quinta-feira, maio 9

NOTÍCIAS CURIOSAS II


Deu no jornal O ORBE, Maceió, 24 de abril de 1885:

“ESTRADA DE FERRO
DAS
ALAGOAS

Estando interrompida a navegação a vapor para o Pilar, resolveu a administração desta estrada fazer parar todos os trens na SATUBA, ponto mais próximo do Pilar.
Os senhores passageiros que vierem a cavalo encontrarão sempre carros para animais, podendo conduzir no mesmo trem suas cavalgaduras.
O trem chega a SATUBA todas as manhãs às 8 horas e 20 minutos e volta da SATUBA todas as tardes às 3 horas e 50 minutos”

Antecedendo o aviso, a Companhia que explorava a navegação nas lagoas publica um aviso:

“A EMPRESA DE NAVEGAÇÃO
DAS LAGOAS
A VAPOR

Cientifica ao público que está suspenso o respectivo serviço (sendo hoje a última viagem) em vista do termo do contrato que mantinha.

Jaraguá, 17 de abril de 1885”


Maravilha! A empresa de navegação das lagoas, que era a mesma da de trens, procura, para usar um termo atual, “fidelizar” o cliente. Em vez de cavalgar do Pilar até Maceió, o cidadão, embarcando com seu animal na Satuba, teria assegurada a comodidade de se deslocar na Capital em sua própria montaria.


sexta-feira, maio 3

NOTÍCIAS CURIOSAS

Deu no JORNAL DE CAXIAS, edição de 30 de abril de 1898:


O Sertanejo, da cidade de Pão de Assúcar, em Alagoas, diz que consta que o bello sexo de todo orbe cathólico prepara-se para dirigir uma representação ao Papa, reclamando contra o prejuízo que o celibato dos padres tem trazido a seu seio e pedindo a abolição desse costume, por ser contrário às leis divinas e humanas.
Pois ainda não chegou essa ideia por aqui.”

Fonte: memoria.bn.br

terça-feira, abril 23

A LEGENDA DE UMA CONCHA


                                    Jayme d’ Altavilla

Entre algas e corais, lá no fundo do Oceano,
sossegada e feliz uma concha vivia;
e, ouvindo retumbar o clamor desumano,
do seu dorso ostentava a tersa fidalguia...

Uma noite, porém, num desespero insano,
o Mar tanto a impeliu que, à praia, no outro dia,
foi ter a concha, enfim, para auferir o dano
de irmanada viver à infinda Nostalgia.

Mas, embora infeliz, sob o Destino atroz,
guardou consigo, então, a ventura de outrora:
do mar, em tremulina, a enternecida voz.

Também do coração me impeliste a vagar...
mas eu guardo, inda assim, a tua voz sonora
como a concha guardou a linguagem do mar...

___________
Publicado no jornal O Semeador, Maceió,
31 de outubro de 1916.

sexta-feira, março 22

SABINO ROMARIZ


SABINO ROMARIZ Nascido em Penedo no dia 25 de março de 1873, Sabino Romariz era poeta e filho do poeta João Almeida Romariz e Dona Maria de Assunção Romariz. Logo cedo perdeu os seus pais, passando para a companhia de seus avos maternos, Capitão Sabino Alves Feitosa e dona Senhorinha Feitosa. Iniciou os estudos em Penedo e em seguida foi para o Colégio de Olinda, onde concluiu o curso de Humanidades. Ingressou no Seminário em Olinda, grande centro cultural da época, todavia, abandonou os estudos eclesiástivos. Com essa sua atitude de abandono da vocação teve sua mesada cortada pelo seu avô. Aí começa a sua peregrinação pelos caminhos do infortúnio. A sua alma de artista ficou ferida, indo encontrar lenitivo no vício e no álcool. Retoma a Maceió e ali começa a ensinar nos colégios “Vitória” e “2 de Outubro”. Com essa sua volta a Maceió, inicia a ativa vida literária. Retorna a Olinda e no Seminário passa a ensinar inglês e latim. O seu temperamento de artista marcado pela instabilidade o levou para a Paraíba, onde ensinou latim e francês. Era um jovem de uma cultura admirável. Ao lado do Magistério, Sabino Romariz exercia com brilhantismo, também, o jornalismo. Da Paraíba vai para o Rio de Janeiro onde foi lecionar inglês e francês no Colégio Alfredo Gomes. Ali fez exames para a Faculdade Livre de Direito. Publicou o poema – A MANSINHA – passando a conviver com Olavo Bilac, Carvalho Neto e Guimarães Passos. 
Fonte: http://www.penedofm.com.br 

CÉU 

Ninguém, ninguém, ao teu azul resiste, 
Céu do Brasil, bendito e peregrino; 
Onde feito de estrelas, como um hino, 
Fulge o Cruzeiro de fulgor em riste. 

É donde o sol aurifulgente assiste 
Ao murmúrio das águas cristalino; 
— o sol, um louro e rutilo beduíno, 
Longe da lua, pesaroso e... triste. 

Para cantar-lhe essa agonia, afino 
Pelas florestas minha lira êxul, 
E pelas aves o estro adamantino. 

E, olhos cravados neste céu do sul, 
— Bardo e soldado, canto o meu destino 
Vivido ao pálio de teu céu azul. 
 ________ 
Publicado na revista O MALHO, Rio de Janeiro, 27 de setembro de 1910. 


MINHA ESTRELA 

Nasci pobrezinho, qual ave do bosque; 
Eu tenho uma estrela que Deus me guiou,
Um cetro supremo e sublime de artista 
E nem por impérios tal estrela eu dou. 

Eu trago na fronte tão loiro diadema,
Mais loiro e mais lindo que a luz das manhãs!
O sol me desperta em meu leito de espinhos,
As flores dos campos são minhas irmãs.

Debalde a riqueza me cobre de insultos,
A inveja tropeça na linha em que vou,
Eu tenho uma estrela radiante de Artista,
É um timbre infinito – foi Deus quem timbrou. 

 E sou órfão de amores, sou pobre de afetos,
Não tenho cadinhos, jamais, de ninguém,
Eu tenho uma estrela suprema de Artista
E tenho uma glória que muitos não têm.

sábado, março 16

HORMINO LYRA


Poeta, romancista e ensaísta, HORMINO ALVES LYRA nasceu em Pão de Açúcar, Alagoas, em 3 de agosto de 1877. Fez seus estudos secundários no Ginásio São João em Penedo, onde exerceu as funções de censor e lecionou com substituto de várias cadeiras.
Em princípio, pensou dedicar-se à vida eclesiástica. Entretanto, não obstante a sua crença religiosa, percebeu que não tinha vocação para o sacerdócio. Prestou, então, concurso para a Fazenda e para os Correios e Telégrafos. Aprovado em ambos, preferiu o segundo, sendo admitido como Telegrafista.
Escreveu para vários jornais e revista como O Malho e Revista da Semana.
Suas principais obras são: Dona Ede(romance), em 1913; O 14 (contos), também em 1913; O Barão do Triunfo, 1941, separada da Imprensa Nacional (memória); Crisol (poesia), 1960. Troveiro, 1960 (poesia).
Foi casado com Marieta de Mello Carvalho (filha do Coronel Augusto Álvaro de Carvalho e de D. Maria Luiza de Mello Carvalho), falecida em 5 de janeiro de 1961.
Hormino Lyra faleceu no rio de Janeiro em 13 de setembro de 1970.

É dele este soneto:

MEMÓRIAS

Nasci em Pão de Açúcar, Alagoas,
de um par, cuja lembrança me enternece.
Lá vejo o rio, vejo umas coroas
que vão crescendo enquanto a estiada cresce.

Ouço as modinhas, zingador, que entoas
no barco teu que o São Francisco desce.
Lembro a rendeira, a modo numa preço,
trocando os bilros, mastigando loas.

Alva... Chove ouro, tudo colorido.
Despertam aves mil com alacridade
entre os ramos de velho tamarindo.

Angelus... Tange o sino lentamente.
Ainda sinto a poesia da saudade
num ar que empolga o espírito da gente.
___

MEMÓRIA
                        Hormino Lyra

Nasci em Pão de Açúcar, Alagoas,
Lá vejo um outeirinho que floresce,
Beirando o rio. Vejo o areal, canoas,
E a serra que por fim desaparece.

Ouço as modinhas, zingador, que entoas,
Dizendo os versos com o fervor de prece.
Trocando os bilros, mastigando loas,
Lembro a rendeira que alva renda tece.

Manhã. Chove ouro, tudo colorindo.
Os pássaros, mal desce a claridade,
Estão piando no velho tamarindo.

Ângelus. Tange o sino. E e som dolente,
Triste como a tristeza da saudade,
Sensibiliza o coração da gente.
___________
Revista Fon Fon, Rio de Janeiro, Edição de Natal

de 1945.

Hormino Lyra

domingo, março 3

PÃO DE AÇÚCAR - 159 ANOS DE EMANCIPAÇÃO


A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DE PÃO DE AÇÚCAR - UM ATO DO CONSELHEIRO SARAIVA


Entre 20 de outubro de 1853 e 26 de abril de 1854, presidiu a Província de Alagoas o Conselheiro José Antônio Saraiva. Este notável político e estadista brasileiro, nascido em Bom Jardim, município de Santo Amaro (BA), em 1º de maio de 1823, foi quase tudo neste país.

Em 1845, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo. Já em 1849 era eleito membro da Assembleia da Bahia e, em 1850, foi nomeado por D. Pedro II para presidir a Província do Piauí. Ali, sob forte oposição, transferiu a capital da Província de Oeiras para Teresina, que recebera o nome em homenagem à Imperatriz Tereza Cristina.

Em 1852, foi eleito Deputado, sendo em seguida nomeado Presidente da Província de Alagoas e, depois, de São Paulo e Pernambuco. Foi Ministro em várias Pastas do Império: Marinha, Negócios Estrangeiros, Fazenda, Guerra e Presidente do Conselho de Ministros, de 1881 a 1885, quando fez aprovar o Projeto de Lei que instituía as eleições diretas, que ficou conhecida como “Lei Saraiva” ou “Lei do Censo”.

Deixou ainda outro Projeto que o notabilizaria: o que tornava livres os escravos com mais de sessenta anos de idade. Este Projeto acabou por ser aprovado já no Governo de seu sucessor, o Barão de Cotegipe, em 28 de setembro de 1885, passando a ser conhecida por “Lei Saraiva-Cotegipe”.

Sendo homem de confiança de D. Pedro II, retirou-se para a Bahia após a proclamação da República. Foi ainda eleito Senador para o Congresso Constituinte – 1890/1891 mas, doente e frustrado com os rumos políticos do País, renunciou e permaneceu em Salvador até morrer, em 21 de julho de 1895.

Poucos dias antes de deixar a Província de Alagoas, assina, em 3 de março de 1854, a Lei Nº 233, conferindo a Pão de Açúcar a condição de Vila, emancipando-a da Vila de Mata Grande, circunscrita a uma vastíssima área de 2.195,2 km², e que viria a ser instalada a 7 de agosto daquele mesmo ano.

_____
Fonte: TERRA DO SOL ESPELHO DA LUA, de Etevaldo Amorim.



LEI Nº 233 DE 3 DE MARÇO DE 1854.

Art. 1º Ficam creadas duas novas comarcas nesta província, uma denominada Comarca de Imperatriz e outra Comarca de Matta-Grande, que terão por sedes as villas dos mesmos nomes, comprehendendo a primeira os termos da Imperatriz e Assembléia e a segunda os da freguezia de Pão de Assúcar e villa da Matta-Grande.

Art. 2º A povoação de Pão de Assúcar fica elevada à cathegoria de Villa, com a mesma denominação, tendo por limites os da respectiva freguezia.

Art. 3º Ficam revogadas quaesquer leis e desposições em contrário.

José Antônio Saraiva
PRESIDENTE


Nesta Secretaria foi publicada a presente Lei em 4 de março de 1854.

Conselheiro Saraiva

domingo, fevereiro 24

MEMÓRIAS DA INFÂNCIA

Por Etevaldo Amorim

Manoel Joaquim era um senhor que morava em frente a nossa casa, no pequeno povoado de Limoeiro, município de Pão de Açúcar. 

A cabeça encanecida revelava avançados anos em sua vida de muito trabalho e sacrifícios. Carpinteiro por ofício e agricultor por necessidade, estava em seu segundo casamento, cujos filhos mais novos eram mais ou menos da minha idade. 

Na sua oficina, instalada na própria residência, eu passava horas e mais horas a observá-lo na prática da sua arte. Muitas vezes os meninos o ajudavam em alguma tarefa. Naquele tempo as crianças, enquanto não estavam na escola, ajudavam os pais nos trabalhos da família. 

Neste caso, em particular, por vezes via os meninos de seu Manoel ajudá-lo em alguma tarefa mais leve. Como naquele dia em que, para serrar ao meio uma enorme tora de madeira, contava com a ajuda de um dos seus filhos. Apoiando o pau sobre um cavalete, seu Manoel manobrava a enorme serra na parte superior. Em baixo, Luiz segurava a outra extremidade, apenas aprumando o corte sobre a linha traçada a lápis. 

Eu e outras crianças, por volta dos nossos oito ou dez anos, ficávamos a observar o pó de serra cair sobre o chão de tijolo batido na enorme sala de visitas. Seu Manoel, de vez em quando nos explicava um ou outro detalhe daquele trabalho. Em dado momento, enquanto nos via apalpar aquele pó de serra que precipitava a cada golpe dado sobre a madeira, comentou:

— Estão vendo, meninos, esse pó de serra aí? Muitas vezes, na seca de 32, tive que comer isso porque não tinha dinheiro para comprar farinha.

Por um instante paramos, estarrecidos. Seu Manoel falava da maior de todas as Secas vividas pelos nordestinos no Século XX. Pior do que aquela, só a seca de 77, ainda no Século XIX.

Minha memória me leva a outro episódio. Eu e um de seus filhos estávamos brincando, quando, de repente, seu Manoel irrompeu na pequena sala. Tinha o semblante grave e ameaçador. Dirigiu-se ao filho em voz alta, alegando ter tomado conhecimento de que o mesmo cometera algum malfeito, coisa séria, que ele não tolerava e que, para tanto, lhe daria o merecido castigo. 

De súbito, deixamos os brinquedos e nos voltamos para ele. O menino olhava para o pai aterrorizado. Nos olhos a expressão de medo. O pai prosseguia no ritual atemorizante: levou as mãos à cintura, desafivelando a velha cinta de couro cru. Quando já se dispunha a executar a sentença, num gesto desesperado, postei-me entre eles e supliquei:

— Seu Manoel, não bate nele não...

 E o fiz sem qualquer esperança de ser atendido. Afinal, os pais daquele tempo recorriam a esses métodos com frequência e com a maior naturalidade. Mas, qual não foi a minha surpresa quando, tocado pelas minhas palavras de menino e por um sentimento que eu, naquela idade não podia discernir, vi-o baixar a mão que ameaçava o meu colega e, soltando-o, anunciou:

— Hoje você escapa! Só não vou te dar uma surra daquelas porque seu amigo me pediu.

Deu de costas e saiu rapidamente. 

Refeitos do susto, logo voltamos a nossa brincadeira. 

 *** *** *** 

 Hoje, refletindo sobre aquele gesto, fico impressionado de como aquele homem rude, de hábitos tão conservadores, tenha tido uma atitude daquelas. Convenço-me de que ele o fizera não pelo simples fato de lhe ter pedido. Afinal, ele não devia qualquer satisfação a um pirralho como eu. 

Tendo mais a acreditar que evitou castigar o filho na minha presença para não constrangê-lo. Bater no filho para impor a sua autoridade de pai era uma coisa; surrá-lo diante de um parceiro de brincadeiras era outra.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia