sábado, agosto 10

DIA DOS PAIS

O HERÓI

                              Judas Isgorogota¹

"— Papai, o que é um herói?
Eu pergunto por que tenho grande vontade
De ser herói também ...
Será que posso ser herói sem entrar numa guerra?
Será que posso ser herói sem odiar os homens
E sem matar alguém?"

O homem, que já sofrera as mais fundas angústias
E as mais feias misérias,
Trabalhando a aridez de uma terra infecunda
Para que não faltasse o pão no pequenino lar;

O homem, que as mais humildes ilusões perdera
No seu cotidiano e ingrato labutar;
Aquele homem, ao ouvir a pergunta do filho:
— "Papai, o que é um herói?"
Nada soube dizer, nada pôde explicar...

Tomou de uma peneira
E cantando saiu, outra vez, a semear!
______________

¹ Pseudônimo de Agnelo Rodrigues de Melo, poeta e Jornalista brasileiro. Nasceu em Lagoa da Canoa, Alagoas em 15 de setembro de 1901. Viveu em Maceió, mudou-se aos 23 anos para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo onde ganhou projeção internacional e veio a falecer em 1979. Era casado com Nazira César de Melo, com que teve uma filha chamada Rima, nascida em São Paulo, a 24 de outubro de 1934. Publicou 15 livros de poesias, uma novela e cinco de poesias infantis. Parte de sua obra poética traduzida para vários idiomas (francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, húngaro, árabe, checo e lituano). Com toda essa bagagem é quase um desconhecido em sua terra. O poeta teve uma filha à qual deu o nome de Rima Augusta.

sábado, agosto 3

POEMAS


                Jorge de Lima


Remédios,
Carrapetas,
Taramelas,
E há a cana que dá tudo,
Porque dá ao homem triste dessas terras
A alegria cor de brasa da embriaguêz
E o esquecimento cor de cinza que vem dela.
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Publicado na revista O Malho-RJ, 20/07/1933.

sábado, julho 20

SANTOS DUMONT

Há 140 anos, nascia Alberto Santos Dumont.

A homenagem deste Blog ao “pai da aviação”. Ele nasceu em Palmira, Minas Gerais (hoje denominada Santos Dumont) e faleceu em Guarujá em 23 de julho de 1932, aos 59 anos.

Ei-lo conduzindo o seu Demoiselle até a Issy-les-Moulineaux, sudoeste de Paris, às margens do rio Sena. Foto: Revista Careta, RJ, 2 de julho de 1909.

 O seu Demoiselle. Careta, RJ, 02.07.2909.
O aeroplano Demoiselle decolando em Issy-les-Moulineaux. Careta, RJ, 02.07.1909.

O Demoiselle em pleno vôo. Revista Illustração Brasileira, RJ, 15.10.1909.

                    Santos Dumont em sua última foto. Revista Careta, RJ, 24 de dezembro de 1932.
 
 Cortejo fúnebre de Santos Dumont na Praça da República, Rio de Janeiro.(Revista Careta, 24/12/1932).
 
 Esquife de Santos Dumont conduzido por Cadetes da Escola Militar. (Revista Careta, 24/12/1932).
 
Outro aspecto do cortejo. (Revista Careta, 24/12/1932).

Monumento e túmulo de Santos Dumont, mandado construir pelo próprio, no cemitério São João Batista, onde repousam também os restos mortais de seus pais: Francisca e Henrique Dumont.(Revista O MALHO, 17/12/1932).
 

terça-feira, junho 18

MEU ENCONTRO COM...

MAJOR LUIZ

Por Etevaldo Amorim

Da escola, na verdade uma banca de estudos – espécie de cursinho para o Exame de Admissão ao Ginásio, que tinha como professor o meu bom e velho amigo Lindalvo Costa — ouvimos um barulho de lancha chegando ao porto. Não era o horário das lanchas que faziam a linha Penedo-Piranhas. Logo soubemos que nela chegara o ex-governador Luiz Cavalcante.

Desembarcou acompanhado apenas de um assessor e logo foi cercado por um grande número de meninos e meninas, e até moças, que o conheciam muito bem, já que alguns anos atrás ele visitara o Limoeiro como Governador do Estado. Naquela ocasião, com uma grande comitiva, distribuiu muitos presentes: brinquedos para as crianças, cortes de chita para as senhoras... depois foi embora no velho navio Comendador Peixoto, que já dava seus últimos apitos. Agora, num belo dia do ano de 1968, retornava como Deputado Federal.

Subiu do “porto de baixo” direto para a Rua do Meio. Conversou um pouco com Seu Josias, um carpinteiro que improvisava uma oficina à sombra do oitão da Igreja. Trocou com ele algumas palavras, numa prosa que parecia ser de dois homens do mesmo nível. Lembro-me bem desta frase:

— “Então o senhor é o carapina daqui, heim?!!!.

Seu Josias sorriu e ele se voltou para nós. Reuniu a meninada, e iniciou uma espécie de olimpíada de brincadeiras (corridas de saco, adivinhações, etc.) com as quais premiava os vencedores. Ficamos assim por algum tempo até juntar todos na alta calçada da casa de Seu Juca para uma fotografia. Algum tempo depois, ele nos mandou a fotografia que tiramos juntos e que segue abaixo.

Já na descida para o porto de baixo, sentou-se na calçada da casa de Seu João Gringo, sempre cercado da garotada. O sol já pendia para o poente e já fazia sombra naquele local. Dali se avistava o nome daquela rua, inscrita na própria parede do prédio dos Correios, na esquina do lado oposto: — RUA MÁRIO VIEIRA — . Ele, então, lançou a pergunta:

— Quem é Mário Vieira?

Ninguém respondeu. Fiquei meio tímido, mas tomei coragem e falei:

— Mário Vieira era um homem daqui do Limoeiro, que foi político e morreu assassinado há muitos anos...

O Major, satisfeito e sorridente, disse-me:

— Muito bem, garoto! Então você conhece a história da sua terra...

Eu poderia não saber de qualquer outra história daquela antiga vila em que passei a morar a partir de 1964, vindo de Campinas, onde nasci. Mas aquela história eu conhecia muito bem. Meu pai me contava que, em janeiro do ano de 1936, durante a Festa dos padroeiros do lugar (Jesus, Maria e José), um grupo de policiais das Volantes (forças que combatiam os cangaceiros), procedentes de Belo Monte, ali chegaram e começaram a desacatar algumas pessoas do lugar. Admoestado por Seu Mário Soares Vieira, que acabara de chegar a cavalo do então povoado São José da Tapera, um deles lançou mão de um fuzil e disparou contra ele a queima-roupa. Em seguida saiu atirando a esmo, atingindo mais duas pessoas, entre estas o garoto Jonas, irmão de meu pai.

Luiz de Souza Cavalcante, embora já General do Exército, continuava sendo chamado de Major Luiz, o mesmo nome com que era tratado ao entrar para a política depois de um bom trabalho à frente da Companhia de Estradas de Rodagem, atual DER. Foi governador, vindo depois a ser, sucessivamente Deputado Federal e Senador pelo partido do Governo, a ARENA – Aliança Renovadora Nacional, depois mudado para PDS – Partido Social Democrático. Malgrado suas posições políticas, tinha um comportamento pessoal bastante afável, o que o tornava muito popular entre a população mais humilde.


Dedico este simples artigo ao meu prezado amigo e colega Engº Agrônomo Hibernon Cavalcante, sobrinho do “Major”.

O Deputado Federal Luiz Cavalcante em Limoeiro (Pão de Açúcar), 1968.

Revendo documentos antigos nos arquivos da minha mãe, encontrei esta foto do Major, distribuída durante a sua visita como Governador. Nela se lê a inscrição: SIMBOLO DA PAZ E DO PROGRESSO. Data de Nascimento:  18 DE JUNHO DE 1913. Noto que, justo hoje, faz CEM ANOS do seu nascimento.



quinta-feira, junho 13

PENSAR EM TI

                                          André Papini Goes¹

“Isso é amor e desse amor se morre”
                                  Gonçalves Dias

Pensar em ti é cantar um hino santo,
É tornar-me risonho quando choro,
É, acordado, sonhar com o teu encanto,
É admirar-te porque mais te adoro.

É da ave ouvir o sonoroso canto,
É sentir da rosa o sublime odoro,
É da virgem beijar o sacro manto,
Aos pés do altar em que contrito exoro.

Pensar em ti é viver num paraíso,
É existir perecendo de saudade,
É lembrar quanto é belo o teu sorriso.

É ver a sã visão da castidade,
É ouvir o brando tilintar d’um guiso.
Pensar em ti é voar à eternidade.
....    ....    ....
Publicado no jornal O Progresso, Penedo-AL,
24 de outubro de 1926.
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¹ ANDRÉ PAPINI GOES, político “penedense”, embora tenha nascido em Brejo Grande, Estado de Sergipe, a 18 de outubro de 1908. Filho de Manoel da Cunha Goes, ainda jovem foi trabalhar no comércio de Penedo, onde funda com seus colegas uma associação de classe da qual se torna um dos diretores.
Com 21 anos, muda-se para o Rio se Janeiro, onde trabalha em banco particular. Logo regressa a Alagoas. Em Maceió, passa a ser auxiliar de gabinete do interventor Hermilo de Freitas Melro, cargo que também ocupa quando da interventoria de Tasso de Oliveira Tinoco. Em 1932, integra um batalhão de voluntários da Polícia Militar de Alagoas, que foi lutar contra os constitucionalistas de São Paulo.
De retorno a Maceió, atua no Departamento Geral de Estatísticas do Estado e, posteriormente, no Departamento de Assistência aos Municípios, bem como no Departamento de Assistência ao Cooperativismo. Entre 1938 e 1940, secretaria, em Porto Alegre, o Departamento de Estatística do Rio Grande do Sul. Retorna, em 1943, para Maceió, mas logo depois passa a estudar na Faculdade de Direito do Recife, onde se forma em 1947². Como estudante, participou de congressos nacionais da UNE – União Nacional dos Estudantes, como representante de Alagoas. Secretaria o Jornal de Alagoas e, em seguida, passa a ser diretor do A Voz do Povo, jornal do Partido Comunista.
Eleito, em 19 de janeiro de 1947 Deputado Estadual, pelo Partido Comunista do Brasil, juntamente com José Maria Cavalcante e Moacir Andrade. Em 1948, os três foram cassados. Papini passa a viver no Recife onde advoga, principalmente em defesa dos operários. Aprovado em concurso, torna-se Fiscal do Imposto de Consumo, tendo trabalhado em João Pessoa, Manaus e Maceió, onde foi lotado na Contadoria Seccional do Ministério da Fazenda. Transferido para o Rio de Janeiro, foi assessor do diretor de rendas internas, do Ministério da Fazenda, cargo que ocupava quando veio a falecer, a 7 de julho de 1966.
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Fonte: ABC das Alagoas, Francisco Reynaldo Amorim de Barros.
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² Foram colegas de André Papini: Jacques Azevedo, Djalma Souto Maior Paes, Kerginaldo Rodrigues de Carvalho, Pedro Viana Neto, Sebastião Marinho Muniz Falcão, Natanael Bezerra Vale, Luiz Alves Pinto, Danilo de Carvalho Lima, Aluisio Alves, Antônio Meira Bastos, Helio Gazzaneo e Nelson Deodato Fernandes de Negreiros.

Fonte: Revista MOCIDADE, Maceió, Janeiro de 1948.

sábado, junho 8

SONETO DO AMOR PERDIDO

                        Massilon Ferreira da Silva¹

Tanto tempo esperei falar-te, e agora
Que estás aqui não sei o que dizer-te.
Era tão grande o medo de perder-te,
Que te fui perdendo pela vida afora.

O tempo que cuidou de aproximar
Nossos caminhos, de igual modo fez,
Como num sonho, o encanto se quebrar.
E assim fazendo te perdi de vez.

E agora, ao fim de tanto tempo,
Vejo, do alto do meu desalento,
Que a todo tempo te busquei a esmo.

Tanto te amava e tanto de queria,
Tanto te achava e tanto te perdia,
Que não te vi morrer em mim mesmo.
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¹ É advogado. Nascido em Pão de Açúcar-AL a 6 de março de 1954.

domingo, maio 26

DIVINA MENTIRA

                                        Judas Isgorogota¹

 Pobrezinha da mãe que teve um filho poeta
E o viu cedo partir para as bandas do mar,
Nunca mais que ele volte à mansão predileta,
Nunca mais que ela deixe, um dia, de chorar!…

 É como a água de um lago, inteiramente quieta,
A alma de toda mãe que vive a meditar:
— O mais leve sussurro é-lhe um toque de seta,
— A mais leve impressão basta para a assustar!…

 Eu, por sabê-la assim, quando lhe escrevo, digo:
 “— Minha querida mãe, não se aflija comigo.
E eu vou passando bem… Jesus vela por mim…”

 É que assim ela, a humana expressão da bondade,
Contente por saber que vou sem novidade,
Jamais há de pensar que eu vá mentir-lhe assim!…


Judas Isgorogota. Acervo de Herman Fonseca de Melo, neto do poeta.


¹ Pseudônimo de Agnelo Rodrigues de Melo, poeta e Jornalista brasileiro. Nasceu em Lagoa da Canoa, Alagoas em 15 de setembro de 1901. Viveu em Maceió, mudou-se aos 23 anos para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo onde ganhou projeção internacional e veio a falecer em 1979. Publicou 15 livros de poesias, uma novela e cinco de poesias infantis. Parte de sua obra poética traduzida para vários idiomas (francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, húngaro, árabe, checo e lituano). Com toda essa bagagem é quase um desconhecido em sua terra.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia