgão literário, nocicioso e humorístico”, era publicado semanalmente, tendo como colaboradores os mais destacados literatos da época: Damasceno Ribeiro, Júlio Almeida, Ovídio Cabral, Álvaro Machado e outros, que se ocultavam sob pseudônimos como “K. Lunga”, “Armando”, “Dom Riozinho”... Na sua coluna dedicada à poesia, denominada “Escrínio Poético” e, depois, “Fonte de Castália”, desfilavam Damasceno Ribeiro, Júlio Almeida, Hypólito de Souza, Theóphanes Brandão, Ephifânio da Fonseca Dória, Nina Falcão, Rosália Sandoval, Mário Florival, dentre outros.
A partir de 27 de março de 1910, Hypólito de Souza deixa a sua redação e a partir de 3 de junho do mesmo ano passa a ser propriedade de A. Machado & Cia.

Embora não seja A IDEIA o pioneiro do jornalismo pão-de-açucarense – o primeiro foi o JORNAL DO PÃO D’ ASSÚCAR, fundado por José Venustiniano Cavalcante (pai de Bráulio Cavalcante), em 1874, é nossa obrigação comemorar este seu CENTENÁRIO, desejando que o seu exemplo possa ser seguido pelas novas gerações, especialmente nesses tempos de enormes facilidades tecnológicas.

domingo, outubro 4

ADEUS, MERCEDES SOSA



Morreu, neste domingo (4), a cantora argentina Mercedes Sosa, aos 74 anos, depois de permanecer internada por 11 dias em um hospital na cidade de Buenos Aires.
Haydé Mercedes Sosa nasceu no dia 9 de julho de 1935, na cidade de San Miguel de Tucumán. Com uma carreira de 60 anos, transitou por diversos países do mundo, dividiu o palco com inúmeros e prestigiosos artistas e deixou uma grande discografia.

Ganhou destaque muito nova, com quinze anos de idade, após se apresentar em uma competição de uma rádio da sua cidade natal e conseguiu um contrato de dois meses. O timbre marcante levou Mercedes a gravar o primeiro disco Canciones con Fundamento, em 1965, com um perfil de folk argentino. Mas foi em 1967 que se consagrou internacionalmente após gravar o sucesso Cantata Sudamericana e Mujeres Argentinas, com Ariel Ramirez e Feliz Luna. A música foi em homenagem à chinela Violeta Parra.
Já atuou com diversos músicos, como Milton Nascimento, Fagner e Silvio Rodríguez.
Toda essa preocupação inclusive fica evidente em seu repertório, tornando-se uma das grandes expoentes da Nueva Canción, movimento musical nos anos 60, com raízes africanas, cubanas, andinas e espanholas. Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque são representantes.
Possui um dueto com Beth Carvalho, cada uma cantando no seu idioma, na música So le piedo a Dios, além da parceria que fez com Fagner na música Años, de 1981.

Años
Mercedes Sosa
Composição: Pablo Milanés

El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de razón
Passam os anos e como muda o que eu sinto
O que ontem era amor vai se tornando outro sentimento
Porque anos atrás tomar tua mão roubar-te um beijo
Sem forçar o momento fazia parte de uma verdade
El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer (como ayer)
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de razón
Vamos viviendo viendo las horas
Que van pasando las viejas discusiones
Se van perdiendo entre las razones
A todo dices que si a nada digo que no para poder construir
Esa tremenda armonia que pone viejo los corazones
Porque el tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de temor
Vamos vivendo vendo as horas
Que vão passando as velhas discussões
Vão se perdendo entre as razões
A tudo dizes que sim a nada digo que no para poder construir
Esa tremenda armonia que pone viejo los corazones
El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de razón
Porque el tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como aye

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Gracias A La Vida
Mercedes Sosa
Composição: Violeta Parra

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en el alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el oído que en todo su ancho
Graba noche y día grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él, las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano
Y luz alumbrando la ruta del alma del que estoy amando
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida, gracias a la vida

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


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PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

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Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia