sábado, fevereiro 7

UFAL 1979 — A GREVE DA ENGENHARIA



Por Etevaldo Amorim

            Há poucos dias li, com agradável surpresa, um novo artigo no Blog do meu prezado amigo Edberto Ticianeli Pinto, sob o título “A GREVE DA ENGENHARIA DE 1979 E O AUTORITARISMO NA UFAL”.

Esse pão-de-açucarense, que divide o sobrenome entre a descendência materna italiana e a procedência lusitana dos Soares Pinto, de Pão de Açúcar, narrou, com conhecimento de causa, aquele episódio marcante do movimento estudantil alagoano. E não se limitou a relatar o fato em si, mas discorreu sobre os antecedentes e o contexto político em que se deu.
           
            Eu próprio, que como estudante de Agronomia apenas engrossava o coro e fazia número na plateia, já esboçara um arremedo de artigo, sem, contudo, me arriscar a publicá-lo por considerá-lo pobre de informações, circunscrito apenas ao relato do que a memória conseguiu guardar.
                       
Era tarde do dia 29 de novembro de 1979, uma quinta-feira. Centenas de estudantes dos mais diversos cursos da UFAL se reúnem na Praça Sinimbu, em frente ao prédio da Reitoria. O ato fora convocado pelo comando de greve dos alunos de Engenharia Civil, cuja paralisação já contava mais de trinta dias. O objetivo do movimento era a substituição do Professor Arlindo Cabús, titular da disciplina Resistência dos Materiais, recordista em reprovações. Naquela tarde se realizaria a solenidade de posse no novo Reitor da Universidade, o Professor João Azevedo[i], que sucederia a Manuel Ramalho[ii].

            As lideranças estudantis se revezavam em discursos, entre elas o Deputado Estadual Renan Calheiros e Aldo Rebelo[iii], recém-eleito Secretário Geral da UNE – União Nacional dos Estudantes, cujo Congresso de Reconstrução se realizara recentemente em Salvador. Destacavam-se também Maurício de Macedo, Presidente do DCE – Diretório Central dos Estudantes, Edberto Ticianeli e Thomás Beltrão, ambos da Turma de Engenharia.

Empunhando um grande número de faixas e cartazes, com dizeres como: “ABAIXO O CABUS, POR UMA UNIVERSIDADE DEMOCRÁTICA” e “500 x 1 CONTRA O CABUS”, os estudantes expressavam o seu descontentamento com aquele professor, mas também levantavam bandeiras histórias do movimento estudantil: “MAIS AUTONOMIA E MAIOR PARTICIPAÇÃO NOS RUMOS DA UNIVERSIDADE” e “COMISSÕES PARITÁRIAS DECIDIRÃO O FUTURO UNIVERSITÁRIO”.

            Aproximava-se o horário de início da Solenidade. No momento em que o Governador Guilherme Palmeira e sua Comitiva dirigiam-se à porta principal do prédio, os estudantes entoaram uma sonora vaia, a que a Banda da Polícia Militar, perfilada na calçada, tentava superar tocando tão alto quanto possível.

            As vaias não puderam ser abafadas. Assim que o último membro da comitiva transpôs a porta, os estudantes se puseram em marcha em direção à entrada. Um funcionário ainda tentou impedir, mas sem sucesso. Naquelas circunstâncias, nada os deteria. E foram entrando, acotovelando-se e gritando palavras de ordem, enquanto algumas funcionárias se protegiam por detrás de um balcão. Uma delas, senhora de idade, temendo pelos danos que poderiam causar, sobretudo à solenidade tão cuidadosamente preparada, suplicava aos gritos:

            - Pelo amor de Deus, meus filhos... Hoje não!

            Mas, aquele era o dia. E não havia predisposição para depredação ou algo parecido. E foram subindo pela escadaria que dava para o Auditório. Todos os lugares já estavam tomados. Muitos convidados, funcionários, familiares dos reitores e professores. Ocuparam, então, os espaços do fundo e dos corredores do recinto. Lotação total! Foi um assombro geral. Os convidados olhavam aquilo com verdadeiro espanto. Alguns, com caras de poucos amigos, chegaram a trocar ofensas com os “invasores”.

            Compôs-se a Mesa que deveria dirigir a solenidade. Além do Governador do Estado, que a presidia, ali estavam, à sua direita: o Deputado Estadual Agripino Alexandre, os Ex-Reitores Aristóteles Calazans Simões e Nabuco Lopes, o representante do Ministro e o Prof. João Azevedo. A sua esquerda: o Prof. Manuel Ramalho e o Arcebispo D. Miguel Fenelon Câmara, além de outros professores.

Procedida a transmissão de cargo, a solenidade se encaminhava para o final quando, em uníssono, os estudantes gritaram bem alto:

— “Queremos a palavra, queremos a palavra”...

O Governador, presidindo a Mesa, hesitou. O representante do Ministro da Educação e Cultura (Eduardo Portella[iv]), Prof. Leodegário Amarante de Azevedo Filho[v], cochichou ao ouvido de Guilherme Palmeira como que o aconselhando a atender à reivindicação.

            Palavra concedida, os estudantes indicaram o Secretário Geral da UNE para falar. E lá foi o Aldo, passos lentos, mas firmes em direção ao estrado onde se localizava a enorme Mesa repleta de autoridades. E começou:

“Magnífico Reitor João Azevedo,
Autoridades civis, militares e eclesiásticas aqui presentes,
Companheiros professores,
Colegas de Engenharia,
Companheiros grevistas aqui presentes,


Disse certo, correto e coerente o Professor João Azevedo quando se referiu de maneira serena, de maneira sóbria, de maneira verdadeira à crise, à assombrosa crise que atravessa o ensino superior no Brasil, que atravessa a educação enquanto instituição em nosso País, que atravessa, também, por não fugir à regra, por não ser uma exceção observada, atravessa também a crise, a Universidade Federal de Alagoas.
            Temos conhecimento que, através dos anos, de governos autoritários que se sucederam a Universidade, a Educação deste País foi a vítima maior da diminuição das verbas que afetou os serviços prioritários da Nação, principalmente a saúde, principalmente a educação, principalmente a assistência social. No orçamento de 1980, o governo brasileiro destinará, apenas, 4,28 % do Orçamento do País, como dotação para o Ministério da Educação.
            Isto, senhores professores, Magnífico Reitor, companheiros aqui presentes, significa, infelizmente, a menor quota concedida à educação, nestes últimos quinze anos em nosso País. E isto, tem razão o Professor João Azevedo, é muito grave. É muito grave quanto sabemos que várias escolas de nível superior, neste País, ameaçam fechar, ameaçam cancelar seus vestibulares por não encontrar condições de pagar sequer aos funcionários da limpeza, como é o caso da Universidade Federal de Minas Gerais. O Magnífico Reitor daquela instituição de ensino superior, numa assembléia geral com seus professores, com seus estudantes e com seus funcionários, colocou a dura realidade de que várias escolas da Área de Ciências Humanas da UFMG fechariam suas portas, dispensariam seus estudantes, colocaria a serviço de outras instituições seus professores, por falta absoluta de verba.
            E é particularmente mais grave ainda quando nós sabemos que esta crise não é, apenas, uma crise administrativo-financeira; quando sabemos que esta crise não é apenas crise que não permita que os estudantes da UFAL terem acesso ao restaurante universitário; não pe uma crise, apenas, que não permita que estudantes da UFAL tenham uma biblioteca por cada curso, sem bebedouros funcionando; que obriga os estudantes de Direito e de outros cursos mais a perambularem de sala em sala atrás de uma cadeira onde sentar; não apenas uma crise desse tipo. É uma crise mais profunda. É a própria crise de identidade que separa a educação do povo, que separa a criatividade cultural, que separa a pesquisa científica das necessidades tecnológicas do País, das necessidades culturais, das necessidades econômicas e das necessidades sociais da comunidade. É a crise que afasta o médico, que afasta o engenheiro, que afasta o advogado, que afasta qualquer técnico de nível superior das camadas mais pobres e mais humildes porque não têm condições de pagar um serviço caro, um serviço de alto custo. É uma crise mais grave ainda porque não tem saída, porque não tem outra opção senão quando formado ir servir a interesses alienígenas, aos interesses dos exploradores, daqueles que transferem para cá, que transferem para a nossa Pátria o seu dinheiro para aqui acumular, para aqui nos explorar e para aqui, também, levar o que existe de criatividade em nosso País. E esta crise precisa ser superada.
            Fala o Professor João Azevedo: o homem nordestino, humilde, sereno, altivo ao mesmo tempo, é aquele que só agradece quanto tem certeza de que faz com honestidade. Mas o agradecimento, a certeza da honestidade, a dignidade e a humildade ao mesmo tempo do homem nordestino traz, também, no seu bojo uma história de lutas e uma história de reivindicações que vem desde os tempos do Zumbi do Quilombo dos Palmares, que, rolando as serras, morreu ao lado de milhares de seus compatriotas africanos aqui presentes, ludibriados pelos latifundiários e donos dos engenhos de açúcar. Traz, também, a dignidade da luta dos cangaceiros de Lampião que não se submeteram à perseguição policial e que entraram nas brenhas resistindo o tempo todo.
            E exata resistência, companheiros, é o que nos cabe aqui evocar. É a resistência dos brasileiros, é a resistência que vem desde o tempo dos portugueses quando os estudantes, ao lado deles, expulsaram daqui os franceses; quando os estudantes, ao lado deles, também expulsaram os invasores holandeses. E hoje, aqui presentes, nós temos novamente a dar este testemunho de resistência.
            A universidade subjugada, a universidade submetida, a universidade escravizada, a universidade entregue de braços abertos aos interesses imperialistas, a universidade entregue de braços abertos aos interesses mercantilistas não pode continuar. Essa universidade exige dos estudantes, exige dos professores, exige  de todos os homens de boa vontade, de todos os patriotas, de todos os democratas deste País um posicionamento firme. Não podemos deixar, companheiros, - é também obrigação nossa – que a Universidade Federal do Acre, onde nós estivemos há pouco mais de um mês, seja transformada num campo de concentração que favorecerá, certamente com os cursos que lá estão sendo criados, aos grandes latifundiários que estão destruindo, de uma vez por todas, a Amazônia. Um companheiro nosso mostrava um mapa do Acre, construído há mais de dez anos, onde dezenas (______) estão hoje desaparecidas, morrendo na Cordilheira dos Andes, nas nascentes dos rios Tocantins e Paurus. Esta ameaça que nos fuzila como se animais fossem, é esta ameaça que também paira sobre a universidade.
            E este grito uníssono, este grito bravo, este grito de resistência dos companheiros de Engenharia que aqui se encontram em greve é um testemunho de que, em nossa Terra existe resistência; é um testemunho de que não morreu a luta de Tiradentes; é um testemunho de que não morreu a luta daqueles que tombaram, inclusive estudantes, ao longo desses quinze anos em defesa desta terra explorada e oprimida.
            E agora, quando toma posse o digníssimo, o caríssimo, o Magnífico Reitor João Azevedo, de quem tomamos várias horas em diálogo quando representávamos aqui os estudantes, no seu gabinete de Vice-Reitor, de quem nos aproximamos através de embates sobre nossas reivindicações, agora à tarde, dou o testemunho desses companheiros que estão aqui em greve. Os companheiros de Engenharia querem aula. Os companheiros de Engenharia querem professores. Os companheiros de Engenharia querem melhores condições de ensino, mas os companheiros de Engenharia também querem justiça. Os companheiros de Engenharia exigem que a Universidade democrática seja democrática, também, com os estudantes; que a Universidade combativa tenha, em primeiro lugar, a participação daqueles que a conseguem com o seu saber e a sua cultura; dos professores, dos pesquisadores e, também, dos estudantes, como dos funcionários que, labutando dentro dos gabinetes, e também trabalhando dentro dos laboratórios, constituem a força de trabalho que botam o ensino, a educação e a cultura para frente.
            E este testemunho, finalizando, é testemunho de que o Prof. João Azevedo se comprometerá, certamente, como sempre tentou se comprometer, apesar de não representar a sua própria vontade, apesar de não poder passar, certamente, pelos instrumentos de arbítrio que o prendem, que o amarram como amarram todas as instituições deste País, apesar de, como nós, ser fruto da mesma cadeia que cerceia a liberdade de pesquisa, que cerceia a liberdade da palavra, ele, certamente, se comprometerá com as reivindicações. Ele, certamente, tirará a Universidade, tirará da Escola de Engenharia, se for, realmente, reivindicação justa dos estudantes, um professor que não corresponde às suas aspirações. E ele, certamente, também, se colocará a favor da nossa luta pelo fim desse instrumento opressivo, pelo fim desse instrumento que não ajuda a construção de uma Universidade democrática que ed o maldito instrumento do jubilamento.
             O Prof. João Azevedo, certamente, também, tenderá a compartilhar conosco da reivindicação pela média sete. E o professor João Azevedo que se coloca, realmente, ao lado dos estudantes, e ao lado do povo sofrido, do povo humilhado, do povo ofendido, do povo da favela, do povo ribeirinho, do povo das lagoas e do podo das grandes fazendas da cana-de-açúcar, ele, certamente, levará conosco a bandeira, levará conosco a luta de transformar esta Universidade em algo mais próximo dos estudantes e mais próximo do povo. E a luta também se constitui, não só na luta pela transformação da universidade, porque a universidade não está divorciada de toda uma sociedade que também sofre e é vítima. A nossa luta é a luta pela melhoria das condições de ensino; é a luta pelas reivindicações específicas, mas é, também, a luta pela transformação dessa sociedade brasileira numa sociedade justa, numa sociedade sem exploradores, numa sociedade sem oprimidos, numa sociedade onde homens vivam de barriga cheia.
            Que vivamos num País de liberdade!”

            Enquanto falava, um silêncio quase absoluto se verificou. Os presentes, inclusive as autoridades que compunham a Mesa, ouviam embasbacados um discurso que, essencialmente, destoava do modo de falar da maioria dos estudantes. Sem a costumeira veemência e sem aqueles jargões característicos do movimento estudantil, o discurso de Aldo era pronunciado em tom ameno, voz pausada, quase monótona, mas bem concatenado. Usava as palavras com magnífica habilidade e sabia dar a cada uma delas o peso que realmente tinham: nem mais, nem menos.

Aplausos entusiásticos sucederam o orador, que retornou ao chão onde estavam todos os seus colegas.

Para concluir, posso afirmar que aquele movimento, que teve a sua apoteose naquele Ato e naquele discurso de Aldo, foi plenamente exitoso, sobretudo se considerarmos as circunstâncias daquele momento histórico.

Edberto Ticianeli, em seu Blog, informa que “dias depois, houve uma reunião com o Reitor. João Azevedo explicou as dificuldades regimentais que tinha para afastar o citado professor, mas se comprometeu a ‘promovê-lo’ para outro cargo. No final do ano letivo, Arlindo Cabus assumiu a presidência da COPEVE, a Comissão que organizava o concurso vestibular da UFAL”.

Estudantes reunidos em frente à Reitoria, na Praça Sinimbu. Foto: Jornal de Alagoas.

Aldo Rebelo, Secretário-Geral da UNE, fala aos colegas.

O estudante, e Deputado Estadual Renan Calheiros fala aos colegas, tendo na retaguarda Edberto Ticianeli, Thomás Beltrão e Aldo Rebelo.


Estudantes aglomerados em frente à Reitoria, enquanto a banda toca.

Auditório completamente tomado por convidados e pelos estudantes.

Estudantes sentados no chão entre os convidados. O comendador Tércio Wanderley (terno escuro e óculos) e, à direita, de bigode preto (ainda), o autor destas linhas.

Outro grupo de estudantes, vendo-se o Deputado Estadual Renan Calheiros (de óculos)

Mais um grupo de estudantes, vendo-se à frente (à direita), Maurício Macedo.

O Professor Arlindo Cabus, sentado ao centro, o motivo da greve.

Aldo Rebelo faz uso da palavra representando os estudantes.

REFERÊNCIAS.

AZEVEDO, João (Coord.). UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS: DOCUMENTOS HISTÓRICOS. Maceió, 1982.

JORNAL DE ALAGOAS, 30 de novembro de 1979.



[i] João Ferreira Azevedo, Reitor de 29/11/1979 a 29/11/1983.

[ii] Manuel Machado Ramalho de Azevedo, Reitor entre 28/11/1975 a 28/11/1979.

[iii] José Aldo Rebelo Figueiredo nasceu em Viçosa-AL, em 23 de fevereiro de 1956. Jornalista e político filiado ao PC do B, foi Secretário-Geral e Presidente da UNE; Vereador por São Paulo e Deputado Federal por cinco Legislaturas, também representando o povo paulista. Foi Presidente da Câmara dos Deputados, chegando a assumir interinamente a Presidência da República. Foi Ministro da Secretaria de Articulação Política e Relações Institucionais; Ministro do Esporte de 27 de outubro de 2011 a 1º de Janeiro de 2015 quando assumiu o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

[iv] Eduardo Mattos Portella, crítico, professor, escritor, conferencista, pesquisador, pensador, advogado e político, nasceu em Salvador em 8 de outubro de 1932. Foi Ministro da Educação e Cultura entre 15 de março 1979 e 26 de novembro de 1980. Foi demitido porque apoiou a greve dos professores da UFRJ, cunhando a famosa frase: “Eu não sou Ministro, eu estou Ministro”, para deixar registrada a transitoriedade do cargo.

[v] Leodegário Amarante de Azevedo Filho, nasceu no Recife em 1927 e faleceu em 30 de janeiro de 2011 no Rio de Janeiro Foi Professor Titular e Emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

domingo, novembro 16

SONETO

(Composto por D. Pedro II na noite de 15 para 16 de novembro de 1889.)


Não maldigo o rigor na iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arraneando-me o trono e a majestade,
Quando a dois passos estou da morte.

Dos jogos das paixões, minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua felicidade
E amanhã nenhum bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia, a que maltrata,
A dor cruel, que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto o mata;

É ver na mão cuspir, à extrema hora,
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs outrora.

______________
Extraído do jornal O ÍNDIO, Palmeira dos Indios, 20/11/1921.
Disponível em:

segunda-feira, outubro 27

SONETO

Massilon Ferreira da Silva¹

Ao morrer que me deixem ser levado
Em pomposo cortejo que evolui
Em cantos solenes entoados,
Qual soberano egípcio (que não fui)

Depositem meu corpo inanimado
Num sarcófago envolto em ouro e prata,
E por companheiros, bem ao lado,
O wisk e o cigarro de Sinatra.

Sob a luz de uma estrela radiosa
E ao som de melodias eloquentes,
Habitarei entre jardins em Nínive.

Adornado com pétalas de rosas,
Embriagar -me - ei eternamente
De amor das mulheres que não tive.
____________


sábado, outubro 25

NOITE DE INSÔNIA

Arthur Azevedo

Se há marido e mulher perfeitamente felizes, são os Guedes. Não se casaram por paixão, mas o amor nunca lhes desertou da casa. Há muito tempo que isto dura, como no primeiro dia.
            D. Hortência não tem ciúme do Guedes, nem este lhe dá motivos para isso. É verdade que, com três ou quatro meses de casado, começou a esgueirar-se depois do jantar, voltando à meia-noite. Mas, ainda hoje, nenhuma só vez capaz de sair sem perguntar a D. Hortência:
            — Queres ir?
Ela prefere ficar em casa. Ainda está por haver outra senhora mais amiga dos seus cômodos.
            Uma noite, por acaso, Guedes entrou em casa fora da hora habitual, e D. Hortência no dia seguinte pediu-lhe, com muito bons modos, que nunca mais ficasse além da meia-noite.
            — Bravo! – exclamou o marido. Aí estão eles!
            — Eles quem?
            — Os ciúmes!
            — Ora, que tolice! Ciúmes de que? De quem? Não, senhor. Não são ciúmes. Apenas acho muito feio que um homem casado fique na rua depois de meia-noite, sem sua mulher.
            — Desculpa, o meu relógio estava atrasado.
            — Olha, se repetes esta gracinha, ciúmes não tenho, mas zango-me deveras. Vê que é a primeira coisa que te peço.
            — E espero que não seja a última.
            Daí por diante o relógio do Guedes nunca mais se atrasou. Era dar meia-noite e ele a entrar em casa. D. Hortência adormecia invariavelmente uma hora antes. Os dois esposos só se falavam pela manhã.
II
            Entretanto, o Guedes era um modelo de fidelidade conjugal; resistia a todas as tentações, livrando-se vitorioso dos mais arriscados encontros. Ia todas as noites aos teatros, mas só dava atenção às peças que se representavam e aos amigos com quem se aborrecia nos entreatos.
            Uma noite — noite fatal, um amigo: o Remígio, o encontrou no Recreio e o convidou para uma ligeira patuscada, perto dali, na rua do Núncio. Batizava seu filho. Tratava de dar cabo a um magnífico peru, que em vida se mostrara digno de um jardim zoológico e, depois de morto, faria as delícias do mais impertinente luculo.
            O Guedes era o que se chama um bom garfo. E em se tratando de peru assado, o pobre rapaz estava perdido. Por isto aceitou o convite depois de perguntar:
            — À meia-noite eu posso estar em casa?
            — Ora! Ora! Ora!

III
            À meia-noite ainda o peru estava intacto, e os convidados do Remígio fariam cruzes na boca. O Guedes, esquentado por alguns cálices de conhaque e interessado por uma partida de gamão, deixava-se estar muito tranquilo, à espera que dessem o sinal de ataque.
            Para encurtar razões, quando deu por si, passava de três horas.
            — Que diabos!
            Saiu inquieto e meio lá meio cá porque o peru tinha sido abundantemente regado a um delicioso Collares.
            Quando chegou ao Largo da Carioca, os operários passavam para o trabalho, os vendedores ambulantes de peixe, fruta e verdura atravessavam as ruas com os samburás vazios, na direção do Mercado.
            A cidade despertava.
            — Ora esta! Ora esta! Com que cara vou aparecer a Hortência? Ora esta!
            E quando entrou nos penates, era dia claro!
IV
            Penetrou no quarto de toucar que ficava contíguo à alcova conjugal, sem que a porta rangesse nos gonzos, como de costume, e começou a despir-se.
            Mas, era preciso luz: não havia meio de encontrar as chinelas. O Guedes riscou um fósforo e acendeu o bico de gás. Nisto, ouviu D Hortência remexer-se no leito e suspirar largamente. Ficou frio como um ladrão.
            O pobre marido estava pronto para ir deitar-se e cobrava ânimo para entrar na alcova, quando a voz de D. Hortência quebrou aquele silêncio profundo:
            — Guedes?
            Mas esse “Guedes” era dito num tom sereno, tranquilo, afetuoso.
            O delinquente não respondeu; ela repetiu:
            — Guedes?
            — Heim?
            — Aonde vai você tão cedo?
            — Como?
            — Você não se está vestindo para sair?
            O Guedes compreendeu tudo. Estava salvo! E respondeu imperturbavelmente:
            — Passei uma noite de insônia. Desde a meia-noite que me viro e reviro em nossa cama. Vou respirar um pouco do ar da manhã, e ver se me faz bem...
            E o mísero rapaz, cansado, aborrecido, morto de sono — e meio cá meio lá — teve que vestir-se de novo e dar um passeio matinal... forçado.

            Estava punido, e D. Hortência vingada... sem o saber.
____________
Extraído do jornal pão-de-açucarense A IDÉIA, 1910. 

Arthur Azevedo. Nasceu em São Luiz (MA), a 07/07/1855 e faleceu no Rio de Janeiro, a 22/10/1908.
Filho de David Gonçalves de Azevedo (Vice-Cônsul de Portugal em São Luiz) e Emília Amália Pinto de Magalhães. Era irmão mais velho de Aluísio Azevedo, autor de O Cortiço.

sexta-feira, setembro 19

SANTA CRUZ DO DESERTO

Por Etevaldo Amorim

Durante o curto período em que exerci a função de Extensionista, na antiga EMATER, tive oportunidade de ministrar um curso de formação num pequeno vilarejo do município de Mata Grande: Santa Cruz do Deserto. Ali, na pequena capela, diante de um grupo de agricultores prejudicados pela seca, tentava incutir em suas mentes algo de técnico, como era do meu ofício. Lembro-me de, ao final, uma mocinha vir me entregar um papel, uma folha de caderno. Ali ela escrevera, em nome de seu pai, pobre agricultor, um relato dramático da sua situação, que era, na verdade, comum a todos.
Nas reuniões, no Escritório Regional em Santana do Ipanema, os colegas faziam chacota, achando engraçado aquele nome. Santa Cruz do Deserto... Pleno sertão, no caminho entre Mata Grande e Água Branca, antes de subir a serra. Muitas vezes passei por lá a caminho de Delmiro Gouveia, onde respondi, por menos tempo ainda, pelo Escritório Local.
Hoje, vendo um exemplar do Jornal do Penedo, edição de 25 de janeiro de 1879, encontro uma nota de alguém que se assina com o pseudônimo de “S.”, revelando como se fundou a capela daquele lugar. Como sei que muitos, talvez, não terão a oportunidade de ler, transcrevo a seguir:

“Lá, em um sítio solitário, quatro léguas acima da Mata Grande, Santa Cruz do Deserto é a primeira terra que se oferece aos olhos do que sobe de Terra Nova.
Quem sobe deste lugarejo, virando as costas para o sol, no fim de três léguas, a Norte de Pariconha, as eminências abaixando-se, retraindo-se, avista uma fita de terreno fértil e vicejante, assombrado de frescos arvoredos, qual é a planície abençoada da Santa Cruz do Deserto.
Em meio duma catinga esfarelada e rasa, entre serras que se arredondam, cingindo-a, o viajante pasma diante do espetáculo daquele sítio aonde se comove e exalta a cada passo.
É justamente o ponto mais vistoso deste sítio ameno e risonho que a piedade dos fiéis, muitos anos há, venerou, construindo uma capela, ou santuário, ornada de um só altar dedicado à Santa Cruz.
É célebre a história deste santuário, tão visitado pela devoção dos peregrinos, tão falado pelos seus grandes milagres.
Uma pia e velha tradição sustenta que, durante o ano de 1793, o famigerado Frei Vidal¹, que percorria a Província pregando e fazendo boas obras, descansou naquele ermo, então viçoso de ricos cedros e vistosos pereiros, cuja flor balsâmica recendia com fragrância a largo espaço.
Antes de prosseguir sua marcha, em memória da sua passagem por ali, mandou juntar duas achas de tosco e tortuoso cedro em forma de CRUZ e, benzendo-a, fincou-a no chão, ao lado esquerdo do atalho que dá para a Mata Grande.
Não muito depois do ano indicado, enfermo e desconfiado dos remédios da medicina, um rústico lembrou-se de invocar e abraçar-se com a valiosa proteção da SANTA CRUZ DO DESERTO. Sucedeu como a esperança lho prometia; porque, no mesmo instante, desapareceu o mal e voltou-lhe a saúde. Para logo o camponês fez cobrir a Santa Cruz, até então posta ao desabrigo, com uma pequena casa de oração.
Mais tarde, a primeira Família da Mata Grande, no seu tributo religioso, mandou construir ali uma Capela, que é a que ainda hoje existe.
Tal é o resumo da história do santuário, em que a reverência dos peregrinos, no ardor do seu entranhado reconhecimento, sagrou a sua memória dos grandes prodígios da SANTA CRUZ DO DESERTO, estampados nas paredes laterais e atulhados à direita e à esquerda da porta principal.
Contemplar aqueles testemunhos, tão eloquentes na sua mudez, é decerto exultar de alegria e ao mesmo tempo bendizer o símbolo sagrado da Redenção.
Ainda hoje, que tantas ruínas atestam a assolação carregada das iras celestes, que passou por cima das povoações vizinhas, ainda hoje SANTA CRUZ DO DESERTO como que só existe para nos apontar o que era e o que é: um padrão de glória.
Ontem, como hoje, no século que já lá foi, como no em que estamos, a Santa-Cruz do Deserto não foi invocada inutilmente. Esta é a razão por que, a cada passo, está sendo visitada por todas as classes e estados.
Ali o Cristo sincero exclama comovido:
— Senhor, Rei da Cruz, tenho fé; ajudai a minha fraqueza!
Ali os crentes simples de coração se consolam na doce esperança de que a suma retidão pagará as tristezas e trabalhos da vida presente com as venturas perenes, afiançadas  aos justos e fiéis.
Ali os corações devotos se abrasam no incêndio do amor para com AQUELE que se sacrificou por nós nos braços dolorosos da CRUZ.
— SALVE, ó CRUZ, esperança única!
— SALVE, verdadeira árvore da liberdade!
— SALVE, manancial de salvação e de GRAÇA!

Baixa do Meio, 10 de dezembro de 1878.

S.”

¹ O nome desse frade é Vitale de Frescarolo. Andou pelos sertões do Ceará, Pernambuco e outros Estados entre 1781 e 1820, onde ficou conhecido pelo nome de Frei Vidal da Penha (alusão ao convento da Penha, no Recife).

Igreja de Santa Cruz do Deserto. Fonte: Google Maps.

terça-feira, setembro 16

16 DE SETEMBRO

Por Etevaldo Amorim 

Quem não se lembra, com saudade, dos desfiles de 16 de setembro em Pão de Açúcar?

Não sei por que razão, mas Pão de Açúcar sempre preferiu comemorar com mais ênfase a Emancipação Política de Alagoas. No 7 de setembro, apenas uma representação das escolas, um hastear de bandeiras, e só.

Depois de longos dias de ensaios, lá íamos nós, formados em pelotões, a desfilar, sob um sol escaldante, pelas ruas e avenidas de uma das cidades mais quentes do Brasil.

Os ensaios no Ginásio D. Antônio Brandão eram longos e carregados de tensão. Afinal, tudo tinha que estar perfeito no dia do desfile. O maestro da banda marcial – Zé Braz, ensinava os toques de comando para os movimentos da “tropa”. Dois toques: girar para a direita; três toques: girar para a esquerda. Vez por outra, alguém errava. E o diretor, Dr. Átila, corrigindo o deslize, bradava:

— DOIS É DIREITA MOÇA!!!!!

Todas as escolas se empenhavam ao máximo para fazer melhor. Além da formação clássica, com pelotões de alunos vestindo uniforme de gala, havia também os chamados “esportes”, pelotões temáticos, alusivos ou não à data cívica, mas que davam um tom de beleza e graciosidade. Em 1969, ficou particularmente famosa a alegoria à conquista da lua, com a nave Apolo 11. Famosos também ficaram os “Cavalos do Rosália”, pela entusiástica narração do vereador Pedro Lúcio que, do alto do Coreto, anunciava a aproximação dos grupos escolares, do ginásio e do colégio das freiras.

Ao escurecer, depois de voltas e mais voltas pela extensa Avenida Bráulio Cavalcante, todos se reuniam em torno do Coreto em frente à Matriz. Após o hasteamento das bandeiras, já de noite, as autoridades se esmeravam em discursos intermináveis, de improviso ou não, neste caso correndo o risco de iniciá-los com uma referência descabida a um “sol causticante”, que de há muito já desaparecera por detrás do Cavalete.

Ficaram, no entanto, as citações famosas, como aquela de Castro Alves, que nos ensinava que “a praça é do povo como o céu é do condor”.





domingo, agosto 17

SATUBA — 40 ANOS

A foto acima faz, hoje, quarenta anos. Ela mostra parte da Turma 1973/1975 do Colégio Agrícola Floriano Peixoto. Era 17 de agosto de 1974. Para comemorar a Emancipação Política de Satuba, uma representação do Colégio participava do desfile pelas ruas da cidade, sob a orientação do professor de Educação Física, José Carlos Lyra de Andrade. A indumentária já demonstra isso, pois diferia do tradicional uniforme de caqui com que frequentávamos as aulas todos os dias. Com esta publicação, homenageio os catorze colegas que aparecem na foto, e também os demais, que compunham as três turmas que acabariam por se tornar Técnicos Agrícolas no ano seguinte. A homenagem, infelizmente póstuma, ao colega Antônio Bezerra Brandão, falecido em desastre de avião agrícola, em 2010. Seus nomes aparecem no rodapé, acompanhados da cidade de origem.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia