domingo, julho 18

TRINTA ANOS SEM VINÍCIUS


Assisti, hoje, ao programa Espaço Aberto (Globo News), comandado por Edney Silvestre, com a participação de Sérgio Cabral e José Castelo. Este último, autor do livro VINÍCIUS DE MORAIS O POETA DA PAIXÃO-UMA BIOGRAFIA, relatou ter ouvido dizer que, por ocasião da decretação do AI-5 (Ato Institucional da Ditadura Militar que fechou o Congresso Nacional e promoveu cassações), Vinícius de Morais se achava num Teatro em Portugal.
Num intervalo, foi comunicado de que, no Brasil, a Ditadura teria endurecido com a decretação do famigerado Ato. Terminado o espetáculo, foi igualmente avisado de que a Juventude Salazarista estava promovendo uma manifestação a favor dos golpistas brasileiros e que ele, por prudência, deveria esperar.
Vinícius decidiu sair. Na porta dos fundos do Teatro, por onde saem os artistas, viu-se diante dos jovens defensores da direita portuguesa a vaiá-lo. Manteve-se em silêncio até que os gritos amenizassem e, então, recitou inteiro o poema PÁTRIA MINHA.
Ao final, os rapazes retiraram os paletós e os estenderam no chão, um após o outro, formando um tapete por onde Vinícius passou triunfante.
“Vinícius de Morais era um homem que acreditava na força da Poesia” - concluiu o biógrafo.
Mais do que a força da poesia, este fato demonstra a força da palavra e do gesto.

PÁTRIA MINHA

A minha pátria é como se não fosse,
é íntima doçura e vontade de chorar;
uma criança dormindo é minha pátria.
Por isso, no exílio, assistindo dormir meu filho,
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te, no entanto, em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um “libertas quae sera tamen”
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama”

Vinicius de Moraes¹
__________________
¹ Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de outubro de 1913 e morreu também no Rio de Janeiro, em 9 de julho de 1980. Foi diplomata, jornalista, poeta e compositor. Filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes (funcionário da Prefeitura, poeta e violonista amador) e Lidia Cruz de Moraes (pianista amadora). Faleceu no Rio de Janeiro a 9 de julho de 1980.

sexta-feira, junho 18

MORRE JOSÉ SARAMAGO

(Foto: Sebastião Salgado)

Faleceu hoje, às 12:30 h, na sua residência de Lanzarote [Ilhas Canárias, Espanha], aos 87 anos de idade, o escritor José Saramago.

Autor de “O Evangelho segundo Jesus Cristo", "A Caverna" e "Ensaio sobre a Cegueira" que foi adaptado para o cinema em 2008 em uma produção Hollywood pelo diretor Fernando Meireles, era crítico, jornalista, dramaturgo, colunista e poeta. Sua última publicação, lançada em 2009, foi "Caim" que conta sobre um acordo do personagem do novo testamento com Deus.

José Saramago nasceu em 1922, em Azinhaga, Portugal. Teve uma vida simples passada em sua grande parte em Lisboa, para onde sua família se mudou em 1934. Foi impedido de cursar a universidade e para se manter, trabalhou como serralheiro. Fascinado por livros à noite visitava a Biblioteca Municipal Central para ler.

Aos 25 anos, em 1947, autodidata, publicou seu primeiro romance "Terra do Pecado". Também em 1947 nasce sua filha, Violante, fruto de seu primeiro casamento com Ilda Reis. Em 1988 casou-se com sua atual esposa, María del Pilas del Río Sanchez. Em 1975, Saramago é contratado como diretor adjunto do Diário de Notícias, onde permaneceu por dez meses. Após sua demissão decidiu dedicar-se exclusivamente a literatura.

Em 1995, foi condecorado com o prêmio máximo da lingua portuguesa, Prêmio Camões. Já em 1998, na cidade de Estocomo na Suécia, foi galardoado com o Prêmio Nobel de Literatura, sob à citação: "Com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia".
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Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

Passado, Presente, Futuro, poema de José Saramago, in "Os Poemas Possíveis" in CITADOR

segunda-feira, março 15

DOM ANTÔNIO BRANDÃO


Hoje faz cem anos!

O centenário de um fato político é sempre motivo de regozijo e celebração. Neste caso, completado um Século da morte do primeiro bispo de Alagoas, vale registrar o fato como um dever perante a História e para fazer justiça à personalidade marcante que foi Dom Antônio Manoel de Castilho Brandão.

Nasceu em Mata Grande, a 14 de agosto de 1849. Filho do Major Antônio Manoel de Castilho Brandão e de D. Maria Barbosa da Conceição Castilho Brandão, foi batizado por seu tio, o Pe. Matias José de Santana Brandão, no dia 17 de setembro de 1849, na igreja de Nossa Senhora da Conceição, em sua terra natal.

Sua educação foi confiada aos avós paternos Anacleto de Jesus Maria Brandão e Maria Francisca, passando a residir em Pão de Açúcar, onde iniciou seus estudos primários, continuados em Penedo no Colégio N. S. da Conceição, mantido pelo Dr. José Próspero Jeovah da Silva Caroatá.

Seus estudos eclesiásticos foram feitos no Seminário de Olinda, vindo a ordenar-se no dia 30 de maio de 1874, no Ceará, por não haver bispo na ocasião em Pernambuco.

A sua primeira missa foi celebrada na matriz do Sagrado Coração de Jesus, em Pão de Açúcar, no dia 19 de julho de 1874. Foi pároco da Freguesia de Floresta, Estado de Pernambuco, de janeiro de 1875 a março de 1879. Daí em diante passou a paroquiar a Freguesia de Santana do Ipanema.

Em 20 de novembro de 1886, foi nomeado vigário da cidade de Alagoas (hoje Marechal Deodoro). Já em 7 de setembro de 1894, foi nomeado bispo de Belém, Estado do Pará, tomando posse somente em fevereiro de 1895, posto que só seria sagrado bispo em Roma, a 18 de novembro de 1894.

Com a criação da Diocese de Alagoas, em 1901, foi D. Antônio Brandão nomeado seu primeiro bispo, em agosto daquele ano, posto em que veio a falecer, em Maceió, no dia 15 de março de 1910.

Àquela época, estava à frente da Paróquia de Pão de Açúcar o Pe. Júlio Albuquerque, um dos mais importantes intelectuais do clero alagoano e um dos fundadores da Academia Alagoana de Letras. Na missa dominical do dia 21 de março de 1910, pronunciou uma eloqüente “oração fúnebre” (assim intitulada quando da sua publicação pelo jornal A IDÉIA), em que enaltece as suas qualidades:

“D. Antônio Brandão possuía, no seu caráter adamantino, uma força de vontade superior. Tinha, nos atos de justiça, sentenças de Salomão. Não via obstáculo quando se tratava de procurar o bem da religião, a cujo serviço dedicou-se, ininterruptamente, dando-lhe o melhor de sua robustez moral e as primícias de sua mocidade.”

“E hoje que, cheios de luto, assistimos a esta última homenagem que a religião nos inspira; hoje que juntamos a tristeza de nossas lágrimas à funérea luz desses círios, que também lacrimejando ornamentam este monumento de morte enviemos, do fundo do nosso coração, à porta do tabernáculo da Divindade, uma prece carinhosa e cheia de fervor, para que breve chegue ao trono de Jesus Cristo a alma imaculada do primeiro bispo de Alagoas e, das mãos de Deus, receba ele a palma da imortalidade e da eterna glória.”

quarta-feira, março 10

BRÁULIO CAVALCANTE

Há exatos noventa e oito anos, falecia em Maceió o pão-de-açucarense Bráulio Cavalcante.
Em meio à intensa agitação política de oposição ao Governador Euclides Malta, enquanto participava de uma manifestação em prol da candidatura do General Clodoaldo da Fonseca, foi assassinado em frente ao Palácio do Governo, na Praça dos Martírios.
Recém formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade do Recife, e a quatro dias de completar vinte e cinco anos, tinha uma vida promissora, ele que ainda tão jovem já era poeta, dramaturgo, romancista e jornalista.
Seu nome está imortalizado em Pão de Açúcar, onde dá nome à principal avenida da cidade e, em Maceió, com a Praça Bráulio Cavalcante, mais conhecida como Praça do Montepio.




terça-feira, março 2

SALVE 3 DE MARÇO!!!! 156 ANOS DA EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DE PÃO DE AÇÚCAR

A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DE PÃO DE AÇÚCAR - UM ATO DO CONSELHEIRO SARAIVA


Entre 20 de outubro de 1853 e 26 de abril de 1854, presidiu a Província de Alagoas o Conselheiro José Antônio Saraiva. Este notável político e estadista brasileiro, nascido em Bom Jardim, município de Santo Amaro (BA), em 1º de maio de 1823, foi quase tudo neste país.

Em 1845, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo. Já em 1849 era eleito membro da Assembléia da Bahia e, em 1850, foi nomeado por D. Pedro II para presidir a Província do Piauí. Ali, sob forte oposição, transferiu a capital da Província de Oeiras para Teresina, que recebera o nome em homenagem à Imperatriz Tereza Cristina.

Em 1852, foi eleito Deputado, sendo em seguida nomeado Presidente da Província de Alagoas e, depois, de São Paulo e Pernambuco. Foi Ministro em várias Pastas do Império: Marinha, Negócios Estrangeiros, Fazenda, Guerra e Presidente do Conselho de Ministros, de 1881 a 1885, quando fez aprovar o Projeto de Lei que instituía as eleições diretas, que ficou conhecida como “Lei Saraiva” ou “Lei do Censo”.

Deixou ainda outro Projeto que o notabilizaria: o que tornava livres os escravos com mais de sessenta anos de idade. Este Projeto acabou por ser aprovado já no Governo de seu sucessor, o Barão de Cotegipe, em 28 de setembro de 1885, passando a ser conhecida por “Lei Saraiva-Cotegipe”.

Sendo homem de confiança de D. Pedro II, retirou-se para a Bahia após a proclamação da República. Foi ainda eleito Senador para o Congresso Constituinte – 1890/1891 mas, doente e frustrado com os rumos políticos do País, renunciou e permaneceu em Salvador até morrer, em 21 de julho de 1895.

Poucos dias antes de deixar a Província de Alagoas, assina, em 3 de março de 1854, a Lei Nº 233, conferindo a Pão de Açúcar a condição de Vila, emancipando-a da Vila de Mata Grande, circunscrita a uma vastíssima área de 2.195,2 km².

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Fonte: TERRA DO SOL ESPELHO DA LUA, de Etevaldo Amorim.



LEI Nº 233 DE 3 DE MARÇO DE 1854.

Art. 1º Ficam creadas duas novas comarcas nesta província, uma denominada Comarca de Imperatriz e outra Comarca de Matta-Grande, que terão por sedes as villas dos mesmos nomes, comprehendendo a primeira os termos da Imperatriz e Assembléia e a segunda os da freguezia de Pão de Assúcar e villa da Matta-Grande.

Art. 2º A povoação de Pão de Assúcar fica elevada à cathegoria de Villa, com a mesma denominação, tendo por limites os da respectiva freguezia.

Art. 3º Ficam revogadas quaesquer leis e desposições em contrário.


José Antônio Saraiva
PRESIDENTE


Nesta Secretaria foi publicada a presente Lei em 4 de março de 1854.
José Alexandrino Dias de Moura


Conselheiro JOSÉ ANTÔNIO SARAIVA

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia