segunda-feira, dezembro 6

6 DE DEZEMBRO – DIA DO EXTENSIONISTA RURAL

Por Etevaldo Amorim

No dia 23 de fevereiro de 1976, recém saído do antigo e famoso Colégio Agrícola de Satuba, eu ingressava numa das mais importantes instituições do Estado de Alagoas – a ANCAR-AL.

A Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural, integrante de um Sistema que prestava assistência ao agricultor em todo o País, se revelava um modelo de organização e era depositária das esperanças de desenvolvimento do meio rural brasileiro.

Vivíamos, naquele ano, o processo de transição para o Sistema EMBRATER. A ANCAR, então, seria sucedida pela EMATER-AL (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural).
 
Integrante de uma turma de vinte novos extensionistas, sendo seis Agrônomos, quatro Médicos Veterinários e dez Técnicos Agrícolas, lá estava eu, com meus 18 anos, iniciando minha vida profissional.

Depois de um Curso de Pré-Serviço, realizado no Centro Social Rural Dom Adelmo Machado, pertencente à Arquidiocese de Maceió, a turma foi distribuída pelas diversas regiões do Estado. Fui designado para o Escritório de Mata Grande, que atendia também os municípios de Canapí e Inhapí.

Substituindo o Agrônomo Joaci Augusto Barbalho – um potiguar natural de Caicó, que assumira um cargo de coordenação na nossa Gerência em Santana do Ipanema, iniciei as atividades do Escritório, improvisado numa garagem situada na Rua Ubaldo Malta. Fazia-me companhia o colega Antônio Soares Mota, conhecido desde os tempos de Colégio por Lambreta.
 
Lá encontramos a Secretária Maria de Fátima Sandes Xavier. Natural de Mata Grande, tinha a experiência necessária para auxiliar dois novatos, depois de ter trabalhado com o próprio Joaci e com Abel Cândido, hoje prestigiado advogado, associado a outro ex-extensionista, o meu dileto amigo Lindalvo Silva Costa.

O Jeep verde, ano 1973, de Placa AB-1523, era o nosso principal instrumento de trabalho. Para percorrer a grande extensão territorial que nos competia, o veículo rústico, com tração nas quatro rodas era indispensável. Afinal, a nossa área era enorme: além da Sede, Mata Grande com área de 919,6 km², contava também com Canapi (571,94 km²) e Inhapi (374,2 km²). Num dado momento, em que o colega de Delmiro Gouveia teve de seu ausentar, assumi aquele Escritório por cerca de três meses (mais 606,79 km²), além de Água Branca, que ainda contava com o atual município de Pariconha (716,38). Total: 3.188,91 km².

Os pouco mais de dois anos em que fui Extensionista não foram suficientes para fazer muita coisa. Entretanto, consegui deixar no Escritório de Mata Grande um grande número de projetos de investimento, no âmbito do antigo PROTERRA – Programa de Redistribuição de Terras e Estímulo à Agroindústria do Norte e Nordeste, tendo o crédito rural como ferramenta importante. Aliás, o Banco do Brasil – no nosso caso, a Agência de Santana do Ipanema, era parceiro nesse trabalho. Por conta disso, tínhamos constantes reuniões na Sede do nosso Regional, o que suscitava comentários jocosos dos colegas do BB.
 
Quando éramos ANCAR, os bancários diziam que, na verdade, a sigla significava: “Agrônomos Nordestinos Continuam Ainda Reunidos”. Quando veio a EMATER, nós os provocamos para uma nova interpretação. Eles, então, vieram com esta: A sigla seria: “Embora Mudados Ainda Temos Eternas Reuniões”. Era uma prova da agradável convivência entre os agentes de extensão e as instituições parceiras.

Em Delmiro Gouveia, o curto período em que lá estive foi marcado pela mudança do Escritório, de um velho casarão para o recém inaugurado Centro Administrativo, a nova Sede do Poder Executivo Municipal.

São muitas as lembranças que tenho daqueles tempos e, a propósito deste DIA DO EXTENSIONISTA RURAL, parabenizo esses profissionais na pessoa da minha amiga Rita de Cássia Ferreira Lima, Superintendente de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural, da Secretaria de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário.



Escritório da EMATER em Mata Grande - 1976.


Eu (à direita) e meu colega Antônio Soares Mota - Mata Grande - 1976.


Antiga Sede da EMATER em Delmiro Gouveia - 1976.
(Obtida no blog: www.amigosdedelmirogouveia.blogspot.com)


Centro Administrativo de Delmiro Gouveia. Nova sede do Escritório da EMATER a partir de 1976.
(Obtida no blog: www.amigosdedelmirogouveia.blogspot.com)


Técnicos Agrícolas, quase todos da antiga EMATER, reunidos em Pão de Açúcar para reorganizar a sua Associação, precursora do Sindicato da categoria. 1977.

sexta-feira, outubro 15

SALVE 15 DE OUTUBRO - DIA DO PROFESSOR

O VELHO MESTRE

Renê Barreto¹

Andava muito doente o velho professor...
Por isso ele não tinha agora o mesmo ardor
Que outrora o possuía e o animava dantes.
Às vezes, quando em aula, havia mesmo instantes
Em que inclinava a fronte - aquela fronte austera
Onde já desbotara a flor da primavera
E cochilava um pouco, involuntariamente.

O velho professor andava muito doente....

Era, porém, tamanho o bem que nos queria,
Que jamais quis pedir aposentadoria
E manter-se do Estado a custa dessa esmola...
Era sempre o primeiro a aparecer na escola
Com as suas joviais maneiras tão simpáticas
Não obstantes sentir umas dores reumáticas,
Que o faziam sofrer muito ultimamente...

O velho professor andava muito doente....

Um dia ele chegou mais tarde alguns momentos.
Trazia nas feições sinais de sofrimento...
A palidez do rosto, os olhos encovados,
Denunciavam seus pesares ignorados;
E, como pra tornar a dor mais manifesta,
Cavara-se-lhe fundo uma ruga na testa
Franzia-se-lhe o rosto numa expressão de horror...

Andava muito doente o velho professor...

A aula começou. Mas pouco depois das onze,
O velho mestre, o bom batalhador de bronze,
Que já perto de trinta anos, ou mais, havia
Que gigantesco herói, lutava dia a dia
Para a glória da Pátria e para o bem da infância,
Dando batalha ao vício e combate à ignorância,
Sentindo de uma dor agudos abrolhos,
Curvou as nobres cãs, cerrou de leve os olhos.

Fora fulgia o sol. A manhã era calma.
Risonha, a naturêza abria a sua alma,
Repleta de alegria e cheia de esplendores.
Pela janela entrava o hálito das flores.
E em toda a atmosfera, azul, lavada, fina,
Ressoava, baixinho, assim como em surdina,
O canto celestial, harmonioso e suave:
Anjos tocando em harpa alguma canção de ave.

Nisto ergueu-se um aluno, um pândego, um peralta,
Fabricou de um jornal um chapéu de copa alta
E bem devagarinho (oh! Que idéia travessa)
Chegou-se ao mestre...záz! enfiou-lhe na cabeça,
E rápido, se foi de novo ao seu lugar...
O mestre nem abriu o sonolento olhar.

E, aquele aspecto vil de truão, de improviso,
Rebentou pela aula estardalhante riso.
De súbito surgiu o diretor na sala...
Demudou-se-lhe o gesto, estremeceu a fala,
Quando ele, transformando a mansidão de boi
Em fúria de leão, nos perguntou: Quem foi?
Quem foi esse vilão que fez tal brejeirice,
Sem respeito nenhum às cãs desta velhice?!
Vamos lá! Sedes leais, verdadeiros e francos!
Dizei: Quem ofendeu estes cabelos brancos?

Mas ninguém denunciou da brincadeira o autor,
E como um clown, dormia o velho professor.
O diretor, então chegou-se junto à mesa...
Via-se-lhe no rosto incômodo, a surpresa
De que o sono do Mestre assim se prolongasse,
Curvou-se meigamente e levantou-lhe a face...
Mas recuou tremendo, aterrorado, absorto,
Aniquilado e mudo...

O Mestre estava Morto...
___________
¹ Educador_1872-1916.
_______________________
Extraído do livro de leitura de minha mãe: Corações de Crianças-Terceiro Livro, de Rita de Macedo Barreto.

terça-feira, setembro 14

A POESIA DE MÁRIO BENEDETTI



GENTE QUE EU GOSTO

Em primeiro lugar,
Gosto de gente que vibra, que não tem que ser empurrada,
Que não precisa que lhe diga que faça as coisas
Porque sabe o que tem de fazer
E que o faz em menos tempo do que o esperado.
Gosto de gente capaz de medir as conseqüências de seus atos,
Gente que não deixa as soluções ao acaso.
Gosto de gente rigorosa com seu povo e consigo mesma,
Mas que não perca de vista que somos humanos e que podemos errar.
Gosto de gente que pensa que o trabalho em equipe, entre amigos,
Produz mais que os caóticos esforços individuais.
Gosto de gente que sabe a importância da alegria.
Gosto de gente sincera e franca, capaz de se opor com argumentos serenos e razoáveis.
Gosto de gente criteriosa, que não se envergonha de reconhecer que não sabe algo e que se equivocou.
Gosto de gente que, ao reconhecer seus erros, se esforça verdadeiramente em não voltar a cometê-los.
Gosto de gente capaz de me criticar construtivamente e de frente; a estes eu chamo de amigos.
Gosto de gente fiel e persistente, que não sucumbe quando se trata de alcançar objetivos e idéias.
Gosto de gente que trabalha por resultados.
Com pessoas assim, me comprometo a qualquer coisa, já que tê-las ao meu lado é por demais gratificante.

Mario Benedetti (Tradução: Etevaldo Amorim)

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PASSATEMPO

Quando éramos crianças,
os adultos andavam pelos trinta;
uma poça era um oceano -
a morte não existia.

quando rapazes,
os velhos eram gente de quarenta;
um charco era um oceano -
a morte somente uma palavra.

já quando nos casamos,
os anciãos estavam nos cinqüenta;
um lago era um oceano - a morte era a morte
dos outros.

agora veteranos,
já alcançamos a verdade;
o oceano é por fim o oceano -
mas a morte começa a ser
a nossa.
________
Mario Benedetti (Paso de los Toros, 14 de setembro de 1920 — Montevidéu, 17 de maio de 2009) foi um poeta, escritor e ensaísta uruguaio. Integrante da Geração de 45, à qual pertencem também Idea Vilariño e Juan Carlos Onetti, entre outros. Considerado um dos principais autores uruguaios, ele iniciou a carreira literária em 1949 e ficou famoso em 1956, ao publicar "Poemas de Oficina", uma de suas obras mais conhecidas. Benedetti escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema.
Fonte: Wikipedia (Tradução de Sidney Wanderley)
Obtido no Blog do Majella (http://majellablog.blogspot.com/)

domingo, agosto 8

O HERÓI

Judas Isgorogota¹

"— Papai, o que é um herói?
Eu pergunto por que tenho grande vontade
De ser herói também ...
Será que posso ser herói sem entrar numa guerra?
Será que posso ser herói sem odiar os homens
E sem matar alguém?"

O homem, que já sofrera as mais fundas angústias
E as mais feias misérias,
Trabalhando a aridez de uma terra infecunda
Para que não faltasse o pão no pequenino lar;

O homem, que as mais humildes ilusões perdera
No seu cotidiano e ingrato labutar;
Aquele homem, ao ouvir a pergunta do filho:
— "Papai, o que é um herói?"
Nada soube dizer, nada pôde explicar...

Tomou de uma peneira
E cantando saiu, outra vez, a semear!

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Dedico a meu saudoso pai (Agnelo Tavares Amorim), falecido em 23/07/2002. Humilde agricultor, não tendo muito a me deixar em bens materiais, deu-me por herança o que de mais precioso tenho.
______________
¹ Pseudônimo de Agnelo Rodrigues de Melo, poeta e Jornalista brasileiro. Nasceu em Lagoa da Canoa, Alagoas em 15 de setembro de 1901. Viveu em Maceió, mudou-se aos 23 anos para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo onde ganhou projeção internacional e veio a falecer em 1979. Publicou 15 livros de poesias, uma novela e cinco de poesias infantis. Parte de sua obra poética traduzida para vários idiomas (francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, húngaro, árabe, checo e lituano). Com toda essa bagagem é quase um desconhecido em sua terra. O poeta teve uma filha à qual deu o nome de Rima Augusta.

domingo, julho 18

TRINTA ANOS SEM VINÍCIUS


Assisti, hoje, ao programa Espaço Aberto (Globo News), comandado por Edney Silvestre, com a participação de Sérgio Cabral e José Castelo. Este último, autor do livro VINÍCIUS DE MORAIS O POETA DA PAIXÃO-UMA BIOGRAFIA, relatou ter ouvido dizer que, por ocasião da decretação do AI-5 (Ato Institucional da Ditadura Militar que fechou o Congresso Nacional e promoveu cassações), Vinícius de Morais se achava num Teatro em Portugal.
Num intervalo, foi comunicado de que, no Brasil, a Ditadura teria endurecido com a decretação do famigerado Ato. Terminado o espetáculo, foi igualmente avisado de que a Juventude Salazarista estava promovendo uma manifestação a favor dos golpistas brasileiros e que ele, por prudência, deveria esperar.
Vinícius decidiu sair. Na porta dos fundos do Teatro, por onde saem os artistas, viu-se diante dos jovens defensores da direita portuguesa a vaiá-lo. Manteve-se em silêncio até que os gritos amenizassem e, então, recitou inteiro o poema PÁTRIA MINHA.
Ao final, os rapazes retiraram os paletós e os estenderam no chão, um após o outro, formando um tapete por onde Vinícius passou triunfante.
“Vinícius de Morais era um homem que acreditava na força da Poesia” - concluiu o biógrafo.
Mais do que a força da poesia, este fato demonstra a força da palavra e do gesto.

PÁTRIA MINHA

A minha pátria é como se não fosse,
é íntima doçura e vontade de chorar;
uma criança dormindo é minha pátria.
Por isso, no exílio, assistindo dormir meu filho,
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te, no entanto, em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um “libertas quae sera tamen”
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama”

Vinicius de Moraes¹
__________________
¹ Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de outubro de 1913 e morreu também no Rio de Janeiro, em 9 de julho de 1980. Foi diplomata, jornalista, poeta e compositor. Filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes (funcionário da Prefeitura, poeta e violonista amador) e Lidia Cruz de Moraes (pianista amadora). Faleceu no Rio de Janeiro a 9 de julho de 1980.

sexta-feira, junho 18

MORRE JOSÉ SARAMAGO

(Foto: Sebastião Salgado)

Faleceu hoje, às 12:30 h, na sua residência de Lanzarote [Ilhas Canárias, Espanha], aos 87 anos de idade, o escritor José Saramago.

Autor de “O Evangelho segundo Jesus Cristo", "A Caverna" e "Ensaio sobre a Cegueira" que foi adaptado para o cinema em 2008 em uma produção Hollywood pelo diretor Fernando Meireles, era crítico, jornalista, dramaturgo, colunista e poeta. Sua última publicação, lançada em 2009, foi "Caim" que conta sobre um acordo do personagem do novo testamento com Deus.

José Saramago nasceu em 1922, em Azinhaga, Portugal. Teve uma vida simples passada em sua grande parte em Lisboa, para onde sua família se mudou em 1934. Foi impedido de cursar a universidade e para se manter, trabalhou como serralheiro. Fascinado por livros à noite visitava a Biblioteca Municipal Central para ler.

Aos 25 anos, em 1947, autodidata, publicou seu primeiro romance "Terra do Pecado". Também em 1947 nasce sua filha, Violante, fruto de seu primeiro casamento com Ilda Reis. Em 1988 casou-se com sua atual esposa, María del Pilas del Río Sanchez. Em 1975, Saramago é contratado como diretor adjunto do Diário de Notícias, onde permaneceu por dez meses. Após sua demissão decidiu dedicar-se exclusivamente a literatura.

Em 1995, foi condecorado com o prêmio máximo da lingua portuguesa, Prêmio Camões. Já em 1998, na cidade de Estocomo na Suécia, foi galardoado com o Prêmio Nobel de Literatura, sob à citação: "Com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia".
**** **** ****

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

Passado, Presente, Futuro, poema de José Saramago, in "Os Poemas Possíveis" in CITADOR

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia