sexta-feira, outubro 11

SILOGISMO

Rosália Sandoval
                         (retribuindo ao ilustre poeta Olympio Fernandes)

“Que é a vida? — indaguei ao potentado
que milhões e milhões vive a ganhar.
Disse-me ele, num sorriso apalermado:
— “Gozar! Gozar!, Gozar!

Interroguei ao pobre: “Que é a vida?”
Ele me respondeu quase a chorar:
— “Bem o saber, oh alma entristecida...
— “Lutar! Lutar! Lutar!”

E ao poeta que afina a terna lira,
pergunto: — “Que é a vida?” — Ele a cantar
responde como a aragem que suspira:
— “Amar! Sofrer! Sonhar!”
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Colhida do jornal Gutenberg, Maceió, 23 de agosto de 1908.


segunda-feira, setembro 30

BRÁULIO X BRAYNER – A PENA E A ESPADA

Etevaldo Amorim¹

Publicado no nº 2 da Revista do Arquivo Público do Estado de Alagoas, cujo lançamento se deu na tarde do dia 27 próximo passado, no Museu Palácio Floriano Peixoto. À solenidade compareceram, entre outras autoridades, o Diretor do APA, Dr. Marcos Vasconcelos Filho e o Dr. Álvaro Antônio Melo Machado, Secretário-Chefe do Gabinete Civil.

O Diretor do APA, Marcos Vasconcelos Filho.

O Dr. Álvaro Antônio Melo Machado, Secretário-Chefe do Gabinete Civil. Foto: Agência Alagoas.





RESUMO

Dois homens, de convicções bem diferentes, são levados pelo destino a um encontro fatal na Praça dos Martírios, palco de um dos mais importantes acontecimentos da história de Alagoas. Braulio Cavalcante e o Tenente Brayner. Cem anos são passados, mas aqueles fatos adquiriram tal magnitude, que nos impõe a tarefa, quase dever, de registrá-los para conhecimento desta geração e das gerações futuras.

sábado, setembro 7

A POESIA DE SABINO ROMARIZ

DE LARVA EM AVE

Sabino Romariz

Eu me vou transformar em vala tenebrosa,
Triste vala comum, quando cadáver for,
Na corola gentil de aromática rosa,
Ou no caule hibernal de uma esquálida flor.

Em lírio, talvez, de feição caprichosa,
Mais roxo q’a saudade e mais triste q’a dor,
Que do sono e da paz do cemitério goza,
Uma vala comum sob um céu multicor.

Então, pela tardinha, ao frouxo sol do ocaso,
Qual macerado olhar, bem de lágrimas raso,
Ao despertar da lua e quando tomba o sol.

Aos lampejos do luar pelas ínvias estradas
Eu poderei soltar canções apaixonadas
Carne livre do mal, ditoso rouxinol.
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Retirado do jornal A Flor, Penedo-AL, 20 de outubro de 1909.

terça-feira, agosto 27

THEOPHANES BRANDÃO

          COROA DE ESPINHOS

                                                      Theophanes Bandão

Na granja de minha alma apenas mora
A lágrima de sangue vegetando
E desferindo cânticos eu ando
— Um crepúsculo eterno à luz d’Aurora.

Qu’estes sorrisos pálidos agora,
São d’alvas ilusões um triste bando,
Que neste coração murcharam quando
O amor batendo as asas foi-se embora!

Vai-me fugindo um resto de conforto,
Eu já não sinto mais, quase que morto,
Trinar um’ave em meus beirais mesquinhos.

E minha alma a bater de porta em porta,
Aos corações de bem piedade exorta,
Mostrando um peito cravejado d’espinhos!

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Retirado do GERMINAL, Penedo, 30 de dezembro de 1909.  

AS ESTAÇÕES

                                       Theophanes Brandão

Quando a menina corre pelos prados
Atrás das borboletas... primavera!
O amor corre a teus pés, lança-lhe flores,
E aos seus ouvidos diz baixinho: — ESPERA!

Quando a menina no verão ardente,
Mira a rolinha que o pombinho chama,
Ao sol poente, quando a brisa geme,
O amor a c’roa e diz baixinho: — AMA!

E no outono da vida a flor é fruto,
Sombria a mata, a lua é tão saudosa,
A moça é terna, seu amante abraça,
O amor diz baixinho aos seus ouvidos: — GOZA!

O inverno chega quando tudo é calmo;
O sol da vida já não mais aquece:
Da mulher a beleza é já fanada,
Ela é tão só! E o amor diz baixinho: — ESQUECE!

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Retirado de GERMINAL, Penedo-AL, 19 de dezembro de 1909.


DILÚVIO DE LÁGRIMAS

                                             Theophanes Brandão

Quem pode amar, se tem despedaçado
O peito pela mágoa a mais profunda,
Mágoa tão grande que a alma inteira inunda,
Como um dilúvio todo ensanguentado?

Se tem o coração de lado a lado
Ferido pela lança aguda e fria
Da mais antiga e estúpida agonia
E à nostalgia vive condenado?

Se em lágrima de fel se despedaça,
E vê como entre rolos de fumaça,
Desvanecer-se a antiga fantasia?

Quem pode assim, quem pode, quando
A vida foge e a morte vem chegando
Solene; triste; trágica e sombria?
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Retirado de O CRUZEIRO, Penedo, Alagoas, 28 de agosto de 1909.

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A AGONIA DO BOÊMIO

(Ao poeta Costa e Silva)

                        Theophanes Brandão¹

Um verso por um pão, dúzias de rimas,
Grita o boêmio, a cara dos burgueses,
Há nelas, a granel, vícios franceses.
Devassidões excêntricas e opimas.

Volúpia própria de diverso clima,
Verdadeiras cantaridas, às vezes,
Vermelhos e picantes estremezes,
Do que a velhice mais moderna estima.

Chocarrices faceiras, voluptuosas,
Serpentes negras abraçando rosas,
Ações trincando o defendido pomo

Rendilhado à linguagem mais devassa,
Tudo isso por um pão quase de graça;
Mas venha o pão que, há dias, que não como.
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Retirado de O CRUZEIRO, Penedo(AL), 30 de setembro de 1909.
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¹ Theophanes Martins Brandão foi professor do colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro e autor de belos poemas, dentre os quais se destaca o denominado Trevas e Sóis. Filho de Manoel Martins Brandão e Maria Lusia Brandão, nascem em Porto Real do Colégio, Estado de Alagoas, no dia 27 de dezembro de 1875. Faleceu em Penedo no ano de 1954.

Teophanes Brandão - fonte: Casa do Penedo. Gentil oferta do historiador David Roberto Bandeira.

Revista FON FON, Rio de Janeiro, 25 de abril de 1925. O professor Theophanes Brandão durante a Conferência que proferiu no Centro Alagoano, no dia 19 de abril de 1925, com o tema Os dez mandamentos cívicos” ou “O decálogo da mocidade” 

segunda-feira, agosto 26

NA PRAIA DA MINHA TERRA

                              Agrippino Ether

Ainda os vejo lá:
            os capacetes agitando,
            coqueiros do Sobral,
soldados,
                        de atalaia,
                                  guardando
                                        enfileirados
A enorme vastidão daquela praia.

O coqueiral!...
             De um lado —Jaraguá;
             do outro lado, tão bonita!
                        a cismar,
de verde toda enfeitada,
             naquela curva infinita,
             —a Pajuçara, sentada
na orla branca do mar.

No meio dessa esplêndida paisagem,
miragem,
             onde cantaram sereias,
              onde rolaram fetiches,
sobre o lençol tão branco das areias,
a reticência negra dos trapiches...

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Publicado na revista Fon Fon, Rio de Janeiro,
23 de janeiro de 1932.


Prof. Agrippino Ether. Foto disponível em:
 

AGRIPINO ALVES ETHER

(São Luís do Quitunde, segundo a informação da AAL. Solange Lages, no discurso de posse, pois o sucedeu, afirma ter nascido em Maceió AL 21/7/1886 (segundo Adalberto Marroquim), ou 23 ou 26/7/1885 ou 1887 - Rio de Janeiro RJ 23/10/1954) Jornalista, professor, dentista, advogado. Filho de Olímpio Dias Ferreira Ether e Francelina Alves Ether. Estudou no Colégio 24 de Fevereiro, depois no Seminário de Olinda e posteriormente no de Maceió, onde terminou o Curso de Filosofia. Bacharelou-se em Letras, no Liceu Alagoano, e logo depois, seguiu para a Bahia. Diplomado em Odontologia (1909), pela Faculdade de Medicina da Bahia. Retorna a Maceió, onde instala sua clínica, tendo sido o primeiro gabinete eletrodentário de Maceió. Mantém, contudo, sua atividade de jornalista, tendo sido um dos fundadores de O Semeador. Por razões políticas muda-se para o Rio de Janeiro. Forma-se em Direito, pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro (1930). Professor catedrático da Faculdade Fluminense de Medicina e da Faculdade Nacional de Odontologia. esta última da então Universidade do Brasil. Membro-fundador da AAL, sendo o primeiro ocupante da cadeira 28, da qual o poeta Franco Jatobá é o patrono. Secretario Geral do Instituto Brasileiro de Estomatologia (1935/36). Professor honorário da Faculdade de Farmácia e Odontologia de Manaus. Faleceu, repentinamente, quando tinha sido escolhido paraninfo pelos doutorando da Faculdade Fluminense de Medicina. Pertenceu a sociedades científicas nacionais e internacionais. Um dos membros fundadores a Academia Brasileira de Odontologia. Patrono da cadeira n. 97 da Academia Brasileira de Medicina Militar. Dirigiu a revista Brasil Odontológico. Publicou: Inverno, 1920 (palestra literária); Ninféia, 1920 (palestra literária); Homenagem à Memória de Rui Barbosa. Discursos Pronunciados na Academia Alagoana de Letras, Maceió, 1923; Rui Barbosa, 1923 (estudo crítico); Cinzas (poesia); Mentira (poesia); Rictus Faciais no Crime; Moldagem em Prótese Buco-Facial, Rio de Janeiro, Ed. Pongetti, 1935; Silêncio, Rio de Janeiro, Empresa Número, 1931; Escute, Rio de Janeiro, Ed. Borsoi, 1938; Infecções em Foco, Revista Brasil Odontológico, 1925; O Molar dos Seis Anos, conferência na Associação Médica Cirúrgica de Alagoas, 1922; O Mercúrio nas Obturações Metálicas, Revista Brasil Odontológico, 1925; Odontologia ou Estomatologia, tese ao 2o. Congresso Odontológico Latino-Americano, Buenos Aires, 1925; A Luta Contra a Tuberculose, Revista Brasil Odontológico, 1925; Glândulas Endócrinas, livreto, 1926; As Infecções Dentárias. Brasil Odontológico, 3 (1-2): 5, jul. ago. 1926; O Câncer, Tese ao 3o. Congresso Latino-Americano de Odontologia, 1929; Pulpectomia versus Despulpação, Brasil Odontológico, 10(10); 170-172, abr. 1930 ; Um Dente Infectado Como Causa de Êxito Letal, Revista Farmacêutica Odontológica, (3):1/3, out., 1934; Com a .Vida Médica., livreto, 1934; Moldagem, 1935; Antro de Highmore, Revista de Farmácia e Odontologia, 1937; Fraturas Mandibulares, Revista Farmácia e Odontologia, p. 179, palestra no Curso de Preparação da Reserva Odontológica (1942-43); A Diafanização nos Domínios da Anatomia Patológica, Revista Farm. Odont. (88): 1-6, junho, 1948; A Diafanização: Sua Importância e o que a Mesma Nos Revela, (trabalho apresentado à Academia Brasileira do Odontologia (1952). In Agripino Ether (Necrológio), Revista do Sindicato dos Odontólogos do Rio de Janeiro, (2):32-42, out./nov. , 1954. Traduziu: Profilaxia do Câncer de Darier, Lemaitre e Monier, 1925; Cirurgia Oral de Francisco Pucci, 1929; Atlas Anatômico de Baillères, 1929. Teria deixado inéditos: Ururbu e Florilégio.

 
Fonte: BARROS, Francisco Reynaldo Amorim de. ABC DAS ALAGOAS. Disponível em: http://www.abcdasalagoas.com.br/public_html/verbetes


sábado, agosto 10

DIA DOS PAIS

O HERÓI

                              Judas Isgorogota¹

"— Papai, o que é um herói?
Eu pergunto por que tenho grande vontade
De ser herói também ...
Será que posso ser herói sem entrar numa guerra?
Será que posso ser herói sem odiar os homens
E sem matar alguém?"

O homem, que já sofrera as mais fundas angústias
E as mais feias misérias,
Trabalhando a aridez de uma terra infecunda
Para que não faltasse o pão no pequenino lar;

O homem, que as mais humildes ilusões perdera
No seu cotidiano e ingrato labutar;
Aquele homem, ao ouvir a pergunta do filho:
— "Papai, o que é um herói?"
Nada soube dizer, nada pôde explicar...

Tomou de uma peneira
E cantando saiu, outra vez, a semear!
______________

¹ Pseudônimo de Agnelo Rodrigues de Melo, poeta e Jornalista brasileiro. Nasceu em Lagoa da Canoa, Alagoas em 15 de setembro de 1901. Viveu em Maceió, mudou-se aos 23 anos para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo onde ganhou projeção internacional e veio a falecer em 1979. Era casado com Nazira César de Melo, com que teve uma filha chamada Rima, nascida em São Paulo, a 24 de outubro de 1934. Publicou 15 livros de poesias, uma novela e cinco de poesias infantis. Parte de sua obra poética traduzida para vários idiomas (francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, húngaro, árabe, checo e lituano). Com toda essa bagagem é quase um desconhecido em sua terra. O poeta teve uma filha à qual deu o nome de Rima Augusta.

sábado, agosto 3

POEMAS


                Jorge de Lima


Remédios,
Carrapetas,
Taramelas,
E há a cana que dá tudo,
Porque dá ao homem triste dessas terras
A alegria cor de brasa da embriaguêz
E o esquecimento cor de cinza que vem dela.
______________

Publicado na revista O Malho-RJ, 20/07/1933.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia